terça-feira, 22 de outubro de 2019

Porto Beeats (Episódio 23 - Porto Canal) - Tintin

As aventuras do Porto Beats cruzam-se com as do Tintin
O herói de Hergé é o tema deste episódio. 
Mais propriamente a livraria que há no Porto. E que lhe faz uma, mais que justa, homenagem. 



sábado, 5 de outubro de 2019

O falecido Hergé

Diário de Lisboa, 24/03/1983

https://tintinemportugal.blogspot.com/2019/10/diario-de-lisboa-de-24-de-marco-de-1983.html

O FALECIDO HERGÉ

José-Augusto França

Há muitos anos já, não sei em que entrevista, gabei-me de só conhecer obras completas dum autor, o Hergé. Fez a declaração, pequeníssimo escândalo lisboeta, à altura do Chiado que ainda então havia – e a verdade é que era quase verdade, em relação à obra publicada em volume ou em álbum, e que, do mesmo, nem eu nem alguém nos podemos vangloriar quanto a outros autores, por mais apreciados que sejam.

A minha dedicação a Hergé vinha por via familiar, leitor primeiro que quase sempre era, por autoridade, dos álbuns que davam à minha filha. Casada ela, é em outras terras que já netos lerão Hergé. Aliás lêem mesmo, como constatei, mais uma vez concorrente deles, embora mais discreto com a idade...

Daí que a morte recente de Hergé, de seu verdadeiro nome Georges Rémi, belga nascido há setenta e cinco anos, me tenha trazido a tristeza de quem perde um velho conhecimento. Senão um velho amigo a quem sempre estive anonimamente agradecido pelos pequenos prazeres que me deu com as aventuras do Tintin por esse mundo fora, em prol dos justos e para castigo dos maus – que tinham sempre certa duvidosa cor vermelha, desde a primeira das histórias, passada no «país dos sovietes», em 1929...  

A ideologia era com o autor, e a verdade é que o Balzac também era reacionário e não deixa por isso de ser quem é, com leituras possíveis e desejáveis de outras orientações. Isso mesmo os álbuns do Tintin permitiam, levando, para além da história contada nos seus quadradinhos, a úteis reflexões sobre a mecânica terrestre das ideologias e dos sucessos. Desculpas! – digo já, bem lembrado que tais meditações eram sempre muito posteriores à decifração dos bonecos e dos diálogos a saírem-lhes das bocas, aliás também lições de concisão literária, a seguir. Desculpas! – acrescento de novo, lembrado mais do prazer da leitura que de outras coisas cultas...  

A verdade é que as histórias do Tintin correm num fluir natural, orgânico, saboroso, de passatempo desejável, e nisso agradecidamente se detém a minha memória. Confessando que, não me tivesse a filha levado os álbuns no dote, em vez de escrever afanosamente estas três folhas de máquina, ia mas era ler três Tintins de seguida!

Lembro-me de vários títulos: «Ele» no Congo, «Ele» no país do ouro negro (quão antes da subida do petróleo!), «Ele» no Tibete, «Ele» com «Le crabe aux pinces d'or», ele a tratar do tesouro de Rackam-le-rouge, ou do ceptro de Ottokar, ele a descobrir o mistério dos «Bijoux de la Castafiore», ou «L'Affaire Tournesol». E, além da gordíssima soprano e do sábio distraído, havia o capitão Haddock e os dois gémeos Dupont, com t e d, repetindo-se em asneiras policiais. E «Milou», o cão. Havia tudo isso, em quantos álbuns? Vinte e três, creio, sendo o último «Tintin et le Picaros», de há sete anos, que já não li e vou procurar agora.

Hergé publicou outros álbuns e criou outras personagens: Quick e Flupke, em seis volumes, Jo e Zette (com Jocko, o macaquinho), Popol e Virginie, heróis zoomórficos – mas a sua celebridade mundial deve-se ao Tintin, nascido em 1929 num pequeno suplemento ilustrado do jornal católico «Le Vingtième Siècle», de Bruxelas. A Europa, o Japão, a América, todo o mundo seguiu as aventuras de Tintin que por todo o mundo se passavam – a começar pela Rússia e pelo Congo naturalmente belga, nas primeiras delas, nas páginas do jornal, a segunda editada em volume, em 1931, depois do enorme sucesso obtido com o álbum «Tintin au pays des Soviets», no ano anterior. Ambos fizeram não há muito jus a reedições fac-similadas, coroamento bibliográfico do êxito. De resto, sucessivas edições não faltam, e bibliófilos há que não as perdem – tudo pronto para um museu do Tintin que, aposto, se não abriu já, abrirá antes que o da literatura portuguesa, no Porto.

E há ainda o cinema: três longas-metragens, sempre com o nome mágico de «Tintin» – «et le mystère de la Toison d'Or», «et les oranges bleues», «et le lac aux requins». Só vi o primeiro e saí triste, à procura do meu Tintin que não era, com certeza, o actor escolhido, ou qualquer outro possível. Mas, com certeza também, os tubarões da ilha do outro filme eram melhores que os dum famoso filme-catástrofe! Ao menos, tinham por ele a imaginação inocentemente aplicada num processo moral de justiça imanente, que o herói-escuteiro encarnava. Tintin foi assim definido pelo próprio autor cuja primeira personagem criada foi mesmo um chefe de patrulha «scoute».

Dois filmes ainda, de que saíram álbuns especiais: um deles chama-se «Le Musée imaginaire de Tintin» que é, creio eu, um museu mesmo, como tal existente, e aberto ao público, algures, como atrás supus, e onde se reúnem os objectos que têm papel nas aventuras do herói. Se assim não for – pela certa o será... Outro filme é de «Entretiens avec Hergé», e também deu álbum documentário. «Tintin et moi...» – que melhor argumento para ligar o real e o imaginário, criador e criatura, numa longa vida comum de sessenta anos?...

Mas há ainda os «Archives Hergé», com as versões originais das aventuras desenhadas, que permite distinguir o próprio sabor que inicialmente tiveram. E, finalmente, os já dois volumes de «Êtes-vous tintinologue?» – porque uma nova ciência disto tudo saiu, a «tintinologie», especializada nas vidas imaginárias do herói, ou nossas também. E a pergunta do título justifica-se em alguns centos delas que os voluminhos propõem à sabedoria dos «fans» de Tintin – como foi, como não foi, que disse ele, onde encontrou ele fulano, quem veio depois, quem veio antes?... Jogos de sala para especialistas de televisão – que garantem a popularidade do jovem repórter-detective, um dia lançado pelo vasto mundo para socorrer aflitos e castigar maus. Último herói optimista dum mundo em confusão maniqueia, juvenil escuteiro claramente desenhado e encenado em composições simples sem ângulos rebuscados, «B.D.» tal e qual era desde meados do século (americano) passado, e que Hergé continuou, em fé, esperança e caridade. Nisso morreu agora, de velho.