Em junho de 1979, uma grande exposição, que posteriormente seria itinerante, foi inaugurada no Palais des Beaux Arts, em Bruxelas. Os detalhes do seu conteúdo escapam a Hergé, mas os seus idealizadores explicaram-lhe que se tratava de comparar os objetos míticos colecionados por Tintin durante as suas aventuras com os objetos reais que os inspiraram. No cartaz da exposição, Hergé tenta organizar a incursão dos seus personagens principais no meio de uma instalação imaginária que provavelmente deixaria todos os colecionadores loucos de inveja (Excerto: Cronologia de uma obra–volume 7, Boletim Timtimportimtim nº 18, 24/04/2026)
TINTIN: um museu do imaginário
REPÓRTER que nunca escreveu uma notícia, descobridor da China de Chiang Kai-Chek, da Lua muito antes de Armstrong e da missão Apolo 11, e do extra-sensorial no Tibete, a famosa criação do belga Hergé, Tintin, dispõe de um «Museu Imaginário», coisa de que mais nenhum outro herói dos quadradinhos poderá gabar-se.
A exposição iniciou a sua carreira no palácio das belas-artes de Bruxelas, onde amadores de BD, tintinólogos e hergenianos dos sete aos setenta e sete anos se comprimiram para apreciar os troféus e signos do seu imaginário.
O universo dos objectos inscritos nas quase duas dúzias e meia de álbuns de Tintin, encontravam-se expostos à altura de uma criança de oito anos, ombreando com as diferentes edições dos álbuns.
Cargueiros, carros, caixas de marisco, aviões, cetros, espingardas, cachimbos de ópio, máscaras africanas, completavam a colecção de autênticas peças, que inspiraram Hergé.
Uma das características mais marcantes da obra deste patrono da BD de expressão belga, é o extraordinário rigor de criação: um Buda de Sião («Os Charutos do Faraó»), uma túnica de homem leopardo (Tintin no Congo), uma máscara bariba de Dahomey (A Orelha Quebrada) e o famoso «fetiche» arumbaya, que não é mais do uma soberba estátua peruana pré-columbiana.
No entanto, a peça mais espantosa é, incontestavelmente, a múmia do inca Rascar-Capac, que aterrorizou gerações de leitores das «Sete Bolas de Cristal»: trata-se, na realidade, de uma múmia paraka do Peru, exposta pela primeira vez.
Os objectos estavam dispostos de modo a sugerirem uma espécie de Atlas do Mundo: Congo, América, China, Japão, Peru, Escócia, Deserto, Lua, campo dos extraterrestres, etc.
Ao lado destas peças raríssimas, podia-se ver em reconstituição, imagens dos álbuns, concebidos à dimensão de um «écran» de cinema: o ceptro de Ottokar, o retrato em pé do cavaleiro François Hadoque (1656-1755), os cigarros do farão Kih-Oskh, as cabeleiras multicores de Dupont e Dupond, a casa de ópio do «Lótus Azul» e o quarto de Tintin, recriados à escala liliputeana.
Após este esforço de reconstituição a três dimensões do universo de Tintin, uma pergunta se colocou a muita gente:
Será que Tintin está prestes a morrer?
«Morrerá comigo», respondeu Hergé.
Mas, para alegria de todos os seus admiradores, esse momento ainda está longe. Pelo menos, é o que se pode deduzir do entusiasmo com que Hergé congemina novas aventuras para o seu repórter.
Exposição itinerante, percorreu já o Centro Contemporâneo de Artes Plásticas, de Bordéus e o Centro da Comunidade Francófona da Bélgica, em Paris. Depois, «pulou» para Washington.
Onde estará neste momento? Ignoramos.
Mas a sugestão pode ficar, à laia de remate desta breve evocação do universo de Tintin no mundo dos seus admiradores: haverá por aí alguém interessado em sugerir aos serviços culturais belgas ou franceses a vinda da exposição ao nosso país? Era bem capaz de ter a sua piada.
Carlos Pessoa, Diário de Lisboa, 04/09/1982





















