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segunda-feira, 28 de março de 2022

Hergé e os seus Estúdios


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Artigo de Carlos Pessoa no Diário de Lisboa, supl. "Sete Ponto Sete", 2 de janeiro de 1982:

Hergé marca uma época. Lugar comum, em que ainda vale a pena insistir. Jacques Martin, Bob de Moor, Pierre Jacobs, serão estrelas de primeira grandeza da escola franco-belga.

Mas talvez menos gente saiba que, entre 1929 e 1942, o autor de Tintin trabalhou sozinho na realização dos seus álbuns. Inteiramente só concebeu onze álbuns do seu herói, quatro aventuras de «Jo e Zette», oito álbuns de «Quick et Flupke» e «Popol et Virginie». No total, sessenta por cento da sua obra.

Em 1942, procurou um amigo, ajudante ocasional. Trata-se de Edgar-Pierre Jacobs, o criador de Blake e Mortimer, a quem se deve a «balcanização» de «O ceptro de Ottokar», os excelentes «décors» de «O Lotus Azul», a atmosfera do mistério das «Sete bolas de Cristal» e «outras coisas mais» (François Rivière).

A necessidade de uma equipa, surge apenas quando Hergé se põe a desenhar de novo, e a colorir, os seus álbuns de antes da guerra. Surgia o embrião dos «Studios Hergé».

Bob de Moor entrava no «Tintin» em 1949, seguindo-se Jacques Martin e Roger Leloup. Escreve Thierry Martens a Dominique Labesse:

«Pode-se, deste modo, datar a constituição da época entre os finais de 1949 e o fim de 1951».

Hergé não se limita apenas ao argumento e ao perfil dos principais momentos de acção. Os esboços e «croquis», se necessário for, são recomeçados vezes sem conta pelo mestre.

Recorda o mesmo Thierry Martens:

«Os seus colaboradores entram então em cena. Um veste o personagem. Um segundo (frequentemente, Bob de Moor) desenha as paisagens a partir de indicações de Hergé, com material fotográfico de apoio. Um terceiro calcula o volume dos balões e traça os limites do quadradinho. Outros assumem o colorido e a metragem».

Destaque particular, merecem Bob de Moor (hábil nas paisagens rurais e sobretudo no que se refere aos personagens secundários) Jacques Martin (cenário, por exemplo, de «O Vale das Cobras», de Jo, Zette e Jocko) e Roger Leloup (grande especialista de ambientes de cidades e de diversos instrumentos).

Infelizmente, conhece-se muito pouco desta equipa, pelo que se torna difícil estabelecer o exacto papel de outros colaboradores.

No entanto, é seguro afirmar que Hergé não surge apenas nas fases de preparação (sinopse, argumento, «croquis», etc.), mas ainda em todas as outras fases posteriores.

Dominique Labesse, por seu turno, sublinha a circunstância deste «trabalho colectivo usufruir de ideias recebidas e, nomeadamente, da necessidade que o público tem, tal como o crítico ou o historiador, de acreditar no génio ímpar, no talento individual que pode ser nomeado, na paternidade de uma obra».

A banda desenhada exige simultaneamente o trabalho colectivo e o talento individual. Pouco interessa, sublinha aquela analista, que «seja difícil ou impossível analisar o trabalho de cada um dos executantes; este domínio colectivo criador é tanto mais admirável, quanto é certo que as artes nos dão muito poucos exemplos destes».

Muitos dos «ajudantes» de Hergé iriam mais tarde caminhar pelo seu pé. E com que resultados...

Carlos Pessoa, 2 de Janeiro de 1982

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