quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Eclipse do Sol

 


O eclipse de 12.08.2026 contado em "O Templo do Sol"

Portugal vai observar um eclipse solar, o que não acontecia no nosso país desde 1912.

Muitos fãs de "As Aventuras de Tintin", dos 7 aos 77 anos, conhecem este fenómeno através do álbum "O Templo do Sol", de Hergé, publicado em 1949.

Na história, Tintin, o Capitão Haddock e o Professor Girassol estão prestes a ser sacrificados em piras pelos Incas.

Quando a Lua passa entre a Terra e o Sol e o dia fica escuro, os Incas acreditam que Tintin tem poderes sobre o Sol e os astros. Assustados, deixam os heróis em liberdade.


Tintin sabia que o eclipse iria acontecer porque tinha lido essa informação num jornal. O que para os Incas parecia magia era, afinal, um fenómeno que a ciência consegue explicar e prever.

É também esta uma das qualidades dos livros de Hergé: ensinam sem parecer que estão a ensinar. As aventuras de Tintin despertam a curiosidade e levam os leitores a descobrir a astronomia, a geografia, a história e diferentes culturas.


imagens de IA convertidas a partir do original de O Templo do Sol

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Bazar Tintin - 1979

                                       

"Tintin & Tintinors" é o nome de um jogo de tabuleiro dos anos 60 produzido pela empresa Jeux Noël (Montbrison). Na folha de regras está escrito "Com a Autorização de Hergé" e no verso tem uma lista ("Colecção dos Jogos Tintin et Milou") com vários jogos comercializados:

"TINTIN ET MILOU DANS LE MONDE" (1962)

"TINTIN ET MILOU VERS LA LUNE" (1960)

"DOMINOS TINTIN ET MILOU" (1965)

"TINTIN ET TINTINORS" (1962)

"TINTIN JOKER" un passionnant jeu de cartes (1965)

Existe uma versão portuguesa de "Tintin & Tintinors" denominado "Bazar Tintin, Jogo de Sociedade", publicado pela SEL, Lisboa. Na última folha das regras é mencionado "copyright PUBLICA/ HERGÉ/ AEI 1979".





MKB, 2023


Bazar Tintin: Jogo de Sociedade


Distribuidor: Círculo de Leitores
Ano - 1979
Jogadores - 2 a 5
Caixa - 26,5×24,5cm


Parece que há duas versões da caixa Bazar Tintin porque numa delas não aparece escrito Círculo de Leitores.

Curiosamente em 1982 foi feito novo jogo (Copyright Publica/Hergé/1982) e esse já aparece apenas com o nome do Circulo de Leitores e não da SEL.

Ambos os jogos tiveram design e orientação gráfica de José Antunes que não temos a certeza se era o ilustrador do mesmo nome.




BAZAR TINTIN
JOGO DE SOCIEDADE PARA 2 A 5 JOGADORES

REGRAS

COMPOSIÇÃO DO JOGO
- 104 cartas;
- 5 cartões;
- 1 maço de notas de 1 tintin e 1 maço de notas de 5 tintins ("tintinors" na versão original);
- 15 marcas;
- 1 roleta (que indica aos jogadores o número de tintins necessário para ganhar a partida).

FINALIDADE DO JOGO
Consiste em comprar, para constituir colecções, as cartas que representam as partituras da CASTAFIORE; a roda do leme e o rum velho do CAPITÃO; o relógio e o guarda-chuva do professor TOURNESOL e as bengalas dos DUPONT/DUPOND; formar séries para obter prémios e finalmente, no momento oportuno, trocar as suas cartas por tintins.
Ganha o primeiro jogador que conseguir juntar a quantia em tintins estipulada no início do jogo.

PREPARAÇÃO DO JOGO
No meio da mesa colocam-se:
1 - O baralho de 104 cartas, com as figuras para baixo;
2 - A roleta, que determina o número de tintins a obter no jogo (é o banqueiro que acciona a roleta após acordo com os parceiros).
N. B. Para melhor praticar este jogo, é aconselhável começar por um máximo de 30 tintins;
3 - As notas de tintins não distribuídas constituem a banca.

A BANCA
Um dos parceiros é escolhido para banqueiro, lugar que desempenha ao mesmo tempo que joga.
O banqueiro distribui a cada jogador:
1 - Um cartão para colocar as suas cartas;
2 - 15 tintins.

O JOGO
O primeiro jogador é o banqueiro, seguindo-se-lhe o parceiro situado à sua esquerda, depois o que está à esquerda deste, e assim sucessivamente.
Ao chegar a sua vez de jogar, cada jogador é obrigado a tirar uma carta do baralho.

O que acontece se tirar:
1 - Uma carta CASTAFIORE, CAPITÃO, TOURNESOL ou DUPONT/DUPOND: pode comprá-la, pagando à banca o seu preço em tintins e colocando-a no respectivo lugar no seu cartão. Mas o jogador não é obrigado a comprar, podendo deixar a carta, com a figura à vista, ao lado do baralho, e passar;
2 - Uma carta VALE 1 TINTIN: o banqueiro paga-lhe um tintin, e a carta é reposta, ao lado do baralho, com a figura voltada para cima;
3 - Uma carta RECEBE ou PAGA: o jogador cumpre as indicações (caso lhe seja possível) e depois coloca a carta ao lado do baralho, com a figura à vista;
4 - Uma carta com as figuras TINTIN e MILOU: esta carta é grátis. É um Joker, que pode substituir qualquer outra carta. Se o jogador, posteriormente, comprar a carta que o Joker substitui, poderá dispor deste e utilizá-lo noutra série.

SÉRIES COMPLETAS E PRÉMIOS
Um jogador tem todo o interesse em comprar as cartas necessárias para formar séries completas (compostas de 1 Dupont/Dupond, 1 Tournesol, 1 Capitão e 1 Castafiore) com cartas de cores diferentes (por exemplo: 1 amarela, 1 verde, 1 encarnada e 1 laranja). Recebe então do banqueiro, por cada série completa, um prémio de 10 tintins e uma marca para colocar ao lado da série já completa. Esta marca destina-se a impedir que o jogador receba outro prémio pela mesma série.

Podem-se comprar cartas para as 2.ª e 3.ª séries sem que a 1.ª esteja completa. É possível completar uma série que tenha duas cartas da mesma cor, por meio de uma inversão.

Tomemos como exemplo o jogo que se segue:

IMPORTANTE
O jogador que já não tenha tintins pode comprar uma quarta e última carta que vá completar uma série; mas o valor dessa carta será deduzido do prémio que vai receber.

VENDA DE CARTAS A BANCA
Para ganhar o jogo é necessário possuir, não cartas, mas a quantia em tintins estabelecida pela roleta no início do jogo.
É indispensável, portanto, no momento oportuno, trocar as suas cartas por tintins.
Para tanto o jogador, ao chegar a sua vez, não tira a carta do baralho; escolhe uma das suas cartas e pede ao banqueiro que lhe pague o valor da carta menos 1 tintin, como está indicado em cada carta.
As cartas DUPONT/DUPOND e os Jokers não são vendáveis na banca.
O jogador atento começará a venda no momento em que os seus haveres em notas, somados ao valor das cartas que vai vender, atinjam a quantia em tintins necessária para ganhar o jogo. Se a venda se fizer ou muito cedo ou demasiado tarde, o jogador não conseguirá juntar a quantia necessária para ganhar.
Quando um jogador vender uma ou mais cartas que não façam parte de séries completas, pode continuar a completar outras séries.

VENDA DE CARTAS ENTRE JOGADORES
Ao chegar a sua vez, o jogador pode vender uma carta (uma só de cada vez) a qualquer outro parceiro interessado. O preço da carta pode ser discutido entre os jogadores e é permitido o leilão. Em todas as circunstâncias, a venda conta como uma jogada.

O BARALHO
Quando se tiverem esgotado todas as cartas do baralho é necessário refazê-lo com as cartas postas de lado.




quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Entrevista no Jornal de Letras (1987)


Entrevista a Adolfo Simões Müller. No JL de 16.3.1987

Adolfo Simões Müller: "Paguei a Hergé em latas de sardinhas"

Raul Correia, Cardoso Lopes, José de Oliveira Cosme, Baptista Rosa, Roussado Pinto... Homens, todos eles já desaparecidos, que devotaram, integralmente ou em grande parte, a sua actividade pública à divulgação editorial da banda desenhada. Adolfo Simões Müller, cujas declarações aqui registamos, é a voz de uma geração entusiasticamente empenhada na divulgação dessa forma de arte. Aos 76 anos, aquele que foi sucessivamente director de «O Papagaio», «Diabrete», «Cavaleiro Andante», «Foguetão» e «Zorro» defende com calor as histórias ilustradas dos ataques dos seus detractores.

Jornal de Letras — Como principiou o seu interesse pelos «quadradinhos»?

Adolfo Simões Müller — Claro, principiei por ser apenas um leitor do que, na matéria, então se fazia por cá: havia os suplementos do «Diário de Notícias» e de «O Século», um deles creio que dirigido pelo Cottinelli Telmo...

P. — E o passo seguinte, a entrada activa na sua produção e divulgação?

R. — Vamos por partes. Por altura dos meus 18 anos, estava eu a estudar Medicina, vi-me forçado a começar a trabalhar, dando aulas, porque as posses da minha família não eram grandes. Tornei-me professor nas Oficinas de S. José, onde me lembrei de inventar processos de entreter os alunos. Um deles consistiu em dividir a turma em dois grupos de futebol, com onze de cada lado, perfeitamente definidos como avançados, halves, backs, keeper e tal. A bola ia progredindo até ao golo, através de perguntas que se iam formulando sobre a matéria (neste caso, Ciências Naturais). Quando era golo havia uma algazarra! Este processo era óptimo porque os rapazes tinham sempre a matéria na ponta da língua, para tramarem o parceiro. Um dia, quando uma das equipas marcou golo, foi tal a barulheira que apareceu o director acompanhado de umas senhoras muito bem vestidas. Fiquei atrapalhado, mas lá expliquei em que consistia o jogo. Pois a verdade é que o «público» ficou para assistir e, no final, aplaudiu... Também ensinava a História de Portugal recorrendo à narração de episódios como se fossem histórias maravilhosas e os alunos aderiam entusiasmados. Assim começou, digamos, a exprimir-se a minha vocação para o contacto com a gente nova...

«Uma técnica própria de leitura»

P. — E daí aos jornais de histórias aos quadradinhos?

R. — Bom, teria eu cerca de 30 anos, «pescaram-me» para as «Novidades», onde passei a trabalhar como redactor. Por volta de 1935, o director da Renascença, Lopes da Cruz, lembrando-se da minha vocação para lidar com jovens (e eu, entretanto, tinha já publicado um livro infantil) convidou-me para fazer um jornal — e assim nasceu «O Papagaio». Escolhi alguns colaboradores já meus conhecidos — o Tom, o José de Lemos, etc. — e, além de textos, decidi incluir também banda desenhada. As pessoas diziam muito mal, que afastava os jovens da leitura, e por aí adiante, mas eu acho que não: o que tem é uma técnica própria de leitura. Aliás, quando se tratava de adaptações de obras literárias eu tinha sempre o cuidado de chamar a atenção para esse facto e de convidar à leitura do original, sublinhando que a adaptação não era mais do que um aperitivo para ela.

P. — Havia fortes concorrentes na altura...

R. — Sim. Os mais importantes eram o «Tic-Tac», «O Mosquito» e «O Senhor Doutor». Todos tinham histórias em banda desenhada.

P. — «O Mosquito» e «O Senhor Doutor», nos primeiros tempos, poucas ou nenhumas histórias ilustradas de origem portuguesa publicavam. N'«O Papagaio», creio, não se passavam assim as coisas...

R. — As histórias eram então quase todas de importação inglesa ou americana. Ora, independentemente dos méritos dos seus autores, não me agradava aquilo, pois não se adaptavam bem à nossa sensibilidade. Antes de passar a incluir n'«O Papagaio» produção portuguesa tive, porém, a sorte de poder contar com a inserção de histórias de Hergé. Foi o padre Abel Varzim, que estudara em Lovaina e que lá na Bélgica tivera a oportunidade de conhecer pessoalmente [ nb: apenas conheceu a Obra e não o autor ] o então ainda jovem e não muito famoso autor de Tintin, quem me falou dele. A coisa interessou-me, ele próprio se encarregou dos contactos e assim passámos a publicar em Portugal, pela primeira vez, o Tintin, o «Tim-Tim no Congo»... O Hergé, para mim, é a maior figura da banda desenhada. E fiquei sempre, n'«O Papagaio» e nos jornais que se lhe seguiram, com o exclusivo do Tintin. E sempre com o maior êxito!

P. — Os direitos de publicação de histórias do Hergé eram dispendiosos?

R. — Nem por isso... E vou contar-lhe um episódio curioso. Nós pagávamos em dólares, ou francos, ou lá o que era (já não me lembro) mas veio a guerra e aquilo para nós era uma ninharia. Eles lá é que estavam pobres... Ora, um belo dia, o Hergé escreveu-me a pedir-me, se possível, o pagamento dos direitos, não em dinheiro, mas em latas de sardinhas, que se destinariam a um irmão dele que estava prisioneiro dos alemães, num campo de concentração... Assim fiz: lá ia a minha mulher comprar as conservas, enviávamos-lhas e elas em seguida iam para o campo, via Cruz Vermelha... Posteriormente visitei o Hergé, encetámos uma relação pessoal e eu sempre fiquei «cliente» das produções franco-belgas, de grande qualidade.

P. — As traduções eram mesmo da sua responsabilidade?

R. — Sim, e no caso do Tintin até adaptei os nomes das personagens. Como se sabe, o Capitão Haddock tornou-se Capitão Rosa, o Professor Tournesol ficou Professor Pintadinho, e por aí adiante. Um caso engraçado é o do cão do Tintin, que no original, como é conhecido, se chama Milou; ora, acontece que na altura estava muito em voga a actriz e cançonetista Milu, a «Menina da Rádio», [ nb:«Em 1935, com nove anos de idade, Milú já cantava nos programas infantis da Rádio Graça e era conhecida como “a menina da Rádio”. Milú Almeida ou simplesmente Milú, como ficou conhecida pelas suas participações nos filmes “O Costa do Castelo”, “O Leão da Estrela” e “O Grande Elias” (mas não em “A Menina da Rádio”, que foi protagonizado por Maria Eugénia, a Geninha).» (Azevmen) ] e eu achei (achámos todos) que era aborrecido chamar Milu ao cão, parecia que era de propósito, até porque entre nós aquilo não é nome de cão. Então, por onomatopeia, ficou Rom-Rom. Tim-Tim e Rom-Rom, soava bem. Num álbum recente, dedicado à obra de Hergé, vem um quadro com as traduções dos nomes das personagens em muitas línguas — e lá vêm os nomes que eu lhes pus...

P. — Quanto às traduções propriamente ditas, as que se fazem agora são muito más, até do ponto de vista estilístico. Não é dessa opinião?

R. — Não leio, não tenho conhecimento. Mas sei que há uma grande invasão de publicações feitas no Brasil, o que é péssimo. E os miúdos consomem muito daquilo. É pena... Eu sempre me preocupei por adaptar com o maior escrúpulo os textos ao português correcto e coloquial, com os nossos provérbios, as nossas frases feitas... Ah, mas ainda a propósito da transposição dos nomes, aqui vai outra história engraçada. A páginas tantas deparei, numa história do Tintin, com um pirata qualquer chamado Müller. Como é natural (risos) eu não achei nada próprio que o vilão tivesse o mesmo nome que o director do jornal. E, assim, chamei-lhe outra coisa qualquer...

P. — Que tiragem tinha então «O Papagaio»?

R. — Não sei já bem, mas uns dez mil, para aí...

P. — Como (e porquê) acabou «O Papagaio»?

R. — Bom, a certa altura, o Lopes da Cruz (que era uma pessoa muito delicada) começou a queixar-se, a dizer que «aguentava a publicação por causa do Müller», e por aí fora. Claro, eu disse-lhe que estivesse à vontade mas ele ia mantendo o jornal, que não era rentável.

P. — E veio «O Diabrete»...

R. — Por essa altura, um dos administradores do «Diário de Notícias» perguntou-me se eu não quereria dirigir o «Diabrete», surgido uns meses antes, e que até então fora dirigido por um engenheiro agrónomo cujo nome, sem menosprezo, não recordo, mas que à data já era muito idoso [nb: A. Urbano de Castro] e se encontrava pouco capaz de ter ideias novas. Eu falei com o Lopes da Cruz, expus-lhe o caso, ele aceitou a minha posição — mas não gostou. E o que é certo é que fez sair «O Papagaio» por mais dois anos, apesar das dificuldades económicas com que se debatia. [ nb: Mais anos! «Como revista terminou no n.º 722, em 10 de Fevereiro de 1949, mas continuou, sendo secção da revista Flama, até 9 de Fevereiro de 1951.» (Azevmen) ]

P. — Dificuldades que não tinha o «Diabrete»?

R. — Era um jornal novo e menos dispendioso. Aí contei com a colaboração próxima do Fernando Bento, um grande desenhador, que ainda continua a trabalhar, apesar da idade (que é mais ou menos a minha).

P. — Mas já «O Papagaio» tivera grandes desenhadores...

R. — Sim. Olhe, um deles — pouca gente sabe isto — foi o grande pintor Júlio Resende, talvez hoje o maior pintor português. É verdade, o Júlio Resende, que com o irmão, fazia banda desenhada para nós. Um dia vieram do Porto de propósito para colaborarem numa festa de «O Papagaio», no Politeama. Faziam uma parelha de palhaços, o Júlio era o faz-tudo e o outro tocava harmónio.

P. — Era frequente nesse tempo a colaboração de artistas plásticos em jornais infantis...

R. — Pois era. O Stuart Carvalhaes também desenhou histórias a meu pedido. O Stuart já fizera muito antes bandas desenhadas com as personagens «Quim e Manecas», que ressuscitou já nos anos 50, quando lho solicitei. Sabe que nunca guardei os originais? Perdi tudo, nunca tive preocupações de coleccionismo. Hoje lamento-o profundamente.

P. — Não possui as colecções dos jornais infantis e juvenis que dirigiu?

R. — Não, nunca me preocupei com isso. Às vezes há coleccionadores que me procuram, que dizem que me dão não sei quantos contos por isto ou por aquilo. «Homem, venda-mos você a mim», respondo eu. (Risos).

P. — Mas voltemos a «O Diabrete»...

R. — Foi uma fase muito grata para mim os dez ou onze anos que durou. Mas comecei a imaginar uma coisa maior e melhor e assim nasceu o «Cavaleiro Andante», no princípio dos anos 50. Antes contara com trabalhos de grandes artistas portugueses e espanhóis (e entre estes últimos cabe destacar o Jesus Blasco, um grande pintor), ao passo que o «Cavaleiro» passou a estar voltado praticamente para quanto se fazia de melhor na Europa. Publicámos, além de produções de outras origens, o melhor da banda desenhada francesa e belga. O Professor Mortimer, de Edgar P. Jacobs, o Astérix, o Lucky Luke, tudo isso, que foi assim pela primeira vez divulgado em Portugal. E o Hergé continuava. O Fernando Bento acompanhou-me sempre e aquilo serviu de escola a outros mais novos, como o José Ruy ou o José Garcês, o que para mim foi muito grato.

«Eu fazia os guiões, o Bento recriava-os»

P. — As histórias não eram, então, assinadas. Como nasciam as que fazia com o Fernando Bento? De quem partia a iniciativa?

R. — Era um trabalho dos dois. Em regra, eu fazia um guião indicando as situações e os diálogos e ele recriava-os. É um grande artista, a quem nunca foi prestada a homenagem que merece.

P. — Pode considerar-se o «Cavaleiro Andante» o jornal de maior êxito de entre os que dirigiu?

R. — Sim, foi um sucesso desde que principiou. Tirávamos trinta ou quarenta mil exemplares e o número um teve de ser reimpresso. Tínhamos, também, uma série de publicações adjacentes: o «Álbum do Cavaleiro Andante», mensal, os «Números Especiais» (os do Natal eram encadernados, com um certo luxo, e custavam 10 «paus»), a «Colecção Oásis», o «João Ratão», a «Colecção Alvo», as «Obras-Primas Ilustradas»... Por fim imaginei o jornal mais giro de todos, mas esse não teve êxito... Foi o «Foguetão», de que se publicaram apenas treze números. Era um jornal grande, tipo «adulto», magnífico, com artigos, contos, histórias ilustradas, grandes diaporamas, tudo a cores e em bom papel. Sabe a que se ficou a dever o falhanço? Eu fiz uma «sondagem» (como se diria hoje) junto dos vendedores e apurei o seguinte: que não se vendia por ser grande de mais. É que os rapazes queriam jornais que pudessem, na escola, meter debaixo dos livros, enganando assim o professor... Foi uma pena. Olhe, é o único jornal que dirigi de que possuo a colecção completa: são apenas treze números.

P. — Como eram feitos os contactos com os fornecedores de material estrangeiro e como chegava este às suas mãos?

R. — Havia agências distribuidoras, mas eu preferia o contacto directo com editoras ou publicações europeias, como a Casterman, as Éditions du Lombard, o jornal «Tintin», a Dupuis, o semanário italiano «Il Vittorioso»...

«Não violentar os jovens»

P. — Nunca lhe «disseram» muito as produções americanas, não é verdade?

R. — Há grandes desenhadores americanos, grandes artistas mas aquilo, realmente, nunca me pareceu muito adaptável à nossa maneira de ser nem muito adequado a ser lido por jovens.

P. — No entanto, o «Mundo de Aventuras» e as restantes publicações da Agência Portuguesa de Revistas abasteciam-se quase exclusivamente nesse mercado...

R. — Pois era, mas que quer? Eu era «estúpido» e não gostava daquilo...

P. — É verdade que os quadradinhos americanos não são dirigidos a jovens, mas a adultos. Em contrapartida, a própria designação «banda desenhada para adultos», que apareceu há uns vinte anos na Europa, indicia claramente que a que por cá se fazia antes era infantil. Mas o que pensa da actual produção para jovens?

R. — Hoje é tudo muito diferente, há uma grande carga de violência, os valores são outros. Eu preocupava-me em não violentar os jovens, em não os chocar, em não os excitar. E fui criticado por isso.

P. — Como?

R. — Pertenci a uma comissão de leitura, que não era de censura e se limitava a aconselhar. Eu próprio recebi conselhos da comissão de que fazia parte. Era sobretudo o tom: para quê escrever que «Fulano foi arremessado para uma fria masmorra» em vez de que «Fulano foi encarcerado», ou assim?

P. — Relações com o poder (com os poderes). Teve?

R. — Nunca tive. Vi o Salazar uma vez, mas nunca falei com ele. O Marcelo Caetano foi o único governante que manifestou algum interesse pela minha obra: quando ocorreu o quarto centenário da publicação de «Os Lusíadas» deu instruções no sentido de uma reedição estatal do meu livro «As Aventuras do Trinca-Fortes». Pois sabe quantos exemplares se venderam? Como diria o Jô Soares: zero! (Risos). Aquilo nunca foi avante. Agora, recentemente, a dr.ª Maria Barroso esteve presente no lançamento do meu livro «A Torre de D. Ramires». E foi tudo.

P. — Porque a sua obra não cabe apenas, convém lembrar, no campo das publicações periódicas...

R. — Não. Tenho publicados cerca de quarenta livros, designadamente biografias de pessoas célebres. Era a colecção «Gente Grande para Gente Pequena». Escrevia à média de um por ano. E também trabalhava na Emissora, onde colaborei estreitamente com o Francisco Mata, que, como sabe, já morreu, está um pouco esquecido e é outro homem a quem nunca foi feita a justiça que merecia. E ainda fiz publicidade. Foi uma vida cheia, a minha.

P. — Voltando às publicações juvenis: o «Foguetão» e o «Zorro» foram as últimas que dirigiu?

R. — Depois disso ainda fiz a «Nau Catrineta», que era um suplemento do «Diário de Notícias» e, mais tarde, pediram-me para ir a «A Capital» dirigir os «Quadradinhos».

P. — Pensa que um jornalismo nesses moldes ainda teria actualmente, saída? O que há agora é diferente...

R. — Praticamente não há nada. Eu ainda pensei em fazer um jornal em moldes novos, que seria a minha despedida: um jornal juvenil para os filhos dos emigrantes, que lhes permitisse manterem-se ligados a Portugal. Mas a coisa não foi por diante. Mas agora os interesses dos jovens são outros: é a música, é a televisão, é o cinema. Quase não lêem...

Entrevista de Luís Almeida Martins / Jornal de Letras, 16/03/1987

(entrevista obtida no blog Porta da Loja onde se pode ver a digitalização da mesma)

https://portadaloja.blogspot.com/2021/10/tintin-e-as-aventuras-dos-desenhos-sem.html

https://portadaloja.blogspot.com/2020/09/mais-de-cima-da-mesa-em-setembro.html

https://portadaloja.blogspot.com/2016/11/as-tretas-das-letras-ii.html


terça-feira, 4 de agosto de 2026

Edições fac-similadas



VERBO

A Verbo lançou edições fac-similadas de "Os Charutos do Faraó" (Jul/2003) e "No País dos Sovietes" (Set/1999).

No âmbito das comemorações do centenário do nascimento de Hergé esteve prevista a edição fac-similada do álbum "O Lótus Azul".

Na contracapa de "Tintim E A Alph-Art" (Verbo, 2004) tem a referência a essa futura edição mas não foi concretizada.

Fac-similados das primeiras edições, a preto e branco

Tintim no País dos Sovietes T

Os Charutos do Faraó  O

A Publicar:

O Lótus Azul

ASA

Em 2011 fez 75 anos que surgiu a primeira publicação em Portugal de Tintin e a ASA lançou "Tintin Na América" mas na versão de 1945. Curiosamente no Brasil foi lançada, em 2016, a versão de 1930 de "Tintim Na América" conjuntamente com outras aventuras.

BRASIL

A editora brasileira Globo Livros lançou as edições como publicadas originalmente, na década de 1930, em versão fac-símile no formato 21 x 28 cm.

- Tintim no Congo [1], Tintim na América [2], Os Charutos do Faraó [3] (2016).

- O Lótus Azul [4], A Orelha Lascada [5], A Ilha Negra [6] (2018).



(contracapa de Tintim E A Alph-Art - 2004)

sábado, 1 de agosto de 2026

Pertués / Mirandés

Está prevista a tradução para mirandês de uma nova aventura de Tintin mas ainda não está escolhida qual será. Aproveitamos para colocar a imagem da contracapa e o interessante texto presente na primeira edição em mirandês.

Pertués

Tintin é um dos heróis mais poliglotas de toda a Banda Desenhada, algo que nesta aventura está bem visível. De Port Said a Hong Kong não faltam personagens nem línguas exóticas, mas que por magia todas se transformam no mirandês. Até o vendedor ambulante, Oliveira da Figueira, descobriu que também Portugal era bilingue desde o seu nascimento.

Mirandés

Tintin ye un de ls heiroís más poliglotas de toda la Banda Zenhada, algo que nesta abintura se nota mui bien. De Port Said a Hong Kong nun fáltan pessonaiges nien lhénguas eizóticas, mas que por artes mágicas todas se buolben mirandés. Até l feirante, Oulibeira de la Figueira, çcubriu que tamien Pertual era bilhingue zde nacéncia.


imagem

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Apresentação da Revista Tintin!


A mítica, adorada revista Tintin, que foi coleccionada e lida por gerações! Muitos álbuns de banda desenhada que tinham continuação na semana seguinte, e que deram a conhecer muitos autores, estilos e heróis a muitos tipos de público português, desde os pequenos até aos mais crescidinhos... como se dizia, A Revista dos jovens dos 7 aos 77 anos!

Como tenho a colecção completa :) este é mais um projecto em que comecei a trabalhar com grande gosto pessoal. Tinha pensado em só o apresentar depois de já ter as capas todas, mas assim também - e um pouco como fiz com a Argonauta - podem ir acompanhando o crescimento até as capas estarem todas colocadas. Penso que talvez até ao final do próximo fim-de-semana conseguirei colocar as capas todas.

A minha ideia, depois das capas estarem todas colocadas, é referir também os álbuns (com as capas dos mesmos), e em que números de revista é que estes começam. :D

Confesso que este projecto está-me a entusiasmar imenso e está a ser muito bom de realizar, o mesmo tipo de sensação que tenho com o da Argonauta. O Tintin para mim também é uma referência incontornável e é uma sensação muito grata homenagear deste modo uma das colecções que acompanhou toda a minha infância e que me proporcionou muitas horas de encantamento.

Fica o endereço do blog:

http://revistatintin.blogspot.pt

Espero que gostem, e um abraço para todos.

João Vagos, 16/10/2013

http://livrosdostephenking.blogspot.pt/

http://coleccaoargonauta.blogspot.com/

https://arquivo.pt/wayback/20191116195708/http://www.bbde.org/viewtopic.php?f=151&t=13392

Página no facebook:

https://www.facebook.com/revistatintin

https://revistatintin.blogspot.com/2013/10/15-ano-n-20.html

https://www.bdportugal.info/Comics/Col/Franco/Internacional_Tintin/record/1520.html

https://www.bdportugal.info/Comics/Col/Franco/Internacional_Tintin/record/1521.html



terça-feira, 28 de julho de 2026

Revista Tintin

A revista Tintin (Le Journal de Tintin) foi criada originalmente na Bélgica em setembro de 1946.

O principal e mais emblemático slogan da Revista Tintin foi: "O jornal dos jovens dos 7 aos 77 anos" (no original em francês: «Le journal des jeunes de 7 à 77 ans»)  

A frase célebre não apareceu logo no início mas foi introduzida discretamente na edição de Páscoa de 03/04/1947 na rubrica Correio dos Leitores onde apareceu a frase «Tintin est le jornal des jeunes... de 7 à 77 ans". Pouco tempo depois apareceu esta curiosa ilustração na página 13 da edição da revista de 1 de maio de 1947.

Tornou-se depois o slogan oficial da revista Tintin belga a partir da edição nº 42 de Outubro de 1950. Tendo tido algumas variações ao longo do tempo.

Também foi usado nas várias versões que a revista teve pelo mundo incluindo a edição portuguesa publicada entre 1968 e 1982.

BÉLGICA

Chaque Jeudi (1946-1950)

Le Journal des jeunes de 7 à 77 ans (1950/42-1969)

Le Super Journal des jeunes de 7 à 77 ans (1967-1969)

L'hebdomadaire des super-jeunes de 7 à 77 ans (1970)

L'hebdomadaire des jeunes de 7 à 77 ans -1970/02/10; 1971/01/05

Le Super hebdomadaire des jeunes de 7 à 77 ans (1970) 

L'hebdomadaire des super-jeunes de 7 à 77 ans (1971-1988)

L'hebdomadaire qui a du nez (1974/04/09)

PORTUGAL

Revista Tintin (1968-1982) - A revista dos jovens dos 7 aos 77 anos

Selecções Tintin (1975-)

Do Super Jornal dos jovens dos 7 aos 77 anos

Aventura e humor dos grandes da banda desenhada 

BRASIL

Revista Tintin (1968) - Para o espírito dos jovens, para os jovens de espírito

Seleções Tintin (1975-1980) - O favorito dos jovens de 7 a 77 anos

EGIPTO

تان تان (Nota: "Tan Tan", adaptação fonética em árabe para Tintin) (1971-1980)

مجلة أسبوعية مصورة للشباب Revista semanal ilustrada para jovens

من ٧ إلى ٧٧ سنة Dos 7 aos 77 anoS

ESPANHA

Tintin (1967-1969) - Semanario para Jovenes de 7 a 77 años

Tintin (1981-1982) - revista Quincenal de Aventuras

FRANÇA

Tintin (1955-) - Le Journal des jeunes de 7 à 77 ans (a partir do Nº 363, 06/10/1955)

Super Jeune (1979-1982) - Le Journal des Super-Jeunes!

A edição francesa foi cancelada em 1972 mas continuou com outros nomes como Tintin l'Hebdoptimiste ou Nouveau Tintin.

GRÉCIA

Ten Ten (1968-1969) - για νέους από 7 έως 77 ετών

HOLANDA

Kuifje (-1993)

Iedere Donderdag (1946-1950)

Het Weekblad Voor Jongens Van 7 Tot 77 Jaar (1950)

Het Super-blad Voor de Jeugd Van 7 Tot 77 Jaar

Het Weekblad Voor de Super-Jeugd Van 7 Tot 77 Jaar

ITÁLIA

Tintin (1955-1956) - Settimanale di tutti giovani da 77 à 77 anni

SUIÇA

Tim (1959-1976) - Die Zeitung Fur Jugendliche Von 7-77 Jahren

Rataplan - Le Mensuel Tintin Pour La Suisse Romande

TURQUIA

Zip Zip (1964-1966) -  7 den 77 ye kadar her gencin mecmu


*

https://www.tintin.com/en/news/5815/spontaneous-generation#

https://www.youtube.com/watch?v=7m3JEZcLGp8&t=13s

https://tintinomania.com/tintin-origine-slogan

https://bdoubliees.com/tintin/index.html

terça-feira, 21 de julho de 2026

Charutos


Ilustração de Francisco Legatheaux na edição nº 1 do fanzine Shock, de Agosto de 1989, dedicado a Hergé.

A imagem é uma página a preto e branco, no estilo de desenho de Tintin, que funciona como uma paródia ou pastiche de uma capa de álbum de Tintin.

Principais elementos visuais:

Título: No topo, lê-se - HERGÉ - e um retângulo central com o texto "AS AVENTURAS DE TINTIM ☆ OS CHARROS DO FARAÓ", onde a letra "O" da palavra Faraó é representada por um símbolo associado à canábis.

Personagem principal: Tintim aparece a caminhar na diagonal, de olhos fechados e com um aspecto relaxado/alucinado, seguido pelo seu cão Milu, que também caminha enquanto fuma um cigarro (charro).

Cenário e múmias: Ao fundo, encontram-se várias múmias em sarcófagos abertos que retratam figuras icónicas da música e da contracultura com placas identificativas (visíveis nomes como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, etc.). À esquerda, vê-se uma figura de perfil com aspecto egípcio a fumar um charro.

Detalhes adicionais: Pelo chão espalhados encontram-se pontas de cigarros/charros. No canto inferior esquerdo vê-se uma assinatura ("Francisco Legatheaux") e no rodapé central encontra-se a palavra "SHOCK" juntamente com o número de página "6" no canto inferior esquerdo.




quinta-feira, 16 de julho de 2026

Portugal - Congo

 


imagem partilhada no facebook por Nuno Saavedra após o primeiro jogo de Portugal no Mundial 2026 de futebol.

imagem partilhada por JAC no instagram




quinta-feira, 9 de julho de 2026

Tim-Tim No 25 de Abril


Na edição de 20 de Maio de 1974 do jornal "A Capital" foi publicada uma ilustração de Tintin na secção "Opinião Pública".

(Agradecimento a Fernando Marques pela informação e pela cedência da imagem)

«A secção "Opinião Pública", que agora reaparece passa a ser efectivamente, uma tribuna dos leitores. A censura é agora um pesadelo longínquo e é na franqueza das opiniões, na justiça das reinvidicações, no acerto das criticas e dos elogios que todos vamos construir um Portugal que não nos envergonhe aos olhos do mundo.»