HERGÉ NA BANDA DESENHADA PORTUGUESA, 1935 – 1982
Portugal ocupa um lugar especial no mundo de Hergé. Com efeito, foi em português que Tintin foi traduzido pela primeira vez. 16 de Abril de 1936 é uma data importante, com Tintin a aparecer pela primeira vez num país não-francófono: Portugal. Por essa razão o nº 53 de O Papagaio tem um lugar especial na história de Tintin, com a publicação de Tintin na América. Após esta história, outras oito seguir-se-ão neste magazine para "miúdos".
Como se explica que, já em 1936, O Papagaio haja publicado as aventuras de Tintin?
Nesta época, Portugal, há já longos anos que conhece a banda desenhada. O primeiro "verdadeiro" magazine de BD, ABC-zinho, aparece em 1921! Um outro mais popular, O Senhor Doutor, aparece em 1933. Em 1935, o magazine de BD americano Mickey aparece na Europa, simultaneamente, na França, em Espanha, na Itália e em Portugal. Portugal, tradicionalmente, orienta-se mais para a França do que para Espanha. Em Portugal, à época, fala-se mais francês do que inglês ou espanhol.
A 18 de Abril de 1935 aparece o primeiro número do magazine O Papagaio. O seu director, Adolfo Simões Müller, admirador da cultura francesa, acha-a adequada à mentalidade dos jovens portugueses. Por intermédio de um eclesiástico português, Abel Varzim, que estudou em Louvaina, contacta com o Le Petit Vingtième e com Hergé. Este religioso mostra a Adolfo Simões Müller alguns números do Petit Vingtième e particularmente da bd Tintin que, em 1935, tinha já 6 anos de existência e 4 aventuras. A pedido de Adolfo Simões Müller, Varzim estabelece contacto, no final de Maio de 1935, com Hergé para negociar os direitos de publicação.
O Papagaio dava grande importância à composição da página. Cada número beneficiava de um novo desenho do título do jornal. O mais utilizado consistia numa variante de um papagaio, por vezes com Tintin e Milou. Nem sempre são desenhos muito conseguidos, mas sempre interessantes de ver. Também o tipo de letra era frequentemente modificado.
O encanto das histórias de O Papagaio deriva de uma combinação de três factores. Por um lado, tratam-se de versões originais desenhadas pela mão de Hergé tal como foram publicadas no Petit Vingtième (ou nas reedições em álbuns). Por outro lado, estes desenhos são "colorizados" num estilo bastante atraente. Por fim, os desenhadores responsáveis por este magazine utilizavam no título personagens como Tintin, Milou, Dupond e Dupont. Entre 1935 e 1949, O Papagaio publica sucessivamente Aventuras de Tim-Tim na América do Norte, Aventuras de Tim-Tim no Oriente, Novas Aventuras de Tim-Tim, Tim-Tim em Angola, Tim-Tim e o mistério da Orelha Quebrada, Tim-Tim na Ilha Negra, Tim-Tim no Deserto, A Estrela Misteriosa, O Segredo da Licorne.
Em 1948, é publicado no nº 674 de O Papagaio, o último episódio do Segredo da Licorne. Apesar da concorrência de outros periódicos, esta maravilhosa publicação existirá até ao nº 722, de Fevereiro de 1949.
Em 1939, Adolfo Simões Müller, director do Papagaio, chega a propor a Hergé a edição de uma aventura de Tintin em Portugal. Curioso é que, apesar dos seus esforços, Adolfo Simões Müller nunca conseguiu obter os direitos de publicação dos álbuns de Tintin em Portugal. Será preciso esperar pelo ano de 1988 para que tal aconteça pela acção das edições Verbo.
Adolfo Simões Müller nasceu em 1909, em Lisboa. Personalidade multifacetada, jornalista, escritor, poeta, pedagogo e produtor de programas de rádio, veio a ser aos 26 anos, em 1935, director de O Papagaio. A partir de 1940, a convite do Diário de Notícias, dirigiu o magazine quinzenal Diabrete. Dirigiu ainda, Cavaleiro Andante, Foguetão, Zorro, Nau Catrineta e, por fim, Quadradinhos (suplemento do Jornal A Capital). Em 1972, recebeu O Prémio Nacional de Literatura para a Infância, e em 1982, recebeu O Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura. Morreu em Lisboa, a 17 de Abril de 1989.
Apesar das suas qualidades gráficas, O Papagaio, conheceu desde cedo a rivalidade de uma outra publicação que haveria de ficar para a história da B.D. portuguesa: O Mosquito. Os especialistas de B.D. são unânimes em considerar O Mosquito, o periódico mais importante da B.D. portuguesa, mais do que O Papagaio ou Cavaleiro Andante, apesar de estes publicarem as histórias de Tintin. Entre 1936 e 1953 foram publicados mais de 1400 números, número substancialmente superior ao dos outros dois periódicos.
A editora Empresa Nacional de Publicidade, proprietária de vários jornais, como a Capital, em reacção ao sucesso de O Mosquito e ao apagamento de O Papagaio, cria um novo magazine: Diabrete. A partir do número 14, Adolfo Simões Müller, será o seu director. Este periódico publicará semanalmente, até ao número 120 (17.04.43) Quick e Flupke, em português, Tropelias do Trovão e do Relâmpago. Mais tarde, as edições Verbo publicarão em álbum esta banda desenhada com o nome de Quim e Filipe.
Em 1949, termina o O Papagaio e as histórias de Tintin continuarão no Diabrete: O ceptro de Ottokar, O tesouro de Rackham, As 7 Bolas de Cristal. Segue-se o Cavaleiro Andante.
De novo, encontramos Adolfo Simões Müller na direcção deste novo magazine. A partir do nº 28, as histórias de Tintin são remetidas para um suplemento de 4 páginas, a cores, mas de pequeno formato: O Pajem do Cavaleiro Andante. Este suplemento durou dois anos, de 5 de Julho de 1952 a 30 de Junho de 1954, 104 números ao todo. O Templo do Sol foi aí publicado do nº 1 ao nº 84.
De 4 de Maio a Julho de 1961, com uma curta existência de vida, apenas 13 semanas, o magazine Foguetão, em formato A3, publica Tintin au Tibet, com a particularidade de trazer em rodapé a tradução do texto original francês. Mais uma vez, encontramos Adolfo Simões Müller na direcção.
Terminado este magazine, rapidamente Adolfo Simões Müller funda uma nova publicação, Zorro, que aparece de 1962 a 1966, e em cujas páginas, a partir do nº 26, de 1963, podemos ler As Jóias da Castafiore. A partir de Junho de 1964 e até 1966, Zorro publicará as histórias de João, Joana e o macaco Simão (no original, Jo, Zette et Jocko), O Manitoba não responde e Erupção do Karamako.
Em 1968, surge a revista Tintin, versão portuguesa do magazine com o mesmo nome há muitos anos existente na Bélgica, França e Países Baixos. Até 1982, último ano de existência, são publicadas quase todas as aventuras de Tintin. No último ano, inicia-se a publicação de Tintin no País dos Sovietes, interrompida com o fim da revista.
De 1972 a 1975, juntamente com o jornal A Capital e publicado ao fim de semana, o suplemento gratuito Quadradinhos. Nele, podemos encontrar as aventuras de João, Joana e o macaco Simão, O Manitoba não responde e A Erupção do Karamako.
Portugal, foi precursor da publicação periódica das histórias de Tintin, mas, paradoxalmente, a sua edição em álbum é muito posterior.
No Brasil, a partir de 1961, a editora Flamboyant obtém os direitos de publicação das histórias em álbum e exporta-os para Portugal, onde o editor e importador Aster faz a distribuição.
Em 1969, a editora Flamboyant é substituída pela editora Record e os álbuns aparecerão com esta chancela. A importação para Portugal está a cargo do Centro do Livro Brasileiro, em Lisboa.
Em Portugal, foi preciso esperar por 1988, para que, pela mão da editora Verbo – 52 anos após o aparecimento pela primeira vez no Papagaio – as aventuras de Tintin fossem editadas em álbum.
Em 1995, o jornal O Independente, numa edição em álbum publica as histórias: As 7 Bolas De Cristal, O Templo do Sol, O Segredo do Licorne, O Tesouro de Rackham, o Vermelho. Em 1996, uma segunda edição publica: Rumo à Lua, Carvão no Porão.
A partir de 2000, o Círculo de Leitores publica todas as histórias, excepto Tintin no País dos Sovietes e L'Alph-Art, num total de 22 histórias em 11 álbuns.
Em 2003, o jornal Público, publica igualmente em álbum todas as aventuras de Tintin.
Finalmente, a 22 de Novembro de 2003, a colecção Os Clássicos da Banda Desenhada, edita um álbum de Tintin, com três histórias: Rumo à Lua, Explorando a Lua, Tintin no Tibet.
Alguns álbuns especiais foram igualmente editados: Tintin e o Lago dos Tubarões, datado de 1973, edição de A.F. Victor, de Lisboa; O Templo do Sol, editado em 1975 [1970?], pelos Refrescos Royal, um fabricante de bebidas.
Texto adaptado da Revista Sapperloot, nº 5, Novembro/2004 (Número especial da revista do clube holandês Hergé Genootschap com o título Kuifje in Portugal) que foi incluído na brochura oferecida aquando da exposição "Hergé, Tintin & C.ª Na Banda Desenhada Portuguesa" da BPMP.
























