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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

No País dos Sovietes



Nos primeiros dias de Janeiro de 1929 o "Petit Vingtième", suplemento juvenil daquele jornal, termina a publicação de "L'Extraordinaire Aventure de Flup, Nénesse, Poussette et Cochonnet". E é na mesma edição que surge um discreto desenho com uma extensa legenda anunciando a chegada dos novos personagens - Tintin e Milou. Em fundo, as cúpulas russas. Em primeiro plano, um jovem de perfil, com uma cabeça redonda, nariz saliente, grandes sobrancelhas e cabelo rebelde caído para a testa. Calça sapatos enormes e usa um fato de golfe aos quadrados. Na legenda: "Acompanhem, a partir da próxima quinta-feira, as extraordinárias aventuras de Tintin, repórter, e do seu cão, Milou, ao País dos Sovietes. A foto acima, uma das últimas que nos foram enviadas, mostra-os a passear pelas ruas de Moscovo sob o olhar desconfiado de um camarada-cidadão-polícia-bolchevista".

https://www.publico.pt/1999/12/02/jornal/tintin-no-pais-dos-sovietes-em-portugues-127274


Primeira aventura de Tintin, "No País dos Sovietes" começou a ser publicada a 10 de Janeiro de 1929, no n.º 11 do "Le Petir Vingtième", suplemento infantil do jornal belga "Le Vingtième Siècle", tendo sido editada em álbum no ano seguinte.

Posteriormente foi considerada pelo autor um erro de juventude, nunca foi redesenhada nem colorida, ao contrário do que aconteceu com as outras aventuras de Tintin publicadas a preto e branco naquele jornal.

Assim, só seria reeditada em 1969, numa edição de tiragem limitada a 500 exemplares, distribuída entre amigos e conhecidos do autor, e, quatro anos depois, nos "Archives Hergé", que reuniam todas as versões a preto e branco das aventuras iniciais.

Dessa forma, o grande público só teve acesso à obra em 1999, setenta anos depois da sua estreia e dezasseis após a morte de Hergé, quando o álbum foi adicionado à colecção regular.

Nesse mesmo ano, a Verbo publicou-o em Portugal, sendo que anteriormente, em 1982, tinha surgido na revista "Tintin" portuguesa. Neste momento convivem nas livrarias a versão a preto e branco e a versão colorida, ambas das Edições ASA.

Pedro Cleto

É o único álbum onde o mais conhecido repórter da história da BD escreve algumas linhas para um jornal e narra as explorações daquele que viria a ser um dos maiores heróis do século XX, numa Rússia observada pela lente deformadora da mentalidade conservadora e católica que dirigia o “Le Petit Vingtième”. A par disto, há uma grande ingenuidade, quer gráfica, quer, especialmente, narrativa, que quase abafa os sinais já existentes dos aspectos que tornariam célebre o seu autor: uma grande legibilidade, um desenho limpo de pormenores desnecessários e o gosto pela aventura, sempre em defesa dos bons e justos, contra os maus e opressores.

Pedro Cleto, JN, 10/01/2004

(argumento e desenho) Edições ASA (Portugal, Setembro de 2010) 160 x 220 mm, 142 p., cor, cartonado 


5+1 Razões para ler este álbum

1. Para descobrir a “pré-história” de uma das mais importantes obras gráficas e literárias do século XX.

2. Como documento da forma de pensar de uma determinada época.

3. Para descobrir as influências do cinema (mudo) em Tintin.

4. Para descobrir como surgiu a poupa de Tintin.

5. Para admirar a única vez que Tintin foi visto a escrever uma reportagem.

+1. Qualquer razão é válida e boa para ler um álbum de Tintin.

As Aventuras de Tintim Repórter do «Petit Vingtiême» no País dos Sovietes começaram a ser publicadas 10 de Janeiro de 1929 no suplemento infantil do diário belga Le Vingtiême Siêcle.

Esta primeira aventura de Tintim viria a ser, em 1930, objecto de um álbum que é hoje raro = muito procurado. Teve, ao que parece, nove edições sucessivas que diferem entre si apenas na menção da tiragem na página de rosto.

Os primeiros quinhentos exemplares são numerados e assinados «Tintin et Milou». Se exceptuarmos uma reedição para uso privado do autor (1969), limitada a quinhentos exemplares, e algumas tiragens ilícitas, foi preciso esperar mais de quarenta anos para que estas aventuras fossem de novo publicadas nó primeiro volume dos Archives Hergé. Nessa obra (onde se encontram também as primeiras versões de Tintim no Congo e de Tintim na América) há mais uma prancha que na edição original, a qual, sem razão aparente, não retoma uma das contidas no número 60 do Petit Vingtiême (deveria ter o número de página 98). Estes Archives deveriam ter sido suficientes para satisfazer os inúmeros fãs das aventuras de Tintim, mas é tal o carácter mítico dos primeiros álbuns em preto e branco que pareceu oportuno reeditá-los na sua forma original. A primeira edição deste álbum em língua portuguesa veio a público no ano do 70.º aniversário de Tintim.

O presente fac-símile reproduz a edição original, excepto quanto à tradução, e respeita a paginação que, curiosamente, começa apenas na segunda prancha. No entanto, foi acrescentada uma página para servir de posfácio. O rosto aqui reproduzido contém de forma totalmente arbitrária a menção da tiragem «seis mil exemplares»; nas edições anteriores à guerra, não existia na página ao lado qualquer referência.

Edição Público - Data de impressão Fevereiro de 2004 - Depósito Legal M-2979-2004

https://pt.scribd.com/document/640334044/Herge-Tintin-01-No-pais-dos-sovietes#page=142

- No segundo número do fanzine português "Saga", editado pelo ABC Cineclube, foram divulgadas 11 pranchas da banda desenhada, numa edição amadora de pouca qualidade. 

- A edição portuguesa da revista "Tintin" publicou, em 1982, a história a partir do número 12 (15º ano), de 31 de Julho de 1982, sem qualquer referência na capa. A aventura seria no entanto interrompida em 2 de outubro de 1982 com o fim da revista.

- A primeira edição em português apenas foi lançada em 1999.  02/12/1999 - https://tintinemportugal.blogspot.com/1999/12/edicao-nacional-da-primeira-historia-do.html

edições em português:

Tintim (As aventuras de) -1- Tintim no país dos sovietes - Verbo - 09/1999

Tintim (As aventuras de) (Fac-simile) - As aventuras de Tintim repórter do "Petit... - Verbo - 09/1999

Tintim (As aventuras de) (Público) -23- As aventuras de Tintim repórter do "Petit... - Público - 02/2004

Tintin (As Aventuras de) - P/B -  Tintin no país dos sovietes - ASA  09/2010.

Tintin (As Aventuras de) - Cor -  Tintin no país dos sovietes - ASA - 11/2021 Edição em português de "Tintin au pays des soviets" - Édition colorisée (2017). DL nº 487085/21.

- A ASA lançou em 06/12/2021 uma versão colorida da obra.

- Hergé acabaria por autorizar, em 1973, a republicação do álbum (reeditado de novo, em "fac-símile", no ano de 1981 com uma tiragem de 100 mil exemplares).

Em Janeiro de 1929, quando Tintin no País dos Sovietes começou a ser publicado no Le Petit Vingtième, Hergé tinha 22 anos. O padre Norbert Wallez, ultra-direitista director do jornal onde aquele suplemento juvenil se inseria, incentivou o seu jovem colaborador a produzir uma nova história onde se imaginasse uma viagem à Rússia, na qual os comunistas aparecessem como vilões. Hergé leu e usou como quase exclusiva base para isso a recente obra Moscou sans Voiles (Moscovo sem Véus, 1928), da autoria de Joseph Douillet, ex-cônsul belga que vivera e trabalhara durante nove anos em Rostov, na Rússia soviética. O desenhador chegou mesmo a reproduzir passagens inteiras deste livro, adaptadas aos quadradinhos.

https://largodoscorreios.wordpress.com/2016/10/02/os-russos-estao-de-volta-restaurados-e-a-cores-dois/

Outra interessante questão tem a ver com a história publicada no Le Petit Vingtième onde foi incluída uma prancha, ou página, nunca mais reproduzida, com excepção do luxuoso álbum n.º 1 dos Archives Hergé, em 1973. Essa página “desaparecida” incluiu-se entre as 98 e 99, podendo “denominar-se” por isso 98a. Foi publicada no dia 18 de Dezembro de 1929.

https://largodoscorreios.wordpress.com/2016/11/02/o-eterno-tintin/

Obra inicial de um autor mais tarde universalmente aclamado, Tintin au Pays des Sovietes, numa temática anti-comunista que envergonhou o próprio Hergé (ah, os artistas julgam sempre tão mal as suas obras primevas!) esta obra revela um desenho rico em bonitas formas, bom jogo de manchas e um desenho muito proporcionado! Agora temos a sua versão colorida que favorece sobremaneira os desenhos!

Este livro tem desenhos e sequências magnificamente executadas!

O modo como Hergé conseguiu dotar o Tintin da sua poupa é notável!

José Abrantes, Facebook, 04/01/2017

ler texto de 1999 da autoria de Geraldes Lino

https://tintinemportugal.blogspot.com/2011/07/tertulia-bdzine-17.html

O que faz de Tintin uma série tão apreciada ao longo das gerações, perguntávamos na semana passada?

Desde logo, as características da personagem, herói moderno com virtudes antigas: Tintin é corajoso, é leal, é intrépido, é justo, é compassivo e é casto. E deve acrescentar-se a mestria de Hergé: um engenho aprimorado da narrativa, misturando o apelo da actualidade com uma visão humanista e um apurado sentido do gag. Milu é a perfeita personagem adjuvante, função que mais tarde repartirá com o Capitão Haddock.

Todas essas qualidades aparecem em Tintin no País dos Sovietes. Sim, é um trabalho dum jovem, mas o talento já se manifesta, apesar das puerilidades e da influência do catolicismo reaccionário. Se as pranchas são vulgares quanto à disposição das vinhetas, estão bem conseguidas no dinamismo da composição, contribuindo com eficácia para o ritmo vertiginoso da narrativa, nas suas 137 folhas: na segunda prancha deparamos com o primeiro vilão e a primeira explosão; na terceira, a primeira detenção; na quinta, a primeira cena de pancadaria e o primeiro disfarce; à sexta, a primeira perseguição automóvel…

Obra de propaganda, é verdade, mas se pesquisarmos os delírios propagandísticos que se seguiram, veremos que Tintin no País dos Sovietes é mesmo aquilo que é: uma brincadeira de crianças.

http://filacteras.blogspot.com/2019/08/bdteca-tintin-no-pais-dos-sovietes.html

“Tintim no País dos Sovietes” é a BD distribuída com o PÚBLICO

Foi há 75 anos, feitos no passado mês de Janeiro, que o repórter partiu para a Rússia dos Sovietes. Quando voltou, foi recebido em triunfo

Ao ler as primeiras tiras, Tintim aparece como um escuteiro pesadão e bastante ridículo, travestido de repórter. É uma criatura agressiva e mesmo truculenta. Ou seja, sem nenhuma das qualidades que associamos à ideia e à imagem de um grande herói. As peripécias sucedem-se, os acontecimentos enlaçam-se uns nos outros de forma quase vertiginosa e quando a aventura chega ao fim, 138 pranchas mais tarde, deparamo-nos com outro Tintim, mais humano, que é recebido apoteoticamente em Bruxelas.

“Tintim no País dos Sovietes”, o álbum que amanhã será distribuído com o PÚBLICO, é a aventura fundadora da série. O seu autor, Hergé, aproveitaria da melhor forma a oportunidade que o director do jornal “Le Vingtième Siècle” lhe deu para criar um personagem à medida dos jovens leitores. Tintim faz a sua aparição nas páginas do suplemento juvenil daquele diário de Bruxelas (“Le Petit Vingtième”), a 10 de Janeiro de 1929, partindo de imediato para o país dos Sovietes. Mas porquê este destino e não outro qualquer? A resposta tem de ser encontrada não apenas no ambiente do jornal, cuja linha editorial é ferozmente anticomunista, mas também no sentimento dominante na época nos países da Europa em relação ao rumo da União Soviética depois da revolução bolchevista de 1917.

Ao contrário do que faria anos depois em relação a outras aventuras do seu herói, Hergé nem sequer pensou em sair de Bruxelas para se documentar nos locais. Aliás, como a documentação disponível na época era muito escassa, o desenhador baseia-se exclusivamente no livro “Moscou sans Voiles”, publicado em 1928 por Joseph Douillet, ex-cônsul da Bélgica em Rostov. Sem a menor distanciação relativamente ao que é descrito nessa obra, o desenhador belga chega a transpor literalmente algumas sequências, como é o caso das eleições falseadas para um soviete local.

Esta é a única aventura de Tintim em que Hergé nunca mais mexeu. Por isso, chegou até aos nossos dias no formato original, a preto e branco e sem qualquer reformulação ou corte na narrativa. Obviamente datado, “Tintim no País dos Sovietes” está muito longe de ser a melhor história do personagem. Todavia, na sua tocante singeleza, constitui um belíssimo testemunho do esforço criativo desenvolvido por Hergé nos seus primeiros passos como autor de bandas desenhadas. Influenciado pelos “comics” norte-americanos, o autor aplica-se a dar forma a uma nova linguagem narrativa, nomeadamente integrando os diálogos no desenho e não, como era recorrente na época, com textos por baixo das imagens.

Os cinco mil exemplares da primeira edição desta aventura em álbum tornaram-se rapidamente preciosidades, pois Hergé nunca mais autorizou a reedição da obra. Uma edição restrita de 800 exemplares numerados viu a luz do dia em 1969, por ocasião do 40º aniversário da série. E em 1973 saiu de novo, integrada num volume dos “Archives Hergé”. Nada disso desencorajou o aparecimento de numerosas edições-pirata. O autor acabaria por se render à evidência, autorizando a publicação em fac-símile de “Tintim no País dos Sovietes”, em 1981.

Carlos Pessoa, Público, 19/03/2004

A efeméride em torno da provecta idade de Tintin vinha acompanhada do oportuno lançamento de uma obra de Hergé ainda não editada em Portugal, lançamento com generosa cobertura da imprensa já desde dia 5 (as notícias nas quatro TV's surgiram todas no dia 10/01/1999).

Dinis Manuel Alves, A Agenda-Montra de Outras Agendas (2013)

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