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domingo, 17 de julho de 2011

Arquitectura & Construção #43 - Museu Hergé


A revista Arquitectura & Construção (#43 de Junho/Julho de 2007) publicou um artigo de João Miguel Figueiredo Silva (um ADH) sobre o futuro museu Hergé.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Uma agitada aventura colonial

Depois da viagem de Tintim ao país dos sovietes, o sonho de Hergé é levar o seu herói até à América. Profundamente apaixonado pela cultura índia, seus costumes e mitos, começa de imediato a trabalhar nesse projecto. O padre Wallez, director do "Le Petit Vingtième" e mentor espiritual do desenhador, é que não está pelos ajustes: se há algum lugar onde levar Tintim é o Congo, na altura uma colónia belga, juntando o útil ao agradável - espalhar o espírito missionário e evangelizador, incrementando as vocações coloniais. Assim acontece e o resultado é "Tintim no Congo", hoje distribuído com o PÚBLICO.
Ao contrário da história anterior ("Tintim no País dos Sovietes", que é também a primeira da série), Tintim é acolhido em África como um herói internacional e uma figura quase lendária. Aliás, a glória precede-o nessa saga africana, pois os representantes da grande imprensa internacional - curiosamente, Hergé inclui também o deferente delegado do "Diário de Lisboa"... - disputam entre si o privilégio de publicar em exclusivo as reportagens do herói. Mas este permanecerá fiel ao "Vingtième", onde esta BD será publicada entre 5 de Junho de 1930 e 11 de Junho do ano seguinte.
De um modo geral, o traço de Hergé apresenta-se mais firme, mas sem perda de espontaneidade. Quanto ao desenho dos animais, é o próprio autor a confessar que pediu "ajuda" às gravuras de Benjamin Rabier. Perante uma multidão de "pretos" preguiçosos, estúpidos e infantis que se exprimem em mau francês, Tintim louva os méritos e grandezas da mãe-pátria. Milu também não está pelos ajustes: ele aceitou ir a África para caçar grandes feras, no que é imitado pelo seu dono, que não tem o menor problema em matar animais a torto e a direito, eliminando até um rinoceronte com dinamite... No entanto, o herói não chega a ter adversários locais verdadeiramente maus, pois os negros desta história são demasiado pueris para serem perigosos.
Tal como acontecera a propósito de "Tintim no País dos Sovietes", o padre Wallez decide organizar uma recepção ao herói quando este regressa a Bruxelas. Uma multidão impressionante acolhe um Tintim de carne e osso e um Milu pedido de empréstimo ao dono de um café da cidade, que quase é esmagado no boulevard du Jardin Botanique por centenas de miúdos que lhe querem dar torrões de açúcar...
A publicação de "Tintim no Congo" não levanta qualquer polémica na época, de tal modo a história está conforme ao espírito da mentalidade europeia daquele tempo - por outras palavras, ter territórios ultramarinos é atributo dos grandes países e sinónimo de poder no concerto das nações. Só mais tarde, quando a questão colonial entra na agenda política, é que a aventura africana de Tintim passará pelo crivo da análise político-ideológica.
Esta BD valerá a Hergé acusações de colonialismo e racismo, das quais este se defende invocando a mentalidade reinante na sociedade belga dos anos 30 do século XX. É verdade, mas não o é menos, nesta fase inicial da sua obra, a colagem do artista aos valores culturais e ideológicos dominantes. E não deixa de ser curioso que, ao realizar a reformulação gráfica e de diálogos desta história, em 1946, o artista belga a deixe praticamente intacta em termos narrativos.
Hergé nunca escondeu o seu desamor por "Tintim no Congo". No entanto, querelas ideológicas e filosóficas à parte, permanece como um excelente documento sobre a imagem estereotipada que os europeus tinham do continente africano.

O que disse Hergé sobre "Tintim no Congo"
 Hergé; Numa Sadoul

NUMA SADOUL:Foi dito e redito que era racista. Este é um bom momento para pôr as coisas a claro: que tem a dizer em sua defesa? Que responde quando o acusam de ser "racista"?
HERGÉ: - Respondo que todas as opiniões são livres, incluindo a de pretender que eu sou racista... Enfim, seja!... Há "Tintim no Congo", admito-o. Isso passou-se em 1930. Do país eu só conhecia aquilo que as pessoas diziam na altura: "Os negros são crianças grandes... Felizmente para eles, nós estamos lá!, etc..." E eu desenhei os africanos de acordo com esses critérios, no mais puro espírito paternalista que era o daquela época, na Bélgica. Mais tarde, pelo contrário, em "Carvão no Porão" - e isso, apesar de se falar na história em "pretoguês" - parece-me que Tintim dá provas sobejas do seu anti-racismo, não?... (...) Em "Tintim no Congo", tal como em "Tintim no País dos Sovietes", o que se verifica é que eu me alimentava com os preconceitos do meio burguês em que vivia. De facto, estas duas histórias foram pecados de juventude. Não é que eu os renegue. Mas, enfim, se tivesse que refazer as histórias, fá-las-ia de outra forma, isso é certo. Seja como for, todos os pecados têm redenção!...
Passemos então directamente a "Tintim no Congo".
- "Tintim no Congo"... Por que é que eu fiz "Tintim no Congo", e como é que o fiz?... Na realidade, depois do seu regresso da Rússia eu preferia ter enviado Tintim directamente para a América. Mas o padre Wallez persuadiu-me a começar pelo Congo: "É a nossa maravilhosa colónia, que tem tanta necessidade de nós, e além disso é necessário despertar vocações coloniais" e patati e patatá! Nada disso me inspirava muito, mas eu rendi-me a esses argumentos e pronto, lá fomos em força para o Congo! Como disse, fiz esta história na perspectiva da época, ou seja, de acordo com um espírito tipicamente paternalista... que era, posso afirmá-lo, o de toda a Bélgica. Passemos sem mais demora ao próximo álbum.
("Entretiens avec Hergé", de Numa Sadoul, Éditions Casterman).
© 2003 Público; Carlos Pessoa

domingo, 31 de janeiro de 1999

Desculpe, mas Hergé era antifascista

Assombra-me, embora não me indigne, a facilidade com que se acusa o criador de Tintim de simpatizante nazi, ou fascista, ou seja lá o que quiserem. Tudo isso me parece uma imensa baralhada própria, se calhar, do sistema mental do homem pós-guttenberguiano em que nos andamos a transformar. Devo lembrar aqui, em nome da justiça e da memória de Hergé, que durante a ocupação da Bélgica pelos nazis, Tintim foi vítima da censura. Foram proibidos os álbuns “Tintim na América”, “A ilha negra”, “O lótus azul” e interrompida a publicação de “No país do ouro negro”, já que se censurava tudo o que pudesse funcionar como propaganda à Inglaterra e aos Estados Unidos, onde se passam os dois primeiros álbuns citados. Quanto a “O lótus azul”, aí tratava-se mesmo de um libelo anti-imperialista e anti-japonês... Era natural que os nazis o censurassem! De facto, nada mais antifascista do que essa obra maravilhosa, desenhada em admirável estilo chinês tradicional, plena de sentimentos orientais pungentes, extremamente bem compreendidos e transmitidos na forma límpida como (quase) só eles, orientais, conseguem... Quanto às já triviais acusações de racismo que lhe fazem, parece-me importante não esquecer que em 1930 aquilo que hoje é tido por piadas racistas era, então, visto de forma tão inocente como é para nós contar anedotas sobre alentejanos. Talvez Tintim não seja propriamente o símbolo da esquerda política, as suas aventuras surgiram num jornal católico, anti-comunista e até demagógico... Tintim é certamente um bom súbdito, leal, quer seja do rei Otokar, do marajá de Rajapothalah, do emir Ben Kalish Ezab ou até do general Alcazar. Mas como esquecer a sempre presente sátira aos interesses dos grandes capitalistas, das multinacionais que provocam uma guerra na América Latina oara vender armas aos dois países beligerantes? Então porquê toda esta confusão? Quem deitou o grão de areia na engrenagem? Bem! Foi mais que noticiado que um amigo de infância de Hergé veio a ser, um dia, um importante nazi belga que, aliás, se exilou em Espanha no fim da guerra, se não me engano. É também verdade que o tal jornal católico onde saíam as aventuras de Tintim, colaborou com os nazis. Mas iria Hergé sacrificar o seu emprego por causa disso? Talvez, também, o autor de Tintim não fosse o género de pessoa que se zangasse com os amigos por causa da política... Que sabemos sobre isso? Que nos diz ele a esse respeito? Na verdade não é ele que nos responde a essa questão, mas sim o capitão Hadock quando aparece no fim de “No país do ouro negro”, o tal álbum que teve que ser interrompido em 1939 por ser passado na Palestina, a esse tempo território britânico, e onde se aludia já ao conflito israelo-árabe... É o capitão que diz: “É uma coisa ao mesmo tempo muito simples... pfff... e muito complicada... pff...” E a história acaba logo ali com um charuto explosivo armadilhado pelo jovem Abdalah. Quem consegue explicar porque razão aparece o capitão Hadock, sem fazer grande sentido, no fim de um álbum começado antes da guerra, em clima de ameaça de guerra e onde o mau é o Dr. Muller, um alemão comprometido em acções de sabotagem contra as companhias petrolíferas britânicas, se o capitão só conhece Tintim em “O caranguejo das tenazes de ouro”, esse sim, um álbum do tempo do governo de Vichy, passado no Saara francês? Eis pois um rico quebra-cabeças só para Tintimófilos! Imaginem, pois, a dor de cabeça de Hergé por lhe censurarem os álbuns... E o mais engraçado foi “O ceptro de Otokar”, onde havia uma referência implícita à política expansionista de Hitler e de Mussolini (através do anagrama “Mustler”, nome do fictício ditador da Bordúria, país igualmente fictício da Europa Central que planeia invadir um reino balcânico), passar despercebido aos censores!!! Tintim nazi? Não me façam rir!

 © 1999 Público

domingo, 9 de fevereiro de 1997

“Monsieur Hergé” no Artes & Letras, hoje na TV2: A sombra de Tintim

Como pode este homem tímido, deprimido e insatisfeito, com uma expressão rigidamente amável sempre estampada no rosto, ser o autor de uma obra tão luminosa? Através do testemunho dos que lidaram mais de perto com Hergé, o também autor de BD Benoît Peeters debruça-se com inteligência e sensibilidade sobre o eterno mistério da criação artística. Tintim e seus companheiros de viagem contados aos telespectadores, logo ao princípio da noite na TV2. “Monsieur Hergé”, o documentário que a TV 2 passa hoje à noite, no Artes & Letras, vai transportar-nos a esse mundo fabuloso de mais de 100 milhões de álbuns das aventuras de Tintim, publicadas em 30 países de todo o mundo. Mas acima de tudo à figura tutelar do seu criador, Georges Rémi, para sempre imortalizado com o seu “nome de guerra”: Hergé.

Do jovem repórter, que os mais maliciosos recordam nunca ter escrito uma notícia ou reportagem sobre as suas viagens, está dito tudo o que há a dizer. Ficaram as obras imorredouras, cuja leitura toca na “corda” aventureira que existe no coração de novas gerações de leitores ou agita, com nostalgia, a memória dos mais velhos.
Mas será que ler Tintim é franquear as portas de acesso ao universo do seu criador? Sim e não, sustenta Benoît Peeters, o autor do documentário feito em 1989 para a televisão belga francófona (evocativo do 60º aniversário do aparecimento do herói da banda desenhada, em 1929) exibido esta noite. É certo que as histórias de banda desenhada de Tintim são, de algum modo, uma “projecção” dos desejos e aspirações do autor e, nesse sentido, permitem reconstituir partes importantes do percurso do próprio Hergé. Por esse motivo, Peeters optou neste trabalho por traçar dois percursos paralelos que se encontram: uma cronologia das histórias concebidas e realizadas ao longo de décadas, com remissão para estados de alma e episódios significativos da vida de Hergé que permitem avançar alguma coisa na compreensão desta ou daquela opção temática.
Mas não é menos certo que a obra não é o autor. Daí que o documentário procure colocar o homem sob a luz, tão crua quanto possível, dos holofotes, e dê a palavra a quem lidou de perto com o criador belga — antigos companheiros de profissão, as duas mulheres com quem esteve casado, amigos íntimos. Através desses testemunhos (algumas das pessoas ouvidas já faleceram entretanto, como é o caso da primeira mulher e de Bob de Moor), Benoît Peeters procura recolher elementos de resposta para esta questão central, enunciada logo no início: como pôde este homem, oriundo de uma família cinzenta, onde se falava pouco, onde não havia livros nem ideias, ser o autor de uma obra admirável?
Paradoxalmente, a solução para este enigma está nas aventuras luminosas e “positivas” de Tintim, uma criatura corajosa, inteligente e generosa e uma espécie de “alter ego” de Hergé, homem sombrio, melancólico, dado a crises emocionais e estados depressivos que tornaram progressivamente mais difícil o seu trabalho e a relação com o êxito e popularidade do seu personagem.
Todos os testemunhos confirmam que, para Hergé, a vida não era fácil de ser vivida, apesar da “boa estrela” que, dir-se-ia, nunca deixou de o acompanhar nos momentos decisivos. Homem inquieto, permanentemente “em busca de um ser, de um guia, de um cúmplice, de um iniciador”, o criador de Tintim é alguém que só consegue obter os equilíbrios pessoais indispensáveis graças às relações particulares que estabeleceu com alguns seres, para ele, excepcionais: o abade Wallé, que o traz para a banda desenhada, o escultor chinês Tchang “adoptado” em algumas das mais belas aventuras de Tintim, Jacobs (o criador de Blake e Mortimer), o padre Gall (aliás, Lakota Ishonala, que quer dizer Sioux Solitário na cultura índia pela qual alimentava uma enorme paixão), Bob de Moor (outro autor de BD) e alguns mais.
Não chegou, como afirma no final do documentário Marcel Stal, galerista e amigo pessoal de Hergé: “Nunca gozou a vida como uma pessoa normal”. Se calhar, é por isso que as aventuras de Tintim despertam nos seus leitores sensações e emoções tão agradáveis.

 © 1996 Público/Carlos Pessoa