segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
domingo, 23 de dezembro de 2012
Pastiches do Tintin
Mais uma vez, o excelente blogue «As Leituras do Pedro» publica mais dois pastiches do Tintin, da autoria de Alexandre Gozblau e Richard Câmara.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Um futuro para além do destino do senhor Oliveira da Figueira
José Manuel Fernandes, ex-director do jornal Público, publicou no respectivo jornal de 7 de Dezembro de 2012, um artigo com o título em epígrafe, onde destaca a personalidade do «português» das aventuras do Tintin, Oliveira de Figueira.
A acompanhar o artigo, duas ilustrações pastiches das personagens das aventuras de Tintin por A. Valério.
Os árabes chamavam-lhe o "branco-que-vende-tudo" e Tintin comprovou-o: comprou-lhe um par de esquis, um taco de golfe, um chapéu alto, uma gaiola com um periquito e um despertador, tudo absolutas inutilidades que o deixaram imensamente feliz. A cena passa-se no livro Os Cigarros do Faraó e o senhor Oliveira da Figueira, que mais tarde reapareceria em No País do Ouro Negro e em Carvão no Porão, é o único português a ter um lugar de destaque nas aventuras criadas por Hergé (há também um cientista português a bordo do Aurora, em A Ilha Misteriosa, mas o seu papel é irrelevante). O histriónico vendedor de bugigangas corresponde a um certo cliché do ser-se português, da generosidade à capacidade de improvisação, da lábia à errância por terras distantes, tudo construído em torno da imagem de um comerciante que até na capacidade de aculturação se revela bem lusitano. Ninguém, nem mesmo Hergé, se lembraria de retratar um português como financeiro ou como industrial.
Lembrei-me deste simpático Oliveira da Figueira quando meditava em alguns dos debates que atravessaram esta semana. E comecei por me lembrar dele quando ouvi as muitas lamúrias que, na segunda-feira, acompanharam a divulgação das mais recentes estatísticas sobre insolvências. No total, até Novembro, já tinha havido 5808 insolvências declaradas, um número bem superior ao do ano passado mas que, por si só, não significará muito, pois seria necessário compará-lo com dados - que desconheço - relativos à criação de empresas. Mais importante será perceber que insolvências foram essas. Um quarto dos pedidos (1535) foi entregue por empresas do sector do comércio. Quase outro tanto (1496) veio de empresas ligadas à construção e ao imobiliário.
ara todas as pessoas ligadas a estas empresas, estas insolvências foram um drama, um drama por certo agravado pela dificuldade que todos os que caíram no desemprego sentirão para se libertarem dessa condição. No entanto, por muito duro que seja dizê-lo, um elevado número de falências no comércio, na construção e no imobiliário era não só inevitável como dificilmente a economia portuguesa se recomporia sem que elas ocorressem. Durante demasiados anos, andámos a lançar obras públicas inúteis, é bom termos deixado de nos endividar para o fazer. Durante demasiados anos, vimos serem lançadas urbanizações atrás de urbanizações, e é bom termos parado de erguer mais casas para ficarem vazias (já há 725 mil habitações vazias em Portugal, de acordo com o Censos 2011). Durante demasiados anos, vimos também abrirem centros comerciais atrás de centros comerciais, sem se perceber muito bem como haveria dinheiro para tantas compras e tanto comércio, e é bom regressarmos a algum realismo.
Boa parte do aumento do desemprego provém precisamente da retracção da actividade nestes sectores (em 2011, estima-se que só a construção e o imobiliário tenham gerado mais 110 mil novos desempregados), mas será um erro pensar que é defendendo esses actividades que vamos sair da crise ou mesmo evitar mais desemprego. O que aconteceu nos últimos dez, doze anos, foi que a existência de crédito barato e financiamento abundante, a par com políticas voluntaristas, "fontistas", de governos e autarquias, permitiu uma expansão do consumo público e privado que, ao mesmo tempo que gerava um crescimento anémico, fazia explodir a dívida pública e a dívida externa. É por isso que não necessitamos, pelo contrário, de salvar (vá-se lá saber como, a não ser com mais despesa pública e mais subsidiação) os milhares de empresas que estão a desaparecer nestes sectores. O que precisamos, isso sim, é de tornar possível que surjam, em sectores com mais futuro, empresas e actividades que permitam começar a reabsorver os trabalhadores que entretanto caíram no desemprego.
O que Portugal fez nos últimos anos foi, de alguma forma, o que o senhor Oliveira da Figueira fazia no remoto principado do Khemed: comprar e vender sem grande preocupação com a inovação e o dia de depois de amanhã. Talvez tenhamos, no fundo, feito apenas o que nos está na massa do sangue, pois todo o cliché tem sempre a sua parte de verdade. O que Portugal vai fazer daqui para a frente é que já não pode ser o mesmo. O crescimento futuro não pode repetir as fórmulas falhadas dos últimos quinze anos, e é também por isso que penso que a generalidade das sugestões de menos austeridade que por aí pululam corresponde, no fundo, ao regresso das políticas que não geraram crescimento nem garantiram empregos sustentáveis.
Quando olhamos para trás e recordamos o que se passou nas últimas décadas, verificamos que Portugal só conheceu dois períodos de rápido desenvolvimento económico: entre 1960 e 1973 e entre 1986 e 1991. O que permitiu esses surtos desenvolvimentistas foi sempre um choque externo: na década de 1960, a adesão de Portugal à EFTA; na década de 1980, a adesão à então CEE. Mais: como recentemente explicava José Manuel Félix Ribeiro, o período mais vigoroso desse desenvolvimento (entre 1969 e 1973) foi possível porque houve três motores a puxarem por Portugal ao mesmo tempo, a saber, o boom das indústrias exportadoras do Norte do país, tornado possível pela abertura dos mercados da EFTA; os investimentos na indústria pesada e na indústria naval na zona de Lisboa, aproveitando a oportunidade da mudança das rotas de navegação pós-Guerra dos Seis Dias; e o início do envio pelos emigrantes das suas remessas, o que deu liquidez ao sistema bancário.
É difícil imaginar a repetição dessas condições. Ou mesmo das condições conhecidas no início do chamado "cavaquismo". Ou de qualquer coisa de semelhante. O mais parecido que temos com um "choque externo" é a troika, mas até a evidente necessidade de financiamento não tem impedido a dissolução do consenso que chegou a parecer existir em torno da alteração dos nossos modos de vida. Mesmo assim, não é preciso ser tão optimista como António Borges para perceber que algum caminho tem sido percorrido pela nossa economia.
Para já, tudo indica que os nossos Oliveira da Figueira voltaram a demandar o mundo. Boa parte da expansão das exportações portuguesas deve-se a muitos e muitos empresários que, tendo de enfrentar a contracção do mercado interno, se viraram para o exterior e conseguiram encontrar novos clientes. Óptimo, mas insuficiente. Estamos também com baixíssimos níveis de investimento e isso indica que se está sobretudo a utilizar a capacidade já instalada e que haverá ainda pouca inovação.
Para ultrapassar esta fase, será necessário voltar a investir e, sobretudo, será necessário atrair capital estrangeiro. O nosso caminho não passa, ao contrário do que sugere Louçã ou o PCP, por "substituir importações", pois isso deixaria sempre pior o consumidor final. O nosso caminho passa por pagar as importações com mais exportações - ou com o equivalente, casos da expansão do turismo ou da capacidade de atrair estrangeiros para residirem em Portugal. Ao mesmo tempo, há que não ter medo da emigração, mesmo da emigração dos "mais qualificados", como agora gosta de se dizer.
Uma coisa, porém, é certa: por muito que custe admiti-lo, e ainda mais fazê-lo, o nosso difícil futuro não passa por salvar a economia, as empresas e os empregos do passado. Da mesma forma que a saída da recessão não passa pelo relançamento, no curto prazo, do consumo interno. Por isso, numa altura em que começa a crescer a oposição aos cortes nas despesas do Estado, chamem-se ou não "refundação", o essencial é dizer que o que não podemos suportar são estes impostos, ou que o que queremos não é um IRC de apenas 10 por cento para os novos investimentos, queremos esse IRC para toda a economia, porque é ela, como um todo, que tem de competir nos mercados abertos da União Europeia e do resto do mundo.
Mas será que seremos capazes de ser mais do que desenrascados e um pouco mais sofisticados Oliveiras da Figueira do século XXI?
A acompanhar o artigo, duas ilustrações pastiches das personagens das aventuras de Tintin por A. Valério.
Os árabes chamavam-lhe o "branco-que-vende-tudo" e Tintin comprovou-o: comprou-lhe um par de esquis, um taco de golfe, um chapéu alto, uma gaiola com um periquito e um despertador, tudo absolutas inutilidades que o deixaram imensamente feliz. A cena passa-se no livro Os Cigarros do Faraó e o senhor Oliveira da Figueira, que mais tarde reapareceria em No País do Ouro Negro e em Carvão no Porão, é o único português a ter um lugar de destaque nas aventuras criadas por Hergé (há também um cientista português a bordo do Aurora, em A Ilha Misteriosa, mas o seu papel é irrelevante). O histriónico vendedor de bugigangas corresponde a um certo cliché do ser-se português, da generosidade à capacidade de improvisação, da lábia à errância por terras distantes, tudo construído em torno da imagem de um comerciante que até na capacidade de aculturação se revela bem lusitano. Ninguém, nem mesmo Hergé, se lembraria de retratar um português como financeiro ou como industrial.
Lembrei-me deste simpático Oliveira da Figueira quando meditava em alguns dos debates que atravessaram esta semana. E comecei por me lembrar dele quando ouvi as muitas lamúrias que, na segunda-feira, acompanharam a divulgação das mais recentes estatísticas sobre insolvências. No total, até Novembro, já tinha havido 5808 insolvências declaradas, um número bem superior ao do ano passado mas que, por si só, não significará muito, pois seria necessário compará-lo com dados - que desconheço - relativos à criação de empresas. Mais importante será perceber que insolvências foram essas. Um quarto dos pedidos (1535) foi entregue por empresas do sector do comércio. Quase outro tanto (1496) veio de empresas ligadas à construção e ao imobiliário.
ara todas as pessoas ligadas a estas empresas, estas insolvências foram um drama, um drama por certo agravado pela dificuldade que todos os que caíram no desemprego sentirão para se libertarem dessa condição. No entanto, por muito duro que seja dizê-lo, um elevado número de falências no comércio, na construção e no imobiliário era não só inevitável como dificilmente a economia portuguesa se recomporia sem que elas ocorressem. Durante demasiados anos, andámos a lançar obras públicas inúteis, é bom termos deixado de nos endividar para o fazer. Durante demasiados anos, vimos serem lançadas urbanizações atrás de urbanizações, e é bom termos parado de erguer mais casas para ficarem vazias (já há 725 mil habitações vazias em Portugal, de acordo com o Censos 2011). Durante demasiados anos, vimos também abrirem centros comerciais atrás de centros comerciais, sem se perceber muito bem como haveria dinheiro para tantas compras e tanto comércio, e é bom regressarmos a algum realismo.
Boa parte do aumento do desemprego provém precisamente da retracção da actividade nestes sectores (em 2011, estima-se que só a construção e o imobiliário tenham gerado mais 110 mil novos desempregados), mas será um erro pensar que é defendendo esses actividades que vamos sair da crise ou mesmo evitar mais desemprego. O que aconteceu nos últimos dez, doze anos, foi que a existência de crédito barato e financiamento abundante, a par com políticas voluntaristas, "fontistas", de governos e autarquias, permitiu uma expansão do consumo público e privado que, ao mesmo tempo que gerava um crescimento anémico, fazia explodir a dívida pública e a dívida externa. É por isso que não necessitamos, pelo contrário, de salvar (vá-se lá saber como, a não ser com mais despesa pública e mais subsidiação) os milhares de empresas que estão a desaparecer nestes sectores. O que precisamos, isso sim, é de tornar possível que surjam, em sectores com mais futuro, empresas e actividades que permitam começar a reabsorver os trabalhadores que entretanto caíram no desemprego.
O que Portugal fez nos últimos anos foi, de alguma forma, o que o senhor Oliveira da Figueira fazia no remoto principado do Khemed: comprar e vender sem grande preocupação com a inovação e o dia de depois de amanhã. Talvez tenhamos, no fundo, feito apenas o que nos está na massa do sangue, pois todo o cliché tem sempre a sua parte de verdade. O que Portugal vai fazer daqui para a frente é que já não pode ser o mesmo. O crescimento futuro não pode repetir as fórmulas falhadas dos últimos quinze anos, e é também por isso que penso que a generalidade das sugestões de menos austeridade que por aí pululam corresponde, no fundo, ao regresso das políticas que não geraram crescimento nem garantiram empregos sustentáveis.
Quando olhamos para trás e recordamos o que se passou nas últimas décadas, verificamos que Portugal só conheceu dois períodos de rápido desenvolvimento económico: entre 1960 e 1973 e entre 1986 e 1991. O que permitiu esses surtos desenvolvimentistas foi sempre um choque externo: na década de 1960, a adesão de Portugal à EFTA; na década de 1980, a adesão à então CEE. Mais: como recentemente explicava José Manuel Félix Ribeiro, o período mais vigoroso desse desenvolvimento (entre 1969 e 1973) foi possível porque houve três motores a puxarem por Portugal ao mesmo tempo, a saber, o boom das indústrias exportadoras do Norte do país, tornado possível pela abertura dos mercados da EFTA; os investimentos na indústria pesada e na indústria naval na zona de Lisboa, aproveitando a oportunidade da mudança das rotas de navegação pós-Guerra dos Seis Dias; e o início do envio pelos emigrantes das suas remessas, o que deu liquidez ao sistema bancário.
É difícil imaginar a repetição dessas condições. Ou mesmo das condições conhecidas no início do chamado "cavaquismo". Ou de qualquer coisa de semelhante. O mais parecido que temos com um "choque externo" é a troika, mas até a evidente necessidade de financiamento não tem impedido a dissolução do consenso que chegou a parecer existir em torno da alteração dos nossos modos de vida. Mesmo assim, não é preciso ser tão optimista como António Borges para perceber que algum caminho tem sido percorrido pela nossa economia.
Para já, tudo indica que os nossos Oliveira da Figueira voltaram a demandar o mundo. Boa parte da expansão das exportações portuguesas deve-se a muitos e muitos empresários que, tendo de enfrentar a contracção do mercado interno, se viraram para o exterior e conseguiram encontrar novos clientes. Óptimo, mas insuficiente. Estamos também com baixíssimos níveis de investimento e isso indica que se está sobretudo a utilizar a capacidade já instalada e que haverá ainda pouca inovação.
Para ultrapassar esta fase, será necessário voltar a investir e, sobretudo, será necessário atrair capital estrangeiro. O nosso caminho não passa, ao contrário do que sugere Louçã ou o PCP, por "substituir importações", pois isso deixaria sempre pior o consumidor final. O nosso caminho passa por pagar as importações com mais exportações - ou com o equivalente, casos da expansão do turismo ou da capacidade de atrair estrangeiros para residirem em Portugal. Ao mesmo tempo, há que não ter medo da emigração, mesmo da emigração dos "mais qualificados", como agora gosta de se dizer.
Uma coisa, porém, é certa: por muito que custe admiti-lo, e ainda mais fazê-lo, o nosso difícil futuro não passa por salvar a economia, as empresas e os empregos do passado. Da mesma forma que a saída da recessão não passa pelo relançamento, no curto prazo, do consumo interno. Por isso, numa altura em que começa a crescer a oposição aos cortes nas despesas do Estado, chamem-se ou não "refundação", o essencial é dizer que o que não podemos suportar são estes impostos, ou que o que queremos não é um IRC de apenas 10 por cento para os novos investimentos, queremos esse IRC para toda a economia, porque é ela, como um todo, que tem de competir nos mercados abertos da União Europeia e do resto do mundo.
Mas será que seremos capazes de ser mais do que desenrascados e um pouco mais sofisticados Oliveiras da Figueira do século XXI?
sábado, 15 de dezembro de 2012
Novos pastiches no blog «As Leituras do Pedro»
O blog «As Leituras do Pedro» presenteia-nos regularmente com pastiches do Tintin realizadas por autores portugueses. Desta feita, foram os desenhadores David Soares e Jorge Carneiro que imaginaram o herói de Hergé na sua caneta.
Tintin vs TimTim
Uma paródia de niconocolau em Flick, confrontando Tintin e Tim (2 Tim), o vocalista dos Xutos e Pontapés.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Tintin por Cyril Pedrosa e Mathieu Sapin
O blog de Pedro Cleto, «As leituras do Pedro», publicou duas caricaturas do Tintin da autoria de Mathieu Sapin e Cyril Pedrosa.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Justiça belga absolve Tintin de racismo
O célebre livro de banda desenhada de Hergé "Tintin no Congo", publicado na sua primeira edição quando a República Democrática do Congo era uma colónia belga, foi absolvido da denúncia de racismo.
A Justiça belga determinou que as aventuras de "Tintin no Congo" não podem ser consideradas "ofensivas" ou "racistas" e não homologou o pedido de a obra conter uma advertência nesse sentido bem como ver retirada a classificação de livro infantil.
A ação que denunciava obra racista - que agora foi absolvida - foi interposta pelo cidadão congolês Bienvenu Mbutu Mondondo e pelo Conselho Representativo das Associações Negras de França. A decisão judicial condenou-os a pagar uma indemnização simbólica de 110 euros às editoras Moulinsart e Casterman.
Na sentença os juízes consideraram que a personagem Tintin não só não era "racista" como pelo contrário "cultivava a amizade" com os outros personagens negros "contribuindo para a paz entre as tribos, colocando a sua vida em perigo para socorrer o próximo e luta contra o mal que está representado por um personagem branco e não negro".
Além disso a obra foi considerada como um "testemunho da história comum da Bélgica e do Congo" em determinado momento e nada parece indicar que as crianças do século XXI não serão capazes de relativizar os estereótipos das personagens e colocar a obra no seu contexto histórico".
In Diário de Notícias
A Justiça belga determinou que as aventuras de "Tintin no Congo" não podem ser consideradas "ofensivas" ou "racistas" e não homologou o pedido de a obra conter uma advertência nesse sentido bem como ver retirada a classificação de livro infantil.
A ação que denunciava obra racista - que agora foi absolvida - foi interposta pelo cidadão congolês Bienvenu Mbutu Mondondo e pelo Conselho Representativo das Associações Negras de França. A decisão judicial condenou-os a pagar uma indemnização simbólica de 110 euros às editoras Moulinsart e Casterman.
Na sentença os juízes consideraram que a personagem Tintin não só não era "racista" como pelo contrário "cultivava a amizade" com os outros personagens negros "contribuindo para a paz entre as tribos, colocando a sua vida em perigo para socorrer o próximo e luta contra o mal que está representado por um personagem branco e não negro".
Além disso a obra foi considerada como um "testemunho da história comum da Bélgica e do Congo" em determinado momento e nada parece indicar que as crianças do século XXI não serão capazes de relativizar os estereótipos das personagens e colocar a obra no seu contexto histórico".
In Diário de Notícias
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Centenário de Hergé: Portugal foi o primeiro país do mundo a publicar o Tintim a cores
No final de Abril de 1936 Hergé recebeu em Bruxelas um envelope de Portugal. Ao abri-lo, encontrou alguns exemplares da revista O Papagaio e teve uma grande surpresa: viu pela primeira vez uma história de Tintim impressa a cores (Tintim na América).
"Fiquei encantado por ver os meus desenhos aparecerem a cores", diz Hergé numa carta que enviou a 12 de Maio desse ano ao padre Abel Varzim, que o contactara em Maio de 1935, em nome da publicação, para negociar a divulgação das histórias de Tintim.
O herói chama-se Tim-tim, é apresentado como repórter português de O Papagaio - na versão original é um repórter belga do Le Petit Vingtième - e tem como companheira uma cadela chamada Rom-Rom, de cor acastanhada (e não o cão Milú branco).
Mas o que verdadeiramente desagradou ao artista belga foi outra coisa. O editor português tinha remontado as pranchas, destruindo o efeito de suspense da narrativa na edição original. Hergé comenta a situação ("une petite remarque", escreve) lembrando que "os desenhos são concebidos como num folhetim para terminar em cada semana com um desenho palpitante destinado a prender a atenção do leitor".
Este incidente não chegou para comprometer as relações entre o criador de Tintim e a revista portuguesa, que divulgou mais oito aventuras do herói até ao final da sua existência, em Fevereiro de 1949. Além de efectuar a primeira publicação em quadricromia do mundo, O Papagaio foi também a primeira revista de um país não francófono a divulgar Tintim.
Adolfo Simões Müller (1909-1989), que foi um dos directores da revista, é a peça-chave para explicar a curiosa relação que Hergé teve com Portugal.
Uma parte significativa da correspondência que os dois homens mantiveram ao longo de 30 anos foi recentemente tornada pública pelo holandês Jan Aarnout Boer (De Avonturen van Kuifje in Portugal), membro da associação Hergé Genootschap (Os Amigos de Hergé) que teve acesso aos arquivos da Fundação Hergé, na Bélgica.
"Para ser franco, a publicação prematura de Hergé em Portugal não teve impacto na sua obra ou na tradução dos álbuns para outras línguas", disse ao P2 Jan Boer. "Hergé achava piada que houvesse pessoas em Portugal interessadas nos seus livros, mas tanto para ele como para o seu editor [Casterman], estas traduções tinham pouco interesse."
Direitos por géneros
Quando começou a ser publicado em Portugal, o artista belga estava prestes a fazer 29 anos - nasceu exactamente há 100 anos, a 22 de Maio de 1907. Vivia a fase ascensional da sua carreira, ainda só tinha cinco das 23 histórias que imortalizariam Tintim.
A internacionalização da sua obra era um fenómeno novo para si. Por isso, não surpreende que o criador belga recorra à Societé du Droit d"Auteur (Paris), fixando em 50 francos franceses o preço por episódio (o equivalente a uma dupla página dos álbuns a preto e branco).
Em 1937, Hergé delega em Jean-Louis Duchemin, secretário-geral do Syndicat de la Proprieté Artistique, a gestão dos seus direitos de autor, precisando que a redução do preço - agora negociada por Simões Müller e fixada em 35 francos franceses - só se aplicará a Tintim na América.
Outro episódio trazido à luz do dia pela correspondência entre Hergé, Abel Varzim e Müller diz respeito à intenção deste último lançar uma nova revista (Diabrete) para disputar o mercado a O Papagaio.
Em carta não datada (mas provavelmente do final de 1940 ou início do ano seguinte), Müller pede a concessão do exclusivo das aventuras da série Quick et Flupke, ressalvando que O Papagaio continuará a publicar Tintim se assim o entender.
Hergé concorda, mas é notório que as suas preocupações imediatas são de outra ordem. A invasão da Bélgica pelas tropas de Hitler teve como consequência, no plano pessoal, o aprisionamento do seu irmão mais novo Paul Remi num campo de concentração alemão. Na resposta a Simões Müller, de 24 de Abril de 1941, pede-lhe para este enviar de vez em quando produtos alimentares não perecíveis (sardinhas de conserva, chocolate, biscoitos, etc.) ao irmão e, se possível, também para si próprio. O montante dispendido deveria ser descontado nos direitos de autor a pagar.
"Foi um nobre gesto da parte de Hergé", comenta Jan Boer. Mas os pacotes de alimentos nunca chegaram ao irmão. No final do período O Papagaio, quando o acerto de contas foi feito, constata-se que todas as encomendas foram enviadas para o próprio Hergé. Por outras palavras, a história dos envios para o irmão tem que ser um pouco rectificada."
Última batalha
O braço de ferro entre Varzim e Müller pelos direitos de Tintim conhece novos desenvolvimentos no início de 1943. A 25 de Janeiro, Hergé recebe uma carta muito contundente de Varzim, defendendo com unhas e dentes a sua publicação: "O nosso jornal - como pode constatar - é para a elite das famílias portuguesas. O Diabrete não passa de um jornal para as classes menos bem, pois para poder viver vende-se a metade do preço do nosso, não tendo mesmo tentado colocar-se ao nível do Papagaio."
As posições radicalizam-se, mas Hergé procura não desagradar a nenhum dos contendores. "É curioso ver como ele tenta encontrar uma solução que satisfaça as duas partes e manter-se amigo de ambos. Mas quando os dois querem os direitos de Tintim, isso é difícil", diz Boer. De facto, só com o desaparecimento de O Papagaio é que Tintim será finalmente publicado no Diabrete, a partir de 1949.
Simões Müller continua a cultivar a sua relação com o artista belga, que se traduz na publicação quase ininterrupta das histórias de Tintim. A última prancha de As Sete Bolas de Cristal é publicada a 29 de Dezembro de 1951 naquela revista e a 5 de Janeiro do ano seguinte é apresentada a primeira prancha de O Templo do Sol no Cavaleiro Andante.
Na efémera revista Foguetão (13 números, em 1961), é a vez de Tintim no Tibete, que depois transitará para o Cavaleiro Andante. E quando a revista Zorro surge nas bancas (1962-1966), os leitores poderão ler as primeiras sequências de As Jóias de Castafiore.
É a última vez que Müller está associado à publicação da série franco-belga. A edição portuguesa da revista Tintim, lançada em 1968, já terá outros protagonistas.
De passagem, Müller trava a sua última batalha pelos direitos de Tintim e perde-a. Numa carta enviada a Hergé em Março de 1960, Müller pede a "intervenção" de Hergé para evitar que "outro editor português faça uma edição que eu me proponho fazer há muito tempo e sobre a qual julgo ter um indiscutível direito de prioridade".
A resposta de Hergé chega em 22 de Março: Casterman, o editor belga, reconhece em Müller um "amigo da primeira hora", mas "a lógica dita que seja utilizada a edição brasileira igualmente em Portugal". Assim será até 1988, quando Tintim passa a ser editado pela Verbo.
O herói chama-se Tim-tim, é apresentado como repórter português de O Papagaio - na versão original é um repórter belga do Le Petit Vingtième - e tem como companheira uma cadela chamada Rom-Rom, de cor acastanhada (e não o cão Milú branco).
Mas o que verdadeiramente desagradou ao artista belga foi outra coisa. O editor português tinha remontado as pranchas, destruindo o efeito de suspense da narrativa na edição original. Hergé comenta a situação ("une petite remarque", escreve) lembrando que "os desenhos são concebidos como num folhetim para terminar em cada semana com um desenho palpitante destinado a prender a atenção do leitor".
Este incidente não chegou para comprometer as relações entre o criador de Tintim e a revista portuguesa, que divulgou mais oito aventuras do herói até ao final da sua existência, em Fevereiro de 1949. Além de efectuar a primeira publicação em quadricromia do mundo, O Papagaio foi também a primeira revista de um país não francófono a divulgar Tintim.
Adolfo Simões Müller (1909-1989), que foi um dos directores da revista, é a peça-chave para explicar a curiosa relação que Hergé teve com Portugal.
Uma parte significativa da correspondência que os dois homens mantiveram ao longo de 30 anos foi recentemente tornada pública pelo holandês Jan Aarnout Boer (De Avonturen van Kuifje in Portugal), membro da associação Hergé Genootschap (Os Amigos de Hergé) que teve acesso aos arquivos da Fundação Hergé, na Bélgica.
"Para ser franco, a publicação prematura de Hergé em Portugal não teve impacto na sua obra ou na tradução dos álbuns para outras línguas", disse ao P2 Jan Boer. "Hergé achava piada que houvesse pessoas em Portugal interessadas nos seus livros, mas tanto para ele como para o seu editor [Casterman], estas traduções tinham pouco interesse."
Direitos por géneros
Quando começou a ser publicado em Portugal, o artista belga estava prestes a fazer 29 anos - nasceu exactamente há 100 anos, a 22 de Maio de 1907. Vivia a fase ascensional da sua carreira, ainda só tinha cinco das 23 histórias que imortalizariam Tintim.
A internacionalização da sua obra era um fenómeno novo para si. Por isso, não surpreende que o criador belga recorra à Societé du Droit d"Auteur (Paris), fixando em 50 francos franceses o preço por episódio (o equivalente a uma dupla página dos álbuns a preto e branco).
Em 1937, Hergé delega em Jean-Louis Duchemin, secretário-geral do Syndicat de la Proprieté Artistique, a gestão dos seus direitos de autor, precisando que a redução do preço - agora negociada por Simões Müller e fixada em 35 francos franceses - só se aplicará a Tintim na América.
Outro episódio trazido à luz do dia pela correspondência entre Hergé, Abel Varzim e Müller diz respeito à intenção deste último lançar uma nova revista (Diabrete) para disputar o mercado a O Papagaio.
Em carta não datada (mas provavelmente do final de 1940 ou início do ano seguinte), Müller pede a concessão do exclusivo das aventuras da série Quick et Flupke, ressalvando que O Papagaio continuará a publicar Tintim se assim o entender.
Hergé concorda, mas é notório que as suas preocupações imediatas são de outra ordem. A invasão da Bélgica pelas tropas de Hitler teve como consequência, no plano pessoal, o aprisionamento do seu irmão mais novo Paul Remi num campo de concentração alemão. Na resposta a Simões Müller, de 24 de Abril de 1941, pede-lhe para este enviar de vez em quando produtos alimentares não perecíveis (sardinhas de conserva, chocolate, biscoitos, etc.) ao irmão e, se possível, também para si próprio. O montante dispendido deveria ser descontado nos direitos de autor a pagar.
"Foi um nobre gesto da parte de Hergé", comenta Jan Boer. Mas os pacotes de alimentos nunca chegaram ao irmão. No final do período O Papagaio, quando o acerto de contas foi feito, constata-se que todas as encomendas foram enviadas para o próprio Hergé. Por outras palavras, a história dos envios para o irmão tem que ser um pouco rectificada."
Última batalha
O braço de ferro entre Varzim e Müller pelos direitos de Tintim conhece novos desenvolvimentos no início de 1943. A 25 de Janeiro, Hergé recebe uma carta muito contundente de Varzim, defendendo com unhas e dentes a sua publicação: "O nosso jornal - como pode constatar - é para a elite das famílias portuguesas. O Diabrete não passa de um jornal para as classes menos bem, pois para poder viver vende-se a metade do preço do nosso, não tendo mesmo tentado colocar-se ao nível do Papagaio."
As posições radicalizam-se, mas Hergé procura não desagradar a nenhum dos contendores. "É curioso ver como ele tenta encontrar uma solução que satisfaça as duas partes e manter-se amigo de ambos. Mas quando os dois querem os direitos de Tintim, isso é difícil", diz Boer. De facto, só com o desaparecimento de O Papagaio é que Tintim será finalmente publicado no Diabrete, a partir de 1949.
Simões Müller continua a cultivar a sua relação com o artista belga, que se traduz na publicação quase ininterrupta das histórias de Tintim. A última prancha de As Sete Bolas de Cristal é publicada a 29 de Dezembro de 1951 naquela revista e a 5 de Janeiro do ano seguinte é apresentada a primeira prancha de O Templo do Sol no Cavaleiro Andante.
Na efémera revista Foguetão (13 números, em 1961), é a vez de Tintim no Tibete, que depois transitará para o Cavaleiro Andante. E quando a revista Zorro surge nas bancas (1962-1966), os leitores poderão ler as primeiras sequências de As Jóias de Castafiore.
É a última vez que Müller está associado à publicação da série franco-belga. A edição portuguesa da revista Tintim, lançada em 1968, já terá outros protagonistas.
De passagem, Müller trava a sua última batalha pelos direitos de Tintim e perde-a. Numa carta enviada a Hergé em Março de 1960, Müller pede a "intervenção" de Hergé para evitar que "outro editor português faça uma edição que eu me proponho fazer há muito tempo e sobre a qual julgo ter um indiscutível direito de prioridade".
A resposta de Hergé chega em 22 de Março: Casterman, o editor belga, reconhece em Müller um "amigo da primeira hora", mas "a lógica dita que seja utilizada a edição brasileira igualmente em Portugal". Assim será até 1988, quando Tintim passa a ser editado pela Verbo.
Carlos Pessoa
in Publico
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
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