Revista Tintin nº 52 (24-05-1969) - 1º ano
segunda-feira, 27 de janeiro de 2020
Lançamentos do 2º ano
segunda-feira, 20 de janeiro de 2020
O “Cavaleiro Andante”
NO FIO DA MEMÓRIA
O “Cavaleiro Andante” faz parte integrante das minhas mais queridas recordações de infância e foi uma fonte de exaltação para uma boa parte dos jovens da minha geração. Tratava-se de uma revista juvenil em banda desenhada, de publicação semanal, dirigida por Adolfo Simões Muller. O seu primeiro número, com a capa, a quatro cores (amarelo, azul, vermelho e verde), representava precisamente um cavaleiro medieval montado no seu corcel, com armadura, elmo e escudo, de lança em punho, preparando-se para a “justa”. Esgotou rapidamente, tendo atingido alto valor comercial entre os coleccionadores. O “Cavaleiro Andante” sucedeu ao “Diabrete” e foi publicado entre 5 de Janeiro de 1952 – ainda eu não tinha 10 anos – e 15 de Agosto de 1962, com 556 números publicados. Os meus primos mais velhos, filhos do meu tio Antero – o Alberto e o Luís – recordavam também, com saudade, o “Mosquito”, o qual, no entanto, já não fez parte das minhas leituras de menino.
- Associo o meu encantamento com o “Cavaleiro Andante” à cidade da Guarda, uma vez que me acompanhou até aos meus 14-15 anos, isto é, durante os últimos 5 anos que aí vivi.
- Como disse, revejo-me completamente nas histórias “aos quadradinhos”, tão coloridas e emocionantes, do “Cavaleiro Andante”. Contemporâneo deste, era também publicado o “Mundo de Aventuras”, mais virado para mundos inter-galácticos, aventuras espaciais e para histórias de índole psicológica ou hipnótica que não me tocavam tanto. Alguns dos seus heróis favoritos eram o Flash Gordon e o Mandrake.
- Tive, com o meu Amigo Raul Nobre, apreciador do “Mundo de Aventuras”, grandes e acaloradas discussões acerca dos méritos relativos das duas revistas. Cada qual ficou na sua e eu mantive-me fiel, desde o primeiro número, ao “Cavaleiro Andante”, onde predominavam as aventuras na “pradaria”, de índios e cowboys, as histórias de cavalaria e de cruzados, de corsários e de tesouros escondidos, assim como as heroicidades de Tarzan, as aventuras misteriosas do Professor Mortimer e do Capitão Edgar , em séries inesquecíveis de E. P. Jacobs, como “O Enigma da Atlântida”, “A Marca Amarela” ou “O Mistério da “Grande Pirâmide”, além das extraordinárias façanhas do repórter Tintim e do Rom-Rom , do Capitão Rosa e do Professor Pintadinho de Fresco , cujo encantamento pudemos reviver recentemente – mais de cinquenta anos depois -, com a sua publicação por iniciativa do Jornal “Público”.
- O “Cavaleiro Andante” saía ao sábado e o comboio que trazia os jornais de Lisboa chegava à Guarda um pouco depois das 14 horas. Os jornais eram, então, transportados por uma camioneta que fazia o percurso até à cidade, onde chegava, correndo tudo dentro da normalidade, pelas 15 horas. A essa hora já eu esperava, impaciente, a chegada da viatura, junto da “central de camionagem” (para utilizar a terminologia de hoje), perto da Igreja da Misericórdia, no largo fronteiro à paragem dos táxis. Logo que avistava a camioneta, seguia, sem demoras, para o Café Mondego, infelizmente já desaparecido, onde, no meu tempo, havia, à direita de quem entrava, um espaço reservado para a venda dos jornais e das revistas.
- Era importante ficar colocado logo na primeira fila, junto ao balcão, por detrás do qual imperava um velhote rabugento, que tinha por hábito cuspir regularmente para o chão, coberto com serradura, ao mesmo tempo que abria, com um estilete, os maços e pacotes com os jornais acabados de transportar num carrinho de mão. Depois, para endireitar e alisar os jornais e as revistas, batia fortemente com eles, por várias vezes, sobre o balcão, após o que os arrumava nas prateleiras, deixando no balcão as publicações mais procuradas: os jornais desportivos (“A Bola”, o “Mundo Desportivo” e o “Record”), o “Diário de Notícias” e o “Século” – e também o “Cavaleiro Andante”.
- Logo que recebia o meu exemplar, a impaciência era tanta que não se compadecia com os cerca de 15 minutos de percurso a pé até minha casa, à Dorna. Sentava-me logo, fizesse calor ou frio, chovesse ou nevasse, no banco mais próximo do jardim contíguo ao “Café Mondego”, onde folheava o exemplar acabado de adquirir e lia, em diagonal, os episódios cuja continuação mais me emocionava. Só depois seguia, em passo acelerado, para casa, onde, bem instalado no meu quarto para não ser interrompido, lia avidamente toda a revista, não sendo raro proceder a uma segunda leitura das aventuras mais importantes.
- Regularmente, no Natal e na Páscoa, saíam, para além da publicação semanal, números especiais. Eram álbuns temáticos que contavam uma história com princípio, meio e fim (em geral versões ilustradas de grandes romances de aventuras). Lembro-me, por exemplo, de que um desses álbuns tinha por título “O Último Mohicano”. A sua publicação coincidiu com a compra, pelo meu pai, de uma quinta na Guarda, que constituiu, para ele, acontecimento marcante. Quis o meu pai, uma vez celebrada a escritura de compra e venda, mostrar-nos a propriedade, a minha mãe e a mim (o meu irmão ainda era muito pequeno). Muito contrariado, já que a minha prioridade consistia na leitura do álbum do “Cavaleiro Andante”, lá os acompanhei até à quinta.
- O meu pai desfazia-se em explicações. Parava um pouco, mas, logo a seguir, descia uma ravina, subia uma pequena inclinação, apontava para uns velhos castanheiros, indicava, lá longe as extremas e, mais perto, a zona de lameiro e das hortas, onde se lobrigavam umas toscas casas em granito que eram a habitação dos caseiros, os palheiros para o gado e os armazéns para os produtos e para as alfaias agrícolas. Considerando-me suficientemente esclarecido acerca da nova propriedade e das suas características e potencialidades, resolvi sentar-me num barroco à medida, puxei do álbum e recomecei a leitura interrompida.
- Ter-se-ão passado uns cinco ou dez minutos, até que a minha mãe veio dizer-me da desilusão do meu pai perante o desinteresse que eu revelava. Lá tive que fazer das “tripas, coração”, e, com mal disfarçada contrariedade, acompanhar, até ao fim, a visita à quinta.
José Augusto Sacadura Garcia Marques, 12/03/2009 (Também publicado no Semanário A GUARDA)
Agradeço a todos os que quiseram enriquecer a minha contribuição com comentários interessantes e pertinentes.
É verdade que, como "afirma Maria", os tempos das nossas infâncias (eu sou, por certo, com os meus 67 anos, bem mais velho) eram muito diferentes dos actuais, mais saudáveis, mais solidários e mais afectivos. Numa época em que não havia televisões, computadores nem "playstations",nem por isso deixávamos de ter distracções e actividades lúdicas. Além dos jogos que enumera no seu comentário, havia uma ou outra ida ao cinema para ver um filme de capa e espada, de corsários ou de "cowboys", tínhamos as novelas radiofónicas e, acima de tudo, a leitura de livros e revistas juvenis. As aventuras de Emílio Salgari, de Júlio Verne ou de Alexandre Dumas constituíam motivo do mais puro prazer. E lembro-me ainda de acompanhar, com o ouvido encostado ao "velho" aparelho de rádio, entrecortados por barulhos de "estrelar ovos" e outros ruídos de fundo, na voz de Domingos Lança Moreira e, mais tarde, de Amadeu José de Freitas, os relatos épicos dos grandes jogos de hóquei em patins que opunham Portugal e Espanha, nos tempos da "gloriosa" selecção portuguesa, campeã do Mundo, formada por Emídio Pinto, Edgar, Raio, Correia dos Santos e Jesus Correia, este último um dos "cinco violinos" do célebre ataque da equipa de futebol do meu Sporting Clube de Portugal.
E, repito, no meu caso, a ansiedade e o empolgamento causados pela leitura do "Cavaleiro Andante". Ainda um dia talvez venha a contar neste blogue o que aconteceu à minha colecção dessa tão estimada revista juvenil. Penso que esse terá sido mais um serviço que fiquei a dever ao C.A.: o gosto pelo coleccionismo.
Aproveito, enfim, para agradecer as palavras tão amáveis da Juliana Vasconcelos e do Fernando S. Marques e os cuidados com o meu estado de saúde que manifestaram, bem como a Anónima Salina, sempre tão simpática e presente.
terça-feira, 14 de janeiro de 2020
Tintin na série Claxon
https://arquivos.rtp.pt/conteudos/o-caso-do-taxi-501/
https://arquivos.rtp.pt/conteudos/fim-de-semana-na-pousada-castafiori/
https://brincabrincando.com/claxon/#1565691249984-3ea50432-5e8e


