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segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Onofre Varela

EM 1973 ESCREVI A HERGÉ... E ELE RESPONDEU-ME!

[A propósito do que acabei de publicar sobre a revista Tintin, lembrei-me de partilhar convosco esta memória.]

Em Junho de 1973 viajei a Paris e Bruxelas na tentativa de por lá me radicar a fazer Banda Desenhada (BD). Eu tinha 29 anos e a cabeça cheia de sonhos.

Em Paris ofereci-me ao jornal "Ici Paris" (sem sucesso), procurei editores e falei com o argumentista Claude Moliterni, que me deu muitas esperanças... mas também sem sucesso. 

Em Bruxelas visitei as redacções das publicações mais importantes de BD (Tintin, Spirou e Pilote). Falei com os chefes de redacção de todas elas, que viram os meus desenhos... mas também não consegui o sucesso que esperava.

No regresso escrevi a Hergé que, entretanto, soubera estar a dirigir as filmagens das suas histórias em Desenho Animado. Pedi-lhe trabalho para fazer sequências de animação.

(Muito mais tarde esses desenhos animados foram editados em Portugal, em DVD, pelo jornal Público, e comprei toda a colecção).

Não consegui o trabalho que ambicionava... mas Hergé escreveu-me!... Guardo a sua carta como troféu, e que muito me honrou.

Onofre Varela, Facebook, 26/12/2023

(nb: possivelmente seria para o filme Lago dos Tubarões pois a versão televisiva mais recente é dos anos 1990)


Em 1973 fui a Bruxelas procurar trabalho no campo da BD. Falei com os chefes de redacção das três revistas principais: Pilote, Spirou e Tintin. Soube que o Hergé estava nos estúdios da Belvision a dirigir os trabalhos das Aventuras de Tintin em desenho animado. No regresso fiz um personagem das suas histórias a caminhar, em três acetatos, e enviei-lhe para ele saber que era capaz de fazer sequências para Desenho Animado. E ele respondeu-me! Guardo religiosamente essa sua carta onde me diz que não tem possibilidade de me dar trabalho mas que ia enviar o meu pedido para a revista Tintin... não tive sortinha nenhuma!... 

Onofre Varela

também no número 12 de "Varellápis"

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Em 1973 OV deslocou-se a Paris e Bruxelas com uma lista de editores de BD fornecida por Vasco Granja. Avistou-se com o argumentista Claude Moliterni em Paris, e com os chefes de redacção das três principais revistas de BD franco-belgas: Tintin, Spirou e Pilote em Bruxelas.

Opinião A Liberdade que Abril nos deu - Dispensado por “indecência e má figura”- Por Onofre Varela

Em 1976 colaborei com o jornal satírico “A Pantera” (impresso em papel cor-de-rosa). Criei o “lettering”, o grafismo, as imagens para as secções e ilustrei textos, alguns dos quais também escrevi. O editor era já um velho conhecido, bem como a directora do semanário. Conhecemo-nos quando eu colaborava numa outra publicação que ele editava e ela dirigia: a revista “Campismo e Caravanismo”, cujo grafismo e paginação eram concebidos no ateliê gráfico A. Baganha, no qual eu colaborava à noite, em horas extra-trabalho, quando tinha o meu emprego como Desenhador Maquetista (Designer Gráfico) na Litografia Nacional, no Porto.

Aproveito o ensejo para homenagear a memória de A. Baganha (os meus leitores mais velhos, que viam televisão antes do 25 de Abril, lembrar-se-ão do programa de Folclore que a Televisão [único canal então existente] passava semanalmente, transmitido dos Estúdios de Vila Nova de Gaia e apresentado pelo professor, etnólogo e poeta Pedro Homem de Mello). Albino Baganha era cenógrafo na RTP (para além de chefiar o ateliê gráfico da Agência de Publicidade Belarte) e criava a cenografia para os programas de folclore, entre outros.

Naquele tempo eu ansiava trabalhar numa Agência de Publicidade por entender que teria mais liberdade de criação numa Agência do que numa gráfica. Nesse sentido, bati à porta da Belarte à procura de trabalho. Não tinham vaga na Agência… mas o chefe do gabinete criativo precisava de um colaborador no seu ateliê particular. Imediatamente aceitei a oferta. Todos os dias, depois de jantar, entrava no seu estúdio às 21 horas. Ali não se executava, apenas, desenho e grafismo; o Mestre Baganha também fazia fotografia e cinema naquele seu espaço situado quase em frente da tenebrosa PIDE (hoje Museu Militar). Saía à meia noite e ia a casa dormir “a correr” porque às oito horas da manhã entrava na Litografia.

Com o Mestre A. Baganha aprendi tudo o que havia para aprender sobre criação gráfica e arte-final para a indústria publicitária, e ainda o modo de funcionamento de uma Agência de Publicidade, o que me permitiu dar o salto para uma Agência sediada em Lisboa (a Sistema) que em 1974 abriu uma sucursal no Porto e precisava de um criativo. Devo a A. Baganha essa possibilidade profissional, a qual nunca teria se não tivesse aprendido o que ele me ensinou. Obrigado, Mestre A. Baganha.

Para o jornal “A Pantera” propus uma Banda Desenhada (BD) com o título “O Mundo Feliz”, cuja primeira prancha já havia feito em 1973, legendada em Francês (Le Monde Heureux), que apresentei aos chefes de redacção das revistas Tintin, Pilote e Spirou, numa viagem que fiz a Bruxelas na tentativa (infrutífera) de por lá ficar fazendo BD.

“O Mundo Feliz” contava a História do Homem, na qual criticava a exploração do capital sobre o trabalho, apresentando Jesus Cristo ao lado de Che Guevara, de Gandhi e de Karl Marx.

O Mundo Feliz

Uma prancha da Banda Desenhada O Mundo Feliz, publicada no Jornal “A Pantera”.

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Apresentação do autor na revista de Banda Desenhada “O Mundo de Aventuras” (Nº 76, V Série, 26º Ano, de 13 de Março de 1975), com a reprodução da primeira prancha da mesma história legendada em Francês e assinada com o pseudónimo Honoré (de mais fácil dicção em países francófonos, do que “Varrélá”).

Um dia o editor chamou-me e disse-me mais ou menos isto: “O meu melhor cliente, em termos de publicidade que me paga a produção da Pantera, tem uma fábrica de móveis em Braga e não gosta da história “O Mundo Feliz”. Ameaça retirar-me a publicidade, perdendo não só a dele, mas também a de todos os outros anunciantes que tenho na mesma região. Agora o que é que eu faço? Dispenso a tua Banda Desenhada, ou perco os anunciantes e encerro o jornal?”

Estávamos em 1976… e o 25 de Abril de 1974 ainda não tinha chegado a Braga!…

Obviamente, não pensei duas vezes… abandonei de imediato todo o trabalho que desenvolvia na Pantera… não só a BD. Foi como se tivesse morrido.

Fui substituído por um desenhador que produzia mensagens com ideologia de Extrema-Direita… lembro-me de um seu desenho representar Mário Soares a jogar à bola com a cabeça decapitada do Zé Povinho!… Mas nem assim a Pantera se safou… pouco tempo depois também morreu.

Mas morreu mesmo… e eu ainda por cá ando!

Por Onofre Varela, Jornal O Cidadãom 01/11/2024

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