sábado, 22 de setembro de 2018

Cavaleiro Andante

Passaram 65 anos sobre aquele dia 5 de janeiro de 1952 em que o meu pai apareceu em casa com o n.º 1 de uma nova publicação para jovens: o Cavaleiro Andante. Apesar de eu ainda estar a começar a juntar as letras, ele comprou e encadernou as revistas seguintes, de que pude desfrutar mal aprendi a ler. E o entusiasmo foi tanto que passei boa parte da minha infância, e depois da adolescência, já na segunda metade da década de 50, em casa da vizinha do lado, no 27 da Travessa do Possolo, a folhear as coleções que ela fizera para a filha, bem mais velha do que eu, tanto de O Papagaio – revista para miúdos, encerrada em 1941 – como de O Senhor Doutor – um amigo que diverte, educa e instrui, que acabara em 1943 – e até de alguns exemplares avulsos de O Mosquito – o semanário da rapaziada, publicação que terminou em 1953: que belas tardes essas!

Para um miúdo preguiçoso como eu, devorar banda desenhada foi decisivo para o meu futuro. No Cavaleiro Andante, por exemplo, além de me iniciar nas obras de Hergé (Tim-Tim), Edgar P. Jacobs (Blake & Mortimer), Edgar Rice Burroughs (Tarzan, que o Estado Novo viria a proibir) ou Johnston McCulley (Zorro) – fiquei a conhecer mitos como Viriato, Baden Powell, Fausto Coppi ou o Rei Sol, li histórias como Beau Geste, Alice no País das Maravilhas ou A Tulipa Negra, e acompanhei epopeias como a conquista do Evereste ou a colonização dos EUA.

E tantos anos volvidos, sinto ainda que o Cavaleiro Andante faz parte da minha vida.

Adolfo Simões Muller: o visionário que fazia as publicações acontecerem

Foi na rádio oficial que conheci Adolfo Simões Muller, já não se publicava o Foguetão. Tive uma deceção, pois o amigo que respondia ao correio dos jovens leitores do Cavaleiro Andante era, afinal, um homem fechado e nada popular junto dos trabalhadores mais novos, que o ligavam ao salazarismo. Mas é imperioso fazer justiça ao seu espírito de iniciativa: entre 1935 e 1961, ele fundou e dirigiu, sem interrupção, quatro títulos históricos de banda desenhada: O Papagaio (quando tinha 26 anos!), Diabrete, Cavaleiro Andante e Foguetão. O grande visionário da literatura juvenil deixou-nos em 1989, quase aos 80 anos.

Alexandre Pais,  Sábado, 19/01/2017

EXPRESSO: A lenda da nona arte

CAVALEIRO ANDANTE

DICIONÁRIO DOS AUTORES DE BD E CARTOON EM PORTUGAL

Leonardo de Sá e António Dias de Deus

Época de Ouro/Notícias, 1999, 159 págs., 5800$00, 28,93 euros; Época de Ouro, 1999, 159 págs., 3600$00, 17,96 euros

ENTRE as actividades que vão ocorrendo em torno da banda desenhada em Portugal (publicações, exposições, festivais), duas edições, embora com uma entrada discreta no mercado, marcaram claramente pontos. São elas o Dicionário dos Autores de Banda Desenhada e Cartoon em Portugal e o álbum Cavaleiro Andante, organizadas por Leonardo de Sá e António Dias de Deus. A primeira preenche uma lacuna há muito sentida, colocando nas mãos dos leitores de BD e de outros que por ela se interessam, ou venham a interessar, uma importante obra de consulta de formato e conceito inéditos; enquanto a segunda lhes devolve a lenda, a memória, não só numa perspectiva historiográfica mas de invocação bem documentada, de uma das mais sedutoras revistas de BD até hoje cá publicadas, o «Cavaleiro Andante».

Com mais de 500 verbetes (que vão do século XIX aos nossos dias) e cerca de 100 mil palavras, o Dicionário..., editado em parceria com o Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem (Amadora), não consiste em entradas e nomes de autores, mas quis inovar com um formato de álbum ilustrado graficamente apetecível e recorrendo a uma inteligente interacção com os seus leitores. «Os autores fornecem pistas, sugerem direcções interpretativas, que permitirão aos estudiosos e aos potenciais leitores dispor de um instrumento de trabalho que reconhecemos desde já como imprescindível a quem, de uma maneira ou de outra, se dedica à nona arte e ao cartoon», diz o prefácio. Por outro lado, apresenta-se como uma obra em aberto, que pretende integrar numa próxima edição informações complementares relevantes sobre BD e cartoon que entretanto sejam remetidas pelos leitores ao editor e aos autores.

Embora Portugal continue a não figurar numa obra de referência como The World Encyclopedia of Comics (nova edição de 1998), ao nível do país diversos autores de caricatura e de histórias aos quadrinhos, muitos deles prestigiados artistas, foram mencionados desde meados do século XIX em guias e dicionários bibliográficos e enciclopédias, sem nunca se ter publicado nada de mais completo. Porém, houve diversos projectos, ainda que episódicos, nesse sentido. O actual Dicionário... surge, portanto, na sequência de anteriores tentativas, mas com o recurso a uma extensa pesquisa, que incluiu entrevistas com argumentistas e desenhadores ou com familiares dos já desaparecidos, assim como a consulta de uma quantidade muito significativa de revistas, álbuns, jornais, fanzines e catálogos. É, pois, a primeira obra do género a apresentar um amplo panorama dos autores portugueses e respectivas bibliografias, muitos dos quais se dedicaram não só à BD e ao cartoon mas também a outras artes gráficas e até literárias. Mas o mais importante, para os autores deste Dicionário..., são as múltiplas pistas que este fornece para «um melhor conhecimento da banda desenhada e das restantes formas de imagem», não deixando Leonardo de Sá de sublinhar que em matéria de investigação é muito difícil ter muitas certezas - «Gostaríamos de poder dizer que todos os caminhos imagináveis e inimagináveis foram explorados. Mas é impossível saber se todas as portas foram abertas.» Certamente que não, mas as que foram constituem um autêntico manancial.

Com excelente apresentação gráfica, o álbum Cavaleiro Andante é todo dedicado à revista homónima de BD publicada entre 1954 e 1963. Constitui, além disso, um interessante complemento ao Dicionário..., não tanto pelos autores portugueses que aí são mencionados, à excepção do lendário Fernando Bento (líder na produção de histórias aos quadrinhos longas), mas pela selecção que faz entre os numerosos estrangeiros que então estavam a ser publicados em Portugal. A lista é longa e vai dos italianos (Franco Caprioli, Renato Polese e Gianni De Luca) aos belgas (Edgar P. Jacobs, Hergé e Jigé), passando pelos franceses (Christian Mathelot e Noel Gloesner) e pelos americanos (Kreigh Collins e Warren Tufts). Não surpreende, pois, que o critério de selecção utilizado pelos organizadores possa ser contestado (não há consensos universais), mas o mais importante é que eles deixaram incólume o essencial: «A memória e a nostalgia pertencem aos leitores.»

Uma característica do «Cavaleiro Andante» - legítimo herdeiro de «O Mundo de Aventuras» (iniciado em 1949 com toda a força dos «comics» americanos), de «O Mosquito» (debilitado por rivalidades internas e externas) e de «O Diabrete» (extinto em 1951) - foi pressentir, no final da década de 50, a crise que iriam atravessar as histórias de continuação, introduzidas pelos álbuns belgas e franceses, que até ali eram um traço típico da imprensa juvenil. Foi assim que de acordo com a sua nova estratégia de sobrevivência começou a publicar histórias curtas e completas, em progressivo detrimento da qualidade gráfica e narrativa. Em Agosto de 1962 sairia, para pesar dos leitores, o seu último número: o 556.

VÍTOR QUELHAS, Expresso, 25/03/2000

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