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sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Hergé Em Portugal


 https://tintinemportugal.blogspot.com/2021/10/catalogo-da-exposicao-herge-em-portugal.html

A capa apresenta um desenho de Hergé oferecido, em 1958, a Francisco Hipólito Raposo e Pedro Emauz Silva.

A coordenação da obra foi de António Cabral. A primeira edição (setembro de 2021) foi de 1100 exemplares e a segunda (Outubro 2022?) foi de 2000 exemplares.

Textos de Amadeu Lopes Sabino, António Araújo, António Cabral, António Monteiro, João Paulo Paiva Boléo, José Azevedo e Menezes e José Vitor Silva.

A separata "Hergé em Portugal" está a ser oferecida gratuitamente com a venda da versão portuguesa do Catálogo da exposição que tem um PVP de 15€.

A compra pode ser efectuada nas lojas da Fundação Calouste Gulbenkian (Av. de Berna, 45).

A montra online encontra-se encerrada para remodelação mas poderá adquirir-se o livro por correspondência. Deve ser feito um pré pagamento e é necessário facultar os seguintes elementos: nome, morada e n.º de contribuinte.

O livro fica em 15,00 € mais 1,00 € de portes num total de 16,00 €. Como é uma edição limitada convém confirmar se a separata ainda se encontra disponível.

Nota: as vendas são realizadas apenas para Território Nacional

vendas@gulbenkian.pt

Por curiosidade no site tintim.pt as obras estão à venda com os seguintes preços: catálogo (19.99€) e separata (9.99€)


domingo, 14 de novembro de 2021

Do 7 aos 77

"As angústias colectivas são contrárias à tradição Tintin. Tintin é intimista. Mesmo no decurso da expedição lunar, a opinião pública mundial não teve qualquer papel e, no entanto, Deus sabe bem que essa era uma questão que interpelava toda a humanidade. E, em Carvão no Porão, o problema da escravatura resume-se a um quarto de página num livro de 62 páginas. As convulsões do mundo, a intervenção dos poderes, os grandes movimentos de massas, isso é Jacobs, não é Hergé!" Foi assim, com uma comparação com o seu colega e amigo Edgar Pierre Jacobs, criador de Blake e Mortimer, que Hergé definiu a sua obra e a marca distintiva das aventuras de Tintin e Milou.

Noutra ocasião, dirá que o seu trabalho não era motivo de glória e de honras espúrias, mas também não deveria ser razão de vergonha ou arrependimento. Com isso, talvez procurasse defender-se das críticas feitas a algumas histórias de Tintin: a do Congo, acima de todas, verberada pelo modo paternalista com que nela os africanos são tratados pelos colonos brancos; mas também a viagem do repórter pela Rússia dos sovietes ou, pior ainda, um dos álbuns mais controversos, A Estrela Misteriosa, em que uma equipa de cientistas europeus - entre os quais um alemão, um sueco, um espanhol e um português, professor em Coimbra - se confronta com uma expedição financiada por um milionário judeu de Nova Iorque, com Tintin, claro está, a alinhar pelo Velho Continente contra os yankees sem princípios nem escrúpulos. Publicada em 1942, com a Bélgica então ocupada pelos nazis, é difícil não ver nessa obra uma crítica aberta, muito na linha da propaganda do Reich, à tentação de hegemonia mundial por parte dos EUA, país ademais dominado por um vasto complô semita. Já antes, com Tintin na América, Hergé traçara um retrato cáustico da vida do lado de lá do Atlântico, com pinceladas sombrias sobre a corrupção e os crimes dos clãs mafiosos, com Al Capone à cabeça, sobre a segregação dos negros e a destruição dos povos índios.

Não têm faltado as vozes que referem à outrance as ligações perigosas do criador de Tintin e, na verdade, a lendária personagem das histórias em quadrinhos ou quadradinhos (ou "histórias aos quadrados", como lhes chamava a censura salazarista nos anos 1950) foi fortemente inspirada por um homem, o padre Norbert Wallez que, do ponto de vista político e ideológico, se mostrava bem enquadrado nas direitas extremas. Defensor de uma federação entre a Bélgica e a Renânia, Wallez era um admirador incondicional de Benito Mussolini, que o recebera em Roma em 1923 e que, não muito depois, lhe enviara um retrato autografado, em tudo idêntico ao que adornava o gabinete de trabalho de Oliveira Salazar. Antigo estudante de Lovaina, seguidor das doutrinas de Maurras e da Action Française, o padre Wallez fora nomeado director do Le Vingtième Siècle, um jornal conservador fundado em 1895 e em cujo suplemento infanto-juvenil, o Le Petit Vingtième, Hergé começará a publicar as aventuras de Tintin. Por razões não muito claras, mas porventura ligadas às suas inclinações políticas, Wallez será demitido da direcção do periódico, em 1933, mas, com a invasão da Bélgica pelos nazis, em 1940, retomará os seus escritos bárbaros e as suas intervenções flamejantes, o que lhe valeu uma dura pena no pós-guerra: em 1947, foi acusado de colaboração com os alemães e condenado a cinco anos de prisão e a uma pesada multa de 200 mil francos. Permanecerá detido em Charleroi até 1950, mas, por padecer de um cancro, foi libertado por razões de saúde, morrendo não muito depois, em Setembro de 1942. Hergé e a sua mulher, Germaine, antiga colaboradora do padre Wallez, não deixarão de o visitar no seu leito de morte.

Este sacerdote radical sempre se considerou coautor das aventuras de Tintin ou, como já alguém disse, "Hergé criou Tintin, mas foi Wallez quem teve a ideia". A personagem do jovem repórter é, sem margem para dúvidas, uma criação original de Hergé, que já antes concebera uma figura muito parecida ao mítico herói, o escuteiro Totor, devendo lembrar-se que, antes disso, Benjamin Rabier inventara, em 1897, a personagem Tintin-Lutin, com a qual o Tintin de Hergé tem bastantes semelhanças visuais. A cadelinha Milou, um fox-terrier que, até à aparição do capitão Haddock, desempenhou alegremente o papel de Sancho Pança do Tintin-Quixote, foi inspirada, ao menos no nome, na primeira namorada de Hergé, Marie-Louise van Cutsem, "Milou" de petit nom. A intervenção do padre Wallez não ocorreu, pois, na concepção dos personagens (Tintin, Milou), mas noutro plano, não menos decisivo: é ele que sugere, ou ordena, que a primeira aventura de Tintin seja uma viagem à Rússia soviética, para um impiedoso retrato do país dos bolcheviques, que o repórter se desloque depois ao Congo, de modo a promover junto das crianças e dos jovens o trabalho dos missionários católicos em África e, enfim, que vá de seguida à América, em digressão crítica da civilização do dólar, das fábricas e das megalópoles trepidantes. Se Hergé foi o pai de Tintin, Norbert Wallez foi o pai das aventuras de Tintin, sobretudo as da primeira fase.

Na busca de revelações e escândalos, alguns biógrafos insistem em excesso nessas relações do criador de Tintin com a direita radical, como sucede com Pierre Assouline (Hergé, 1998); outros, como Benoît Peeters (Hergé, Fils de Tintin, 2002), sem negarem tais ligações, adoptam uma atitude mais moderada e menos sensacionalista. Se é indesmentível que Hergé conheceu, e conheceu de perto, Léon Degrelle, o líder do Partido Rexista, que colaborou miseravelmente com o nazismo, o facto é que o criador de Tintin nunca navegou nessas águas ignóbeis, bem longe disso: numa famosa intervenção pública, o cardeal Van Roey, arcebispo de Malines e primaz da Bélgica, descrevera Degrelle como "um perigo para o país e para a Igreja" e Hergé seguiu a orientação eclesial, evitando os insistentes apelos do dirigente rexista para colaborar no jornal Le Pays Réel.

No essencial - e esse é o ponto decisivo -, Georges Rémi, de nome artístico Hergé, foi um produto do movimento social católico surgido nos escombros da Grande Guerra. O conflito de 1914-18 provocara um intenso recrudescer da espiritualidade em toda a Europa: em França, falou-se num "regresso aos altares", tal o número de fiéis que procuraram o amparo da fé para lidar com a catástrofe reinante e os mortos aos milhões; em Inglaterra, e não só, o espiritismo teve grande surto, pela mão de Conan Doyle e tantos outros, pois eram muitos os que queriam comunicar com os filhos ou familiares tombados em combate. Entre nós, e além do fenómeno da Virgem de Fátima, os anos 1920 e 1930 são de grande vigor para a Igreja, a qual, sob os auspícios do Papa, não hostilizava já os poderes instituídos, antes buscava um cordial ralliement com eles. O Centro Católico Português, a Acção Católica, o febril movimento dos congressos de crentes (falou-se até em "congressite") são alguns dos muitos momentos em que se desdobrou uma nova visão do catolicismo, mais empenhado na esfera social e política como forma de combate às doutrinas socialistas e marxistas e às suas ideias de luta de classes. Assim, não é por acaso que a JOC, a Juventude Operária Católica, foi fundada em 1923, na Bélgica, pelo padre Joseph Cardijn, como não é por acaso que foi o padre Abel Varzim que, quando estudava em Lovaina, conheceu as aventuras de Tintin e as trouxe para Portugal, o primeiro país não francófono a publicar as suas histórias. Foi nesse "caldo de cultura" que se afirmou e projectou Oliveira Salazar e, sem forçar paralelismos descabidos, foi também nele que Hergé se formou e começou a trabalhar.

O criador de Tintin, importa dizê-lo, nunca foi um ideólogo ou sequer um homem com grande densidade cultural e política: filho de um alfaiate, neto por via materna de um canalizador, oriundo de uma família onde, como o próprio reconhecerá, não havia muitos livros ou conversas profundas, o turning point da sua infância dá-se quando é retirado do ensino laico e inscrito no católico Colège Saint-Boniface e, em simultâneo, sai dos Boys Scouts, também laicos, para ingressar na Associação de Scouts Baden-Powell, clerical. Passadas no le plat pays de que falava Brel, a infância e a juventude de Hergé não foram particularmente felizes ou ricas de experiências e acontecimentos, nem marcadas por vastas leituras, por férias memoráveis, por idas ao teatro e ao cinema. Aliás, até uma fase adiantada da vida, Hergé nunca fez grandes viagens ("excepto nos livros", dizia) ou mostrou especial interesse pelo cinema, pelo teatro, pela pintura abstracta ou pela ópera, ainda que todas estas artes estejam presentes nos seus trabalhos.

Pelo menos até aos anos 1950, ou mais tarde ainda, será um conservador, sempre fiel à monarquia e a Leopoldo III, um desenhador modesto que procurava ganhar a vida e que estava obsessivamente concentrado nas suas criações e na sua obra. Tentou a publicidade, sem grande sucesso, e, em 1940, quando os alemães chegaram, ficou apavorado de medo: com a mulher, mete-se num carro pela França adentro, numa fuga sem sentido nem rumo. Depois de escrever a Adolfo Simões Müller, o seu editor português, pedindo-lhe que avisasse os pais e os sogros que se encontrava bem, acaba por regressar à Bélgica. Num dos momentos mais tristes da sua carreira, colaboraria no jornal Le Soir quando este é dominado por uma direcção totalmente alinhada com os nazis e aí publica alguns desenhos de indiscutível timbre antissemita. Mais do que isso, torna-se próximo de Raymond de Becker, o editor do Le Soir, e alinha com a sua apologia de uma "ordem nova", conceito que, entre nós, também seduziu muitos publicistas de direita, como Marcello Caetano e Pedro Theotónio Pereira (que fundaram em 1926 uma publicação com esse nome, a Ordem Nova, "revista antimoderna, antiliberal, antidemocrática, antibolchevista, hamburguesa"), ou como João Ameal, que em 1932 deu à estampa o livro A Revolução da Ordem.

Por causa disto, no pós-guerra Hergé terá a fotografia e o nome expostos na "Galeria dos Traidores", o rol dos que colaboraram com o ocupante nazi. Foi detido, passou uma noite na prisão, interrogado, sujeito a depuração, mas no final prevaleceu o bom senso e nunca o condenaram. É que, se o tivessem preso, muitos outros, aos milhares, teriam de o ser também. O editor dos seus álbuns, Casterman, fora nomeado burgomestre de Tournai durante a ocupação germânica e, sobretudo entre os flamengos, a colaboração tinha sido intensa e imensa. Além disso, o mais relevante: Hergé nunca foi um "fascista", no espírito e nas acções, até porque não tinha envergadura intelectual ou política para voos tão arriscados. Foi, isso sim, um vago militante católico, atormentado por depressões cíclicas, algumas das quais prolongadas, alguém que vivia obcecado com a sua obra, na qual trabalhava sete dias por semana, 365 dias por ano. Na década de 1930, tivera um encontro que mudaria a sua vida para sempre. Enquanto preparava O Lótus Azul, o padre Léon Gosset, capelão dos estudantes chineses de Lovaina, instara-o a não figurar os orientais com os estereótipos clássicos, que encontramos nas histórias de Blake e Mortimer ou de Buck Danny. Por seu intermédio, encontra-se em 1934 com Tchang Tchong Jen, um jovem estudante chinês que nele terá o efeito de uma epifania. Anos mais tarde, Hergé dirá que ele foi "um dos principais artífices da minha evolução" e, graças a Tchang, o criador de Tintin passará a ter um olhar mais complacente e humanista para com os demais povos do mundo, a interiorizar e a assumir os princípios éticos da sabedoria oriental, a interessar-se pelo taoísmo e pelas religiões da Ásia. Num certo sentido, Tchang resgatou-o da influência tutelar do padre Wallez, que dera azo às primeiras histórias, as da Rússia, do Congo e da América. Depois, no pós-guerra, um sucesso imparável: em 1950, funda os Studios Hergé e os seus álbuns conquistam gerações de leitores em todo o planeta, dos 7 aos 77 anos.

Hergé deu-nos Tintin, Milou, Haddock, Bianca Castafiore, os Dupond & Dupont, uma galeria infindável de personagens que fizeram a nossa infância e que a prolongam até morrermos. Hoje, há quem o fustigue e ataque, há quem pretenda censurá-lo, tirá-lo da vista das criancinhas, dos infantes que tentamos proteger das malvadezas de Tintin enquanto os deixamos à solta pelas redes sociais, tenebroso reino das maiores acefalias e das piores pornografias. Alguém entende isto?

António Araújo in DN

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Artigo de opinião de António Araújo

No pasarán

A culpa foi toda de um padre. No dia 9 de Julho de 1931, com tremendo aparato mediático, uma chusma de gente acorreu à Gare du Nord, em Bruxelas, para esperar um jovem repórter acabado de chegar das Áfricas. Na varanda da gare, um adolescente louro, fardado de branco e de chapéu colonial, dirigiu-se à multidão expectante, de megafone em punho, agradecendo-lhe a presença e o apoio nessa sua nova aventura. Nas fotografias da época, vemos crianças de colo, jovens iguais ao repórter, mulheres de sorriso aberto, senhores de chapéus de palhinha. Talvez ele ainda não fosse o fenómeno de popularidade mundial entre os "jovens dos 7 aos 77 anos", como viria a tornar-se mais tarde, mas Tintim já tinha à época uma quantidade apreciável de fãs, que acorreram prontamente ao chamamento do jornal Le Vingtième Siècle. Num golpe de génio, o seu director, o padre Wallez, decidira promover o novo álbum do herói organizando uma grande festa e publicando como suplemento daquela revista um convite para celebrar o regresso de Tintim a casa. A campanha publicitária passou pela contratação do actor Henri De Doncker, um jovem sósia do repórter, e pela oferta de "uma valiosa peça artística congolesa" aos primeiros compradores do livro, além de um cortejo com animais exóticos alugados a um zoo. Não era, contudo, uma novidade absoluta, pois no ano anterior já se ensaiara um regresso hollywoodesco de Tintim à Bélgica, vindo do País dos Sovietes, com um sósia de carne e osso a desembarcar na place Rogier. Agora, no entanto, a coisa funcionou melhor, com mais adesão de público, e Tintin au Congo converteu-se num best-seller juvenil da década de 30, sendo reeditado várias vezes. Em 1934, a editora Casternan assumiu a publicação das obras de Hergé e, dez anos depois, deu-se à estampa a última edição do álbum a preto e branco.

No pós-guerra, em 1946, a obra foi reformulada, sendo expurgada das suas referências colonialistas mais óbvias, e, das 110 páginas originais, a preto e branco, fez-se uma nova edição a cores, com 62 páginas. Nos anos 60, o livro caiu num relativo esquecimento, ante a vaga descolonizadora que então corria o mundo, e, numa entrevista radiofónica de 1966, Hergé explicaria a sua génese, dizendo que Tintin au Congo nascera de uma sugestão do seu patrão da altura, o padre Norbert Wallez, director do jornal católico ultraconservador Le Vingtième Siècle (e um admirador de Maurras e de Mussolini, preso no pós-guerra por colaboracionismo com os nazis...), que se considerava coautor das aventuras de Tintin e que, não por acaso, recebia uma percentagem dos respectivos direitos. Fora dele a ideia de enviar o repórter à Rússia dos sovietes, para denúncia dos males do comunismo, como fora ele que, logo a seguir, instara Hergé a mandar Tintim ao Congo, para promover o esforço dos missionários católicos no território e para despertar novas vocações entre a juventude. Para o efeito, o desenhador muniu-se da literatura de viagens da época, foi à secção de artigos coloniais dos armazéns Bon Marché, passou horas no Museu de Tervueren a copiar os trajes dos Aniota, os "homens-leopardo" que se rebelavam contra o poder dos brancos. O resultado final, como o próprio reconhecerá, foi um álbum "paternalista", mas que só involuntariamente reflectia o espírito colonizador do seu tempo. Na verdade, Tintin no Congo é, inquestionavelmente, uma obra colonialista latu sensu, mas não constitui, de forma alguma, uma apologia militante da dominação belga do Congo, à sombra da qual se tinham cometido atrocidades horríveis num período anterior, o tempo de Leopoldo II e da "febre da borracha", como foi denunciado por muitos, com destaque para Conan Doyle ou por Mark Twain, com O Fantasma do Rei Leopoldo.

Então com 23 anos e em início de carreira, a tentar ganhar a vida como ilustrador de um jornal católico, Hergé passou completamente à margem dessas controvérsias. Diria mais tarde que Tintim no Congo foi um "pecado de juventude", uma fantasia infantojuvenil ligeira, e que, se a pudesse refazer de novo, criaria uma obra inteiramente diferente, desde logo com mais conhecimento da realidade africana. No entanto, e como seria notado pela revista africana Zaïre em 1969, em Tintim no Congo os negros são, na esmagadora maioria dos casos, os bons da fita e o jovem repórter luta, isso sim, contra o mal incarnado pelos brancos. De resto, em livros posteriores, como Coke en stock, de 1958, Hergé denunciara o tráfico negreiro que persistia no mundo e, na reedição de Le crabe aux pinces d'or, saído originalmente em 1940-1941, terá o cuidado de alterar a fisionomia de um dos vilões que atacam o capitão Haddock, que deixou de ser negro para assumir traços caucasianos.

Em Maio de 1970, quando Tintim no Congo foi novamente reeditado, apenas se ouviu uma voz crítica, a do anarquista belga Jan Bucquoy, que denunciou o livro como um "clássico da era colonial" e moldou um busto satírico de Tintim com feições negras. A provocação, no entanto, passaria quase despercebida. A bomba estourou apenas em 2007, quando Steven Spielberg quis fazer uma adaptação cinematográfica das aventuras do jovem repórter. Um advogado de Londres solicitou à comissão britânica para a igualdade racial que proibisse a venda de Tintin no Congo nas livrarias e, apesar da contestação de nomes de vulto, como o do desenhador congolês Barly Baruti, fundador de Afro-BD, a polémica estava lançada. Em Inglaterra, na Austrália, na Nova Zelândia, o álbum foi transferido nas livrarias para as secções de adultos, como se de obra pornográfica se tratasse; em Estocolmo foi intentada, sem sucesso, uma acção judicial para impedir a sua venda; o conselho representativo das associações negras de França considerou o livro "ofensivo", mas não conseguiu que o mesmo fosse imediatamente proibido de circular. Na América, a biblioteca municipal de Brooklyn decidiu retirá-lo das estantes, colocando-o numa secção de reservados, só acessível a investigadores ou a leitores informados, mediante marcação prévia. Na África do Sul, numa decisão equilibrada e sensata, impôs-se que o livro fosse vendido com uma cinta vermelha, advertindo que se tratava de uma obra potencialmente ofensiva para os leitores mais sensíveis. Um jovem congolês que estudava na Bélgica, Bienvenu Mbutu Mondondo, apresentou um queixa-crime contra o livro em Bruxelas, mas uma decisão judicial de 2010 considerou que ele não era uma obra intimidante ou geradora de violência.

Anos antes, em 1975, Hergé aceitara mudar uma das cenas da saga, a pedido do seu editor sueco, redesenhando o episódio bárbaro em que Tintim mata um rinoceronte a golpes de dinamite. O desenhador reconheceria, aliás, que o livro "retratava os africanos com os estereótipos burgueses e paternalistas da época", mas nem isso aplacou uma fúria censória que, note-se, alastrou por contágio mimético em vários pontos do globo, no espaço de poucos meses. Até ao filme de Spielberg, e durante décadas, ninguém se lembrara do "livro racista" de Hergé, que a maioria dos especialistas, de resto, consideram ser uma das suas obras menos conseguidas.

No mundo anglo-saxónico, especialmente nos Estados Unidos, Tintim no Congo é hoje um proscrito: à última hora, o editor norte-americano desistiu da sua publicação e a colecção das aventuras de Tintim é vendida e publicitada como se aquele título maldito nunca tivesse existido. Noutros países, e no que parece ser uma decisão sensata, o livro é comercializado envolto em celofane, com uma advertência sobre o seu conteúdo. Para esta solução muito contribuiu a prudência da justiça: na Bélgica, concluiu-se que a obra, podendo ofender alguns, não merecia ser proibida de circular numa sociedade livre, tal qual a literatura pornográfica e escandalosa ou as caricaturas de Maomé; na Suécia, o procurador-geral mandou arquivar uma queixa contra o livro de Hergé baseando-se num argumento formal, a prescrição do delito, mas dizendo, ainda assim, que a obra se encontrava protegida pelo princípio da liberdade de expressão - o que não impediu a biblioteca infantil da Kulturhuset, de Estocolmo, de a retirar das suas estantes, em Setembro de 2011, gesto que abriu um amplo debate no país, o "Tintim-gate".

Descrita ao pormenor num informativo livrinho das Éditions Moulinsart, as mesmas que publicam as aventuras de Hergé (Tintin au Congo de Papa, 2012), a história de Tintim no Congo é, apesar de tudo, uma história feliz, pois demonstra que, mesmo no seio da mais acesa polémica, é possível encontrar soluções moderadas e de compromisso, não enveredando por proibicionismos muito típicos no nosso tempo.

Há dias, soube-se que, no Ontário, no Canadá, as autoridades fizeram uma purga nas bibliotecas escolares, destruindo mais de 5000 mil livros, entre os quais de Tintim, Astérix e Lucky Luke, considerados "racistas" e "ofensivos para os povos autóctones". Foram ainda destruídas diversas enciclopédias e outros títulos, fazendo-se, à boa maneira da Inquisição ou do nazismo, fogueiras a céu aberto, a que os imbecis chamaram "cerimónias de purificação pelas chamas". As "cerimónias" tiveram lugar à porta de cada escola, para que os alunos vissem ao vivo e pudessem participar num gesto de barbárie que, doravante, mancha irreparavelmente a imagem do Canadá no mundo. A coisa, parece, não ficará por aqui, pois a comissão inquisitorial ainda só analisou metade das obras sob escrutínio, num total de 200 títulos suspeitos. Por outro lado, a pandemia atrasou algumas das "cerimónias" pirómanas, que irão recomeçar em breve (outras notícias dão conta de que os trabalhos foram suspensos sine die). E, como uma imbecilidade nunca vem só, o conselho escolar do Ontário decidiu usar as cinzas da chacina no plantio de árvores que simbolizassem um "país inclusivo onde todos podem viver em prosperidade e segurança". Num país onde se queimam livros, fazendo disso espectáculo, nada nem ninguém pode viver em segurança. A responsável por tudo isto, uma idiota de nome Suzy Klies, acabou vitimada pelas novas leis de Nuremberga e teve de se demitir há dias do conselho dos povos autóctones quando se descobriu afinal que... não tinha sangue autóctone a correr-lhe nas veias.

Todas as semanas surgem notícias cada vez mais aterradoras sobre os desmandos da cultura woke: censuras, proibições, policiamentos do discurso, destruições de estátuas, vandalismos no espaço público, académicos voluntariamente castrados, intelectuais cobardes, amedrontados, incapazes de resistirem à primeira provocação (como sucedeu, por exemplo, no lamentável episódio das traduções dos poemas de Amanda Gorman). Devemos combater o neofascismo cultural com o mesmo vigor com que enfrentamos os extremismos políticos, de direita ou de esquerda, pois eles são em tudo iguais, absolutamente idênticos no seu propósito de destruição da democracia liberal em que vivemos e da sociedade tolerante que tanto nos custou a erguer. É tempo de percebermos, de uma vez por todas, que André Ventura e Mamadou Bá são gémeos da mesma estirpe, têm ambos o mesmo intuito de provocar e de insultar, de semear ódios que impeçam o diálogo moderado, as soluções de bom senso e consenso. Por muito que se digam ou julguem diferentes, um e outro são iguaizinhos no pulsar tirânico − e, por isso, nossos mortais inimigos.

Para António José Cabral, com muita amizade

António Araújo (Historiador), Diário de Notícias, 18 Setembro 2021

EXTRA (2020)

Não há coincidências? Poças, só há. Ontem, no dia de aniversário de António Cabral, o maior tintinólogo que conheço (além de uma pessoa extraordinária, claro), no dia do aniversário de António Cabral, dizia, surgiu a notícia de que o original do Lótus Azul, de Hergé, foi descoberto num caixote ou caixa ou lá o que é e vai ser leiloado em grande, com previsões de 3 milhões. Não tendo, de momento, disponibilidade para oferecer um presente tão vultuoso, junto envio a imagem acima, que não é o original mas imita bem e até anda lá perto, tão perto como o meu abraço, de parabéns e muita amizade (quanto ao mais, é só imprimir, recortar e emoldurar)

António Araújo, Malomil, 23/07/2020

Meu caríssimo António Araújo. Muito obrigado! Cheguei a uma idade em que aceito, sem hesitar, o que se diga de bem a meu respeito, mesmo que seja exagerado, quiçá imerecido, como é o caso.

Gosto imenso do Lotus Bleu. Das várias edições que me fazem companhia gosto especialmente da primeira, a preto e branco com extra-textos de cores deslumbrantes, uma assinada pelo Hergé e pelo Tchang, quando se encontraram em Bruxelas em 1981 e a do nosso "O Papagaio", algo iconoclasta mas belíssima.

Abraço muito apertado deste seu amigo, agora muito sensibilizado

António C

António José Cabral, 23 de julho de 2020

https://malomil.blogspot.com/search?q=herg%C3%A9