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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Presidenciais 1976

O jornal "A Rua", fundado em 1976, era dirigido por Manuel Maria Múrias (1928-2000).

Numa das edições do jornal "A Rua", a propósito das eleições presidenciais de 1976, foi publicado um cartoon onde aparece o candidato Pinheiro de Azevedo e onde também aparece Tintin e Milou.


Os cartoons não eram todos de grande qualidade embora alguns tivessem interesse. O livro "Um ano n' A Rua – 1º volume" reuniu os cartoons políticos das edições do jornal "A Rua" entre os números 1 a 26, de 9 de Abril de 1976 a 30 de Setembro de 1976.

(imagem cedida por Letras Velhas Alfarrabista)

Análise IA

Esta imagem é um cartoon político da autoria do caricaturista português Augusto Cid (1941-2019). A obra, com a legenda "política nacional" e a fala "homem de palavra, não é?", satiriza a figura do General António Ramalho Eanes e as suas declarações políticas, provavelmente relacionadas com a sua candidatura ou recandidatura à Presidência da República Portuguesa. 

Análise do Cartoon

Personagem Principal: A figura central fardada representa o General Ramalho Eanes, que foi Presidente da República de Portugal entre 1976 e 1986.

Contexto Político: O diálogo no balão de fala refere-se especificamente a uma declaração em que Eanes teria dito: "...EU SÓ DISSE QUE NÃO ME CANDIDATAVA A PR SE UM MILITAR SE CANDIDATASSE!... SE SE CANDIDATAREM DOIS MILITARES É DIFERENTE, NÃO É?". Esta citação humorística realça uma perceção de inconsistência ou manobra política na sua posição face a outros candidatos militares na corrida presidencial.

Termo "BARDAMERDA": A palavra "BARDAMERDA" aparece repetidamente em aviões de papel e em caixas espalhadas, uma referência satírica e jocosa recorrente nos trabalhos de Augusto Cid para com a figura de Eanes e o seu círculo político ou apoiantes. O termo era uma alcunha depreciativa usada na época.

Outras Figuras: As figuras de Tintin e Milou (personagens de banda desenhada) no canto inferior esquerdo são, provavelmente, uma assinatura visual ou um elemento humorístico adicional do autor, sem um significado político direto aparente. 

Este cartoon é um exemplo do humor político português da época pós-25 de Abril, frequentemente publicado em jornais como o Expresso e a revista Os Ridículos, onde Augusto Cid tinha uma presença marcante. 

As respostas de IA podem incluir erros.

Notas:

Naturalmente que a pessoa retratada é Pinheiro de Azevedo e não Eanes.

As primeiras eleições presidenciais após o 25 de Abril de 1974 tiveram lugar em 27 de Junho de 1976. Concorreram o general António Ramalho Eanes, Otelo Saraiva de Carvalho (antigo comandante do COPCON,), o almirante José Pinheiro de Azevedo (antigo primeiro-ministro) e Octávio Pato.

«O cartoon em questão retrata o Almirante Pinheiro de Azevedo, uma figura proeminente na política portuguesa pós-25 de Abril, conhecido pelo seu estilo direto e pelo episódio do "bardamerda".  José Baptista Pinheiro de Azevedo (1917-1983) foi Primeiro-Ministro do VI Governo Provisório (1975-1976) e candidato presidencial. A expressão "bardamerda para o fascista!" ficou célebre quando foi sequestrado durante uma manifestação de trabalhadores da construção civil, um dos momentos turbulentos do PREC (Processo Revolucionário em Curso). »

O autor da ilustração não deve ser Augusto CID.

«O principal autor e a alma por trás dos polêmicos cartoons políticos do jornal A Rua (que circulou em Portugal entre 1976 e 1982) foi Manuel de Sousa Pereira.»



terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Perigos para a democracia


O IA apresenta resultados que nem sabemos se já existiam ou se foram gerados naquele momento!


As aventuras de Tintin são apreciadas por pessoas muito diferentes. Temos exemplos como António Costa do PS, Miguel Portas ou até pessoas da direita como o historiador Rui Ramos ou Nogueira Pinto.

Ventura demostra a sua ligação ao estado novo e a propostas pouco devedoras da liberdade que Abril trouxe a Portugal. Infelizmente  há uma grande faixa de eleitorado que se deixa enganar por um mentiroso compulsivo e que pode colocar em causa a democracia em vigor. 

As pessoas devem ir votar para que fique representada a sua vontade e não deixar que uma pequena parte do eleitorado mostre a sua força (mesmo que a Presidência da República não seja o seu objectivo final). Felizmente a maioria das pessoas ainda está contra e numa segunda volta pode sempre ser corrigido o sentido democrático mas não é a mesma coisa.

Fizemos um exercício ao perguntar ao IA da Microsoft porque é que Tintin não se enquadra com as ideias do "Che[ga]"! Pode servir para alguns reflectirem!

- Post enviado por Carlos Fernandes com informação totalmente gerada por IA mas não significando como Joana Marques mostrou no Extremamente Desagradável que a máquina não dê soluções diferentes (erradas ou não) a pessoas diferentes

Conversa com o Gemini:

"porque é que Tintin nunca votaria em And[ré Ventu]ra do Che[ga}?"

Analisar a inclinação política de uma personagem de ficção como Tintin exige olhar para a evolução da sua "bússola moral" ao longo das décadas, especialmente sob a perspetiva de especialistas e biógrafos do seu criador, Hergé.

Embora Tintin tenha começado a sua vida em 1929 num contexto conservador e colonialista (Tintin no Congo), a personagem evoluiu para um símbolo de humanismo universalista. Aqui estão os principais motivos pelos quais muitos analistas defendem que Tintin não se identificaria com a retórica de And[ré Ventu]ra:

1. Defesa das Minorias e Marginalizados

Ao longo das suas aventuras, Tintin torna-se o protetor nato dos oprimidos, independentemente da etnia ou nacionalidade.

O exemplo dos Ciganos: Em As Joias da Castafiore, Tintin defende fervorosamente uma comunidade de ciganos contra o preconceito da polícia e dos habitantes locais, que os acusam injustamente de roubo.

Contraste: And[ré Ventu]ra construiu grande parte do seu discurso inicial e base política sobre críticas e estigmatização da comunidade cigana em Portugal, algo que colide diretamente com a atitude protetora e justiceira de Tintin.

2. Antirracismo e Anticolonialismo (Fase Adulta)

Após os erros de juventude de Hergé, Tintin passou a lutar contra regimes exploradores.

Em O Lótus Azul, ele denuncia o imperialismo e o racismo ocidental na China.

O discurso do Che[ga] foca-se frequentemente num nacionalismo que alguns críticos consideram excludente. Tintin, pelo contrário, é um cidadão do mundo que valoriza a fraternidade internacional acima das fronteiras.

3. Aversão ao Autoritarismo e Populismo

Muitas das aventuras de Tintin envolvem desmascarar demagogos e derrubar ditadores (como em O Cetro de Ottokar ou Tintin e os Pícaros).

Tintin é movido pela verdade factual (é jornalista, afinal) e pela temperança.

O estilo político de And[ré Ventu]ra baseia-se fortemente no populismo, na polarização e, por vezes, em retórica incendiária, táticas que Tintin costuma enfrentar nos seus vilões ou nos líderes instáveis que encontra na Bordúria ou na Sildávia.

4. Ética de Escutismo

A base da personalidade de Tintin é o escutismo: ser amigo de todos e irmão de todos os outros escuteiros. É uma ética de solidariedade absoluta.

A narrativa do Che[ga] baseia-se frequentemente na divisão entre "nós" (os portugueses de bem) e "eles" (os outros, os subsídio-dependentes, os imigrantes).

Para Tintin, não existe o "eles"; ele arrisca a vida tanto pelo seu capitão como por um rapaz chinês (Tchang) ou um desconhecido em perigo.

Em suma: Tintin representa o centro-moderado, o humanismo e a tolerância. A sua visão de mundo é baseada na inclusão e na justiça social direta, o que o coloca num campo ideológico oposto às propostas de rutura e segmentação social de And[ré Ventu]ra.

(texto gerado por IA - Gemini - 2026/01/14)


imagens geradas por IA mas a linguagem não é a portuguesa ou tem erros! Numa das imagens aparece a bandeira portuguesa e a indicação do partido Che[ga]; Curioso o aparecimento do elefante que é o símbolo do partido Republicano de Tr[ump}.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Deputado Borges de Carvalho


15 DE JULHO DE 1982 - DEBATE PARLAMENTAR

O Sr Presidente: - Tem a palavra o Sr Deputado Jorge Miranda.

O Sr Jorge Miranda (ASDI): - Sr Presidente, Srs Deputados Entendeu por bem o Sr Deputado Borges de Carvalho anteceder a sua declaração de voto de uma afirmação, segundo a qual a ASDI neste debate se teria pautado por uma submissão a chantagem do Partido Comunista Português Esta expressão e tão descabida e tão injusta que eu limito-me a repudia-la.

Contudo, não deixarei de lembrar ao Sr Deputado Borges de Carvalho que, se chantagem houve, ela foi exercida sobre toda esta Assembleia, incluindo o partido do Sr Deputado...

Aplausos do Sr Deputado César de Oliveira.

...na medida em que, tendo sido agendada para determinado dia da semana passada a votação do artigo 113.º da Constituição, com as alterações vindas da Comissão Eventual para a Revisão Constítucional, essa votação não se fez nesse dia - só hoje foi feita - devido exactamente à iniciativa política do Partido Comunista Português, iniciativa que provocou a celebração de um acordo de que e signatário o partido do Sr Deputado - não o nosso! -, tendente à resolução da questão das disposições transitórias.

Nos e que não cedemos a chantagens, pois nem sequer celebramos nenhum acordo!

Apenas quero dizer que a nossa posição foi a de que, sendo posta a questão, ela devia ser discutida no órgão competente, da Assembleia, e não fora da própria Assembleia.

Aplausos da ASDI, da UEDS e de alguns deputados do PS.

O Sr Presidente: - Tem a palavra o Sr Deputado Lopes Cardoso.

O Sr Lopes Cardoso (UEDS): - Eu diria que o Sr Deputado Borges de Carvalho perdeu a ocasião de parafrasear um colega seu da bancada AD anunciando uma declaração de voto De facto, o Sr Deputado não fez uma declaração de voto, mas sim declarações sobre os votos alheios.

O Sr. António Vitorino (UEDS) - Muito bem!

Não sabe fazer uma declaração de voto própria!

O Orador: - Aliás, o Sr Deputado Borges de Carvalho comporta-se como o albanês da AD. Eu explico-lhe, se o Sr. Deputado não percebe: no momento mais aceso do conflito sino-soviético e da velha amizade sino-albanesa, nos congressos internacionais os albaneses eram geralmente encarregados de dar os recados mais ou menos malcriados que os chineses julgavam inoportuno dar E o comportamento do Sr Deputado em relação a AD.

Aplausos da UEDS e da ASDI e risos do PCP.

Quanto ao substantivo da questão, o Sr. Deputado vem de certa maneira

acusar-nos, ao dizer que tomamos uma posição de ultima hora, de termos dado uma pirueta. Ai, eu hesito um pouco, pois em matéria de piruetas o Sr. Deputado e o seu partido são, realmente, uma autoridade.

O que acontece é que o Sr Deputado não e capaz de distinguir entre coerência e piruetas, pois se é uma autoridade em piruetas, em coerência não tem autoridade nenhuma!

Aplausos da UEDS e da ASDI.

O Sr Presidente: - Sr. Deputado Borges de Carvalho, embora tenha pedido a palavra para contraprotestar, são já 20 horas.

O Sr Borges de Carvalho (PPM)- - Sr. Presidente, se não houvesse objecção da Câmara, responderia já.

Protestos do PS, do PCP, da ASDI, da UEDS e do MDP/CDE.

O Sr. Presidente: - Sr. Deputado, penso que não há bom ambiente para que possa responder agora, o que poderá fazer as 22 horas, quando retomarmos os nossos trabalhos.

Está suspensa a sessão.

Eram 20 horas.

O Sr Presidente: - Esta reaberta a sessão.

Eram 22 horas e 25 minutos.

O Sr. Presidente: - Pedia a atenção da Câmara para o tacto de que a sumula distribuída na sequência da Conferência dos Presidentes dos Grupos Parlamentares hoje realizada, suscitou algumas duvidas e, porventura, até pode conter algum lapso em relação ao calendário e ao horário das reuniões previstas.

Queria esclarecer a Câmara de que as decisões tomadas hoje se referem as próximas semanas e não a semana que esta em curso.

Em relação à semana em curso, portanto às sessões de hoje, amanhã e sexta-feira, o que ficou acordado e o que consta da sumula n.º 50 da reunião da passada segunda-feira, dia 12, onde se diz, nomeadamente, o seguinte na semana corrente haverá reunião na terça-feira ate às 21 horas - não foi assim pelas razões que conhecem -, na quarta-feira e na quinta-feira, portanto hoje e amanhã, haverá reunião de manhã as 10 horas, à tarde ate as 20 horas e à noite ate à l hora da madrugada, na sexta-feira, haverá reunião das 10 às 13 horas.

Isto é o que está acordado, e que confirmo, em relação à semana em curso As alterações que introduzimos, na sequência da conferência realizada esta tarde, dizem respeito às reuniões das próximas semanas.

Se houve qualquer falta de clareza na comunicação que foi distribuída aos grupos parlamentares, peço que ma revelem. Mas a situação e esta.

O Sr. Veiga de Oliveira (PCP) - Dá-me licença. Sr Presidente!

O Sr. Presidente: - Faça o favor.

O Sr. Veiga de Oliveira (PCP): - Sr. Presidente, do nosso lado não temos nada a objectar ao que o Sr Presidente acaba de dizer.

No entanto, queria solicitar, desde já, ao Sr Presidente aquilo que, por falta de tempo, não chegou a ser resolvido na reunião Haveria interesse que o Sr. Presidente determinasse que os serviços distribuíssem os "borrões" do Diário.

O Sr. Presidente: - Esse assunto foi abordado na reunião, Sr. Deputado.

O Orador: - com 48 horas de antecedência em relação ao envio para a Imprensa Nacional Porque, de contrario, e totalmente impossível fazer as correcções - e algumas são indispensáveis - porque de todo em todo não se percebe o que ía esta Isto porque nesta altura tratando-se da matéria que se trata, seria importante que elas tossem feitas.

O Sr Presidente: - Sr. Deputado, mantenho o que disse ao Sr Deputado Jorge Lemos na Conferencia, ou seja, que vamos procurar uma solução que, por um lado, não comprometa um estorço que, como todos sabem, temos estado a fazer, no sentido de um menor atraso na publicação do Diário e por outro lado não comprometa o registo das declarações dos Srs Deputados aqui na Assembleia.

O Orador: - Sr Presidente não e uma questão de registo, e uma questão de emendar gralhas que tornam o Diário ilegível Nos somos pela publicação atempada do Diário mas desde que ele seja legível.

O Sr Presidente: - Certamente Sr Deputado Tem a palavra o Sr Deputado Sousa Tavares.

O Sr. Sousa Tavares (PSD): - Sr Presidente ainda não temos o programa de trabalhos para a próxima semana.

O Sr. Presidente: - Sr. Deputado, o seu grupo parlamentar esteve representado na conferencia, suponho que pelo Sr Deputado Reinaldo Gomes, que o poderá informar Por outro lado. suponho que o Gabinete já fez a distribuição da sumula que. justamente, ocasionou as dificuldades de compreensão a que me referi. Mas se há qualquer atraso, vamos procurar supri-lo imediatamente.

Antes do intervalo para jantar tinham sido proferidos vários protestos a propósito de uma declaração de voto do Sr. Deputado Borges de Carvalho.

Para contraprotestar, tem a palavra aquele Sr. Deputado.

O Sr. Borges de Carvalho (PPM): - Sr Presidente. Srs Deputados Tenho aqui alguns apontamentos de ha bocado mas não sei se estarão completos se darei as respostas cabais, ou se já me terei esquecido de algumas partes importantes dos protestos que foram feitos a minha declaração de voto.

Começaria pelo Sr Deputado Jorge Miranda. Aliás, vejo que este Sr Deputado não esta presente, mas peço aos seus colegas de bancada que lhe transmitam o meu contraprotesto.

Propriamente, antes de contraprotestar, queria prestar as minhas homenagens ao Sr Deputado Jorge Miranda. Terei talvez sido demasiado duro na forma como protestei contra aquilo que, de facto, para mim. merece um protesto veemente Terei talvez sido um pouco duro, e por isso não quero deixar de começar por homenagear o Sr. Deputado Jorge Miranda pela forma como tem entendido a sua missão de deputado e pela forma como contribuiu e continua a contribuir para a revisão constitucional.

Quero homenagear o Sr. Deputado Jorge Miranda, a sua figura de democrata, de professor, de cidadão, de português.

Também não posso esquecer que das intervenções talvez mais profundas e dignas de nota acerca do Conselho da Revolução, terá sido a própria tese de doutoramento do Sr. Deputado Jorge Miranda. Foi de facto, um dos poucos professores portugueses de Direito que teve a coragem de dizer que o Conselho da Revolução era um orgão de soberania não democrático Por isso também a minha homenagem.

A diferença que ha no entendimento das coisas entre mim e o Sr. Deputado Jorge Miranda e talvez uma diferença naquilo que diz respeito ao que e ou não uma cedência a uma chantagem.

O Sr. Deputado Jorge Miranda afirmou que tinha havido chantagem e acrescentou que ela tinha sido exercida sobre todos nos Depois disso disse que quem tinha cedido era a AD e não a ASDI.

Ora para nos a extinção do Conselho da Revolução e linear, e liquida, não tem adiamentos Entre nos não se discute, isso e adquirido Nem podemos pensar, da maneira como entendemos a democracia e os democratas, que para algum democrata possa haver duvidas ou hesitações a esse respeito.

Por isso, mesmo que tosse formalmente, achamos que a atitude da ASDI nesta matéria foi uma surpresa desagradável. Essa, sim, foi uma cedência formal as exigências do PCP Nessa medida a critiquei, nessa medida a continuo a criticar, e não dou qualquer espécie de razão aos argumentos aduzidos.

Quanto ao Sr Deputado Herberto Goulart, queria apenas fazer duas observações V. Ex.ª classificou a l a fase dos trabalhos de revisão constitucional - que antecederam a elaboração do relatório - como atribulada e repentina Se V. Ex.ª estava, realmente, atribulado, devo dizer-lhe que o problema e seu Nos não sentimos grandes atribulações, não nos constou nem nos foi comunicado que houvesse partidos atribulados nesta Casa. Assim, julgamos que o processo se desenvolveu e se encerrou de forma perfeitamente normal.

Quanto ao artigo 113.º propriamente dito.

O Sr. Vilhena de Carvalho (ASDI): - Já há quorum.

Risos.

O Orador: - Faço vénia ao sentido de humor do Sr. Deputado Vilhena de Carvalho, e tomo nota da comunicação de que já ha quorum Vou ser mais rápido.

Em relação ao Sr Deputado Herberto Goulart, devo dizer que quando V. Ex. ª afirma que foi por causa desse final repentino dos trabalhos da Comissão Eventual para a Revisão Constitucional que não se discutiu ai esse problema, devo dizer-lhe - como já aqui disse hoje - que o artigo 113.º foi discutido na Comissão Eventual para a Revisão Constitucional, como VV. Ex.ªs sabem, ha muitos e muitos meses Se ninguém levantou o problema foi porque não quis e não porque não pensasse nele.

Quanto ao Sr Deputado Lopes Cardoso, terei que dizer que não sei falar albanês e como já que sou o - albanês da AD", não sei como lhe hei-de responder.

De qualquer maneira, julgo que o que ha de mais substancial no seu protesto e a referência a que não ouviu, da minha parte, nenhuma declaração de voto.

Isso faz-me lembrar uma figura - não do albanês, mas outra muito conhecida na minha juventude e que ainda hoje leio com prazer -, que é a do professor Tornesol.

Quando eu era jovem, traduzia-se para professor Pintadinho de Branco. Uma das suas características fundamentais era ser surdo. Usava uma corneta acústica. Verifico que o Sr Deputado não tem corneta acústica, não ouviu a minha declaração de voto. O mais que lhe posso aconselhar é que se dirija aos serviços de redacção, onde encontra a declaração de voto, inclusivamente, escrita.

Finalmente, foi formulado um protesto pelo Sr Deputado Veiga de Oliveira Este Sr Deputado brindou-nos com uma declaração de voto maximalista, ortodoxa, recuperadora de todos os slogans da mais pura ortodoxia do PCP. Brindou-nos com uma declaração de voto de tal maneira cheia de "molho que ate houve deputados mal intencionados que interpretaram ser essa a causa da saída da Camará, nessa altura do Sr. Deputado Vital Moreira.

Eu não o faço, evidentemente, mas não deixo de notar que o Sr. Deputado Veiga de Oliveira, logo a seguir, teve a preocupação de me tratar por chairman Essa expressão, na língua da Sr. Thatcher e do Sr. Ronald Reagan, talvez seja uma espécie de compensação. Enfim...

Disse o Sr. Deputado Veiga de Oliveira que durante os trabalhos da Comissão Eventual para a Revisão Constitucional tinha ficado bem patente que os deputados pensavam que esta matéria só podia ser discutida nesta ocasião e que os deputados pensavam isto, aquilo ou aqueloutro Eu não sei o que os deputados pensam, não tenho dotes de hipnotizador, nunca fiz lavagens ao cérebro a ninguém, para ver o que ía esta dentro.

O Sr. Veiga de Oliveira (PCP): - Dá-me licença que o interrompa?

O Orador: - Faz favor.

O Sr. Veiga de Oliveira (PCP): - Desculpe, mas eu não disse isso. O que eu disse e que era proverbial nos trabalhos da Comissão, a sua relativa falta de memória. Isto foi um ponto.

O outro foi que tinha sido discutida a questão de se considerar este artigo 113.º como um artigo de chegada e não de partida. Isto e, o artigo pressupunha a discussão e votação de muitos outros Por outro lado, em subcomissão colocou-se a questão das normas transitórias que poderiam garantir o conhecimento exacto do sentido da votação deste artigo.

Esta é a verdade isto e factual e foi por isso que eu, não querendo chamar-lhe nenhum nome nem imputar-lhe nenhuma mentira, disse simplesmente que era conhecida a sua relativa falta de memória.

O Orador: - Talvez eu tenha falta de memória. Sr Deputado No entanto, a minha falta de memória não e tanta que não me lembre perfeitamente que nenhum partido - muito menos o partido de V. Ex.ª - fez qualquer proposta nesse sentido, que nenhum partido quis que as disposições transitórias tossem discutidas aquando do debate do artigo 113.º. Isso fica tudo dito em relação as acusações que fiz ao seu partido e que neste momento renovo.

De resto, não sei se no fim não nos e legitima uma ultima reflexão. Sr Deputado Não sei já hoje e aqui, se os entraves que o Partido Comunista, com algum sucesso, conseguiu pôr a votação não terão saído furados E isto não porque a votação se tenha feita mas porque tenha sido feita hoje. Amanhã VV. Ex.ªs teriam outra "claque" para os apoiar nestas matérias.

Aplausos, do PPM do PSD e do CDS.

(...)

Debates Parlamentares (1982)

terça-feira, 22 de abril de 2025

25 de Abril aos quadradinhos



Como seria lógico, também o 25 de Abril constituiu tema que alimentou e alimenta o universo da banda desenhada. Para além de globalmente ter sido um factor decisivo para a eliminação de todos os traços de censura sobre os conteúdos abordados, a sua própria crónica, directa ou indirectamente, serviu de inspiração para muitas histórias criadas desde então. A questão da eliminação da censura seria em si mesma interessante desafio para uma abordagem que prometo aqui fazer qualquer dia destes, assim contribuindo para um melhor conhecimento de épocas de “resistência” dos quadradinhos contra regras asfixiantes da liberdade de expressão entre nós.

(...) 

A. Martinó

Diversos têm sido os caminhos dos artistas que deixaram marcas mais relevantes na BD de Abril. Quem se lembra hoje que António, cujos brilhantes e surpreendentes quadros satíricos são uma das imagens de marca fundamentais do Expresso, um dos maiores cartoonistas/caricaturistas do nosso tempo, foi também um dos mais significativos e originais autores de BD dessa época? Presente em várias publicações, autor de uma das páginas que, precisamente na fronteira entre cartoon e banda desenhada, mais genialmente resumem o 25 de Abril e a questão militar que esteve na sua origem, seria sobretudo com Kafarnaum, no Expresso e em livro que António, num hábil jogo gráfico-linguístico, desmistificaria as taras e tiques do PREC, reflectindo inclusivamente sobre a própria BD o seu papel, parodiando largamente personagens populares da BD.

A utilização das personagens da BD foi aliás uma prática abundante e que constitui só por si um capítulo à parte na caracterização da BD desta época, reflectindo a popularidade da própria BD e a sua eficácia imagético-simbólica. Estudantes, sindicatos, comissões de moradores usaram-nas largamente. Ficaram famosas as fotomontagens do Jornal Novo. Eanes pela mão de vários e sobretudo de Cid, foi Superman e foi Tarzan A Flama numa série de Manuel Vieira sobre algumas figuras da época, em que, por exemplo, Mário Soares é o Príncipe Valente e Álvaro Cunhal é Mandrake, foi advertida pelo autor e editor por ter caracterizado Rosa Coutinho como Tintin.

(...)

JPP Boléo, A BD e o 25 de Abril

Há vários livros sobre a bd e o 25 de Abril.

https://largodoscorreios.wordpress.com/2014/04/25/25-de-abril-aos-quadradinhos/

https://largodoscorreios.wordpress.com/2015/04/28/25-de-abril-aos-quadradinhos-um/

https://tintinemportugal.blogspot.com/2014/10/tintin-no-pos-25-de-abril.html

"Imagens de uma revolução, 25 de Abril e a Banda Desenhada". de João Miguel Lameiras, João Paulo Paiva Boléo e João Ramalho Santos 

Um percurso em imagens e ilustrações por uma data marcante da história de Portugal. A Banda Desenhada, pela forma única como conjuga texto e imagem, foi um meio privilegiado para fixar a nossa História de forma dinâmica e atractiva, e também para apresentar este momento a quem nem era nascido. Uma revolução, quando desenhada, pode ser discutida e reflectida, e a sua memória pode evoluir mas nunca pode ser esquecida.

Assinado por três especialistas da história da banda desenhada no nosso país - João Paiva Boléo, João Miguel Lameiras e João-Ramalho Santos - "Imagens de uma Revolução" recupera alguns textos e obras anteriores, complementa-os com inúmeros exemplos e referências adicionais, e apresenta-nos o livro que nos mostra como as imagens perduram, e como uma revolução que foi desenhada dificilmente será esquecida.

Uma Revolução Desenhada - O 25 de Abril e a BD de João Miguel Lameiras, João Paulo Paiva Boléo e João Ramalho Santos 

Crocodilo / Flama

Outros posts anteriores neste blog:

Figuras que Abril Deu (1977)

https://tintinemportugal.blogspot.com/2017/07/figuras-que-abril-deu.html

Largo dos Correios (Jornal Novo, Flama)

https://tintinemportugal.blogspot.com/2014/10/tintin-no-pos-25-de-abril.html

Cartoon de Manuel Vieira publicado em 1975 na revista Flama

https://tintinemportugal.blogspot.com/2011/07/tertulia-bdzine-26.html

Fotomontagens do Jornal Novo

https://tintinemportugal.blogspot.com/2013/03/fotomontagem-no-jornal-novo-de-6121875.html

José Antunes / A Chucha (1976)

https://tintinemportugal.blogspot.com/2023/01/jose-antunes.html

"Kafarnaum" de António (1975/1976)

https://tintinemportugal.blogspot.com/2016/09/cartoons-de-antonio-in-kafarnaum.html

https://tintinemportugal.blogspot.com/2014/10/cartoon-de-antonio-karfanaum-em-1976.html

https://tintinemportugal.blogspot.com/2025/04/humor-unido.html

terça-feira, 30 de julho de 2024

A campanha dos bonecos (1995)



Dr. Dupont: «Já disse, temos de chegar à moeda única». 

Eng. Dupont: «Eu diria mesmo mais: é à moeda única que temos de chegar.

Dr. Dupont: «E sem maioria absoluta não há estabilidade.

Eng. Dupont: «Eu diria mesmo mais: não há estabilidade sem maioria absoluta.

Dr. Dupont: «É preciso contenção nos aumentos dos salários.

Eng. Dupont: «Eu diria mesmo mais: não é possível aumentar os salários reais».

É um tema recorrente nesta campanha o de que não há qualquer diferença entre as propostas e discursos dos dois maiores partidos. Dizem-nos todas as outras forças políticas, que se queixam de estar a ser sistematicamente excluídas do debate nos meios de informação de grande audiência. Mas dizem-no também os representantes dos próprios PSD e PS, ao acusarem-se mutuamente de plágio de ideias. 

Quando foi divulgado o programa do PSD, Guterres disse logo que parágrafos inteiros tinham sido roubados a discursos proferidos por ele mesmo. Quando foi tornado público o programa do PS, Nogueira não hesitou em afirmar que a maioria das propostas nele contidas eram ideias do PSD, algumas das quais até já tinham sido postas em prática, ou estavam previstas para breve.

Estes pleitos em torno dos direitos de autor não são aliás, eles próprios, patente registada dos dois maiores partidos. Os pequenos digladiam-se também por causa de alegados roubos. Quando o líder do PSN anunciou na televisão que propunha a abolição do serviço militar obrigatório, apressou-se a acrescentar: «Isto é uma ideia original nossa. Agora só espero que nenhum outro partido se apodere dela».

Na confrangedora falta de ideias e propostas, os partidos agarram-se às poucas que têm como se fossem uma propriedade, esquecendo que, se a proposta é boa e justa, era de esperar que ficassem contentes por outras forças políticas também a adoptarem. 

Os polícias Dupont e Dupont, personagens do livros do Tintim, que a CDU transformou em Dr. Dupont e Eng. Dupont, são os símbolos perfeitos da falta de originalidade das forças políticas.

Já os bonecos de barro representando Soares e Cavaco não são símbolo de nada, excepto da decadência criativa do PSR. 

Cavaco: «Está a ver, está a ver, são socialistas como você. 

Soares: «Socialistas revolucionários. Vous ne comprennez rien. E eu nem sou socialista praticante».

O tema é o mesmo do dos polícias Dupont. Mas o PSR tem uma originalidade: os seus bonecos não têm piada. Nem um Guterres e um Nogueira conseguiram moldar a tempo para a campanha. O PSR passa todo o seu tempo de antena a culpar os eleitores por não terem eleito Louçã para deputado nas últimas eleições. A dizer que desta vez têm de corrigir o erro. Mas não se dão ao trabalho de avançar uma só razão para que se vote neles. Limitam-se a apresentar uma série de cartoons e sketchs que ninguém entende, na presunção de que já todos sabem que o PSR é o partido da inteligência e da criatividade. «Estes tipos do PSR dizem umas verdades mas são muito esquisitos», surge um actor a dizer. O PSR pensa que os eleitores não são esquisitos.

Paulo Moura, Público, 19/09/1995

JPMP


quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Dupond e Dupont


Dupond e Dupont são dois célebres personagens de "As Aventuras de Tintin" do autor belga Hergé. São dois polícias (?), em tudo muito semelhantes. Por exemplo, Dupond diz "Não a um bloco central" e Dupond retorquirá "Direi mesmo mais: não a um bloco central".

Ontem, 4 de janeiro de 2018, assisti na TV a um frente-a-frente dos dois candidatos à liderança do PSD: Santana Lopes e Rui Rio. Foi o próprio Dr. Santana Lopes que mencionou a analogia com os personagens da BD, afirmando que não eram eles, mas sim o Dr. Rui Rio e o actual Primeiro Ministro. Na minha opinião são mesmo eles, Santana Lopes e Rui Rio, os mais parecidos com a famosa dupla.

Um deles será o líder de um dos maiores partidos políticos nacionais. Um partido que recebe milhões de votos. Pergunta: não encontram mais ninguém entre toda essa gente para liderar o partido?

Não sou "adepto" do PSD (antes pelo contrário), mas estou convicto que esse grande partido merecia melhor que as trapalhadas do Santana e as habilidades do Rui. 

Se atendermos à Lei de Murphi isso é preocupante: se um deste homens tiver a possibilidade de cometer um erro, decerto o fará. E o assunto não interessa apenas aos simpatizantes daquele partido; interessa a todos. As pessoas, um pouco por todo o lado, têm vindo a demonstrar uma estranha tendência para eleger os piores candidatos. Cuidado: corremos o risco de um deles, Santana Lopes ou Rui Rio poder alcançar o cargo de primeiro ministro.

Deixo aqui o meu apelo às gentes do PSD. Rebusquem, investiguem, vasculhem entre os militantes, encontrem outros candidatos menos patuscos, mais compenetrados, mais credíveis. Por favor...

Franco Gomes, 05/01/2018


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Até tu, Brutus!

O Governo perdeu a voz. E precisa urgentemente de pastilhas para a garganta. Entrou, vestido de Castafiore, aquela que nos livros de Tintin, quando cantava, fazia com que os vidros se quebrassem. Algumas corporações tremeram e taparam os ouvidos, paralisadas de medo.

Poucos meses depois tudo mudou. O Governo faz soar a sua voz mas ela perde-se no meio do ruído de todas as oposições possíveis. A oposição ao Governo que menos se ouve é a do PSD.

Pode ser uma táctica. Talvez Marques Mendes acredite que lhe poderá suceder o mesmo que a Sócrates. Que o Governo caia por cansaço, como aconteceu com o equilibrista Santana Lopes. Sem mexer um dedo Sócrates tornou-se o líder maioritário do executivo.

O chefe do PSD muito provavelmente acredita na mesma coisa. Sócrates, sem ter feito qualquer tirocínio como tribuno calejado da oposição, chegou a São Bento. Foi uma viagem à velocidade do TGV. As ideias soltas que tinha para governar ficaram nos apeadeiros onde não teve tempo para ficar.

Marques Mendes ainda precisa um pouco mais da poção da oposição. Mas, com o problema de voz, de transparência e de autoridade de grande parte do Governo, um dia destes Marques Mendes chega ao poder.

Já começam a haver muitos Brutus no círculo de Sócrates.


Comentários

Nunca tinha imaginado o Sócrates vestido de Castafiore. Bela metáfora ! Já agora, o Mendes de Pintadinho de Branco (Tournesol), Soares e Alegre de Zig e Zag (Dupont e Dupond) e Sampaio de Capitão Rosa (Haddock). A "peça" podia ser levada à cena no teatro Maria Matos. Consta que o director artistico, sr Diogo Infante, é um fã da Castafiore !!! 

Se Molière fosse vivo ! - Breogan

Começo a duvidar da qualidade do articulista. Pese embora o agradável e evidente manejo da escrita. Com as suas habituais figuras de estilo. Ou as construções retóricas, incluindo uma ironia quanto baste. O que, na minha humilde perspectiva, geralmente enobrece um texto. Só que, retirado o estilo, a forma é pobre. Ficam apenas as ideias de FS. Brutus de si mesmo? Enfim, isto para refutar duas destas ideias. 1º) Vai sendo cada vez mais óbvio que Sócrates tem mais que «ideias soltas». E já conhecemos algumas. Umas mais miseráveis (nomeações de boys) que outras (plano tecno, "apuramento" do investimento público). Há também "ideias" claramente estruturantes. O exemplo maior será o da normalização de alguns sistemas sociais públicos. Hoje mesmo saiu o modelo para a reestruturação do sector energético. Para já, parece-me bom. E até, nalguns aspectos, surpreendente. Pela inovação em privilegiar o mercado. 2º) Não sei se Marques Mendes chegará, ou não, ao poder. E se o fará tão rapidamente quanto FS, pelos vistos, desejaria. Duvido é que o faça contando «com o problema de voz, de transparência e de autoridade» de Sócrates. "Problemas" que, existindo, não são mais excessivos que o costume. Já com Brutus... talvez. Até porque já não andará de punhal em riste. Consta que o terá trocado por um teclado novo...

ATÉ TU, SOBRAL? - Marx

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Quem é quem. As personagens de Tintim da política portuguesa


Do extrovertido Serafim Lampião/Marcelo ao mordomo Nestor/Durão.

Portas diz-se Oliveira da Figueira. Mas a vida pública portuguesa tem outras pesonagens do Tintim.

Marinho e Pinto / Capitão Haddock

É o mais bruto dos políticos no activo, à imagem do capitão Haddock. Embora ninguém o tenha ouvido dizer “com mil milhões de mil macacos” nem chamar a nenhum adversário “ectoplasma”, andou lá perto. Haddock é corajoso (Marinho e Pinto também), mas contraditório (idem). Não vive no castelo de Moulinsart, mas não larga o conforto de Bruxelas. 

Passos Coelho e Paulo Portas / Dupont e Dupond 

Passos Coelho é primeiro-ministro e é o gémeo liderante da coligação. Durante muito tempo, principalmente nos primeiros dois anos e até à crise da demissão irrevogável de Portas, PSD e CDS distiguiram-se notoriamente, com o CDS a pedir crescimento e Vítor Gaspar a enfurecer os centristas. Mas as coisas mudaram: hoje Passos Coelho e Paulo Portas actuam como Dupont e Dupond. E assim será até 4 de Outubro. 

Paulo Portas / Dupond

Quem conhece Paulo Portas sabe que ele não gostaria de estar no papel em que está: no Dupond, que praticamente se limita a repetir as frases já utilizadas previamente pelo gémeo Dupont. Mas foi o que se passou nos últimos dois anos e agravou-se ainda mais nos últimos tempos, desde que PSD e CDS decidiram concorrer em coligação. Se houver derrota, Portas pode deixar a posição de Dupond – até pode ser libertador... 

Cavaco Silva / Professor Tornesol

O professor Tournesol é desastrado – como Cavaco Silva sempre foi – e muitas vezes diz coisas incompreensíveis. Mas, por muitas trapalhadas em que se tenha metido ao longo de todas as aventuras de Tintim (como Cavaco durante toda a sua vida política), todos lhe reconhecem sabedoria. Na realidade, não reconhecer sabedoria a Cavaco, que está no poder há mais de 30 anos, seria um erro de análise. Mas Tournesol poderia falar do sorriso das vacas nos Açores...

Ana Gomes / Bianca Castafiore

Bianca Castafiore, “o rouxinol milanês”, tem uma legião de admiradores em todo o lado por onde passa, mas aparece muitas vezes na hora errada e diz as coisas mais inconvenientes para o establishment do momento. Ana Gomes não é uma cantora lírica, mas muitos no PS olham-na como uma mulher excessivamente interventiva, que vem estragar os momentos consensuais.

Marcelo Rebelo de Sousa / Serafim Lampião 

Serafim Lampião é o mais extrovertido das personagens das aventuras de Tintim. Está sempre em casa, em qualquer lado onde esteja, exactamente como o professor e futuro candidato a Presidente da República. Serafim Lampião não é institucional: entra no Castelo de Moulinsart como se fosse a sua casa. É vendedor de seguros e vende-os em qualquer lado. Marcelo vende outras coisas com facilidade. 

Durão Barroso / Nestor

Quem pode ser o mordomo do Castelo de Moulinsart, residência do capitão Haddock nas aventuras de Tintim? Afinal foi Durão Barroso que teve o papel de receber os grandes líderes nos Açores antes de partirem no dia seguinte para a invasão do Iraque. Foi aí que ficou conhecido como o “mordomo” das Lajes, o que lhe permitiu o salto para Bruxelas, onde na realidade quem manda é a Alemanha e Angela Merkel. 

Ricardo Salgado / Rastapopoulos

É um dos vilões das aventuras de Tintim. Rastapopulos é um milionário que se envolve em negócios pouco claros. No momento em que se prepara a venda do Novo Banco – que ainda pode vir a custar muito dinheiro aos contribuintes –, é claro que a figura da vida pública portuguesa só pode ser Ricardo Salgado, o outrora dono disto tudo, que neste momento está preso em casa vigiado pela polícia. 

Ana Sá Lopes, Jornal I, 02/09/2015

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Cutileiro

Alcazar e Tapioca

O Presidente das Honduras, Mel Zelaya, foi deposto e despachado para a Costa Rica pelo exército, com alívio do Parlamento e do Supremo Tribunal que tinham declarado inconstitucional a consulta popular anunciada pelo Presidente que queria candidatar-se a segundo mandato. Lembrei-me do "Mistério da Orelha Quebrada" resolvido por Tintim na minha infância (graças à imortal tirada do papagaio: "Rodrigo Tortilla, mataste-me!"), que conta peripécias da luta pelo poder na República de S. Teodoro entre o general Alcazar e o general Tapioca. Em criança, essa caricatura pareceu-me convincente. Depois soube que debaixo da farsa havia tragédia e estratagemas do xadrez político mas tudo quanto aprendi sobre a América Latina desde Tintim - de revolucionários, teólogos da libertação, historiadores, políticos, antropólogos, latifundiários, diplomatas - não apagou inteiramente a marca deixada por Alcazar e Tapioca.

O golpe das Honduras, depois de longo intervalo pacífico na região, retoma costume antigo mas com uma diferença radical nas reacções que provoca. Aos 55 anos e já Presidente, Zelaya, rancheiro conservador rico, virou populista de esquerda e fã de Hugo Chávez. Para cativar o povo tomou medidas ruinosas e tornou-se apologista da democracia directa.

Com popularidade caída abaixo de 30% quis ser presidente perpétuo. Obteve com muita coacção alguns milhares de assinaturas a pedir "consulta popular" sobre a limitação do seu mandato, fez imprimir boletins para ela em Caracas e encarregou o chefe de Estado-Maior de garantir a ordem durante a operação. Legalista e apoiado pelas outras instituições políticas do país, o CMGFA recusou o encargo e demitiu-se. No domingo, a tropa foi pôr Zelaya na Costa Rica.

Chávez acusou logo a CIA e os Estados Unidos mas o tiro saiu-lhe pela culatra porque Obama condenou o golpe, dando unanimidade à decisão tomada pela Organização dos Estados Americanos, a qual intimou Tegucigalpa a devolver já o poder a Zelaya ou ser expulsa. Este passou pela Assembleia Geral da ONU onde o aclamaram e propôs-se voltar à pátria, acompanhado por alguns Presidentes latino-americanos, mas nas Honduras o Presidente interino disse que o mandaria prender à chegada. A OEA deu mais tempo a Tegucigalpa para obedecer ao ultimato e multiplica-se em contactos para encontrar saída airosa do imbróglio.

Foi efeito do factor Obama. Quem mandou a tropa depor o Presidente demagogo e populista de esquerda que queria mudar a Constituição ilegalmente tinha contado com o apoio dos Estados Unidos ou pelo menos com a sua anuência. Porém o tiro, como o de Chávez, saiu-lhe pela culatra. Washington não só condenou o golpe como suspendeu a ajuda militar (não aplicou sanções porque acha que já há pobreza de mais nas Honduras).

Perdidos há muito Alcazar e Tapioca, os políticos da zona deixam agora de saber ao certo com que contar dos Estados Unidos. Se uns ficarem sem papão e outros sem padrinho vão ter de deitar contas novas à vida.

José Cutileiro

Estudos Regionais - América Latina

Expresso, 4|Julho|2009

https://arquivo.pt/wayback/20100606115948/http://www.ipri.pt/publicacoes/working_paper/working_paper.php?idp=373

antigo embaixador, Coluna de opinião "Mundo dos Outros" no Jornal Expresso,