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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A última grande ilustração de Hergé vai a leilão




É a última grande tira do criador de Tintin, Hergé, e vai a leilão este sábado, em Liège. É a única cópia da obra e espera-se que o par de desenhos - que medem 85 cm por 3,5 cm e 95 cm por 3,5 cm - possam render mais de 50 mil euros. Georges Remi (1907-1983), que o mundo conhece pelo pseudónimo Hergé, fez a ilustração - onde incluía Tintin, o cão Milou, o Capitão Haddock e uma série de personagens que ficaram para a história - como parte de um estudo para o mural da estação de metro Stockel, em Bruxelas, que seria concluído em 1988, já depois da morte do artista. A obra havia sido deixada no estúdio de Hergé e mais tarde foi entregue a um trabalhador do metro que participou na construção do mural, que levou a obra para casa e a pendurou no quarto dos netos. O valor da ilustração só foi descoberto após a morte do dono, quando a sua filha o vendeu à leiloeira. Em 2014, uma prancha original de Hergé bateu o recorde mundial para venda de banda desenhada: 2,6 milhões de euros.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Museu Hergé cancela homenagem ao Charlie Hebdo

Director do museu belga dedicado ao criador de Tintin diz que a decisão de avançar com a homenagem “foi um pouco ingénua” e que decidiu suspendê-la para não colocar em risco os funcionários da casa e os habitantes de Lovaina-a-Nova.

O Museu Hergé, na povoação belga de Lovaina-a-Nova, decidiu cancelar uma exposição de homenagem ao jornal satírico francês Charlie Hebdo, cuja inauguração estava prevista para esta quinta-feira. O director do museu dedicado ao criador de Tintin, Nick Rodwell, esclarece que a decisão foi tomada por razões de segurança, e admite que a exposição poderá ainda vir a abrir, “se o nível de alerta diminuir nos próximos dias ou semanas”.
O anúncio do cancelamento foi feito na sequência de uma reunião de Rodwell com o presidente da Câmara de Lovaina-a-Nova, Jean-Luc Roland, e responsáveis da polícia, que expuseram as medidas de segurança excepcionais que seria necessário pôr em marcha se a exposição abrisse na data prevista, e que alertaram ainda para os riscos que o pessoal do museu e os próprios munícipes correriam.
Já depois do ataque de dia 7 ao Charlie Hebdo, que fez 12 mortos, as forças de segurança belgas desmantelaram no dia 15 uma célula jihadista (sem ligação conhecida aos irmãos Kouachi, autores do atentado em França), que incluía alguns elementos acabados de regressar da Síria e que pretenderia cometer vários atentados no país. A operação policial decorreu simultaneamente em Bruxelas e noutras localidades belgas, designadamente Verviers, onde dois jihadistas foram mortos num confronto com a polícia.
A ideia de fazer esta exposição, “uma homenagem de Hergé, que foi também caricaturista, aos caricaturistas assassinados”, surgiu “espontaneamente”, conta Rodwell, logo após o massacre de 7 de Janeiro. Mas o director do museu reconhece agora que foi “um pouco ingénuo” e agradece à polícia e ao autarca de Lovaina-a-Nova que o tenham alertado para os perigos que a exposição poderia implicar. “O Museu Hergé não existe para atiçar o fogo”, diz Rodwell, acrescentando que “seria inconcebível expor ao mínimo risco” tanto os funcionários da instituição como os habitantes de Lovaina-a-Nova.
Um desenhador que estaria representado na exposição, Nicolas Vadot, concorda que houve “precipitação” do museu e que este “não escolheu o melhor momento”, quando o país acabara de aumentar o nível de alerta. Mas também acha que, não existindo uma ameaça concreta, a solução agora encontrada pode comprometer a imagem do museu.

“Uma exposição contra a censura que se autocensura quando não existia uma ameaça, é problemático”, diz Vadot, concluindo: “Isto quer dizer que os terroristas ganharam”. É bem possível que Tintin, o jovem e valente repórter criado por Hergé, sempre pronto a meter-se em arriscadas aventuras para defender a causa da justiça, tendesse a concordar com Vadot.

Luís Miguel Queirós in Público

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Um futuro para além do destino do senhor Oliveira da Figueira

José Manuel Fernandes, ex-director do jornal Público, publicou no respectivo jornal de 7 de Dezembro de 2012, um artigo com o título em epígrafe, onde destaca a personalidade do «português» das aventuras do Tintin, Oliveira de Figueira.
A acompanhar o artigo, duas ilustrações pastiches das personagens das aventuras de Tintin  por A. Valério.


Os árabes chamavam-lhe o "branco-que-vende-tudo" e Tintin comprovou-o: comprou-lhe um par de esquis, um taco de golfe, um chapéu alto, uma gaiola com um periquito e um despertador, tudo absolutas inutilidades que o deixaram imensamente feliz. A cena passa-se no livro Os Cigarros do Faraó e o senhor Oliveira da Figueira, que mais tarde reapareceria em No País do Ouro Negro e em Carvão no Porão, é o único português a ter um lugar de destaque nas aventuras criadas por Hergé (há também um cientista português a bordo do Aurora, em A Ilha Misteriosa, mas o seu papel é irrelevante). O histriónico vendedor de bugigangas corresponde a um certo cliché do ser-se português, da generosidade à capacidade de improvisação, da lábia à errância por terras distantes, tudo construído em torno da imagem de um comerciante que até na capacidade de aculturação se revela bem lusitano. Ninguém, nem mesmo Hergé, se lembraria de retratar um português como financeiro ou como industrial. 
Lembrei-me deste simpático Oliveira da Figueira quando meditava em alguns dos debates que atravessaram esta semana. E comecei por me lembrar dele quando ouvi as muitas lamúrias que, na segunda-feira, acompanharam a divulgação das mais recentes estatísticas sobre insolvências. No total, até Novembro, já tinha havido 5808 insolvências declaradas, um número bem superior ao do ano passado mas que, por si só, não significará muito, pois seria necessário compará-lo com dados - que desconheço - relativos à criação de empresas. Mais importante será perceber que insolvências foram essas. Um quarto dos pedidos (1535) foi entregue por empresas do sector do comércio. Quase outro tanto (1496) veio de empresas ligadas à construção e ao imobiliário. 
ara todas as pessoas ligadas a estas empresas, estas insolvências foram um drama, um drama por certo agravado pela dificuldade que todos os que caíram no desemprego sentirão para se libertarem dessa condição. No entanto, por muito duro que seja dizê-lo, um elevado número de falências no comércio, na construção e no imobiliário era não só inevitável como dificilmente a economia portuguesa se recomporia sem que elas ocorressem. Durante demasiados anos, andámos a lançar obras públicas inúteis, é bom termos deixado de nos endividar para o fazer. Durante demasiados anos, vimos serem lançadas urbanizações atrás de urbanizações, e é bom termos parado de erguer mais casas para ficarem vazias (já há 725 mil habitações vazias em Portugal, de acordo com o Censos 2011). Durante demasiados anos, vimos também abrirem centros comerciais atrás de centros comerciais, sem se perceber muito bem como haveria dinheiro para tantas compras e tanto comércio, e é bom regressarmos a algum realismo. 
Boa parte do aumento do desemprego provém precisamente da retracção da actividade nestes sectores (em 2011, estima-se que só a construção e o imobiliário tenham gerado mais 110 mil novos desempregados), mas será um erro pensar que é defendendo esses actividades que vamos sair da crise ou mesmo evitar mais desemprego. O que aconteceu nos últimos dez, doze anos, foi que a existência de crédito barato e financiamento abundante, a par com políticas voluntaristas, "fontistas", de governos e autarquias, permitiu uma expansão do consumo público e privado que, ao mesmo tempo que gerava um crescimento anémico, fazia explodir a dívida pública e a dívida externa. É por isso que não necessitamos, pelo contrário, de salvar (vá-se lá saber como, a não ser com mais despesa pública e mais subsidiação) os milhares de empresas que estão a desaparecer nestes sectores. O que precisamos, isso sim, é de tornar possível que surjam, em sectores com mais futuro, empresas e actividades que permitam começar a reabsorver os trabalhadores que entretanto caíram no desemprego. 
O que Portugal fez nos últimos anos foi, de alguma forma, o que o senhor Oliveira da Figueira fazia no remoto principado do Khemed: comprar e vender sem grande preocupação com a inovação e o dia de depois de amanhã. Talvez tenhamos, no fundo, feito apenas o que nos está na massa do sangue, pois todo o cliché tem sempre a sua parte de verdade. O que Portugal vai fazer daqui para a frente é que já não pode ser o mesmo. O crescimento futuro não pode repetir as fórmulas falhadas dos últimos quinze anos, e é também por isso que penso que a generalidade das sugestões de menos austeridade que por aí pululam corresponde, no fundo, ao regresso das políticas que não geraram crescimento nem garantiram empregos sustentáveis. 
Quando olhamos para trás e recordamos o que se passou nas últimas décadas, verificamos que Portugal só conheceu dois períodos de rápido desenvolvimento económico: entre 1960 e 1973 e entre 1986 e 1991. O que permitiu esses surtos desenvolvimentistas foi sempre um choque externo: na década de 1960, a adesão de Portugal à EFTA; na década de 1980, a adesão à então CEE. Mais: como recentemente explicava José Manuel Félix Ribeiro, o período mais vigoroso desse desenvolvimento (entre 1969 e 1973) foi possível porque houve três motores a puxarem por Portugal ao mesmo tempo, a saber, o boom das indústrias exportadoras do Norte do país, tornado possível pela abertura dos mercados da EFTA; os investimentos na indústria pesada e na indústria naval na zona de Lisboa, aproveitando a oportunidade da mudança das rotas de navegação pós-Guerra dos Seis Dias; e o início do envio pelos emigrantes das suas remessas, o que deu liquidez ao sistema bancário. 
É difícil imaginar a repetição dessas condições. Ou mesmo das condições conhecidas no início do chamado "cavaquismo". Ou de qualquer coisa de semelhante. O mais parecido que temos com um "choque externo" é a troika, mas até a evidente necessidade de financiamento não tem impedido a dissolução do consenso que chegou a parecer existir em torno da alteração dos nossos modos de vida. Mesmo assim, não é preciso ser tão optimista como António Borges para perceber que algum caminho tem sido percorrido pela nossa economia. 
Para já, tudo indica que os nossos Oliveira da Figueira voltaram a demandar o mundo. Boa parte da expansão das exportações portuguesas deve-se a muitos e muitos empresários que, tendo de enfrentar a contracção do mercado interno, se viraram para o exterior e conseguiram encontrar novos clientes. Óptimo, mas insuficiente. Estamos também com baixíssimos níveis de investimento e isso indica que se está sobretudo a utilizar a capacidade já instalada e que haverá ainda pouca inovação. 
Para ultrapassar esta fase, será necessário voltar a investir e, sobretudo, será necessário atrair capital estrangeiro. O nosso caminho não passa, ao contrário do que sugere Louçã ou o PCP, por "substituir importações", pois isso deixaria sempre pior o consumidor final. O nosso caminho passa por pagar as importações com mais exportações - ou com o equivalente, casos da expansão do turismo ou da capacidade de atrair estrangeiros para residirem em Portugal. Ao mesmo tempo, há que não ter medo da emigração, mesmo da emigração dos "mais qualificados", como agora gosta de se dizer. 
Uma coisa, porém, é certa: por muito que custe admiti-lo, e ainda mais fazê-lo, o nosso difícil futuro não passa por salvar a economia, as empresas e os empregos do passado. Da mesma forma que a saída da recessão não passa pelo relançamento, no curto prazo, do consumo interno. Por isso, numa altura em que começa a crescer a oposição aos cortes nas despesas do Estado, chamem-se ou não "refundação", o essencial é dizer que o que não podemos suportar são estes impostos, ou que o que queremos não é um IRC de apenas 10 por cento para os novos investimentos, queremos esse IRC para toda a economia, porque é ela, como um todo, que tem de competir nos mercados abertos da União Europeia e do resto do mundo. 
Mas será que seremos capazes de ser mais do que desenrascados e um pouco mais sofisticados Oliveiras da Figueira do século XXI?



domingo, 3 de junho de 2012

Desenho de “Tintin na América” vendido por 1,3 milhões de euros


O original de um desenho de Hergé da aventura “Tintin na América” foi vendido em Paris, neste sábado, por um preço recorde de 1.338.509 euros, mais de 500 mil euros acima do preço a que tinha sido vendido em 2008. 
A ilustração do artista belga, de 32 centímetros quadrados, pintado a tinta-da-china e a guache, mostra o jovem repórter vestido de cowboy, acompanhado pelo cão, Milou, com um grupo de nativos a aproximar-se de si durante uma emboscada.
Tal como o anterior dono da obra, a identidade do comprador é desconhecida, informou a Artcurial, a empresa que intermediou a venda.
A primeira edição de “Tintin na América” foi publicada em 1932 no Petit Vingtième, o suplemento infantil do jornal belga Le Vingtième Siècle. Dois anos mais tarde, seguiu-se a publicação pelas edições OgéO e, em 1935, pela editora franco-belga Casterman.
Só existem cinco exemplares de pinturas em guache a cor das aventuras de Tintin. Dois pertencem a colecções privadas, uma das quais a que foi agora vendida. As outras são da Fundação Moulinsart (Bélgica).
É a terceira vez que a Artcurial, que classificou a obra como “mítica”, organiza uma sessão inteiramente consagrada a Hergé – neste sábado foram vendidas outras obras, entre as quais uma colecção de cerca de 80 álbuns da aventura “Tintin no país dos sovietes” e “Tintin no Congo”.
Antes da venda de 2008 do mesmo exemplar, o recorde anterior para uma banda desenhada era de um desenho de Enki Bilal, comprado por 177.000 euros em Março de 2007.

In Público

quarta-feira, 21 de março de 2012

O DVD «O segredo do Licorne» no jornal Público

O jornal «Público» na sua edição de hoje colocou à venda, em primeira mão, o DVD do filme de Spielberg, «As aventuras de Tintin - O segredo do Licorne» pelo preço de 18,90 €.
Esta edição, além do filme, contém mais de 50 minutos de material de bónus, a saber:

  • A aventura até Tintin
  • O mundo de Tintin
  • Quem é quem de Tintin
  • Milu: do início ao fim
  • Tintin: a banda sonora
Para os amantes de Tintin e para quem goste de bom cinema de animação, eis uma edição a não perder.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Tintin na terra de D. Afonso Henriques

A adaptação das aventuras de Tintin de Spielberg teve a antestreia nacional em Guimarães. Chega hoje a 117 ecrãs de todo o país.
Ao princípio da tarde de segunda-feira, a entrada do Centro Cultural Vila Flor parecia o recreio de uma escola primária: as crianças saltavam, riam, gritavam, enquanto os professores e educadores tinham alguma dificuldade em mantê-las no alinhamento previsto para a entrada no auditório. Mais de meio milhar de alunos foram repescados nas escolas do ensino básico e secundário do concelho de Guimarães para verem, em absoluta antestreia nacional, a tão esperada adaptação que Steven Spielberg finalmente concretizou de "As Aventuras de Tintin" - que hoje chega a 117 ecrãs do circuito comercial português.
Havia crianças dos dois anos até à idade adolescente, e este era um desafio calculado pela equipa de programação audiovisual da próxima Capital Europeia da Cultura: à tarde, a sessão era para os mais pequenos, com uma cópia dobrada em português; à noite, aos adultos era oferecida a versão original legendada. "A nossa preocupação é fazer a ponte geracional e estabelecer uma relação muito directa com a comunidade", explica ao PÚBLICO João Lopes, responsável pela programação audiovisual de Guimarães 2012.
Depois da entrada no Vila Flor, as crianças depararam com duas surpresas. A primeira foi ver nos ecrãs espalhados pelo hall do centro cultural os desenhos que tinham feito na escola sobre as aventuras de Tintim e que lhes tinham valido o convite para uma tarde diferente. "Para preparar a sessão, levei alguns livros e um powerpoint para a sala de aula, e cada aluno fez o seu desenho, mas sem ser a copiar por cima", explicava a professora Cristina, da Escola Básica do 1.º Ciclo de Monte Largo. A segunda surpresa foi a utilização dos óculos escuros para ver o filme em 3D. "Por que é que temos de pôr estes óculos? É por o filme ser a preto e branco?", perguntava a Maria João, oito anos, já sentada na sala.
Aqui, o frenesim e a gritaria haveriam de manter-se até ao início da sessão, que ocorreu com a inevitável meia hora de atraso. Muitas crianças estavam a entrar pela primeira vez numa sala de cinema. Mas também havia quem já tivesse estado no Museu Hergé, na Bélgica.
Iniciado o filme, a excitação e a gritaria voltaram, passados poucos minutos, impulsionadas pela mestria manipuladora de Spielberg. Depois de um início calmo e fiel à atmosfera mais belga do imaginário Tintim, com a recriação de um mercado do centro de Bruxelas, a câmara rente ao chão, assumindo a perspectiva dos mais pequenos, transforma a aparição de um negro pitbull a ameaçar o intrépido Milu num inesperado susto para muitas crianças. E algumas delas, as mais pequeninas, acabariam mesmo por sair da sala, para continuarem a brincar no hall. A "ponte geracional" de que falava João Lopes tivera aqui um arco talvez demasiado largo, perante um filme que dificilmente funciona para crianças com menos de dez anos, como notou Yves Février. Mas a grande maioria divertiu-se e gritou durante todo o filme, mesmo se alguns não resistiram ao sono, embalados pelo cansaço natural, pela música e pelo calor de uma experiência fora da escola. No final, aquilo de que os alunos mais diziam ter gostado era de ter sentido as personagens quase a tocar as suas cadeiras e a cair-lhes no colo. "Com estes óculos, parece que está tudo tão perto de nós", dizia Inês, que já tinha experimentado os óculos quando viu o filme Entrelaçados. E o Rui, de 14 anos, tinha já sentido a mesma sensação quando viu "Shrek". Esta "Operação Tintim" funcionou como "exercício de aquecimento" para a Capital Europeia da Cultura para a equipa liderada por João Lopes. O facto de se tratar da adaptação ao cinema de "um ícone da cultura popular europeia" e de ser uma produção em 3D justificaram a aposta na programação desta antestreia nacional, justificou o crítico e programador. "Mesmo se não temos a ilusão de poder criar uma indústria cinematográfica em Guimarães, vamos montar uma base tecnológica no domínio do audiovisual a partir da qual se poderão continuar a fazer coisas para além de 2012."
A dupla sessão com o Tintim de Spielberg serviu também ao programador e a outros responsáveis por instituições culturais de Guimarães para anunciar algumas das próximas iniciativas nestas semanas de aproximação a 2012. Entre elas, avulta a exposição de fotografia que, a 16 de Dezembro, vai ser inaugurada a mostrar o valioso espólio da antiga Foto Moderna (depois Foto Machado), que é propriedade da associação Muralha e foi recentemente resgatado dos fundos daquela loja já desaparecida. Os mais de sete mil negativos (a maioria ainda em chapas de vidro) permitem reconstituir instantâneos da vida pública e privada na cidade, entre 1905 e 1969, e o trabalho de restauro e digitalização vai já a meio caminho, nas instalações do Arquivo Distrital, sob a orientação de Eduardo Brito, que será o comissário da exposição e é o responsável pelo projecto patrimonial Reimaginar Guimarães. "Vamos organizar a exposição como uma narrativa cinematográfica", promete.

Sérgio C. Andrade in Público

domingo, 16 de outubro de 2011

As Aventuras de Tintim no Público - Guia de Leitura

Contém os textos publicados no jornal «O Público» entre Setembro de 2003 e Fevereiro de 2004, para apresentação dos 24 álbuns das aventuras de Tintim, distribuídos semanalmente por este jornal. Contém também uma pequena enciclopédia das principais personagens das aventuras de Tintim.

Edições Público/Oficina do Livro - Lisboa, 2004 - 63 páginas, Brochado, Cor, 220x292 mm

A coleção de álbuns do Tintin do Público

Em 2003 e 2004, o jornal diário «Público» vendeu por 4 € cada, em conjunto com o jornal, 24 álbuns, contendo as 22 aventuras de Tintim e ainda «O lago dos tubarões» e «Tintim no país dos sovietes». Paralelamente, foram publicadas semanalmente crónicas de introdução aos álbuns, mais tarde reunidas num livro («Aventuras de Tintim no Público», Carlos Pessoa, Lisboa, 2004) também vendido pelo jornal.






                                       


sábado, 27 de agosto de 2011

Tintin no Jornal Público de 26.11.2011


Antevendo a estreia das aventuras de Tintin no cinema no próximo mês de Outubro, a edição do jornal Público de 26 de Agosto de 2011 publica na sua primeira página um desenho de Nuno Saraiva, onde reconhecemos a figura do Tintin. Na capa do suplemento Ypsilon, também temos uma trabalho de Nuno Sariava, onde mais uma vez nos aparece o herói criado por Hergé.

sábado, 19 de março de 2011

Fugas: Tintin viajante

O suplemento Fugas do diário Público de hoje publica um dossiê de Carlos Pessoa sobre as viagens dos heróis da BD.
Assim, Carlos Pessoa oferece-nos uma volta ao mundo com sete grandes viajantes: Corto Maltese (Globe trotter do século XX), Tintin (Herói na Terra e na Lua), Blake & Mortimer (Uma dupla contra Olrik), Johnny Hazard (Agente da guerra fria), Max Fridman (Espião em tempo de brasa), Cuto (Aventureiro contra o franquismo) e Jonathan (O falso contemplativo).
Um artigo, profusamente ilustrado, que nos prova que, por vezes, a BD é um veículo que nos leva a viajar, sonhando ou recordando lugares perdidos.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Tintin no jornal Público

O suplemento Ypsilon do jornal Público de hoje publica dois pastiches de Nuno Saraiva de página inteira, sendo um a própria capa do suplemento, sobre Tintin.
Os pastiches referem-se aos episódios de lunares de Tintin, sendo um a reprodução da capa do álbum «Rumo à Lua».
O suplemento nas novidades cinematográficas para 2011 traz um artigo sobre o próximo filme de Tintin do realizador Steven Spielberg. Ficamos a saber que o filme será estreado em Portugal em 27 de Outubro deste ano.

sábado, 6 de novembro de 2010

É assim o Tintin de Spielberg (mais só no Natal de 2011)

"The Adventures of Tintin: The Secret of the Unicorn", de Steven Spielberg, vai ser muito provavelmente o grande sucesso de bilheteira do Natal de 2011.
O filme deverá chegar às salas a 28 de Dezembro do próximo ano e será o primeiro de uma trilogia que está a ser cozinhada por Spielberg e Peter Jackson, o realizador de "O Senhor dos Anéis". A revista inglesa "Empire" revelou no início desta semana, em exclusivo, as primeiras imagens reais do filme, que tornam mais palpável o que Spielberg quis dizer quando explicou que o seu objectivo era "alcançar uma espécie de hiper-realidade que integrasse a linha clara de Hergé". Não desfigurar o estilo do desenhador belga é, para Spielberg, um ponto de honra: "Assumo-me como garante de que a trilogia que estou a preparar com Peter Jackson será fiel à arte de Hergé".
Filmado em 3D e recorrendo à técnica utilizada por James Cameron em "Avatar", que permite transpor movimentos e expressões faciais de actores para personagens de animação, o "Tintin" de Spielberg vai custar 135 milhões de dólares (quase cem milhões de euros), numa produção que envolve, além da DreamWorks de Spielberg, a Sony e a Paramount. O realizador anunciou este projecto há dois anos, no festival de Cannes, mas a intenção vem de longe. "No funeral de Hergé, em 1983, lembro-me de ter dito à sua viúva, Fanny, que queria muito adaptar as aventuras de Tintin ao grande ecrã, mas que respeitaria a obra do seu marido". Embora a produção esteja a decorrer sob rigoroso segredo e se conheçam poucos detalhes do filme, boa parte do elenco foi já divulgada: o actor britânico Jamie Clegg será Tintin, Andy Serkis, o Gollum de "O Senhor dos Anéis", interpretará o irascível Capitão Haddock, os polícias gémeos Dupond e Dupont ficam a cargo de Simon Pegg e Nick Frost, e Daniel Craig foi escolhido para o papel de Rackham o Vermelho. É certo que Spielberg já levantou um bocadinho o véu, mas o pouco que disse, soando bastante prometedor, dificilmente permitirá formar uma imagem aproximada do que o filme possa vir a ser: "Deve muito não apenas ao 'film noir', mas também a todo o teatro brechtiano", diz o realizador, acrescentando que, "ao mesmo tempo, é uma aventura infernal".
Para abrir esta trilogia, Spielberg e Jackson escolheram uma história que se estende por dois álbuns de Tintin (o 11º e o 12º) originalmente publicados na primeira metade dos anos 40: "O Segredo do Licorne" e "O Tesouro de Rackham o Terrível". E Peter Jackson, que dirigirá o próximo filme, já adiantou que está a pensar adaptar "As Sete Bolas de Cristal". Mas não garante. "Também gosto muito dos que se passam nos Balcãs, como 'O Ceptro de Ottokar', que daria um óptimo thriller".

Luís Miguel Queirós (PÚBLICO)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Na sombra de Tintim

"Não faz ideia de quanto eu odeio Tintim...", confessou certo dia Hergé a Jacques Martin, autor de Alix e um dos seus mais próximos colaboradores. Mais ou menos na mesma altura, em meados dos anos 60, quando trabalhava na BD "Voo 714 para Sydney", Michael Turner, tradutor inglês das aventuras do jovem repórter, ouviu o artista desabafar: "Já não gosto de Tintim. De facto, nem o posso ver".
O contraste entre a fragilidade de Hergé e a força positiva de Tintim não podia ser mais gritante. Para quem foi habituado, através de aventuras sucessivas, a ver naquele herói da banda desenhada europeia um modelo de qualidades imutáveis, estes momentos de fraqueza pessoal são estranhos e, porventura, insuportáveis. Dizer que Tintim foi uma espécie de "alter-ego" superlativo e mesmo transcendente do desenhador - exprimindo, para todos os efeitos, o melhor do artista belga, mas sem estar sujeito às mesmas leis humanas que regeram a sua existência -, pouco ajuda a esclarecer este enigma fundamental: quem era Hergé e o que procurava ele exprimir através do seu herói?
Possivelmente, nenhum outro autor da BD mundial foi alvo de tantos estudos e análises académicas, ou de trabalhos jornalísticos. A reconstituição, ao longo dos anos, da história de vida do desenhador e argumentista belga parece não deixar espaço para zonas de sombra ou tempos de incerteza: sabe-se tudo sobre Hergé e nada se ignora sobre Tintim. E, contudo, continuam a surgir, com regularidade, livros centradas na obra e na vida do mestre belga. Um deles é este "As Aventuras de Hergé", com o qual o seu editor português decidiu assinalar, simultaneamente, os 20 anos da morte do autor (Março de 1983) e os 75 anos do aparecimento de Tintim, a celebrar no final de Janeiro do próximo ano.
O que singulariza este trabalho em relação aos demais é ser ele próprio uma banda desenhada, cujo protagonista, como o título sugere, é o próprio Hergé e não o seu personagem. Por outras palavras, os autores propuseram-se - e conseguiram-no plenamente, diga-se desde já - revisitar a vida do criador de Tintim numa sequência de quadros que traçam, de forma subjectiva e afectiva, o essencial do percurso do homem e do artista.
Vê-se claramente que Stanislas, Boucquet e Fromental estão afectiva e intelectualmente próximos de Hergé, que há uma aceitação e um esforço de demonstração da tremenda humanidade do artista, com as suas mais elevadas qualidades e mais densas fraquezas. Para quem pouco ou nada conhece do homem, esta é uma boa iniciação; para os outros, a leitura do livro permite estabelecer algumas cumplicidades em torno das diversas aventuras de Tintim, aqui e ali citadas ou apenas sugeridas. Para todos, esta excelente edição pode constituir um "aperitivo" à fruição dos álbuns que o PÚBLICO está a oferecer aos seus leitores.

As Aventuras de Hergé AUTORES Stanislas (desenho), Boucquet e Fromental (texto)
EDITOR Mais BD 64 págs., € 16,95

© 2003 Público; Carlos Pessoa

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Uma agitada aventura colonial

Depois da viagem de Tintim ao país dos sovietes, o sonho de Hergé é levar o seu herói até à América. Profundamente apaixonado pela cultura índia, seus costumes e mitos, começa de imediato a trabalhar nesse projecto. O padre Wallez, director do "Le Petit Vingtième" e mentor espiritual do desenhador, é que não está pelos ajustes: se há algum lugar onde levar Tintim é o Congo, na altura uma colónia belga, juntando o útil ao agradável - espalhar o espírito missionário e evangelizador, incrementando as vocações coloniais. Assim acontece e o resultado é "Tintim no Congo", hoje distribuído com o PÚBLICO.
Ao contrário da história anterior ("Tintim no País dos Sovietes", que é também a primeira da série), Tintim é acolhido em África como um herói internacional e uma figura quase lendária. Aliás, a glória precede-o nessa saga africana, pois os representantes da grande imprensa internacional - curiosamente, Hergé inclui também o deferente delegado do "Diário de Lisboa"... - disputam entre si o privilégio de publicar em exclusivo as reportagens do herói. Mas este permanecerá fiel ao "Vingtième", onde esta BD será publicada entre 5 de Junho de 1930 e 11 de Junho do ano seguinte.
De um modo geral, o traço de Hergé apresenta-se mais firme, mas sem perda de espontaneidade. Quanto ao desenho dos animais, é o próprio autor a confessar que pediu "ajuda" às gravuras de Benjamin Rabier. Perante uma multidão de "pretos" preguiçosos, estúpidos e infantis que se exprimem em mau francês, Tintim louva os méritos e grandezas da mãe-pátria. Milu também não está pelos ajustes: ele aceitou ir a África para caçar grandes feras, no que é imitado pelo seu dono, que não tem o menor problema em matar animais a torto e a direito, eliminando até um rinoceronte com dinamite... No entanto, o herói não chega a ter adversários locais verdadeiramente maus, pois os negros desta história são demasiado pueris para serem perigosos.
Tal como acontecera a propósito de "Tintim no País dos Sovietes", o padre Wallez decide organizar uma recepção ao herói quando este regressa a Bruxelas. Uma multidão impressionante acolhe um Tintim de carne e osso e um Milu pedido de empréstimo ao dono de um café da cidade, que quase é esmagado no boulevard du Jardin Botanique por centenas de miúdos que lhe querem dar torrões de açúcar...
A publicação de "Tintim no Congo" não levanta qualquer polémica na época, de tal modo a história está conforme ao espírito da mentalidade europeia daquele tempo - por outras palavras, ter territórios ultramarinos é atributo dos grandes países e sinónimo de poder no concerto das nações. Só mais tarde, quando a questão colonial entra na agenda política, é que a aventura africana de Tintim passará pelo crivo da análise político-ideológica.
Esta BD valerá a Hergé acusações de colonialismo e racismo, das quais este se defende invocando a mentalidade reinante na sociedade belga dos anos 30 do século XX. É verdade, mas não o é menos, nesta fase inicial da sua obra, a colagem do artista aos valores culturais e ideológicos dominantes. E não deixa de ser curioso que, ao realizar a reformulação gráfica e de diálogos desta história, em 1946, o artista belga a deixe praticamente intacta em termos narrativos.
Hergé nunca escondeu o seu desamor por "Tintim no Congo". No entanto, querelas ideológicas e filosóficas à parte, permanece como um excelente documento sobre a imagem estereotipada que os europeus tinham do continente africano.

O que disse Hergé sobre "Tintim no Congo"
 Hergé; Numa Sadoul

NUMA SADOUL:Foi dito e redito que era racista. Este é um bom momento para pôr as coisas a claro: que tem a dizer em sua defesa? Que responde quando o acusam de ser "racista"?
HERGÉ: - Respondo que todas as opiniões são livres, incluindo a de pretender que eu sou racista... Enfim, seja!... Há "Tintim no Congo", admito-o. Isso passou-se em 1930. Do país eu só conhecia aquilo que as pessoas diziam na altura: "Os negros são crianças grandes... Felizmente para eles, nós estamos lá!, etc..." E eu desenhei os africanos de acordo com esses critérios, no mais puro espírito paternalista que era o daquela época, na Bélgica. Mais tarde, pelo contrário, em "Carvão no Porão" - e isso, apesar de se falar na história em "pretoguês" - parece-me que Tintim dá provas sobejas do seu anti-racismo, não?... (...) Em "Tintim no Congo", tal como em "Tintim no País dos Sovietes", o que se verifica é que eu me alimentava com os preconceitos do meio burguês em que vivia. De facto, estas duas histórias foram pecados de juventude. Não é que eu os renegue. Mas, enfim, se tivesse que refazer as histórias, fá-las-ia de outra forma, isso é certo. Seja como for, todos os pecados têm redenção!...
Passemos então directamente a "Tintim no Congo".
- "Tintim no Congo"... Por que é que eu fiz "Tintim no Congo", e como é que o fiz?... Na realidade, depois do seu regresso da Rússia eu preferia ter enviado Tintim directamente para a América. Mas o padre Wallez persuadiu-me a começar pelo Congo: "É a nossa maravilhosa colónia, que tem tanta necessidade de nós, e além disso é necessário despertar vocações coloniais" e patati e patatá! Nada disso me inspirava muito, mas eu rendi-me a esses argumentos e pronto, lá fomos em força para o Congo! Como disse, fiz esta história na perspectiva da época, ou seja, de acordo com um espírito tipicamente paternalista... que era, posso afirmá-lo, o de toda a Bélgica. Passemos sem mais demora ao próximo álbum.
("Entretiens avec Hergé", de Numa Sadoul, Éditions Casterman).
© 2003 Público; Carlos Pessoa

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Heróis da Banda Desenhada: Tintim

Quem apostaria que um personagem graficamente tão “datado”, que partia de comboio, em 1929, de Bruxelas para Moscovo numa cruzada anti-comunista sem precedentes, viria a transformar-se no herói imorredouro dos nossos dias? Naqueles primeiros tempos, Tintim é de uma linearidade absoluta, de um esquematismo gráfico e mesmo narrativo nos quais é difícil reconhecer o herói “moderno” de histórias posteriores...
Como personagem, é um repórter, nascido para correr mundo e viver as aventuras que o imortalizaram. Talvez por isso mesmo, nunca é surpreendido a escrever um artigo — quando muito, há os registos impressos das suas vivências em jornais —, mas quem se importa com isso se as suas histórias exprimem de forma tão eloquente esse desejo absoluto de justiça e humanidade que impregna cada quadradinho e cada prancha?
Por detrás de cada acto de criação está, muitas vezes, uma explicação singela. Visto à distância de mais de 70 anos, e de acordo com a confissão do próprio autor numa carta enviada a um admirador, em Novembro de 19996, o acto fundador de Tintim é de um despojamento tocante: “A ‘ideia’ da personagem Tintim e do tipo de aventuras que ele ia viver ocorreu-me, creio, em cinco minutos, no momento de esboçar pela primeira vez a silhueta desse herói: isso quer dizer que ele não tinha habitado os meus verdes anos, nem mesmo em sonhos”. Mas Hergé tem o cuidado de acrescentar mais qualquer coisa: “É possível que eu me tenha imaginado, em criança, na pele de uma espécie de Tintim: nisso, mas apenas nisso, haveria uma cristalização de um sonho, sonho que é um pouco o de todas as crianças e não pertença em exclusivo do futuro Hergé”.
Depois, há as razões sociais e culturais da época que viu surgir o jovem repórter. O padre Norbert Wallez, director do jornal belga “Vingtième”, encomenda ao seu jovem colaborador — Hergé tem então 22 anos e manifesta uma admiração pelo eclesiástico que nunca sofreu a menor quebra — uma história que metesse um adolescente e um cão. A ideia era “passar” valores católicos para os leitores, que se pretendia educar no culto da virtude e do espírito missionário. O envio do jovem repórter à Rússia soviética, um reino satânico onde impera a pobreza, a fome, o terror e a repressão, era uma solução que se adequava às mil maravilhas ao desejo do padre conservador.
Antes de Tintim, Hergé dera vida às aventuras de Totor, um escuteiro chefe de patrulha de quem o jovem repórter foi imaginado como um “irmão” mais pequeno. O autor veste-o com um fato de golfe apenas porque era uma indumentária que ele próprio gostava de utilizar com frequência. O resto é a expressão natural de uma desejo de diferenciação de todas as demais personagens conhecidas. Assim surge o topete, que se tornou numa imagem de marca para todo o sempre.
A seu lado encontramos desde a primeira hora Milou, um cão inteligente que é um companheiro e um cúmplice de todas as aventuras. Não é inteiramente animal, pois Hergé confere-lhe o dom da palavra e algumas das características que habitualmente se podem encontrar nos humanos: realismo, coragem e preocupação com o seu conforto, mas também instinto batalhador... e muita gulodice.
O êxito desta primeira aventura fará com que Tintim vá ao Congo, numa homenagem de recorte inconfundivelmente colonialista à acção da Bélgica no seu antigo território africano. E, logo a seguir, à América, onde Hergé desejara levar o seu repórter num contraponto crítico à incursão soviética, mas frustrado pela vontade do padre Wallez.
Virão, ainda, mais 20 histórias, através das quais a personagem ganha espessura, é rodeada de uma notável galeria de personagens “secundárias” (Haddock, Tournesol, irmãos Dupond(t), Castafiore, etc.. etc.), ganha o sortilégio da cor e um traço cada vez mais moderno e maturado.
Poderá sempre dizer-se que tudo o que Tintim é já estava contido naquela primeira e primordial aventura. Sim, é verdade que os balões e outros signos da moderna BD europeia nascem um pouco ali. Mas também é certo que as narrativas ganham uma solidez e uma segurança que ainda mal se vislumbrava naquela história.
Lendo “Tintim no País dos Sovietes”, descobre-se também, com surpresa, que o herói não nutre uma atitude muito compassiva perante o género humano, é mesmo cruel e implacável. Mas com o passar dos anos essa atitude conhece uma subtil metamorfose, dando lugar a um herói mais positivo e fraterno, disponível para defender e ajudar os fracos e oprimidos. Quem disse que os heróis de papel não crescem e amadurecem?
http://www.tintin.be
http://www.tintin.org
http://www.multimania.com/herge/frame.htm
http://perso.worldonline.fr/Tintin http://guillaume.belloncle.online.fr/Tintin/index.html

Nome: Tintim
Criador: Hergé
Data de nascimento: 10-01-1929
Local: “Le Petit Vingtième”, Bélgica
Época: século XX
Série: banda desenhada de aventuras e um dos grandes clássicos do género, que influenciou de forma muito vincada uma parte significativa da criação europeia contemporânea de BD
Sinais particulares: Tintim é um jovem repórter, sempre vestido com calças de golfe e ostentando um inconfundível topete no alto da cabeça. É dono de um fiel e inteligente cão “fox-terrier”, chamado Milou, e tem como companheiro inseparável, a partir de 1940, Haddock, um capitão de marinha colérico, beberrão e temperamental.

© 2000 Público/Carlos Pessoa

quinta-feira, 2 de dezembro de 1999

Edição nacional da primeira história do herói de Hergé é lançada hoje: “Tintim no País dos Sovietes” em português

Desta vez é mesmo certo: “Tintim no País dos Sovietes” tem a sua primeira edição completa em língua portuguesa e em álbum, depois de uma edição parcial na revista “Tintim” no princípio da década de 80.
A aventura que há quase 71 anos lançou o jovem repórter pelos caminhos da aventura e da fama é lançada hoje pela Verbo em Lisboa.
No ano em que apagou as velas do seu 70º aniversário, a primeira aventura do jovem repórter criado por Hergé, “Tintim no País dos Sovietes”, é lançada em Portugal. A iniciativa é do editor português da série, a Verbo, que apresenta o álbum esta tarde na Livraria Bertrand das Amoreiras, em Lisboa.
A partir de hoje, constitui o 23º título da colecção a chegar às mãos dos leitores portugueses, encabeçando a lista integral das aventuras da série. Ao contrário de outros episódios publicados muito cedo pela imprensa portuguesa, quase em simultâneo com o respectivo aparecimento europeu, este “Tintim no País dos Sovietes” tem uma história menos feliz para contar. Só no início da década de 70 — muito provavelmente em 1972 — é que o segundo número do fanzine “Saga”, editado pelo ABC Cineclube, divulga 11 pranchas da banda desenhada, numa edição amadora de pouca qualidade. Uma década depois, foi a vez da edição portuguesa da revista “Tintim” tentar publicar a mesma história. As primeiras pranchas surgem no número 12 (15º ano), de 31 de Julho de 1982, sem merecerem qualquer chamada de capa. A aventura interrompe a sua publicação com a da própria revista alguns meses mais tarde, naquele que foi o seu último número, com data de 2 de Outubro.
O álbum que agora sai para os escaparates apresenta a história original, a preto e branco e com o grafismo “tosco” em que os admiradores menos informados terão alguma dificuldade em reconhecer os tradicionais personagens de Hergé. Isto acontece porque esta foi a única aventura do personagem que o seu autor nunca quis submeter a qualquer intervenção narrativa ou estética. Mais ainda, durante décadas recusou-se a aceitar a sua comercialização normal por razões que se prendem, em grande parte, com a circunstância de a história transportar dentro de si uma poderosa carga político-ideológica que a transformou, para todos os efeitos, num panfleto anti-comunista. Esta “clandestinidade” só foi contrariada por umas quantas edições piratas que foram surgindo, por essa Europa fora, à revelia do autor e do seu editor de sempre, a Casterman. Hergé acabaria por autorizar, em 1973, a republicação do álbum (reeditado de novo, em “fac-símile”, no ano de 1981 com uma tiragem de 100 mil exemplares), posto de novo à venda em Janeiro passado para assinalar os 70 anos do aparecimento de Tintim. É a este “currículo” atribulado que a história aos quadradinhos deve a aura lendária e mítica que se lhe colou para sempre.

Viragem em 1928
Na “tentativa biográfica” publicada no número especial da revista “(À Suivre)” evocativa da morte de Hergé, em Abril de 1983, Pierre Sterckx conta que a viragem decisiva na obra do artista ocorre em 1928. Hergé descobre através de jornais mexicanos enviados para Bruxelas pelo correspondente do “XXème Siècle” (editado na Bélgica) a melhor banda desenhada da época — Krazy Kat, Bringing up Father, The Katzenjammer Kids. Ficou aqui selado o próximo passo do autor: uma verdadeira BD e não mais um mero texto suportado por imagens.
Nos primeiros dias de Janeiro de 1929 o “Petit Vingtième”, suplemento juvenil daquele jornal, termina a publicação de “L’Extraordinaire Aventure de Flup, Nénesse, Poussette et Cochonnet”. E é na mesma edição que surge um discreto desenho com uma extensa legenda anunciando a chegada dos novos personagens — Tintim e Milou.
Em fundo, as cúpulas russas. Em primeiro plano, um jovem de perfil, com uma cabeça redonda, nariz saliente, grandes sobrancelhas e cabelo rebelde caído para a testa. Calça sapatos enormes e usa um fato de golfe aos quadrados. Na legenda: “Acompanhem, a partir da próxima quinta-feira, as extraordinárias aventuras de Tintim, repórter, e do seu cão, Milou, ao País dos Sovietes. A foto acima, uma das últimas que nos foram enviadas, mostra-os a passear pelas ruas de Moscovo sob o olhar desconfiado de um camarada-cidadão-polícia-bolchevista”.
Hergé entrega duas pranchas por semana, articulando “gags” e situações durante 69 episódios semanais, sem saber verdadeiramente até onde a narrativa o levará e ao seu herói. Até 9 de Maio de 1930 o repórter belga vai mostrar toda a “verdade” sobre o “milagre soviético”. Tintim deixa atrás de si um rasto de atentados, prisões e perseguições antes de entrar em Moscovo. Observa depois a situação nos campos. Percorre as estepes e regressa de avião a Berlim. Com a recompensa de um criminoso que entrega à justiça, o herói compra um carro desportivo para regressar a Moscovo. Acaba metido num comboio que se dirige a Bruxelas, onde é recebido em apoteose. Malfeitorias do bolchevismo
A escolha da Rússia soviética como local da aventura é do padre Wallez, director do “Vingtième Siècle”, um jornal católico e visceralmente anti-comunista. O propósito é “pôr os jovens leitores ao corrente das malfeitorias do bolchevismo”, como sublinha Benoît Peeters em “Le Monde d’ Hergé”. Hergé aceita.
Sem a operação de cosmética a que outras aventuras foram submetidas, “Tintim no País dos Sovietes” é uma banda desenhada datada. Mas se o leitor conseguir esquecer por um momento o desenho ingénuo e “primitivo” e o enredo vacilante, talvez consiga vislumbrar o primeiro acto de invenção da BD segundo Hergé, para usar uma expressão feliz de Peeters. Os balões e outros signos da moderna BD europeia nascem um pouco aqui. E a própria história é um belíssimo exemplo da metamorfose e crescimento que o herói e o seu criador vão sofrendo ao longo da narrativa. O estilo e a personalidade gráfica de Hergé afirmam-se quadradinho a quadradinho, prancha a prancha, ao ponto de já não haver muito do Tintim que partira de Bruxelas no atrevido personagem que termina a sua epopeia, na mesma cidade, 138 pranchas depois.
© 1999 Público

domingo, 31 de janeiro de 1999

Desculpe, mas Hergé era antifascista

Assombra-me, embora não me indigne, a facilidade com que se acusa o criador de Tintim de simpatizante nazi, ou fascista, ou seja lá o que quiserem. Tudo isso me parece uma imensa baralhada própria, se calhar, do sistema mental do homem pós-guttenberguiano em que nos andamos a transformar. Devo lembrar aqui, em nome da justiça e da memória de Hergé, que durante a ocupação da Bélgica pelos nazis, Tintim foi vítima da censura. Foram proibidos os álbuns “Tintim na América”, “A ilha negra”, “O lótus azul” e interrompida a publicação de “No país do ouro negro”, já que se censurava tudo o que pudesse funcionar como propaganda à Inglaterra e aos Estados Unidos, onde se passam os dois primeiros álbuns citados. Quanto a “O lótus azul”, aí tratava-se mesmo de um libelo anti-imperialista e anti-japonês... Era natural que os nazis o censurassem! De facto, nada mais antifascista do que essa obra maravilhosa, desenhada em admirável estilo chinês tradicional, plena de sentimentos orientais pungentes, extremamente bem compreendidos e transmitidos na forma límpida como (quase) só eles, orientais, conseguem... Quanto às já triviais acusações de racismo que lhe fazem, parece-me importante não esquecer que em 1930 aquilo que hoje é tido por piadas racistas era, então, visto de forma tão inocente como é para nós contar anedotas sobre alentejanos. Talvez Tintim não seja propriamente o símbolo da esquerda política, as suas aventuras surgiram num jornal católico, anti-comunista e até demagógico... Tintim é certamente um bom súbdito, leal, quer seja do rei Otokar, do marajá de Rajapothalah, do emir Ben Kalish Ezab ou até do general Alcazar. Mas como esquecer a sempre presente sátira aos interesses dos grandes capitalistas, das multinacionais que provocam uma guerra na América Latina oara vender armas aos dois países beligerantes? Então porquê toda esta confusão? Quem deitou o grão de areia na engrenagem? Bem! Foi mais que noticiado que um amigo de infância de Hergé veio a ser, um dia, um importante nazi belga que, aliás, se exilou em Espanha no fim da guerra, se não me engano. É também verdade que o tal jornal católico onde saíam as aventuras de Tintim, colaborou com os nazis. Mas iria Hergé sacrificar o seu emprego por causa disso? Talvez, também, o autor de Tintim não fosse o género de pessoa que se zangasse com os amigos por causa da política... Que sabemos sobre isso? Que nos diz ele a esse respeito? Na verdade não é ele que nos responde a essa questão, mas sim o capitão Hadock quando aparece no fim de “No país do ouro negro”, o tal álbum que teve que ser interrompido em 1939 por ser passado na Palestina, a esse tempo território britânico, e onde se aludia já ao conflito israelo-árabe... É o capitão que diz: “É uma coisa ao mesmo tempo muito simples... pfff... e muito complicada... pff...” E a história acaba logo ali com um charuto explosivo armadilhado pelo jovem Abdalah. Quem consegue explicar porque razão aparece o capitão Hadock, sem fazer grande sentido, no fim de um álbum começado antes da guerra, em clima de ameaça de guerra e onde o mau é o Dr. Muller, um alemão comprometido em acções de sabotagem contra as companhias petrolíferas britânicas, se o capitão só conhece Tintim em “O caranguejo das tenazes de ouro”, esse sim, um álbum do tempo do governo de Vichy, passado no Saara francês? Eis pois um rico quebra-cabeças só para Tintimófilos! Imaginem, pois, a dor de cabeça de Hergé por lhe censurarem os álbuns... E o mais engraçado foi “O ceptro de Otokar”, onde havia uma referência implícita à política expansionista de Hitler e de Mussolini (através do anagrama “Mustler”, nome do fictício ditador da Bordúria, país igualmente fictício da Europa Central que planeia invadir um reino balcânico), passar despercebido aos censores!!! Tintim nazi? Não me façam rir!

 © 1999 Público

sábado, 10 de outubro de 1998

Amigo de Hergé que inspirou um personagem de Tintim morreu em Paris: A segunda morte de Tchang

Inspirou um personagem que fez chorar Tintim e esteve no centro de uma aventura que levou o herói de Hergé até ao Tibete. Chamava-se Tchang Tchong-Jen, foi um grande amigo do artista belga e morreu anteontem nos arredores de Paris, com 93 anos.


Há um momento na história “O Lótus Azul” em que Tintim chora, deixando cair a máscara do herói sem fraquezas nem emoções. Acontece depois de o herói criado por Hergé ter salvo das águas agitadas do rio Yang-Tsé um pequeno chinês órfão que pergunta por que razão ele lhe salvou a vida.
A China vivia tempos difíceis, literalmente dilacerada pela cupidez e ambição das potências estrangeiras que lhe sangram as riquezas e aniquilam as populações. Tintim chega ao país para descobrir o que se esconde por trás de uma enigmática mensagem que captou numa escuta de rádio. Cai em cheio num negócio de tráfico de ópio que quase lhe custa a vida. E Tchang tem oportunidade de, por mais de uma vez, saldar a sua dívida para com o herói, livrando-o de situações muito perigosas. Ambos colaboram no desmantelamento da rede de traficantes e Tintim parte, deixando atrás de um amigo para toda a vida.
Voltarão a encontrar-se anos mais tarde, em “Tintim no Tibete”. O herói tem um sonho premonitório, no qual vê o seu amigo numa situação de perigo de vida. No dia seguinte, lê nos jornais que o avião em que o seu amigo viajava se despenhou nas montanhas nevadas dos Himalaias. Sem registar sobreviventes. Tintim não se conforma e parte para o Tibete, apenas com o peso da sua convicção interior, para o salvar. E consegue-o, claro.

Conselheiro e amigo de Hergé
Há situações em que a ficção segue as pegadas da realidade. A estreita amizade estabelecida entre Tintim e Tchang é uma delas, reproduzindo de forma romanceada a história da cumplicidade entre Hergé e... Tchang. Escultor e pintor, este último conhece o autor de banda desenhada em Bruxelas no ano de 1934. Tchang tem 27 anos e frequenta há três a Academia Real das Belas Artes. Aguarelista de talentos reconhecidos no seu país, vai virar-se para a escultura, arte em que o seu pai já fizera algum nome. O autor de “Os Cigarros do Faraó” já tinha em mente há algum tempo levar o seu personagem até ao Extremo Oriente. Um certo padre Gosset, capelão dos estudantes chineses que frequentam a Universidade de Lovaina, sugere a Hergé que arranje um conselheiro em assuntos orientais. Convinha evitar os estereótipos racistas que marcaram de forma indelével a anterior aventura da série, “Tintim no Congo”, acrescenta. Esse conselheiro é Tchang, que contribui para fazer despontar em Hergé uma preocupação com a pesquisa documental que caracterizará as aventuras posteriores de Tintim. Fá-lo comungar das suas próprias recordações e participa mesmo no desenho traçando os ideogramas chineses inscritos nos cenários de “O Lótus Azul”. Hergé retribui com a figura do pequeno chinês, salvo “in extremis” das águas barrentas do Yang-Tsé, que considera Tintim o seu único verdadeiro amigo.
Em 1935 Tchang regressa à China, sendo apanhado no turbilhão da guerra sino-japonesa que antecedeu a II Grande Guerra Mundial. Sofre na pele e no coração estes dois conflitos, a tomada do poder pelos comunistas de Mao Tsé-Tung em 1949 e a Revolução Cultural nos anos 60. Quarenta anos depois é reabilitado e nomeado director da Academia de Belas Artes de Xangai.
Durante esse tempo, Hergé nunca soube nada do seu amigo. “Tintim no Tibete”, publicado em 1958-59 na revista “Tintim”, é tanto o fruto de uma profunda crise pessoal — Hergé tinha-se separado da sua primeira mulher e casado com Fanny Vlamynck —, como uma sentida homenagem ao personagem desaparecido na voragem do tempo e da história.
Só nos finais dos anos 70 é que Hergé vai ter de novo notícias de Tchang. O encontro dos dois em Bruxelas, no ano de 1981, é um momento de grande emoção. Dois anos depois, morria Hergé.
Em 1984 Tchang instala-se definitivamente em França com a filha, acolhido com todas as honras pelo então ministro da Cultura, Jack Lang. Tchang morreu na quinta-feira à noite na Casa dos Artistas de Nogent-sur-Marne, nos arredores de Paris. Tinha 93 anos. © 1998 Público/Carlos Pessoa