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quinta-feira, 16 de julho de 2026

Portugal - Congo

 


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quinta-feira, 13 de março de 2025

Diário de Lisboa


A capa da edição de 16/03/1990 de "A Mosca", suplemento das sextas do Diário de Lisboa, tem imagens alusivas a Tintin com destaque para a presença do representante criado por Hergé.

DL


quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Tin-tin por Tin-tin


Tin-Tin por Tin-Tin em África - Nuno Saraiva

14/04/2010

Nuno Saraiva, desenhador português de BD, teve no semanário Sol, na sua revista Tabu, uma rubrica semanal de duas pranchas intitulada «Na Terra e no Céu». Na edição de 12 de Março de 2010, Nuno parodiou o Tintin com a história «Tin-tin por Tin-tin em África».



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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Tintin Akei Kongo


Tintim no Congo (1931) é o segundo álbum da famosa série de BD do autor belga Hergé. Foi-lhe encomendada pelo jornal conservador Le Vingtième Siècle e conta a história do jovem repórter Tintim e o seu cão Milou enviados para o Congo belga para escrever sobre acontecimentos nesse país. Embora tenha reconhecido sucesso comercial e tornado-se derradeiro para definir a indústria de BD franco-belga, este álbum tem recebido duras críticas pela sua atitude racista e colonialista perante os congoleses, retratando-os como atrasados, preguiçosos e dependentes dos Europeus. Embora Hergé não fosse mais racista que qualquer outro cidadão belga, é sobretudo acusado de persistentemente alinhar a sua visão com o mais baixo denominador comum sem se questionar do racismo explícito ou das políticas coloniais que já eram criticadas por artistas e intelectuais francófonos do seu tempo.

Tintin Akei Kongo é uma tradução de Tintin au Congo em lingala, a língua oficial do Congo. A tradução foi comissariada por um artista e foi feita em colaboração com um tradutor oficial durante a sua residência artística na ilha de Ukerewe na Tanzânia. Esta tradução faz parte da linhagem de "detournements" como Katz [livro destruído por alterar o famoso Maus de Art Spiegelman], Noirs [os Estrumpfes Negros ficam todos azuis] ou Riki Fermier [em que o Petzi desaparece da sua própria BD], livros apontados de autoria provável ao grego Ilan Manouach. O artista, consciente das propriedades materiais da edição original, cheia dos seus potenciais significados, tornou explicita os aspectos formais do objecto: o novo livro é um fac-simile da edição original e manteve os padrões de produção industriais das BDs "clássicas". O objectivo desta aventura não é simplesmente a reinterpretação do trabalho do autor para reinventar as intervenções possíveis sobre uma obra usando comissariando uma tradução, nem enfatizar a importância do discurso e da auto-referência para indicar a BD simultaneamente como linguagem e lógica de sistema.

O objectivo é não só reparar um erro Histórico tornando acessível este trabalho na língua daqueles que lhes interessa, os oprimidos, os insultados. Revela as escolhas tácticas de quem traduz obras. Não é de surpreender que afinal na África pós-colonial ainda se usa o francês ou o inglês como línguas oficias para questões de Educação, Legislação, Justiça e Administração? Tintin au Congo reflecte as opinião da burguesia bela dos anos 30. Esta concepção do povo do Congo ou pura e simplesmente de qualquer negro visto como uma grande criança é uma parte da História do Congo tal como Os Protocolos dos Sábios de Sião fazem parte da falsa propaganda anti-semita na História dos Judeus.
Tintim no Congo deveria ser traduzido para lingala.

Uma identidade nacional não é só criada por um processo interno de cristalização, da consolidação constante do que é a sua cultura nacional, mas também é definida pelas pressões oferecidas pelo exterior. Tintim no Congo, a versão original na língua francesa é ainda uma das BDs mais populares na África francófona. O facto de ainda não existir uma edição congolesa, fará lembrar ao leitor de Tintin Akei Kongo que a promoção cultural não é só governada por lucro ou outros valores de mercado. Ao juntar lingala às 112 línguas traduzidas no Império Tintim, Tintin Akei Kongo revela pontos cegos na expansão dos conglomerados da edição.

Tintin Akei Kongo será apresentado no Festival de BD de Angoulême.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Tintin No Congo




O problema deste “Tintin no Congo”, de 1946, é que NÃO É um produto da sua época, mas antes um falso produto da sua época, e mesmo independentemente disto é uma obra medíocre. O verdadeiro produto da sua época e da idade do seu autor é a primeira versão, de 1929, obra absolutamente deliciosa, quase obra prima. A versão de 1946 (que posteriormente também teve correcções – pelo menos uma) é um erro crasso. Insistir na reedição desta e não na outra é como alguém que cresceu fisicamente continuar a comportar-se e a falar como criança.

Manuel Caldas, 16/02/2012 08:51

(...) Infelizmente, se bem que entenda que poderá haver da parte de quem colocou a questão da primeira forma poder estar a ter outros interesses menos elevados, e na verdade os tribunais não poderem estar a legislar sobre a História de uma determinada forma, a verdade é que "Tintin no Congo" não é uma obra totalmente desprovida de questões éticas muito problemáticas. Não poderás negar que É, sem sombra de dúvida, um produto do seu tempo, significando com isso um instrumento da propaganda própria de uma Bélgica colonialista e que cria profundamente na missão civilizacional do Cristianismo numa suposta "selvagem" África. Além do mais, o Congo nem era colónia belga, mas pessoal do rei! E todos os tintinófilos sabem que a famosa vinheta em que Tintin ensinava aos congoleses a "sua" capital, Bruxelas, na versão portuguesa (igualmente num período áureo e reforçado do nosso próprio colonialismo), passava a ser sobre a capital "Lisboa". Só na segunda versão do álbum é que passou a ser uma aula de matemática. Mas muitos dos outros aspectos que continuavam a mostrar a "superioridade" do bonzinho e branco belga Tintin (há maus brancos na história, mas vejam-se de perto) mantêm-se e isso é insustentável nos nossos dias. Claro que não gostaria de ver nem a obra "truncada" nem "censurada" por decisão judicial, pois isso não é forma de educar sobre a História. Mas cabe-nos a nós, leitores de segundo grau, ter algum cuidado em querer dizer que a obra é totalmente inocente do que a acusam.

Toda a História está cheia de obras, umas menores outras maiores, que têm passagens que se tornam problemáticas em termos éticos e políticos numa outra época posterior. Isso é um dos aspectos que nos torna sempre possivelmente "um pouco melhor" que o passado (se bem que todos teremos sempre os erros das nossas próprias épocas). Não é razão para negar a História ou fazer desaparecer esses textos, mas é sim para os ler criticamente e inseri-los no seu tempo, percebendo em que eram moral e eticamente fortes e onde fracos. "Tintin no Congo", tal como outros álbuns do Hergé, têm os seus aspectos fracos.

Pedro Moura, 12/02/2012 20:17

(...)

Pois bem, enquanto símbolo, precisamente, deve fazer parte dos discursos de uma nação pensarem profundamente sobre o que é que eles representaram num determinado momento e o que eles podem representar no futuro. "Branquear" a história é sempre perigoso, sem dúvida, mas querer apagar a utilização de Tintin enquanto instrumento de um determinado tipo de propaganda ideológica é exactamente isso. E pouco importa ao próprio Hergé ou aos seus paladinos dizerem que ele não fazia trabalho ideológico, pois não há pior ideologia do que aquela que não se vê a si mesma...

Não nos podemos esquecer que Tintin, claro, é uma personagem fictícia e, mais, de vários livros, alguns dos quais foram sendo refeitos em vários aspectos. Mas apontar ao "Tintin no Tibete" ou ao "Carvão no Porão" e querer que os valores aí expressos passem para todos os outros livros, ocultando a relativa ignorância que se apresenta em "O Templo do Sol", o posicionamento político conservador liberal em "Entre os Pícaros" ou os mais antigos, é um exercício de pura preguiça mental.

Atenção, nós não estamos isentos deste exercício enquanto portugueses. Sempre que oiço alguém fazer rasgados elogios dos "Descobrimentos" ou de como "abrimos mundos ao mundo", sinto um arrepio na espinha por essas mesmas pessoas se esquecerem do que isso significou enquanto história do esclavagismo, e dos crimes que isso implicou. Aliás, em muitos dos comentários em torno da acção deste cidadão do Congo, um pouco pela internet, a cabeça do racismo aparece de imediato, usualmente pintalgada de uma estúpida ignorância da história colonial, que criou as bases precisas pela miséria em que muitos desses países hoje vivem, e que servem somente para que os "brancos" não compreendam porque é que os africanos não aproveitaram a nossa "missão civilizadora". É nestas atitudes que se apanham nas curvas os ignorantes perigosos.

Ora, "atacar" Tintin não é assim tão displicente como isso. Há matéria suficiente para o estudar, no contexto da sua época, e demonstrar como era de facto um trabalho conservador em varias dimensões. O contraste tem de ser feito com outros trabalhos gráficos do mesmo espaço europeu e que revelavam princípios bem mais atentos ao sofrimento dos outros, à condição de subalternos e á necessidade de combater pela dignidade humana universal. Apelar ao facto de que o "tintin" era simplesmente uma revista infantil, logo, que não valia a pena fazer um trabalho mais sério, é areia para os olhos. Não quer isto dizer que tenhamos agora que queimar livros em praça pública, mas pelo menos encetar estas discussões e não proclamar de forma final que "Tintin não é racista" (ou que "Tintin é racista"). Mais, o facto de um autor se desculpar mais tarde não dirime as responsabilidades da obra, que fica. A banda desenhada está cheia de representações negativas do Outro (veja-se o livro de Frederik Strömberg, "Black Images in the Comics" para apanhar de tudo, de McCay a Eisner, de Tezuka a outros... o problema é que a representação redutora de África continua hoje a ser feita na banda desenhada mais comercial) e é preciso apontar o dedo.

(,,,)

Pedro Moura14/02/2012 08:36

(comentários retirados do blog Leituras do pedro)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Uma agitada aventura colonial

Depois da viagem de Tintim ao país dos sovietes, o sonho de Hergé é levar o seu herói até à América. Profundamente apaixonado pela cultura índia, seus costumes e mitos, começa de imediato a trabalhar nesse projecto. O padre Wallez, director do "Le Petit Vingtième" e mentor espiritual do desenhador, é que não está pelos ajustes: se há algum lugar onde levar Tintim é o Congo, na altura uma colónia belga, juntando o útil ao agradável - espalhar o espírito missionário e evangelizador, incrementando as vocações coloniais. Assim acontece e o resultado é "Tintim no Congo", hoje distribuído com o PÚBLICO.
Ao contrário da história anterior ("Tintim no País dos Sovietes", que é também a primeira da série), Tintim é acolhido em África como um herói internacional e uma figura quase lendária. Aliás, a glória precede-o nessa saga africana, pois os representantes da grande imprensa internacional - curiosamente, Hergé inclui também o deferente delegado do "Diário de Lisboa"... - disputam entre si o privilégio de publicar em exclusivo as reportagens do herói. Mas este permanecerá fiel ao "Vingtième", onde esta BD será publicada entre 5 de Junho de 1930 e 11 de Junho do ano seguinte.
De um modo geral, o traço de Hergé apresenta-se mais firme, mas sem perda de espontaneidade. Quanto ao desenho dos animais, é o próprio autor a confessar que pediu "ajuda" às gravuras de Benjamin Rabier. Perante uma multidão de "pretos" preguiçosos, estúpidos e infantis que se exprimem em mau francês, Tintim louva os méritos e grandezas da mãe-pátria. Milu também não está pelos ajustes: ele aceitou ir a África para caçar grandes feras, no que é imitado pelo seu dono, que não tem o menor problema em matar animais a torto e a direito, eliminando até um rinoceronte com dinamite... No entanto, o herói não chega a ter adversários locais verdadeiramente maus, pois os negros desta história são demasiado pueris para serem perigosos.
Tal como acontecera a propósito de "Tintim no País dos Sovietes", o padre Wallez decide organizar uma recepção ao herói quando este regressa a Bruxelas. Uma multidão impressionante acolhe um Tintim de carne e osso e um Milu pedido de empréstimo ao dono de um café da cidade, que quase é esmagado no boulevard du Jardin Botanique por centenas de miúdos que lhe querem dar torrões de açúcar...
A publicação de "Tintim no Congo" não levanta qualquer polémica na época, de tal modo a história está conforme ao espírito da mentalidade europeia daquele tempo - por outras palavras, ter territórios ultramarinos é atributo dos grandes países e sinónimo de poder no concerto das nações. Só mais tarde, quando a questão colonial entra na agenda política, é que a aventura africana de Tintim passará pelo crivo da análise político-ideológica.
Esta BD valerá a Hergé acusações de colonialismo e racismo, das quais este se defende invocando a mentalidade reinante na sociedade belga dos anos 30 do século XX. É verdade, mas não o é menos, nesta fase inicial da sua obra, a colagem do artista aos valores culturais e ideológicos dominantes. E não deixa de ser curioso que, ao realizar a reformulação gráfica e de diálogos desta história, em 1946, o artista belga a deixe praticamente intacta em termos narrativos.
Hergé nunca escondeu o seu desamor por "Tintim no Congo". No entanto, querelas ideológicas e filosóficas à parte, permanece como um excelente documento sobre a imagem estereotipada que os europeus tinham do continente africano.

O que disse Hergé sobre "Tintim no Congo"
 Hergé; Numa Sadoul

NUMA SADOUL:Foi dito e redito que era racista. Este é um bom momento para pôr as coisas a claro: que tem a dizer em sua defesa? Que responde quando o acusam de ser "racista"?
HERGÉ: - Respondo que todas as opiniões são livres, incluindo a de pretender que eu sou racista... Enfim, seja!... Há "Tintim no Congo", admito-o. Isso passou-se em 1930. Do país eu só conhecia aquilo que as pessoas diziam na altura: "Os negros são crianças grandes... Felizmente para eles, nós estamos lá!, etc..." E eu desenhei os africanos de acordo com esses critérios, no mais puro espírito paternalista que era o daquela época, na Bélgica. Mais tarde, pelo contrário, em "Carvão no Porão" - e isso, apesar de se falar na história em "pretoguês" - parece-me que Tintim dá provas sobejas do seu anti-racismo, não?... (...) Em "Tintim no Congo", tal como em "Tintim no País dos Sovietes", o que se verifica é que eu me alimentava com os preconceitos do meio burguês em que vivia. De facto, estas duas histórias foram pecados de juventude. Não é que eu os renegue. Mas, enfim, se tivesse que refazer as histórias, fá-las-ia de outra forma, isso é certo. Seja como for, todos os pecados têm redenção!...
Passemos então directamente a "Tintim no Congo".
- "Tintim no Congo"... Por que é que eu fiz "Tintim no Congo", e como é que o fiz?... Na realidade, depois do seu regresso da Rússia eu preferia ter enviado Tintim directamente para a América. Mas o padre Wallez persuadiu-me a começar pelo Congo: "É a nossa maravilhosa colónia, que tem tanta necessidade de nós, e além disso é necessário despertar vocações coloniais" e patati e patatá! Nada disso me inspirava muito, mas eu rendi-me a esses argumentos e pronto, lá fomos em força para o Congo! Como disse, fiz esta história na perspectiva da época, ou seja, de acordo com um espírito tipicamente paternalista... que era, posso afirmá-lo, o de toda a Bélgica. Passemos sem mais demora ao próximo álbum.
("Entretiens avec Hergé", de Numa Sadoul, Éditions Casterman).
© 2003 Público; Carlos Pessoa