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segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Oliveira da Figueira

No dia 11 de janeiro de 2023, o advogado Rui Patrício apresentou o seu livro intitulado "Depender da Bondade de Estranhos – e outros textos ‘leves’ sobre a ‘leveza’ do processo penal", numa edição da editora Almedina.

Nas páginas 143 e 144 do livro, pertencente ao "capítulo IV - Advogado", tem um texto em qeu aborda a figura de Oliveira da Figueira.


Oliveira da Figueira

Por Rui Patrício, publicado em 22 Dez 2012 / I
Alguns dirão que Hergé é simpático com os portugueses através desta sua personagem. Outros dirão que os apouca, ou mesmo ridiculariza

https://arquivo.pt/wayback/20130101090825/http://www.ionline.pt/opiniao/oliveira-da-figueira

O português é mexido, aberto ao mundo, viaja e mistura-se. Era inevitável que Tintim, nas suas aventuras, encontrasse pelo menos um português. Em “Os Charutos do Faraó”, o herói de Hergé vai de Port Said para o Cairo e depois embrenha-se no deserto em busca do túmulo de Kih-Oskh. Após várias peripécias, com Milu e o Professor Siclone, Tintim acaba a bordo de um barco salvador, onde conhece um lisboeta, o senhor Oliveira da Figueira. Um vendedor gorducho, de bigodinho, simpático, exuberante; mal é apresentado ao herói, tenta vender-lhe – e consegue – vários dos seus artigos: gravatas, sabres, esquis, um despertador, tacos de golfe, um papagaio, etc. Oliveira da Figueira vende de tudo um pouco, é insistente e tem muita lábia. Pouco depois, quando atracam na costa árabe, em pleno deserto, começa a vender a sua mercadoria aos habitantes locais, que lhe chamam o “branco-que-vende-tudo”. E é vê-los, felizes com as compras, a caminhar pelo deserto com todo o tipo de coisas, quase todas inúteis ali, incluindo um guarda-chuva.

Mas Oliveira da Figueira não pára, é infatigável. Volta a aparecer em nova aventura, “Tintim no País do Ouro Negro”. Também aí o encontramos num país do deserto, com a mesma bonomia, igualmente vistoso, com os seus modos e truques de vendedor e o seu bigodinho bem estimado. Continua a vender de tudo um pouco, Tintim encontra-o à porta da sua loja a vender um par de patins a um local, e Oliveira da Figueira convida logo o herói para beber um copo de vinho. Sempre simpático, sempre enérgico, sempre envolvente. Criativo, inventa uma história para que Tintim possa chegar até ao Professor Smith; mestre do encantamento, tanto vende a alguém o que ele não precisa como convence e distrai os que o ouvem com o que inventa para contar. Em “Carvão no Porão”, vê-lo-emos novamente, mais do mesmo, um pouco parlapatão e vendedor fala-barato, sempre disposto a ajudar e ávido por conviver. Chega a ser o salvador de Tintim. É sempre muito afável e mexido, ao ponto de felicitar prontamente o Capitão Haddock em “As Jóias de Castafiore”. Ninguém vence o Senhor Oliveira da Figueira em adaptabilidade; ele safa-se sempre, ou acredita que se safa sempre, e quase sempre está disponível para ajudar os outros a safarem-se. E sempre amavelmente, ao sabor das circunstâncias, com uma palavra habilidosa e com um sorriso. E só não tenta vender areia no deserto porque tal não lhe terá ocorrido.

Alguns dirão que Hergé é simpático com os portugueses através desta sua personagem. Outros dirão que os apouca, ou mesmo ridiculariza. Alguns verão uma pitadinha de xenofobia do belga. Talvez Hergé tenha convivido connosco, ou talvez não. Ou talvez tenha lido os nossos escritores que nos retrataram. Por exemplo, Diogo do Couto, no seu “Soldado Prático”. Diogo do Couto – isso é certo – não tinha nada de belga e conviveu connosco; mais, ele era um de nós, e no seu livro das Índias há senhores Oliveira da Figueira. E quatro séculos antes de Tintim.

Advogado, escreve ao sábado

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