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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

No País dos Sovietes



Nos primeiros dias de Janeiro de 1929 o "Petit Vingtième", suplemento juvenil daquele jornal, termina a publicação de "L'Extraordinaire Aventure de Flup, Nénesse, Poussette et Cochonnet". E é na mesma edição que surge um discreto desenho com uma extensa legenda anunciando a chegada dos novos personagens - Tintin e Milou. Em fundo, as cúpulas russas. Em primeiro plano, um jovem de perfil, com uma cabeça redonda, nariz saliente, grandes sobrancelhas e cabelo rebelde caído para a testa. Calça sapatos enormes e usa um fato de golfe aos quadrados. Na legenda: "Acompanhem, a partir da próxima quinta-feira, as extraordinárias aventuras de Tintin, repórter, e do seu cão, Milou, ao País dos Sovietes. A foto acima, uma das últimas que nos foram enviadas, mostra-os a passear pelas ruas de Moscovo sob o olhar desconfiado de um camarada-cidadão-polícia-bolchevista".

https://www.publico.pt/1999/12/02/jornal/tintin-no-pais-dos-sovietes-em-portugues-127274


Primeira aventura de Tintin, "No País dos Sovietes" começou a ser publicada a 10 de Janeiro de 1929, no n.º 11 do "Le Petir Vingtième", suplemento infantil do jornal belga "Le Vingtième Siècle", tendo sido editada em álbum no ano seguinte.

Posteriormente foi considerada pelo autor um erro de juventude, nunca foi redesenhada nem colorida, ao contrário do que aconteceu com as outras aventuras de Tintin publicadas a preto e branco naquele jornal.

Assim, só seria reeditada em 1969, numa edição de tiragem limitada a 500 exemplares, distribuída entre amigos e conhecidos do autor, e, quatro anos depois, nos "Archives Hergé", que reuniam todas as versões a preto e branco das aventuras iniciais.

Dessa forma, o grande público só teve acesso à obra em 1999, setenta anos depois da sua estreia e dezasseis após a morte de Hergé, quando o álbum foi adicionado à colecção regular.

Nesse mesmo ano, a Verbo publicou-o em Portugal, sendo que anteriormente, em 1982, tinha surgido na revista "Tintin" portuguesa. Neste momento convivem nas livrarias a versão a preto e branco e a versão colorida, ambas das Edições ASA.

Pedro Cleto

É o único álbum onde o mais conhecido repórter da história da BD escreve algumas linhas para um jornal e narra as explorações daquele que viria a ser um dos maiores heróis do século XX, numa Rússia observada pela lente deformadora da mentalidade conservadora e católica que dirigia o “Le Petit Vingtième”. A par disto, há uma grande ingenuidade, quer gráfica, quer, especialmente, narrativa, que quase abafa os sinais já existentes dos aspectos que tornariam célebre o seu autor: uma grande legibilidade, um desenho limpo de pormenores desnecessários e o gosto pela aventura, sempre em defesa dos bons e justos, contra os maus e opressores.

Pedro Cleto, JN, 10/01/2004

(argumento e desenho) Edições ASA (Portugal, Setembro de 2010) 160 x 220 mm, 142 p., cor, cartonado 


5+1 Razões para ler este álbum

1. Para descobrir a “pré-história” de uma das mais importantes obras gráficas e literárias do século XX.

2. Como documento da forma de pensar de uma determinada época.

3. Para descobrir as influências do cinema (mudo) em Tintin.

4. Para descobrir como surgiu a poupa de Tintin.

5. Para admirar a única vez que Tintin foi visto a escrever uma reportagem.

+1. Qualquer razão é válida e boa para ler um álbum de Tintin.

As Aventuras de Tintim Repórter do «Petit Vingtiême» no País dos Sovietes começaram a ser publicadas 10 de Janeiro de 1929 no suplemento infantil do diário belga Le Vingtiême Siêcle.

Esta primeira aventura de Tintim viria a ser, em 1930, objecto de um álbum que é hoje raro = muito procurado. Teve, ao que parece, nove edições sucessivas que diferem entre si apenas na menção da tiragem na página de rosto.

Os primeiros quinhentos exemplares são numerados e assinados «Tintin et Milou». Se exceptuarmos uma reedição para uso privado do autor (1969), limitada a quinhentos exemplares, e algumas tiragens ilícitas, foi preciso esperar mais de quarenta anos para que estas aventuras fossem de novo publicadas nó primeiro volume dos Archives Hergé. Nessa obra (onde se encontram também as primeiras versões de Tintim no Congo e de Tintim na América) há mais uma prancha que na edição original, a qual, sem razão aparente, não retoma uma das contidas no número 60 do Petit Vingtiême (deveria ter o número de página 98). Estes Archives deveriam ter sido suficientes para satisfazer os inúmeros fãs das aventuras de Tintim, mas é tal o carácter mítico dos primeiros álbuns em preto e branco que pareceu oportuno reeditá-los na sua forma original. A primeira edição deste álbum em língua portuguesa veio a público no ano do 70.º aniversário de Tintim.

O presente fac-símile reproduz a edição original, excepto quanto à tradução, e respeita a paginação que, curiosamente, começa apenas na segunda prancha. No entanto, foi acrescentada uma página para servir de posfácio. O rosto aqui reproduzido contém de forma totalmente arbitrária a menção da tiragem «seis mil exemplares»; nas edições anteriores à guerra, não existia na página ao lado qualquer referência.

Edição Público - Data de impressão Fevereiro de 2004 - Depósito Legal M-2979-2004

https://pt.scribd.com/document/640334044/Herge-Tintin-01-No-pais-dos-sovietes#page=142

- No segundo número do fanzine português "Saga", editado pelo ABC Cineclube, foram divulgadas 11 pranchas da banda desenhada, numa edição amadora de pouca qualidade. 

- A edição portuguesa da revista "Tintin" publicou, em 1982, a história a partir do número 12 (15º ano), de 31 de Julho de 1982, sem qualquer referência na capa. A aventura seria no entanto interrompida em 2 de outubro de 1982 com o fim da revista.

- A primeira edição em português apenas foi lançada em 1999.  02/12/1999 - https://tintinemportugal.blogspot.com/1999/12/edicao-nacional-da-primeira-historia-do.html

edições em português:

Tintim (As aventuras de) -1- Tintim no país dos sovietes - Verbo - 09/1999

Tintim (As aventuras de) (Fac-simile) - As aventuras de Tintim repórter do "Petit... - Verbo - 09/1999

Tintim (As aventuras de) (Público) -23- As aventuras de Tintim repórter do "Petit... - Público - 02/2004

Tintin (As Aventuras de) - P/B -  Tintin no país dos sovietes - ASA  09/2010.

Tintin (As Aventuras de) - Cor -  Tintin no país dos sovietes - ASA - 11/2021 Edição em português de "Tintin au pays des soviets" - Édition colorisée (2017). DL nº 487085/21.

- A ASA lançou em 06/12/2021 uma versão colorida da obra.

- Hergé acabaria por autorizar, em 1973, a republicação do álbum (reeditado de novo, em "fac-símile", no ano de 1981 com uma tiragem de 100 mil exemplares).

Em Janeiro de 1929, quando Tintin no País dos Sovietes começou a ser publicado no Le Petit Vingtième, Hergé tinha 22 anos. O padre Norbert Wallez, ultra-direitista director do jornal onde aquele suplemento juvenil se inseria, incentivou o seu jovem colaborador a produzir uma nova história onde se imaginasse uma viagem à Rússia, na qual os comunistas aparecessem como vilões. Hergé leu e usou como quase exclusiva base para isso a recente obra Moscou sans Voiles (Moscovo sem Véus, 1928), da autoria de Joseph Douillet, ex-cônsul belga que vivera e trabalhara durante nove anos em Rostov, na Rússia soviética. O desenhador chegou mesmo a reproduzir passagens inteiras deste livro, adaptadas aos quadradinhos.

https://largodoscorreios.wordpress.com/2016/10/02/os-russos-estao-de-volta-restaurados-e-a-cores-dois/

Outra interessante questão tem a ver com a história publicada no Le Petit Vingtième onde foi incluída uma prancha, ou página, nunca mais reproduzida, com excepção do luxuoso álbum n.º 1 dos Archives Hergé, em 1973. Essa página “desaparecida” incluiu-se entre as 98 e 99, podendo “denominar-se” por isso 98a. Foi publicada no dia 18 de Dezembro de 1929.

https://largodoscorreios.wordpress.com/2016/11/02/o-eterno-tintin/

Obra inicial de um autor mais tarde universalmente aclamado, Tintin au Pays des Sovietes, numa temática anti-comunista que envergonhou o próprio Hergé (ah, os artistas julgam sempre tão mal as suas obras primevas!) esta obra revela um desenho rico em bonitas formas, bom jogo de manchas e um desenho muito proporcionado! Agora temos a sua versão colorida que favorece sobremaneira os desenhos!

Este livro tem desenhos e sequências magnificamente executadas!

O modo como Hergé conseguiu dotar o Tintin da sua poupa é notável!

José Abrantes, Facebook, 04/01/2017

ler texto de 1999 da autoria de Geraldes Lino

https://tintinemportugal.blogspot.com/2011/07/tertulia-bdzine-17.html

O que faz de Tintin uma série tão apreciada ao longo das gerações, perguntávamos na semana passada?

Desde logo, as características da personagem, herói moderno com virtudes antigas: Tintin é corajoso, é leal, é intrépido, é justo, é compassivo e é casto. E deve acrescentar-se a mestria de Hergé: um engenho aprimorado da narrativa, misturando o apelo da actualidade com uma visão humanista e um apurado sentido do gag. Milu é a perfeita personagem adjuvante, função que mais tarde repartirá com o Capitão Haddock.

Todas essas qualidades aparecem em Tintin no País dos Sovietes. Sim, é um trabalho dum jovem, mas o talento já se manifesta, apesar das puerilidades e da influência do catolicismo reaccionário. Se as pranchas são vulgares quanto à disposição das vinhetas, estão bem conseguidas no dinamismo da composição, contribuindo com eficácia para o ritmo vertiginoso da narrativa, nas suas 137 folhas: na segunda prancha deparamos com o primeiro vilão e a primeira explosão; na terceira, a primeira detenção; na quinta, a primeira cena de pancadaria e o primeiro disfarce; à sexta, a primeira perseguição automóvel…

Obra de propaganda, é verdade, mas se pesquisarmos os delírios propagandísticos que se seguiram, veremos que Tintin no País dos Sovietes é mesmo aquilo que é: uma brincadeira de crianças.

http://filacteras.blogspot.com/2019/08/bdteca-tintin-no-pais-dos-sovietes.html

“Tintim no País dos Sovietes” é a BD distribuída com o PÚBLICO

Foi há 75 anos, feitos no passado mês de Janeiro, que o repórter partiu para a Rússia dos Sovietes. Quando voltou, foi recebido em triunfo

Ao ler as primeiras tiras, Tintim aparece como um escuteiro pesadão e bastante ridículo, travestido de repórter. É uma criatura agressiva e mesmo truculenta. Ou seja, sem nenhuma das qualidades que associamos à ideia e à imagem de um grande herói. As peripécias sucedem-se, os acontecimentos enlaçam-se uns nos outros de forma quase vertiginosa e quando a aventura chega ao fim, 138 pranchas mais tarde, deparamo-nos com outro Tintim, mais humano, que é recebido apoteoticamente em Bruxelas.

“Tintim no País dos Sovietes”, o álbum que amanhã será distribuído com o PÚBLICO, é a aventura fundadora da série. O seu autor, Hergé, aproveitaria da melhor forma a oportunidade que o director do jornal “Le Vingtième Siècle” lhe deu para criar um personagem à medida dos jovens leitores. Tintim faz a sua aparição nas páginas do suplemento juvenil daquele diário de Bruxelas (“Le Petit Vingtième”), a 10 de Janeiro de 1929, partindo de imediato para o país dos Sovietes. Mas porquê este destino e não outro qualquer? A resposta tem de ser encontrada não apenas no ambiente do jornal, cuja linha editorial é ferozmente anticomunista, mas também no sentimento dominante na época nos países da Europa em relação ao rumo da União Soviética depois da revolução bolchevista de 1917.

Ao contrário do que faria anos depois em relação a outras aventuras do seu herói, Hergé nem sequer pensou em sair de Bruxelas para se documentar nos locais. Aliás, como a documentação disponível na época era muito escassa, o desenhador baseia-se exclusivamente no livro “Moscou sans Voiles”, publicado em 1928 por Joseph Douillet, ex-cônsul da Bélgica em Rostov. Sem a menor distanciação relativamente ao que é descrito nessa obra, o desenhador belga chega a transpor literalmente algumas sequências, como é o caso das eleições falseadas para um soviete local.

Esta é a única aventura de Tintim em que Hergé nunca mais mexeu. Por isso, chegou até aos nossos dias no formato original, a preto e branco e sem qualquer reformulação ou corte na narrativa. Obviamente datado, “Tintim no País dos Sovietes” está muito longe de ser a melhor história do personagem. Todavia, na sua tocante singeleza, constitui um belíssimo testemunho do esforço criativo desenvolvido por Hergé nos seus primeiros passos como autor de bandas desenhadas. Influenciado pelos “comics” norte-americanos, o autor aplica-se a dar forma a uma nova linguagem narrativa, nomeadamente integrando os diálogos no desenho e não, como era recorrente na época, com textos por baixo das imagens.

Os cinco mil exemplares da primeira edição desta aventura em álbum tornaram-se rapidamente preciosidades, pois Hergé nunca mais autorizou a reedição da obra. Uma edição restrita de 800 exemplares numerados viu a luz do dia em 1969, por ocasião do 40º aniversário da série. E em 1973 saiu de novo, integrada num volume dos “Archives Hergé”. Nada disso desencorajou o aparecimento de numerosas edições-pirata. O autor acabaria por se render à evidência, autorizando a publicação em fac-símile de “Tintim no País dos Sovietes”, em 1981.

Carlos Pessoa, Público, 19/03/2004

A efeméride em torno da provecta idade de Tintin vinha acompanhada do oportuno lançamento de uma obra de Hergé ainda não editada em Portugal, lançamento com generosa cobertura da imprensa já desde dia 5 (as notícias nas quatro TV's surgiram todas no dia 10/01/1999).

Dinis Manuel Alves, A Agenda-Montra de Outras Agendas (2013)

sábado, 20 de dezembro de 2025

Coisas que Acontecem

A exposição "Coisas que acontecem", que integrou a mostra Ilustração Portuguesa 2004, foi pensada para o público infanto-juvenil e partiu de um conjunto de notícias do jornal O Público de 2003 e do primeiro semestre de 2004 que foram ilustradas por 20 nomes nacionais. Um dos trabalhos incluía um desenho com imagens de Tintin e Milou.

A Ilustração Portuguesa 2004 está na Galeria Municipal da Cordoaria Nacional até 7 de Novembro. A 6ª edição daquela que é uma das exposições mais emblemáticas produzidas pela Câmara Municipal de Lisboa, através da Bedeteca de Lisboa, tem este ano como tema a “Ilustração de imprensa”. Além do núcleo central e do temático, a mostra inclui um núcleo infantil e ainda uma retrospectiva da obra do mexicano José Guadalupe Posada. Da programação interactiva constam um debate com directores de arte, um ciclo de cinema de animação, diversos ateliers para os mais jovens e lançamentos editoriais. De tudo daremos conta nas linhas que se seguem.

EXPOSIÇÕES

_ILUSTRAÇÃO PORTUGUESA 2004 - Mostra de trabalhos publicados em 2003 e 1º trimestre de 2004 das várias vertentes da ilustração: imprensa, publicidade, infanto-juvenil, web e inéditos. Estão representados 76 ilustradores, dos quais 19 integram a mostra pela primeira vez. Comissariada por Alice Geirinhas, ilustradora e coordenadora da área de formação da Bedeteca de Lisboa, Cristina Sampaio, ilustradora e Vicente Ferrer, ilustrador espanhol e editor da Media Vaca.

_90’S - Mostra de ilustração publicada na imprensa escrita portuguesa na década de 90. Com esta mostra, que inclui trabalhos de 16 autores, apresenta-se um registo daquele que foi o lançamento de uma geração de ilustradores de imprensa a partir de um momento especialmente dinâmico para a ilustração na imprensa periódica, nomeadamente nos jornais. Comissariada por Jorge Silva, designer e director de arte do jornal Público.

_COISAS QUE ACONTECEM - Mostra de uma selecção de notícias ilustradas: uma encomenda a 20 ilustradores dedicada ao público infanto-juvenil. Pretende-se com este núcleo dinamizar e promover junto do público infanto-juvenil o conhecimento e o gosto pela ilustração de imprensa, formando outros modos de ver. Comissariada por Alice Geirinhas.

EDIÇÕES

_Emissão Filatélica Comemorativa dos "Heróis Portugueses de Banda Desenhada"; composição com 4 selos soltos e um bloco de 4 selos a apresentar oficialmente pelos CTT, numa parceria com a Bedeteca

_Catálogo "Ilustração Portuguesa 2004"

_Caderno de actividades "Coisas que Acontecem"

02.11.2004

Coisas que acontecem na BDteca (2007)

 A partir de amanhã e até 22 de Dezembro acontece a segunda edição de "BDteca", um evento organizado pela Câmara Municipal de Odemira. Entre as várias actividades salientamos a exposição "Coisas que acontecem", que integrou a mostra Ilustração Portuguesa 2004 e que estará patente na Escola Básica 2,3 de Sabóia. Pensada para o público infanto-juvenil, parte de um conjunto de notícias seleccionadas do jornal O Público, em diferentes rubricas - Destaque, Internacional, Cultura, Ciências, Sociedade, Desporto, Local –, entre em 2003 e primeiro semestre de 2004. Ano e meio revisto e desenhado por 20 ilustradores nacionais: Pedro Burgos, Richard Câmara, André Carrilho, Alain Corbel, Alberto Faria, João Fazenda, António Jorge Gonçalves, Luís Lázaro, Daniel Lima, Jorge Mateus, Marta Monteiro, Ágata Moreira, Pedro Nora, Edgar Raposo, Rui Ricardo, Patrícia Romão, André Ruivo, Cristina Sampaio, José Manuel Saraiva e Pedro Zamith. Exposição comissariada por Alice Geirinhas, existe um livro, editado pela Bedeteca de Lisboa, para os mais jovens que propõe uma série de actividades que levarão à descoberta do jornal enquanto veículo de comunicação com uma organização própria, além de propostas de trabalhos de ilustração e informações biográficas sobre os autores participantes, acompanhadas do respectivo auto-retrato.

Recortes Bedeteca, 19/11/2007


09.05.2005

Coisas que ganham prémios...

  A Bedeteca de Lisboa informa: o atelier Silva! Designers ganhou na categoria de design editorial/Catálogos, o Troféu de OURO do 7º Festival do Clube de Criativos com o catálogo e livro de actividades "Coisas que Acontecem", que acompanhou a exposição que Alice Geirinhas comissariou na última edição da Ilustração Portuguesa, e o Troféu de Bronze com o catálogo do "El Alma de Almada El Impar, Obra gráfica (1926-1931)" da exposição comissariada pelo João Paulo Cotrim e Luís Manuel Gaspar.

Um especial agradecimento aos 20 ilustradores que ilustraram as 20 notícias do nosso mundo: Pedro Nora, Ágata Moreira, André Carrilho, Richard Câmara, Pedro Zamith, Rui Ricardo, José Manuel Saraiva, Marta Monteiro, Alberto Faria, Cristina Sampaio, Jorge Mateus, Edgar Raposo, João Fazenda, Patrícia Romão, Pedro Burgos, Daniel Lima, André Ruivo, Luís Lázaro, António Jorge Gonçalves e Alain Corbel.

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Explorando o filão Tintim (2004)

No ano em que se comemora o 75º aniversário da criação de Tintin, o herói de Hergé é notícia em Portugal, por várias razões, entre as quais, a publicação de “Tintin e a Alph-Art”, o álbum que a morte de Hergé em 1983 deixou inacabado, ainda em estado de esboço e que agora surge com a mesma apresentação gráfica do resto da colecção.

Apesar do estado ainda demasiado embrionário do álbum deixar apenas adivinhar que poderíamos estar perante uma boa aventura de Tintin, em que Hergé guia o seu herói pelos meandros da arte contemporânea, este “Tintin e a Alph-Art” revela-se uma óptima forma de o leitor descobrir as várias etapas do método de trabalho de Hergé e a complexidade dos trabalhos preparatórios que o depuramento e a aparente simplicidade da “linha clara” escondem.

Igualmente revelador da evolução do estilo de Hergé é a versão facsimilada da edição original a preto e branco de “Os Charutos do Faraó”, que a Verbo lançou no Verão passado e que, se não tem ainda a perfeição do traço e a eficácia narrativa da nova versão redesenhada e colorida pelos Estúdios Hergé, tem uma espontaneidade ingénua e dimensão da aventura em estado puro, que de alguma forma se perdeu na versão que a maioria dos leitores conhecem.

O aparecimento destas duas edições, prova que há público interessado e entusiasta em número suficiente para justificar o lançamento de obras destinadas mais ao coleccionador informado do que ao leitor casual, o que não é de estranhar pois Portugal foi o primeiro país não-francófono a publicar as aventuras de Tintin. E isso aconteceu a partir de Abril de 1936 no “Papagaio”, revista dirigida por Adolfo Simões Muller, onde Tintin apareceu a cores, numa altura em que na própria Bélgica as suas histórias ainda eram publicadas a preto e branco, tornando-se rapidamente num dos símbolos da revista, com participações especiais em outras séries (de que Hergé não deve ter tido conhecimento) como o fabuloso “Boneco Rebelde”, de Sérgio Luís.

Mas, apesar da popularidade da série em Portugal e do herói de Hergé ter dado o nome a uma revista que formou toda uma geração de leitores, actualmente entre os trinta e os quarenta anos, a verdade é que a bibliografia sobre Hergé em português é reduzidíssima. As (honrosas) excepções são o rebuscado “Tintin no Psicanalista” de Serge Tisseron, o excelente dossier sobre os 70 anos da série no nº 1 da 3ª série da revista “Quadrado” e o livro “As Aventuras de Hergé”, de Bocquet, Fromental e Stanislas, já aqui abordado nestas páginas (ver “Diário As Beiras” de 13/09/2003).

Assim, permanecem inéditas em português obras fundamentais como “Le Monde d’Hergé” e “Hergé, Fils de Tintin”, de Benoit Peeters; “Tintin et Moi” de Numa Sadoul; “Le Coloque de Moulinsart”, de Henry Van Lierde e Gustave du Fontbare; a biografia de Hergé, escrita por Pierre Assouline; “Tintin chez Jules Verne”, de J.P. Tomasi e M. Deligne, “Tracé RG: Le Phénomène Hergé”, de H. Van Opstal; “Tintin et les Heritiers”, de Huges Dayez e “Les Dupondts sans Peine”, de Albert Algoud, pelo que a publicação em livro dos textos que no jornal Público acompanharam a publicação da série, podia de alguma forma ajudar a minorar esta lacuna.

Infelizmente, o que “As Aventuras de Tintin no Público” recolhe, são precisamente os textos menos interessantes sobre os álbuns, em que Carlos Pessoa se limita, de forma algo acrítica e superficial, a debitar algumas banalidades sobre cada título, ficando ausente, talvez por uma questão de direitos, as bem mais interessantes declarações de Hergé a Numa Sadoul a propósito de cada história. Assim, este livro soa um pouco a oportunidade perdida, feita mais com o intuito de aproveitar o sucesso da colecção vendida com o “Público”, do que de constituir uma opção importante em termos da bibliografia nacional dedicada ao criador de Tintin.

(“Tintin e a Alph-Art”, de Hergé, Difusão Verbo, 56 pags, 14,50 €

“As Aventuras de Tintin no Público”, de Carlos Pessoa, Público/Oficina do Livro, 64 pags, 4 €

“Os Charutos do Faraó” (edição facsimilada), de Hergé, Difusão Verbo, 130 pags, 18 €).

João Miguel Lameiras, Diário As Beiras, 25/09/2004

Copyright: © 2004 Diário As Beiras; João Miguel Lameiras


NUMA SADOUL

Também sobre o universo de Tintin (ou Tintim?) e sobre o seu criador – entrando um pouco no domínio da investigação que se segue (entrevistas, inquéritos e dados estatísticos) - foram publicadas no jornal Público ao longo do ano de 2003 (continuando em 2004) 17 entrevistas de Numa Sadoul a Hergé sobre as diferentes histórias do Tintim que iam sendo publicadas juntamente com o jornal. De notar que todas as entrevistas se encontram disponíveis quer no site do Público, quer no site da Bedeteca.

Adalberto Barreto, 2004

«ficando ausente, talvez por uma questão de direitos, as bem mais interessantes declarações de Hergé a Numa Sadoul a propósito de cada história». JML

Entrevista de Carlos Pessoa a Numa Sadoul (1993)

A COLECÇÃO DO PÚBLICO



- Explorando a Lua 26-09-2003

- A Ilha Negra 03-10-2003

- O Ceptro de Ottokar 10-10-2003


- A Estrela Misteriosa 24-10-2003


- O Tesouro de Rackham o Terrivel 07-11-2003


- O Lótus Azul 21-11-2003

- Voo 714 Para Sydney 28-11-2003

- Tintim na América 05-12-2003

- Carvão no Porão 12-12-2003

- Tintim no Tibete 19-12-2003

- Tintim no Congo 26-12-2003

- A Orelha Quebrada 02-01-2004


- O Caso Girassol 16-01-2004


- Tintim E o Lago dos Tubarões 30-01-2004


- Templo do Sol 13-02-2004

- Tintim No País dos Sovietes 20-02-2004

- Tintim E Os Pícaros 27-02-2004



Informações complementares:

1 - entretanto terão surgido outras obras fundamentais que poderiam ter edição portuguesa.

2 - a edição portuguesa de "Hergé, Filho de Tintim" foi editada em 2007.

3 - Foram editadas em português duas edições anteriores de Albert Algoud dedicadas a Tournesol e Haddock. O autor lançou uma obra em francês sobre Oliveira da Figueira.

4 - A edição ilustrada de “Tintin Et Moi : Entretiens Avec Hergé” de Numa Sadoul foi reeditada em Maio de 2025. 






terça-feira, 8 de outubro de 2024

Uma aventura em portugal



Hergé achou a ideia boa, mas Müller não encontrou apoios

Adolfo Simões Müller tinha "um plano gigantesco" e em Abril de 1939 escreveu uma carta a Hergé com a proposta: fazer-se uma aventura de Tintim em Portugal.

O filho de Simões Müller, Luís Müller, lembra-se do projecto. "Hergé chegou a falar com o meu pai, pedindo-lhe informação sobre a História de Portugal", contou ao P2 (Público).

Também se lembra de ouvir o pai dizer que a ideia era encontrar, para a história, um elo de ligação entre o Brasil, Portugal e a Índia. A resposta do criador belga foi prudente.

Achou boa a ideia, mas manteve alguma distância, pois queria assegurar o controlo das coisas.

Nomeou seu representante Jean-Louis Duchemin, do Syndicat de la Proprieté Artistique (SPA, Paris) que apresentou uma estimativa de custos a Simões Müller e propôs uma repartição dos encargos: 10 por cento do preço de cada álbum teria de ser suportado pelo português, e 40 por cento desse montante entregue directamente ao SPA.

A ideia não teve seguimento porque não houve capacidade financeira para investir no projecto, nem possibilidade de encontrar apoios públicos ou privados.

Carlos Pessoa / Público, 22/05/2007




sexta-feira, 10 de maio de 2024

Nuno Saraiva



"A rentrée está a chegar"

Conjunto de várias ilustrações incluindo capa, para o suplemento Ipsílon do PÚBLICO, 2011. A rentrée estava a chegar com Woddy Allen, Patti Smith, Britney Spears, Tintim, Tom Waits, Amadeus, António Lobo Antunes e Valter Hugo Mãe. … A rentrée é também agora, Fónix!


A [exposição] Fónix pode ser visitada até 31 de Outubro de 2016 e está integrada na 7º edição do Bairro das Artes. A organização foi repartida entre a abysmo, a DDLX Design Comunicação Lisboa, o Município de Setúbal e Casa da Imprensa - Associação Mutualista. exposição na Casa da Imprensa, r. da Horta Seca 20 (Lg Camões)

FÓNIX! - Exposta inicialmente em Setúbal em Junho de 2016, passando por Lisboa no Outubro seguinte, "Fónix!" chega em Janeiro de 2017 a Almada, cidade onde cresceu e deu os primeiros passos em riscos e pinceladas.

«"As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne", filme tão longamente anunciado, de Steven Spielberg, eis o dito motivo de interesse. E é Tintin, lui même, que surge em grande plano, tanto na capa do "Ípsilon" como na ilustração de página dupla no interior daquela publicação.»

https://divulgandobd.blogspot.com/2011/08/ilustracao-por-autor-de-bd-ii.html

Antevendo a estreia das aventuras de Tintin no cinema no próximo mês de Outubro, a edição do jornal Público de 26 de Agosto de 2011 publica na sua primeira página um desenho de Nuno Saraiva, onde reconhecemos a figura do Tintin. 

Na capa do suplemento Ípsilon, também temos um trabalho de Nuno Saraiva, onde mais uma vez nos aparece o herói criado por Hergé.


http://tintinofilo.over-blog.com/article-pastiche-do-tintin-no-jornal-publico-82592417.html





segunda-feira, 2 de outubro de 2023

O aventureiro mais famoso do mundo está no Público

DESBANDA - INIMIGO PÚBLICO

Parece que foi ontem. E no número 1 (do suplemento Inimigo Público, 26/09/2003) estreava também a minha crónica, partilhada como o LPN (Luís Pedro Nunes). Uma tira humorística, a jeito de comic strip, a que demos o nome de Desbanda. Numa brincadeira com os cronistas residentes do jornal, à época, metíamo-nos com o maior de todos - Eduardo Prado Coelho.

Nuno Saraiva, 01/10/2021

https://www.publico.pt/2003/08/29/jornal/o-orgasmo-vertical-204744

http://tintinofilo.over-blog.com/article-22966578.html (2008)


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Jornal Público


O jornal Público chegou a publicar, entre 19/09/2003 e 27/02/2004, a colecção de livros e depois em 2005 os  DVD com as aventuras de Tintim.



«A publicação integral das aventuras de Tintim é o mais recente elo de uma relação estreita entre o PÚBLICO e a banda desenhada.» (Carlos Pessoa, Público, 12/09/2003)

Mostramos imagens do site e imagens dos anúncios de imprensa numa versão em inglês porque foram encontrados em portfolio internacionais.






18-09-2003
"Rumo à Lua" oferecido com o PÚBLICO
Carlos Pessoa

(...)

Hoje, à distância de mais de meio século, o enredo desta banda desenhada parece um pouco pueril, mas se o leitor fizer um pequeno esforço de imaginação e recuar até ao princípio dos anos 50 – ainda sem missões Soiuz ou Apolo nem programas de exploração do espaço ou cinturas de poderosos satélites de comunicações em redor da Terra – facilmente se aperceberá da grandiosidade das intenções de Hergé. O resultado é uma longa aventura que a exigência de rigor de artista transforma na mais realista de quantas foram vividas pelo jovem repórter, e que serão publicadas em exclusivo pelo PÚBLICO.

(...)

Mas não antecipemos os acontecimentos, deixando ao leitor o prazer de saborear a primeira parte desta aventura. Os 100 mil exemplares de “Rumo à Lua” são oferecidos amanhã gratuitamente com a edição do PÚBLICO. 

04-03-2004
Álbum de Tintim "Rumo à Lua"
volta a Ser Distribuído com o PÚBLICO

Mais 15 mil exemplares

Está de novo disponível a primeira parte da ida à Lua do repórter belga e dos seus amigos Haddock, Dupond(t) e Girassol, além de Milu

O álbum "Rumo à Lua" estará novamente disponível com a edição de amanhã do PÚBLICO. São mais 15 mil exemplares, que permitirão aos leitores completar a sua colecção ou, se começaram mais tarde a adquirir os 24 álbuns editados, travar agora conhecimento com as peripécias da preparação da aventura lunar de Tintim e dos demais personagens criados por Hergé.

04-03-2004
"As Aventuras de Tintim no PÚBLICO", um Guia de Leitura

A fechar com chave de ouro a edição integral das aventuras de Tintim, o PÚBLICO distribui amanhã, no mesmo formato de álbum, um guia de leitura da autoria do jornalista Carlos Pessoa, indispensável para situar cada aventura na sua época e na obra de Hergé.

Tintim na sala de aula

Propostas, ideias e sugestões para introduzir Tintim nos programas escolares

Quantos antílopes são mortos involuntariamente em “Tintim no Congo”? A resposta precisa é menos importante do que saber que consequências pode ter para um dado ecossistema a eliminação maciça e descontrolada de espécies que pertençam naturalmente a esse mesmo habitat. Deve dizer-se, em abono da verdade, que o herói de Hergé das primeiras aventuras caça pelo prazer do “gag” e não por qualquer outra motivação menos nobre. É também de elementar justiça lembrar que nesse tempo – estamos a falar do início dos anos 30 – as preocupações ecológicas não se inscreviam de todo nos programas sociais ou políticos do planeta… Ainda assim, o editor escandinavo de Tintim não deixará passar em claro estas “perversões” e Hergé lá acabará por salvar o rinoceronte que o herói mata com dinamite na mesma aventura, alterando essa sequência da aventura.

Ecologia, Biologia e Ciências da Terra

Hergé não merece, apesar de tudo, que sejamos muito severos com ele. De facto, o autor manifesta uma certa preocupação de veracidade e rigor ao conferir a certas espécies os seus comportamentos habituais – é o caso das piranhas em “A Orelha Quebrada”, os bisontes em fuga em “Tintim na América”, os peixes-voadores em “Carvão no Porão”, o gorila de “A Ilha Misteriosa”, o cisne agressivo de “O Caso Girassol” ou o lama temperamental de “O Templo do Sol”.

Por outro lado, Tintim faz-nos descobrir, de aventura em aventura, uma dimensão real ou mítica da natureza. Os verdejantes vales da Escócia (“A Ilha Negra”) e as dunas do deserto (“Os Charutos do Faraó”) proporcionam outras tantas abordagens da fauna e flora de todo o mundo (os rododendros nos contrafortes do Tibete na aventura “Tintim no Tibete”, por exemplo), complementada com referências a espécies que hoje estão ameaçadas de extinção (é o caso dos crocodilos em “O templo do Sol”). Finalmente, as áreas disciplinares de Biologia e Geologia, assim como Ciências da Terra e da Vida encontrarão bons materiais de apoio no díptico “O Segredo do Licorne”-“O Tesouro de Rackham o Terrível” (a descoberta dos mundos submarinos e das ricas formas de vida que ali existem), em “A Estrela Misteriosa” (os sismos), em “Voo 714 para Sydney” (vulcões e ilhas vulcânicas) e em “O Templo do Sol” (eclipses), entre outros álbuns.

Geografia e História

Quem diz aventura, diz viagem: Tintim é um repórter que corre mundo, mais como viajante do que como jornalista. Por isso, muitos dos seus álbuns são outras tantas oportunidades de conhecer realidades sociais, geográficas e culturais muito distintas e todas elas bem diferentes do que são no presente.

A Escócia de “A Ilha Negra” é uma autêntica balada sobre os Highlands, onde nada parece ter mudado depois de Tintim ter passado por lá.

Em “O Templo do Sol”, o herói de Hergé mergulha no sonho inca e no passado glorioso de uma civilização que esconde mal a miséria actual do povo peruano.

“Tintim no Congo” aproxima os leitores de uma realidade colonial, que já prenunciava o actual desastre de um continente à deriva.

Em “Tintim na América” é o crescimento de uma grande nação, com as suas contradições (criminalidade e lei seca) e movimentações sociais (expansão para Oeste, a importância do petróleo), a que nos é dado assistir.

Tintim vai até aos Balcãs (“O Ceptro de Ottokar”), percorrendo o imaginário reino da Sildávia que situa na ex-Jugoslávia, epicentro de um conflito brutal há menos de uma década.

A cultura e a civilização egípcias encontram um bom pretexto de abordagem em “Os Charutos do Faraó”.

Mais longe, o herói viaja pela China e confronta-se com a presença ocidental em Xangai e o ocupante japonês da Manchúria em “O Lótus Azul”.

Anos mais tarde, Tintim regressa ao Extremo-Oriente (“Tintim no Tibete”) para procurar o seu amigo Tchang, que conhecera na aventura precedente, revelando ao mundo as subtilezas de uma cultura que, paradoxalmente, só chegou ao Ocidente depois da invasão do país pela República Popular da China.

Política e Direitos Humanos

Hergé foi acusado em certos períodos da sua vida e em algumas aventuras – nem sempre de forma justa e bem fundamentada – de racismo e conservadorismo político. O autor foi sensível a algumas dessas acusações, o que se traduziu na reformulação ou supressão de sequências (por vezes pranchas inteiras) de algumas das aventuras em edições posteriores, libertadas do que tinham de mais datado e conjuntural. E o seu álbum mais controverso – “Tintim no País dos Sovietes”, que é também a primeira aventura do herói – nunca mais viria a ser editado nem submetido a qualquer reformulação, ao contrário do que sucedeu com todas as aventuras anteriores à Segunda Guerra Mundial.

Para além destes aspectos, é pertinente referir que Hergé nunca virou as costas aos problemas sociais do seu tempo. Assim, o conflito do Médio Oriente está presente em “Tintim no País do Ouro Negro”; a escravatura e o tráfico humano atravessam “Carvão no Porão”; a guerra-fria e o confronto político ideológico entre superpotências são os temas centrais de “O Caso Girassol”; “Tintim no Congo” é o espelho das políticas coloniais e o negativo do processo de independência dos povos africanos na segunda metade do século XX; a condição da nação tibetana tem uma oportunidade de abordagem a partir de “Tintim no Tibete”; por fim, Hergé aborda numa óptica não colonialista a condição dos índios alcoolizados e ridicularizados pelos turistas em “Tintim e os Pícaros”, que tem como pano de fundo a situação explosiva na América Latina (guerrilha, combate ao narcotráfico, corrupção generalizada, etc.). 





DVD

sábado, 2 de outubro de 2021

sexta-feira, 26 de março de 2021

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Personagens


Quantos personagens existem nas aventuras de Tintin? Cyrille Mozgovine inventariou 325, de Abdallah a Zorrino, num dicionário de nomes próprios publicado em 1992 pelas Éditions Casterman. De fora, ficaram os álbuns “Tintin au Pays des Soviets” e “Tintin et l’Alph-Art”, apenas publicados a preto e branco (o último, aliás, é uma obra deixada incompleta por Hergé), assim como as obras realizadas a partir de filmes ou de desenhos animados.

Numa selecção absolutamente subjectiva, o PÚBLICO escolheu 30 personagens - aqueles que, por razões várias, podem ser considerados os mais marcantes, fortes ou decisivos nas aventuras de Tintin.

Público, 20/09/2003

Bianca Castafiore

Nestor

Dupond & Dupont

Serafim Lampião

Abdallah

Alcazar

Boris Coronel

Bada Ramon

Fakir

Laszlo Carreidas

Irma

Gibbons

Doutor Krollspell

Jules

Zorrino

Milou

Oliveira de Figueira

Müller

Roberto Rastapopoulos

Pablo

Pedro João dos Santos

Coronel Sponsz

Tintim

Tchang

Capitão Archibald Haddock

Tournesol

Igor Wagner

https://static.publico.pt/coleccoes/tintim/PERSONAGENS.htm

artigo do Jornal Público

Companheiros de aventuras

Milu

Companheiro inseparável de Tintim, Milu é um fox-terrier de uma brancura pouco habitual. Verdadeira sombra do protagonista, era o único ser com quem Tintim falava no ínicio da sua saga de aventuras.

Capitão Haddock

Ex-oficial da marinha mercante, é o melhor amigo de Tintim. Tem um feitio difícil e problemas com a bebida. Surge pela primeira vez n' "O caranguejo das Tenazes de Ouro".

Professor Girassol

Criado no livro "O Tesouro de Rackham o Terrível" é um ciencista genial que sofre de problemas auditivos e é muito distraído.

Dupond e Dupont

Apareceram pela primeira vez no "Os Charutos do Faraó" e são dois detetives imbecis e pretenciosos e a maior fonte de humor de toda a obra.

Cristina Alves, Expresso, 07/01/2003

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No decorrer das suas muitas aventuras, desenvolvidas ao longo de quase meio século, Tintin cruzou-se com inúmeras personagens ricas e diversificadas, 326 segundo “L’abcedaire Tintin: de Abdallah à Zorrino”, de Cyrille Mozgovine, que os identifica e analisa com rigor, humor e perspicácia. 

Pedro Cleto, 2004


domingo, 9 de junho de 2019

Desenho da capa do primeiro livro de Tintim foi vendido por 988 mil euros

Ilustração está assinada por Hergé, criador da famosa personagem das bandas desenhadas. Portugal foi o primeiro país não-francófono do mundo a publicar Tintim, em 1936.

O desenho original usado na capa do primeiro livro da colecção de aventuras de Tintim foi vendido, este sábado, num leilão em Dallas, Estados Unidos, por 1,12 milhões de dólares (cerca 988 mil euros).

A ilustração leiloada este sábado está assinada por Hergé — pseudónimo do cartoonista belga Georges Remi, o criador da icónica personagem —​ e integra a primeira edição dos livros, publicada a 13 de Fevereiro de 1930. Citada pela AFP, fonte da empresa que promoveu o leilão disse que a ilustração vendida era “uma das poucas capas raras nas mãos de um privado”, bem como a mais antiga. 

O desenho a lápis e guache mostra o repórter sentado no cepo de uma árvore cortada, utilizando um canivete para moldar o tronco da árvore numa hélice para o seu avião. Milu, o fiel companheiro de quatro patas, observa o dono, completamente envolvido numa ligadura após o desastre de aviação que teve lugar em território soviético. Esta ilustração foi a primeira na série Tintim no País dos Sovietes, que foi publicada em Portugal em 1999. 

Os livros de aventura (que totalizam 24 álbuns) foram traduzidos em mais de 70 línguas, vendendo mais de 200 milhões de cópias. Portugal foi o primeiro país não-francófono do mundo a publicar Tintim, em 1936 (revista O Papagaio). Foi também o primeiro país onde se puderam ler as aventuras do famoso jornalista a cores, ainda antes de isso acontecer na Bélgica ou em França.

Em 2015, um esboço de Hergé para a terceira vinheta do livro Tintim no Congo foi comprada por 770 mil euros em Paris.

In Ipsilon-Público, 08.06.2019

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A última grande ilustração de Hergé vai a leilão




É a última grande tira do criador de Tintin, Hergé, e vai a leilão este sábado, em Liège. É a única cópia da obra e espera-se que o par de desenhos - que medem 85 cm por 3,5 cm e 95 cm por 3,5 cm - possam render mais de 50 mil euros. Georges Remi (1907-1983), que o mundo conhece pelo pseudónimo Hergé, fez a ilustração - onde incluía Tintin, o cão Milou, o Capitão Haddock e uma série de personagens que ficaram para a história - como parte de um estudo para o mural da estação de metro Stockel, em Bruxelas, que seria concluído em 1988, já depois da morte do artista. A obra havia sido deixada no estúdio de Hergé e mais tarde foi entregue a um trabalhador do metro que participou na construção do mural, que levou a obra para casa e a pendurou no quarto dos netos. O valor da ilustração só foi descoberto após a morte do dono, quando a sua filha o vendeu à leiloeira. Em 2014, uma prancha original de Hergé bateu o recorde mundial para venda de banda desenhada: 2,6 milhões de euros.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Museu Hergé cancela homenagem ao Charlie Hebdo

Director do museu belga dedicado ao criador de Tintin diz que a decisão de avançar com a homenagem “foi um pouco ingénua” e que decidiu suspendê-la para não colocar em risco os funcionários da casa e os habitantes de Lovaina-a-Nova.

O Museu Hergé, na povoação belga de Lovaina-a-Nova, decidiu cancelar uma exposição de homenagem ao jornal satírico francês Charlie Hebdo, cuja inauguração estava prevista para esta quinta-feira. O director do museu dedicado ao criador de Tintin, Nick Rodwell, esclarece que a decisão foi tomada por razões de segurança, e admite que a exposição poderá ainda vir a abrir, “se o nível de alerta diminuir nos próximos dias ou semanas”.
O anúncio do cancelamento foi feito na sequência de uma reunião de Rodwell com o presidente da Câmara de Lovaina-a-Nova, Jean-Luc Roland, e responsáveis da polícia, que expuseram as medidas de segurança excepcionais que seria necessário pôr em marcha se a exposição abrisse na data prevista, e que alertaram ainda para os riscos que o pessoal do museu e os próprios munícipes correriam.
Já depois do ataque de dia 7 ao Charlie Hebdo, que fez 12 mortos, as forças de segurança belgas desmantelaram no dia 15 uma célula jihadista (sem ligação conhecida aos irmãos Kouachi, autores do atentado em França), que incluía alguns elementos acabados de regressar da Síria e que pretenderia cometer vários atentados no país. A operação policial decorreu simultaneamente em Bruxelas e noutras localidades belgas, designadamente Verviers, onde dois jihadistas foram mortos num confronto com a polícia.
A ideia de fazer esta exposição, “uma homenagem de Hergé, que foi também caricaturista, aos caricaturistas assassinados”, surgiu “espontaneamente”, conta Rodwell, logo após o massacre de 7 de Janeiro. Mas o director do museu reconhece agora que foi “um pouco ingénuo” e agradece à polícia e ao autarca de Lovaina-a-Nova que o tenham alertado para os perigos que a exposição poderia implicar. “O Museu Hergé não existe para atiçar o fogo”, diz Rodwell, acrescentando que “seria inconcebível expor ao mínimo risco” tanto os funcionários da instituição como os habitantes de Lovaina-a-Nova.
Um desenhador que estaria representado na exposição, Nicolas Vadot, concorda que houve “precipitação” do museu e que este “não escolheu o melhor momento”, quando o país acabara de aumentar o nível de alerta. Mas também acha que, não existindo uma ameaça concreta, a solução agora encontrada pode comprometer a imagem do museu.

“Uma exposição contra a censura que se autocensura quando não existia uma ameaça, é problemático”, diz Vadot, concluindo: “Isto quer dizer que os terroristas ganharam”. É bem possível que Tintin, o jovem e valente repórter criado por Hergé, sempre pronto a meter-se em arriscadas aventuras para defender a causa da justiça, tendesse a concordar com Vadot.

Luís Miguel Queirós in Público

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Tintim faz 75 anos

Tintim faz 75 anos sem uma única ruga

Demorou cinco minutos a nascer, mas já foi da Lua ao Tibete. O repórter mais famoso do mundo celebra 75 anos. A "tintimofilia" está em vias de expansão, porque Tintim continua a tocar o coração de todos

Tintim, a emblemática personagem de BD criada por Hergé em 1929, faz hoje 75 anos celebrados em toda a Europa com uma série de iniciativas, a mostrar por que razão o repórter aventureiro continua a ser um herói para todas as idades.

Só na Bélgica, a pátria de Tintim, as homenagens sucedem-se: a exposição "Tintim e a cidade", que abriu em Bruxelas no primeiro dia do ano, continua até Junho e o Centro Belga de Banda Desenhada inaugura em Maio um novo "espaço Hergé". O Banco Nacional emitiu esta semana uma nota de 10 euros com a efígie de Tintim e da cadela Milou e os Correios lançarão em Março cinco selos sobre "Tintim e a Lua" - um dos muitos lugares por onde o pequeno repórter passou, o primeiro "humano" a lá chegar 15 anos antes de Armstrong.

A grande novidade é a reedição do último álbum de aventuras inacabado e publicado pela primeira vez em 1976, "Tintim et l'Alph-Art", agora com "croquis", anotações, esquissos de Hergé e ainda inúmeras pranchas inéditas. É a história de um falsário no meio da arte contemporânea, que Hergé não teve tempo de concluir antes de morrer. Editado pela Casterman, casa de Tintim há 70 anos, são 500.000 exemplares em formato clássico hoje postos à venda.

"Tintim comemora 75 anos sem uma única ruga", diz Etienne Pollet (Casterman) sobre a última aventura, "um álbum tocante porque encerra uma obra e uma vida".

A "tintimofilia" continua

Mas ainda há mais. Tintim será o "convidado de honra" do Museu Nacional da Marinha, em Londres, a partir de Março, na primeira exposição britânica sobre as suas aventuras marítimas.

Tintim nasceu em cinco minutos na cabeça de Hergé, a 10 de Janeiro de 1929 com o primeiro álbum "Tintim no país dos sovietes". Desde então, já se publicaram 23 livros com as suas aventuras, da Lua ao Tibete, traduzidos em mais de 60 línguas. E já se venderam 200 milhões de exemplares por todo o mundo.

A "tintimofilia" é, por isso, uma espécie em vias de expansão. Aos 75 anos, ele continua o mesmo herói bom, gentil, que sabe fazer tudo e ganha sempre. E conserva ainda uma posição privilegiada na BD, com uma multidão de fanáticos: "Com Tintim, a magia existe sempre, resiste, é uma magia própria e não tenho medo de comparar o génio de Hergé a Molière, Balzac ou Chaplin", disse um especialista, Benoît Peteers, entusiasta do herói e do seu criador.

Mas a "tintimofilia" pode bem ser medida pelos números: a imagem de Tintim continua a vender como nunca. A Moulinsart (braço comercial da fundação Hergé) tem lucros de 15 a 16 milhões de euros anuais. Interrogado sobre o peso do nome Tintim em termos económicos, o administrador, Nick Rodwell, marido da viúva de Hergé, Fanny, foi evasivo: "É impossível dizer." Mas este ano a empresa vai colaborar com a Swatch, a Coca Cola, e Nokia. "Se estas sociedades têm vontade de trabalhar com o Tintim, é porque acreditam que será uma mais-valia para elas."

Há "lojas Tintim" em todo o mundo que pertencem ao "franchising" da Moulinsart: cinco na Bélgica, uma em Londres, duas no Japão e em Taiwan, e uma na Nova Zelândia. A Casterman vende em média, há 10 anos, dois milhões de álbuns por ano. Os dois anos recordes (4 milhões de álbuns) foram 1979 e 1983, ano da morte de Hergé.

"Tintim está mais vivo hoje do que nunca", disse Rodwell. A prova é o museu Hergé em Lovaina, que a fundação quer criar em 2007, ano do centenário do nascimento do autor. E há também um projecto cinematográfico - Rodwell está em negociações com Steven Spielberg, disse à AFP.

A viúva de Hergé disse que o pai de Tintim "teria ficado admirado, mas também muito emocionado" com todas estas celebrações. O sucesso de Hergé deve-se à sua criação, "que toca os corações de todos".

"Mexam-se. Chegou a hora de vos transformar em César" - são as últimas palavras pronunciadas por um guarda que ameaça Tintim no livro que Hergé não chegou a terminar. Ele está prestes a ser transformado em estátua. Mas como termina, nunca saberemos.

Público, 10 de Janeiro de 2004

Copyright: © 2004 Público

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Um futuro para além do destino do senhor Oliveira da Figueira

José Manuel Fernandes, ex-director do jornal Público, publicou no respectivo jornal de 7 de Dezembro de 2012, um artigo com o título em epígrafe, onde destaca a personalidade do «português» das aventuras do Tintin, Oliveira de Figueira.
A acompanhar o artigo, duas ilustrações pastiches das personagens das aventuras de Tintin  por A. Valério.


Os árabes chamavam-lhe o "branco-que-vende-tudo" e Tintin comprovou-o: comprou-lhe um par de esquis, um taco de golfe, um chapéu alto, uma gaiola com um periquito e um despertador, tudo absolutas inutilidades que o deixaram imensamente feliz. A cena passa-se no livro Os Cigarros do Faraó e o senhor Oliveira da Figueira, que mais tarde reapareceria em No País do Ouro Negro e em Carvão no Porão, é o único português a ter um lugar de destaque nas aventuras criadas por Hergé (há também um cientista português a bordo do Aurora, em A Ilha Misteriosa, mas o seu papel é irrelevante). O histriónico vendedor de bugigangas corresponde a um certo cliché do ser-se português, da generosidade à capacidade de improvisação, da lábia à errância por terras distantes, tudo construído em torno da imagem de um comerciante que até na capacidade de aculturação se revela bem lusitano. Ninguém, nem mesmo Hergé, se lembraria de retratar um português como financeiro ou como industrial. 
Lembrei-me deste simpático Oliveira da Figueira quando meditava em alguns dos debates que atravessaram esta semana. E comecei por me lembrar dele quando ouvi as muitas lamúrias que, na segunda-feira, acompanharam a divulgação das mais recentes estatísticas sobre insolvências. No total, até Novembro, já tinha havido 5808 insolvências declaradas, um número bem superior ao do ano passado mas que, por si só, não significará muito, pois seria necessário compará-lo com dados - que desconheço - relativos à criação de empresas. Mais importante será perceber que insolvências foram essas. Um quarto dos pedidos (1535) foi entregue por empresas do sector do comércio. Quase outro tanto (1496) veio de empresas ligadas à construção e ao imobiliário. 
ara todas as pessoas ligadas a estas empresas, estas insolvências foram um drama, um drama por certo agravado pela dificuldade que todos os que caíram no desemprego sentirão para se libertarem dessa condição. No entanto, por muito duro que seja dizê-lo, um elevado número de falências no comércio, na construção e no imobiliário era não só inevitável como dificilmente a economia portuguesa se recomporia sem que elas ocorressem. Durante demasiados anos, andámos a lançar obras públicas inúteis, é bom termos deixado de nos endividar para o fazer. Durante demasiados anos, vimos serem lançadas urbanizações atrás de urbanizações, e é bom termos parado de erguer mais casas para ficarem vazias (já há 725 mil habitações vazias em Portugal, de acordo com o Censos 2011). Durante demasiados anos, vimos também abrirem centros comerciais atrás de centros comerciais, sem se perceber muito bem como haveria dinheiro para tantas compras e tanto comércio, e é bom regressarmos a algum realismo. 
Boa parte do aumento do desemprego provém precisamente da retracção da actividade nestes sectores (em 2011, estima-se que só a construção e o imobiliário tenham gerado mais 110 mil novos desempregados), mas será um erro pensar que é defendendo esses actividades que vamos sair da crise ou mesmo evitar mais desemprego. O que aconteceu nos últimos dez, doze anos, foi que a existência de crédito barato e financiamento abundante, a par com políticas voluntaristas, "fontistas", de governos e autarquias, permitiu uma expansão do consumo público e privado que, ao mesmo tempo que gerava um crescimento anémico, fazia explodir a dívida pública e a dívida externa. É por isso que não necessitamos, pelo contrário, de salvar (vá-se lá saber como, a não ser com mais despesa pública e mais subsidiação) os milhares de empresas que estão a desaparecer nestes sectores. O que precisamos, isso sim, é de tornar possível que surjam, em sectores com mais futuro, empresas e actividades que permitam começar a reabsorver os trabalhadores que entretanto caíram no desemprego. 
O que Portugal fez nos últimos anos foi, de alguma forma, o que o senhor Oliveira da Figueira fazia no remoto principado do Khemed: comprar e vender sem grande preocupação com a inovação e o dia de depois de amanhã. Talvez tenhamos, no fundo, feito apenas o que nos está na massa do sangue, pois todo o cliché tem sempre a sua parte de verdade. O que Portugal vai fazer daqui para a frente é que já não pode ser o mesmo. O crescimento futuro não pode repetir as fórmulas falhadas dos últimos quinze anos, e é também por isso que penso que a generalidade das sugestões de menos austeridade que por aí pululam corresponde, no fundo, ao regresso das políticas que não geraram crescimento nem garantiram empregos sustentáveis. 
Quando olhamos para trás e recordamos o que se passou nas últimas décadas, verificamos que Portugal só conheceu dois períodos de rápido desenvolvimento económico: entre 1960 e 1973 e entre 1986 e 1991. O que permitiu esses surtos desenvolvimentistas foi sempre um choque externo: na década de 1960, a adesão de Portugal à EFTA; na década de 1980, a adesão à então CEE. Mais: como recentemente explicava José Manuel Félix Ribeiro, o período mais vigoroso desse desenvolvimento (entre 1969 e 1973) foi possível porque houve três motores a puxarem por Portugal ao mesmo tempo, a saber, o boom das indústrias exportadoras do Norte do país, tornado possível pela abertura dos mercados da EFTA; os investimentos na indústria pesada e na indústria naval na zona de Lisboa, aproveitando a oportunidade da mudança das rotas de navegação pós-Guerra dos Seis Dias; e o início do envio pelos emigrantes das suas remessas, o que deu liquidez ao sistema bancário. 
É difícil imaginar a repetição dessas condições. Ou mesmo das condições conhecidas no início do chamado "cavaquismo". Ou de qualquer coisa de semelhante. O mais parecido que temos com um "choque externo" é a troika, mas até a evidente necessidade de financiamento não tem impedido a dissolução do consenso que chegou a parecer existir em torno da alteração dos nossos modos de vida. Mesmo assim, não é preciso ser tão optimista como António Borges para perceber que algum caminho tem sido percorrido pela nossa economia. 
Para já, tudo indica que os nossos Oliveira da Figueira voltaram a demandar o mundo. Boa parte da expansão das exportações portuguesas deve-se a muitos e muitos empresários que, tendo de enfrentar a contracção do mercado interno, se viraram para o exterior e conseguiram encontrar novos clientes. Óptimo, mas insuficiente. Estamos também com baixíssimos níveis de investimento e isso indica que se está sobretudo a utilizar a capacidade já instalada e que haverá ainda pouca inovação. 
Para ultrapassar esta fase, será necessário voltar a investir e, sobretudo, será necessário atrair capital estrangeiro. O nosso caminho não passa, ao contrário do que sugere Louçã ou o PCP, por "substituir importações", pois isso deixaria sempre pior o consumidor final. O nosso caminho passa por pagar as importações com mais exportações - ou com o equivalente, casos da expansão do turismo ou da capacidade de atrair estrangeiros para residirem em Portugal. Ao mesmo tempo, há que não ter medo da emigração, mesmo da emigração dos "mais qualificados", como agora gosta de se dizer. 
Uma coisa, porém, é certa: por muito que custe admiti-lo, e ainda mais fazê-lo, o nosso difícil futuro não passa por salvar a economia, as empresas e os empregos do passado. Da mesma forma que a saída da recessão não passa pelo relançamento, no curto prazo, do consumo interno. Por isso, numa altura em que começa a crescer a oposição aos cortes nas despesas do Estado, chamem-se ou não "refundação", o essencial é dizer que o que não podemos suportar são estes impostos, ou que o que queremos não é um IRC de apenas 10 por cento para os novos investimentos, queremos esse IRC para toda a economia, porque é ela, como um todo, que tem de competir nos mercados abertos da União Europeia e do resto do mundo. 
Mas será que seremos capazes de ser mais do que desenrascados e um pouco mais sofisticados Oliveiras da Figueira do século XXI?



domingo, 3 de junho de 2012

Desenho de “Tintin na América” vendido por 1,3 milhões de euros


O original de um desenho de Hergé da aventura “Tintin na América” foi vendido em Paris, neste sábado, por um preço recorde de 1.338.509 euros, mais de 500 mil euros acima do preço a que tinha sido vendido em 2008. 
A ilustração do artista belga, de 32 centímetros quadrados, pintado a tinta-da-china e a guache, mostra o jovem repórter vestido de cowboy, acompanhado pelo cão, Milou, com um grupo de nativos a aproximar-se de si durante uma emboscada.
Tal como o anterior dono da obra, a identidade do comprador é desconhecida, informou a Artcurial, a empresa que intermediou a venda.
A primeira edição de “Tintin na América” foi publicada em 1932 no Petit Vingtième, o suplemento infantil do jornal belga Le Vingtième Siècle. Dois anos mais tarde, seguiu-se a publicação pelas edições OgéO e, em 1935, pela editora franco-belga Casterman.
Só existem cinco exemplares de pinturas em guache a cor das aventuras de Tintin. Dois pertencem a colecções privadas, uma das quais a que foi agora vendida. As outras são da Fundação Moulinsart (Bélgica).
É a terceira vez que a Artcurial, que classificou a obra como “mítica”, organiza uma sessão inteiramente consagrada a Hergé – neste sábado foram vendidas outras obras, entre as quais uma colecção de cerca de 80 álbuns da aventura “Tintin no país dos sovietes” e “Tintin no Congo”.
Antes da venda de 2008 do mesmo exemplar, o recorde anterior para uma banda desenhada era de um desenho de Enki Bilal, comprado por 177.000 euros em Março de 2007.

In Público