quarta-feira, 20 de abril de 2022

A Quimera do Egipto


Separata do Tertúlia Bdzine nº19 (Março 1999)

Notas a propósito d' "A Quimera do Egipto"

São as colunas seguintes fruto de uma conversa havida num final de uma manhã soalheira de Domingo, em que eu e o Geraldes Lino trocámos algumas palavras sobre BD (o que é que mais haveria de ser), convencendo-me ele a que eu transpusesse para o papel alguns dos comentários que havia feito a propósito da história que agora é publicada no "Tertúlia Bdzine".

Poderão alguns julgá-los desnecessários ou mesmo pleonásticos, mas não pretendem influenciar a leitura ou a interpretação, necessariamente subjectiva aos olhos de cada leitor, esta última fruto do somatório de todos os valores cognitivos de cada um. Quer-se, isso sim, dar a saber algo que esteve na origem desta história. Como sabem, o Geraldes Lino convidou alguns autores de BD a realizar histórias curtas, que serão editadas ao longo deste ano de 1999, numa comemoração dos 70 anos do aparecimento de “Tintin”, no “Le Petit XXe”, suplemento do jornal belga “Le XXe Siécle”, em 1929. Assim, tendo-me munido da minha argumentista privada, relido alguns álbuns e literatura sobre o tema, nasceu a aventura que agora vos chega.

Tintin é (juntamente com Astérix), praticamente para a maioria dos Portugueses o primeiro contacto com a “BD de álbum”. Assim, não é difícil que os personagens que aparecem nas “Aventuras...” sejam familiares a qualquer cidadão. Personagens e também as suas personalidades, características físicas, humores, ..., preocupações, e tantas outras que são quotidianamente alvo de conversas entre amigos, alcunhas a alguns, ou qualquer outra situação que a propósito venha. O primeiro álbum que tive das “Aventuras...” (oferecido pelo meu pai) foi “Os Charutos do Faraó”, onde aquelas imagens no deserto e no interior dos túmulos egípcios ficaram registadas para sempre nas mais profundas concavidades da minha alma. Isto, aliado a uma paixão imensa por tudo quanto do antigo Egipto vem, explica o título e parte do cenário onde decorre a acção d’ “A Quimera...”. Egipto que serve também de tema para o enigma da primeira página, e que é desvendado pondo-a à transparência com a capa.

Sempre achei, na minha inocência de garoto, que Tintin iria passar um dia por Portugal (os seus contactos com Oliveira da Figueira nunca foram para mim suficientes). Assim, n' "A Quimera...", o início da acção decorre nos nossos Açores, mais propriamente no famosíssimo “Peter” (Café Sport) da Horta, onde o Capitão Haddock parece ter arranjado um substituto para o seu inseparável whisky: o licor “Maracujá do Ezequiel”.

O "[...] capitão, hirsuto, transborda continuamente de emotividade que ele se mostra incapaz tanto de conter como de esconder. Ele encarna a criança real, as suas fúrias e dúvidas, as suas violências e obstinações [...]. Mas justamente porque é uma criança vulgar, Haddock nunca está seguro da afeição de ninguém.” [1]. O mau humor de Haddock representado nas duas vinhetas em que aparece o seu rosto, poderá então ser apenas um escudo ou disfarce para forçar Tintin a tomar a iniciativa de o deixar, quebrar como que um cordão umbilical que sempre os ligou a partir d’ “O Caranguejo das Tenazes de Ouro”. De outra forma, talvez Tintin nunca tomasse a iniciativa de partir. Aliás, a ligação parental que Haddock representa, não só para Tintin, mas também para Hergé, é alvo de estudo aprofundado [1]. Quanto a “Tintin, imberbe, é sempre igual a si próprio, isto é, infinitamente prestável e infalivelmente bem-educado. Tal como a criança atenciosa e disponível se empenha em ser a encarnação dos desejos de seus pais, ele oferece a todas as projecções do leitor o seu rosto redondo e inexpressivo, o suporte perfeito dos desejos dos outros." [1]. É com base neste contraste entre os dois personagens que se baseia o diálogo entre ambos. Contraste esse levado também ao aspecto da representação gráfica: Haddock de cabelo negro sobre fundo escuro/ Tintin louro sobre o fundo negro. As próprias palavras: duras e mais vincadas por parte de Haddock contrastando com a suavidade verbal e gráfica de Tintin. “O capitão deve assim primeiramente imaginar uma história familiar antes que caiba a Tintin o papel de nos desvendar o seu sentido.” [1]. A quebra desse cordão não é realizado sem alguma dor interior, o que aliás era de esperar de um personagem com as características psicológicas de Tintin, tal como é notório no final da primeira página.

A personalidade de Tintin foi muito moldada à imagem da de Hergé: “Podemos, em todo o caso, imaginar o seu [de Hergé] sofrimento face à falta de empatia dos seus pais em relação aos seus sentimentos de criança. A frieza familiar acabou por gelá-lo.” [1]. Assim, “Ao longo dos seus vinte álbuns repartidos por vinte anos, Tintin tem sempre vinte anos. Não foi criança, não será também um adulto. Não se lhe conhecem pais, filhos ou namoradas. Só as suas calças seguem as oscilações da moda.” [1]. Ora é exactamente esta frieza, esta falta de uma certa chama (que contudo aparece na relação de Tintin com alguns personagens- Tchang, Zorrino,...), a falta de um personagem feminino emocionalmente activo (diverso da Castafiori) que possa fazer Tintin vibrar masculinamente, enfim a ausência de uma namorada, que eu sempre achei que o herói deveria ter direito a, depois de tantos anos (e álbuns). É evidente que não é obrigatório que todos os personagens tenham referências aos pais, namoradas ou mesmo à sua vida privada, mas até mesmo Astérix e Obélix nos deram a conhecer os seus progenitores recentemente [2], e é um desejo que acho ser meu direito autosatisfazê-lo, aproveitando para tal o convite do Geraldes Lino. Toda esta situação, poderá ser interpretada como uma superprotecção de Hergé face a Tintin (e a ele próprio, no fim de contas): “Eu criei-o, protegi-o, alimentei-o como um pai cria um filho” [3]. Por outro lado, a derradeira esperança que todos os bedéfilos tinham de as “Aventuras...” poderem prosseguir pela mão de alguns dos “herdeiros” naturais de Hergé esvaiu-se completamente, como aliás foi recentemente referido por Jacques Martin [4], esvaindo-se simultaneamente a esperança de ver no papel alguns dos nossos desejos mais íntimos face aos vários personagens.

Por outro lado, “Hergé, após quarenta anos de trabalho árduo, descobre, pois segundo as suas próprias palavras “os prazeres da vida”,[...]” [1]. Fica assim legitimada esta minha pretensão e curiosidade acerca da (ou de uma das) eleita(s) de Tintin. Tive contudo o cuidado de não explicitar o nome da mesma, que a ser feito poderia condicionar futuras abordagens sobre o tema (salvo as devidas proporções relativas da importância do presente relato gráfico).

Uma última palavra para os vilões: foram escolhidos devido ao facto de Rastapopoulos ser um dos personagens intervenientes nos “Charutos...”; quanto a Krollspel, aliado do primeiro, parece ser um dos personagens com capacidades científicas suficientes para levar a cabo a tarefa que parecia iminente no final da segunda página. Contudo estes vilões acabam por ser derrotados por Milou, que assim protagoniza uma das acções mais importantes ao longo desta curta história.

Agora que estão esclarecidas as bases de trabalho que levaram à criação da presente BD, elaborada por mim e pela Cris, gostaria de poder dizer um dia, tal como o general de Gaulle um dia disse: “Au fond, mon seul rival international, c'est Tintin!” [5].

Jo@o Mascarenhas

Referências:

[1] “Tintin no Psicanalista”, Serge Tisseron, Bertrand Editora, Portugal, 1987

[2] “La Naissance d’Asterix et d’Obélix”, Uderzo, BoDoi, nº14, 38-41, LZ Publications, França, Outubro, 1998

[3] “Tintin e eu, Conversas com Hergé”, Numa Sadoul, Casterman, Bélgica, 1975

[4] Rémy-Martin: amis jusqu’à la lie..., BoDoi, nº15, 47-51, LZ Publications, França, Janeiro, 1999

[5] Archives Hergé, Tomo 1, Casterman, Bélgica, 1973

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