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quarta-feira, 29 de abril de 2026

Um museu do imaginário

«Em junho de 1979, uma grande exposição, que posteriormente seria itinerante, foi inaugurada no Palais des Beaux Arts, em Bruxelas. Os detalhes do seu conteúdo escapam a Hergé, mas os seus idealizadores explicaram-lhe que se tratava de comparar os objetos míticos colecionados por Tintin durante as suas aventuras com os objetos reais que os inspiraram. No cartaz da exposição, Hergé tenta organizar a incursão dos seus personagens principais no meio de uma instalação imaginária que provavelmente deixaria todos os colecionadores loucos de inveja.»


Excerto: "Cronologia de uma obra–volume 7", citado em Boletim Timtimportimtim nº 18, 24/04/2026

TINTIN: um museu do imaginário

REPÓRTER que nunca escreveu uma notícia, descobridor da China de Chiang Kai-Chek, da Lua muito antes de Armstrong e da missão Apolo 11, e do extra-sensorial no Tibete, a famosa criação do belga Hergé, Tintin, dispõe de um «Museu Imaginário», coisa de que mais nenhum outro herói dos quadradinhos poderá gabar-se.

A exposição iniciou a sua carreira no palácio das belas-artes de Bruxelas, onde amadores de BD, tintinólogos e hergenianos dos sete aos setenta e sete anos se comprimiram para apreciar os troféus e signos do seu imaginário.

O universo dos objectos inscritos nas quase duas dúzias e meia de álbuns de Tintin, encontravam-se expostos à altura de uma criança de oito anos, ombreando com as diferentes edições dos álbuns.

Cargueiros, carros, caixas de marisco, aviões, cetros, espingardas, cachimbos de ópio, máscaras africanas, completavam a colecção de autênticas peças, que inspiraram Hergé.

Uma das características mais marcantes da obra deste patrono da BD de expressão belga, é o extraordinário rigor de criação: um Buda de Sião («Os Charutos do Faraó»), uma túnica de homem leopardo (Tintin no Congo), uma máscara bariba de Dahomey (A Orelha Quebrada) e o famoso «fetiche» arumbaya, que não é mais do uma soberba estátua peruana pré-columbiana.

No entanto, a peça mais espantosa é, incontestavelmente, a múmia do inca Rascar-Capac, que aterrorizou gerações de leitores das «Sete Bolas de Cristal»: trata-se, na realidade, de uma múmia paraka do Peru, exposta pela primeira vez.

Os objectos estavam dispostos de modo a sugerirem uma espécie de Atlas do Mundo: Congo, América, China, Japão, Peru, Escócia, Deserto, Lua, campo dos extraterrestres, etc.

Ao lado destas peças raríssimas, podia-se ver em reconstituição, imagens dos álbuns, concebidos à dimensão de um «écran» de cinema: o ceptro de Ottokar, o retrato em pé do cavaleiro François Hadoque (1656-1755), os cigarros do farão Kih-Oskh, as cabeleiras multicores de Dupont e Dupond, a casa de ópio do «Lótus Azul» e o quarto de Tintin, recriados à escala liliputeana.

Após este esforço de reconstituição a três dimensões do universo de Tintin, uma pergunta se colocou a muita gente:

Será que Tintin está prestes a morrer?

«Morrerá comigo», respondeu Hergé.

Mas, para alegria de todos os seus admiradores, esse momento ainda está longe. Pelo menos, é o que se pode deduzir do entusiasmo com que Hergé congemina novas aventuras para o seu repórter.

Exposição itinerante, percorreu já o Centro Contemporâneo de Artes Plásticas, de Bordéus e o Centro da Comunidade Francófona da Bélgica, em Paris. Depois, «pulou» para Washington.

Onde estará neste momento? Ignoramos.

Mas a sugestão pode ficar, à laia de remate desta breve evocação do universo de Tintin no mundo dos seus admiradores: haverá por aí alguém interessado em sugerir aos serviços culturais belgas ou franceses a vinda da exposição ao nosso país? Era bem capaz de ter a sua piada.

Carlos Pessoa, Diário de Lisboa, 04/09/1982

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