Em suma, das 11 primeiras aventuras de Tintin, apenas não foram divulgadas n’O Papagaio a primeira (Tintin au Pays des Soviets, 1929-30) e a oitava (Le Sceptre d’Ottokar, 1938-39), o que constitui uma autêntica proeza editorial para um pequeno país como nós. Disponho de uma segura teoria pessoal para “explicar” a “exclusão” destas duas histórias, mas isto ficará para outra oportunidade...
Entre 1936 e 1949, limites temporais da divulgação da obra de Hergé na revista nacional, foram aqui publicadas essas nove aventuras de Tintin, criadas entre 1930 e 1943, o que significa, em média, um insignificante “atraso” de cinco anos. Notável!
(...) As páginas soltas dessa história [Tim-Tim em Angola] a que tive acesso, ainda mesmo antes de saber ler-lhes legendas e balões, fascinaram-me. A sua trama, muitas vezes reduzida aos inúmeros episódios (ou gags) inseridos no essencial do seu maravilhoso continuum narrativo, era já perceptível independentemente do fundamental acesso à leitura. Nem dava para percebermos as mutilações derivadas da grosseira remontagem a que os nossos gráficos submetiam as pranchas originais nem sequer o artificialismo do colorido, primário mas sedutor, com que a história “made in Portugal” mascar(r)ava a produção “naïf” de Hergé, criada a preto e branco. (...)
António Martinó de Azevedo Coutinho, 06/07/2010
O anúncio do aparecimento de Tim-Tim foi feito na separata do nº 49 e depois a capa do nº 51 tem um desenho de Hergé a cores com Tim-Tim e Milou (Rom-Rom) ainda de cor branca!
O nº 52 da revista é da autoria de José Lemos e onde aparece apenas Tim-Tim.
As aventuras começaram a ser publicadas no nº 53 de 16 de Abril de 1936.
(imagens publicadas no site de leilões catawiki)
AVENTURAS PUBLICADAS EM O PAPAGAIO
Tim-Tim na América do Norte (Tintin na América, #53-#110) #53 de 16 de Abril de 1936 ao #110 de 20 de Maio de 1937
Tim-Tim no Oriente (Os Charutos do Faraó, #115-#161) #115 de 24 de Junho de 1937 ao #161 de 12 de Maio de 1938
Novas Aventuras de Tim-Tim (O Lótus Azul, #166-#205) #166 de 16 de Junho de 1938 ao #205 de 16 de Março de 1939
Tim-Tim em Angola (Tintin no Congo, #209-#244) #209 de 13 de Abril de 1939 ao #244 de 14 de Dezembro de 1939
Tim-Tim e o Mistério da Orelha Quebrada ([O Mistério da] Orelha Quebrada, #247-#298) #247 de 4 de Janeiro de 1940 ao #298 de 26 de Dezembro de 1940
Tim-Tim Na Ilha Negra (A Ilha Negra, #301-#359) #301 de 16 de Janeiro de 1941 ao #359 de 26 de Fevereiro de 1942
Tim-Tim no Deserto (O Caranguejo das Tenazes de Ouro, #366-#426) #366 de 16 de Abril de 1942 ao #426 de 10 de Junho de 1943
A Estrela Misteriosa (#435-#540) #435 de 12 de Agosto de 1943 ao #540 de 16 de Agosto de 1945
O Segredo da Licorne (O Segredo do Licorne, #617-#679) #617 de 6 de Fevereiro de 1947 ao #679 de 15 de Abril de 1948
Curiosamente a primeira aventura de Tintin (Sovietes) foi pedida mas não foi enviada por estar esgotada. (*)
Em maio de 1936, perante os primeiros números de O Papagaio com as Aventuras de Tim-Tim na América do Norte, que acabara de receber, Hergé respondeu a O Papagaio: “Estou muito contente por ver os meus desenhos aparecerem coloridos. Poderia tratar-se de uma reação de cortesia, mas a verdade é que Hergé não mudou de opinião durante os 12 anos em que O Papagaio publicou aventuras de Tim-Tim.
Teve muitas oportunidades para o fazer: quando terminava a publicação de uma aventura n’O Papagaio, era necessário “encomendar” uma outra. A título de exemplo: em maio de 1938, O Papagaio acusa a receção do Le Lotus Bleu, cuja publicação irá anunciar em breve, e pede o envio do Tintin au Congo e do Tintin en URSS (sic).
Dois meses depois, Hergé envia o Congo mas, quanto ao URSS lamenta, mas não o envia pois está completamente esgotado; por outro lado, acrescenta Hergé, “tratando-se dos primeiros desenhos que publiquei, são muito pouco apresentáveis e não vos agradariam de todo”. Não enviou o URSS, mas também não o voltou a publicar. Sobre o Congo não fez qualquer exigência.
Caso estivesse descontente, Hergé poderia em qualquer dessas “encomendas”, ter dito não, ou exigir alterações à coloração. Nunca o fez. No caso do Congo, até aceitou que a colónia belga do Congo fosse substituída, n’O Papagaio, pela colónia portuguesa de Angola, com as necessárias adaptações do texto daí decorrentes.
(...)
António Cabral, texto publicado na Monografia de José Azevedo e Menezes.
















