A China em quadradinhosNão raras vezes, Hergé foi acusado de racismo e preconceito para com os africanos. Mas e em relação ao Oriente? Tudo indica que, por estes lados, o autor das Aventuras de Tintim pecou pelo excesso: fez amizade com um chinês e retratou o Império do Meio com simpatia de irmão. Com o filme de Spielberg acabado de estrear, especialistas ’Tintinófilos’ falam dos segredos da famosa BD.
Começou por ser Ting Ting, depois passou a Dingding, sempre acompanhado do cãozinho Baixue. O herói de banda desenhada Tintim tem vivido na China aventuras dentro e fora dos quadradinhos. Apesar de já andar por cá desde os anos 1980, só em 2001 é que os livros de Hergé foram oficialmente publicados.
As aventuras do jovem jornalista belga fizeram a sua primeira aparição em 1929. Entraram no Extremo Oriente por Taiwan, em 1978, e no Continente em 1981, tendo surgido primeiro em Cantão. Eram, no entanto, cópias pirata, em formato ‘lian huang hua’, pequenos livros de banda desenhada a preto e branco, tipicamente chineses. Por vezes, partes das imagens eram redesenhadas na tentativa de imitar o original, mas com um traço imperfeito.
Quando finalmente, em 2001, a China Children Publishing House editou a colecção, já Tintim era um sucesso mundial. Ainda assim, o primeiro álbum nunca foi autorizado no país. “Tintim no País dos Sovietes” (1930) foi considerado anti-comunista e censurado no Continente.
António Monteiro é fã do rapaz de poupa amarela praticamente desde que sabe ler. Começou a acompanhar as aventuras no final dos anos 1950, primeiro através da revista de banda desenhada Cavaleiro Andante (que deixou de ser publicada em 1962) e depois, já em idade adulta, através de leituras sobre Georges Remi, o nome verdadeiro de Hergé. Hoje, é membro da associação belga Amis de Hergé e faz parte de um grupo português de “Tintinófilos”.
Sobre “Tintim no País dos Sovietes”, Monteiro diz compreender a opção chinesa: “As aventuras de Tintim entre os Sovietes não passam de uma crítica acérrima dos bolcheviques e dos comunistas”. Ainda assim, lamenta que o livro não tenha sido publicado.
Mas não foi só em viagens pela Rússia que o herói dos quadradinhos causou agitação na China. “Tintim no Tibete” (1960), na primeira edição oficial, foi publicado com o título “Tintim no Tibete chinês”, uma tradução com leitura política, a vincar a integração do território em solo nacional.
Muito antes do Tibete, Tintim viajou até à China, naquele que é considerado o primeiro livro “a sério” da colecção, pela sua dimensão artística e maior consistência narrativa. Em “O Lótus Azul” (1934), o jornalista movimenta-se na Xangai ocupada pelos japoneses. O livro é ainda hoje muito apreciado no Continente, porque toma claramente o partido dos chineses contra as forças nipónicas.
No entanto, Hergé nunca esteve na China. O rigor do desenho, a descrição de hábitos e ambientes vieram-lhe, entre outras fontes, dos relatos do amigo Chang Chong-jen, um artista radicado na Bélgica com quem Hergé travou amizade. António Monteiro fala de uma obra onde é notória uma “genuína preocupação com a autenticidade dos pormenores”.
A amizade entre Hergé e Chang foi de tal modo marcante para o autor que este decidiu representá-la em “O Lótus Azul”. No livro, Tintim torna-se próximo de um rapazinho chinês de nome Chang, a quem chega mesmo a salvar a vida. A amizade de Chang e Tintim fazem paralelo com a de Chang Chong-jen e Hergé.
Terá sido sob a influência do artista chinês que o belga ilustrou um povo bondoso – em oposição ao japonês –, vítima de preconceitos por parte do Ocidente. Um diálogo entre Tintim e Chang aponta essas ideias feitas que, na verdade, nos anos 30, correspondiam, pelo menos em parte, à realidade.
Milou a namorada, Milu o cão
Há décadas que os “Tintinófilos” se dedicam a desvendar os vários mitos que envolvem as Aventuras de Tintim. O mais famoso de todos diz respeito ao sexo de Milu, o animal de estimação do herói. António Monteiro diz que “parecendo que o nome Milou [no original francês] foi inspirado numa pessoa do sexo feminino, será lícito supor que Tintim seja acompanhado por uma cadelinha”. Já João Paulo Boléo defende que “Milu é claramente um cão”. O nome, explica, foi de facto inspirado numa mulher, uma antiga namorada de Hergé, cuja relação foi impedida pela família dela. Mas isso não invalida que o animal seja um cão. Em Portugal é comum acreditar-se que é uma cadela porque, na primeira tradução, o nome escolhido foi Rom-Rom e era de facto uma cadela. Opção de Adolfo Simões Müller, director da revista O Papagaio, numa altura “em que se podia fazer tudo”. Outros mitos da colecção referem-se à localização da Sildávia e à dúvida se Dupond e Dupont eram irmãos gémeos. “Os Dupondt não só não eram irmãos como nem sequer eram da mesma família”, explica António Monteiro. “A similitude da sua aparência é uma caricatura da própria polícia, no sentido em que ‘todos os polícias são iguais’”, esclarece. Já a Sildávia, país ficcional que surge nos livros, situar-se-ia “algures na zona das Balcãs”, conta Monteiro
Do 2D para o 3D
A adaptação de Steven Spielberg de “O Segredo do Licorne” estreou ontem em Portugal. A recepção não tem sido das melhores e “Tintinófilos” de todo o mundo têm criticado as opções do realizador, que utilizou a mesma tecnologia de captura de movimentos 3D que foi utilizada na produção de Avatar. Nicholas Lezard, crítico literário do jornal The Guardian, escreveu que o filme “transformou uma subtil, intrincada e bela obra de arte num típico blockbuster moderno, num Tintim para idiotas”. Nem António Monteiro, nem João Paulo Boléo viram ainda o filme, mas ambos estão reticentes. “A tecnologia utilizada não é uma coisa nem outra, não se vendo pessoais reais também não se vêem rigorosamente os ‘bonecos’ criados por Hergé”, aponta Monteiro. “Confesso que não gosto muito da cara do rapaz”, diz Boléo, que desconfia do sucesso da passagem do 2D para o 3D. “Ironicamente, identifico-me mais com o rapaz [Jean-Pierre Talbot] daquele filme do Tintim, muito ingénuo, com actores, que foi feito no início dos anos 60 [Tintim et le mystère de la Toison d’Or]”, refere.
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Tintim era melhor que Hergé
João Paulo Boléo partilha da experiência de António Monteiro: desde o tempo da Cavaleiro Andante que não larga os quadradinhos. Hoje é autor e co-autor de diversos livros sobre banda desenhada portuguesa, colabora regularmente com o jornal Expresso sobre BD e também pertence aos Amis de Hergé. À paixão pelo Tintim junta o fascínio pelo Oriente.
– “Tintim no Tibete” passou a chamar-se “Tintim no Tibete chinês”. O que pensaria Hergé sobre isso?
João Paulo Boléo – Reagiria como reagiu a viúva e as entidades ligadas a Hergé: não veria bem. Houve uma exposição muito importante em Paris em defesa do Tibete, em denúncia do que a China tem feito no Tibete, e a base dessa exposição era realmente o “Tintim no Tibete”. Hergé sempre manifestou simpatia pelo povo tibetano e não veria com bons olhos aquele truque. Segundo li, foi no lançamento do livro, durante o cocktail na Europa, que alguém que conseguia ler chinês disse ‘Espera aí, aqui diz ‘Tintim no Tibete da China!’’. Foi uma pequenina traição por parte dos chineses para marcarem a sua posição.
– “Tintim no País dos Sovietes” foi considerado anti-comunista e a editora decidiu não o publicar. Há realmente argumentos para dizer que o livro é anti-comunista?
J.P.B. – Bom, anti-comunista é. “Tintim no País dos Sovietes” é assumidamente um livro de anti-bolchevismo. Era um fantasma que pairava no mundo, não só conservador. Para a maior parte das pessoas, o que vinha da Rússia era assim uma coisa um bocado assustadora. E para as famílias católicas, um fantasma. Quando surge, num jornal conservador católico [Vingtième Siècle], cujo director era uma pessoa muito influente, é evidente que o Tintim se insere numa cruzada anti-comunista, isso é assumido. Qual é a ironia desta história? Em primeiro lugar, ele [Hergé] era um miúdo quando começou a aventura, tinha 22 anos. Não tinha um plano, ia inventando as histórias. O que tem mais graça no “Tintim no País dos Sovietes” são as peripécias, as cenas na neve, um avião com a hélice ao contrário que anda para trás em vez de andar para a frente, uma série de coisas desse género que são o dominante da história. Há quem considere o livro como uma aprendizagem para o próprio Hergé, ele vai fazendo e aprendendo. Agora, não deixa de ter por trás uma denúncia da pobreza e da exploração do povo. Entre várias fontes ele baseou-se nas memórias de um cônsul belga que tinha feito um livro muito crítico da União Soviética. Mas o facto de ser crítico não quer dizer que não contasse muitos episódios verdadeiros e é isso que tem graça. Aquilo que deu má fama a Hergé no mundo da esquerda europeia acaba por ser aquilo que era mais verdadeiro: uma visita de sindicalistas ingleses a uma fábrica que era a fingir – e isto é histórico, está documentado –, a pobreza nas ruas, o voto de braço no ar em que quem era contra não tinha coragem de levantar o braço, tudo isso era verdade. Não publicarem na China hoje é um bocado irónico, porque a própria China e a União Soviética não se vieram a dar muito bem.
– Em 1934, o herói chega à China. “O Lótus Azul” tem como pano de fundo o incidente da Manchúria que levou à guerra entre a China e o Japão. Os vilões são os japoneses e os chineses são os bons. Pode fazer-se daqui alguma leitura política?
J.P.B. – Um dos grandes interesses da obra de Hergé é o fundo histórico sempre presente por detrás das histórias. “O Lótus Azul” é um álbum-chave na obra de Hergé. É talvez o primeiro “a sério”, que não são peripécias soltas. Além da qualidade artística que tem, mostra que Hergé não tem preconceitos ou é racista. Tintim está sempre do lado dos oprimidos, sempre contra os gangs, sempre contra as máfias, contra os negociantes de droga – a questão do ópio é relevante em “O Lótus Azul”. Claro que podemos dizer ‘este álbum é pró-chinês e anti-japonês’. Mas não é anti-japonês em termos gerais, é anti-Japão daquela época. Naquele contexto, os “maus da fita” são realmente os japoneses, cuja ocupação foi bárbara. Não podemos esquecer que na história tremenda da China, sobretudo nos séculos XIX e XX, não foram só os ocidentais que exploraram a China. Em “O Lótus Azul” os ocidentais também não ficam bem vistos. Há um episódio em que um branco, ligado às concessões de Xangai, bate num condutor de riquexó e é o Tintim que o defende. Este é que é o verdadeiro Tintim, que defende os oprimidos seja de que cor forem. Hergé tinha algumas relações com a comunidade chinesa em Bruxelas, e quando esta sabe que ele vai fazer um livro [passado] na China, numa altura em que o Tintim começava a ter sucesso, dizem: ‘Não invente para aí histórias, informe-se, conhecemos um estudante de História de Arte que o pode ajudar’. E foi assim que conheceu Chang Chong-jen.
– Mas Hergé nunca foi à China.
J.P.B. – A minha mulher, a brincar, costuma dizer que os apreciadores do Tintim gostam da Germaine e os apreciadores da vida gostam da Fanny. O que é que isto quer dizer? A maior parte da obra do Hergé é feita durante o seu primeiro casamento, com Germaine. Tinha fama de ser um bocado antipática e a malta brincava que ela o obrigava a trabalhar. Quando chegou o tempo da Fanny, que era uma miúda mais nova e muito gira, ele passou a gozar mais a vida, trabalhou menos, viajou mais. Já é com a Fanny que ele vai a Taiwan. Ironicamente nunca foi à China.
– A filha de Chang Chong-jen disse mesmo que Hergé conseguiu demonstrar como os chineses estavam a sofrer nas mãos dos japoneses. Os japoneses não gostaram muito de ser retratados assim…
J.P.B. – Há uma cena em “Tintim no País do Ouro Negro” em que os Dupondt batem numa palmeira que julgavam que era uma miragem. Por perto há uns árabes a rezar e os Dupondt dão um pontapé num deles, também achando ser uma miragem. Seria uma cena que poderia ofender os muçulmanos. Claro que os japoneses não podem gostar daquela visão. Mas isso não quer dizer que o Hergé seja anti-japonês. Agora, o livro, naquele contexto histórico, é obvio que é anti-japonês. Mas o Tintim até tem tido algum sucesso no Japão e parece que eles adocicaram um pouco os textos de “O Lótus Azul”.
– O primeiro tradutor dos livros de Tintim na China, Lu Xiao, explicou que alguns insultos do capitão Haddock foram especialmente difíceis de traduzir e que a linguagem primitiva dos africanos em “Tintim no Congo” foi simplesmente impossível. Perde-se muita coisa nas traduções?
J.P.B. – Perde. A tradução é um bem maravilhoso porque sem ela pouco conhecíamos mas é evidente que há sempre perda, “traduttore traditore”. No Tintim há muita subtileza do francês, que é uma língua cheia de jogos de palavras, é uma das mais ricas nesse aspecto. Há casos mais evidentes, quando Castafiore diz mal os nomes do Capitão Haddock. Há toda uma série de brincadeiras desse género, às vezes praticamente intraduzíveis. Há uma vez que ela lhe chama “Harrock” e ele responde “and roll, há rock and roll” – como é que se traduz isto para outras línguas? O “marché aux puces” traduzimos para Feira da Ladra, mas o que é que é intraduzível? É que o Milu está-se a coçar, porque tinha uma pulga. Não podemos traduzir por mercado das pulgas, isso não faz sentido. Perde-se sempre alguma coisa.
– Numa língua com uma estrutura tão distinta como o mandarim essas diferenças devem ser mais claras.
J.P.B. – É evidente. Os insultos do Capitão Haddock são muito engraçados porque não são verdadeiros insultos. É como aquele caso de uma senhora que ficou muito ofendida por lhe terem chamado hipotenusa, porque ela não sabia o que queria dizer. Ora hipotenusa não é nenhum insulto, é só uma palavra engraçada. [Do mesmo modo] ele tem montes de palavras que não são propriamente insultos, são mais palavras deslocadas, imprevistas e meio loucas, e muitas delas têm claras influências ocidentais, por isso evidentemente que deve ser difícil.
– Como encara as críticas de que Tintim era racista? Há mesmo motivos para se chegar a essa conclusão?
J.P.B. – Um amigo meu disse, e muito bem, que Tintim era melhor que Hergé. Temos de distinguir o Hergé-pessoa da obra. Acusar a obra de racismo é completamente absurdo. Tintim é uma pessoa generosa, não tem preconceitos de espécie alguma, é amigo deste, é amigo daquele, defende os oprimidos. Defende os negros que são vítimas de racismo pelos árabes – e às tantas era contra os árabes, não? Assim nunca mais parávamos. E Hergé também não era racista. Era sim um homem de direita, conservador, de um universo belga dos anos 1930, que fez um livro anti-comunista numa altura em que tinha de se dizer bem do comunismo. Quanto a “Tintim no Congo”, neste momento há mesmo um processo contra Hergé nos tribunais belgas, feito por um congolês que quer que o livro seja retirado das livrarias. O livro tem 80 anos e reflecte a visão paternalista que havia do africano. Se quisermos ser generalistas podemos dizer que sim, que é racista, mas no sentido em que considera o negro como uma espécie de criança grande. O que não é bem racismo, é a visão paternalista e colonialista daquela época.
– Como reage à ideia de os livros serem alterados?
J.P.B. – Isso é o que estão a fazer com Mark Twain. É o chamado politicamente correcto, é uma visão muito complexada. É muito vulgar no cinema americano clássico, em determinadas situações em que há gente rica, haver criados negros. E nunca passou pela cabeça de nenhum americano ir mudar os filmes. Hergé fez algumas mudanças para não ouvir críticas. Qual é o problema quando no “Tintim na América” há uma ama de um bebé que é negra? Ainda hoje deve haver centenas, milhares de amas negras na América. Hergé fez algumas alterações para não ter de os ouvir, para mostrar que não era racista.
– Podem identificar-se estereótipos relacionados com o Oriente, em específico com a China?
J.P.B. – Acho que sim. A questão dos japoneses não é só política, são desenhados de uma maneira desagradável, é um facto. Mas fazia parte da caricatura. No caso da China, ele tenta combater o preconceito. Em “O Lótus Azul” há mais anti-preconceito. Por exemplo, quando os Dupondt se vestem de chineses. Aquilo é uma desmistificação do preconceito. Acham que o verdadeiro chinês se veste assim e toda a gente goza com eles por isso. E sobretudo há uma cena que me parece muito importante: depois de Tintim salvar Chang, conversam sobre os preconceitos que há sobre a China. Qual é a ironia desta história? É um bocadinho ao contrário do que se passou com o “Tintim no País dos Sovietes”. Falam, por exemplo, da ideia que havia no Ocidente de que quando nasciam raparigas elas eram mortas. Ou de que os pés das mulheres eram atados. A ironia é que ele vem dizer que isso já não acontece quando ainda acontecia. A graça é que, de algum modo, Hergé antecipa o progresso que se vai dar na sociedade chinesa mas que ainda não tinha acontecido. Naquela altura ainda havia mulheres com os pés atados, algo que durou até à época de Mao. Esse anti-preconceito vai para lá da realidade.
Inês Santinhos Gonçalves / Parágrafo (Ponto Final)
Posted on Outubro 28, 2011 by PONTO FINAL
12.5.19