Páginas
sexta-feira, 27 de agosto de 2021
terça-feira, 24 de agosto de 2021
Manuel António Pina
Interessante artigo de Manuel António Pina, em que se apresenta como esclarecido tintinófilo, fazendo a análise, entre outras coisas, das duas edições do episódio de Tintin no Congo que conhece.
in suplemento/revista do Jornal de Notícias, Notícias Magazine, 20 Set.09
http://fanzinesdebandadesenhada.blogspot.com/2009/10/folha-volante-n-239-outubro-2009.html
Ectoplasmas! Analfabetos! Cretinos dos Andes!
Hei-de ter por aí, perdidas nas estantes, duas diferentes edições de Tintin no Congo, uma em que Tintin, numa escola repleta de «pretinhos», diante de um mapa, lhes diz algo do género: «Agora vou falar-vos da vossa Pátria, a Bélgica» e uma outra em que o mapa se transformou numa lousa e Tintin está a dar uma aula de... Matemática.
Hergé redesenhou e reescreveu muitos dos seus álbuns, principalmente os primeiros. Assim aconteceu com a versão a cores de 1946 de Tintin no Congo (o seu segundo álbum, editado em 1931, depois de Tintin no País dos Sovietes), que foi completamente redesenhada, bem como expurgada de muitos dos preconceitos culturais da edição original. O próprio Hergé reconheceria que, como «Tintin no País dos Sovietes, Tintin no Congo estava cheio dos preconceitos do meio em que eu vivia em 1930», insistindo para que a obra fosse lida «no seu contexto histórico».
Só que as brigadas policiescas do politicamente correcto não são dadas à História e, sobretudo, confiam pouco na inteligência crítica dos leitores. Há dois anos, a British Commission on Racial Equality tentou que Tintin no Congo fosse proibido na Grã-Bretanha e, recentemente, em Bruxelas, um indivíduo ameaçou proceder judicialmente contra os gestores dos direitos de Hergé por ser uma obra «colonialista» (só quem nunca leu O Lótus Azul poderia acusar Tintin de colonialista»). Agora, em Nova Iorque, a Biblioteca de Brooklyn, pressionada, decidiu pura e simplesmente, retirar Tintin no Congo das prateleiras.
Ao longo de noites intermináveis, metido debaixo dos cobertores com uma lanterna para que meus pais não se apercebessem de que não estava a dormir, fui com Tintin à Lua e aos confins dos Andes, subi aos Himalaias e desci ao fundo dos mares, atravessei desertos e tempestades, enfrentei gangsters de Chicago e ditadores sul-americanos, persegui assassinos, e traficantes, falsificadores, desmascarei traidores e corruptos, naufraguei, fui preso, condenado à morte, e defendi fracos e oprimidos em todo o mundo, muçulmanos, negros, camponeses chineses, indios norte-americanos. É por isso que, vendo Tintin censurado, me apetece, co-mo o Capitão Haddock, praguejar: «Selvagens! Ectoplasmas! Tratantes! Analfabetos!»
Porque, a seguir, virão as mulheres a acusar Tintin de «sexista» e «misógino» por causa da Castafiore, e depois os gregos de «xenofobia» por causa de Rastapopoulos (ou até os bordúrios, quem quer que sejam, por causa do infame Mustler); e os médicos alemães por causa de J. W. Muller; os judeus por causa de Blumenstein (ou Bohlwinkel); os defensores dos animais pelas chocantes cenas de caça de Tintin no Congo...
Vivemos tempos negros (adjectivo politicamente incor-recto), em que os mais absurdos crimes contra a liberdade são, como sempre, justificados com os melhores propósitos. Um dia ainda veremos a mesma malta que conseguiu agora a censura de Tintin no Congo exigir quotas de mulheres, negros, ciganos, deficientes, homossexuais, esquimós e mais todas as dispersas minorias, na BD e na literatura em geral.
Manuel António Pina, Notícias Magazine, 20/09/2009
Artigo do jornalista Manuel António Pina in suplemento revista do Jornal de Notícias, Notícias Magazine - 20 Set. 09
folha volante – n° 239 – 6 Outubro 2009 – fanzine aperiódico - tiragem 100 ex.
distribuição gratuita na Tertúlia BD de Lisboa
editor: geraldes lino - apartado 50273 - 1707-001 Lisboa.
Tintin octogenário
Foi a 10 de Janeiro de 1929 que o "Le petit Vingtième" publicou a primeira prancha de Tintin, dando início a uma aventura cuja actualidade, 80 anos depois, se faz cada vez mais distante da BD.
Nessa primeira prancha, a preto e branco, tal como as oito aventuras que se lhe seguiram, mais tarde redesenhadas a cores, Tintin partia de comboio para o País dos Sovietes, onde escreveria a sua primeira e única reportagem. Era um início marcado pela ingenuidade e pelo desenvolver do argumento ao correr dos desenhos, mas onde Hergé já revelava as qualidades - legibilidade, domínio da planificação, dinamismo do traço, construção da trama - que fariam dele um dos nomes maiores da 9ª arte.
Depois da Rússia, retratada de forma crítica e parcial, por influência do director do jornal católico que o publicou, Hergé levaria o seu herói a África e aos Estados Unidos, à América do Sul, um pouco por toda a Europa e mesmo à Lua, 20 anos antes de Armstrong. Com Tintin, construiu uma obra equilibrada e deslumbrante, traçada num primoroso estilo linha clara, tendo por principais vectores a aventura, a amizade, a lealdade e o sentido de justiça.
E que hoje em dia permanece perfeitamente legível - e inalterada devido à vontade expressa nesse sentido por Hergé - e na qual se encontram algumas obras-primas da BD. Mas que, nalguns casos, necessita de ser lida e interpretada à luz da época e do contexto em que foi criada, para evitar acusações ridículas e ignorantes como "racista", "defensor de maus tratos aos animais" ou "colaboracionista", que regularmente são feitas a Hergé, quase sempre por gentinha em bicos-de-pés em busca de 15 minutos de (triste) fama à sombra de Tintin. O caso mais recente veio esta semana à luz nas páginas do respeitável "The Times", num artigo (risível) de Matthew Parris, antigo deputado britânico, intitulado "Claro que Tintin é gay. Perguntem a Milu", de imediato desmontado por estudiosos e defensores da obra de Hergé.
Pedro Cleto, Jornal de Notícias, 10/01/2009
(...)
É também incrível que um crítico defenda explicitamente a alienação tornando-se cúmplice desta autêntica doutrinação encapuçada. Pedro Cleto é, aliás, useiro e vezeiro neste tipo de branqueamento (caso do racista Hergé, na primeira fase da sua carreira: Jornal de Notícias, 10 de Janeiro). Idem Manuel António Pina (Notícias Magazine, 20 de Setembro): o autor argumenta que se deve fazer uma contextualização histórica da atitude de Hergé; de acordo: havia muitos racistas e Hergé era um deles – está feita... (Já que ando por estas bandas corrijo o seguinte: J. W. Müller não foi inspirado em ninguém de nacionalidade alemã; o nome J. W. Müller foi inspirado no bem português Adolfo Simões Müller.)
quinta-feira, 19 de agosto de 2021
Rafael Sales
"Se os heróis da BD fossem portugueses" (R'Sales - 2016)
Este projecto tem por base a questão "E se os heróis da BD fossem portugueses?"
Assim, peguei em algumas das personagens mais conhecidas da BD, principalmente super-heróis mais mainstream como é o caso do Superman ou Spider Man, e adaptei-as aos trajes e profissões tipicamente portugueses (pela simples razão de ser essa a minha nacionalidade).
O conceito surge da tentativa de recriar as personagens e atribuir-lhes novas personalidades, onde o verdadeiro vilão é o trabalho árduo e o dia-a-dia.
Personagens utilizadas (por ordem):
Superman - Wonder Woman - Batman - Spider Man - Thor - Tintin
segunda-feira, 16 de agosto de 2021
Sérgio Luiz
Com 2/3 anos de idade já se mostrava interessado pelas revistas, recortando toda a qualidade de figuras que nelas via retratadas. Isto serviu-lhe de ajuda futuramente, pois que recortando as silhuetas que se lhe ofereciam aos seus olhos, permitiram, em pouco tempo e ao longo da sua curta vida, poder executar os seus trabalhos de desenho, já com uma certa qualidade estética.
Aos 4 anos de idade pintava aguarelas, que a sua mãe, hoje com 80 anos, conserva preciosamente. Notam-se nelas um certo movimento e a concepção da cor é notável para a idade. O tema é a pesca na Nazaré, numa altura em que seus pais passaram umas férias naquela praia.
Em Leiria onde residiam, Sérgio iniciou os seus estudos normais até à 4.ª classe e mais tarde o liceu. Aos 13 anos adoece, com uma doença que só mais tarde se detectou como tuberculose renal. Naquele tempo a medicina não possuía os recursos de hoje, pelo que foi uma vida de sofrimento que o esperava. Embora doente, conseguiu fazer o 6.º ano do liceu (naquele tempo só havia em Leiria o 6.º), com a média de 16 valores. Era o melhor aluno do liceu. Ir para engenharia era o seu sonho.
No liceu chegou a fazer conferências sobre a Arte, a convite dos professores e nelas deu já mostras da sua excelente qualidade de escritor, além de desenhador, pois elas eram acompanhadas de ilustrações que executava num quadro, para completa elucidação dos presentes.
Na altura em que acabou o liceu em Leiria, tinha 16 anos de idade e a sua saúde não era a melhor. A doença continuava a miná-lo. Teve que aguardar que seu irmão mais novo, o Guy, na altura no 5.º ano do liceu, acabasse os seus estudos, para que então toda a família pudesse vir para Lisboa. O Sérgio para continuar o seu tratamento, já que o médico o tinha proibido de prosseguir seus estudos e o Guy, precisamente para acabar o 7.º ano do Liceu.
Ainda em Leiria, lê um anúncio na revista infantil «O Papagaio», em que era solicitada a colaboração dos leitores. Sérgio mandou uns desenhos para Adolfo Simões Müller, director da revista, que rapidamente aceitou e pediu que enviasse mais.
Seu pai ajudou-o bastante, pois proporcionou-lhe todos os meios necessários para executar o que a sua capacidade criativa lhe ditasse. No entanto, Sérgio Luís não deixava de executar primeiro o trabalho do liceu e só depois se dedicava à sua actividade artística. E era, acima de tudo, extremamente metódico.
Sua colaboração para «O Papagaio» é na verdade razoável, pelo menos enquanto lhe permite a pouca saúde que dispõe.
Suas histórias mais famosas, isto já sem contar com a sua colaboração para «O Engenhocas» e para o «Pim-Pam-Pum», é a série «Aventuras de um Boneco Rebelde», que rapidamente alcança sucesso nos leitores da época.
Embora ainda jovem, suas concepções de prancha, ideias e temas das suas histórias, eram na verdade excepcionais, isto já sem salientar o seu arranjo gráfico.
Em Agosto de 1938, com 17 anos, vem para Lisboa com a família e cumpre os 18 anos, um mês depois.
Durante o resto da sua vida, distribuiu a sua actividade pela Banda Desenhada e dedica-se às actividades que mais lhe agradam, principalmente a música, de que gostava imenso. Não que se interessasse pela sua execução, unicamente lhe interessavam os artistas, os compositores e as árias de ópera ou sinfonias que conhecia de ouvido. Era um erudito em música, embora adolescente.
Monta um telescópio na sua casa, deliciando-se com a visão dos astros, a que se dedicava assiduamente.
Também monta um microscópio e mais tarde faz dois filmes de desenhos animados, sobre o Boneco Rebelde.
Um deles é projectado no cinema Europa, durante o intervalo. Trata-se de uma sequência de desenhos que serviram para a sua execução. Neles o «Boneco Rebelde» puxa da sua algibeira de um relógio que vai aumentando sistematicamente até que a personagem acaba por ficar para trás, enquanto os ponteiros vão surgindo e marcam o tempo que durará o intervalo. Para a elaboração destes filmes, criou um estúdio na dispensa da sua casa. Tudo foi organizado por si.
Durante este período poucas vezes sai de casa. Uma vez por outra ia ao cinema Europa ou ao Jardim da Parada, que ficava perto da casa que habitava em Campo de Ourique.
Tudo servia para o entreter e o seu saber, aliado a uma fecunda imaginação, permitiam-lhe mais facilmente suportar a doença que o afligia, sem que a sua irmã, a professora Lia Fernandes ou sua mãe, ouvissem da sua boca um queixume que fosse.
Infelizmente a doença encontrava-se já no seu desenlace fatal e enquanto ainda lhe restavam forças, montava um sistema de morse e dedicava-se às construções eléctricas, mas a 24 de Janeiro de 1943 morre com 21 anos de idade.
As últimas pranchas de uma das histórias do «Boneco Rebelde», que a revista «O Papagaio» apresentava naquela altura ao público leitor, foram publicadas postumamente até Maio daquele ano.
Carlos Gonçalves / CORREIO da BANDA DESENHADA, 01/03/1981
+ Coordenada pelo Clube Português de Banda Desenhada
domingo, 8 de agosto de 2021
O Egiptólogo
"O Boneco Rebelde" de Sérgio Luiz era quase uma versão portuguesa de Tim-Tim. O herói belga aparecera apenas três anos antes em "O Papagaio" e entra mesmo nas três folhas iniciais da primeira aventura do Boneco Rebelde.
Isso já era conhecido mas ao consultar o blog https://largodoscorreios.wordpress.com/2021/05/05/a-bd-vista-por-carlos-goncalves-115/ deparamos com um artigo sobre Sérgio Luiz e na imagem "A história do Egipto" percebe-se algumas ligações à obra de Hergé.
Aparece a personagem ainda sem nome e que a partir da versão colorida de 1955 passará a ser Philemon Siclone e o símbolo da organização.
Foi a primeira prancha de Sérgio Luiz publicada em Dezembro de 1938.
Trata-se de uma história publicada pelo autor, onde assinava ainda Sérgio Fernandes, no Papagaio nº 190 de 1 de Dezembro de 1938. "O Papagaio" tinha publicado "Os Charutos do Faraó entre 24/06/1937 e 12/05/1938.
https://biblioteca.cm-amadora.pt/uploads/9f134daf72e4acc05acdef85c51286a2.pdf
Tintin visto por Sérgio e pelo irmão Guy Manuel na revista «O Papagaio» (António Dias de Deus):
#190; 1 Dezembro 1938; Intervenção do egiptólogo dos «Cigarros do Faraó» na «História do Egipto; Sérgio Luiz
#224; 27 Julho 1939; Intervenção na BD «Aventuras do Boneco Rebelde; Tintim; Sérgio Luiz
#237; 26 Outubro 1939; Banda Título; Tintim e Milou; Guy Manuel
#244; 14 Dezembro 1939; Página dos leitores; Tintim e Milou; Sérgio Luiz
#251; 1 Fevereiro 1940; Capa; Tintim, Milou e os Dupond(t); Sérgio Luiz - Página dos Leitores; #366; 16 Abril 1942; Capa; Tintim e Milou; Guy Manuel
mais alguma informação sobre os dois irmãos:
https://digitarq.adlra.arquivos.pt/details?id=1070935
O Papagaio - incluindo lista dos desenhadores portugueses com desenhos alusivos ao universo de Tim-Tim.
https://tintinofilo.weebly.com/o-papagaio.html




