terça-feira, 2 de abril de 2019

7 LIVROS QUE MARCARAM A NOSSA INFÂNCIA - Blogue da Bertrand Editora - Somos Livros


“AS AVENTURAS DE TINTIN” (1929-1976), DE HERGÉ

Tintin e Milou são a dupla belga protagonista de grandes viagens e aventuras, que deram origem a dezenas de livros, como “Tintin e os Pícaros”, “As Aventuras de Tintin no País dos Sovietes” ou “Explorando a Lua”.
Portugal foi o primeiro país a publicar as aventuras de Tintin noutra língua que não o francês, através do jornal infantil católico “O Papagaio”, em 1936; e foi também o primeiro país do mundo a publicar a banda desenhada a cores, também por intermédio do mesmo jornal – algo que nem França ou a Bélgica tinham ainda feito.

In https://bertrandptsomoslivros.blog/2019/04/02/7-livros-que-marcaram-a-nossa-infancia/

Cartoon de Pedro Vieira

segunda-feira, 25 de março de 2019

Sabe o que é aquele foguetão gigante do Tintim que está em Carnaxide?


Com a tradução portuguesa de “Objectivo Lua”, o 16.º livro das “Aventuras de Tintim“, editado em 1953, foi um dos mais populares volumes de sempre da série de quadradinhos do cartonista belga Hergé. A obra que explorava a possibilidade de viagens espaciais tinha todos os ingredientes para o sucesso: as personagens já admiradas por milhares de fãs, o mistério do espaço e um incrível foguetão vermelho e branco, que se viria a tornar numa imagem icónica da obra.


Há vários anos que milhares de moradores ou trabalhadores na Grande Lisboa se debatem com uma enorme dúvida existencial: como é que este foguetão do Tintim foi parar à Serra de Carnaxide, em Oeiras?

Claro que não é “o” foguetão, todos sabemos (não custa sonhar). Mas as semelhanças são incríveis, suficientes para fazer estas comparações e encher o Instagram com piadas.

A NiT lançou-se por isso numa missão onde o objetivo não era a Lua, mas igualmente difícil: saber exatamente o que é aquele equipamento; de onde veio, para o que serve, porque ali está, desde quando e, em nome de Milu, por que é tão parecido com o foguetão vermelho e branco dos livros do Tintim.

Não foi fácil, dizíamos. Primeira paragem: junta de freguesia de Carnaxide, o poder mais localizado. Que nos remeteu para a Câmara de Oeiras. Que nos deu algumas respostas, mas nos remeteu para a Direção de Faróis, porque o Marco Geodésico de Carnaxide (o nome aproximado que tínhamos), é afinal um farol, situado num marco geodésico.


E entre estas duas entidades, conseguimos então desvendar o mistério.

Explica-nos a Câmara que o Farol da Mama, Marca da Mama ou Mama Sul é um farol português que se localiza na Serra de Carnaxide, concelho de Oeiras, distrito de Lisboa, a cerca de quatro quilómetros a noroeste do Farol do Esteiro.

O farol, adianta a mesma fonte, consiste num monumento branco com três pés, estando a lanterna instalada numa plataforma elevada.

Juntamente com o Farol da Gibalta e o Farol do Esteiro, estes três equipamentos constituem o enfiamento sul da Barra de Lisboa, que fazem uma triangulação.

A Marca da Mama, onde ele se situa, já existe desde 1857, segundo os registos disponíveis, constituindo a marca posterior da Barra Sul do Porto de Lisboa.

Ou seja: é um farol, instalado num Marco Geodésico. E o que é um Marco Geodésico? São construções cilíndricas, também chamadas de talafes, em formato cónico, que marcam uma posição cartográfica exata. Integram sempre uma rede de triangulação com outros marcos e existem sempre em locais elevados.

Em 1995, o farol no marco foi então iluminado com uma lanterna direcional Tideland e, como estrutura de apoio à navegação, passou para jurisdição da Autoridade Marítima Nacional, operacionalizada pela Direção de Faróis.

Esta entidade oficial ajudou a NiT a unir os pontos que faltavam: o Farol do Marco da Mama está unido ao marco e está em pleno funcionamento, sendo um assinalamento de referência no enfiamento da entrada da Barra de Lisboa.

Sobre o seu aspeto de foguetão de Tintim (que até é recente, mas já lá chegaremos), a Direção de Faróis explica que a grande maioria dos assinalamentos marítimos (faróis, farolins, bóias, balizas) apresentam cores, listas, formas ou padrões que conferem a “conspicuidade da estrutura” para que ela seja vista de forma mais fácil ao longe. 

Mas a entidade assume as semelhanças, ainda que sejam puras coincidências. “A forma atual do farol de facto remete para a imagem que refere, contudo nem sempre teve esta forma. Por vezes existe a necessidade de alterar, substituir ou reconfigurar as marcas de assinalamento devido a vários fatores. Neste caso teve a ver com a construção imobiliária a desenvolver naquele local. Daí a necessidade de elevar a estrutura e alterar a configuração do farol”.

Ou seja, o misterioso aspeto surgiu após umas obras, de mudança de luz e de elevação do Farol, para lhe dar mais visibilidade à medida que a sua área envolvente ganhava cada vez mais urbanizações.

Em outubro de 2010, o Farol da Marca da Mama foi apagado e retirado todo o equipamento luminoso, adianta a Direção. A torre foi então intervencionada e aumentada em 14 metros a partir da plataforma onde estavam montados os equipamentos antigos, totalizando assim uma altura de 13,20 metros. E foi pintada de listras vermelhas. Atualmente encontra-se equipado com uma ótica de LED.

Nos livros de Tintim, a origem do famoso xadrez vermelho e branco do foguetão estava ligada diretamente a uma prática estabelecida pelos engenheiros da NASA para medir os movimentos de rotação durante o lançamento dos seus foguetões, que o livro quis replicar.

Na Serra de Carnaxide, as riscas brancas são meramente decorativas. Infelizmente, o espaço não pode ser visitado.

In NiT

quinta-feira, 21 de março de 2019

Cláudia Ribeiro - A Xangai de O Lótus Azul

Cláudia N. M. Q. Ribeiro
Doutorada em História e Filosofia das Ciências pela Faculdade de Ciências de Lisboa. Mestranda em Estudos Asiáticos na Universidade Católica de Lisboa. Autora do livro “No Dorso Do Dragão” e tradutora do livro “Dao De Jing”. 

Resumo:
O Lótus Azul é a obra de Hergé onde as dimensões históricas, políticas e etnográficas de um país foram mais bem transmitidas. Desde há mais de oitenta anos tem sido a porta de entrada de milhares de crianças (e adultos) para o conhecimento da China e da sua civilização, despertando-lhes amiúde um interesse perene. Nesse sentido, pretendo aqui averiguar a veracidade do retrato de Xangai que Hergé nos oferece. Começo pelos acontecimentos que estiveram na base da elaboração do álbum, nomeadamente a amizade entre Hergé e Tchang Tchong-jen. De seguida, convocando estudos relacionados com a Xangai dos anos trinta, tento apurar o grau de realismo com que a cidade é apresentada, mapeando tanto as suas características urbanas como o contexto socio-político da época. Por fim, analiso o modo – que nada tem de inocente – como Hergé representa os vários grupos étnicos que então habitavam Xangai.

terça-feira, 19 de março de 2019

Figuras de Tintin #70: Dupont marinheiro

Dupont e Dupond estão a bordo do Sirius com uma missão muito particular: proteger Tintin e o capitão Haddock, ao que parece ameaçados pela presença de Máximo Pardal, o antiquário que viram a rondar os arredores do navio. E, como sempre, os polícias não estão com meias medidas. Com o objectivo de se misturarem "discretamente" com a tripulação, escolhem uns fatos de marinheiro... muito diferentes daqueles que vestem os membros da guarnição do Sirius.

A referência da estatueta encontra-se na vinheta D3 da página 14 de "O tesouro de Rackham o Terrível".

Figuras de Tintin #70: Dupont marinheiro, Éditions Moulinsart [distribuído em Portugal pela Altaya], livro de 16 pp. + estatueta + passaporte, 12,99€


sábado, 16 de março de 2019

Figuras de Tintin #68: Haddock alpinista

No Tibete, como em qualquer outro lugar, o capitão Haddock nunca viaja sem o seu whisky. Desgraçadamente, o conteúdo da sua mochila, neste caso dezenas de garrafada sua bebida preferida, parte-se aos bocadinhos ao cair-lhe uma pedra sagrada que saltou de um tsorteng que Haddock decidiu ultrapassar pela direita. E o xerpa Tharkey bem o avisou: estes monumentos devem passar-se pela esquerda, caso contrário os demónios enfurecem-se! Milagrosamente, uma garrafa escapa ao desastre, mas quando ele se prepara para beber um trago, os carregadores impedem-no: o ieti adora álcool e o cheiro pode atrair o monstro até ao acampamento, um risco que não estão dispostos a correr. E tinham razão: o Abominável Homem das Neves acaba por roubar e ver a preciosa beberagem do capitão. O suficiente para desencadear um ataque de fúria.

A referência da figura encontra-se nas vinhetas B1 e B2 da prancha 26 de "Tintin no Tibete".

Figuras de Tintin #68: Haddock alpinista, Éditions Moulinsart [distribuição portuguesa da Altaya], livro de 16 pp. + estatueta + passaporte, 12,99€ 



terça-feira, 5 de março de 2019

O sobrenatural nas aventuras de Tintin

Para além do meu conhecido interesse pela literatura fantástica, particularmente pela literatura de terror – e, dentro desta, mais especificamente ainda pelas narrativas de terror sobrenatural – outras áreas me despertam a atenção desde a juventude, entre elas a das histórias em quadradinhos ou, como passou a ser costume dizer, da Banda Desenhada.

Claro que são múltiplos os pontos de contacto entre uma coisa e outra. Nomes como os de Richard Corben, Berni Wrightson e muitos, muitos outros são exemplos de autores de Banda Desenhada que se dedicaram à área do terror. No panorama editorial norte-americano, por exemplo, diversas revistas que desenvolviam esse campo específico ficaram célebres, podendo referir-se entre outros, títulos como Tales from the Crypt, Vault of Horror (ambas 1950-1955), Creepy (1964-1983), Eerie (1966-1983), etc. Modernamente, não se pode também deixar de referir múltiplas adaptações de clássicos como as obras de H. P. Lovecraft, E. A. Poe, M. A. James, etc., ao formato da história em quadradinhos.

Mas para além dessa produção especializada, sucede muitas vezes que temas sobrenaturais ou ligados ao sobrenatural ocorrem igualmente nas obras de autores não especializados.

Entre as mais importantes personagens da Banda Desenhada internacional e particularmente europeia encontra-se sem dúvida Tintin, herói criado pelo autor belga Georges Remi (1907-1983), celebrizado com o pseudónimo Hergé, sucedendo que a publicação da sua primeira aventura, sob o título completo Les Aventures de Tintin, reporter du “Petit Vingtième”, au pays de Soviets, teve início no dia 10 de Janeiro de 1929, ou seja, há noventa anos; o Petit Vingtième era, como se sabe, o suplemento infanto-juvenil do jornal diário belga Le Vingtième Siècle, que se publicou entre 1895 e 1940.

Ao longo de perto de duas dúzias de histórias, Hergé serve-se da sua famosa personagem para traçar uma verdadeira crónica de boa parte do século XX. Pelas páginas que narram as aventuras de Tintin perpassam temas de grande actualidade para a história política e social da época: guerras, revoluções, tráfico de estupefacientes ou de armamento, a questão da escravatura, os problemas ligados à exploração do petróleo, etc.

Ora, juntando-se o interesse pelas histórias sobrenaturais ao gosto pela Banda Desenhada e em especial pelas aventuras de Tintin, surge com toda a naturalidade, uma pergunta: haverá, nas histórias idealizadas por Hergé, a intervenção de fenómenos ou de episódios sobrenaturais?

Foi isso que me propus verificar, examinando a colecção dos álbuns de aventuras do nosso herói. Não sendo muitos os casos detectados, nem se podendo, de modo algum, dizer que o sobrenatural desempenhe nas aventuras de Tintin um papel de relevo, a verdade é que tão-pouco se encontra completamente ausente.

Passemos pois à análise dos casos em que os fantasmas – verdadeiros ou imaginados –, em obediência a uma deixa apropriada, entram em cena, nem que seja por breves instantes!

As páginas indicadas referem-se às mais recentes edições da firma belga Casterman.

TINTIN EN AMÉRIQUE

O detective Mike MacAdam, que já anteriormente tinha procurado colocar os seus prodigiosos poderes de dedução ao serviço de Tintin, quando este procurava o desaparecido Milou – e que começa por se apresentar [pág. 45] como o detective (privado) do hotel onde Tintin está hospedado, para mais adiante [pág. 58] aparecer como enviado pela própria polícia – usa desta vez o faro canino para chegar ao dono raptado.

Não havendo nada de concretamente sobrenatural em toda a cena, a verdade é que o tratamento da imagem, contra o fundo nocturno, especialmente da mão que se estende pelas costas do detective, bem como o evidente medo que este sente (“Tout de même, ce nést pas três rassurant, tout ce noir”, logo seguido de “secouons-nous, que diable!” [pág. 58]) e até o cheiro inexplicado sentido por Milou [pág. 58], está eivado de elementos comuns às histórias de terror: a mão descarnada poderia facilmente pertencer a um vampiro ou aventesma quejanda, cuja condição cadavérica explicaria o mau cheiro.

Deve assinalar-se que Mike MacAdam desaparece para não mais voltar, sendo lícito especular-se sobre o seu destino final…

LES CIGARES DU PHARAON

Durante a recepção em casa do major, os convidados são alertados por um grito de Mrs. Snowball [pág. 39] que, recuperando os sentidos, afirma ter visto um fantasma; essa afirmação é corroborada pelo criado indiano [pág. 39].

Claro que o “fantasma” em questão não é mais que o enlouquecido Prof. Philémon Siclone, que se passeia pelo parque, envolvido num lençol [pág. 39].

Embora o “sobrenatural” tenha aqui uma explicação inteiramente natural e mesmo prosaica, não restam dúvidas de que a imagem tradicional do fantasma, que aparece sob a forma de um lençol (ou coberto com ele) aponta para um mito concreto.

A propósito do papel do lençol na composição da figura espectral, vejam-se também, por exemplo, as aventuras de Arthur, le fantôme justicier, criação de Cézard nas páginas das revistas Vaillant e Pif (Arthur apareceu em Portugal na revista Falcão) e de Casper, inventado na década de 1940 por Seymour Reit e Joe Oriolo.



Ainda em Les Cigares du Pharaon, há que notar que não considero na secção “sobrenatural” os estados alterados de consciência, quer quando Tintin sucumbe a uns fumos narcóticos, que lhe provocam estranhas alucinações, no interior do túmulo de Kih-Oskh [pág. 9], quer quando o pobre Prof. Siclone e mais tarde o escritor Zlotzky enlouquecem, ao serem injectados com o temível radjaïjah [pág. 43], que, como é bem sabido, viria também a ter um papel importante em Le Lotus Bleu. Saliente-se apenas que, enquanto nos casos de Siclone e Zlotzky a loucura se traduz por um comportamento meramente caricatural (Siclone julga-se Ramsés II e Zlotzky afirma ser Napoleão), o que, de resto, acaba por ser imitado por Tintin em Le Lotus Bleu, quando se faz passar por louco para escapar a Mitsuhirato (que lhe injectou um líquido inofensivo julgando tratar-se do terrível veneno), já Didi, o filho de Wang Jen-Ghié – novamente em Le Lotus Bleu – atinge um estado contemplativo, citando Lao Tzu (*).

(*) – Lao Tzu (老子), também transliterado como Laozi, Lao Tse, etc., filósofo chinês, autor do texto taoista fulcral Tao Te Ching, que terá vivido – se realmente existiu, diga-se – algures entre os séculos VI e IV antes de Cristo.

LE LOTUS BLEU

Os prodígios exibidos pelo faquir Cipaçalouvishni, como caminhar sobre cacos de vidro, atravessar-se com facas ou sentar-se sobre um leito de pregos [pág. 2], não mereceriam talvez a inclusão no plano sobrenatural, mas sim numa espécie de “super-natural”, que abrangeria fenómenos que a Ciência contemporânea não explica mas que tão-pouco obrigam à intervenção de forças ou entidades estranhas ao nosso plano de existência.

Já os dotes premonitórios que o faquir manifesta [pág. 3] pertencem claramente a uma esfera distinta. É importante recordar que a capacidade de adivinhar o futuro volta a ter um papel significativo em Les 7 Boules de Cristal.

L’OREILLE CASSÉE

Mais uma vez um equívoco leva uma das personagens femininas a imaginar que há fantasmas envolvidos nas peripécias em curso. Desta vez, não há qualquer ilusão visual, mas uma voz misteriosa identifica-se claramente como o falecido senhor Balthazar [pág. 8].

Três imagens mais adiante [pág. 9], o pretenso “fantasma” é identificado como sendo o papagaio do falecido, fazendo gala das capacidades vocais por que estas aves são bem e justamente conhecidas.

L’ÎLE NOIRE

Estabelecemos já, de certo modo, que as aventuras de Tintin não têm, de modo geral, genuínos elementos sobrenaturais. Não obstante, há um tipo específico de narrativa – com raízes no romance gótico do século XIX – que é característico do conto sobrenatural e são as idiossincrasias desse género literário e alguns dos mitos que o povoam que conseguimos encontrar aqui e além.

Nas aventuras escocesas de Tintin, não poderia faltar, ainda que de forma suave, esse elemento de pavor, sob a forma do monstro desconhecido que habita a Ilha Negra [págs. 41,42].

Com efeito, sendo a Escócia, com os seus castelos em ruínas, lagos profundos e misteriosos e densos nevoeiros sobre pântanos inóspitos, a terra dos fantasmas por excelência, mal pareceria que

Hergé não utilizasse minimamente esse imaginário no seu argumento.

Deve notar-se que a cena no pub “The Kiltoch Arms”, em que o velho escocês adverte Tintin dos perigos que o monstro representa para quem se aventure nas águas do Loch ou na ilha propriamente dita [pág. 42], é digna da melhor tradição dos filmes de terror, particularmente dos filmes de vampiros!

Note-se que L’Île Noire data de 1938, enquanto o Nosferatu de F. W. Murnau é de 1922 e o Dracula de Tod Browning, de 1931.

Esses filmes claramente marcaram o tom de dúzias e dúzias de outros que foram sendo feitos depois e uma das cenas capitais é precisamente aquela em que o herói, seja ele Jonathan Harker ou outro, parando numa estalagem perdida algures na Transilvânia, a caminho do desfiladeiro de Borgo e do castelo do Conde Dracula, é confrontado com o pavor dos aldeões que frequentam o estabelecimento e que procuram dissuadi-lo de seguir viagem, alertando-o para vagos perigos.

Um caso exemplar de utilização da mesma cena pode encontrar-se também no filme An American Werewolf in London (1981), de John Landis.

A cena do pub em An American Werewolf in Londo 

Claro está que na aventura de Tintin tudo acaba por ter uma explicação natural, sob a forma de um gorila gigantesco (mas dócil). Contudo, antes de essa verdade ser revelada, o mistério perdura, na sua forma mais inquietante…

Finalmente e ainda a propósito do cenário da porção final desta aventura, não podemos deixar de recordar as lendas rodeando o famoso Loch Ness, junto a Inverness, nas High Lands escocesas.

Na verdade, embora relatos da presença de uma criatura aquática desconhecida nas águas do lago fossem já conhecidos no final do século XIX, foi na década de 1930 – precisamente a década em que Hergé escreveu L’île Noire – que apareceram as primeiras fotografias e filmes minimamente nítidos do misterioso ser.


Nessie
O “Nessie”, como é carinhosamente chamado na Escócia, guardou até aos nossos dias o segredo da sua identidade, mas converteu-se num mito popular, celebrado num pequeno e interessante museu na localidade de Drumnadrochit. Certamente Hergé não terá ficado indiferente à poderosa imagética associada, não sendo pois estranha a escolha da localização do refúgio dos falsários. O próprio Tintin menciona a famosa criatura criptozoológica.

LE SECRET DE LA LICORNE

Quando os irmãos Loiseau comunicam com Tintin, encarcerado na cave do Château de Moulinsart, como se identificam inicialmente? Os de melhor memória responderão prontamente: como o fantasma do Chevalier de Hadoque [pág. 37]!

O caso é que Tintin apanha um verdadeiro susto, tanto assim que corre a esconder-se atrás de uma coluna! Vemos pois que o nosso herói, por muito destemido e racional que seja, não e imune à ideia do sobrenatural…

LES 7 BOULES DE CRISTAL

A aventura Les 7 Boules de Cristal data de 1948. Vinte e seis anos antes, Howard Carter, apoiado pelo seu mecenas, o aristocrata Lord Carnarvon, tinha descoberto, no Vale dos Reis, o túmulo do faraó egípcio Tutankhamon.

Associada à abertura do túmulo, foi muito falada uma lenda sobre uma suposta maldição lançada pelo antigo faraó contra aqueles que viessem a perturbar o seu descanso.

O que é verdade é que Lord Carnarvon faleceu no início de 1923 (sem ter chegado a ver a múmia e o sarcófago de Tutankhamon) e conta-se que no momento da sua morte ocorreu na capital egípcia uma falha eléctrica inexplicável, enquanto em Inglaterra a cadela do falecido teria uivado e caído morta no mesmo momento; nos meses seguintes morreriam também um meio-irmão do lorde, a sua enfermeira, o médico que fizera as radiografias e outros visitantes do túmulo. Para além disso, no dia em que o túmulo foi aberto de forma oficial, o canário de Carter foi engolido por uma serpente, animal que se acreditava proteger os faraós dos seus inimigos. Os jornais da época fizeram eco destes factos e contribuíram de forma sensacionalista para lançar no público a ideia de uma maldição. Curiosamente, Howard Carter, descobridor do túmulo, viveu ainda durante mais treze anos.

Estas lendas chegaram rapidamente a Hollywood, onde, em 1932, Karl Freund realizou The Mummy – com Boris Karloff no papel do príncipe egípcio Im-ho-tep, sacrílego condenado a ser enterrado vivo e que acaba por voltar à vida depois de aberta a sepultura –, o primeiro de diversos filmes sobre as maldições associadas a múmias egípcias (se bem que já em 1911, 1912 e 1923 se tivessem realizado filmes com o mesmo título, mas todos eles na área da comédia!).

Que a história da maldição de Tutankhamon é uma fonte de inspiração para Les 7 Boules de Cristal, é patente desde a quinta imagem da história [pág. 1], em que o companheiro de viagem de Tintin, que já tinha prenunciado consequências nefastas para os exploradores que, andando pelo Peru e pela Bolívia, tinham descoberto e trazido consigo para a Europa a múmia do rei inca Rascar Capac, diz expressamente: “Eh bien, cette histoire de momies… Souvenez- vous de Tout-Ankh- Amon, jeune homme!…”; e, logo a seguir, “Songez à tous ces égyptologues qui sont morts mystérieusement après avoir ouvert le tombeau de ce Pharaon… Vous verrez, la même chose arrivera à ceux qui ont violé la sépulture de cet inca…”.

Eis-nos, pois, em pleno sobrenatural, com uma maldição do além-túmulo sobre os profanadores da sepultura.

No entanto, a primeira verdadeira manifestação sobrenatural nesta história dá-se em pleno teatro, quando Ragdalam, o faquir, e a vidente Yamilah, passam de um número circense devidamente encenado para um conjunto de revelações autênticas, claramente inexplicáveis, que deixam assombrado o próprio Ragdalam [págs. 8,9].

As revelações de Yamilah fazem a ponte com a descoberta da múmia de Rascar Capac, visto que Madame Clairmont é precisamente a esposa de um dos exploradores que a encontraram nas montanhas andinas.

Mas as manifestações sobrenaturais propriamente ditas começam durante a noite, em casa do Prof. Hippolyte Bergamotte.

Não nos referimos à bola de fogo que invade a sala do professor, entrando pela chaminé, e provoca efeitos físicos diversos de destruição, culminando na volatilização da múmia inca, confirmando a maldição gravada no antigo túmulo (“Et le jour où, dans un éclair éblouissant, Rascar Capac aura déchaîné sur luimême le feu purificateur […]”, [pág. 32]). Na verdade, o fenómeno raro do “raio globular” (em francês, “la foudre en boule”), ainda não totalmente explicado pela Ciência, consiste numa descarga eléctrica de forma circular, pensando-se que possa ser constituído por um círculo de plasma ou de gás ionizado, com origem na atmosfera, que, atingindo o solo, se desvanece rapidamente; normalmente associado a tempestades, o raio globular produz, segundo os testemunhos disponíveis, um som formado por zumbidos e estalidos, libertando um cheiro de enxofre ou ozono (o que, de resto, é corroborado pelo Prof. Tournesol, que afirma: “Moi aussi!… Et ça sent même très fort: le soufre, n’est-ce pas?”, [pág. 32]).

Acresce que este cheiro a enxofre ajuda a estabelecer o clima sobrenatural, visto o enxofre estar associado às emanações infernais! O fenómeno pode ainda interferir em emissões de rádio, deixando rasto à passagem; segundo consta, pode causar nos seres humanos queimaduras, paralisia ou mesmo a morte.

Queremos, isso sim, destacar o pesadelo que, durante a noite, aflige simultaneamente Tintin, Haddock e Tournesol.

Nesse sonho, a múmia de Rascar Capac, tendo ganho vida, vem assombrar os nossos heróis, revelando-se responsável pelas bolas de cristal cujos gases misteriosos deixam inanimadas as suas vítimas [págs. 32,33].

O pesadelo é de tal modo real que até o Prof. Tournesol, cientista experimentado, logo pouco dado a superstições, fica convencido da autenticidade do espectro.

OBJECTIF LUNE

Aqui, o sobrenatural volta a ser puramente imaginário. Desta vez, são os Dupondt os afectados, com a aparição de um misterioso esqueleto [págs. 23-25].

O esqueleto, símbolo da morte, é, evidentemente, uma imagem corrente nas histórias de fantasmas, sem dúvida assustador, quando animado por vida inesperada… Excepto, evidentemente, se se trata da nossa própria estrutura óssea…

TINTIN AU TIBET

Há, evidentemente, um certo número de fenómenos cuja realidade está longe de estar comprovada e cuja natureza, caso sejam autênticos, é totalmente desconhecida da Ciência actual.

Entre esses fenómenos contam-se, por exemplo, a telepatia – ainda assim, dos mais estudados –, a telequinésia e a levitação. No mosteiro do Tibet, o monge budista Foudre Bénie eleva-se nos ares e tem visões [pág. 44]. Não se trata de qualquer número circense, nem de qualquer habilidade de palco. A seriedade de todo o cenário envolvente, a solenidade do local, a própria ingenuidade de Foudre Bénie e a habituação dos seus companheiros impedem-no claramente. Estamos perante fenómenos autênticos. Se é já a terceira vez que a capacidade de clarividência ocorre nas aventuras de Tintin (as anteriores haviam sido protagonizadas por Cipaçalouvishni, o faquir de Le Lotus Bleu, e por Yamilah, em Les 7 boules de cristal), a levitação faz aqui a sua primeira e única aparição.

Poderemos enquadrar estes fenómenos na área do “sobrenatural”? Parece seguro responder afirmativamente, pelo menos enquanto não forem encontradas explicações científicas em que se possam fundamentar. Mais ainda, as capacidades pouco usuais de Foudre Bénie derivam, ao que tudo indica, do acesso a um plano superior de existência, cuja porta de entrada envolve uma vida ascética de contemplação e meditação. Como parte de uma experiência religiosa, em muito semelhante, na religião cristã, aos casos de estigmatização, de descrição de aparições – que são relativamente vulgares, mesmo nos nossos dias – de levitação, etc., estes fenómenos não podem deixar de se considerar como ultrapassando a esfera da Natureza física e de penetrar, portanto, no sobrenatural.

LES BIJOUX DE LA CASTAFIORE

Uma vez mais nos deparamos com um falso fantasma. Bianca Castafiore vê uma coruja junto à janela e assusta-se terrivelmente [págs. 14,15]; e em vez de procurar uma explicação simples e razoável, a sua interpretação do que acaba de ver leva-a imediatamente ao reino do sobrenatural

Adenda:

Ainda dentro das representações do sobrenatural, haverá que apontar o episódio de Objectif Lune [pág. 49] em que o Capitão Haddock se disfarça de fantasma para tentar asustar Tournesol e assim levá-lo a recuperar a memória. Coberto por um lençol e com as tradicionais correntes, o Capitão exclama (subentendendo-se que em voz cavernosa e ameaçadora): “Houwou!… Houwou!… Prends garde, Tryphon, je suis un fantôôôme!…” e “Ha-ha-ha!… Tremble, ô mortel, car je vais t’emporter chez le dia-a-a-ble!…”.

CONCLUSÃO:

Fica bem claro que nenhuma das aventuras de Tintin de pode – de perto ou de longe – incluir no campo da literatura de terror ou do sobrenatural, nem outra coisa sendo de esperar de uma obra que se presume agradar a um público na faixa etária “dos 7 aos 77 anos”, segundo a expressão bem conhecida, mas que foi primariamente concebida para uma audiência juvenil.

Não quer isto dizer que Hergé não tenha recorrido, mais que uma vez, a elementos decididamente fantásticos, nomeadamente em Les 7 Boules de Cristal, com a descrição – para além dos aspectos acima referidos –, dos estranhos poderes dos incas, em Les Cigares du Pharaon, atendendo às misteriosas capacidades do faquir, e ainda em Tintin au Tibet, como acima se observou. Também a ficção científica não anda ausente, com a viagem à Lua, no duplo álbum Objectif Lune/On a Marché sur la Lune, o uso do mini-submarino em Le Trésor de Rackam le Rouge, a participação do Abominável Homem das Neves em Tintin au Tibet e dos extraterrestres nos seus discos voadores em Vol 714 pour Sydney.

Mas o que fica patente no estudo efectuado é a utilização de ícones, ambientes e conceitos comuns à literatura de terror. Essa utilização não poderá ter deixado de ser feita com toda a consciência e encerra evidentes ecos da literatura gótica – e até dos chamados “romances de cordel” – de finais do século XIX e inícios do século XX, com as suas hostes de monstros, fantasmas e outras aventesmas. Trata-se, portanto, de mais uma perspectiva de análise da obra de Hergé.

No dia 10 de Janeiro, comemoraram-se os 90 anos da mítica personagem Tintin,  a publicação das suas aventuras se iniciou no dia 10 de Janeiro de 1929, para encanto de sucessivas gerações de leitores.

António Monteiro in revista BANG

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Figuras de Tintin #64: O Professor Siclone com o pincel

Egiptólogo de nome antiquado e apelido que evoca o caos que semeia involuntariamente à sua passagem, Filemón Siclone, um verdadeiro ciclone com direito a "S" maiúsculo, distrai-se até com o voo de uma mosca. Completamente alheio à realidade da gente normal e tão extravagante como a sua ridícula indumentária, este cientista desatinado tem uma obsessão incontrolável: encontrar o túmulo do faraó Kid-Oskh, cujo fantasma o atormenta, inclusivamente na selva, quando enlouquece de vez, vítima do misterioso radjaijah.

A referência da estatueta está na vinheta B1 da prancha 36 do episódio "Os charutos do faraó".

Figuras de Tintin #64: O Professor Siclone com o pincel, estatueta+livro de 16 pp.+passaporte, Edições Moulinsart [distribuído em Portugal pela Altaya], 12,99€


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Figuras de Tintin #69: O senhor Boullu marmorista

Isidoro Boullu não conhece a ansiedade e o estresse. Nunca está com pressa. No entanto, tem o dom de irritar, incomodar e até exasperar os outros. Confrontado com os pedidos imperiosos dos clientes, mostra sempre a mesma fleuma, a mesma placidez e aquele tom afável e exageradamente educado, revelador de uma grande pataratice. Boullu é um hipócrita porque, apesar de respirar tranquilidade, mente com todos os dentes e é um autêntico mestre na arte de enrolar conversa.

A referência da figura encontra-se na vinheta C1 da prancha 62 de "As jóias de Castafiore".

Figuras de Tintin #69: O senhor Boullu marmorista, Éditions Moulinsart [edição portuguesa da Altaya], figura+livro de 16 pp.+ passaporte, 12,90€



12º aniversário do Blogue! Parabéns!!!


terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Figuras de Tintin #62: O cavaleiro Francisco de Hadoque

Só um nome próprio e uma preposição distinguem Francisco de Hadoque de Archibald Haddock. Separam-nos séculos de histórias, mas Haddock é a réplica fiel do seu ilustre antepassado: a mesma fisionomia, o mesmo ardor combativo, o mesmo gosto inato pelo álcool e pelos insultos. Capitão da marinha ao serviço do rei Luís XIV, Hadoque também legou o segredo da sua nobre linhagem, o castelo de Moulinsart e o famoso tesouro do Licorne.

A referência da figura desta entrega está vinheta A2 da prancha 16 da aventura "O segredo do Licorne".

Figuras de Tintin #62: O cavaleiro Francisco de Hadoque, Éditions Moulinsart [edição portuguesa da Altaya], figura+livro de 16 pp.+passaporte, 12,90€



Sessão comemorativa na Universidade Lusíada dos 90 anos do Tintin









domingo, 3 de fevereiro de 2019

Lisboa celebra os 90 anos de Tintim

Tintim celebra este ano o seu 90.º aniversário. Esta sexta-feira, dia 1, a partir das 16.30, a The Tintin Shop, a única loja oficial em Lisboa, organizou na Universidade Lusíada um dia dedicado à personagem criada por Hergé.

As Aventuras de Tintim, de Georges Prosper Remi, mais conhecido por Hergé, começaram no suplemento infantil do jornal belga Le Vingtiéme Siécle, a 10 de Janeiro de 1929. Apesar de a história ter ficado incompleta, a ser interrompida no momento em que o herói da série está aparentemente prestes a ser assassinado para ser transformado numa estátua de acrílico, o jovem repórter e viajante continua a ser acarinhado pelos apaixonados por banda desenhada, 90 anos depois do primeiro número.

Entre 1929 e 1976, Hergé escreveu mais de vinte álbuns, traduzidos e publicados em dezenas de países. A primeira história, Tintim no País dos Sovietes, era a preto e branco e o estilo, mais tarde designado “linha clara”, foi sendo aperfeiçoado ao longo dos anos. Esta sexta-feira, poderá celebrar o 90.º aniversário de Tintim com outros “tintinófilos”, na Universidade Lusíada. A partir das 16.30, será inaugurada uma exposição, seguida da projecção do filme Na Sombra de Tintim.

Ao final da tarde, por volta das 18.00, ouviu-se a Ária das Jóias, uma composição de Charles François Gounod e a música preferida de Bianca Castafiore, diva da ópera criada por Hergé. Debaixo dos holofotes estarão os Operawave, com a soprano Cristina Ribeiro, acompanhada ao piano por Manuela Fonseca. Seguiu-se, às 18.20, uma sessão de apresentação.

Às 18.30, realizou-se a conferência que pôs em perspectiva o universo desta BD, por Dominique Maricq, autor das Éditions Moulinsart

O dia fechou com a projecção, às 19.15, do filme No Encalço de Tintim, comentado por Guilherme d'Oliveira Martins, grande coleccionador de banda desenhada; e com uma conferência, às 20.00, por Nino Paredes, presidente da Mil Rayos!, associação tintinófila espanhola.

in Time Out

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Dominique Maricq em Lisboa


O tintinólogo Dominique Maricq, autor de várias obras sobre a obra e vida de Hergé, estará na loja oficial Tintin para uma sessão de autógrafos.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Tintin - As aventuras de um nonagenário

Quando por qualquer motivo numa conversa se menciona Marrocos, além de Paul Bowles, lembro-me de Tintin. Não há nada a fazer. A primeira vez que estive em Marrocos, Tânger, a cidade de Bowles, o capitão Haddock podia surgir a todo o tempo em qualquer esquina da medina. O Caranguejo das Tenazes de Ouro tem essa força: a cor, a cor das pranchas que Hergé tão bem delineou, tão bem desenhou e pintou, impõe-se na nossa memória ao ponto de se tornar omnipresente.

No seu livro Le Monde d’Hergé (Casterman) Benoît Peeters, escritor, argumentista e um tintinófilo, descreve melhor que ninguém essa magia que é pegar num álbum de Tintin e começar a lê-lo como se fosse a primeira vez, apesar de já o conhecermos de cor. Que idade temos nesse momento? 6 anos? 20 anos? 45, 77 ou já 90? Que interessa se, quando folheamos as páginas e engolimos a história, a realidade se dissipa e a idade se dispersa ao ponto de nos reencontrarmos com o que éramos quando entre aqueles quadradinhos, no interior daquela história e entre aquelas personagens, estivemos pela primeira vez. Voltamos a ser o miúdo que sentado na cama e de costas encostadas no travesseiro come bolachas enquanto muda as páginas. Basta querer.

Faz 90 anos que Tintin entrou no comboio que de Bruxelas o levou ao País dos Sovietes, a sua única reportagem e primeira viagem. Seguiram-se África, América, a China, a Arábia e o norte de África, o fundo dos mares e a Lua; do cume dos Andes aos Himalaias. De Moulinsart a uma longínqua ilha do outro lado do mundo. Com Tintin não deixamos apenas de ter idade; passamos também a estar em qualquer lugar.

A linha clara
Quando o meu filho tinha dois anos, sentávamo-nos os dois no sofá, com ele bem enroscadinho a mim, e folheávamos os livros do Tintin. Virávamos as páginas, que eu não lhos lia tão pequeno que era. E o que me surpreendeu foi aperceber-me que, apesar de tudo, o meu filho acompanhava a história apenas pelos desenhos. Curioso, fiz o mesmo: deixei de ler os livros e passei só a vê-los. Sugiro a quem leia estas linhas que faça o mesmo: que pegue num álbum, um qualquer, e em vez de ler o texto dentro dos balões, siga tão só o desenhos, os quadradrinhos, as tiras, as pranchas, as páginas. E verá que a história flui por si mesma já que os desenhos têm vida própria.

É surpreendente colocarmos um livro do Tintin nas mãos de uma criança de dois, três anos e nos apercebermos que elas acompanham a história. Compreendem algumas graças e chegam a colocar perguntas. A pensar e a inquirir. Mas acima de tudo não tiram os olhos de cima do livro. 
Perceber o que é a “linha clara” é viver esta experiência. Mas a “linha clara” não se reduz a um bom desenho. Na entrevista que Hergé concedeu ao mesmo Benoît Peeters a 15 de Dezembro de 1982 (três meses antes de morrer) o criador de Tintin explicou que o conceito de “linha clara” não se limita apenas ao desenho, não apenas ao traço preciso e rigoroso em que cada elemento do desenho se encontra separado dos outros com os quais forma o conjunto, mas ao cenário, ao plano da história e à técnica narrativa. Nessa entrevista, Hergé chama a atenção para as várias obras de banda desenhada em que os desenhos até podem ser lisíveis, mas em que a história, o enredo, se perde porque está mal montado.

Por esse motivo é tão surpreendente colocarmos um livro do Tintin nas mãos de uma criança de dois, três anos e nos apercebermos que elas acompanham a história. Compreendem algumas graças e chegam a colocar perguntas. A pensar e a inquirir. Mas acima de tudo não tiram os olhos de cima do livro. Por isso costumo dizer que quem queira dar hábitos de leitura aos filhos deve começar por aqui: pelo Tintin. Mesmo 90 anos depois.


O humor de Hergé
As primeiras aventuras estão cheias de pequenas tropelias de piada fácil que se foram apurando com o tempo sem jamais se perder a essência do burlesco e do ridículo. Com o desenrolar dos anos esse humor vai-se aprimorando e a piada fácil e óbvia, por vezes até grosseira, atinge níveis de uma impressionante subtileza. Desde a gritaria de Haddock para os berberes do deserto quando partem a tiro a sua garrafa (O Caranguejo das Tenazes de Ouro, p. 37), à graça mordaz de Nestor sobre o capitão que se tornou num novo-rico e que anda a cavalo apesar de só chegar casa depois do pobre animal (As Sete Bolas de Cristal, p. 2). As fúrias do capitão são, aliás, as piadas mais notórias, as que os miúdos melhor apreendem: a sua irritação perante a surdez do Professor Girassol (O Tesouro de Rackham o Terrível, p. 5), as fúrias defronte da insolência do irritante Serafim Lampião ou quando atende vezes sem conta um telefonema dirigido não para si mas para o talho Sanzot (O Caso Girassol); quando, em pleno Atlântico se apercebe que Girassol trocou as garrafas de whisky guardadas em caixas no porão do barco por peças de um submarino e lhe puxa pelos colarinhos vociferando: ‘Mon whisky misérable!… Qu’avez-vous fait de mon whisky?’ (O Tesouro de Rackham o Terrível, p. 20). O que o meu filhote não se riu, ainda se ri, quando brincamos com isto…


Mas há também a comédia visual, a comédia sem palavras, o mero desenho como elevação humorística, a tal linha clara, como na cena do adesivo em O Caso Girassol (p. 45) ou com o equilibrismo de Nestor em As Sete Bolas de Cristal (p. 4). O nonsense de Bianca Castafiore, sempre a leste e à margem do que real, a diva que se julga culta (apesar de corrigida pelo mordomo quando arrisca acertar no estilo da mobília do seu quarto — As Jóias de Castafiore, p. 11 ), pedante e pretensiosa, que vive acima das peripécias dos meros mortais ao ponto de, perante o relato dos inúmeros imprevistos passados por um jornalista para chegar a horas a Moulinsart, onde a ia entrevistar, responder com um lacónico ‘Ah! Oui? … Comme c’est amusant’ (As Jóias de Castafiore, p. 30). Porque para Castafiore tem graça o que os outros, meros desenhos, passam para conseguirem lhe falar. E neste ponto Hergé é sublime, tornando Castafiore numa de nós, uma personagem que tal como os leitores se ri e acha graça, se diverte com que se passa lá dentro. Pessoas que reduzem a simples desenhos. Um humor sibilino que chega a atingir a magia do sublime.

Um mundo visto por um ocidental
Um certo humor de Hergé foi diversas vezes criticado por ser considerado racista ou xenófobo. Alguns dos álbuns iniciais, como Tintin no País dos Sovietes (1929-30), Tintin no Congo (1930-31), Os Charutos do Faraó (1932-34) e até mesmo a Orelha Quebrada (1935-37) revelam a visão que o europeu médio da época, no caso de Hergé, católico e conservador, tinha do resto do mundo. O caso mais exemplar é precisamente o de África, o Congo Belga para o qual, a pedido do padre Norbert Wallez (o editor do Le Vingtième Siècle), Tintin se dirige para que os jovens belgas conheçam e se interessem pela colónia. Hergé contará mais tarde que não conhecia verdadeiramente aquele país nem a realidade africana. Daí a visão que transparece ser a que se comentava na época. O sucesso foi na altura imediato e, apesar das polémicas posteriores que uma obra tão datada provoca, é ainda hoje mais bem aceite em África que nesta Europa agora tão politicamente correcta e incapaz de contextualizar os acontecimentos.

A mudança inicia-se com O Lótus Azul (1934-35). É durante a preparação deste álbum que o criador de Tintin conhece um jovem chinês da sua idade, estudante de Belas-Artes em Bruxelas, que lhe dá a conhecer a cultura chinesa e o impede de cair nos simplismos das aventuras anteriores. Tchang Tchong-yen inicia Hergé na cultura e história chinesas de modo que em O Lótus Azul já não nos deparamos com uma caricatura que os europeus faziam dos outros povos mas com chineses delicados e honestos, homens e mulheres dignos. A amizade entre Hergé e Tchang durou décadas, apesar de não se terem visto durante cerca de 40 anos. Tchang voltou à China em 1935 e apenas regressou à Europa em 1981, altura em que os dois finalmente se reencontraram.

Em Carvão no Porão (1956-57), a fúria do Capitão Haddock é canalizada para atacar os traficantes de escravos, uma realidade hoje tão actual que nos faz pensar. Tintin e os Pícaros (1975-76) é uma crítica à corrupta classe política sul-americana que explora um povo que, à semelhança dos europeus, deseja e merece uma vida melhor e digna.
Hergé chegou mesmo a colocar Tchang na sua história quando Tintin o salva de morrer afogado num rio. “Porque me salvaste a vida?” pergunta-lhe o jovem chinês perante a incredulidade de Tintin. “Sim, porquê?… Eu supunha que todos os diabos brancos eram maus.” Ao que Tintin lhe responde que “Mas não, Tchang, nem todos os brancos são maus. Mas os povos conhecem-se mal. Assim, muitos europeus imaginam que todos os chineses são velhacos e cruéis, usam tranças e passam o tempo a inventar suplícios e a comer ovos podres e ninhos de andorinhas. Esses mesmos europeus estão absolutamente convencidos de que todas as chinesas, sem excepção, têm pés minúsculos e que, ainda agora, todas as meninas chinesas sofrem mil torturas para impedir que os seus pés se desenvolvam naturalmente. Por fim estão convencidos de que todos os ribeiros da China estão cheios de bebezinhos chineses que foram lançados à água, à nascença… e eis, meu caro Tchang, como muitos europeus vêem a China.” Os dois riem-se desalmadamente com Tchang a concluir: “Ah! Como são cómicos os habitantes do teus país.” Este álbum é também interessante porque o humor é utilizado não para satirizar os povos não europeus, mas a simplicidade com que estes encaram os restantes povos do mundo. Assim é com os Dupondt vestidos de chineses, com o intuito de passarem despercebidos, que são alvo da chacota de uma cidade inteira.

A partir daqui Hergé deixa de se guiar pelos estereótipos. Em Carvão no Porão (1956-57), a fúria do Capitão Haddock é canalizada para atacar os traficantes de escravos, uma realidade hoje tão actual que nos faz pensar. Tintin e os Pícaros (1975-76) é uma crítica à corrupta classe política sul-americana que explora um povo que, à semelhança dos europeus, deseja e merece uma vida melhor e digna. E em Tintin no Tibete (1958-59), Hergé retrata os monges budistas como pessoas simpáticas, simples e honestas. Uma alteração relevante se nos recordarmos que, quase trinta anos antes, em Os Charutos do Faraó, o indiano moderno era o marajá e os sacerdotes hindus não passavam de personagens maléficas.

O melhor de nós
O segredo de Tintin é ser normal. Não fica descomunalmente forte após beber a poção mágica como Astérix, nem dispara mais rápido que a sua própria sombra como Lucky Luke. Tintin é o que qualquer um de nós pode ser: corajoso e intrépido, frontal e leal. Decidido e bondoso. Perspicaz e atrevido.

                                   


Tintin no Tibete é, neste sentido, um álbum emblemático. Aqui não há malvados; apenas o infortúnio do avião de Tchang que se despenha nos Himalaias. O amigo de Tintin vinha visitá-lo à Europa (Hergé também precisava que o verdadeiro Tchang o viesse ouvir e aconselhar como antes), mas foi dado como morto nos picos das montanhas. Perante a notícia que lê no jornal Tintin não dúvida por um momento que Tchang esteja vivo e decide ir em socorro do amigo. “Se não vens ter comigo, vou eu ter contigo”, terá pensado Hergé. E o livro é a travessia dos Himalaias, com Tintin e o Capitão Haddock mais o fiel Milu, na crença pouco crível que Tchang tivesse sobrevivido. O enredo é simples, directo, o branco da neve domina, não há nada que distraía Tintin, nem Hergé, da sua busca. O primeiro procura o amigo, o segundo a paz interior. Foi através deste álbum que Hergé exorcizou os fantasmas que o perseguiam desde a infância e adolescência. Uma viagem que o ajudou a atenuar os valores católicos que o impediam de se separar da sua primeira mulher e casar com Fanny Vlamynck, com quem viveu até morrer em 1983.

Porque somos humanos, a perfeição de Tintin torna-o aborrecido e quase patético. Não deixa de ter graça que para evitar que tal suceda, Hergé se socorra de patetas (mais uma pitada de um humor peculiar). Os Dupondt, o Capitão Haddock, o professor Girassol, Bianca Castafiore, Serafim Lampião, o General Alcazar, o senhor Oliveira da Figueira, o bravo Nestor, o Doutor Müller ou até Rastapopoulos, não são mais que a imagem, o desenho, dos defeitos que todos temos. E estando cada um de nós retratados nos álbuns de Tintin, estes tornam-se verdadeiros, uma caricatura inteligente e perspicaz da realidade.

A influência de Hergé na banda desenhada
Hergé é considerado um gigante na BD. Há um antes e um depois dele. Se dermos uma pequena vista de olhos ao que era banda desenhada em 1929 e a comparámos com aquilo em que se tornou a  partir de 1946, percebemos porquê. A linha clara, mesmo antes de ter sido teorizada, tornou-se numa técnica transversal a quase todos os criadores de banda desenhada franco-belga: Astérix, Lucky Luke, Blake e Mortimer, Alix, Ric Hochet, Spirou, Gil Jourdan, Barelli, e muitos outros surgiram aproveitando as portas abertas por Tintin.

Tintin é um universo sem fim. Há sempre uma tira que nos surpreende, uma história escondida, uma pista, mensagem, algo que nos apanha desprevenidos. Há toda uma simplicidade que esconde o que é complexo, demasiado complexo.
Mas Hergé não foi apenas um inspirador de autores de banda desenhada. Chegou mesmo a empregar muitos deles. Os mais importantes foram Edgar P. Jacobs, Jacques Martin e o grande Bob de Moor. Os três trabalharam na revista Tintin, lançada em 1946 pela editora belga de banda desenhada, Le Lombard. É nesta que Jacobs vê publicado O Segredo do Espadão, primeira aventura de Blake e Mortimer; que Jacques Martin publica boa parte de Alix, e em que Bob de Moor apresenta a sua personagem Barelli.

Jacobs, o primeiro colaborador de Hergé, teve um papel fulcral no álbum As Sete Bolas de Cristal, com os desenhos e ambientes da casa do professor Bergamotte, onde Girassol será depois raptado. Jacobs foi ainda responsável pelo cuidado pelo pormenor nas aventuras de Tintin e que Hergé não tinha. Infelizmente, a história entre os dois não é tão bonita quanto se poderia desejar com zangas, incompreensões, rivalidades e pequenas traições pelo meio. Apenas o ponderado Bob de Moor conseguiu ficar de bem com Hergé e com Jacobs tendo, inclusivé, terminado o último volume das Três Fórmulas do Professor Sato que este último deixou inacabado.

                                                     

Apesar de tudo, tanto Hergé como Jacobs não resistiram à tentação de também eles serem parte integrante das aventuras de Tintin. Para os apreciadores procurá-los pode ser um verdadeiro jogo. Os dois surgem em ‘Tintin no Congo’ (p. 1, tira A1); Jacobs aparece no Ceptro de Ottokar (p. 38, tira D1 e p. 59 tira C1); Hergé no Caso Girassol (p. 13, tira C1); Jacobs regressa em Os Charutos do Faraó (p. 8, tira A1) e no Rumo à Lua (p. 40, tira C2).

Tintin é um universo sem fim. Há sempre uma tira que nos surpreende, uma história escondida, uma pista, mensagem, algo que nos apanha desprevenidos. Há toda uma simplicidade que esconde o que é complexo, demasiado complexo. Mas acima de tudo somos nós a pegar nos álbuns e a recuar no passado, sairmos de onde estamos e nos largamos algures, num local que tem todas as condições para existir de tão real parece ser. Para mim, que comecei a ver as histórias de Tintin antes ainda de saber ler (novamente a linha clara), a oportunidade de escrever este pequeno ensaio foi única. A possibilidade de fazer um pouco parte de tudo isto, de honrar a memória de um génio, de um artista: Georges Rémi, Hergé. E talvez quem sabe levar alguém a apresentar este mundo aos seus filhos ou netos.

André Abrantes Amaral in Observador

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Telegrama recebido de Klow nos 90 anos de Tintin

Eis o telegrama que acabamos de receber da cidade de Klow:

«Escrevo no dia 10 de janeiro de 2019, exatamente noventa anos depois da primeira publicação das aventuras de Tintin, no “Petit Vingtième”. Faço-o da cidade de Klow, capital da Sildávia, país adorável dos Balcãs. Aqui passaram-se momentos fundamentais na vida do herói de Hergé., que gosto sempre de lembrar.  Vim passar uns dias de férias a este país, em homenagem a todos os cultores das histórias de quadradinhos. Bianca Castafiore definiu a Sildávia como “um país encantador, para quem gosta de velharias”. A Sildávia nasceu em 1127 quando o chefe tribal Hvegui expulsou os turcos e adotou o nome de Muskar. A Bordúria, o país arquirrival, ocupou a Sildávia em 1195, mas em 1275 a independência foi reconquistada. O rei Otokar IV tornou-se monarca em 1360 quando o barão Staszrvitch reclamou o trono e o atacou com uma espada, mas Otokar derrubou-o com seu cetro – então tornado símbolo nacional. Eis a razão do célebre título “O Cetro de Otokar” E, desde então, o rei da Sildávia deve trazer consigo o cetro e mostrá-lo ao povo no Dia de São Vladimir, sem o que perderá a sua legitimidade. Aquele que tiver o cetro será o novo rei. Sabemos bem que isso é assim pela leitura da obra de Hergé.. Em 1939 a Sildávia ficou sob o risco de uma invasão de sua vizinha Bordúria como parte de um plano para expulsar Otokar XII. Tintin desenvolveu uma estratégia para neutralizar a situação. Assim, de modo pacífico, Otokar XII viu-se regressado à plenitude de poderes no seu pequeno reino, graças ao jovem e destemido Tintin, como um monarca constitucional de seu país. Ordenou a seus ministros e generais que se fizessem as mudanças necessárias para evitar um golpe e uma nova invasão. E assim se iniciou um longo período de paz. Podem crer que é com sentida emoção que aqui me acho. O tempo está soalheiro, mas o frio é bastante… E para minha surpresa, aqui me encontrei quando ia a chegar ao Hotel Astória – Klow, onde estou hospedado, a figura mais bizarra que imaginar se possa, e que aqui veio, como eu, para celebrar os 90 anos de Tintin – bela e vetusta idade – falo-vos da figura rotunda de Oliveira da Figueira, o português mais célebre do mundo. Contou-me, aliás, que é sócio deste Hotel, que nos acolhe. A Bordúria regressou à instabilidade, que parecia afastada. Mas a Sildávia vive momentos de paz e moderada prosperidade, é por isso um bom lugar para prosperar, descansar e comemorar o glorioso aniversário de TintinOliveira da Figueira está velho, mas feliz… Continuarei a escrever-vos desta terra tão acolhedora. Hoje apenas vos escrevo, porém,  para homenagear o herói, prometendo voltar ao relato de viagem nesta terra de História rica em vicissitudes diversas….»

Agostinho de Morais in Blogue do Centro Nacional de Cultura

O autor escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico

sábado, 12 de janeiro de 2019

Figuras de Tintin #63: Tintin carrega Milu

Nesta figura Tintin está zangado. Acaba de correr um grande risco para salvar Milou das garras afiadas de um grande condor. Milou foi mais uma vez vítima da sua gula e Tintin teve de ralhar com o seu inseparável companheiro.

A referência da figura pode ser encontrada na vinheta A2 da prancha 29 de "O Templo do Sol".

Figuras de Tintin #63: Tintin carrega Milu, estatueta + livro + passaporte, Éditions Moulinsart, edição portuguesa da Altaya, 12,99€