Mostrar mensagens com a etiqueta Perguntas Frequentes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Perguntas Frequentes. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Tornesol : um indicador do PH


Surdo como uma porta, o professor Girassol é conhecido por nunca perceber o que lhe dizem e andar sempre de cabeça no ar. Exemplo de um diálogo entre o professor e o capitão Haddock, tirado do álbum "O Caso Girassol": Com que então vocês apostaram todos em pôr-me maluco?... Não sei o que me impede de vos correr a todos a tiro de carabina...", barafusta o capitão. "Escarlatina??? Na sua idade?!... Meu Deus!..." O facto de Hergé ter dado este nome ao cientista que, nas aventuras de Tintim anda sempre a inventar de engenhocas estranhas, não deverá ser alheio ao facto de andar distraído a olhar para cima e a virar a cabeça para todos os lados. Um pouco como a flor dos girassóis, sempre à cata da luz do Sol.

Mas há quem diga que o nome de Girassol não deveria ser traduzido para português, e assim deveríamos ter nos álbuns portugueses o professor Tournesol. Ora, em francês esta palavra tem um duplo sentido - de girassol (a esguia planta com as enormes flores amarelas) e de tornesol (a substância química usada como indicador do pH).

O tornesol é uma substância solúvel de cor púrpura extraída de certos líquenes. É composta por diversos corantes e muda de cor. Passa a vermelho, quando está na presença de uma solução ácida (com pH inferior a 5), e a azul, na presença de uma solução básica ou alcalina (com pH superior a 8). A este indicador do pH chama-se azul de tornesol.

Os árabes usavam o tornesol como corante vegetal de tecidos. Foram também os árabes a avançar na classificação dos químicos, fazendo o reconhecimento das soluções de ácidos, bases e sais. Para tal usaram vários corantes vegetais, incluindo o tornesol, que hoje é familiar a qualquer estudante de química. Este indicador pode aplicar-se usando o chamado "papel de tornesol", que é uma banda de papel embebida em solução de tornesol. Mas quem quiser pode fazer papel de tornesol caseiro. Basta embeber um papel poroso, como o papel pardo das mercearias, numa solução aquosa de amoras roxas esmagadas. O papel de tornesol feito com amoras fica vermelho rosado nos ácidos e roxo escuro nas bases.

Sinal de que o nome do cientista algo estouvado se presta a muitas interpretações é o que diz a Tintim e ao capitão Haddock um dos raptores do professor no álbum "O Caso Girassol", ao mesmo tempo que é forçado a abrir a bagageira do carro. "Girassol? Que é isso, Girassol?... Uma planta?... Um animal?... Um produto químico?..." Mais adiante, ironiza ainda: "Pronto, onde está o vosso Mirassol... Na caixa dos primeiros socorros, talvez?"

Teresa Firmino, Público, 16 /01/2004

Copyright: © 2004 Público; TF


Em Portugal chamou-se Professor Pintadinho, Tornesol e Girassol. 

Professor Calculus em inglês. 

Silvestre Tornasol em espanhol (mas esteve previsto Mariposa).

Zonnebloem em holandês. 

Girasole em italiano.

Bienlein em alemão.


sexta-feira, 20 de junho de 2025

H de Haddock


Dicionário de Literatura Infantil e Juvenil

Personagem secundária de um incontornável universo imagético literário, visual e cultural do século XX: a internacionalíssima coleção de banda desenhada Tintin, a preferida do seu genial criador Hergé (Georges Remi, 1907 / 1983). Talvez inspirada em Edgar P. Jacobs (autor de Blake & Mortimer), em Bob de Moor ou num irmão militar de Hergé, nem os críticos e especialistas estão de acordo quanto às origens deste anti-herói que tantas vezes rouba protagonismo ao jovem repórter. Apesar de ter nascido na 15ª edição da revista Le Soir Jeunesse (2 de janeiro de 1941), apenas na nona aventura, "O Caranguejo das Tenazes de ouro" (1941), assume as funções de capitão do cargueiro Karaboudjan, sofrendo com delirium tremens e com alucinações em formato de garrafas de whisky Loch Lomond. Só em "Tintim e os pícaros", em 1976, ficamos a saber que o seu nome próprio é Archibald.

Personagem complexa e controversa, a merecer a atenção prolífera, muitas vezes acusatória, de especialistas das mais diversas áreas (médicos, psiquiatras e psicanalistas, filósofos, linguistas, biógrafos, críticos e tintinófilos), o Capitão Haddock sofre de múltiplas patologias: alucinações, falhas de memória, perturbações de visão e alcoolismo. Tem propensão para o acidente e é irascível e temperamental. Mas, com mil milhões de macacos, Haddock é também a personagem mais deliciosamente malcriada e cavalheiresca, generosa, mal humorada, leal, distraída, cómica, corajosa, viciada, rude, nobre, paternal, fanfarrona, imaginativa, poética, bondosa, humana, pluridimensional e inesquecível do universo da banda desenhada (enquanto literatura, ilustração e texto contando uma história, em inextricável ligação).

-

O registo discursivo haddockiano gora sistematicamente as expetativas do desprevenido leitor: à rudeza convencional do linguajar dos marinheiros sobrepõe-se a mestria das imprecações mais enfáticas, dos mais bizarros palavrões, de científicos insultos, de invetivas eruditas e musicais, de injúrias operísticas, de ofensas misteriosas e sofisticadas; cultor da arte do insulto, em explosões intrincadas, criador de neologismos, arcaísmos e de outros termos merecedores de rigorosa exegese e investigação comparativa em estudos de tradução. Os diálogos magistrais, de uma expressividade vigorosa e cénica, os júbilos imagéticos, as sonoras onomatopeias barrocas e as inesperadas metáforas, em nuances surrealistas, tornaram desafiadora a tarefa de tradução, hoje em dezenas de línguas, mas expandem o longo e fabuloso glossário.

Nota: dedicamos esta entrada aos ectoplasmas, protozoários, mamelucos, zuavos, fariseus, catacreses, anacolutos e apotegmas, bibelôs, cataplasmas, brontossauros, canibais emplumados, polichinelos grotescos, extratos de hidrocarboneto, piratas de água doce e afins que porventura dúvidas possam ter acerca dos benefícios linguísticos, nomeadamente sobre o impacto da leitura da obra de Hergé, no desenvolvimento da consciência fonológica e interlinguística, ou sobre os contributos da leitura de banda desenhada para a ampliação do léxico de crianças, jovens e adultos.

Paula Pina, Professora universitária, co-autora do blogue Cria-Cria

versão integral de um texto originalmente publicado na revista Blimunda n.º 27, de agosto 2014

«Criado por Hergé em 1940, em "O caranguejo das tenazes de Ouro", nono álbum das aventuras de Tintim, Haddock, que se tornou num amigo inseparável do famoso jornalista, foi desde logo mostrado como alcoólico. Na versão colorida, datada de 1944, Haddock aparece pela primeira vez, já ébrio, na prancha 14, mas é preciso esperar até à 43 para o ver de cachimbo na boca. Os seus vícios, que inspiraram gags memoráveis, acompanharam-no ao longo dos álbuns e surgiram muitas vezes em lugar de destaque no merchandising a ele associado.»

Pedro Cleto, 2010



quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Idade das personagens

Recentemente, perguntava-me Geraldes Lino qual era a idade de Tintin, e se Hergé se teria pronunciado sobre isso. A minha ideia era de que não, mas parece que o terá feito numa carta a um leitor, atribuindo-lhe 15 anos. Independentemente da idoneidade do criador de Tintin, e de outras abalizadas concordâncias, permito-me discordar. Mesmo sem ir investigar qual seria a idade mínima para se poder ser jornalista na Bélgica da época (se é que havia),  o que provavelmente não preocupou  o jovem Hergé, a análise de toda a obra, a psicologia e maturidade de Tintin mas mais variadas circunstâncias, apontam para um mínimo de 17/18 anos - e será até mais legítimo pôr-lhe mais uns anitos do que tirá-los. (...)

JP Boléo, Quadrado nº 1  Vol. 3 (2000)

+

PERGUNTAS A HERGÉ - ANTIGA VERSÃO PORTUGUESA DO SITE TINTIN.BE

Bom dia!

Que idade tinha o personagem Tintim nas bandas desenhadas?

Resposta : Para : Client InterLinx, 02:59 pm 23 de Abril 1996

De : info@tintin.be

Caro senhor (...),

Com o intuito de dar resposta à sua questão, pedimos-lhe que leia duas cartas seguintes, escritas pela mão de Hergé a propósito da idade dos seus personagens.

1) Carta de 20 de Abril 1976.

Caro amigo,

As perguntas que me colocou na sua carta do dia 9 do corrente são relativamente embaraçosas pois, ao criar as minhas personagens, não me preocupei em lhes dar uma idade precisa.

Sem garantia alguma, poderíamos dar, aproximadamente:

50 anos ao professor Girassol

45 anos a Rastapopoulos

45 anos à Castafiore

40 anos aos Dupondt

40 anos a Nestor

e 10 anos a Tchang

Quanto à outra questão: Tintim veste um tipo de roupa que não variou durante 47 anos. Foi somente para os PICAROS, álbum que acaba de sair, que ele trocou as velhas calças de golf por jeans azuis.

Atenciosamente,

Hergé

 



2) Carta de 28 de Dezembro 1970

Querida menina,

Estou-lhe a responder à carta que me enviou no dia 17 de Dezembro.

As suas perguntas embaraçam-me um pouco, visto que (salvo Tintim) são perguntas às quais nunca tive de responder até hoje. A sua curiosidade (ou a do seu tio) leva a interrogar-me a mim próprio sobre esses pontos de grande importância!!!...

Tintim tinha cerca de 14 anos no início; 41 anos mais tarde, tem cerca de 17. É curioso mas é assim... relativamente aos outros, dava 12 anos a Joana e João (bem mais gémeos que os Dupondt), 10 anos a Quim e 8 a Filipe.

Estes últimos nasceram em 1929. O nascimento de Joana e João deu-se aquando da publicação primeiros números da revista "Coeur Vaillants" onde eles apareceram pela primeira vez: acho que foi em 1936. Se Quim e Filipe são claramente belgas, Joana e João são de nacionalidade francesa.

Diga à sua mãe que não sei se o signor Cartofoli voltará a aparecer...

Agradecido pelos seus votos, também lhe endereço os meus com amizade.

Hergé.

tintin. be Traduzido e adaptado do francês por CGM

Infelizmente não existe nenhum newsgroup dedicado ao Mundo de Hergé nos dias que correm. Todavia, inúmeras são as perguntas que nos chegam por correio electrónico que, pelo interesse demonstrado, merecem um tratamento especial. Deste modo, encontrará aqui algumas respostas dadas por Hergé às vossas interrogações.

Para a primeira, escolhemos um tema bem clássico:

Que idade tem Tintim?

E se, em vez de nós, fosse o autor a responder à pergunta...

Pergunta: De : Cliente InterLinx, 08:17 am 21 de Abril 1996 / Tintin.be



domingo, 6 de outubro de 2024

Cão ou cadela?

 

«Se Milou fosse uma cadela, e não um cão, como todos sabemos desde sempre, parece-me que Hergé já o teria afirmado numa das suas muitas entrevistas (...) »



Texto de Rui Garcia (RG)

A primeira Bedeteca portuguesa foi inaugurada em 1990, na sede da Comissão de Jovens de Ramalde (CJR), no Porto, como um dos projectos do Comicarte que então também organizava o Salão Internacional de BD do Porto. Com a saída daquele núcleo de BD do seio da CJR, em 1995, a Bedeteca estagnou, apesar do acervo ainda existir. - JN

A Bedeteca do porto voltou a funcionar sendo de destacar também o novo site.

+

MACHO OU FÊMEA?

Um dos grandes segredos de Hergé é o sexo do fiel companheiro de Tintin: Milou. Será macho ou fêmea?  Os tintinólogos Benoît Peeters e Jean-Marie Apostolidés já tentaram analizar o comportamento de Milou, mas nada concluíram definitivamente acerca do seu sexo. É certo que Hergé ao longo da sua obra sempre atribuíu a Milou uma elegância de uma jovem menina, coquete e regateador (a). Até mesmo n' «A Estrela Misteriosa», Milou apresenta-se com uma touca ornada de laçarotes rosas e no «Carvão no Porão», o endiabrado Abdallah mascara-o(a) com uma capa também rosa. E não esquecer que Milou tem medo de aranhas, uma característica muito peculiar do sexo feminino. Mas tudo isto em nada prova se Milou é um cão ou... uma cadela!


várias fotografias da Rom-Rom desde a sua infância
montagem de O Papagaio (nº 503) publicada na Monografia de José Azevedo e Menezes    
 


segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Oliveira da Figueira

[O Sr. Oliveira da Figueira é um mercador português que aparece]  em 62 vinhetas (das versões actuais coloridas) das aventuras de Tintin.

(...) Oliveira da Figueira surgiu pela primeira vez em Os Charutos do Faraó, na edição a preto e branco de 1934, apresentado então como um vendedor fala-barato que convence o herói a comprar um sem número de objectos inúteis. 

Curiosamente, nessa versão a preto e branco daquele primeiro álbum, Oliveira da Figueira é dado como morto por um dos membros da seita de Kih-Oskh, menção que Hergé eliminaria na versão colorida, permitindo que regressasse ao convívio de Tintin, sempre disponível para o auxiliar, em Tintin no país do Ouro Negro (1939) e em Carvão no Porão (1958), aqui já como Oliveira de Figueira. Em As Jóias da Castafiore (1963), envia um telegrama ao Capitão Haddock com os seus parabéns pelo seu (suposto) casamento com a cantora lírica.

Pedro Cleto, As Leituras do Pedro, 10/11/2021

Português de Lisboa e também um-português-das-Arábias, trota-mundos e aldrabão-de-feira, o senhor Oliveira da Figueira é uma das figuras que Hergé imortalizou na sua obra. Entre as três personagens lusitanas criadas pelo pai de Tintin, Oliveira da Figueira é de longe a mais consistente, surgindo em três álbuns “ao vivo” e num outro através de uma simples comunicação.

Na aventura "Les Cigares du Pharaon", Tintin é apresentado pelo capitão de um navio ao senhor Oliveira da Figueira, de Lisboa. De imediato este, vendedor-ambulante compulsivo, começa a exercer a sua arte, impingindo a Tintin toda uma panóplia de inutilidades. Mas tarde, em pleno deserto, Tintin assiste a uma sessão de vendas do negociante frente a um conjunto de árabes que o apelidam de “O-branco-que-vende-de-tudo“.

Na história "Tintin au Pays de l’Or Noir", Oliveira da Figueira desempenha um papel importante. Tintin encontra-o à porta do seu estabelecimento, porque então já se tinha fixado com um bazar, em Wadesdad. Vestido de árabe, Tintin não é de imediato reconhecido pelo amigo, que de início o trata por “jovem príncipe”. Mas, reconhecendo-o e muito feliz pelo reencontro, Oliveira da Figueira oferece-lhe um bom vinho de Portugal, do sol do seu país.

Tintin pede ao amigo que o introduza em casa do professor Smith, ao que ele acede e, já lá dentro, apresenta-o aos funcionários da casa como o seu “sobrinho Álvaro”, acabado de chegar de Portugal. Diz que ele é órfão, um pouco simplório, e ao contar a vida do “sobrinho” profere a deixa que permite a Tintin afastar-se. Enquanto o jornalista se confronta com o professor Smith, continua Oliveira da Figueira a entreter os seus ouvintes com a dramática história da vida do “sobrinho”, por este arriscando a própria segurança.

Nova intervenção, e valiosa, assume Oliveira da Figueira em "Coke en Stock" quando concede direito de “asilo político” a Tintin e Haddock, perseguidos em Wadesdad, transmitindo-lhes preciosas informações e conseguindo orientar depois a sua retirada em relativa segurança.

Na obra "Les Bijoux de La Castafiore", Oliveira da Figueira não está presente, mas envia a Moulinsart um telegrama, sendo mesmo um dos primeiros a felicitar o amigo capitão Haddock pelo seu “casamento” com a Diva Bianca Castafiore.

Temos portanto em Oliveira da Figueira uma certa representação simbólica do espírito aventureiro e empreendedor do português de outrora, que conquistou novos Mundos ao Mundo.

“Senti-me uma espécie de Oliveira da Figueira. Lembram-se de uma personagem do Tintin que vendia tudo nos mercados externos, tinha uma pasta e negociava uma série de produtos?“, disse o então ministro Paulo Portas durante a inauguração da Feira Internacional de Maputo (Facim), em Agosto de 2015, quando se referia, em declarações aos jornalistas, à sua assiduidade em eventos daquele género.

Mostrou, no mínimo, ser um bom conhecedor da obra de Hergé. Já não é mau de todo…



Voz Portalegrense, 2006

consumo aos quadradinhos

Oliveira da Figueira: um vendedor compulsivo

São peculiares as circunstâncias em que Tintin, o herói da banda desenhada criado por Hergé, conhece este comerciante lisboeta. O encontro entre ambos ocorre algures no Mar Vermelho, num barco que recolhe o personagem depois de este ter sido abandonado à sua sorte num... sarcófago, a 10 milhas da costa da Arábia. A bordo do barco que salva Tintin de uma morte horrível está um passageiro simpático e expansivo, Oliveira da Figueira de seu nome. "Encantado, senhor, estou encantado, e ofereço-lhe os meus préstimos imediatamente: posso fornecer-lhe, a preços sem concorrência, qualquer artigo de que necessitar", declara logo no momento em que é apresentado a Tintin pelo capitão do navio.

A sequência que se segue — duas tiras que compõem a metade inferior da prancha número 13 do álbum "Os Charutos do Faraó" (edição Difusão Verbo) — é a todos os títulos brilhante e mostra bem que a arte de vender é algo que foi inventado muito antes de o "marketing" ter sido elevado à categoria de disciplina universitária. Constitui, também, uma feliz ilustração, em registo humorístico e caricatural, dos "alçapões" e armadilhas que a sedução consumista pode exercer mesmo sobre um herói avisado, inteligente e analítico como Tintin. Carregado com uma montanha de objectos, que têm tanto de disparatado como de desnecessário, o herói não se coíbe mesmo a proclamar uma consciência de consumidor esclarecido que os factos não comprovam: "Felizmente, não me deixei ir na conversa dele. A tipos como este, acaba-se, quase sempre, por comprar uma data de coisas inúteis". Uma tirada "épica" perante um marinheiro negro de olhos arregalados e que, tudo leva a crer, não ficará com muito boa impressão de Tintin.

E se o herói acaba por se deixar embriagar pela verborreia de vendedor de "banha da cobra" de Oliveira da Figueira, este terá novas oportunidades de evidenciar as suas inatas qualidades de bom vendedor, capaz de escoar a sua mercadoria até em pleno deserto, como se verá algumas tiras mais à frente, na mesma aventura.

Tintin voltará a encontrá-lo muito mais tarde em Wadesdah (Khemed), onde parece ter-se fixado, adoptando os hábitos e costumes locais. É graças ao comerciante português que o herói de Hergé conseguirá penetrar na fortaleza do professor Smith (que não é outro senão o doutor Müller) em "No País do Ouro Negro". Tintin e o capitão Haddock são obrigados a pedir asilo a Oliveira da Figueira que, não apenas contente por recebê-los em sua casa, lhes fornece os disfarces que necessitam.

Dará sinais de vida uma terceira vez. Rapidamente informado do anunciado casamento de Haddock com a Castafiore, o português será um dos primeiros a felicitar os dois ("As Jóias de Castafiore"). Comerciante prevenido...

Luis Euripo, Revista O Consumidor nº 92





(outras imagens retiradas de Insónias de Carvão e Facebook M. Silvestre Gago)




segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Personagens


Quantos personagens existem nas aventuras de Tintin? Cyrille Mozgovine inventariou 325, de Abdallah a Zorrino, num dicionário de nomes próprios publicado em 1992 pelas Éditions Casterman. De fora, ficaram os álbuns “Tintin au Pays des Soviets” e “Tintin et l’Alph-Art”, apenas publicados a preto e branco (o último, aliás, é uma obra deixada incompleta por Hergé), assim como as obras realizadas a partir de filmes ou de desenhos animados.

Numa selecção absolutamente subjectiva, o PÚBLICO escolheu 30 personagens - aqueles que, por razões várias, podem ser considerados os mais marcantes, fortes ou decisivos nas aventuras de Tintin.

Público, 20/09/2003

Bianca Castafiore

Nestor

Dupond & Dupont

Serafim Lampião

Abdallah

Alcazar

Boris Coronel

Bada Ramon

Fakir

Laszlo Carreidas

Irma

Gibbons

Doutor Krollspell

Jules

Zorrino

Milou

Oliveira de Figueira

Müller

Roberto Rastapopoulos

Pablo

Pedro João dos Santos

Coronel Sponsz

Tintim

Tchang

Capitão Archibald Haddock

Tournesol

Igor Wagner

https://static.publico.pt/coleccoes/tintim/PERSONAGENS.htm

artigo do Jornal Público

Companheiros de aventuras

Milu

Companheiro inseparável de Tintim, Milu é um fox-terrier de uma brancura pouco habitual. Verdadeira sombra do protagonista, era o único ser com quem Tintim falava no ínicio da sua saga de aventuras.

Capitão Haddock

Ex-oficial da marinha mercante, é o melhor amigo de Tintim. Tem um feitio difícil e problemas com a bebida. Surge pela primeira vez n' "O caranguejo das Tenazes de Ouro".

Professor Girassol

Criado no livro "O Tesouro de Rackham o Terrível" é um ciencista genial que sofre de problemas auditivos e é muito distraído.

Dupond e Dupont

Apareceram pela primeira vez no "Os Charutos do Faraó" e são dois detetives imbecis e pretenciosos e a maior fonte de humor de toda a obra.

Cristina Alves, Expresso, 07/01/2003

-

No decorrer das suas muitas aventuras, desenvolvidas ao longo de quase meio século, Tintin cruzou-se com inúmeras personagens ricas e diversificadas, 326 segundo “L’abcedaire Tintin: de Abdallah à Zorrino”, de Cyrille Mozgovine, que os identifica e analisa com rigor, humor e perspicácia. 

Pedro Cleto, 2004


sábado, 28 de março de 2020

Gémeos falsos ou falsos gémeos?

De Pedro Brás Marques recebemos um email, referindo-se aos ‘comentários’ trocados no post “Gémeos”. Dado o interesse, transcrevemos as partes mais significativas:

“(…) Segundo os estudiosos da obra de Hergé, que já se contam às dezenas, os Dupont não são gémeos: não têm nome igual, nem são iguais. O nome já o sabem; quanto às diferenças, elas encontram-se no desenho do bigode, como adiante se explicará.

Foi o próprio Hergé quem assim estabeleceu o par de detectives, logo na sua primeira aparição, no álbum “Os Cigarros do Faraó”, em 1934, ainda no “Le Petit ‘Vingtiéme’”, com os nomes de X33 e X33bis. Repare-se no que diz Benoit Peeters, em “Le Monde D’Hergé” (Casterman, 1983, pag. 96), “Se ressemblant de manière hallucinante (quoique n’étant nullement parents), les deux représentants de la P.J. ne peuvent être distingués que par un seul trait : le style de leur moustache”. Mas, o mesmo autor, na biografia “Hergé-Fils de Tintin” (Flammarion, 2002, pag. 105) admite que o par de detectives possa ser visto como “un echo probable de son pére et de son oncle, les jumeaux inséparables”, mas continua a afirmar que não são gémeos.

No fantástico “Tintin chez Jules Verne” (LeFranq, 1998, pag 43 e ss.) onde se conclui que Hergé terá ido buscar inspiração (demasiada, até, basta ver…[aqui e aqui]) ao visionário romancista francês, escrevem J.P. Tomasi e M. Deligne, que “cês jumeux-lá ne le sont en fait pás du tout”. Para estes autores, Hergé ter-se-á baseado na dupla de detectives Craig e Fry, do livro, de J. Verne, ‘As Atribulações de um chinês na China’. Mas as semelhanças físicas são, claramente, as dos personagens Arminius e Sigimer, de “Cinq Cents Millions de la Bégum”, um com a barba arredondada e outra cortada em triângulo, como se pode ver nas páginas web indicadas.

No site oficial também pode ser encontrada explicação idêntica: “Leur ressemblance est extraordinaire: bien qu'ils ne soient ni jumeaux ni même frères, rien ne les distingue à première vue. Seule la forme de la moustache diffère. Comme l'expliquait Hergé, Dupond avec "d" a les moustaches droites, alors que Dupont avec "t" a les siennes un tantinet tire-bouchonnées”.

Assim, espero ter esclarecido as dúvidas aos Dupont(d).”

Pedro Brás Marques

Depois de lermos, e relermos, este texto, ficamos perfeitamente siderados. A partir deste momento, a nossa vida fraternal ficou irremediavelmente comprometida, como os leitores poderão ver pela imagem. 

Já não olhamos um para o outro como irmãos. Vidas desfeitas, foi o que Pedro Brás Marques conseguiu. Porventura, o melhor é convidá-lo para vir para ‘O Vilacondense’, uma vez que parece saber tanto da nossa “família”. Poderia ser, por exemplo… o Milu.

Dupond & Dupont

https://arquivo.pt/wayback/20050621223045/http://ovilacondense.blogspot.com/2003/10/gmeos-falsos-ou-falsos-gmeos.html

30/10/2003

Mas, contrariando essa habitual ideia, na minha opinião os Dupondt não são gémeos.
Vou reproduzir a argumentação que expus no meu fanzine Efeméride (nº4, Janeiro 2009) dedicado ao tema "Tintim no Século XXI", que foi a seguinte:

"(...) os aparentemente gémeos Dupond e Dupont nem sequer irmãos são. 

Como justificar a afirmativa? Porque as pessoas da mesma família têm apelidos iguais, tão simples quanto isso.

Nesse caso, qual a explicação para a incrível e rigorosa semelhança (excepto, claro, no bigode)?
Mera coincidência física, reforçada pelos fatos iguais - quiçá farda à paisana fornecida pela polícia belga, outra hipótese inédita - ou, em última análise, fruto da liberdade artística em prol do humor. (...)"

Geraldes Lino, Divulgando Banda Desenhada, 07/09/2015

Por isso estarão erradas outras teorias:

Dupond e Dupont, Dois Gémos Famosos

De repente, duas figuras iguaizinhas espreitam por uma porta e entram em cena. Estão vestidas a rigor, fato preto completo, bengala e chapéu de coco. São os famosos gémeos Dupond e Dupont. A primeira aparição nas aventuras de Tintim destes gémeos, que também copiaram entre si a profissão de detective, é precisamente no álbum "Os Charutos do Faraó", que começou a ser publicado em 1932.

Além de ambos serem desastrados, costumam manifestar o facto de serem uma cópia genética um do outro nas palavras. "Palavra de Dupond, ele não irá longe!" Ao que o outro retorquiu: "Direi mesmo mais: ele não irá longe, palavra de Dupont!"

Os gémeos sempre fascinaram os outros, nem que seja por questionarem a ideia de que cada ser humano é único. Eles também o são, mas também têm muitas semelhanças. Hergé não escapou a esse fascínio, mas quando criou Dupond e Dupont, o nascimento de gémeos ainda não era tão frequente como nos últimos 25 anos.

O aumento de gémeos está associado às técnicas de fertilidade. O primeiro bebé-proveta, a inglesa Louise Brown, nasceu em 1978. Em Julho, comemorou 25 anos e voltou, tal como quando nasceu, a encher páginas de jornais. Em Portugal, o primeiro bebé-proveta nasceu a 25 de Fevereiro de 1986. Chama-se Carlos Miguel Saleiro e é jogador de futebol, integrando a selecção nacional de sub-17.

Em geral, apenas um por cento dos nascimentos produz gémeos, mas a percentagem pode chegar aos 15 a 30 por cento na fertilização "in-vitro". Nestas técnicas, fertilizam-se vários ovócitos com espermatozóides e depois implantam-se no útero vários embriões ao mesmo tempo, para aumentar as taxas de sucesso. Só que podem vingar todos, ou pelo menos dois, e os pais acabam por ter gémeos nos braços.

Os seis gémeos que uma mulher da Madeira deu à luz, em 2002, na Maternidade Alfredo da Costa, não resultaram da transferência de embriões, mas de um tratamento hormonal, para estimulação ovárica, para em seguida fazer-se a colheita de ovócitos. O problema foi que a seguir a esse tratamento houve relações sexuais, apesar de terem sido proibidas pelos médicos. Foi a primeira vez que se registou em Portugal o nascimento de seis gémeos, mas nenhum sobreviveu.

Diz-se que estes gémeos, que também podem surgir naturalmente, sem a intervenção dos médicos, são fraternos, ou dizigóticos, pois resultam da fertilização de vários ovócitos por vários espermatozóides. Logo, não têm a mesma composição genética e podem ser de sexos diferentes.

Dupond e Dupont não pertencem a este tipo de gémeos. Como espelho um do outro, são gémeos idênticos ou monozigóticos: provêm de um único óvulo fertilizado, que depois se separa e dá origem a dois bebés geneticamente idênticos, do mesmo sexo. Por outras palavras, são clones. 

Teresa Firmino, Público. 14/11/2003