sábado, 31 de outubro de 2026

Quem É Tintim?

Trata-se de uma página de apresentação incluída nas primeiras edições brasileiras em álbum lançadas pelas editoras Flamboyant e Record.

Como o público brasileiro ainda não conhecia a personagem nem o impacto do autor na Europa, a editora optou por incluir este texto explicativo no início do álbum.

Explica ao leitor brasileiro por que razão o herói é diferente dos super-heróis tradicionais (como o Super-Homem). Destaca que Tintim é um herói "humano" e realista, cujos saltos, inteligência e coragem podem ser imitados pelas crianças.

O texto adaptava trechos de divulgação fornecidos pela própria editora belga Éditions Casterman, incluindo a célebre frase: “Leitura recomendada às pessoas de 7 a 77 anos”.

Apresentação de Hergé comparando com Walt Disney e Júlio Verne", sublinhando a precisão documental e geográfica com que ele desenhava e construía os álbuns (com uma equipa de desenhadores e cerca de um ano de trabalho por livro).


QUEM É TINTIM?

O segredo de TINTIM é proporcionar às crianças o que os outros "ídolos" de histórias infantis em quadrinhos não conseguem: um herói que elas possam imitar. TINTIM não é um "ser irreal", como tantos heróis de filmes e romances. Ele se movimenta na realidade. Ele não tem nada de um "super-homem" que dá saltos de sete metros; TINTIM dá saltos normais. O mundo de TINTIM está à altura da compreensão das crianças; sua coragem e sua inteligência são aquelas com que elas podem sonhar e ter algum dia; seus socos são decisivos, mas sua força não lhes parece exagerada. Elas têm a impressão de que podem brincar, defender-se e ser tão perspicazes como TINTIM. 

A frase "ser como TINTIM" ou "agir como TINTIM" já está se tornando, na linguagem infantil dos países da Europa Ocidental, sinônimo de "CORAGEM E AUDÁCIA". TINTIM consegue incutir nas crianças a idéia de aventuras cavalheirescas; pequeno justiceiro, persegue e aprisiona bandidos, traficantes ou espiões. Não tem problemas de dinheiro, nem conflitos de família.

O que mais agrada ao público em geral, na leitura dos "ÁLBUNS DE TINTIM", é a mentalidade aberta e exuberante, impregnada de argúcia, de inteligência e de humor. Pode-se dizer que interessam às crianças e aos adultos, segundo a sugestiva frase das "Éditions Casterman": "Leitura recomendada às pessoas de 7 a 77 anos".   

Apresentemos agora seu autor:

HERGÉ é chamado o "WALT DISNEY EUROPEU". Como Júlio Verne, este criador de contos, cujos heróis viajam do Oriente Médio até os Andes, da Rússia ao Congo, da Lua ao mais profundo dos mares, HERGÉ viaja raramente; entretanto, sabe-se que possui o documentário mais completo do mundo: todos os países estão presentes em suas fichas de história, geografia, hábitos e costumes. Seus álbuns são de uma precisão incrível, com todos os detalhes minuciosamente cuidados. HERGÉ trabalha intensamente num grande escritório, com uma equipe de desenhistas, durante oito horas por dia. Para escrever e desenhar um Álbum, leva aproximadamente um ano.


10/18/19



sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Maia

O conhecido cartoonista António Maia aproveitou recentemente Tintin e os Dupondt para abordar um caso da política nacional.

Apesar de ser publicado no Correio da Manhã (um dos jornais portugueses com mais circulação) só agora reparamos nele.

Ajude-nos a melhorar a página por exemplo se souber de outros cartoons (de Maia ou de outros autores portugueses) que abordem as personagens de Hergé?

ESPLENDORES CM

Por António Maia

Correio da Manhã, 30/09/2026


Maia Cartoon, facebook, 30/09/2026 

Nasceu em Rio Maior, em 1951. Frequentou os cursos de Sociologia, Direito e História da Arte. Artista plástico e jornalista, a sua actividade divide-se entre o cartoon e a pintura. Começou a publicar cartoons em 1978 no semanário Edição Especial. Entre 1979/80, no jornal Tempo e também no jornal A Tribuna. De 1981 a 1983 publica no jornal Expresso. Segue-se o Semanário 1983/2000, A Capital 1984/2000. De 2000 a 2009 no jornal 24 Horas. Colaborou também nas revistas Fortuna e Villas & Golfe e actualmente na Golf Digest. No presente, publica cartoons nos jornais Correio da Manhã, O Ribatejo e Jornal do Algarve. Desde 1979 que tem feito inúmeras exposições individuais e colectivas, tanto de cartoons como de pintura, em Portugal e no estrangeiro. Ganhou os seguintes prémios: Prémio Desenho do Ano – Salão Nacional de Caricatura, Vila Real, 1987; 1.º Prémio do Salão de Tecnologia e Desenvolvimento, Instituto Superior Técnico, 1988; Prémio Cartoon de Imprensa – Salão Nacional de Caricatura, Porto de Mós, 1988; Prémio Cartoon de Imprensa – Salão Nacional de Caricatura, Porto de Mós, 1990; Prémio Cartoon de Imprensa – VII Salão Nacional de Caricatura, Oeiras, 1992; Prémio Humor de Imprensa – VIII Salão Nacional de Caricatura, Oeiras, 1994; Grande Prémio do IX Salão Nacional de Caricatura, Oeiras, 1995; Prémio Gazeta, Cartoon 1995 – Clube de Jornalistas, Lisboa, 1995. Entre os vários livros de cartoons publicados, contam-se a série Cartoons do Ano, em parceria com outros cartoonistas e que se publicam desde 1999. Como cartoonista, está representado nos museus Sammlung Karikaturen & Cartoons, Basileia, Suíça e Herausgeber – Haus der Bumdesrepublik Deutschland, Bonn, Alemanha.

Sistema Solar

https://maisribatejo.pt/maia-cartoon-gabinete-chega-vandalizado/

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Tintin: Herói na Terra e na Lua

BANDA DESENHADA - VOLTA AO MUNDO COM SETE GRANDES VIAJANTES

Os heróis da banda desenhada estão entre os grandes viajantes do nosso tempo. Encontram-se em toda a parte, enfrentando desafi os e derrotando inimigos. Alguns, mais contemplativos, mostram que a aventura é uma experiência subjectiva que remete o leitor para o território do sonho ou da magia.

Siga Carlos Pessoa nesta longa viagem com sete heróis da BD

(...)


TINTIN - HERÓI NA TERRA E NA LUA

As aventuras de Tintin começam num dia de Janeiro de 1929, quando apanha em Bruxelas o comboio para Moscovo. É, na altura, um jovem e desconhecido repórter ao serviço de um jornal católico belga. A viagem ao País dos Sovietes é uma frontal denúncia da “Rússia soviética” que termina com uma recepção apoteótica no regresso à Bélgica. Assim começava a carreira exemplar do herói fundador da moderna banda desenhada europeia.

Tintin é um jornalista que quase nunca é visto a escrever qualquer notícia ou artigo. De facto, ele nasceu para correr mundo e viver as aventuras às quais deve, passados mais de 80 anos, a sua própria imortalidade. Desde o primeiro instante está a seu lado Milu, um cão inteligente com qualidades que estão muito para além da sua mera condição animal – realista, corajoso e preocupado com o seu conforto, mas também combativo e bastante guloso. E encontra-se rodeado ao longo das aventuras por uma vastíssima lista de personagens, de onde se destaca o truculento Haddock, o distraído Tournesol, a inefável Castafiore e os indescritíveis Dupond e Dupont, entre tantos outros.

Depois de viajar para a União Soviética, o herói de Hergé deslocase ao Congo, à época uma colónia belga, e depois à América. E nunca mais pára ao longo de outras duas dezenas de aventuras através do Médio e Extremo Oriente, Balcãs, América do Sul, Ásia e mesmo... a Lua.

Sabemos, pelas palavras de Hergé a um admirador, como surgiu Tintin: “A ‘ideia’ da personagem e do tipo de aventuras que ele ia viver ocorreu-me, creio, em cinco minutos, no momento de esboçar pela primeira vez a silhueta desse herói: isso quer dizer que ele não tinha habitado os meus verdes anos, nem mesmo em sonhos.” A seguir vem a interpretação pessoal do acto criador: “É possível que eu me tenha imaginado, em criança, na pele de uma espécie de Tintin: nisso, mas apenas nisso, haveria uma cristalização de um sonho, sonho que é um pouco o de todas as crianças e não pertença em exclusivo do futuro Hergé.”

O contexto sócio-histórico em que nasce Tintin é mais fácil de enunciar. O padre Norbert Wallez, director do jornal belga Le Vingtième Siècle, encomenda ao seu jovem colaborador – Hergé tem então 22 anos e manifesta uma admiração pelo eclesiástico que se manteria pela vida fora – uma história que tivesse um adolescente e um cão. A ideia era transmitir valores católicos aos leitores, que se pretendiam educar no culto da virtude e do espírito missionário. O envio do jovem repórter à Rússia soviética, um reino “demoníaco” onde imperava a pobreza, a fome, o terror e a repressão, era uma solução que se adequava às mil maravilhas ao desejo do director padre.

Tintin revela-se inicialmente uma criatura dura, mesmo cruel e implacável. Mas com o passar dos anos e das histórias, conhece uma subtil metamorfose, dando lugar a um herói mais generoso e compassivo, disponível para defender os fracos e oprimidos.

Antes de Tintin, Hergé dera vida às aventuras de Totor, um escuteiro chefe de patrulha de quem o jovem repórter foi imaginado como um “irmão” mais pequeno. O autor veste-o com um fato de golfe apenas porque era uma indumentária que ele próprio gostava de utilizar com frequência. O resto é a expressão natural de um desejo de diferenciação das demais personagens conhecidas. Assim surge o topete, que se tornou numa imagem de marca do herói para sempre.

Carlos Pessoa, Fugas, Público, 19/03/2011

https://tintinemportugal.blogspot.com/2011/03/fugas-tintin-viajante.html

19-3-11

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Tintim era melhor que Hergé


A China em quadradinhos

Não raras vezes, Hergé foi acusado de racismo e preconceito para com os africanos. Mas e em relação ao Oriente? Tudo indica que, por estes lados, o autor das Aventuras de Tintim pecou pelo excesso: fez amizade com um chinês e retratou o Império do Meio com simpatia de irmão. Com o filme de Spielberg acabado de estrear, especialistas ’Tintinófilos’ falam dos segredos da famosa BD.

Começou por ser Ting Ting, depois passou a Dingding, sempre acompanhado do cãozinho Baixue. O herói de banda desenhada Tintim tem vivido na China aventuras dentro e fora dos quadradinhos. Apesar de já andar por cá desde os anos 1980, só em 2001 é que os livros de Hergé foram oficialmente publicados.

As aventuras do jovem jornalista belga fizeram a sua primeira aparição em 1929. Entraram no Extremo Oriente por Taiwan, em 1978, e no Continente em 1981, tendo surgido primeiro em Cantão. Eram, no entanto, cópias pirata, em formato ‘lian huang hua’, pequenos livros de banda desenhada a preto e branco, tipicamente chineses. Por vezes, partes das imagens eram redesenhadas na tentativa de imitar o original, mas com um traço imperfeito.

Quando finalmente, em 2001, a China Children Publishing House editou a colecção, já Tintim era um sucesso mundial. Ainda assim, o primeiro álbum nunca foi autorizado no país. “Tintim no País dos Sovietes” (1930) foi considerado anti-comunista e censurado no Continente.

António Monteiro é fã do rapaz de poupa amarela praticamente desde que sabe ler. Começou a acompanhar as aventuras no final dos anos 1950, primeiro através da revista de banda desenhada Cavaleiro Andante (que deixou de ser publicada em 1962) e depois, já em idade adulta, através de leituras sobre Georges Remi, o nome verdadeiro de Hergé. Hoje, é membro da associação belga Amis de Hergé e faz parte de um grupo português de “Tintinófilos”.

Sobre “Tintim no País dos Sovietes”, Monteiro diz compreender a opção chinesa: “As aventuras de Tintim entre os Sovietes não passam de uma crítica acérrima dos bolcheviques e dos comunistas”. Ainda assim, lamenta que o livro não tenha sido publicado.

Mas não foi só em viagens pela Rússia que o herói dos quadradinhos causou agitação na China. “Tintim no Tibete” (1960), na primeira edição oficial, foi publicado com o título “Tintim no Tibete chinês”, uma tradução com leitura política, a vincar a integração do território em solo nacional.

Muito antes do Tibete, Tintim viajou até à China, naquele que é considerado o primeiro livro “a sério” da colecção, pela sua dimensão artística e maior consistência narrativa. Em “O Lótus Azul” (1934), o jornalista movimenta-se na Xangai ocupada pelos japoneses. O livro é ainda hoje muito apreciado no Continente, porque toma claramente o partido dos chineses contra as forças nipónicas.

No entanto, Hergé nunca esteve na China. O rigor do desenho, a descrição de hábitos e ambientes vieram-lhe, entre outras fontes, dos relatos do amigo Chang Chong-jen, um artista radicado na Bélgica com quem Hergé travou amizade. António Monteiro fala de uma obra onde é notória uma “genuína preocupação com a autenticidade dos pormenores”.

A amizade entre Hergé e Chang foi de tal modo marcante para o autor que este decidiu representá-la em “O Lótus Azul”. No livro, Tintim torna-se próximo de um rapazinho chinês de nome Chang, a quem chega mesmo a salvar a vida. A amizade de Chang e Tintim fazem paralelo com a de Chang Chong-jen e Hergé.

Terá sido sob a influência do artista chinês que o belga ilustrou um povo bondoso – em oposição ao japonês –, vítima de preconceitos por parte do Ocidente. Um diálogo entre Tintim e Chang aponta essas ideias feitas que, na verdade, nos anos 30, correspondiam, pelo menos em parte, à realidade.

Milou a namorada, Milu o cão

Há décadas que os “Tintinófilos” se dedicam a desvendar os vários mitos que envolvem as Aventuras de Tintim. O mais famoso de todos diz respeito ao sexo de Milu, o animal de estimação do herói. António Monteiro diz que “parecendo que o nome Milou [no original francês] foi inspirado numa pessoa do sexo feminino, será lícito supor que Tintim seja acompanhado por uma cadelinha”. Já João Paulo Boléo defende que “Milu é claramente um cão”. O nome, explica, foi de facto inspirado numa mulher, uma antiga namorada de Hergé, cuja relação foi impedida pela família dela. Mas isso não invalida que o animal seja um cão. Em Portugal é comum acreditar-se que é uma cadela porque, na primeira tradução, o nome escolhido foi Rom-Rom e era de facto uma cadela. Opção de Adolfo Simões Müller, director da revista O Papagaio, numa altura “em que se podia fazer tudo”. Outros mitos da colecção referem-se à localização da Sildávia e à dúvida se Dupond e Dupont eram irmãos gémeos. “Os Dupondt não só não eram irmãos como nem sequer eram da mesma família”, explica António Monteiro. “A similitude da sua aparência é uma caricatura da própria polícia, no sentido em que ‘todos os polícias são iguais’”, esclarece. Já a Sildávia, país ficcional que surge nos livros, situar-se-ia “algures na zona das Balcãs”, conta Monteiro

Do 2D para o 3D

A adaptação de Steven Spielberg de “O Segredo do Licorne” estreou ontem em Portugal. A recepção não tem sido das melhores e “Tintinófilos” de todo o mundo têm criticado as opções do realizador, que utilizou a mesma tecnologia de captura de movimentos 3D que foi utilizada na produção de Avatar. Nicholas Lezard, crítico literário do jornal The Guardian, escreveu que o filme “transformou uma subtil, intrincada e bela obra de arte num típico blockbuster moderno, num Tintim para idiotas”. Nem António Monteiro, nem João Paulo Boléo viram ainda o filme, mas ambos estão reticentes. “A tecnologia utilizada não é uma coisa nem outra, não se vendo pessoais reais também não se vêem rigorosamente os ‘bonecos’ criados por Hergé”, aponta Monteiro. “Confesso que não gosto muito da cara do rapaz”, diz Boléo, que desconfia do sucesso da passagem do 2D para o 3D. “Ironicamente, identifico-me mais com o rapaz [Jean-Pierre Talbot] daquele filme do Tintim, muito ingénuo, com actores, que foi feito no início dos anos 60 [Tintim et le mystère de la Toison d’Or]”, refere.

https://paragrafopontofinal.wordpress.com/2011/10/28/a-china-em-quadradinhos

Tintim era melhor que Hergé

João Paulo Boléo partilha da experiência de António Monteiro: desde o tempo da Cavaleiro Andante que não larga os quadradinhos. Hoje é autor e co-autor de diversos livros sobre banda desenhada portuguesa, colabora regularmente com o jornal Expresso sobre BD e também pertence aos Amis de Hergé. À paixão pelo Tintim junta o fascínio pelo Oriente.

– “Tintim no Tibete” passou a chamar-se “Tintim no Tibete chinês”. O que pensaria Hergé sobre isso?

João Paulo Boléo – Reagiria como reagiu a viúva e as entidades ligadas a Hergé: não veria bem. Houve uma exposição muito importante em Paris em defesa do Tibete, em denúncia do que a China tem feito no Tibete, e a base dessa exposição era realmente o “Tintim no Tibete”. Hergé sempre manifestou simpatia pelo povo tibetano e não veria com bons olhos aquele truque. Segundo li, foi no lançamento do livro, durante o cocktail na Europa, que alguém que conseguia ler chinês disse ‘Espera aí, aqui diz ‘Tintim no Tibete da China!’’. Foi uma pequenina traição por parte dos chineses para marcarem a sua posição.

– “Tintim no País dos Sovietes” foi considerado anti-comunista e a editora decidiu não o publicar. Há realmente argumentos para dizer que o livro é anti-comunista?

J.P.B. – Bom, anti-comunista é. “Tintim no País dos Sovietes” é assumidamente um livro de anti-bolchevismo. Era um fantasma que pairava no mundo, não só conservador. Para a maior parte das pessoas, o que vinha da Rússia era assim uma coisa um bocado assustadora. E para as famílias católicas, um fantasma. Quando surge, num jornal conservador católico [Vingtième Siècle], cujo director era uma pessoa muito influente, é evidente que o Tintim se insere numa cruzada anti-comunista, isso é assumido. Qual é a ironia desta história? Em primeiro lugar, ele [Hergé] era um miúdo quando começou a aventura, tinha 22 anos. Não tinha um plano, ia inventando as histórias. O que tem mais graça no “Tintim no País dos Sovietes” são as peripécias, as cenas na neve, um avião com a hélice ao contrário que anda para trás em vez de andar para a frente, uma série de coisas desse género que são o dominante da história. Há quem considere o livro como uma aprendizagem para o próprio Hergé, ele vai fazendo e aprendendo. Agora, não deixa de ter por trás uma denúncia da pobreza e da exploração do povo. Entre várias fontes ele baseou-se nas memórias de um cônsul belga que tinha feito um livro muito crítico da União Soviética. Mas o facto de ser crítico não quer dizer que não contasse muitos episódios verdadeiros e é isso que tem graça. Aquilo que deu má fama a Hergé no mundo da esquerda europeia acaba por ser aquilo que era mais verdadeiro: uma visita de sindicalistas ingleses a uma fábrica que era a fingir – e isto é histórico, está documentado –, a pobreza nas ruas, o voto de braço no ar em que quem era contra não tinha coragem de levantar o braço, tudo isso era verdade. Não publicarem na China hoje é um bocado irónico, porque a própria China e a União Soviética não se vieram a dar muito bem.

– Em 1934, o herói chega à China. “O Lótus Azul” tem como pano de fundo o incidente da Manchúria que levou à guerra entre a China e o Japão. Os vilões são os japoneses e os chineses são os bons. Pode fazer-se daqui alguma leitura política?

J.P.B. – Um dos grandes interesses da obra de Hergé é o fundo histórico sempre presente por detrás das histórias. “O Lótus Azul” é um álbum-chave na obra de Hergé. É talvez o primeiro “a sério”, que não são peripécias soltas. Além da qualidade artística que tem, mostra que Hergé não tem preconceitos ou é racista. Tintim está sempre do lado dos oprimidos, sempre contra os gangs, sempre contra as máfias, contra os negociantes de droga – a questão do ópio é relevante em “O Lótus Azul”. Claro que podemos dizer ‘este álbum é pró-chinês e anti-japonês’. Mas não é anti-japonês em termos gerais, é anti-Japão daquela época. Naquele contexto, os “maus da fita” são realmente os japoneses, cuja ocupação foi bárbara. Não podemos esquecer que na história tremenda da China, sobretudo nos séculos XIX e XX, não foram só os ocidentais que exploraram a China. Em “O Lótus Azul” os ocidentais também não ficam bem vistos. Há um episódio em que um branco, ligado às concessões de Xangai, bate num condutor de riquexó e é o Tintim que o defende. Este é que é o verdadeiro Tintim, que defende os oprimidos seja de que cor forem. Hergé tinha algumas relações com a comunidade chinesa em Bruxelas, e quando esta sabe que ele vai fazer um livro [passado] na China, numa altura em que o Tintim começava a ter sucesso, dizem: ‘Não invente para aí histórias, informe-se, conhecemos um estudante de História de Arte que o pode ajudar’. E foi assim que conheceu Chang Chong-jen.

– Mas Hergé nunca foi à China.

J.P.B. – A minha mulher, a brincar, costuma dizer que os apreciadores do Tintim gostam da Germaine e os apreciadores da vida gostam da Fanny. O que é que isto quer dizer? A maior parte da obra do Hergé é feita durante o seu primeiro casamento, com Germaine. Tinha fama de ser um bocado antipática e a malta brincava que ela o obrigava a trabalhar. Quando chegou o tempo da Fanny, que era uma miúda mais nova e muito gira, ele passou a gozar mais a vida, trabalhou menos, viajou mais. Já é com a Fanny que ele vai a Taiwan. Ironicamente nunca foi à China.

– A filha de Chang Chong-jen disse mesmo que Hergé conseguiu demonstrar como os chineses estavam a sofrer nas mãos dos japoneses. Os japoneses não gostaram muito de ser retratados assim…

J.P.B. – Há uma cena em “Tintim no País do Ouro Negro” em que os Dupondt batem numa palmeira que julgavam que era uma miragem. Por perto há uns árabes a rezar e os Dupondt dão um pontapé num deles, também achando ser uma miragem. Seria uma cena que poderia ofender os muçulmanos. Claro que os japoneses não podem gostar daquela visão. Mas isso não quer dizer que o Hergé seja anti-japonês. Agora, o livro, naquele contexto histórico, é obvio que é anti-japonês. Mas o Tintim até tem tido algum sucesso no Japão e parece que eles adocicaram um pouco os textos de “O Lótus Azul”.

– O primeiro tradutor dos livros de Tintim na China, Lu Xiao, explicou que alguns insultos do capitão Haddock foram especialmente difíceis de traduzir e que a linguagem primitiva dos africanos em “Tintim no Congo” foi simplesmente impossível. Perde-se muita coisa nas traduções?

J.P.B. – Perde. A tradução é um bem maravilhoso porque sem ela pouco conhecíamos mas é evidente que há sempre perda, “traduttore traditore”. No Tintim há muita subtileza do francês, que é uma língua cheia de jogos de palavras, é uma das mais ricas nesse aspecto. Há casos mais evidentes, quando Castafiore diz mal os nomes do Capitão Haddock. Há toda uma série de brincadeiras desse género, às vezes praticamente intraduzíveis. Há uma vez que ela lhe chama “Harrock” e ele responde “and roll, há rock and roll” – como é que se traduz isto para outras línguas? O “marché aux puces” traduzimos para Feira da Ladra, mas o que é que é intraduzível? É que o Milu está-se a coçar, porque tinha uma pulga. Não podemos traduzir por mercado das pulgas, isso não faz sentido. Perde-se sempre alguma coisa.

– Numa língua com uma estrutura tão distinta como o mandarim essas diferenças devem ser mais claras.

J.P.B. – É evidente. Os insultos do Capitão Haddock são muito engraçados porque não são verdadeiros insultos. É como aquele caso de uma senhora que ficou muito ofendida por lhe terem chamado hipotenusa, porque ela não sabia o que queria dizer. Ora hipotenusa não é nenhum insulto, é só uma palavra engraçada. [Do mesmo modo] ele tem montes de palavras que não são propriamente insultos, são mais palavras deslocadas, imprevistas e meio loucas, e muitas delas têm claras influências ocidentais, por isso evidentemente que deve ser difícil.

– Como encara as críticas de que Tintim era racista? Há mesmo motivos para se chegar a essa conclusão?

J.P.B. – Um amigo meu disse, e muito bem, que Tintim era melhor que Hergé. Temos de distinguir o Hergé-pessoa da obra. Acusar a obra de racismo é completamente absurdo. Tintim é uma pessoa generosa, não tem preconceitos de espécie alguma, é amigo deste, é amigo daquele, defende os oprimidos. Defende os negros que são vítimas de racismo pelos árabes – e às tantas era contra os árabes, não? Assim nunca mais parávamos. E Hergé também não era racista. Era sim um homem de direita, conservador, de um universo belga dos anos 1930, que fez um livro anti-comunista numa altura em que tinha de se dizer bem do comunismo. Quanto a “Tintim no Congo”, neste momento há mesmo um processo contra Hergé nos tribunais belgas, feito por um congolês que quer que o livro seja retirado das livrarias. O livro tem 80 anos e reflecte a visão paternalista que havia do africano. Se quisermos ser generalistas podemos dizer que sim, que é racista, mas no sentido em que considera o negro como uma espécie de criança grande. O que não é bem racismo, é a visão paternalista e colonialista daquela época.

– Como reage à ideia de os livros serem alterados?

J.P.B. – Isso é o que estão a fazer com Mark Twain. É o chamado politicamente correcto, é uma visão muito complexada. É muito vulgar no cinema americano clássico, em determinadas situações em que há gente rica, haver criados negros. E nunca passou pela cabeça de nenhum americano ir mudar os filmes. Hergé fez algumas mudanças para não ouvir críticas. Qual é o problema quando no “Tintim na América” há uma ama de um bebé que é negra? Ainda hoje deve haver centenas, milhares de amas negras na América. Hergé fez algumas alterações para não ter de os ouvir, para mostrar que não era racista.

– Podem identificar-se estereótipos relacionados com o Oriente, em específico com a China?

J.P.B. – Acho que sim. A questão dos japoneses não é só política, são desenhados de uma maneira desagradável, é um facto. Mas fazia parte da caricatura. No caso da China, ele tenta combater o preconceito. Em “O Lótus Azul” há mais anti-preconceito. Por exemplo, quando os Dupondt se vestem de chineses. Aquilo é uma desmistificação do preconceito. Acham que o verdadeiro chinês se veste assim e toda a gente goza com eles por isso. E sobretudo há uma cena que me parece muito importante: depois de Tintim salvar Chang, conversam sobre os preconceitos que há sobre a China. Qual é a ironia desta história? É um bocadinho ao contrário do que se passou com o “Tintim no País dos Sovietes”. Falam, por exemplo, da ideia que havia no Ocidente de que quando nasciam raparigas elas eram mortas. Ou de que os pés das mulheres eram atados. A ironia é que ele vem dizer que isso já não acontece quando ainda acontecia. A graça é que, de algum modo, Hergé antecipa o progresso que se vai dar na sociedade chinesa mas que ainda não tinha acontecido. Naquela altura ainda havia mulheres com os pés atados, algo que durou até à época de Mao. Esse anti-preconceito vai para lá da realidade.

Inês Santinhos Gonçalves / Parágrafo (Ponto Final)

Posted on Outubro 28, 2011 by PONTO FINAL

12.5.19

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Tintin no País do Ouro Negro


Esta imagem é uma adaptação para português (feita facilmente por IA) da capa da revista Tintin nº 47 de 27 de Outubro de 1949. Os vários personagens interagem com Hergé que estava desaparecido há alguns meses.

Oliveira da Figueira (com o cesto de frutas): «Lá está ele de novo! Que sorte! Eu estava a perguntar-me o que ia inventar para contar aos criados do Professor Smith...».

Dr. Muller (atrás, de casaco verde e barba): «Raios! Ele vai voltar a pôr o Tintin no meu rasto!...».

Emir Ben Kalish Ezab (de trajes árabes): «Irá ele finalmente permitir ao Tintin encontrar o meu querido pequeno Abdallah?».

Dupond (à esquerda de Hergé): «Acabou-se a brincadeira, meu rapaz! Ao trabalho!».

Dupond (à direita de Hergé): «Eu diria ainda mais: ao trabalho!».

Hergé (ao centro, de camisa vermelha e amarrado).

Capitão Haddock (de camisola azul e cachimbo): «E trata-se de preencher estas páginas, não é, filhote? E depressa, mil raios!...» .

Professor Girassol (com o péndulo e bengala): «Era para o Oeste que se devia procurar; eu nunca disse outra coisa...».

Tintin (de camisola azul e calças castanhas): «É isso, amigos! O Hergé foi encontrado! Vamos finalmente conhecer a continuação de "O Ouro Negro"!».

Milou: «Desgraça! Eu que estava tão tranquilo!... "Ele" vai lançar-me novamente em carradas de aventuras!» 

Ao centro, vê-se o próprio autor, Hergé, de camisa vermelha e de mãos algemadas, a ser escoltado por várias personagens. Tintin surge no canto inferior direito a acenar alegremente e a anunciar aos leitores que Hergé foi finalmente encontrado e que irá dar continuidade à aventura "O Ouro Negro". Ao seu lado, o cão Milou resmunga sobre o regresso às aventuras. Capitão Haddock (no lado esquerdo) aponta para Hergé com papéis na mão, a exigir mais pressa para preencher as páginas ("mil raios!...").   Dupond e Dupont seguram Hergé pelos ombros, dizendo-lhe que "acabou-se a brincadeira" e que é altura de voltar ao trabalho. O professor Girassol diz que "Era para o Oeste que se devia procurar...". Aparecem ainda outras personagens como o Emir Ben Kalish, Dr. Muller (Prof. Simth) e Oliveira da Figueira.

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Uma história das arábias

Quando o mês de Setembro de 1939 está a chegar ao fim, a última aventura da série Aventuras de Joana, João e do Macaco Simão é bruscamente interrompida a meio. A decisão é do próprio Hergé, que pode consagrar todo o seu tempo e energia a Tintim. No dia 25 de Setembro daquele ano começa uma nova aventura do seu herói nas páginas do "Le Petit Vingtième". Esta história, anos mais tarde intitulada "Tintim no País do Ouro Negro", é hoje distribuída com o PÚBLICO.

Nessa fase final do ano, a iminência da guerra total pesa no quotidiano de todos os europeus. Como os demais concidadãos, o criador de Tintim é mobilizado e parte para um quartel na cidade de Turnhout, no Norte da Bélgica. Para assegurar a continuação da banda desenhada nas páginas do jornal, Hergé organiza-se para fazer chegar todas as semanas à redacção as duas pranchas da história.

Misteriosas explosões estão no centro das atenções dos irmãos Dupond(t), chamados a esclarecer o enigma. Para Tintim, porém, são os inquietantes ecos da actualidade - "A situação é grave", "Teremos guerra?", "Chamada de reservistas", lê no jornal - que o preocupam e lhe chamam a atenção. Poucas vezes a consonância entre realidade e ficção foi tão precisa.

Nos primeiros dias de Abril de 1940, as tropas alemãs invadem a Dinamarca e a Noruega. Hergé consegue a sua desmobilização por razões de saúde. No meio de tanta instabilidade (à cautela, o jornal enviou a todos os colaboradores um pré-aviso de despedimento e o próprio Hergé está tecnicamente desempregado desde Fevereiro), a aventura de Tintim continua a ser publicada há quase oito meses. Em pleno deserto, o herói volta a enfrentar o doutor Müller, mas encontra-se em maus lençóis: o malfeitor derrubou-o e prepara-se para o atingir à queima-roupa quando...

Os leitores não chegarão a saber como é que Tintim sai daquele aperto, pois o jornal "Vingtième Siècle" cessa abruptamente a publicação em 10 de Maio de 1940. Desta vez, não há qualquer golpe de teatro imposto pelo ficcionista, mas a imposição brutal de uma realidade: as tropas de Hitler invadem a Holanda, a Bélgica e a França, lançando estes países no caos. Dois dias mais tarde Hergé apresenta-se às autoridades militares, mas é dado como inapto e volta para casa. Não ficará desempregado muito tempo, pois começa a trabalhar poucos meses depois no jornal colaboracionista "Le Soir", de Bruxelas.

Para voltar a ter notícias de "Tintim no País do Ouro Negro" e saber como o herói sai da situação, é necessário dar um salto no tempo de alguns anos, para nos determos no final do Verão de 1948. Ao regressar de férias, marcadas por mais uma das suas recorrentes crises pessoais, Hergé traz uma insuspeita energia para o trabalho. No Outono, retoma aquela aventura na revista "Tintin" (edição belga), saindo exactamente com o mesmo formato com que será depois publicada em álbum.

Ao longo dos anos, a galeria de personagens tinha sido enriquecida e Hergé não o podia ignorar. É o caso, nomeadamente, de Haddock, cuja ausência terá de ser explicada aos leitores. A solução é eficaz, pois o capitão é mobilizado nas primeiras pranchas e só volta a surgir quase no fim da aventura com os salvadores de Tintim, que estava em mais uma situação de aperto. O artista reordena algumas das sequências da história, faz entrar em cena Girassol e o castelo de Moulinsart, e reintroduz o inefável comerciante português Oliveira da Figueira. Mas as estrelas convidadas são o emir Ben Kalish e o seu irrequieto filho Abdallah, graças aos quais Hergé injecta na narrativa uma deliciosa série de "gags" que põem os nervos em franja a toda a gente.

Carlos Pessoa, Público, 23/01/2004

Tintim no país do Ouro Negro

O começo e o fim da história estão separados por mais de uma década, durante a qual o mundo viveu a Segunda Guerra Mundial. A versão definitiva é dos anos 60.

Muitas são as histórias de Tintim que sofreram transformações mais ou menos significativas. Mas “Tintim no País do Ouro Negro” bate todos os recordes.

O regresso do herói ao Médio Oriente tem início no dia 25 de Setembro de 1939, no “Le Petit Vingtième”. As nuvens sombrias que pairavam sobre os destinos da Europa à data da publicação da aventura anterior, “O Ceptro de Ottokar”, transformaram-se em acesa borrasca. Ou seja, a guerra tornara-se uma realidade e o estatuto de neutralidade que a Bélgica reivindicou para si não pôs o país a coberto das consequências do conflito. Em 8 de Maio de 1940, o “Vingtième Siècle” interrompe abruptamente a publicação, arrastando consigo o suplemento onde as histórias de Tintim eram inseridas. 

A acção de “Tintim no País do Ouro Negro” pára na página 56, correspondente à página 26 da actual versão.

Durante os anos seguintes, Hergé concentra as suas atenções em outros projectos, a começar por “O Caranguejo das Tenazes de Ouro”, que surge alguns meses mais tarde no jornal “Le Soir”. Decorrem assim mais de oito anos antes que o criador belga decida retomar a história, desta vez nas páginas da revista “Tintin”, criada por si e alguns amigos, em 1946, após o fim das hostilidades.

Ao pegar na história, Hergé apercebe-se de imediato que se impõem alterações, pois os anos entretanto passados viram chegar à série personagens novos, como o capitão Haddock, Girassol e o próprio castelo de Moulinsart. Para os integrar sem conflito no espírito da aventura, o autor decide “mobilizar” Haddock, que desaparece logo nas primeiras páginas e só volta a ser visto quase no fim. O fino sentido de humor do artista é posto uma vez mais em evidência, pois Hergé decide esclarecer através do próprio capitão o bizarro eclipse de um dos personagens fulcrais da série: é em vão que, ao longo das últimas pranchas, Haddock tenta relatar “o que é uma coisa ao mesmo tempo muito simples e muito complicada”. Os leitores não chegarão a saber pela boca do marinheiro as razões que o afastaram da narrativa…

As atribulações desta banda desenhada não acabam aqui. Nos anos 60, a pedido do seu editor inglês, Hergé reformula “Tintim no País do Ouro Negro”, eliminando elementos considerados muito datados — em particular, os uniformes — e simplificando a própria narrativa. Bob de Moor, o seu incansável colaborador, deslocar-se-á ao porto de Antuérpia para recolher elementos de um petroleiro dos anos 40 que servirá de modelo ao “Speedol Star” da aventura.

Desse esforço resultará a versão definitiva [que é distribuída amanhã]. O doutor Müller, ausente desde “A Ilha Negra”, está de regresso com o pseudónimo de professor Smith. Para variar, os Dupond(t) fazem das suas e assiste-se à aparição de uma dupla deliciosa — o emir Ben Kalish e o seu endiabrado filho Abdallah. Este é uma fonte inesgotável de “gags” que põem Haddock à beira de um ataque de nervos e fazem mesmo perder a paciência a Tintim. Um e outro voltarão a ser confrontados mais tarde, para desespero próprio, com as diabruras do “querido passarinho das ilhas”…

Carlos Pessoa, Público. 22/01/2004

- Foi inicialmente publicado de setembro de 1939 até a invasão alemã da Bélgica em maio de 1940, na qual o jornal foi fechado e a história foi interrompida. Após oito anos, Hergé retornou à Tintin au pays de l'or noir, completando a sua publicação na revista Tintin, de setembro de 1948 a fevereiro de 1950, e republicado no formato álbum pela Casterman em 1950. (w)

- O nome da história era inicialmente apenas "L'Or Noir".

- O capitão Haddock, Girassol e o próprio castelo de Moulinsart não existiam quando a aventura começou a ser feita por isso foram integradas na história.

- A pedido da editora britânica de Hergé, Methuen, em 1971, ele fez uma série de alterações em Tintin au pays de l'or noir, transferindo o cenário do Mandato Britânico da Palestina para o estado fictício de Khemed. (w)

- Foi lançada em álbum pela Record em 1970 mas em revistas portuguesas apenas foi lançado em 1980 através da revista Tintin.


quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Imprensa 1927 - 1993

Apenas estamos a considerar publicações entre o "Scout Luzitano" (1927) e o 10º aniversário da morte de Hergé (1993). Durante o ano de 1983, aquando da morte de Hergé,  terá sido publicada muita coisa na imprensa nacional mas ainda conhecemos pouco.

É bastante conhecido que um representante  do "Diário de Lisboa" aparece no início de "Tintin No Congo" (1931) a querer comprar o exclusivo da reportagem de Tintin!

Esta lista estará sempre incompleta mas gostaríamos de receber sugestões de mais artigos, pastiches e outros assuntos que apareceram na imprensa portuguesa. Também podem referir eventuais erros que detectem nesta ou outras entradas.

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ARTIGOS PUBLICADOS NA IMPRENSA PORTUGUESA ATÉ 1993

1965

[ + ] Tintin visto por Hergé, O Século Ilustrado, 25/12/1965

1966

Entrevista a Hergé - Luiz Beira, Plateia nº 360 de 13/12/1966

1969

Histórias em Quadrinhos Quem as não Lê, O Século Ilustrado, 12/04/1969

Diário de Lisboa, Canal da crítica: Tin-Tin: É Triste Vê-lo Assim - Mário Castrim, 24/12/1969

1972

Entrevista de Hergé - Quirino Teixeira, DN, 19/10/1972

1975

[ + ] Tintin Sou Eu,  Gente nº 86,  26/07/1975 (pp. 26-28)

1979

Tintin um jovem de 50 anos - Mundo de Aventuras nº 280, 15/02/1979

1982

[ + ] Hergé e os Seus Estúdios - Carlos Pessoa, Diário de Lisboa, 02/01/1982

[ + ] Tintin: um museu do imaginário - Carlos Pessoa, Diário de Lisboa, 04/09/1982

1983

Morreu O Pai de Tintin, Diário de Lisboa,  04/03/1983

A Morte de  Hergé: Tintin Somos Nós! (Bruno Frappat) e O Júlio Verne das Ciências Humanas (Michel Serres), Diário de Lisboa, 12/03/1983

O Falecido Hergé - José-Augusto França, Diário de Lisboa, 24/03/1983

Tintin Sem "Pai", Revista Maria nº 228, Março 1983

1985

O Mosquito nº 6 (V Série) Março/1985 - O Mistério da última entrevista (15/12/1982) - Luiz Beira

1986

Hergé, Tintin e o Alph-Art - Vasco Granja, "O Diário", 14/12/1986

1987

E se Hergé tivesse feito como Disney - M. Nöel Hantónio (Manuel Caldas), "Nemo"

1988

A Ilha Negra - Pedro Cleto, "O Primeiro de Janeiro", Agosto de 1988

A Ilha Negra em português - Carlos Gonçalves, CORREIO da Banda Desenhada, 08/09/1988

O Ceptro de Ottokar - Carlos Gonçalves, CORREIO da Banda Desenhada nº 424 (8.º Ano)

1989

Tintin: 60 anos - João Paulo Paiva Boléo, "Expresso" Revista, 07/01/1989, pp. 46-50

[longa cronologia comentada e ilustrada, com os 60 anos da criação de Tintin]

Tintim em Portugal - Carlos J. F. Jorge (10) Janeiro 1989 , p . 117, "Vertice"

Capitão Haddock - Ricardo Leite Pinto, "Sábado", 18/03/1989

Tintin nasceu há 60 anos - Geraldes Lino, "Selecções BD" n. 13 (1ª série) - Maio 1989

Hergé - João Paiva Boléo, "Expresso", 16/06/1989

Tipologia das Personagens na Banda Desenhada: As personagens de Hergé nas Aventuras de Tintim - Duarte Nuno Moreno, Setembro de 1989

[ + ] Destaque Hergé - Rui Garcia (RG), Boletim Clube Comicarte nº 8, Outubro 1989

[ + ] Reedição das Aventuras de JJ+S, Boletim Clube Comicarte nº 8, Outubro 1989

[ + ] Le Temple du Soleil, Boletim Clube Comicarte nº 8, Outubro 1989

Um Poeta Chamado Hergé - Jorge Magalhães, Shock nº 1, 1989

Hergé Sempre, Seis Anos Depois... - Luiz Beira, Shock nº 1, 1989

Hergé e Tintin - Fanzine CRUZEIRO DO SUL, nº 4, Nov/1989 

1990

Exposição "Tintin por Tintim", Diário de Lisboa, 09/04/1990

1991

Público, Paródia sobre Hergé começou a ser julgada em Paris - Carlos Pessoa, 13/12/1991

1992

Público, Um franco pela “Vida Sexual de Hergé” - Carlos Pessoa, 14/02/1992


Público, Tudo sobre Tintim - Carlos Pessoa, 27/02/1993
Heróis da BD: Viva Tim-Tim - Mário João Fernandes, "Algarve Região", 04/03/1993
Público Magazine, nº 157, Hergé - Morte e vida de um mito - Carlos Pessoa, 07/03/1993, pp.14 a 25 (recebeu um prémio de melhor artigo no Amadora BD)

Público, 10 anos da morte de Hergé - Carlos Pessoa, 07/03/1993
- O correr do tempo
- Fundação Hergé - Perpetuar um nome
+ Hergé: morte e vida de um mito
+ "Obra magistral que merecia um fim" [Stéphane Steeman, presidente dos ADH, 1993]
+ Tintin, difícil de abater 

Blitz, Dos 7 Aos 77, Viky Sybergirl, 16/03/1993
Público, Um autor para a eternidade, Numa Sadoul, o “mega-entrevistador” de Hergé - Carlos Pessoa, 1993
Público, A voz dos críticos : Thierry Groensteen: o clássico absoluto - Carlos Pessoa, 1993
Público, A voz dos críticos : Benoît Peeters: influências e influências - Carlos Pessoa, 1993
Público, A voz dos críticos : Heri Filippini: Um Clássico Absoluto - Carlos Pessoa, 1993

Público, Os bons e os maus - Carlos Pessoa, 26/07/1993
Tintin em Portugal - Francisco Baptista Gil, "Algarve Região", 02/09/1993
Clube Comicarte nº 47, O "Mundo de Tintim" , Pedro Cleto, Setembro 1993
Cincinato nº 4 , exposição "O Mundo de Tintim" - António Rocha, Outubro de 1993
Público, Um homem para a eternidade - Carlos Pessoa, 22/10/1993
Público, O verdadeiro e o falso - Carlos Pessoa, 01/12/1993

(...)

+

ARTIGOS NA REVISTA TINTIN (1968-1982)

Tintin #43/11º ano Tintin cinquenta anos - Vasco Granja

Tintin #15/11º ano Hergé expediu Tintin para a Lua, mas passou os seus tempos livres no campo

Tintin #4/11º ano Georges Remi, aliás Hergé - Numa Sadoul

Tintin #49 a 52/8º ano Algo sobre Hergé

Tintin #52/7º ano, 1 a 4/8º ano Hergé Ad-hoc

Tintin #15 a 18,  21,   23 a 25/6º ano Entrevista a Hergé

Tintin #29/5º ano O lago dos tubarões - o novo filme de Tintin - Vasco Granja

Tintin #42, 45, 50/3º ano, 2, 10,11, 13/4º ano Tintin herói do século vinte - Claude Le Gallo

Tintin #19/3º ano A propósito de Castafiore - Claude Le Gallo e Édouard François

ZTT / Artigos

- GALLO, Claude le, “Tintin herói do século vinte”, tradução de Vasco Granja, publicada ao longo do 1º ano da edição da revista portuguesa TinTin, de um artigo publicado no nº 4 do 3º trimestre de 1967 da revista “Phénix”;

Artigos de Vasco Granja;

TINTIN, cinquenta anos. (série nº 22, supl. 43) - 1979

Tintin e os seus companheiros. Apresentação por Vasco Granja, de um documentário para televisão.  (série nº 25, supl. 08) -

HERGÉ: A escola de Hergé. (série nº 19, supl. 17,18) -

LUCCA 8 : encontro da BD internacional. Artigo de Vasco Granja que inclui diversos desenhos “dedicatórios” aos leitores portugueses. Foram realizados por alguns conhecidos autores de BD em que se destaca o de Hergé na última página do suplemento.(série nº 10, supl. 32) - 1972 // - 29/10/1972 – 04/11/1972

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PASTICHES, CARTOONS E OUTRAS REFERÊNCIAS

19-20

-  Totor apareceu em Portugal logo em 1927 a ilustrar uma das páginas do número único de "Scout Luzitano" publicado na Covilhã.

19-50

- O Almanaque de Santo António de 1956 incluía uma história de Quick e Flupke.

19-70

-  imagem com os Dupondt, A Mosca, Diário de Lisboa, 02/12/1972 

- No segundo número do fanzine português "Saga", editado pelo ABC Cineclube, foram divulgadas 11 pranchas da banda desenhada, numa edição amadora de pouca qualidade.  (197?)

- Fanzine Quadrinhos n.º 4 – Maio de 1973 - com Desenho de Tintin na capa.

-  Na edição de 20 de Maio de 1974 do jornal "A Capital" foi publicada uma ilustração de Tintin na secção "Opinião Pública".

-  Fotomontagens do "Jornal Novo"

-  Montagem com Sá Carneiro como Nestor, Jornal Novo, 06/12/1975

-  cartoon de Manuel Vieira para a "Flama" (1975)

-  Cartoon de José Antunes /" A Chucha" (1976)

- "Kafarnaum" de António, Expresso, (1975/1976)

-  Numa das edições do jornal "A Rua", a propósito das eleições presidenciais de 1976, foi publicado um cartoon onde aparece o candidato Pinheiro de Azevedo e onde também aparece Tintin e Milou. 

- O Fanzine "K" da AAC (Maio 1977) inclui várias figuras de personagens da banda desenhada Dupond e Dupont, Professor Tournesol, entre outros.

- O livro "Figuras que Abril deu" é uma obra de caricaturas e textos humorísticos/políticos publicada em 1977 pela editora Liber (Lisboa). Autores: Textos de Rui de Brito e desenhos/ilustrações de Luís Guimarães. Aparece um desenho de Haddock.

19-80

- Tintin é um dos nomes que aparece no nº 1 do fanzine conimbricense "Hot Dog" de Junho de 1981.

- Em 1 de Dezembro de 1981, "O Diabo" usava a famosa personagem das aventuras de Tintin, o impagável comerciante "das arábias" Oliveira da Figueira, para criticar o Governo e o Presidente da República de então. 

- BD de Serer com várias personagens, "Tintin" nº 40, 13/02/1982

-  Cartoon de Baltazar Ortega (Mário Soares e Mota Pinto como Dupondt) no jornal "Expresso" 1983

- O Jogo das 7 Semelhanças, Pedro Morais, semanário "O Independente". 1988

- Na BD Tobias aparece Prof. Girassol- Revista "Metro" nº 16 - Jan 1989

- Cartoon de Metello - Revista «"Sábado" 18/03/1989

- "História Com Siza" - Pedro Morais, publicada no nº50 de "O Independente" (suplemento "Vida 3"), 28/04/1989

- "As Minhas Aventuras Na República Portuguesa", com texto de Miguel Esteves Cardoso e desenhos de Jorge Colombo, é uma banda desenhada publicada em 28/04/1989 no suplemento "Vida 3" do jornal "O Independente"

- Desenhos de pampam (Pedro Morais), Cadernos Politika! nº 3, Maio 1989

- Cartoon com a capa de O Lótus azul, Rui Pimentel, "O Jornal Ilustrado", 02/06/1989

- O fanzine "Shock" nº 1 (1989) tem vários pastiches de Tintin.

19-90

- A capa da edição de 16/03/1990 de "A Mosca", suplemento das sextas do "Diário de Lisboa", tem imagens alusivas a Tintin com destaque para a presença do representante criado por Hergé.

- Cartoon de Braga Macedo como Tintin, "Sábado" #186 de 03/01/1992

- Cartoon de Metello a ilustrar um artigo sobre a greve na revista "Sábado" de 09/04/1992

- Caricatura de Jacques Delors por António, Expresso (1992)

- Foguetão na capa do suplemento "Tele Público"(1993?)

- A revista Tintin abriu, no seu 14º ano, as suas páginas a mais autores portugueses. Estrompa publicou três trabalhos, nos números 37 e 39 do 14º ano e no nº 12 do 15º ano. Num dos desenhos aparece Milou e outros cães.

(,..)

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CATÁLOGOS

- 60 Anos de Tintin
Comicarte / Comissão de Jovens de Ramalde, Portugal, 1989
Textos: Pedro Cleto

Resumo:

Catálogo comemorativo dos 60 anos de Tintin, estruturado a partir dos diferentes núcleos da
exposição organizada por Pedro Cleto. Aborda a vida e obra de Hergé, a evolução e características de Tintin e diferentes leituras e representações da personagem, incluindo uma cronologia de Hergé e textos sobre o guarda-roupa e o imaginário das aventuras.


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OUTROS ARTIGOS

19-40

- Artigo sobre jornais infantis, "Vida Mundial Ilustrada" nº 189, de 28 de dezembro de 1944

19-70

- O inédito "Capitão Haddock" de Artur Portela Filho aparece no livro "A Funda"(4º volume)

19-80

- Um construtor de sonhos chamado Adolfo S. Müller - Carlos Gonçalves, Correio da Manhã, 1982

- O Papagaio, revista miúda para miúdos: sua influência, ao serviço da Igreja, na formação ideológica-cultural da juventude dos anos 30-40 - M. Peixoto, Boletim Gulbenkian, 1986).

- O livro "Droga de Rock" de Jorge Lima Barreto (1986) contou com a colaboração de Pedro Morais na parte da BD. Numa das ilustrações aparece Klaus Nomi junto a um cartaz com Bianca Castafiore.

- Para a História da banda Desenhada Portuguesa 3 - Anos Trinta - Carlos Gonçalves, Revista História Ano IX, 100, Fevereiro 1987.

- Adolfo Simões Müller: “Paguei a Hergé em latas de sardinhas” - Luis Almeida Martins, Jornal de Letras, 16/03/1987

- O jornal infantil português ilustrado, A.J. Ferreira, 1988

19-90

- O jornal "Independente", de 26 de Junho de 1992, publicou no suplemento "Vida 3" uma entrevista de  Sara Adamopoulos a Léon Degrelle, um belga de extrema-direita que teve ligações a Hergé e que estava exilado em 
Espanha desde 1944 onde morreu em 1994 [tintin e milou aparecem na capa]

- Vieira, Fernando; Gil, Francisco Baptista. "Bob de Moor: um ano depois do seu desaparecimento", Semanário Regional "Algarve Região", 1993

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LINKS




terça-feira, 20 de outubro de 2026

Tintin no século XXI

Escolhi escrever este texto por dois motivos. Primeiro, a ASA tem estado a publicar as aventuras de Tintin, a grande obra de Hergé, em volumes com vários originais. A chegada de Tintin, seja qual for o formato, é sempre uma festa.

O segundo motivo foi a descoberta de um texto de Manfred Kets de Vries, no site Medium com o título Tintin: The psychology of the boy who refuses to accept a broken world. O artigo está acessível de forma gratuita.

Tintin interpretado por Kets de Vries, um professor de liderança com lente psicanalítica, é demasiado bom para se perder a oportunidade de ler, comentar e recomendar. O texto ajudou-me a perceber porque gosto tanto de Tintin desde que me conheço e o conheço a ele. Tintin habita um mundo como o nosso, cheio de vilões narcisistas, autoridades com propensão para a burocracia, fanatismos vários, fumos de guerra. Mas ele nunca desiste de endireitar o mundo. É isso que faz em cada livro, sendo que cada problema resolvido é apenas um problema a menos num mundo onde os problemas não param de, como diriam no Brasil, pipocar.

Mas o que torna interessante este personagem tão certinho é o curioso grupo que o acompanha: um cão que tem as dúvidas que o dono não tem, um amigo alcoólico descontrolado, dois detetives apatetados, um cientista aluado e uma cantora lírica que faz tremer os vidros. No fundo, podemos ler Tintin como uma lição de liderança: um personagem tão certinho só tem interesse no meio dos seus opostos, com os quais ele aliás se relaciona sem a tentação do julgamento. Um lição intemporal, que talvez explique a longevidade deste herói para jovens dos 7 aos 77.

Miguel Pina e Cunha, Diretor da revista Líder

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Popol e Virginie


Algumas brincadeiras com um desenho de Popol e Virginie usando o IA do Gemini / Nano Banana.











E mudando mais uma vez de protagonistas.


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Os álbuns de Tintin em Língua Portuguesa


A história da edição portuguesa em álbum das aventuras de Tintin começa em março de 1939, quando Hergé propõe à administração da revista O Papagaio a publicação em livro das aventuras do jovem repórter aí publicadas. Contudo, apesar da aceitação da proposta, ela não teve seguimento. Doze anos mais tarde – em janeiro de 1951 –, Hergé volta ao assunto, então junto da Empresa Nacional de Publicidade, proprietária da revista Diabrete. A resposta é de novo positiva, mas, mais uma vez, o projeto não se concretiza. Nove anos depois – em 1960 – e para surpresa geral, a imprensa portuguesa anuncia a edição, em português, dos álbuns com As Aventuras de Tintim e Milu, mas com edição no Brasil.   

A Flamboyant (São Paulo, Brasil) foi, assim, a primeira editora a publicar em álbum, em língua portuguesa, as aventuras de Tintin. Os primeiros títulos apareceram em 1961, sendo publicados doze, em capa dura, e as primeiras edições apresentavam as lombadas em tecido. Em Portugal, as edições da Flamboyant foram distribuídas pela Editorial Aster, de Lisboa.   

A partir de 1969, as aventuras de Tintin, em álbum e em língua portuguesa, passaram a ser publicadas pela Editora Record (Rio de Janeiro, Brasil) e distribuídas em Portugal pelo Centro do Livro Brasileiro.  

No total, a Record lançou As Aventuras de Tintim em cinco séries. Encontramos versões surpreendentes em alguns títulos escolhidos que, posteriormente, não foram adotados pelas editoras portuguesas, como Tintim na África (Tintin no Congo), O Loto Azul (O Lótus Azul), O Ídolo Perdido (A Orelha Quebrada) e Perdidos no Mar (Carvão no Porão). 

(...)

José Vitor Silva, 2021


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Agradecemos a quem nos avisar de quaisquer erros no site ou sugestões para coisas em falta. Podem alertar para o seguinte email: 

jovitosilva@gmail.com

Também podem usar os comentários quando gostarem de algum post ou se tiverem alguma informação em falta ou sugestão para dar.

ENP, Flamboyant, HEP, O Papagaio, Record, Tintinófilo, Traduções,

domingo, 11 de outubro de 2026

O Senhor Oliveira da Figueira

 

Oliveira da Figueira, comerciante português de Lisboa, encontra Tintin na aventura "Os charutos do faraó", que lhe compra um variado conjunto de bugigangas. Tintin volta a encontrá-lo em Wadesdah no Khemed, onde reside. É graças ao português que Tintin consegue entrar na casa fortificada do Dr. Muller no episódio "Tintin no País do Ouro Negro".

Finalmente, a sua figura ainda aparece em "Carvão no porão". 

Oliveira da Figueira [não] será uma homenagem de Hergé aos portugueses, pelo facto de ser o primeiro país a publicar a cores as aventuras de Tintin na revista O Papagaio [pois apareceu em 1933 e a estreia em Portugal foi em Abril de 1936]. Apareceu pouco depois da grande Crise Económica de 1929.

Hergé coloca-o no círculo íntimo das aventuras de Tintin, sendo o português o primeiro a felicitar Haddock pelo seu "casamento" em "As Jóias da Castafiore".


Conteúdo do livro de 16 páginas que acompanhava a figura da Altaya:

Índice / Conteúdo   2-3 A figura   4-5  A personagem   6-7 À aventura   8-9 A pasta do artista   10-11 Hergé no texto   12-13 A sequência comentada   14-15 Antes da obra-prima   16 Sabia que...

Textos: Daniel Couvreur, Frédéric Soumois, Dominique Maricq

Oliveira da Figueira é um vendedor nato e o seu aspeto demonstra-o bem. Fala-barato e bajulador, a sua bondade é indiscutível, se bem que tenha como seu objetivo primordial as tentativas de seduzir para vender todo o género de objetos a qualquer pessoa, em qualquer lugar. Com a roupa proporcional ao ofício, de camisa aberta e chapéuzinho enterrado na cabeça… aqui está o nosso homem revelando todo o seu encanto. Este campeão da venda direta com muita lábia transforma-se em mais de uma ocasião num aliado providencial de Tintin e do seu amigo capitão Haddock.

Em 1947 aparece numa campanha contra a especulação do mercado negro na Bélgica devastada pela guerra. Na versão das guardas dos álbuns de Tintin que apareceu em 1957. Ou junto a Hergé na conhecida carte de voeux de 1973. 

Esteve ainda previsto aparecer como "marchand d'arms" em "Un jour d'hiver, dans un aéroport" (projecto inacabado) e também constava da ideia inicial para "As 7 Bolas de Cristal" que foi dada a Hergé pelo seu amigo José. 

Ou no Museu Imaginário:

« Em junho de 1979, foi inaugurada uma grande exposição itinerante no Palais des Beaux-Arts, em Bruxelas. Os detalhes do seu conteúdo eram desconhecidos para Hergé, mas os curadores explicaram que ela colocaria os objetos míticos colecionados por Tintin durante as suas aventuras com os objetos reais que os inspiraram. No cartaz da exposição, Hergé tentou encenar a intrusão das suas personagens principais no coração de uma instalação imaginária, concebida para deixar qualquer colecionador verde de inveja.» Fonte: Chronologie d’une œuvre – tome 7.


- texto da contracapa -
 
(éditionsmoulinsart)


Cópia do passaporte na versão original em francês