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sábado, 25 de fevereiro de 2012

Tintin e os polícias.

Neste Natal, ao folhear*, numa casa de familiares, a edição portuguesa (pós-25 de abril) do álbum "Tintin na América", recordei o facto de um dia me ter dado conta de que a primeira aparição da história em Portugal havia sido objeto de uma discreta intervenção da censura. Já aqui havia falado do assunto, mas só agora posso documentar esse ridículo ato censório.

Hoje, dei-me ao cuidado de procurar, na coleção completa do "Cavaleiro Andante" (1952-1962), de que sou feliz proprietário, e lá fui encontrar, no nº 210, de Janeiro de 1956, a primeira imagem dessa história**. Olhem para ela:



O Estado Novo, na sua cuidadosa preservação das figuras da autoridade, entendeu não dever permitir que um polícia pudesse ser apresentado a fazer a continência a um gangster.

O "Cavaleiro Andante" optou também por uma tradução livre do texto original francês, que - já agora! - assim reza: "À Chicago, où règnent en maîtres les bandits de toutes espèces, un soir..." Talvez tivesse sido ponderada a necessidade de remeter para um prudente e bem qualificado passado essas mesmas aventuras. Não fosse dar-se o caso de, em 1952, alguém ter a veleidade de pensar que, noutras partes do mundo, pudesse haver "bandits de toutes espèces" a reinarem sob a proteção de polícias...

* Eu havia escrito "desfolhar", o que era um enormíssimo erro. Um leitor atento corrigiu-me, o que agradeço.

**Para os mais curiosos e conhecedores da obra de Hergé, noto que a história tal como publicada no "Cavaleiro Andante" é claramente baseada na primeira edição do "Tintin en Amérique", que surgiu na revista belga "Le Petit Vingtième", em 1931, o que justifica a total diferença na coloração (a versão original era a preto-e-branco), para além de bizarros pormenores de "publicamente correto" que não vêm para o caso...



10 comentários:
Anônimo disse...
Enfim...
Se os Referidos lessem a psicanálise dos contos de fadas talvez percebessem a importância para os espíritos infantis independentemente da idade cronológica, que é fundamental para manter o entusiasmo pela história contada uma peculiar irreverência. Ah, independentemente da idade mental, do leitor claro!

Aliás isso vê-se, sente-se. ora vejam... Lá se vêem.

Isabel seixas

10 de janeiro de 2011 00:59
César Ramos disse...
(...) na verdade, até a B.D. - 9ªArte - sofreu a pressão dos poderes políticos, tal qual agora, de forma recorrente, se volta a falar da hipótese de a Justiça belga proibir(!?) o álbum "Tintin no Congo", sob o argumento de que o livro é racista.

[lá vai o livro subir na cotação do mercado livreiro clandestino]

Hergé era ainda vivo, quando foi entrevistado acerca destes conceitos, tanto sobre o "Tintin no Congo", como s/o alegado "anti-comunismo primário" no "Tintin au Pays des Soviets".

Se a Bélgica pudesse fazer alguma auto-crítica, pensaria que, enquanto colonizadora, desviou muitas riquezas do solo congolês, mas nunca lá pregou um prego!

Agora, Hergé é que tem os defeitos da falta de ética!

Parabéns... pela colecção do "Cavaleiro Andante"; é uma bela raridade!

Peço desculpa pelo tempo perdido e o espaço que lhe tomei.

Cumprimentos,
César Ramos

10 de janeiro de 2011 03:32
Alcipe disse...
Eu poderia invejar muitas coisas ao meu amigo Francisco, mas sucede que não sou um invejoso e muito menos dos meus verdadeiros amigos. Agora a colecção do "Cavaleiro Andante" com as primeiras versões em português do Tim Tim (o capitão Rosa; o professor Girassol) essa eu confesso : invejo-a furiosamente!

(Sei que tenho que arranjar um bom álibi se essa colecção algum dia for roubada)

10 de janeiro de 2011 12:23
Francisco Seixas da Costa disse...
... e encadernada a preceito, caro Alcipe!

10 de janeiro de 2011 13:45
Carlos disse...
Parabéns pela notável observação desse pormenor numa história do nosso saudoso Tintin. Só lhe pedia encarecidamente o favor de não DESFOLHAR essas obras tão preciosas. FOLHEIE-AS com a devida cautela, porque são realmente preciosas.
Com o meu agradecimento pelos belíssimos textos com que me presenteia, desejo-lhe paz e bem para si e para todos os seus.

10 de janeiro de 2011 16:11
Santiago Macias disse...
Fantástico!
Não fazia ideia que as "intromissões" chegavam a esse ponto, ao mesmo tempo revelador e caricato. A História tem desses exemplos em abundância, e nem sequer falo das célebres maquilhagens fotográficas do regime soviético.
Uma vez, numa exposição de arqueologia num país da América Latina, mostrei ao embaixador português uma lápide em árabe, onde o nome do emir caído em desgraça tinha sido cuidadosamente rasurado.

10 de janeiro de 2011 19:42
Francisco Seixas da Costa disse...
Caro Santiago Macias: ou muito me engano ou conheço bem esse embaixador e esse país.

10 de janeiro de 2011 20:17
A.Teixeira disse...
Suponho que será pertinente notar que, 16 anos depois, o mesmo Estado Novo permitiu a publicação da imagem original (com o polícia cumprimentando o ladrão) no nº32 do 4º Ano da revista Tintin, qur foi publicada a 1 de Janeiro de 1972.

Terão sido os efeitos da "Primavera Marcelista"?...

11 de janeiro de 2011 18:06
Francisco Seixas da Costa disse...
Caro A. Teixeira: Excelente nota!

11 de janeiro de 2011 20:12
Funes, o memorioso disse...
Muito interessante esta nota. Mas importa estar consciente que esta necessidade de ocultar o politicamente incorrecto não foi um exclusivo do Estado Novo. Hoje mesmo, um bando de cretinos está a editar nos EUA o clássico «Huckleberry Finn», de Mark Twain, omitindo na obra a palavra "nigger" que aparece mais de duzentas vezes no original. 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Tintin em liberdade

O professor universitário e antigo ministro, Rui Pereira, publicou no jornal «Correio de Manhã» de ontem um artigo de opinião sobre o acórdão do tribunal de Bruxelas referente ao episódio «Tintin no Congo».


O cidadão congolês Bienvenu Mbutu Mondondo dedica-se, desde 2007, a uma empresa singular: conseguir que o álbum ‘Tintim no Congo’, de Hergé, seja ilegalizado. Assim, intentou num tribunal belga uma acção em que acusa a banda desenhada de racismo, por, nas palavras do seu advogado, "fazer a apologia da colonização e defender a supremacia da raça branca sobre a raça negra". Felizmente, o bom senso prevaleceu, e o tribunal julgou improcedente o pedido, frisando que é necessário ter em conta o contexto histórico da publicação e a intenção do autor.


Acompanho, desde os meus seis anos, as aventuras do célebre repórter e viajante, que constituem uma das pérolas da banda desenhada, e, em particular, da escola franco-belga. ‘Tintim no Congo’ não é, garantidamente, o melhor Hergé, perdendo na comparação com álbuns como ‘O lótus azul, ‘A orelha quebrada’, ‘O segredo do Licorne’ ou ‘O Templo do Sol’. Porém, a pretensão de ilegalizar um livro ingénuo, que difunde o estereótipo rousseauniano do ‘bom selvagem’, é, para além de ridícula, algo assustadora, pelo seu cunho intolerante e censório.


É bem conhecida a tentação ‘revisionista’ de condicionar não apenas a arte futura mas também a arte do passado, podando-a dos aspectos ‘incorrectos’. Morris foi obrigado a substituir o cigarro de Lucky Luke por uma palha ao canto da boca, em nome do antitabagismo, e não me espantaria que, por obra de efeitos especiais, Humphrey Bogart aparecesse um dia destes a cortejar Ingrid Bergman de chupa-chupa na mão. Com a legitimidade de quem abandonou quatro maços de tabaco diários há mais de dez anos, dispenso uma tal ‘actualização’ artística.


Perante todas estas investidas contra a liberdade de expressão e de criação artística, devemos recordar uma lição importante. A luta contra o racismo e a xenofobia envolve medidas políticas de natureza variada, que não se confinam ao plano penal e mesmo jurídico em geral. Porém, só o incitamento intencional à discriminação pode legitimar restrições à liberdade ou a criação de crimes. É esse o sentido da Decisão-quadro de 28 de Novembro de 2008 do Conselho da União Europeia e também do artigo 240º do Código Penal, na versão dada pela reforma de 1998.


http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/opiniao/rui-pereira/tintim-em-liberdade

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Tribunal belga decidiu que Hergé não era racista e “Tintin no Congo” continuará nas livrarias

Acusar Hergé de racismo sem ter em conta o contexto histórico em que foi publicada a aventura “Tintin no Congo” é absurdo. Foi este, em substância, o entendimento da justiça belga na acção colocada por Bienvenu Mbutu Mondondo, um cidadão da República Democrática do Congo a residir na Bélgica que pedia a retirada do mercado daquela banda desenhada.O tribunal considerou que a pretensão do queixoso só podia ser aceite se fosse feita prova de que aquela obra de Hergé tinha “uma intenção discriminatória”. “Tendo em conta o contexto da época, Hergé não podia estar animado de uma tal vontade”, considera a sentença. 

O advogado da Casterman (editor franco-belga de Tintin) e da Moulinsart (detentora dos direitos da obra do artista belga) saudou a sentença dos juízes. “É uma decisão sã e plena de bom senso, segundo a qual é necessário olhar para uma obra no seu contexto e compará-la com as informações e ‘clichés’ da sua época”, afirmou Alain Berenboom. “É a época da ‘revista negra’ de Josephine Baker e da exposição colonial de Paris. Hergé está sintonizado com o seu tempo, não há racismo, mas um paternalismo amável.”

Desde 2007 que Mbutu Mondondo está empenhado em conseguir que a aventura “Tintin no Congo” seja proibida ou, pelo menos, seja incluído um texto introdutório que explique o contexto cultural da época em que foi publicada, nos anos 30 do século passado. É isto o que acontece no Reino Unido desde 1991, com o álbum a ser arrumado nas livrarias nas secções para adultos e não na área infanto-juvenil.

A acusação defende que Hergé apresentou o homem negro como “preguiçoso, dócil ou idiota” e, para cúmulo, “incapaz de se exprimir num francês correcto”. Segundo Ahmed L’Hedim, advogado de Mondondo, “é uma banda desenhada racista, que faz a apologia da colonização e da superioridade da raça branca sobre a raça negra”. “Ponham-se no lugar de uma menina negra de sete anos que descobre ‘Tintin no Congo’ com os seus colegas de classe.” Esta campanha contra a segunda aventura de Tintin – e também a que tem um enredo mais controverso, quando lida à luz do nosso tempo – tem merecido regularmente destaque nos média, onde detractores e defensores de Hergé esgrimem argumentos. No passado mês de Novembro, Valery de Theux de Meylandt, procurador do rei belga, tornou pública a sua posição sobre o assunto, considerando que aquela aventura não tinha nada de racista. Para o advogado de Mondondo, pelo contrário, é “claro que os estereótipos que figuram neste livro lido por um número considerável de crianças, têm consequências no seu comportamento actual”. E concluí: “O racismo encontra o seu ponto de apoio neste género de estereótipos”.

Imagem caricatural faz rir... os negros

Em Outubro de 2010, o então ministro congolês da Cultura defendeu a perspectiva veiculada por Hergé nesta aventura: “Quando o livro foi escrito, os congoleses não sabiam de facto falar francês. Na época descrita na obra era efectivamente preciso usar o bastão para pôr os congoleses a trabalhar ou mais simplesmente para os impelir ao trabalho.” Daniel Couveur, jornalista do diário belga “Le Soir”, é autor de um livro sobre o tema (“Tintin au Congo de Papa”) no qual propõe a introdução nos álbuns de uma advertência sobre as circunstâncias e contexto que a tornaram possível aquela aventura, sublinhando ao mesmo tempo o seu valor pedagógico. Cita o que foi publicado em 1969 pela revista “Zaire”: “Há uma coisa que os brancos que suspenderam a circulação de ‘Tintin no Congo’ não compreenderam (...) Se certas imagens caricaturais do povo congolês (...) provocam um sorriso dos brancos, elas fazem rir abertamente os locais, porque os congoleses encontram aí matéria para fazer pouco do homem branco ‘que os via daquela maneira’!” Quem não encontrou motivo para rir em todo este processo foi o Conselho Representativo das Associações Negras em França. Louis-Georges Tin, o seu presidente, diz que a questão central é a de saber se “Tintin no Congo” difunde ou não uma mensagem racista ainda hoje, o que é dificilmente contestável”: “A partir deste julgamento, qualquer um pode afirmar que não é racista, anti-semita, sexista ou homofóbico escudando-se atrás do ‘contexto de época’”. Os advogados de defesa contra-argumentam: “Sim, a liberdade de expressão pode ser limitada e o racismo pode ser um fundamento dessa medida, mas nesse caso é preciso poder explicar por que se torna necessário proibir esta publicação para bem da nossa sociedade. Ora, nada disso ficou demonstrado.”

Carlos Pessoa in Público

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Pastiche de Richard Câmara


O artista Richard Câmara publicou no seu blog http://richardcamara.blogspot.com/2012/02/ilustrando_05.html um pastiche ao capitão Haddock.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Castelo Branco

Na Direcção Regional do Centro / IPJ de Castelo Branco

Exposição de Banda Desenhada

“AS AVENTURAS DE TINTIN ”

Está patente no IPJ de Castelo Branco, até ao dia 15 de Fevereiro, uma exposição de Banda Desenhada denominada “AS AVENTURAS DE TINTIN”, uma produção do GICAV (Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu

TINTIN

“Hergé, pseudónimo de George Remi, nasce no dia 22 de Maio de 1907, em Etterbeek (Bélgica).

Desde muito cedo revela alguma vocação para o desenho, tendo publicado a sua primeira banda desenhada na revista Le Boy-Scout Belge, intitulada Les Aventures de Totor, C.P. dês Hannetons.

Em 1925, concluídos os estudos, começou a trabalhar no jornal diário belga Le Vingtième Siècle, que passará a incluir, a partir de 1 de Novembro de 1928, o suplemento juvenil Le Petit Vingtième, que publica a banda desenhada Les Aventures de Flup, Nénesse, Poussette et Cochonet, desenhada pelo jovem Hergé.

No dia 10 de Janeiro de 1929, no número 11 do Le Petit Vingtième começa a publicar-se Tintin no País dos Sovietes, a primeira aventura de Tintin e Milou, a que se seguirão outras 22, durante quase meio século.

Hergé morre no dia 3 de Março de 1983 deixando incompleto Tintin e a Alpha Arte, o 24° álbum de uma obra que fez sonhar milhões de adolescentes em todo o mundo.

Numa época em que o acesso à informação era limitado, foi com Tintin e os seus inconfundíveis companheiros que começámos a descobrir o mundo. Foi com Tintin que fomos ao Congo e aos EUA, ao Médio Oriente ou à China. Aos Andes, à Escócia e ao Tibete.

Foi Tintin que nos levou à Bordúria e à Sildávia, nos Balcãs e à sul-americana República de San Theodoros, que muitos procurámos encontrar nos mapas, sem sucesso.

Enebriados por um desenho eficaz, linear e com cores planas e vivas, ao serviço de argumentos progressivamente mais consistentes, conhecemos Chicago, Port Said, Bombaim, Petra, Xangai, Genéve, Katmandu ou as fictícias Klow e Los Dopicos.

E foi com Tintin que fomos à Lua, no início da década de 50, muito antes da viagem pioneira de Neil Armstrong”.

Para informações complementares os interessados poderão contactar o IPJ de C. Branco: tel. – 272 348 000 / email: ipj.cbranco@ipj.pt.

Anim'arte