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sábado, 2 de dezembro de 2023

A raça do Milou do Tintin está em vias de extinção

Estão a nascer menos de 300 fox terrier por ano. O que coloca a tradicional raça britânica, a do cão Milou, famoso companheiro das aventura do Tintin, em risco.


A 10 de Janeiro de 1929 nascia uma das bandas desenhadas mais icónicas do século XX. E se o rapaz repórter de cabelo ruivo com uma poupa permanente ganhava milhões de fãs, Milou, o seu cãozinho de pelo branco, companheiro de tantas aventuras do Tintin, tornava-se igualmente numa estrela mundial. Não admira pois que cães fox terrier se tenham tornado num “must have”, de aquisição quase obrigatória, nas décadas que se seguiram. Agora, quase 95 anos depois, a raça tradicional britânica pode ter os dias contados, pois estão a crescer menos de 300 por ano no Reino Unido.

As Aventuras de Tintim, do cartoonista belga Hergé, despertaram o interesse pelos fox terrier no país, e não só, que reivindicaram o primeiro lugar no ranking de popularidade canina em 1947. A raça foi historicamente uma das favoritas da família real britânica na era eduardiana, com o rei Eduardo VII e a rainha Vitória a terem um fox terrier. Mas não só: o reputado cientista Albert Einstein também o escolheu para companhia. Mais tarde foi o favorito da não menos célebre escritora Agatha Christie e do conhecido actor e realizador Clint Eastwood.



sábado, 27 de agosto de 2022

Revisitar um clássico: A Estrela Misteriosa

A verdade é que, quando fiz a trouxa para o mês e meio que iria passar fora de Lisboa, atendendo a várias actividades de formação, fui bastante exagerado na provisão de livros a ler. Para além de uma volumosa história de Cristóvão Colombo, o genovês, da autoria do historiador Luís Filipe F. R. Thomaz, com um delicioso subtítulo – Meu Tio por afinidade – ainda acrescentei um muito interessante estudo histórico-jurídico paterno sobre A Sucessão da Casa e Ducado de Aveiro, uma recente publicação da Editora 2020, Os judeus de Pio XII, de Johan Ickx, e um romance de Camilo Castelo Branco: mais de 1.500 páginas, no total!

Não obstante a abundante literatura trazida de casa, ao chegar ao Caramulo deparei-me com um clássico a que não consegui resistir: L’Étoile mystérieuse, de Hergé, em francês, numa primorosa edição Casterman! Sim, mais uma das muitas aventuras de Tintin, que deliciaram inúmeras gerações de jovens e menos jovens, dos 7 aos 77 anos.

A história resume-se em breves palavras: um meteorito incandescente, que ameaçava colidir com o nosso planeta, provocando a sua destruição, desintegra-se e um troço deste desconhecido minério cai no oceano polar ártico. Ao mesmo tempo que se organiza uma expedição científica internacional – em que não falta um português: “o Prof. Pedro João dos Santos, célebre físico da Universidade de Coimbra” – que se propõe resgatar esse estranho material, que pretende investigar, outra embarcação dirige-se para o local da queda, com o intuito de capturar esse mineral para fins perversos. Nesta luta entre o bem e o mal desenvolve-se a aventura que é, por esse motivo, especialmente aliciante e pedagógica, sobretudo para os mais novos, não fosse o protagonista uma espécie de jovem escuteiro empenhado em fazer boas acções!

Ante uma noite de verão extraordinariamente quente – na altura ainda não se falava de aquecimento global, nem de alterações climáticas! – Tintin apercebe-se de que a elevada temperatura, que até derrete o alcatrão, se deve à insólita proximidade de uma estrela misteriosa, que avança vertiginosamente em direcção à Terra. Apavorado com a ocorrência, dirige-se para o Observatório Astronómico, onde é confirmada a hipótese da destruição mundial. Felizmente, os cálculos astronómicos estavam errados e a fatal colisão não acontece. Contudo, na sua iminência, um tal Philippulus, o Profeta, percorre as ruas da cidade anunciando o fim do mundo e espalhando o terror. Tintin não cede à demagogia do falso profeta e, quando o ouve gritar, sob as janelas da sua casa, aproveita para lhe refrescar as ideias com a água de um jarro despejado, em cheio, na sua generosa careca.

O divertido episódio fez-me lembrar que, também agora, não faltam profetas da desgraça: primeiro eram os que anunciavam o arrefecimento do planeta, depois foram os do aquecimento global, mais tarde optou-se por uma expressão menos comprometedora e mais abrangente – as alterações climáticas – mas sempre no mesmo tom alarmista que, felizmente, a ciência não só não confirma como desmente. Com certeza que a preocupação ambiental faz parte da Doutrina Social da Igreja, mas o sensacionalismo de alguns meios de comunicação social, que tão depressa falam de uma iminente catástrofe, como depois a esquecem – quem fala hoje do buraco do ozono?! – é injustificado e contraproducente: recorde-se a conhecida história de Pedro e o lobo.

As personagens das aventuras do Tintin não são ídolos, mas seres humanos cujas fragilidades são simpáticas. Hyppolyte Calys, o director do Observatório Astronómico, ao descobrir um novo metal, apressa-se a dar-lhe o seu nome, numa divertida alusão à vaidade a que também não são imunes os mais consagrados cientistas. O próprio Capitão Haddock, não obstante a sua bravura de velho lobo do mar, é uma figura contraditória: apesar de presidente da Liga dos Marinheiros Antialcoólicos, é um assíduo consumidor de bebidas espirituosas! Contudo, está longe de ser um hipócrita de refinada duplicidade: é, como todos nós somos também, uma boa pessoa, com defeitos que nem sempre consegue ultrapassar e, por isso, mais do que o desprezo que provocam os fariseus, merece a compaixão de que carecem os fracos.

Quando, depois de inúmeras peripécias, o L’Aurore está prestes a chegar ao local em que caiu o meteorito, para onde também se dirige, a todo o vapor, o Peary, o concorrente barco inimigo, uma mensagem de rádio chega ao Capitão Haddock: um navio, nas imediações, enviou um urgente pedido de socorro. Consternado, o capitão convoca os sábios que integram a expedição científica para os pôr a par da situação. Os cientistas são unânimes no seu parecer: o interesse científico deve ceder ante uma emergência humanitária e, por isso, o barco deve-se desviar da sua rota, para ir ao encontro da embarcação em perigo. Felizmente, Tintin descobre que era um falso SOS, lançado pelo Peary para que, desviando L’Aurore do seu rumo, chegasse primeiro à meta.

Quando se levanta um generalizado coro de impiedosos justiceiros laicos, que querem apedrejar a Igreja pelos crimes de pedofilia dos seus sacerdotes, mas nada fazem contra a chaga dos abusos de menores em tantos outros âmbitos da sociedade, é inevitável pensar que, também agora, os que mais invocam a moral são, muitas vezes, os que menos a praticam. E talvez não seja temerário pensar que também querem assim desviar a barca de Pedro do seu fim, que é a salvação das almas pela proclamação do Evangelho, que é verdade e vida. Nestes tempos de furiosa perseguição anticristã, são também necessários jornalistas isentos que denunciem essa hipocrisia.

Quando Tintin parte, no hidroavião, em direcção ao meteorito, o Milou começa a ladrar desalmadamente. O capitão tenta sossegá-lo, garantindo-lhe o regresso próximo do seu dono. Note-se: do dono! Não é o papá, nem a mamã, nem o cão tem nome de gente, nem ninguém lhe pega ao colo: é cão, tem nome de cão, tem trela e tem dono! Bons tempos aqueles, em que os cães eram cães, tinham nomes de cães e não de pessoas, tinham dono e não papás, nem mamãs, tinham trela e estavam bem cuidados, porque basta haver bom-senso para tratar bem os animais domésticos, que também são dons de Deus.

Uma das características do meteorito, a boiar no oceano ártico, é a forma acelerada como nele se desenvolvem todos os seres vivos. Tintin, ao ver que uma pequena aranha se transforma num bicho imenso, exclama, apavorado: “Senhor, que monstro!”. Uma oração? Talvez, ou então, simplesmente, uma interjeição, que expressa uma convicção universal: a de que, ante uma urgência, o ser humano sente a necessidade de apelar ao Criador. É curioso como o nome de Jesus Cristo é tão frequentemente invocado, nem sempre respeitosamente, nas grandes produções norte-americanas, que não primam pelos valores religiosos e morais. Mesmo que dito inconscientemente, esta referência recorda o cunho essencialmente cristão da civilização ocidental que, apesar de descristianizada em muitos dos seus actuais costumes, mantém ainda uma explícita referência a Cristo, a quem deve o que de melhor tem.

Quando as vagas oceânicas ameaçam submergir o aerólito, onde Tintin espera o hidroavião que o há-de resgatar, o repórter, arriscando a vida, retrocede, para deixar a bandeira da expedição científica sobre o seu cume. Idealismo? Decerto, mas essa é, precisamente, a principal missão dos heróis: a de nos recordar que vale bem a pena dar a vida por um ideal, que vale a pena correr riscos pela verdade, que vale a pena o patriotismo, que vale a pena lutar por um mundo mais justo. Mas a melhor aventura é, sem dúvida, a dos bem-aventurados que tudo deixaram, e perderam, pela glória de Deus e o amor dos irmãos.

Padre Portocarrero in Observador, 20.08.2022

domingo, 24 de outubro de 2021

As aventuras de Tintin

Será o que há 100 anos Tintin fazia no Congo belga – acordando os nativos adormecidos para as letras da civilização e para as novidades da modernidade – assim tão diferente do que hoje fazem as ONGs?

Quando comecei a ler, aí por 1952, o Mundo de Aventuras saía às Quintas-Feiras e trazia uma grande colecção de heróis. O Flash Gordon, o Fantasma e o Mandrake eram os meus preferidos, os que eu ia logo ler mal saía do quiosque. O Flash Gordon tinha uma namorada linda, a Dale, e havia o Dr. Zarkov, um cientista de barbas, que os acompanhava em aventuras espaciais, no Planeta Mongo, onde lutavam contra o Imperador Ming.

O Fantasma tinha sido criado por Lee Falk em 1936, nos anos dourados da BD na América, os anos das pulp magazines e da primeira Ficção Científica. O Fantasma vivia num ambiente africano e era amigo dos pigmeus que o protegiam. Era um justiceiro implacável, sem novidades tecnológicas, mas incansável na luta contra o Mal e os maus.

O Mandrake era diferente do Flash Gordon e do Fantasma. Era uma espécie de mago que, pela indumentária, lembrava o Arsène Lupin, “Gentleman Cambrioleur”: smoking Belle Époque, cartola, capa e um bigodinho fino em serrilha. Tinha um ajudante, um negro gigantesco, o Lotário, que envergava uma pele de leopardo e que, quando era preciso recorrer a formas superiores de luta, intervinha para apoiar o patrão, já que o patrão só lutava através de truques de magia. Mandrake tinha sido imaginado também por Lee Falk, que, em meados de 1934, propusera a série, com desenhos de Phil Davis, ao King Features Syndicate. Mas Mandrake só apareceu por cá, no Mundo de Aventuras, em Outubro de 1950.

Dois anos depois, em Janeiro de 1952, dava entrada nos quiosques portugueses o CavaleiroAndante, dirigido por Adolfo Simões Müller. Simões Müller fora um pioneiro dos quadradinhos em Portugal, com O Papagaio, que fundara em 1935, e depois com o Diabrete.

Tintin em Portugal

Tintin apareceu em Portugal em 1936 no Papagaio, pela mão do padre Abel Varzim, que conhecera o boneco de Hergé em Lovaina, onde se doutorara. Foi adaptado ao colorido local e até colorido localmente, quando os desenhos (e o mundo) ainda eram a preto e branco. Tintin au Congo, de 1930, iria chamar-se aqui Tim-tim em Angola e Tintin en Amérique, a história com que O Papagaio apresentava o repórter em Portugal, Tim-Tim na América do Norte. O primeiro Tintin, Tintin au pays des Soviets, um retrato da Rússia dos sovietes e das suas selvajarias num desenho ainda incerto e grosseiro, não entrou no Papagaio.

George Remi, Hergé (RG), colaborador do jornal Le Vingtième Siècle, pode ter-se inspirado em Léon Degrelle, então repórter do Vingtième, para criar o Tintin. Na segunda metade dos anos 20, Degrelle percorrera o México insurgente dos camponeses católicos, da Cristiada, revoltados contra a política anti-religiosa de Plutarco Elías Calles e escrevera Mes Aventures au Mexique. Vindo, como Hergé, dos Escuteiros e da Acção Católica, Degrelle vai ser o fundador do Rex, um movimento de direita revolucionária e radical que se torna o rosto belga do fascismo. E Degrelle que, em 1934, se dizia próximo de Maurras e Mussolini mas hostil ao nacional-socialismo alemão, acaba na Legião Wallonie dos Waffen-SS.  Um curriculum pouco recomendável para alguém que, em Tintin mon Copain, um livro póstumo, proibido na Bélgica e em França, se reclama o inspirador da personagem de Hergé.

Tintin, como toda a ficção, é susceptível de interpretações políticas e é, por vezes, explicitamente político: do anticomunismo de Tintin au pays des Soviets ao colonialismo paternalista do Tintin au Congo ou ao anti-imperialismo de Le lotus bleu. Não é, assim, de estranhar que Tintin e o seu criador, Hergé, sejam agora um dos muitos alvos da perseguição e da purga da nova polícia da moral e dos bons costumes presentes e passados, sempre atenta às supostas susceptibilidades das suas vítimas de eleição e sempre alheada de tudo o resto.

No contexto histórico do final dos anos 20, princípios dos anos 30, a Europa, ainda e sempre consciente da sua “missão civilizacional”, estava também radicalizada internamente, debatendo-se com “o perigo comunista”, um perigo real que contribuíra à partida para essa mesma radicalização. E o Petit Vingtième, o suplemento juvenil do católico Le Vingtième Siècle, do padre Norbert Wallez, era declaradamente anticomunista: daí que a história pioneira do repórter de Hergé tenha lugar no país dos sovietes.

Tintin e os censores

A incursão de Tintin no Congo Belga, em 1930, apresenta uma imagem de inequívoco colonialismo paternalista, imagem que, logo no imediato pós-guerra, Hergé não deixa de corrigir. E a caçada-massacre de animais selvagens também fere o espírito do nosso tempo, mais tolerante para com outros massacres. De qualquer forma, “os maus” da história não são ali os negros do Congo mas uns gangsters brancos, ligados a Al Capone, que pretendem controlar o comércio de diamantes da colónia.

A história de Tintin no Congo tem, agora, quase cem anos; mas como para os novos apóstolos da higienização histórica e ficcional nunca é tarde para um bom auto de fé, tal não impediu que os álbuns de Hergé fossem recentemente queimados no Canadá.

Todos nós, os que pertencemos à geração que acabou por fazer a transição entre a África colonial, de dominação europeia, e a África independente, estamos conscientes dos clichés que eram então dominantes entre colonizadores e colonizados. Os clichés que pintavam os colonizadores como imaculados civilizadores e os colonizados como seres tribalizados, fragmentados em etnias e clãs, ignorantes, primitivos, infantis, preguiçosos. Mas quem, senão um grande escritor, como Céline, em Voyage au bout de la nuit, ou um Henrique Galvão ou um Castro Soromenho, ou o ocasional missionário ou antropólogo escapava então a estes clichés? Hergé seguia a tradição e a norma que dava aos brancos a superioridade moral e o exclusivo domínio da técnica. Uma tradição agora inconscientemente continuada e exacerbada pelos novos censores, cuja sobranceria moral, a fúria “civilizadora”, o franco arremesso de rótulos, a autocontemplação da própria bondade e o paternalismo para com “as vítimas” a quem se arrogam “dar voz” ultrapassam largamente a cegueira dos antigos “opressores”. E será o que Tintin então fazia no Congo – pregando, leccionando, iluminando, disciplinando, enfim, acordando ou despertando os povos “adormecidos” para valores mais modernos e civilizados – assim tão diferente do que agora fazem grande parte das ONGs?

Não restam dúvidas de que a imagem do antigo feudo do rei Leopoldo, genialmente retratado em toda a sua crueza no Heart of Darkness de Conrad, sai melhorada nos quadradinhos de Tintin. Hergé não fora ao Congo mas visitara o museu de Tervuren. Tinha 23 anos e talvez fosse cedo para aquele exercício fundamental de se pôr na pele do outro e de pensar como experimentaria esse “outro” as nossas bondosas e por vezes insensíveis percepções.

Talvez por isso, num súbito e deslocado ataque de consciência racial e social e com a cega fúria inquisitória e compensatória dos recém-convertidos, o grupo Borders arrumou Tintin au Congo na secção de “leituras para Adultos”. Curiosamente, não foi o que se passou no bem mais pragmático, realista e complacente ex-Congo Belga, o território visado pela história: na antiga Léopoldville, hoje Kinshasa, há restaurantes e ateliers Tintin e os intelectuais locais não mostram especial animosidade em relação ao retrato histórico-fantasista de Hergé. Em Madagáscar há até um Tintin negro.

Assim, em nome da nossa humanidade comum – e curiosidade e ludicidade e desejo de aventura – Hergé e Tintin lá vão sobrevivendo à fúria inquisitória daqueles a quem todos teremos de resistir, sob pena de termos o nosso património comum, da Odisseia à Bíblia, de Dante a Shakespeare, de Dostoiévski a Eça de Queirós, censurado e mutilado pela descoberta de infindáveis “micro-agressões”, “apropriações culturais” e demonstrações de “sexismo” e de “racismo”.

Ao longo de duas dúzias de álbuns, Hergé vai-nos contando histórias, ou seja, vai-se apropriando culturalmente de tudo e de todos e micro-agredindo a torto e a direito, oferecendo matéria de sobra para o entretenimento de várias gerações de jovens dos sete aos setenta e sete anos (incluindo os que agora andam à cata de lenha para o queimarem). Assim, Milou, o cão do eterno e sempre casto adolescente Tintin, do repórter que, como todos os repórteres, não noticia, é colaboracionista como todos os animais vilmente domesticados; o capitão Haddock, fonte inesgotável de palavroso discurso de ódio, é grosseiro e bêbado como todos os capitães; os Dupont, ineficazes e repetitivos como todos os detectives; o professor Tournesol, louco e explosivo como todos os cientistas; o senhor Oliveira da Figueira, vendilhão como todos os portugueses; e os negros, os asiáticos, os esquimós, os índios, os aborígenes, parte da paisagem e mero cenário de aventura como todos os “nativos”.

Neste mundo ou mundos, além das “agressões e apropriações” de que se faz a ficção, há intrigas geopolíticas ou geoeconómicas, como em  Tintin au pays de l’or noir; há desconstrução de tiranias, como nas incursões na Sildávia; e denúncia de autocracias, como com sucessão dos generais Alcazar e Tapioca, representantes do poder pretoriano na Hispanidade.

De um modo geral, Tintin é independente, em termos de direita e de esquerda. É um jovem “europeu” em cruzada divertida por mundos exóticos – balcânicos, africanos, asiáticos e americanos. Ou só um jovem à procura de um mundo maior e confrontado com a diferença. Hergé vai, entretanto, criando personagens que encarnam o bem e o mal, como o sinistro Roberto Rastapopoulos, um capitalista sem alma nem escrúpulos, que começa por aparecer em Tintin en Amérique, que depois trafica ópio no Lotus bleu e que acaba mal no Vol 714 pour Sydney. Ao combatê-lo no Lotus azul, surge um Tintin justiceiro, defensor dos fracos e oprimidos, no caso, vítimas do imperialismo britânico.

Como toda a personagem capaz de ganhar vida e de se tornar universal, Tintin está profundamente enraizado na sua cultura e no seu chão. E o facto de ser claramente “europeu” – confiante na superioridade da ciência e da tecnologia, que, nos dois volumes da viagem à Lua, preparam o feito da NASA – não o impede de respeitar conforme pode e sabe a identidade e a individualidade de culturas que lhe são estranhas e que o fascinam.

Perdido e achado nas traduções

De acordo com o Index Translationum, Les Aventures de Tintin estão no oitavo lugar das obras de expressão francesa mais traduzidas – depois de Jules Verne, Alexandre Dumas, Georges Simenon, René Goscinny, Honoré de Balzac, Charles Perrault e Antoine de Saint-Exupéry.

Esta expansão, fez-se também através da rede dos jornais da Acção Católica na Europa. Em Portugal chegou com o padre Abel Varzim e Simões Muller, no Papagaio, e a primeira experiência das tiras a cores foi portuguesa. Curiosamente, na primeira versão lusitana, Oliveira da Figueira, o comerciante de Les cigares du pharaon, passa a ser espanhol. Não terá sido considerado um bom representante da nossa raça e, pioneiros na deteção da micro-agressão, os tradutores (mas não traidores) portugueses trataram de redireccionar para Espanha o insulto. Também – colónia por colónia e metrópole por metrópole –, em vez de ir ao Congo belga, Tintin começa aqui por ir a Angola, com o mapa da Bélgica substituído pelo de Portugal. O Papagaio publicou oito aventuras de Tintin.

Hoje as aventuras de Tintin estão traduzidas em mais de 80 línguas, dando conta da qualidade e da universalidade do herói e dos seus companheiros de aventura, dos desenhos, dos enredos e, sobretudo, do humor – garantia contra todas as inquisições.

Hergé na Gulbenkian

A Gulbenkian, em colaboração com o Museu  Hergé de Louvain-la-Neuve, tem em exposição, até ao dia 10 de Janeiro, uma selecção de documentos e obras do autor de Tintin, que se dedicou à banda desenhada, mas que também fez publicidade e desenho de moda e se aventurou nas artes plásticas. A mostra chama-se Hergé e vale a pena visitá-la para conhecer ou revisitar o multifacetado criador de Tintin.

Jaime Nogueira Pinto in Observador


quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Conversas À Quinta


Programa semanal da Rádio Observador moderado por José Manuel Fernandes e com os comentadores Jaime Nogueira Pinto e Jaime Gama. Pode ser ouvido em podcast em https://observador.pt/programas/conversas-2/

A emissão do dia 07/10/2021 teve por tema "Tintin, Hergé: as nossas infâncias são eternas".

«Tintin está em Lisboa numa exposição e nós viajámos até ao seu mundo com muitas recordações de como conhecemos o pequeno herói (e o seu Milou) e algum debate sobre as controvérsias da vida de Hergé.»

https://observador.pt/programas/conversas-2/tintin-herge-as-nossas-infancias-sao-eternas

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Tintin - As aventuras de um nonagenário

Quando por qualquer motivo numa conversa se menciona Marrocos, além de Paul Bowles, lembro-me de Tintin. Não há nada a fazer. A primeira vez que estive em Marrocos, Tânger, a cidade de Bowles, o capitão Haddock podia surgir a todo o tempo em qualquer esquina da medina. O Caranguejo das Tenazes de Ouro tem essa força: a cor, a cor das pranchas que Hergé tão bem delineou, tão bem desenhou e pintou, impõe-se na nossa memória ao ponto de se tornar omnipresente.

No seu livro Le Monde d’Hergé (Casterman) Benoît Peeters, escritor, argumentista e um tintinófilo, descreve melhor que ninguém essa magia que é pegar num álbum de Tintin e começar a lê-lo como se fosse a primeira vez, apesar de já o conhecermos de cor. Que idade temos nesse momento? 6 anos? 20 anos? 45, 77 ou já 90? Que interessa se, quando folheamos as páginas e engolimos a história, a realidade se dissipa e a idade se dispersa ao ponto de nos reencontrarmos com o que éramos quando entre aqueles quadradinhos, no interior daquela história e entre aquelas personagens, estivemos pela primeira vez. Voltamos a ser o miúdo que sentado na cama e de costas encostadas no travesseiro come bolachas enquanto muda as páginas. Basta querer.

Faz 90 anos que Tintin entrou no comboio que de Bruxelas o levou ao País dos Sovietes, a sua única reportagem e primeira viagem. Seguiram-se África, América, a China, a Arábia e o norte de África, o fundo dos mares e a Lua; do cume dos Andes aos Himalaias. De Moulinsart a uma longínqua ilha do outro lado do mundo. Com Tintin não deixamos apenas de ter idade; passamos também a estar em qualquer lugar.

A linha clara
Quando o meu filho tinha dois anos, sentávamo-nos os dois no sofá, com ele bem enroscadinho a mim, e folheávamos os livros do Tintin. Virávamos as páginas, que eu não lhos lia tão pequeno que era. E o que me surpreendeu foi aperceber-me que, apesar de tudo, o meu filho acompanhava a história apenas pelos desenhos. Curioso, fiz o mesmo: deixei de ler os livros e passei só a vê-los. Sugiro a quem leia estas linhas que faça o mesmo: que pegue num álbum, um qualquer, e em vez de ler o texto dentro dos balões, siga tão só o desenhos, os quadradrinhos, as tiras, as pranchas, as páginas. E verá que a história flui por si mesma já que os desenhos têm vida própria.

É surpreendente colocarmos um livro do Tintin nas mãos de uma criança de dois, três anos e nos apercebermos que elas acompanham a história. Compreendem algumas graças e chegam a colocar perguntas. A pensar e a inquirir. Mas acima de tudo não tiram os olhos de cima do livro. 
Perceber o que é a “linha clara” é viver esta experiência. Mas a “linha clara” não se reduz a um bom desenho. Na entrevista que Hergé concedeu ao mesmo Benoît Peeters a 15 de Dezembro de 1982 (três meses antes de morrer) o criador de Tintin explicou que o conceito de “linha clara” não se limita apenas ao desenho, não apenas ao traço preciso e rigoroso em que cada elemento do desenho se encontra separado dos outros com os quais forma o conjunto, mas ao cenário, ao plano da história e à técnica narrativa. Nessa entrevista, Hergé chama a atenção para as várias obras de banda desenhada em que os desenhos até podem ser lisíveis, mas em que a história, o enredo, se perde porque está mal montado.

Por esse motivo é tão surpreendente colocarmos um livro do Tintin nas mãos de uma criança de dois, três anos e nos apercebermos que elas acompanham a história. Compreendem algumas graças e chegam a colocar perguntas. A pensar e a inquirir. Mas acima de tudo não tiram os olhos de cima do livro. Por isso costumo dizer que quem queira dar hábitos de leitura aos filhos deve começar por aqui: pelo Tintin. Mesmo 90 anos depois.


O humor de Hergé
As primeiras aventuras estão cheias de pequenas tropelias de piada fácil que se foram apurando com o tempo sem jamais se perder a essência do burlesco e do ridículo. Com o desenrolar dos anos esse humor vai-se aprimorando e a piada fácil e óbvia, por vezes até grosseira, atinge níveis de uma impressionante subtileza. Desde a gritaria de Haddock para os berberes do deserto quando partem a tiro a sua garrafa (O Caranguejo das Tenazes de Ouro, p. 37), à graça mordaz de Nestor sobre o capitão que se tornou num novo-rico e que anda a cavalo apesar de só chegar casa depois do pobre animal (As Sete Bolas de Cristal, p. 2). As fúrias do capitão são, aliás, as piadas mais notórias, as que os miúdos melhor apreendem: a sua irritação perante a surdez do Professor Girassol (O Tesouro de Rackham o Terrível, p. 5), as fúrias defronte da insolência do irritante Serafim Lampião ou quando atende vezes sem conta um telefonema dirigido não para si mas para o talho Sanzot (O Caso Girassol); quando, em pleno Atlântico se apercebe que Girassol trocou as garrafas de whisky guardadas em caixas no porão do barco por peças de um submarino e lhe puxa pelos colarinhos vociferando: ‘Mon whisky misérable!… Qu’avez-vous fait de mon whisky?’ (O Tesouro de Rackham o Terrível, p. 20). O que o meu filhote não se riu, ainda se ri, quando brincamos com isto…


Mas há também a comédia visual, a comédia sem palavras, o mero desenho como elevação humorística, a tal linha clara, como na cena do adesivo em O Caso Girassol (p. 45) ou com o equilibrismo de Nestor em As Sete Bolas de Cristal (p. 4). O nonsense de Bianca Castafiore, sempre a leste e à margem do que real, a diva que se julga culta (apesar de corrigida pelo mordomo quando arrisca acertar no estilo da mobília do seu quarto — As Jóias de Castafiore, p. 11 ), pedante e pretensiosa, que vive acima das peripécias dos meros mortais ao ponto de, perante o relato dos inúmeros imprevistos passados por um jornalista para chegar a horas a Moulinsart, onde a ia entrevistar, responder com um lacónico ‘Ah! Oui? … Comme c’est amusant’ (As Jóias de Castafiore, p. 30). Porque para Castafiore tem graça o que os outros, meros desenhos, passam para conseguirem lhe falar. E neste ponto Hergé é sublime, tornando Castafiore numa de nós, uma personagem que tal como os leitores se ri e acha graça, se diverte com que se passa lá dentro. Pessoas que reduzem a simples desenhos. Um humor sibilino que chega a atingir a magia do sublime.

Um mundo visto por um ocidental
Um certo humor de Hergé foi diversas vezes criticado por ser considerado racista ou xenófobo. Alguns dos álbuns iniciais, como Tintin no País dos Sovietes (1929-30), Tintin no Congo (1930-31), Os Charutos do Faraó (1932-34) e até mesmo a Orelha Quebrada (1935-37) revelam a visão que o europeu médio da época, no caso de Hergé, católico e conservador, tinha do resto do mundo. O caso mais exemplar é precisamente o de África, o Congo Belga para o qual, a pedido do padre Norbert Wallez (o editor do Le Vingtième Siècle), Tintin se dirige para que os jovens belgas conheçam e se interessem pela colónia. Hergé contará mais tarde que não conhecia verdadeiramente aquele país nem a realidade africana. Daí a visão que transparece ser a que se comentava na época. O sucesso foi na altura imediato e, apesar das polémicas posteriores que uma obra tão datada provoca, é ainda hoje mais bem aceite em África que nesta Europa agora tão politicamente correcta e incapaz de contextualizar os acontecimentos.

A mudança inicia-se com O Lótus Azul (1934-35). É durante a preparação deste álbum que o criador de Tintin conhece um jovem chinês da sua idade, estudante de Belas-Artes em Bruxelas, que lhe dá a conhecer a cultura chinesa e o impede de cair nos simplismos das aventuras anteriores. Tchang Tchong-yen inicia Hergé na cultura e história chinesas de modo que em O Lótus Azul já não nos deparamos com uma caricatura que os europeus faziam dos outros povos mas com chineses delicados e honestos, homens e mulheres dignos. A amizade entre Hergé e Tchang durou décadas, apesar de não se terem visto durante cerca de 40 anos. Tchang voltou à China em 1935 e apenas regressou à Europa em 1981, altura em que os dois finalmente se reencontraram.

Em Carvão no Porão (1956-57), a fúria do Capitão Haddock é canalizada para atacar os traficantes de escravos, uma realidade hoje tão actual que nos faz pensar. Tintin e os Pícaros (1975-76) é uma crítica à corrupta classe política sul-americana que explora um povo que, à semelhança dos europeus, deseja e merece uma vida melhor e digna.
Hergé chegou mesmo a colocar Tchang na sua história quando Tintin o salva de morrer afogado num rio. “Porque me salvaste a vida?” pergunta-lhe o jovem chinês perante a incredulidade de Tintin. “Sim, porquê?… Eu supunha que todos os diabos brancos eram maus.” Ao que Tintin lhe responde que “Mas não, Tchang, nem todos os brancos são maus. Mas os povos conhecem-se mal. Assim, muitos europeus imaginam que todos os chineses são velhacos e cruéis, usam tranças e passam o tempo a inventar suplícios e a comer ovos podres e ninhos de andorinhas. Esses mesmos europeus estão absolutamente convencidos de que todas as chinesas, sem excepção, têm pés minúsculos e que, ainda agora, todas as meninas chinesas sofrem mil torturas para impedir que os seus pés se desenvolvam naturalmente. Por fim estão convencidos de que todos os ribeiros da China estão cheios de bebezinhos chineses que foram lançados à água, à nascença… e eis, meu caro Tchang, como muitos europeus vêem a China.” Os dois riem-se desalmadamente com Tchang a concluir: “Ah! Como são cómicos os habitantes do teus país.” Este álbum é também interessante porque o humor é utilizado não para satirizar os povos não europeus, mas a simplicidade com que estes encaram os restantes povos do mundo. Assim é com os Dupondt vestidos de chineses, com o intuito de passarem despercebidos, que são alvo da chacota de uma cidade inteira.

A partir daqui Hergé deixa de se guiar pelos estereótipos. Em Carvão no Porão (1956-57), a fúria do Capitão Haddock é canalizada para atacar os traficantes de escravos, uma realidade hoje tão actual que nos faz pensar. Tintin e os Pícaros (1975-76) é uma crítica à corrupta classe política sul-americana que explora um povo que, à semelhança dos europeus, deseja e merece uma vida melhor e digna. E em Tintin no Tibete (1958-59), Hergé retrata os monges budistas como pessoas simpáticas, simples e honestas. Uma alteração relevante se nos recordarmos que, quase trinta anos antes, em Os Charutos do Faraó, o indiano moderno era o marajá e os sacerdotes hindus não passavam de personagens maléficas.

O melhor de nós
O segredo de Tintin é ser normal. Não fica descomunalmente forte após beber a poção mágica como Astérix, nem dispara mais rápido que a sua própria sombra como Lucky Luke. Tintin é o que qualquer um de nós pode ser: corajoso e intrépido, frontal e leal. Decidido e bondoso. Perspicaz e atrevido.

                                   


Tintin no Tibete é, neste sentido, um álbum emblemático. Aqui não há malvados; apenas o infortúnio do avião de Tchang que se despenha nos Himalaias. O amigo de Tintin vinha visitá-lo à Europa (Hergé também precisava que o verdadeiro Tchang o viesse ouvir e aconselhar como antes), mas foi dado como morto nos picos das montanhas. Perante a notícia que lê no jornal Tintin não dúvida por um momento que Tchang esteja vivo e decide ir em socorro do amigo. “Se não vens ter comigo, vou eu ter contigo”, terá pensado Hergé. E o livro é a travessia dos Himalaias, com Tintin e o Capitão Haddock mais o fiel Milu, na crença pouco crível que Tchang tivesse sobrevivido. O enredo é simples, directo, o branco da neve domina, não há nada que distraía Tintin, nem Hergé, da sua busca. O primeiro procura o amigo, o segundo a paz interior. Foi através deste álbum que Hergé exorcizou os fantasmas que o perseguiam desde a infância e adolescência. Uma viagem que o ajudou a atenuar os valores católicos que o impediam de se separar da sua primeira mulher e casar com Fanny Vlamynck, com quem viveu até morrer em 1983.

Porque somos humanos, a perfeição de Tintin torna-o aborrecido e quase patético. Não deixa de ter graça que para evitar que tal suceda, Hergé se socorra de patetas (mais uma pitada de um humor peculiar). Os Dupondt, o Capitão Haddock, o professor Girassol, Bianca Castafiore, Serafim Lampião, o General Alcazar, o senhor Oliveira da Figueira, o bravo Nestor, o Doutor Müller ou até Rastapopoulos, não são mais que a imagem, o desenho, dos defeitos que todos temos. E estando cada um de nós retratados nos álbuns de Tintin, estes tornam-se verdadeiros, uma caricatura inteligente e perspicaz da realidade.

A influência de Hergé na banda desenhada
Hergé é considerado um gigante na BD. Há um antes e um depois dele. Se dermos uma pequena vista de olhos ao que era banda desenhada em 1929 e a comparámos com aquilo em que se tornou a  partir de 1946, percebemos porquê. A linha clara, mesmo antes de ter sido teorizada, tornou-se numa técnica transversal a quase todos os criadores de banda desenhada franco-belga: Astérix, Lucky Luke, Blake e Mortimer, Alix, Ric Hochet, Spirou, Gil Jourdan, Barelli, e muitos outros surgiram aproveitando as portas abertas por Tintin.

Tintin é um universo sem fim. Há sempre uma tira que nos surpreende, uma história escondida, uma pista, mensagem, algo que nos apanha desprevenidos. Há toda uma simplicidade que esconde o que é complexo, demasiado complexo.
Mas Hergé não foi apenas um inspirador de autores de banda desenhada. Chegou mesmo a empregar muitos deles. Os mais importantes foram Edgar P. Jacobs, Jacques Martin e o grande Bob de Moor. Os três trabalharam na revista Tintin, lançada em 1946 pela editora belga de banda desenhada, Le Lombard. É nesta que Jacobs vê publicado O Segredo do Espadão, primeira aventura de Blake e Mortimer; que Jacques Martin publica boa parte de Alix, e em que Bob de Moor apresenta a sua personagem Barelli.

Jacobs, o primeiro colaborador de Hergé, teve um papel fulcral no álbum As Sete Bolas de Cristal, com os desenhos e ambientes da casa do professor Bergamotte, onde Girassol será depois raptado. Jacobs foi ainda responsável pelo cuidado pelo pormenor nas aventuras de Tintin e que Hergé não tinha. Infelizmente, a história entre os dois não é tão bonita quanto se poderia desejar com zangas, incompreensões, rivalidades e pequenas traições pelo meio. Apenas o ponderado Bob de Moor conseguiu ficar de bem com Hergé e com Jacobs tendo, inclusivé, terminado o último volume das Três Fórmulas do Professor Sato que este último deixou inacabado.

                                                     

Apesar de tudo, tanto Hergé como Jacobs não resistiram à tentação de também eles serem parte integrante das aventuras de Tintin. Para os apreciadores procurá-los pode ser um verdadeiro jogo. Os dois surgem em ‘Tintin no Congo’ (p. 1, tira A1); Jacobs aparece no Ceptro de Ottokar (p. 38, tira D1 e p. 59 tira C1); Hergé no Caso Girassol (p. 13, tira C1); Jacobs regressa em Os Charutos do Faraó (p. 8, tira A1) e no Rumo à Lua (p. 40, tira C2).

Tintin é um universo sem fim. Há sempre uma tira que nos surpreende, uma história escondida, uma pista, mensagem, algo que nos apanha desprevenidos. Há toda uma simplicidade que esconde o que é complexo, demasiado complexo. Mas acima de tudo somos nós a pegar nos álbuns e a recuar no passado, sairmos de onde estamos e nos largamos algures, num local que tem todas as condições para existir de tão real parece ser. Para mim, que comecei a ver as histórias de Tintin antes ainda de saber ler (novamente a linha clara), a oportunidade de escrever este pequeno ensaio foi única. A possibilidade de fazer um pouco parte de tudo isto, de honrar a memória de um génio, de um artista: Georges Rémi, Hergé. E talvez quem sabe levar alguém a apresentar este mundo aos seus filhos ou netos.

André Abrantes Amaral in Observador

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Deixem o Capitão Haddock beber

A obsessão pela tolerância (sob a máscara do politicamente correcto) tornou, em muitos aspectos, a nossa sociedade mais intolerante. O Capitão Haddock que o diga.


Tem qualquer coisa de hipócrita esta nossa obsessão em limar os defeitos de heróis da nossa juventude, ou aperfeiçoar as suas histórias e aventuras, para que tudo esteja adequado ao consumo dos tempos modernos. Lembrei-me disso neste Natal, quando uma das crianças da família recebeu um livro de aventuras d’Os Smurfs (“O Ataque da Mosca Bzz”). É que, nessa aventura, cada Smurf picado pela tal mosca transforma-se num Smurf mau e vê a sua cor alterar-se de azul (cor natural dos Smurfs) para roxo (cor dos Smurfs maus). Ora, quando eu li essa história, os Smurfs maus eram negros-carvão. Mas, entretanto, alguém terá visto aí um inaceitável incentivo ao racismo.
Basta uma breve pesquisa pela internet para constatar que, ao longo dos anos, têm sido dezenas as alterações às histórias de banda desenhada e aos filmes infantis, variando consoante o país onde são publicadas. O Lucky Luke deixou de fumar, trocando o cigarro na boca por uma palha. Os irmãos Dalton, os seus eternos inimigos, nunca mais foram alvejados pelos tiros dos revólveres. Nas aventuras do Pato Donald no Oeste, as armas deixaram de ser apontadas a outras personagens, e só se apontam dedos em forma de pistolas. Nas suas aventuras na África negra, os indígenas trocaram os dentes afiados por um sorriso perfeito e, claro, deixaram de ser canibais. O Tio Patinhas viu a sua aventura na América banida porque os índios eram demasiado semelhantes entre si (o que foi visto como uma forma de racismo). E o Capitão Haddock, veterano marinheiro, alcoólico temperamental e parceiro de aventuras de Tintim, deixou de beber.
Ora, este tipo de censura dificilmente poderia ser mais hipócrita, na medida em que não é feito a pensar nos mais jovens. É feito para satisfazer (e impor) os nossos preconceitos de adultos.
De facto, não é plausível que alguém comece a fumar para imitar o Lucky Luke ou anseie andar aos tiros por causa de uma aventura do Pato Donald. Da mesma forma que nenhum jovem se inicia nos shots de whisky por inspiração do Capitão Haddock, ou adere ao racismo por causa de um Smurf roxo ou negro-carvão – de resto, para uma criança, há mesmo diferença?
Este tipo de censura é para nós, adultos, que vivemos obcecados com o politicamente correcto e que identificamos em qualquer pequena característica pessoal ou social a promoção de vícios morais – racismo, violência, alcoolismo. Daí esta tentação justiceira de reescrever tudo o que está escrito, tornando-o aceitável aos nossos padrões modernos: o vilão tem de ser branco, porque se fosse negro era racismo; o herói não pode beber nem fumar, porque isso é dar um mau exemplo; as minorias étnicas têm de ter bom ar, porque senão é xenofobia.
O que hoje se produz (na televisão ou na animação) é, geralmente, assim: um conjunto de clichés para não ofender ninguém. O que antes se produzia não era e, eventualmente, ofendia algumas almas sensíveis. Agora tudo tem sido alterado para reposição dos nossos valores. Na verdade, não é algo que surpreenda, visto que, com a globalização e a cultura de massas, a tentação é a de agradar a todos (evitando irritar alguém). Surpreendente mesmo é o critério: quem vê problema nos cigarros do Lucky Luke não o vê na Miley Cyrus (que tem milhões de adolescentes a seguir os seus passos) a cantar nua enquanto lambe bolas de metal.

Entre tanta hipocrisia, a maior de todas é esta: achar-se que isto é o reflexo de uma sociedade mais tolerante. Pelo contrário: a obsessão pela tolerância (sob a máscara do politicamente correcto) tornou, em muitos aspectos, a nossa sociedade mais intolerante. O Capitão Haddock que o diga.

Alexandre Homem Cristo in O Observador