sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Variantes - Uma homenagem à BD portuguesa

«Desde aquela que é considerada a primeira BD Portuguesa (Apontamentos de Raphael Bordallo Pinheiro Sobre a Picaresca Viagem do Imperador do Rasilb Pela Europa) em 1872, até ao fim do século XX, com Tu És a Mulher da Minha Vida, Ela a Mulher dos Meus Sonhos, dos jovens João Fazenda e Pedro Brito em 2000, este livro traça um percurso pelas bandas desenhadas produzidas em Portugal, e homenageia criadores e personagens, numa tentativa de realçar momentos e autores que se foram destacando pela qualidade e significado, numa arte que teima em persistir, mesmo não existindo no contexto nacional».

É assim - em tom de provocação - que Júlio Eme, editor deste projecto inédito começa por apresentar o livro colectânea que se propõe fazer a devida homenagem à BD portuguesa, concretizada numa obra extensa, atenta, representativa da diversidade da 9º arte nacional até ao ano de 2000. Variantes – Homenagem a BD Portuguesa começa desde logo com a descoberta de Bordallo Pinheiro como precursor de uma aventura com muitos nomes a destacar a partir daí. Mesmo enfrentando a difícil penetração num mercado que teima em não se abrir, apesar do reconhecimento internacional e prémios.

http://biblobd.blogspot.com/2022/09/variantes-uma-homenagem-bd-portuguesa.html

1939 – AVENTURAS DUM BONECO REBELDE

Para além de ser um marco incontornável da história da banda desenhada portuguesa, Aventuras dum Boneco Rebelde, a série criada por Sérgio Luiz (1921 – 1943) para a revista O Papagaio, é uma obra de uma notável modernidade, agora como na altura em que foi desenhada, há mais de 70 anos, mostra maior de um talento fulgurante que pouco tempo teve para brilhar.

A criatividade e inventividade do jovem Sérgio Luiz e a forma como joga com as convenções da própria BD, colocam-no como digno representante de uma linhagem que vai de Winsor McCay a Fred, passando por Bill Watterson. Irrequieto e desobediente como o Calvin, o Boneco Rebelde sai do seu frasco de tinta para conhecer o Tintin (personagem que era presença habitual nas páginas d’O Papagaio, onde foi publicado pela primeira vez a cores); é salvo de morrer afogado pelo seu autor, que lhe estende o lápis que lhe dá vida; viaja por todo o lado, do país dos insectos à ilha misteriosa; faz vários clones de si próprio; é estrela de desenhos animados (pois Sérgio Luiz foi também um pioneiro do cinema de animação português, tendo realizado um filme do Boneco Rebelde que se perdeu) e ainda consegue criar uma nova espécie que não vem nos contos de fadas, ao juntar uma bruxa boa e uma bruxa má! Tudo isto em apenas quatro aventuras, vividas nas páginas d’O Papagaio, entre os números 224 (de 27 de Agosto de 1939) e 423, de 20 de Maio de 1943. Na verdade, apesar da sua curta carreira, integralmente vivida nas páginas da revista criada por Adolfo Simões Muller, o Boneco Rebelde vai ainda assim sobreviver por alguns meses ao seu criador, desaparecido em 23 de Janeiro de 1943, com apenas 21 anos, vitimado por uma tuberculose renal.

Fernando Pessoa, a propósito da morte do seu amigo Mário de Sá Carneiro, disse que os deuses levam cedo aqueles que amam. Uma frase que se poderia aplicar com toda a justiça ao jovem leiriense Sérgio Luiz, criador do Boneco Rebelde. A morte trágica e prematura de Sérgio Luiz deixa-nos apenas imaginar até onde o levaria o seu imenso talento, mas se compararmos o desenho de Sérgio Luiz com o de Hergé na sua idade, vemos que também aí poderia ter chegado mesmo muito longe.

João Miguel Lameiras / Texto publicado no livro Variantes


 "O Boneco Rebelde" de Sérgio Luiz era uma versão portuguesa de Tim-Tim que aparecera três anos antes em "O Papagaio" e entra nas três folhas iniciais da primeira aventura do Boneco Rebelde. No livro "Variantes - Uma Homenagem à BD portuguesa" aparece uma homenagem de Paula Cabral ao Boneco Rebelde com a recriação desse encontro com o herói belga.





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