sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Primeiras versões de Tintin e Popeye passam a domínio público em 2025


A partir de 1 de Janeiro de 2025, as icónicas personagens Popeye e Tintin passarão a estar em domínio público nos Estados Unidos. Isto significa que qualquer pessoa poderá criar conteúdos baseados nestas figuras animadas sem necessidade de autorização ou pagamento aos detentores dos direitos de autor.

Até agora, a utilização de qualquer obra que incluísse imagens ou referências às personagens exigia autorização e implicava o pagamento de licenças aos respetivos proprietários dos direitos.

Há cerca de um ano, foi anunciado que as versões originais de Mickey e Minnie também entrariam no domínio público. Esta iniciativa inclui não só criações da Walt Disney, mas também obras de artistas reconhecidos, como Virginia Woolf e John Steinbeck.

Contudo, apenas as versões mais antigas das personagens poderão ser usadas livremente. No caso de Tintin, o domínio público só se aplicará aos Estados Unidos, uma vez que a propriedade intelectual em muitos outros países só se torna pública 70 anos após a morte do criador. Georges Prosper Remi, conhecido como Hergé, morreu em 1983.

O domínio público de 2025 abrangerá também várias composições musicais. Entre elas, destacam-se clássicos como “What Is This Thing Called Love?” de Cole Porter (1929) e “Ain’t Misbehavin” de Fats Waller e Harry Brooks (1929). Estas obras serão apenas dois exemplos de um conjunto mais vasto que passará a estar disponível para utilização livre.

in NIT

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

A Ilha Negra / O Ceptro de Ottokar

quadradinhos correspondentes às edições de 1937 (p/b) e 1943 (cores) 

Com A Ilha Negra começamos uma nova colecção: "As Aventuras de Tintim". Tintim, um dos heróis mais famosos de toda as história dos «livros aos quadradinhos», passeia-se no campo com o seu cão Milou... e vê aterrar um pequeno avião com problemas mecânicos. (...) 

Lançamento em Portugal das Aventuras de Tintim.

Ano de 1988.





Correio Juvenil Verbo nº 58 - Agosto e Setembro de 1988 (15/09/1988)

A Ilha Negra em português

Pela primeira vez em Portugal, vamos ter acesso às aventuras de «Tintin» (em álbum), numa publicação levada a cabo por uma editora portuguesa, neste caso a Editorial Verbo.

Temos tido acesso às aventuras desta personagem, desde os seus primórdios em 1936, em «O Papagaio», passando pelo «Diabrete», «Cavaleiro Andante», «Foguetão», «Zorro» e «Tintin». Em álbum foram só vendidos em Portugal (além das várias edições da Casterman / França). Os volumes publicados pela Record (editora brasileira), que possuía os direitos para a língua portuguesa.

Esta edição histórica, inicia-se pela obra «A Ilha Negra», uma das histórias de «Tintin», da qual Hergé se tinha já ocupado da sua terceira versão. É também a sétima história desta personagem, a primeira é «Tintin au Pays des Soviets» que nunca foi redesenhada (existindo só na sua versão a preto e branco), a segunda tem por título «Tintin no Congo» e a seguinte «Tintin na América». Temos ainda: «Les Cigares du Pharaon», «Le Lotus Blue» e «L'Oreille Casée».

O próximo volume tem por título «O Ceptro de Ottokar».

Carlos Gonçalves, CORREIO da Banda Desenhada, 08/09/1988

O Ceptro de Ottokar

Já que falámos anteriormente na Editorial Verbo, por que não apresentar uma das suas últimas edições, precisamente «O Ceptro de Ottokar», a 8.ª aventura de «Tintin», da autoria de Hergé.

Não poderemos ficar insensíveis a esta manifestação de interesse por uma editora portuguesa, na publicação dos trabalhos de Hergé e da sua mais célebre personagem, já com mais de 80 milhões de álbuns editados em todo o mundo. Não tínhamos tido acesso ainda aos trabalhos de Hergé e da sua figura «Tintin» (em álbum), numa tradução e legendagem portuguesas. Infelizmente esta é mecânica (o que prejudica sobremaneira o trabalho. Afinal temos em Portugal excelentes letristas. Por que razão usar-se um processo, que não dignifica em nada os traços de Hergé?). Temos a Catarina Labey, Bento das Neves, Zulmira Perdigão, José Manuel Nelo Nunes, João Carlos Cruz, Mário Correia, etc.

«O Ceptro de Ottokar» é um trabalho de grande interesse de Hergé, que quando adaptado a álbum, viria a sofrer só pequenas alterações do seu autor. É, pois, uma excelente obra.

Aqui Hergé aproveita o facto da Alemanha tentar anexar a Áustria (antes da Segunda Guerra Mundial), para incluir uma personagem sua, com o nome de «Müsstler» (Mussolini e Hitler).

Carlos Gonçalves, CORREIO da Banda Desenhada nº 424 (8.º Ano), 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Anúncio ao número duplo

Na página 3 da Revista Tintin (Portugal) nº 17/1972 (5º ano) anuncia-se para a semana seguinte a edição do número duplo "Super" correspondente a esse semestre. O mais curioso neste anúncio é a utilização de vários desenhos de Tintin e Milu iguais aos da colecção ver E Saber.


Dados sobre os desenhos (informação fornecida por Chromos Voir et Savoir):

Cromo Ver e Saber, coleção automóvel n°40: 1894. Phaëton elétrico de Jeantaud (França)· 


Cromo Ver e Saber, coleção automóvel, n°15 : 1834. Carro a vapor de Scott Russel (Grã-Bretanha)


Cromo Ver e Saber, coleção aerostation n°2 : 1783. La Montgolfière (France)


Cromo Ver e Saber, coleção aviação guerra 1939-1945, n°44: 1942. Douglas A-26/ B-26 " Invader " (U.S.A.)


Cromo Ver e Saber, coleção aerostation n°10: 1794. Ballon «L'Entreprenant» (França)·


Mais informações na página FB Chromos "Voir et Savoir"

https://www.facebook.com/chromosvoiretsavoir/



sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Tintim No Bairro de Benfica

Um vasto acervo literário da banda desenhada de Tintin está disponível desde Dezembro de 2024 no Palácio Baldaya, em Lisboa, para consulta e leitura. Este acervo inclui todos os álbuns de Tintim, várias edições da edição portuguesa da revista Tintin, lançada em 1 de junho de 1968 e ainda vasta memorabilia das icónicas personagens.

A coleção pertencente ao acervo particular de António Costa foi doada à Junta de Freguesia de Benfica pelo próprio António Costa, nosso vizinho no Bairro de Benfica e atual Presidente do Conselho Europeu.


Instagram da JF Benfica




quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Da BD à História: túmulo de figura ligada ao Capitão Haddock entra na lista de património da Historic England

O túmulo histórico de uma figura ligada ao Capitão Haddock, amigo inseparável de Tintin, foi recentemente incluída na lista de património da Historic England. Situado em Leigh-on-Sea, Essex, é agora oficialmente reconhecido e oferece uma ligação única entre a ficção da banda desenhada e a história real.

Em 2024, a Historic England incluiu na sua lista de património 17 locais e entre eles destaca-se o túmulo de Mary Haddock, situada no cemitério da igreja de St. Clement, em Leigh-on-Sea, no condado de Essex, conta o The Guardian.

Esta descoberta é um verdadeiro tesouro para os fãs de Tintin, pois a personagem do Capitão Haddock foi inspirada pela figura histórica de Richard Haddock, filho de Mary, um destacado marinheiro e figura central da família Haddock, conhecida pelo seu legado naval.

O túmulo de Mary Anna Haddock, datado de 1688, é considerado pelos especialistas em património uma obra notável, não só pela sua qualidade arquitectónica, mas também por ser um dos raros monumentos dedicados a uma mulher durante uma época de profunda desigualdade de género. Além disso, a sua ligação à famosa personagem dos quadradinhos de Hergé torna-a ainda mais intrigante para os entusiastas da obra de Tintin.

O nome Haddock é célebre entre os fãs de Tintin, pois foi a inspiração para o temperamental e alcoólico Capitão Haddock, amigo e protetor do jovem repórter.

A inclusão de um local tão peculiar na lista de património de Historic England não é apenas uma homenagem ao passado, mas também uma provocação ao público, convidando as pessoas a explorarem a diversidade e a riqueza histórica do país. No total, 256 novos locais foram adicionados à lista nacional de património da Inglaterra este ano.

in SAPO24

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Sorriso aos quadradinhos

Hoje acordei a sorrir, 

Estava uma noite difícil e desesperada
Quando me decidi juntar às tuas aventuras,
Quando decidi saltar para as tuas páginas,

Espero que não te importes, claro que não te importas,

Contigo subi aos Himalaias, Atravessei as florestas do Peru,
Fui ao fundo do mar, subi ao espaço e pisei a lua,
Descobri tesouros, vi o mundo à beira do fim,
Conheci a Índia, a China, o Tibete, África e Américas,

Bebi whisky às escondidas com o capitão,
Enlouqueci com a surdez e com o "sempre a sul" do professor, Ri e como ri com as trapalhadas dos gémeos,

Obrigado Tintim, Haddock, Girassol, Dupond e Dupont,
Nestor, Abdalah, Rastapopoulos, Tchang,
Serafim Lampião, Bianca Castafiore,

Obrigado a todos,
Obrigado por existirem,

Por me fazerem sonhar e por me trazerem sempre um sorriso 


imagem de João Fazenda / Visão, 2007



sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

As Aventuras de Tintin no Bairro de Benfica, a partir de amanhã

 


A partir de amanhã, 7 de Dezembro, o Palácio Baldaya, em Benfica, passa a ter disponível um vasto acervo literário relacionado com o Tintin, para consulta e leitura:

- Todos os álbuns do Tintin;

- Várias edições da revista portuguesa Tintin, lançada em Portugal a 1 de Junho de 1968;

- Memorabilia das icónicas personagens.

Toda esta colecção, pertencente ao acervo particular de António Costa, ex Primeiro-Ministro, foi generosamente doada pelo próprio, à Junta de Freguesia de Benfica.

In blogue Juvebêdê

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Idade das personagens

Recentemente, perguntava-me Geraldes Lino qual era a idade de Tintin, e se Hergé se teria pronunciado sobre isso. A minha ideia era de que não, mas parece que o terá feito numa carta a um leitor, atribuindo-lhe 15 anos. Independentemente da idoneidade do criador de Tintin, e de outras abalizadas concordâncias, permito-me discordar. Mesmo sem ir investigar qual seria a idade mínima para se poder ser jornalista na Bélgica da época (se é que havia),  o que provavelmente não preocupou  o jovem Hergé, a análise de toda a obra, a psicologia e maturidade de Tintin mas mais variadas circunstâncias, apontam para um mínimo de 17/18 anos - e será até mais legítimo pôr-lhe mais uns anitos do que tirá-los. (...)

JP Boléo, Quadrado nº 1  Vol. 3 (2000)

+

PERGUNTAS A HERGÉ - ANTIGA VERSÃO PORTUGUESA DO SITE TINTIN.BE

Bom dia!

Que idade tinha o personagem Tintim nas bandas desenhadas?

Resposta : Para : Client InterLinx, 02:59 pm 23 de Abril 1996

De : info@tintin.be

Caro senhor (...),

Com o intuito de dar resposta à sua questão, pedimos-lhe que leia duas cartas seguintes, escritas pela mão de Hergé a propósito da idade dos seus personagens.

1) Carta de 20 de Abril 1976.

Caro amigo,

As perguntas que me colocou na sua carta do dia 9 do corrente são relativamente embaraçosas pois, ao criar as minhas personagens, não me preocupei em lhes dar uma idade precisa.

Sem garantia alguma, poderíamos dar, aproximadamente:

50 anos ao professor Girassol

45 anos a Rastapopoulos

45 anos à Castafiore

40 anos aos Dupondt

40 anos a Nestor

e 10 anos a Tchang

Quanto à outra questão: Tintim veste um tipo de roupa que não variou durante 47 anos. Foi somente para os PICAROS, álbum que acaba de sair, que ele trocou as velhas calças de golf por jeans azuis.

Atenciosamente,

Hergé

 



2) Carta de 28 de Dezembro 1970

Querida menina,

Estou-lhe a responder à carta que me enviou no dia 17 de Dezembro.

As suas perguntas embaraçam-me um pouco, visto que (salvo Tintim) são perguntas às quais nunca tive de responder até hoje. A sua curiosidade (ou a do seu tio) leva a interrogar-me a mim próprio sobre esses pontos de grande importância!!!...

Tintim tinha cerca de 14 anos no início; 41 anos mais tarde, tem cerca de 17. É curioso mas é assim... relativamente aos outros, dava 12 anos a Joana e João (bem mais gémeos que os Dupondt), 10 anos a Quim e 8 a Filipe.

Estes últimos nasceram em 1929. O nascimento de Joana e João deu-se aquando da publicação primeiros números da revista "Coeur Vaillants" onde eles apareceram pela primeira vez: acho que foi em 1936. Se Quim e Filipe são claramente belgas, Joana e João são de nacionalidade francesa.

Diga à sua mãe que não sei se o signor Cartofoli voltará a aparecer...

Agradecido pelos seus votos, também lhe endereço os meus com amizade.

Hergé.

tintin. be Traduzido e adaptado do francês por CGM

Infelizmente não existe nenhum newsgroup dedicado ao Mundo de Hergé nos dias que correm. Todavia, inúmeras são as perguntas que nos chegam por correio electrónico que, pelo interesse demonstrado, merecem um tratamento especial. Deste modo, encontrará aqui algumas respostas dadas por Hergé às vossas interrogações.

Para a primeira, escolhemos um tema bem clássico:

Que idade tem Tintim?

E se, em vez de nós, fosse o autor a responder à pergunta...

Pergunta: De : Cliente InterLinx, 08:17 am 21 de Abril 1996 / Tintin.be



quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Tintim em Macau


Adquiri, há alguns anos, numa loja da movimentada Rua da Palha, umas camisolas de algodão que tinham estampados quadrinhos tirados dos álbuns de Tintim, ou mesmo, nalguns casos, uma prancha completa. A loja já desapareceu. É agora uma sapataria. E as camisolas do Tintim, diferentes todas elas das versões oficiais vendidas nas lojas que mantém a presença de Hergé um pouco por todo o Mundo, continuam a servir no Verão, sobretudo quando vou a banhos. Sempre que passo na mesma rua, ainda tento descobrir o paradeiro da loja desaparecida, na busca de uma nova peça de vestuário, naturalmente contrafeita, que me lembre o velho e saudoso companheiro dos meus tempos de juventude e que continuo a reviver agora, com o mesmo proveito e a mesma alegria. Ando, por isso, aqui, em Macau, à procura do Tintim. Não, como os Dupond e Dupont, a percorrer, disfarçado, a cidade chinesa. Mas com a plena serenidade de quem está, não obstante a língua e os costumes, numa cidade cristã.

Falar de Tintim nesta cidade pode, à primeira vista, lançar alguma confusão. É que tin-tin era o nome que se dava às lojas de bricabraque chinesas que, no século passado, existiam em vários locais, sobretudo para os lados do Porto Interior, num largo dito “das melancias”, a que os chineses chamavam Lan-Kuoi-Lau, sendo também conhecida como “Feira da Ladra”. Ou aos vendedores ambulantes de ferro-velho que tudo vendiam e, aparentemente, consertavam. O nome, creio, tinha a ver com o barulho que o vendedor fazia batendo incessantemente um prego num pedaço de ferro, para chamar a atenção da interessada clientela. Esses tintins praticamente desapareceram. Hoje falar em Tintim – dingding, em mandarim – é lembrar os seus livros, sobretudo "O Lótus Azul", a mais conhecida aventura do nosso herói na China e o álbum que mais rapidamente se esgota nestas paragens. Nele, como sabemos, é-nos apresentado um jovem chinês, estudante da Academia de Belas Artes de Bruxelas, e cuja história e amizade com Hergé se tornou lendária.

Zhang Chongren (1907-1998), artista e escultor que ganhou merecida fama e tem, em Xangai, sua cidade natal, um museu que lhe é dedicado, deu origem, no álbum, à figura de Tchang (transcrição fonética de Zhang),   grande amigo de Hergé, na vida real, e que reaparece, de forma comovente, em "Tintim no Tibete". Publicado inicialmente na revista Petit “vingtième”, entre Agosto de 1934 e Outubro de 1935, com o título de "Tintim no Extremo Oriente", o álbum "O Lótus Azul" é verdadeiramente inovador, dando-nos uma visão mais correcta e realista da China de então, ainda pouco conhecida no Ocidente. Nele, ao contrário do álbum anterior, "As Aventuras de Tintim, repórter no Oriente", título inicial da versão moderna de "Os Charutos do Faraó", onde surge pela primeira vez o nosso simpático compatriota Oliveira da Figueira, não há qualquer personagem portuguesa. Como sabemos, são apenas três os nossos compatriotas que se cruzam com Tintim. Além de este amigo de toda a hora e dos momentos mais difíceis e inesperados, há o jornalista do Diário de Lisboa, em "Tintim no Congo" – cuja primeira versão entre nós foi "Tim-Tim em Angola", na revista O Papagaio – e o Professor Pedro João dos Santos, o célebre físico da Universidade de Coimbra, em "A Estrela Misteriosa".

E por que não, pergunto eu ao deambular por esta cidade, onde o Ocidente se cruza com o Oriente, um "Tintim em Macau", como continuação de "O Lótus Azul", passado em pleno período da Segunda Grande Guerra? Nesta cidade que já foi comparada, nesse período, à Casablanca que o cinema mitificou ou à velha capital portuguesa que, quando a Europa ardia em chamas, mantinha uma paz digna e difícil, embora não isenta de muitos sacrifícios. Uma paz de uma enorme grandeza, transformada na extraordinária Exposição do Mundo Português, em que Macau naturalmente participou, e tanto impressionou o criador de O Principezinho, Antoine Saint-Exupéry.

Para a feitura de este álbum podia muito bem contribuir o livro de João F. O. Botas, que o Instituto Internacional de Macau soube, em boa hora, editar. Estudo sério e muito bem documentado, que consegue dar uma boa visão de uma das épocas mais difíceis de este conturbado oásis de paz, entre 1937 e 1945. Oásis de paz, quando à sua volta grassava a guerra, a fome, a doença e a morte, e cujas consequências se faziam sentir também aqui diariamente. Traz-nos este livro figuras dignas de um bom álbum de Hergé e de episódios que dariam magníficas e coloridas pranchas. É certo que a violência parecia correr a par e passo, muitas vezes, com a pacatez do quotidiano. Mas outros álbuns do Tintim, como o próprio O Lótus Azul, já referido, se passam também em plena guerra, com ódios, traições e violências desmedidas. A arte de Hergé saberia, por certo, tudo dosear e fazer de Macau o centro inesquecível de mais uma fabulosa aventura de Tintim.

Fico a pensar em tudo isto quando leio o livro "Macau 1937-1945. Os Anos da Guerra". E nele vejo Tintim a falar com Pedro Lobo e com Monsenhor Manuel Teixeira. Imagino Hergé a relatar a chegada a Macau de várias malas de livros do historiador britânico Charles Boxer, quando os japoneses ocuparam Hong Kong. Como Danilo Barreiros, grande amigo do historiador inglês, possuía a chave de sua casa conseguiu assim salvar a preciosa biblioteca. Impressionante é também a vivacidade e o colorido que o criador de Tintim dá ao quartel-general do pirata Wang Kong Kit, situado na Avenida Horta e Costa. O contraste é Henrique Senna Fernandes – um dos meus escritores da estante reservada – a contar, com toda a graça e encanto que só ele tinha, as trapalhadas dos “detectives” Dupond e Dupont, perdidos entre os refugiados chineses, os macaenses de Hong Kong e os japoneses que se passeiam na cidade. Tudo isto sob o olhar atento do jovem Padre Lancelote Rodrigues, enquanto o pintor russo George Smirnoff tenta transformar rapidamente esta cena numa aguarela. Mas um dos melhores momentos do álbum é, sem dúvida – e penso que o leitor amigo é da mesma opinião -, o episódio, superiormente tratado por Hergé, da intrusão sub-reptícia de Tintim na casa do representante japonês em Macau e, ao sentir-se descoberto, a fuga apressada por um túnel, situado na cave do edifício, que, pensava ele, o traria rapidamente para o exterior. Mas o túnel ligava com a casa do vizinho que era, nem mais, nem menos, a do cônsul inglês em Macau!... Mais a frente, é o espanto de Tintim ao cruzar-se, na Avenida Almeida Ribeiro, com o americano William Gardner, fardado de oficial japonês. Espanto ainda maior, quando na última prancha do álbum, o vê fardado agora de oficial americano e ostentando, garboso, vistosa condecoração.

"Tintim em Macau", afinal, existe. Embora seja apenas na minha imaginação.

António Leite da Costa, 30/03/2013

O Prof. Dr. António Leite da Costa é historiador, Durante algum tempo esteve na blogosgera com o blog Tertúlia Invisível.

https://tertuliainvisivel.blogspot.com/2013/03/tintim-em-macau_30.html

Texto descoberto através do blog Macau Antigo:

http://macauantigo.blogspot.com/2013/10/tintim-em-macau.html

sábado, 30 de novembro de 2024

Um livro, uma vida

O Tintim "poluído" de Sérgio Godinho

[Convidado por Rui Reininho, o cantor lembrou o herói de Hergé no Porto 2001]

A escolha foi aleatória e imperfeita, porque é impossível a qualquer leitor compulsivo escolher o livro que mais revolucionou uma adolescência. Sérgio Godinho hesitou entre "O Crime do Padre Amaro", a estreia literária de Eça de Queirós, que foi também a sua primeira incursão queirosiana, e o romance-viagem de uma geração, "Pela Estrada Fora", de Jack Kerouac, que o amigo Manuel António Pina lhe recomendou numa cumplicidade de liceu, e o empurrou para o estrangeiro. Mas a participação do músico portuense no ciclo "Um Livro, Uma Vida, Um Objecto ou Um Gesto - Conversas e Confissões com Rui Reininho", ao final da tarde de anteontem na Biblioteca Municipal de Almeida Garrett, acabou por fazer-se sob o signo de Hergé, e a pretexto de "Tintim no Templo do Sol". A páginas tantas, a data aproximava-se e já não havia volta a dar-lhe: "Já dizia a Alice que um livro sem imagens não vale nada. E depois o Rui Reininho fez um 'putsch' e eu fui confrontado com o facto de ter dito que o Tintim poderia ser uma boa escolha", explicou Sérgio Godinho a uma plateia recheada de gente com idades compreendidas entre os 7 e os 77.

Durante pouco mais de uma hora, dissecaram-se então as idiossincrasias de Hergé, a ambiguidade de Tintim, a surdez do Professor Tournesol, o fraquinho pelo álcool e a exuberância verbal do Capitão Haddock. Mas a verdadeira vedeta da tarde foi Milou, uma sósia do inseparável companheiro de Tintim, que não parou de correr pelo palco e de distrair o público, para desespero de Sérgio Godinho, que confessou ter "medo de cães" e chegou a sugerir "uma pistola ou carne envenenada" para acabar de vez com a invasão. "A seguir vem o Capitão Haddock... E este magnífico sarau vai acabar com a Castafiori a interpretar aquela ária do Gounod, o 'Ah, Je Ris'", ironizou.

Embora Tintim fosse o pretexto da conversa, a primeira personagem a receber as atenções do convidado de Rui Reininho foi mesmo o irascível Capitão Haddock, a propósito das garrafas de "whisky" e de vinho branco que repousavam em cima da mesa, convenientemente cobertas por um disfarce negro, para não ferir susceptibilidades comerciais. "Este estaminé faz lembrar a paixão pela botelha do Haddock", observou Sérgio Godinho, que gastou, de resto, o seu direito de antena a defender a tese de que Haddock e Tournesol são desdobramentos humanizantes de um Tintim insuportavelmente imaculado: Haddock pelo lado excessivo, colérico e voluntarista, Tournesol pelo lado falhado que tem na surdez um poderoso alibi. Personagens que, insistiu o músico, "Hergé inventou para poluir Tintim" e o resgatar da sua ambiguidade. 

Quanto ao herói propriamente dito, a conversa foi inconclusiva. Até porque Sérgio Godinho se remeteu à sua condição de "curioso": "Não valia a pena vir para aqui com uma comunicação escrita, para depois o Rui contestar a tese, e eu bloquear a resposta e pedir a ajuda do público ou os 50/50". "O Tintim é de uma ambiguidade a todos os níveis. Não tem família, só uma cara redonda com aqueles dois olhos quase nada. O próprio nome significa 'nada de nada'. No fundo, é um espelho de nada, uma página branca onde se vão escrevendo as histórias", sustentou. Quase como o Mickey, sugeriu Rui Reininho: um repórter assexuado e sem família, levemente misógino. "Sim, mas o Mickey tem namorada, e o Tintim não é erotizado", corrigiu o convidado.

Georges Remi, ou Hergé, o homem por trás de Tintin, também não foi poupado à língua viperina dos dois interlocutores. Sérgio Godinho entreteve-se a lembrar as ressonâncias genealógicas entre a vida do autor e as aventuras de Tintim - o pai de Hergé tinha um irmão gémeo, quais Dupond e Dupont, e foi criado por uma condessa de traços castafiorianos -, enquanto Rui Reininho lembrou a sua faceta de coleccionador de arte, aproveitando para comentar que essa queda "lhe deve ter feito bem, porque ele devia ser uma criatura reaccionaríssima".

A sessão terminou não com uma prestação operática da Castafiori, como chegou a insinuar-se, mas com uma catártica demonstração de insultos haddockianos protagonizada pelos dois interlocutores.

Na despedida, os dois músicos fizeram um brinde à plateia e Sérgio Godinho voltou a citar Haddock: "Ah, já me sinto mais instruído".


Sérgio Godinho evoca Tintim herói da sua adolescência

A espaços, entrava em cena a cadela Milou atrás do biscoito que alguém lançava dos bastidores. Tintim, o seu dono, emergia nas palavras de Sérgio Godinho, que o escolheu como um dos heróis da sua adolescência. Foi mais uma sessão de "Um livro, uma vida, um objecto ou um gesto", iniciativa da Porto 2001.

Sérgio Godinho, não sendo "especialista" em Hergé, demonstrou ser um bom conhecedor das aventuras de Tintim, "um adolescente com curiosidade pelo mundo". O cantor chegou mesmo a apresentar a obscura árvore genealógica de Hergé. A sua avó, empregada de uma condessa, "engravidou não se sabe de quem". Nasceram gémeos; um deles foi o pai de Hergé.

Acompanhado pelo comissário da iniciativa, Rui Reininho - que amiúde cortava a palavra ao convidado -, Godinho avançou uma teoria sobre as personagens criadas por Hergé: Tintim, Capitão Haddock e Professor Tournesol, afinal, são faces da mesma pessoa, próximas do criador.

O cantor desvalorizou as referências anti-semitas e racistas nos primeiros álbuns de Tintim. Nos trabalhos seguintes, Hergé, que foi tomando "consciência política", acabou por dar à sua personagem um papel positivo.

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Tintinomania


GALERIA TINTINOMANIA: TINTIN COMO VOCÊ VÊ...

Esta página tem mais de uma centena de quadrinhos talentosos e artistas de todos os estilos entre os seus "amigos" ...

Por que não publicar sua opinião sobre Tintin nesta página? Tenho a certeza que seria muito apreciado. (Envie-me seus desenhos via messenger)

Continuamos a série com o amigo Jose Abrantes ilustrador, autor de banda desenhada e editora portuguesa, (que por vezes também assina Kundry), cujo nome completo é José Maria da Piedade de Lencastre e Távora, nasceu a 9 de setembro de 1960, em Lisboa. O nome pelo qual é conhecido deve-se ao facto de ser Marquês de Abrantes.

Tradução bruta: "... Na manhã desta quinta-feira, o jovem Martin está tão sério e determinado a começar uma nova semana, que nem percebe os olhos bonitos e fluentes que a Madame Milu lhe atira... "


quinta-feira, 28 de novembro de 2024

K - Fanzine contestatário estudantil

Este Fanzine K foi editado em 1977 pela Associação Académica de Coimbra.

São anónimos os editores do zine, presumindo-se terem sido estudantes universitários os autores de textos de cariz contestatário, tendo por alvo Sottomayor Cardia, Ministro da Educação nos anos conturbados pós 25 de Abril, cuja caricatura aparece logo na capa.


Quanto à componente gráfica: os desenhadores (anónimos) recorrem abundantemente às figuras de personagens da banda desenhada - Astérix, Obélix, Panoramix, Popeye, Olrik, Pato Donald, Dupond e Dupont, Andy Capp, Rato Mickey, Super-Homem, Batman, Professor Tournesol, entre outros - o que demonstra terem sido entusiastas da BD que editaram, escreveram e desenharam o K, um dos zines pertencentes ao período pioneiro da década de 1970.


Ficha técnica

Título: K

Editor: Associação Académica de Coimbra

Local: Coimbra 

Data da edição: [Maio 1977]

Formato A4

Capa e contracapa em cartolina

Total de páginas: 12

Imagens da capa, da contracapa e do conteúdo a preto e branco

Geraldes Lino, Sitio dos Fanzines

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Hergé


(Scout Luzitano, Covilhã, 1927)

O autor do mundialmente famoso Tintin deu os primeiros passos na banda desenhada ainda no Escutismo, ao qual pertenceu.

Georges Remi nasceu a 23 de Março de 1907, em Etterbeek, perto de Bruxelas, na Bélgica. Em 1920, passou a estudar no colégio católico de Saint-Boniface, entrando para o Grupo de Escuteiros ali existente. O seu totem pessoal era Raposa Curiosa, embora tenha sido Guia da Patrulha Esquilo.

Os seus primeiros desenhos foram publicados no jornal escutista do seu grupo, o “Jamais Assez”. Em 1923 já tinha os seus trabalhos publicados na revista mensal “Le Boy-Scout Belge” e, no ano seguinte, começou a assinar as suas bandas desenhadas com o pseudónimo de Hergé. O seu pseudónimo provém das iniciais do seu nome, por ordem inversa: R.G.

Depois de sair da escola, passa a trabalhar no jornal diário “Le XXe Siècle”, em 1925, na área das assinaturas de clientes, continuando a desenhar as “Extraordinárias aventuras de Totor” (banda desenhada criada em 1926) na revista escutista “Le Boy-Scout Belge”.

Em 1927 cumpriu o serviço militar obrigatório e no ano seguinte regressa ao jornal, sendo nomeado redator-chefe do “Petit Vingtième”, um suplemento semanal para jovens do “Le XXe Siècle”.

Em Janeiro de 1929 nasce “Tintim e Milú”, neste mesmo suplemento. O primeiro álbum de Tintim, “Tintin, reporter au pays des Soviets” publicou-se em 1930, lançando-o definitivamente no caminho do sucesso.

Hergé colaborou durante vários anos com os Escuteiros belgas, ilustrando revistas, calendários e postais. Faleceu em Março de 1983, em Bruxelas.

in "Carolas", boletim do Clube Português de Coleccionadores de Objectos Escutistas, Abril 2006

Está a comemorar-se o centenário da primeira publicação onde apareceu pela primeira vez o nome RG (Hergé) precisamente nos desenhos de Totor.

Totor apareceu em Portugal logo em 1927 a ilustrar uma das páginas do número único de "Scout Luzitano" publicado na Covilhã.

«De resto, conta-nos João Paiva Boléo (,,, que) a BD de Hergé tinha sido apresentada em Portugal por intermédio do seu herói-escuteiro Totor, numa aparição pontual na revista Scout Lusitano, logo em 1927 (Boléo, Hergé em Portugal, 2021, pp. 9-11).» FCG

Escoteiros - em Portugal, a palavra escoteiro escrita com o refere-se à componente laica, visto que os pertencentes à componente religiosa escrevem-se com u, escuteiros. GL



Totor


O desenho de Totor apareceu em Portugal logo em 1927 no número único de "Scout Luzitano" publicação editada na Covilhã.

«De resto, conta-nos João Paiva Boléo, na referida brochura, que, mesmo antes da chegada de Tintin, já a BD de Hergé tinha sido apresentada em Portugal por intermédio do seu herói-escuteiro Totor, numa aparição pontual na revista Scout Lusitano, logo em 1927 (Boléo, Hergé em Portugal, 2021, pp. 9-11).» FCG



 Publicações Periódicas Portuguesas Existentes na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (1927-1945)

SCOUT LUSITANO . Covilhã , 1927 . 
Scout lusitano / dir . Alberto Ferreira d ' Almeida Neto ; adm . João de Paulo Fino . - Covilhã : J. P. Fino , 1927 
Existência : N. único ( 1927 )
 10-3-23-41


imagens cedidas pela Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra

terça-feira, 12 de novembro de 2024

Exposições Antigas

A primeira exposição séria sobre o percurso do autor de Tintim foi feito no decorrer do "Sobreda-BD 85".

Em 1989, a Comicarte leva a efeito a exposição "60 anos de Tintin", durante o 5º salão Internacional de Banda Desenhada.

Em 1993, tive o grato prazer de organizar a vinda da exposição  "O Mundo de Tintim" para Viseu. Era a primeira vez que estava patente ao público na Península Ibérica. Nessa altura fazia parte do núcleo de BD do GICAV, associação promotora do evento.

João Magalhães, Cincinato, Outubro de 1995

+ SOBREDA-BD / 85

Realizou-se de 2 a 10 de Março de 1985.

Começou esta manhã na Sobreda da Caparica a IV Jornada de Banda desenhada de expressão latina, com iniciativas que se prolongam até ao próximo dia 10 de Março.


Estarão expostas criações de todos os países de expressão latina, e ainda de Moçambique e Guiné-Bissau.

A Sobreda-BD/85 vai ainda homenagear este ano Hergé (no segundo aniversário da sua morte, ocorrida a 3 de Março de 1983), Jacques Martin, Franco Caprioli e o português Fernando Bento.

Carlos Pessoa, Diário de Lisboa, 04/03/1985

+ 60 ANOS DE TINTIN - 1989


Porto. Durante 10 dias a capital do norte será também a capital da banda desenhada. É que muito perto do Douro, ao Infante, vai realizar-se no Mercado Ferreira Borges, o 5º Salão Internacional de BD do Porto, organizado pelo Comicarte.

O maior Salão de BD do país, irá decorrer entre os dias 30 de Setembro e 8 de Outubro para um público ávido e conhecedor. (...) antes, na noite de 29 de Setembro (21.30h), teremos a Sessão Oficial de Abertura, com a presença, entre outras personalidades, Sua Excia o Ministério da Juventude. Serão, nesta sessão, com entrada por convite, entregues os troféus do Salão - Prancha/BD 89 - aos autores homenageados. José Ruy, Hergé (a título póstumo) e, preparem-se, Morris, o consagrado  autor de Lucky Luke, pela primeira vez entre nós. 

(...)

No Mercado Ferreira Borges, centro nevrálgico do Salão, com horário das 15 às 19 e das 21 às 23.30, poderão ser vistas as exposições: "Tintin, 60 anos", "BD Portuguesa, Hoje" (com autores contemporâneos), "José Ruy", "Morris", "La Expo Qui Camina", "VI Concurso Nacional de BD Comicarte", Técnicas Gráficas de BD" e o painel "Comicarte, 6 anos".

Clube Comicarte nº 7, Setembro 1989

Exposição sobre os «60 anos de Tintin», realizada em 1989 pela Comicarte, no Porto.

A exposição realizou-se no Mercado Ferreira Borges, no Porto, entre 30 de Setembro e 8 de Outubro de 1989 por ocasião do 5º Salão Internacional de Banda Desenhada.

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/preparativos-do-5o-salao-internacional-de-banda-de-desenhada/

No início deste V Salão foram distribuídos os Prémios «Prancha BD/89» não só a José Ruy como a Hergé (a título póstumo) e também a Morris (uma presença agradável) (...).

É sempre um acto de louvar, estas distinções que mostram o apreço que os responsáveis por estas iniciativas possuem por aqueles que, ao longo de uma vida, dedicam todas as suas potencialidades artísticas ao dever de distrair não só as crianças como os adultos.

Exposições

Este ano o Salão dividia-se por sete exposições importantes: «60 Anos de Tintin». «Homenagem a José Ruy». «Morris». «BD Portuguesa, Hoje!». «VI Concurso Nacional de BD». «Técnicas Gráficas de BD», «La Expo Que Camina».

No Centro de Artes Tradicionais esteve exposto «Um Século em Revista (s)». Vamos pois falar de cada uma delas:

Para comemorar os «60 anos de Tintin», a exposição foi dividida por quatro mostras parciais e quatro grandes cenários, tendo sido editado um Catálogo, com capa de Pedro Morais.

As quatro exposições tinham por nome «Um Olhar Sobre Tintin», «Tintin à Gargalhada», «Eu Vivi com Tintin» e «Tintin Visto por Outros». O Catálogo, com textos de Pedro Cleto, apresentava-se com os seguintes capítulos: Um panorama cronológico da vida de Hergé, «O Guarda-Roupa de Tintin» e «Para Além da Imaginação», independentemente dos capítulos indicados atrás, que correspondiam aos subtítulos da Exposição. Um bom trabalho no conjunto.

Carlos Gonçalves, Correio da banda desenhada nº 476, 12/10/1989

Foi lançada uma pequena brochura da autoria de Pedro Cleto (Comicarte - Porto, 1989 - 20 páginas, Cor).

+ O MUNDO DE TINTIM - VISEU 1993


A exposição «O Mundo de Tintim» (Le Monde de Tintin) realizou-se em Viseu, no pavilhão C da Feira de São Mateus, entre 26 de Agosto e 19 de Setembro de 1993.

O "Mundo de Tintim" é uma exposição apresentada no Salão de Angoulême deste ano e foi montada para assinalar os 10 anos da morte de Hergé (em 3 de Março de 1993). Trata-se de uma visita guiada ao universo fascinante da principal criação do autor, dividida por quatro módulos temáticos, que abordam sucessivamente, "A Família Tintin", "As Portas do Mundo", "Os Sinais da Aventura" e "A Arte de Hergé". Este último evoca as diversas etapas que Hergé percorria na criação dos seus álbuns, desde a primeira ideia até á impressão, a partir de material existente do álbum "Vol. 714 Pour Sidney", material esse já editado (...). A exposição é complementada com diversas vitrines que reproduzem objectos extraídos das principais aventuras do "repórter que nunca escreveu uma linha".

Pedro Cleto, Clube Comicarte nº 47, Setembro 1993

A revista Cincinato nº 4 publicou uma reportagem de António Rocha sobre a exposição da Feira de São Mateus.

«Cincinato, o fanzine anual realizado em Viseu por João Magalhães, já se encontra em distribuição. Uma campanha de assinaturas que permitam viabilizar o projecto está também em marcha (Cincinato, Apartado 231, 3503 Viseu Codex). Neste número, são publicadas bandas desenhadas de Carlos Rocha e Agonia Sampaio, e textos sobre Spiegelman, o panorama editorial português e o salão de BD do Porto realizado no começo deste mês, e ainda um pequeno «dossier» sobre «Tintin em Portugal», além de abundante noticiário.»

Público, 24/10/1995

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Luiz Beira



A última entrevista feita a Hergé por um português foi realizada por Luiz Beira em 15 de Dezembro de 1982. Foi publicada mas tarde na revista «O Mosquito» (V Série - nº 6) de Março de 1985.

Luiz Beira entrevistou também  o criador de Tintin em Outubro de 1966 nos Estúdios Hergé em Bruxelas, cujo trabalho foi publicado na «Plateia» nº 360 de 13 de Dezembro de 1966.

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Luiz Beira, pseudónimo artístico de Armando Corrêa, é o nome pelo qual o próprio prefere ser conhecido. Actor, escritor, jornalista e crítico de BD, amante incondicional de Viseu e das suas gentes, decidiu generosamente doar, numa primeira fase, uma pequena parte da sua bedeteca particular.

Em 1991, em sessão pública, Luiz Beira entregou simbolicamente o primeiro álbum - Le Monde de Hergé - ao GICAV, desde logo um incansável intermediário, representativo dos mais de seiscentos volumes que iniciavam um primeiro acto de doacção. Era o início feliz daquela que viria a tornar-se numa das mais ricas bedetecas do país. A 31 de Maio de 2002, no acto de inauguração oficial da Biblioteca Municipal D. Miguel da Silva, e numa justíssima prova de gratidão e reconhecimento por parte da Autarquia Viseense, a Bedeteca, parte integrante da Biblioteca Municipal, era dada a conhecer ao público com a designação BDteca Luiz Beira.

Desde então, o acervo documental da BDteca Luiz Beira tem vindo a crescer exponencialmente, tendo já ultrapassado mais de 5000 documentos. Integrada no espaço da sala de leitura de adultos, ela constitui, por si só, um núcleo de documentação autónomo muito significativo, colocando à disposição dos utilizadores/leitores e estudiosos desta arte, um manancial riquíssimo de literatura alternativa que, estamos certos, não defraudará as expectativas do público mais exigente.

Devemos salientar que a BDteca dispõe ainda de cerca de 400 álbuns que pela sua raridade e valor - desde exemplares únicos, obras com dedicatórias personalizadas pelos maiores autores de BD a nível mundial, primeiras edições, obras inexistentes no mercado livreiro não se encontram em livre acesso ao público. Exemplo disso é o volume que reproduz as pranchas originais de François Craenhals para o álbum Le Piège, da série Chevalier Ardent.

Os desafios são muitos, as exigências maiores ainda! Desde logo, as tarefas de tratamento técnico - a catalogação, classificação e indexação - que se impõem, para que seja permitida uma rápida e eficaz recuperação e difusão da informação para benefício dos utilizadores.

Outro aspecto diz respeito à dinamização da BDteca através da realização de actividades diversas como encontros com autores, debates, exposições temáticas, etc. para o qual estamos sensíveis, não só porque pretendemos ser dignos deste enorme gesto benemérito, mas também porque temos noção da riqueza do espólio que deve ser divulgado.

Um dia, assim esperamos, concretizaremos o sonho do Luiz Beira: a sua BDteca dará lugar a um Museu-BDteca já que estão a caminho de Viseu objectos vários, como fotografias, registos BD, quadros, pranchas, etc, que fazem parte da vida de um homem que desde cedo se dedicou ao mundo da BD.

CM Viseu

BDteca Luiz Beira

A BDteca Luiz Beira está integrada na Sala de Adultos e constitui por si só um núcleo de documentação de reconhecido valor. A BDteca coloca à disposição de todos os utilizadores e estudiosos desta arte um manancial riquíssimo de literatura alternativa, designadamente álbuns de BD, revistas, fanzines, recortes de jornais, etc.

Pela sua raridade, singularidade ou pelas dedicatórias exclusivas a Luiz Beira, alguns exemplares encontram-se nos reservados com acesso limitado. Bedeteca é, por definição, uma biblioteca de Banda desenhada (BD) que pode - e deve integrar diversos tipos de suportes, designadamente revistas, jornais, fanzines e material não livro, como CD, cartazes, postais, pranchas, etc.


(recorte Cincinato)


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O MISTÉRIO DA «ÚLTIMA ENTREVISTA»

por LUIZ BEIRA

Poderia ser o título de uma rocambolesca aventura — O Mistério da Última Entrevista —, mas para aqui não foram chamados nem Tintin, nem o chimpanzé Jocko, nem o polícia gorduchão que sofre as traquinices de Quicke e de Flupke... Seria o público, que foi incapaz para tal.   

Desvendemos: parece que há três últimas entrevistas concedidas por HERGÉ: na revista belga Tintin n.º 11 bis, 38.º ano (Spécial Hommage à Hergé), indica-se que a solução está na entrevista aí publicada e efectuada por JEAN-LOUIS LECHAT. Em Le Monde d'Hergé, de BENOÎT PEETERS, figura uma bem longa e elucidativa entrevista efectuada a 15 de Dezembro de 1982... O mestre faleceu a 3 de Março de 1983. Mas tudo isto será apenas uma questão belga. Aqui trazemos, porém, uma outra última entrevista. Na verdade, se não foi a última que Hergé concedeu para o Estrangeiro, foi indubitavelmente a última que favoreceu a Portugal.   

Esta entrevista foi solicitada e conseguida em Novembro de 1982. Conservou-se inédita por razões alheias à minha vontade e à de Hergé. Hoje, recordando-o em plena, franca e justa homenagem ante o 2.º aniversário do seu passamento, ei-la enfim publicada!   

Julgo, cabe-me a bizarra ironia, de ter sido o primeiro e o último português a entrevistá-lo, ou seja: em Outubro de 1966 e em Novembro de 1982.   

Antes de mais avançar, cabe-me já colocar aqui três pontos curiosos:

1 - A SOBREDA-BD/85 (de 2 a 10 de Março) NÃO ESQUECEU Hergé. Aí estará a nossa modesta, mas sentida e inclinada homenagem.   

2 - O famoso cineasta STEVEN SPIELBERG (realizador de Encontros Imediatos do 3.º Grau, E.T., Os Salteadores da Arca Perdida, etc.) comprou todos os direitos de Tintin para adaptar a série ao Cinema (o que não será inédito). Esperemos que ele não se esqueça do actor português JAIME CAMACHO para interpretar a figura de Oliveira de Figueira, já que são sósias um do outro: Oliveira Camacho ou Jaime de Figueira? Ambos portugueses, porém...   

3 - Muito embora a Câmara Municipal de Lisboa, na sua opinião bronca e interesseira, ache que não pode dar o nome de Hergé a uma rua de Lisboa, pois que o Artista nada tem a ver com a capital portuguesa (!?!?), como tanto teve a ver Salvador Allende, Aldo Moro ou Enrico Berlinguer, etc., não se esquiva o mundo bedéfilo nacional e consciente (a que se juntaram actores e jornalistas) a estar a organizar petições neste sentido, para diversas Câmaras (insistindo e incluindo a de Lisboa). Claro que também todas as editoras têm e devem sentir a Arte que comercializam... Tá?   

Imaginem: conheci HERGÉ no Outono de 1966, quando pela primeira vez visitava Bruxelas (nesse espaço de tempo, contactei também, por momentos, com Dino Attanasio). 

Pleno de acanhamento e de admiração, procurei-o nos Studios Hergé na Avenue Louise. Desafiei-o para uma breve entrevista. Só encontrei uma afabilidade e hospitalidade extremas. Esse meu acto heróico e ousado veio publicado na revista «Plateia» n.º 306, de 13 de Dezembro de 1966... Desde então nunca mais perdemos o contacto. Desta vez, impossibilitado economicamente e por circunstâncias de tempo para me deslocar à Bélgica (foi há dez anos — 1975 — que aí tornei pela última vez), escrevi-lhe, solicitando por escrito a entrevista exclusiva que, com brevidade, me chegou nas respostas, para além da generosidade característica de Hergé. Todos conhecem o universo que Hergé criou: Tintin, Milou, Haddock, Prof. Tryphon Tournesol, Dupont e Dupond, Séraphin Lampion, Eng. Baxter, Piotr Szut, general Alcazar, Oliveira de Figueira, Bianca Castafiore, Nestor, Abdallah, Roberto Rastapopoulos-Gorgonzola, Zorrino, Irma, Tchang-Tchong-Jen, Laszlo Carreidas, o pérfido Allan, Mik Ezdanitoff, Quick, Flupke, Jo, Zette, Jocko, Virginie e Popol, Totor, etc., etc... Mas, quem é HERGÉ? 

Resumindo e baralhando (como soe dizer-se), Georges Rémi — o fabuloso HERGÉ — nasceu em Etterbeek (Bélgica) a 22 de Maio de 1907. Pelas 22 horas do dia 3 de Março de 1983, numa clínica dos arredores de Bruxelas, Hergé abandona deste mundo a sua travessia através do século XX cristão da Terra... Há vários anos que sofria de uma anemia corrosiva, agravada com uma deficiência pulmonar... ao que lhe sobreveio um malfadado e rápido cancro ou também uma sufocação cardíaca. A lenda permanecerá contra gregos, troianos, macedónios e persas (e até para os bárbaros e selvagens turcos...).  

Nos anos 20, matrimoniou-se com GERMAINE KIECKENS. Ambos atravessaram uma vida. Uma vida particular, sem escândalos. Apenas com um senão: Hergé jamais foi pai!... Em 1960, o mundo bedéfilo fica boquiaberto: Hergé divorcia-se da sra. Germaine. Em 1977, Hergé torna a casar, agora com FANNY VLAMYNCK, actualmente sua viúva-herdeira. É a sra. Fanny que preserva todos os esboços e estudos do álbum (por se fazer e prometido para este 1985) da próxima aventura de Tintin: Tintin e a Alfa-Arte (que deveria decorrer na bela atmosfera do mundo da dita 1.ª Arte: a Pintura).   

Curiosamente, Hergé não estudou Desenho, mas sim Humanidades Modernas. Em 1923, no Boy-Scout Belge (O Escuteiro Belga), fez o seu início na 9.ª Arte, com o herói precursor de Tintin, TOTOR. A 10 de Janeiro de 1929, no Le Petit Vingtième (suplemento semanal do diário bruxelense Le XXème Siècle), iniciou-se com a primeira página da primeira aventura de TINTIN: Tintin Entre os Soviéticos. Foi um êxito!   

Em paralelo, Hergé foi criando heróis para outras séries. As mais famosas são: as diabruras de QUICK e FLUPKE (Quim e Filipe); POPOL e VIRGINIE, com apenas um álbum: Popol et Virginie Chez Les Lapinos; e JO, ZETTE e o chimpanzé JOCKO, que infelizmente só se programaram para cinco álbuns: O Testamento de M. Pump, Destino: Nova Iorque, O Manitoba Não Responde, A Erupção do Karamako e o tão impagável e extraordinário O Vale das Cobras.

Mas (e independentemente de uma vasta obra dispersa e hoje quase desconhecida), há esse imenso colosso de Arte, de humor, de aventura, de generosidade, de beleza, de caricatura social, de delícia, de encanto... de tanta maravilha palpável que as palavras são incapazes de traduzir: o universo Tintin. Creio que aqui se podem hoje marcar vinte e quatro álbuns (de Banda Desenhada) e mais dois sobre os filmes feitos com actores de carne e osso. A saber:   

Tintin Entre os Soviéticos (a preto e branco), Tintin no Congo, Tintin na América, Os Charutos do Faraó, O Lótus Azul, A Orelha Quebrada, A Ilha Negra, O Ceptro de Ottokar, O Caranguejo das Pinças de Oiro, A Estrela Misteriosa (onde, simpaticamente em relação a Portugal, Hergé fez aparecer outra personagem, se bem que efémera, de nacionalidade portuguesa: o Prof. Pedro João dos Santos, da Universidade de Coimbra), O Segredo do Licorne, O Tesouro de Rackham, o Vermelho, As Sete Bolas de Cristal, O Templo do Sol (estes dois álbuns deram mais tarde origem a um filme em desenhos animados, sob o título único da segunda parte: O Templo do Sol), No País do Oiro Negro, Objectivo: Lua, Caminharam Sobre a Lua, O Caso Tournesol, Mercadores de Ébano ou Carvão no Porão, Tintin no Tibete, As Jóias da Castafiore, Voo 714 Para Sidney, Tintin e o Lago dos Tubarões (originalmente em filme de desenhos animados, depois adaptado a álbum B.D.) e Tintin e os Pícaros. Mas, nos anos 60, dois filmes se fizeram com actores, ambos com JEAN-PIERRE TALBOT no papel do protagonista: Tintin e o Tosão de Oiro (passado na Grécia e na Turquia) e Tintin e as Laranjas Azuis (passado em Espanha). A primeira película tem realização de Jean-Jacques Vierne e a segunda de Philippe Condroyer. O actor Félix Fernández interpretou das duas vezes a figura do Prof. Tournesol, enquanto Haddock teve dois intérpretes (aliás, qualquer deles, dos vultos de alto gabarito na cena francesa): Georges Wilson (no primeiro) e Jean Bouise (no segundo). A tenebrosa Bianca Castafiore (que só aparece no segundo filme) foi interpretada por Jenny Orléans.

Ah! Mas quase me ia esquecendo da nossa entrevista. Pois ela aí vai:   

P — É verdade que o próximo Tintin aparecerá em 1985? Qual é o título? Onde se passa a história?

R — Um próximo «Tintin»? Sim, em princípio... O tema é o sector da Arte vanguardista e a história passar-se-á nas nossas regiões. O título?... É ainda muito cedo para se pensar nele...

P — Sabe-se que o senhor gosta muito de Portugal. Aliás, até marcou bem essa ternura com o Prof. da Universidade de Coimbra (em A Estrela Misteriosa) e com esse tão popular sr. Oliveira de Figueira. Até mesmo o próprio Tintin foi uma vez o «sobrinho Álvaro» do sr. Oliveira. Então, duas questões: por que é que nunca visitou Portugal? E... para quando uma aventura de Tintin em Portugal?

R — Portugal atrai-me. Infelizmente, ainda não tive ocasião de visitar o seu belo país. Um dia talvez, quem sabe? ... E Tintin? ... Para ele, digo-lhe igualmente: um dia talvez, quem sabe?...   

P — Qual a aventura de Tintin de que mais gosta? Porquê?

R — O álbum «Tintin» que prefiro? «Tintin no Tibete». Porquê? Porque imaginei essa história quando estava em vias de passar o cabo dos 40 anos: um momento importante na vida de um homem.   

P — Quais os banda-desenhistas que prefere?

R — Devo confessar que quase nunca leio bandas-desenhadas.

P — Conhece a Banda-Desenhada Portuguesa?

R — Infelizmente, não conheço lá muito bem a Banda Desenhada Portuguesa. Sabe, ninguém é perfeito!   

P — Por que é que abandonou os «heróis» das outras histórias, salvo Tintin?

R — Por que deixei as outras séries de aventuras que tenho criado? Olhe, porque o Tintin abarcou a cimeira de todas as minhas outras personagens.   

P — Para terminar: qual é a sua definição de Banda-Desenhada?

R — A minha definição de Banda-Desenhada? Para mim, é antes de tudo: contar uma história em imagens. Deixo aos entendidos o desvelo de falarem mais sobre isto.   

Serão pois os grandes «inteligentes» da Banda-Desenhada que tanto têm invectivado contra este extraordinário mestre... os palradores». Como é possível que os críticos (na sua maioria e em qualquer canto do mundo) tenham tanta serradura e tantas lantejoulas no interior do crânio? Obviamente, não arranjam espaço para os miolos lúcidos e sensíveis. Conseguem ser mais chatos que o Séraphin Lampion e, sobretudo, terrivelmente bocejantes.   

Vejamos exemplos da face correcta: segundo Alain Saint-Ogan, Hergé é o criador da Banda Desenhada moderna. O presidente Charles De Gaulle afirmou uma vez: «O meu único rival internacional é Tintin». E, mais deliciosa, é a opinião de Claude Lévi-Strauss ao escrever ao editor Jacques Glénat: «Ao folhear os álbuns de Tintin, sinto-me sempre tocado pela ilustração. Ela sabe ser clara e legível sem cair na vulgaridade».   

Ignobilmente, Hergé tem sido acusado de racista, de reaccionário e de fascista!... Em entrevista concedida a Numa Sadoul, o grande mestre belga esclareceu bem essas alfinetadas obtusas. Claro que foi o Entre os Soviéticos (1929) que pôs os comunistas aos saltinhos. E Tintin no Congo (1930) valeu-lhe o epíteto de racista. E, como Hergé trabalhou para um jornal (precisava de viver, ou não?) que apareceu durante a ocupação da Bélgica pelas tropas do paranóico do Hitler, logo lhe atiraram com a palavrinha de «fascista»! Para aqui, terá sido apenas a imbecilidade raivosa a latir.   

Quanto ao caso dos dois álbuns acima citados, o próprio Hergé reconhece humilde e lealmente que, para além de viver numa atmosfera social dessa época euro-occidental (que seguia um certo pensar... certamente não muito justo), cometera o erro ingénuo de não se documentar devidamente. Tal não voltou mais a suceder nos álbuns que se seguiram. Se Tintin Entre os Soviéticos foi agora finalmente reeditado e está a ser publicado em tantos países, isso deve-se à multidão incansável e incontestável que, através de tantos anos, sempre veio insistindo nesse sentido. Quanto a Tintin no Congo (que teve a mesma sorte de estar esgotado e travado), veio a reaparecer — imagine-se — a pedido do próprio governo do Congo-Zaire, que deixou os críticos-intelectuais politiqueiros de meia-tigela com um matacão (quiçá podre) no lugar da cachola. Pudera!   

De resto, toda a restante obra de Hergé passou a ser, além de devidamente documentada sobre povos e ambientes, uma altamente válida e concreta denúncia (em caricatura) dos grandes erros sinistros, execráveis e (o que é grave) conscientes do Mundo em que vivemos: desde as linhas políticas de liderança absolutista à criminosa maçonaria (camuflada) que vai com BOHR, Sponz, Rastapopoulos, Dawson, os escravagistas árabes, etc. Tão-pouco Hergé pode ser comparado a mestre Walt Disney (e seus continuadores mantêm tal linha), porque este sim, fez uma constante apologia ao super-homem ianque e à maravilha do dólar.   

De resto, toda a obra de Hergé tem sido um documento histórico-social (de valor incalculável) de povos, costumes e hábitos que vamos atravessando, para além de um certo juliovernismo (não contando com os aspectos do fantástico, do paranormal e do profetismo). Depois, sobretudo em O Lótus Azul, Coke en Stock e Tintin na América, bem o vemos defender o seu anti-racismo contra amarelos, negros e peles-vermelhas. Acusando quem? O branco, esse leviano pretensioso!...   

Não tenhamos pois acanhamento em erguer bem alto o estandarte Hergé, que já não é apenas belga, mas de um autêntico humanismo mundial. De resto, quem acertou com os seus heróis-símbolos?   

[Personagens descritas na conclusão]

TINTIN: o repórter justiceiro; inteligência sem falhas e qualidades morais dificilmente igualáveis; simples, corajoso, desembaraçado, generoso... a figura ideal que todos sonharam ser e que todos fomos incapazes de ser.   

MILOU: o canino patusco e alvo, de pelo em caracoletas; é para Tintin um interlocutor... Um diálogo a nível do instinto, claro... Adora uísque e o osso, mas apesar de bom cão epicurista, acaba por pôr o seu dever acima da gula e da tentação.   

O GATO SIAMÊS: há um delicioso gato siamês (tão querido aos budistas lamaístas... é preciso recordar aqui Lobsang Rampa) que pertence ao Comandante Haddock. Curiosamente, este querido bichano (ingratamente ficou sem nome... o que é imperdoável falha de Hergé) vem juntar-se à linha de extrema amizade que Hergé devota aos animais (veja-se também: os lamas de O Templo do Sol que não gostam de ser ofendidos; os pequenos ursos que adoram mel em Objectivo: Lua; o humanismo tão angustiante do Iéti em Tintin no Tibete, os macacos imitadores em Tesouro de Rackham, o Vermelho, etc.). Também Milou e o siamês se rivalizaram... Mas depois, veio a cumplicidade-aliança que não passa em branco a qualquer leitor atento... Falta-nos o nome do gato e a linguagem entre este e Milou.   

NESTOR: impecável fiel mordomo, um tanto british e outro tanto latino...   

HADDOCK: sensacional lobo do mar, padrão de Liga Anti-Alcoólica (mas sempre abençoando o bom uísque); impulsivo, divertido, colérico e invectivador (sem maldade), porque franco e extrovertido. Um expressionismo rude num coração de anjo.   

CASTAFIORE: quem é esta impagável e popular soprano? Hergé detesta (será?) a Ópera... Mas é Hergé quem a define: ela pertence ao número dos maçadores, que ocupam um lugar de eleição na linha daquelas pessoas que só sabem aborrecer os outros com cantorias. É uma voz abominável, tanto pela qualidade própria, como pelo volume, se nos fiarmos nas reacções aparentemente mais sádicas de Milou e, principalmente, do infeliz Haddock...   

Os DUPOND(T): a paródia aos detectives; esteróides, aéreos, desconfiados... em suma: divertidos e ridículos. Na pura linha (antecessora) do inspector Clouseau que o Cinema deu a conhecer na interpretação do saudoso Peter Sellers.   

OLIVEIRA DE FIGUEIRA: o padrão euro-meridional (podia ser espanhol, italiano, grego ou francês do sul), de nacionalidade portuguesa. Típico comerciante, que busca melhor vida no comércio afro-asiático, já que a mãe-pátria não lhe sorriu. O coração aberto e doce. A simpatia em pessoa. O amigo do seu amigo. O homem que vive do comércio, mas que é simples, que não conhece raças e que com todos se dá fraternalmente e sem suspeitas. O português!   

ABDALLAH: as traquinices e as irrequietudes dos árabes? Talvez...   

TOURNESOL: uma crítica amável aos cientistas, onde o coração da paixão amorosa romântica também sabe dar sinal de vida?   

SERAFIM LAMPIÃO: o incrível e realista chatarrão que impinge seguros. Podia ser um vendedor de enciclopédias, de cosméticos, de uma marca de parafusos ou de detergentes, um propagandista de alguma religião de última hora (tipo Testemunhas de Jeová), etc. É só vendedor de seguros, o que dá no mesmo. É um exemplo social do quotidiano. Hergé retrata-o impecavelmente.   

RASTAPOPOULOS: o pulha capitalista por excelência; mafioso, quiçá maçónico, patife, milionário, vampiro... Infelizmente, na Terra, ainda abundam bastantes exemplos destes abortos sócio-políticos.   

Não me é possível, por lógica falta de espaço, alongar-me em mais definições de personagens ou na explicação sumária de cada aventura-álbum de Tintin... É de lastimar que os álbuns traduzidos estejam nos termos abrasileirados, o que dá um português concretamente incorrecto.   

De qualquer modo, que os anti e os pró comecem a ver HERGÉ como o humilde e real cronista dos tempos contemporâneos. A sua obra é bem clara. Só os confusos frustrados — de marxistas a hitlerianos — se podem ainda confundir. Mas aí, qualquer primário Sigmund Freud explicaria isso...   

Após a morte de HERGÉ, banda-desenhistas de todas as tendências souberam prestar-lhe honrosas, comoventes e ternas homenagens. Que bela lição-bofetada à mediocridade portuguesa!   

VIVA HERGÉ!

MOSQUITO N.º 6 (MARÇO DE 1985)

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Guilherme Lucas

Eu comecei a colecionar os álbuns do Tintin, bem como a revista semanal com o mesmo nome, tinha exatamente 10 anos, em 1974...

O MEU 25 DE ABRIL DE 1974

Não tive noção do que esse acontecimento histórico ia significar para todos os portugueses nesse momento, pois não tinha até então o mínimo de consciência de que vivíamos num regime repressivo, de cariz fascista. A minha família era muito conservadora e sempre fez por esconder da educação e da vivência com os seus filhos qualquer questão política que desse azo a ter essa perceção da situação política nacional. Percebi mais tarde, que houve momentos e assuntos, que eram imediatamente interrompidos pelos meus pais, tia e avós, quando terceiros começavam a falar sobre o Américo Tomás ou sobre Marcelo Caetano. Eu vivia numa bolha onde falar de política era um não assunto. A única coisa que fazia sentido para mim nesse período era comprar semanalmente a revista Tintin e convencer o meu pai para me oferecer mais um álbum do Tintin para ir completando a sua coleção. 

Quando a minha mãe foi-me buscar à escola, foi uma surpresa agradável, porque foi ótimo saber que não ia ter mais aula nesse dia, apesar da preocupação que ela demonstrava, dizendo-me que tinha havido um golpe de Estado e que havia soldados na rua, podendo haver uma “guerra” – nesse momento, enquanto caminhávamos os dois, algo apressados, para casa, procurava ver alguns, mas nada, não vi nenhum, era uma manhã perfeitamente normal até esse momento.

Chegados a casa, passei o dia a reler as revistas do Tintin e a acompanhar na RTP1 o noticiário do que ia acontecendo. Fiquei chateado porque não foram para o ar os habituais desenhos animados diários que nunca perdia de os ver, sendo estes substituídos pelas imagens do que estava a acontecer nas ruas em todo o país. 

Não estava nada preocupado, tinha os Tintins comigo, por isso o resto do mundo podia ir dar uma volta, que era-me igual.



CARTA 1977

Alguém aqui da geração X que na sua adolescência escreveu uma carta ao Hergé? Fiz isso em 1977, e fiquei surpreso por ele me ter respondido. Guardo religiosamente essa carta, pois o Tintin era em termos de BD tudo para mim... ainda é, mas de outra forma. (FB, 2023)

(...) e durante esse tempo, pelo menos até 1977 (ano em que escrevi ao Hergé), não consegui encontrar o "Perdidos no Mar" [Coke En Stock] em capa dura.



                                                                       Psycho Tintin

Desenho de Neno Costa feito ainda nos anos 80. Partilhado no facebook pelo amigo Guilherme Lucas.

CURIOSIDADE

Os Rackham apresentaram-se, na noite de 05/10/2019, no Woodstock 69. Este quarteto instrumental de Monção, cujo nome foi inspirado na personagem de um pirata relacionado a dois álbuns de banda desenhada do meu herói de sempre, o Tintin, (O Segredo do Licorne e o Tesouro de Rackham, o Terrível), ofereceu ao público presente os temas do seu mais recente EP, de nome Tchim Plim! As espadas soam assim, editado em Fevereiro último, bem como um punhado de outros temas que seguramente farão parte do seu próximo registo discográfico.

Os Rackham são um grupo de rock de fusão, para os classificar de forma muito objetiva, formados em 2017. Os seus temas evidenciam uma composição que deriva do rock progressivo e que denota muito bom gosto e competência. (...)

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Esquimós


Homens e Mar

Amar é gostar de todas as maneiras, em qualquer situação. Como diz o ritual católico, amar e respeitar, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Amar é sermos nós, indissociáveis, é não sermos um sem o outro. É definirmo-nos por essa pertença. A uma pessoa ou a uma ideia, a um espaço ou a uma instituição.

(...)

Pertenço também, de um modo muito diferente, ao Mar, ainda que nunca tenha estado embarcado por mais de algumas horas. Mas, desde miúdo, sei que, se tivéssemos várias vidas, a do mar, apesar de todos os medos que desperta, seria uma das minhas escolhas. Bastaria que, nesse regresso, Deus me apetrechasse de uma dose de coragem bem superior à que agora tenho. Porque, não restem dúvidas, os homens do mar são, em maior ou menor medida, verdadeiros heróis.

(...)

Um homem do mar que muito aprecio é – não podia deixar de ser – o Capitão Archibald Haddock, companheiro de Tintim, fumador de cachimbo, herdeiro inverosímil do Palácio de Moulinsart, grande bebedor, praguejador de bom coração e lágrima tão fácil quanto a ira. Com as suas forças e fraquezas, Haddock personifica, para mim, a bondade humana – what you see is what you get.

Ora, nas guardas de alguns livros de Tintim, Hergé colocou – só os mais atentos terão reparado – um desenho do protagonista e do seu cão, Milú, vestidos de esquimós, situação que não integra nenhuma das estórias por ele publicadas.

E tenho pena, porque acontece que os povos da América árctica, da Gronelândia às Ilhas Aleutas, genérica e abusivamente chamados Esquimós (pois alguns destes autodenominam-se iúpiques, inupiates, inuítes, unangans, etc), os seus artefactos (as roupas, o calçado, os óculos de neve, as armas de caça), os seus ritos e a sua música são outra das minhas paixões, embora esta ainda insuficientemente investigada.

Um dia, assim a vida me conceda tempo e vagar, estudarei com mais afinco a vida destoutros homens do Mar.

E é tão rica e longa a História dos que, por esse mundo fora, ao Mar se fizeram, buscando alimento, comerciando, guerreando, em lazer ou em busca de ciência!

(...)

Miguel Martins, Hoje Macau, 27/11/2017

Nota: Aparecem apenas em algumas guardas dos livros!

Há também uma revista Tintin nº 28 de 22/11/1980 com desenhos alusivos ao tema.


Trata-se da utilização parcial da figura de Tintin da coleção de cromos Aérostation n° 51: 1926. Dirigeable Nobile "Norge" (Noruega) na capa da revista Tintin, edição portuguesa, n° 28, de 22/11/1980 (13º ano).


Chromos Voir Et Savoir, 11/10/2024