segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Sérgio Luiz



Sérgio Luís Henriques de Almeida Fernandes, seu nome completo, nasceu a 20 de Setembro de 1921, na Praia da Granja, perto do Porto, por «acidente», já que toda a sua família é natural de Leiria. Desde muito novo mostrou a tendência para o desenho, aliás o que não era de admirar, pois seu pai era o famoso escultor e também professor de desenho, Luís Fernandes Carvalho e Reis.

Com 2/3 anos de idade já se mostrava interessado pelas revistas, recortando toda a qualidade de figuras que nelas via retratadas. Isto serviu-lhe de ajuda futuramente, pois que recortando as silhuetas que se lhe ofereciam aos seus olhos, permitiram, em pouco tempo e ao longo da sua curta vida, poder executar os seus trabalhos de desenho, já com uma certa qualidade estética.

Aos 4 anos de idade pintava aguarelas, que a sua mãe, hoje com 80 anos, conserva preciosamente. Notam-se nelas um certo movimento e a concepção da cor é notável para a idade. O tema é a pesca na Nazaré, numa altura em que seus pais passaram umas férias naquela praia.

Em Leiria onde residiam, Sérgio iniciou os seus estudos normais até à 4.ª classe e mais tarde o liceu. Aos 13 anos adoece, com uma doença que só mais tarde se detectou como tuberculose renal. Naquele tempo a medicina não possuía os recursos de hoje, pelo que foi uma vida de sofrimento que o esperava. Embora doente, conseguiu fazer o 6.º ano do liceu (naquele tempo só havia em Leiria o 6.º), com a média de 16 valores. Era o melhor aluno do liceu. Ir para engenharia era o seu sonho.

No liceu chegou a fazer conferências sobre a Arte, a convite dos professores e nelas deu já mostras da sua excelente qualidade de escritor, além de desenhador, pois elas eram acompanhadas de ilustrações que executava num quadro, para completa elucidação dos presentes.

Na altura em que acabou o liceu em Leiria, tinha 16 anos de idade e a sua saúde não era a melhor. A doença continuava a miná-lo. Teve que aguardar que seu irmão mais novo, o Guy, na altura no 5.º ano do liceu, acabasse os seus estudos, para que então toda a família pudesse vir para Lisboa. O Sérgio para continuar o seu tratamento, já que o médico o tinha proibido de prosseguir seus estudos e o Guy, precisamente para acabar o 7.º ano do Liceu.

Ainda em Leiria, lê um anúncio na revista infantil «O Papagaio», em que era solicitada a colaboração dos leitores. Sérgio mandou uns desenhos para Adolfo Simões Müller, director da revista, que rapidamente aceitou e pediu que enviasse mais.

Seu pai ajudou-o bastante, pois proporcionou-lhe todos os meios necessários para executar o que a sua capacidade criativa lhe ditasse. No entanto, Sérgio Luís não deixava de executar primeiro o trabalho do liceu e só depois se dedicava à sua actividade artística. E era, acima de tudo, extremamente metódico.

Sua colaboração para «O Papagaio» é na verdade razoável, pelo menos enquanto lhe permite a pouca saúde que dispõe.

Suas histórias mais famosas, isto já sem contar com a sua colaboração para «O Engenhocas» e para o «Pim-Pam-Pum», é a série «Aventuras de um Boneco Rebelde», que rapidamente alcança sucesso nos leitores da época.

Embora ainda jovem, suas concepções de prancha, ideias e temas das suas histórias, eram na verdade excepcionais, isto já sem salientar o seu arranjo gráfico.

Em Agosto de 1938, com 17 anos, vem para Lisboa com a família e cumpre os 18 anos, um mês depois.

Durante o resto da sua vida, distribuiu a sua actividade pela Banda Desenhada e dedica-se às actividades que mais lhe agradam, principalmente a música, de que gostava imenso. Não que se interessasse pela sua execução, unicamente lhe interessavam os artistas, os compositores e as árias de ópera ou sinfonias que conhecia de ouvido. Era um erudito em música, embora adolescente.

Monta um telescópio na sua casa, deliciando-se com a visão dos astros, a que se dedicava assiduamente.

Também monta um microscópio e mais tarde faz dois filmes de desenhos animados, sobre o Boneco Rebelde.

Um deles é projectado no cinema Europa, durante o intervalo. Trata-se de uma sequência de desenhos que serviram para a sua execução. Neles o «Boneco Rebelde» puxa da sua algibeira de um relógio que vai aumentando sistematicamente até que a personagem acaba por ficar para trás, enquanto os ponteiros vão surgindo e marcam o tempo que durará o intervalo. Para a elaboração destes filmes, criou um estúdio na dispensa da sua casa. Tudo foi organizado por si.

Durante este período poucas vezes sai de casa. Uma vez por outra ia ao cinema Europa ou ao Jardim da Parada, que ficava perto da casa que habitava em Campo de Ourique.

Tudo servia para o entreter e o seu saber, aliado a uma fecunda imaginação, permitiam-lhe mais facilmente suportar a doença que o afligia, sem que a sua irmã, a professora Lia Fernandes ou sua mãe, ouvissem da sua boca um queixume que fosse.

Infelizmente a doença encontrava-se já no seu desenlace fatal e enquanto ainda lhe restavam forças, montava um sistema de morse e dedicava-se às construções eléctricas, mas a 24 de Janeiro de 1943 morre com 21 anos de idade.

As últimas pranchas de uma das histórias do «Boneco Rebelde», que a revista «O Papagaio» apresentava naquela altura ao público leitor, foram publicadas postumamente até Maio daquele ano.

Carlos Gonçalves / CORREIO da BANDA DESENHADA, 01/03/1981

+ Coordenada pelo Clube Português de Banda Desenhada

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