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quinta-feira, 14 de junho de 2018

Oliveira da Figueira


O jornal O Diabo usou Oliveira da Figueira para criticar o Governo liderado por Pinto Balsemão e o Presidente Ramalho Eanes.

O senhor Oliveira da Figueira

Em 1 de Dezembro de 1981, O DIABO usava a famosa personagem das aventuras de Tintin, o impagável comerciante "das arábias" Oliveira da Figueira, para criticar o Governo e o Presidente da República de então. 

Excertos:

O personagem criado por Hergé. O português que vendia gravatas, guarda-chuvas e sabonetes no deserto. Imaginado pelo próprio inventor de Tintin, no seu livro "Os charutos do Faraó", o senhor Oliveira da Figueira, natural de Lisboa, conseguiu vender ao jovem e avisado Tintin uma casota de cão, uma gaiola e um sem número de coisas inúteis em pleno deserto da Arábia.

Sem o romantismo do senhor Oliveira da Figueira e, sobretudo, sem a sua inocência, Ramalho Eanes, Presidente da República, partiu para uma tournée africana com um cardume de vendedores à ilharga. Vender panos, cafeteiras, arames, tijolos e cimento, tudo foi no frenesim próprio daqueles a quem o único que importa é impingir a mercadoria. Os regimes políticos que vigoram nos territórios compradores são odiados pelos vendedores. O Porsche, o iate, a loira do fim-de-semana, o ski em Garmish-Partenkirsh, o surf no Hawai, esse inútil monstruoso que fornece munições deliciosas aos que atacam o "capitalismo", não constitui exactamente o ideal, pelo menos confesso, dos marxistas negros. Mas é justamente para manter esse train de vie que se torna necessário vender. Vender a todo o custo e a quem quer que seja. Até porque o dinheiro é apátrida...

O que os vendedores ignoram, ou fingem ignorar debaixo do verniz saloio do "apolítico", é que graças a essa sua mentalidade vão justamente fortalecer e ajudar a que se mantenham no poder esses regimes que tanto abominam. Vão dar-lhes maior credibilidade e estabilidade económica e, claro, maior capacidade para lhes comprarem cada vez mais coisas. Disso podem também estar certos...

Ramalho Eanes, senhor Oliveira da Figueira sem "charme", não vê outro modo de cair nos braços onde tanto gosta de se ver caído, do que deslocar-se rodeado por semelhante bando de negociantes a qualquer preço.

O senhor Oliveira da Figueira não merecia semelhante aviltamento. Até porque não pretendia convencer ninguém oferecendo-lhe missangas. Ele lá saberá. No fundo, os vendedores entendem-se entre si. Quer sejam de Pátrias, quer sejam de confecções.

Memórias d’o Diabo (Portugal há 35 anos) - 06/12/2011

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