terça-feira, 31 de outubro de 2017

BD pioneira: "Tintin no país dos sovietes"


A banda desenhada (BD) foi também uma revolução. Não é fácil situar o seu começo, mas há quem diga que foi em 1929. O livro de Hergé era, na Europa, o primeiro de uma história contada apenas com imagens e de diálogos contidos em filacteras. Era contra-revolucionário no conteúdo, mas revolucionava o modo de contar histórias em papel.

A encomenda foi feita pelo abade Norbert Wallez ao desenhador Georges Remi. Wallez era o editor do jornal belga Le Vingtième Siècle e Remi, que se tornou famoso com o pseudónimo Hergé, entrara como editor do suplemento juvenil Petit Vingtième.

O autor nunca esteve na Rússia nem na URSS, e baseou toda a sua narrativa numa única obra, Moscou sans voiles, de Joseph Douillet.

A ideia de Wallez era uma história que mostrasse os malefícios do comunismo, bem na linha ideológica do jornal, simpatizante confesso do fascismo italiano.

O abade, admirador de Mussolini, tinha sobre a mesa de trabalho uma fotografia deste, assinada pelo punho do próprio Duce. O jornal, claramente alinhado, contava entre os seus correspondentes no estrangeiro um certo Léon Degrelle, líder do fascismo belga, também designado como rexismo.

Hergé não encontrou na altura objecções, e fez do livro Tintin no país dos sovietes o primeiro da série As aventuras de Tintin. Vários outros livros subsequentes cantaram sucessivamente os benefícios do colonialismo belga (Tintin no Congo) ou da civilização norte-americana (Tintin nos Estados Unidos), naquilo que para vários críticos era uma linha consistente de propaganda conservadora dirigida a públicos infantis.

A linha mussoliniana e rexista não agradavam inteiramente aos nazis e a ocupação alemã proibiu o jornal do abade. Em seu lugar criou-se um outro, Le Soir, em que Hergé encontrou colocação e trabalho.

Foi nessa época de ocupação que uma empresa alemã tentou negociar com Hergé os direitos de Tintin no país dos sovietes, para utilizar o livro como propaganda anti-soviética. Mas Hergé recusou a proposta.

No fim da Segunda Guerra Mundial, a sobrevivência do jornal Le Soir sob a censura alemã tornou-o suspeito de colaboracionismo e, com ele, Hergé. O cartoonista não foi alvo de nenhum processo, mas sim de várias acusações por esse motivo.

Com o tempo, e não muito, Hergé pôde mesmo ultrapassar o mau nome que lhe deram as acusações. Logo em 1946 fundou ele próprio uma revista de BD, com o nome Tintin, alimentando-se de histórias já publicadas do herói juvenil e do seu cão, Milou, e de outras criadas entretanto.

Hergé renegou entretanto o seu Tintin no país dos sovietes, pelo conteúdo ideológico agressivamente contra-revolucionário, e também pelo carácter primitivo da narrativa, que agrega uma série de episódios avulsos, sem verdadeiro enredo e sem outro fio condutor que não seja a reportagem supostamente encomendada a Tintin por Le Vingtième Siècle.

Esse foi também o motivo pelo qual a história permaneceu sempre a preto e branco, sem ter qualquer nova versão colorida -  até muito depois da morte do autor.

Mas, para uma arqueologia da BD, o livro continua a ser um ponto de referência. Publicado entre 10 de Janeiro de 1929 e 8 de Maio de 1930, ele foi logo republicado a partir de Outubro de 1930 pela revista francesa Cœurs Vaillants. Esgotou-se rapidamente e foi objecto de várias reedições, todas piratas. Só voltou a ter uma reedição legal em 1973, e só neste ano de 2017 o foi, pela primeira vez, em versão colorida.

Entre as cenas emblemáticas, que foram reproduzidas vezes sem conta, está a de uma delegação de comunistas ingleses a quem é mostrada uma área industrial, cheia de actividade atestada pelas suas numerosas chaminés fumegantes. Tintin desconfia que alguma coisa não bate certo e vai investigar mais de perto. Descobre então que há um funcionário encarregado de queimar palha na base das chaminés - a velha tradição russa das "aldeias de Potemkine", todas elas cenário, enfeitado para receber dignitários vindos da capital e para enganá-los com as aparências.

Do mesmo modo, celebrizou-se a cena de uma eleição, de braço no ar, com três listas concorrentes. O comissário que conduz a eleição pergunta se alguém se opõe à lista comunista e, perante o silêncio da assembleia, proclama-a vencedora da eleição, por unanimidade.



Para além da simplificação primitiva em que se baseiam vários episódios do livro, Hergé inovou profundamente a técnica de ilustração, baseando-se na vanguarda da época, a quem aliás sempre prestou tributo. Entre as influências que recolheu conta-se a do cartonista francês Alain Saint-Ogan, ou em geral a da BD norte-americana, atentamente observada pelo próprio Léon Degrelle.

Entre os truques de marketing que o abade Wallez concebeu para explorar o êxito da série, e para potenciá-lo ainda mais, conta-se uma carta fictícia da GPU, o serviço secreto soviético, ameaçando o jornal de que, se não interrompesse a publicação "destes ataques contra os sovietes e contra o proletariado revolucionário da Rússia, encontrará a morte muito em breve".

sábado, 28 de outubro de 2017

Figuras de Tintin #45: Milu com o escafandro lunar

Nesta entrega a figura seleccionada é novamente o inseparável amigo de TintinMilou, que acompanha o herói em todas as suas aventuras, inclusive na ida ao Lua. A referência da miniatura encontra-se na vinheta C4 da prancha 37 do episódio "Explorando a Lua".

Figuras de Tintin #45: Milu com o escafandro lunar, Moulinsart com distribuição pela Altaya, livro de 16 pp.+estatueta+passaporte, 12,99€


sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A última grande ilustração de Hergé vai a leilão




É a última grande tira do criador de Tintin, Hergé, e vai a leilão este sábado, em Liège. É a única cópia da obra e espera-se que o par de desenhos - que medem 85 cm por 3,5 cm e 95 cm por 3,5 cm - possam render mais de 50 mil euros. Georges Remi (1907-1983), que o mundo conhece pelo pseudónimo Hergé, fez a ilustração - onde incluía Tintin, o cão Milou, o Capitão Haddock e uma série de personagens que ficaram para a história - como parte de um estudo para o mural da estação de metro Stockel, em Bruxelas, que seria concluído em 1988, já depois da morte do artista. A obra havia sido deixada no estúdio de Hergé e mais tarde foi entregue a um trabalhador do metro que participou na construção do mural, que levou a obra para casa e a pendurou no quarto dos netos. O valor da ilustração só foi descoberto após a morte do dono, quando a sua filha o vendeu à leiloeira. Em 2014, uma prancha original de Hergé bateu o recorde mundial para venda de banda desenhada: 2,6 milhões de euros.

sábado, 7 de outubro de 2017

Figuras de Tintin #53 - Zorrino aponta para os lamas

Durante a Primavera de 1947, Tintin encontra Zorrino pela primeira vez nas ruas de Jauga, uma povoação cujo nome faz lembrar a de Jaula, a cidade peruana que o conquistador Francisco Pizarro transformou na capital provisória em 1534. O jovem índio é um vendedor de laranjas. Após ter sido socorrido por Tintin na luta contra dois brutamontes, Zorrino decide ajudá-lo na busca por Girassol.

Na imagem desta estatueta, Zorrino, com o chullo bem enterrado na cabeça, aponta com o dedo a esperança, uma esperança que depressa se esvanece na espessa neve dos cumes peruanos. No entanto, o pequeno índio, vestido com um belo poncho, não se deixa abater e conduz Tintin e o capitão Haddock ao templo dos seus antepassados. 

Zorrino faz lembrar Tchang, o guia de Tintin nas montanhas chinesas.

A referência da figura da estatueta encontra-se na vinheta B3 da prancha 32 do episódio "O templo do  Sol".

Figuras de Tintin #53 - Zorrino aponta para os lamas, Moulinsart com distribuição portuguesa pela Altaya, livro de 16 pp.+passaporte+estatueta, 12,99€



sábado, 23 de setembro de 2017

Figuras de Tintin #38 - Rastapopoulos com pingalim

Maléfico, pérfido e colérico, são os adjectivos que melhor identificam Rastatopoulos, um do inimigos jurados de Tintin. Roberto Rastapopoulos é o rei das conspirações e das artimanhas. Seja como riquíssimo homem de negócios, produtor de cinema ou falsificador, faz sempre gala de uma grande arrogância, própria de um fanfarrão. Mas quando se apresenta diante Tintin com o seu traje de cowboy todo janota, cai a máscara ao impostor e vemos que não é mais que um patético burlão de feira.

Rastapopoulos aparece oficialmente pela primeira vez nas aventuras de Tintin nos "Charutos do faraó" e desaparece misteriosamente após "rapto" por eventuais extraterrestres no "Voo 714 para Sidney".

A referência da figura desta entrega encontra-se na vinheta B1 da prancha 19 do episódio "Voo 714 para Sidney". 

Figuras de Tintin #38 - Rastapopoulos com pingalim, livro+figura+passaporte, Moulinsart com distribuição em Portugal pela Altaya, 12,99€


Lembra-se de Tintin? Filósofo diz que é uma rapariga


Georges Prosper Remi, mais conhecido por Hergé, foi o criador da história de banda desenhada chamada ‘As Aventuras de Tintin’.

Nascido em 1929, Tintin é um jovem jornalista curioso que acaba sempre por se ver envolvido em grandes investigações e, pese embora a sua idade, apresenta uma grande maturidade para a fase da vida em que se encontra.

A imagem de marca do jovem jornalista é a sua popa no cabelo e, claro, o seu cão que anda sempre consigo e que o ajuda nas investigações, o fox terrier chamado Milou.

Tintin é conhecido de várias gerações, mas agora um filósofo francês vem mudar a percepção que miúdos e graúdos têm do jovem repórter.

Numa publicação feita na sua página do Facebook, Vincent Cespedes – que além de filósofo é pintor, pianista, compositor e autor de vários ensaios sobre os mais variados temas – garante que, para Hergé, Tintin “sempre foi uma rapariga”.

Uma ruiva, andrógina, de olhos azuis e verdadeiramente assexuada”, escreve o filósofo, acrescentando que a “farsa” está tão bem montada que os maiores fãs da personagem de banda desenhada, entre os quais se encontram o “filósofo Jean-Luc Marion e o realizador Steven Spielberg, ainda não a detectaram”.

Em declarações à edição francesa do portal Huffington Post, o filósofo admite que são muito poucas as pistas físicas que a personagem dá aos leitores. Todavia, certos “maneirismos” e o “longo historial de lidar com questões de género” provam que a personagem é feminina.

in Notícias ao Minuto