Júlio Resende (1917-2011)
A obra aos quadradinhos
Júlio Resende, um dos grandes pintores portugueses contemporâneos, de obra (re)conhecida, faleceu ontem e vai ser muito falado por estes dias. Aqui, nas minhas Leituras, quero evocar uma faceta menos conhecida da sua obra, as histórias aos quadradinhos que fizeram parte do seu percurso artístico durante quase duas décadas.
A sua estreia no género deu-se nas páginas do Jornal de Notícias, a 26 de Fevereiro de 1933, no suplemento infantil “Para os Pequeninos”, contava o futuro mestre 17 anos. No mesmo espaço, aliás, fizera a sua estreia impressa, dois anos antes, em 25 de Dezembro.
Nos anos seguintes, a sua criação nesta área, já para jornais diários e semanários infantis, a par da produção de desenhos publicitários, intensificou-se, em boa parte pela necessidade de fazer dinheiro para ajudar a pagar o seu curso na Escola de Belas-Artes do Porto.
Tendo passado, de forma breve pelo “Tic-tac”, estreou-se nas páginas de “O Papagaio” no final de 1935 com “Coisas que Acontecem”, BD humorística que foi também a primeira colaboração com o irmão, António Resende Dias, que escreveria muitos dos argumentos que desenhou. Naquela revista, onde Tintin se estreou em Portugal e em cujos programas radiofónicos participou como animador, tanto assinou Júlio Resende como Júlio Rezende, só Resende, J.R. ou Dyas, tendo publicado mais de três de dezenas de histórias aos quadradinhos, curtas ou em continuação. Entre elas uma adaptação de Robinson Crusoé, num estilo semi-realista, e a história completa publicada numa separata no número especial de Natal de 1938, que faz dele um dos mais raros do papagaio.
É no entanto o humor que marca a maior parte das suas criações, que na maior parte dos casos continuam a ler-se com bastante agrado nos nossos dias, destacando-se as diversas aventuras de Freitas e Arrepiado, protagonistas, nos mais diversos géneros, de títulos como “Volta ao Mundo numa banheira”, “Arrepiado e Freitas cow-boys” ou “À Procura da Goma Arábica”.
Outra das suas criações mais celebradas aos quadradinhos é a dupla Matulinho e Matulão, protagonistas de peripécias e desgraças nas páginas de O Primeiro de Janeiro, entre 1942 e 1952.
Na sua base estão as birras do miúdo, mimado e caprichoso, que faz a vida negra ao seu paciente padrinho até ele lhe satisfazer as mínimas vontades. O grafismo de Júlio Resende nesta fase é bem mais depurado, como bem ilustra a figura do miúdo, cuja “cabeça e o chapéu à marujo” formam “progressivamente uma unidade indissociável, que lembra uma paleta de pintor”, como escrevem João Paulo Paiva Boléo e Carlos Bandeiras Pinheiro no catálogo “Das Conferências do Casino à Filosofia de Ponta”.
Naquele jornal, Júlio Resende colaborou também com desenhos infantis, cartoons e construções de armar e ilustrou os célebres calendários de Matulinho e Matulão, que sobreviveram às bandas desenhadas e duraram até aos anos 70.
(Versão revista e aumentada do texto publicado no Jornal de Notícias de 22 de Setembro de 2011)
Caro Pedro,
Felicito-o por este artigo, por ter vindo lembrar a muitos que a desconhecem ou simplesmente a menosprezam (basta passar em revista as notícias que saíram nos jornais) a obra de Júlio Resende na área infanto-juvenil e das histórias aos quadradinhos. Infelizmente, sempre que, na comunicação social, se recorda e homenageia um grande vulto das nossas Artes nunca vem à baila a Banda Desenhada, mesmo no caso do Mestre Júlio Resende, em cuja evolução estética ela teve uma importância que não pode ser escamoteada. Aliás, naquela época (refiro-me aos tempos de juventude de JR) quase todos os estudantes de Belas Artes a praticavam, uns com mais talento do que outros, obviamente. Resende estava entre os primeiros e a sua produção do género, embora escassa, figura entre as melhores criações humorísticas da BD portuguesa do século XX, como "A Volta ao Mundo numa Banheira" e mesmo as peripécias de "Arrepiado e Freitas", que competiam com as de Tintin nas páginas d'O Papagaio.
Se Resende não tivesse encontrado o equilíbrio das formas e das cores nessas primeiras composições artísticas, para um público que delirava com o absurdo sentido de humor das suas personagens, teria seguido a mesma trajectória que o elevou ao cume da ilustração e da pintura portuguesa? É bom relembrarmos onde começam, por vezes, as grandes carreiras e por isso me congratulo e o felicito por este artigo.
Colaborações em O Papagaio relacionadas com Tim-Tim:
Entrevista de Osvaldo Sousa a Júlio Resende:
OMS – O que é para si o humor?
Júlio Resende – O humor pode ser uma forma de estar, sentir e reconhecer o mundo pela óptica que se põe a descoberto, uma realidade transgressora das convenções.
OMS – Depois surgiu a Rádio e seus tempos de pioneirismo, onde mais uma vez o «Senhor Arrepiado» triunfava pelo humor, esse humor travestiu-se em «Juca», o palhaço pobre. Fazendo parelha com o seu irmão, tornaram-se palhaços amadores do sport Clube do Porto. Júlio explorava assim a súmula do humor, da aventura irreverente na humanidade, no sentimentalismo do bobo…
Júlio Resende – Para mim, era reconfortante e me bastava ver sorrir as crianças nos Sanatórios. Até cheguei a tocar na pista vários instrumentos, como o saxofone, o banjo ou até o insólito serrote…
OMS – è um género de pré-historia do «Nariz vermelho» nos hospitais. Era palhaço, humorista por necessidade interior?
Júlio Resende – Nos anos 30 e 40 a necessidade fez de mim um «humorista», mas certamente que já o era… Não tenho qualquer menosprezo por essa forma de comunicar, até por admitir que ela pode muito bem ser criativa.
OMS – Nos anos de estudo de Belas Artes fazia desenho publicitário, para ganhat algum dinheiro e creio que também BD e «bonecos» humorísticos.
Júlio Resende – Não disponho de dados seguros, mas foi nos anos 30 que iniciei uma actividade colaborante nas secções infantis do «Jornal de Notícias», no que era acompanhado pelo meu irmão António. Sem dúvida que eramos motivados por uma necessidade interior, por essa razão sanguínea. Então assinava Resende em maiúsculas. Imagine-se!...
OMS – A sua irreverência, e «engagement» político nunca afectaram esse trabalho jornalístico?
Júlio Resende – Histórias e «bonecos» eram concebidos e tinham um destino que era o leitor jovem, que nos anos 40 e 50 se afeiçoara ao «papagaio». Nunca essa actividade foi contrariada, de tal modo inofensiva era….
OMS – No campo do humor houve uma série de heróis críticos, com destaque de um trabalho, ao longo da década se sessenta no «Primeiro de Janeiro»
Júlio Resende - O «Matulino Matulão», o «Senhor Arrepiado», o «Feli Feli» e tantos outros foram concebidos no entendimento humorístico. Matulão alimentando os caprichos do Matulino, certamente com uma intenção crítica, fez algumas gerações leitora do «Primeiro de Janeiro». Então já há muito assinava o pseudónimo «OVAS» como exteriorização de uma parte de mim própria.(...)
https://humorgrafe.blogspot.com/search?q=papagaio

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