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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Bedeteca de Lisboa


Em 1999, João Paulo Cotrim pediu ao ilustrador Alain Corbel para criar um cartaz, para promover a Bedeteca de Lisboa, com heróis de BD portugueses, japoneses, franco-belgas e americanos.


A Bedeteca de Lisboa foi inaugurada em Abril de 1996. Cotrim foi o responsável entre 1996 e 2002 e Rosa Barreto esteve depois entre 2002 e 2010. Entretanto em 2011 foi decidida a sua integração, como serviço especializado, na Biblioteca dos Olivais, em Lisboa.

Alain Corbel, FB

quinta-feira, 18 de julho de 2024

Tim-Tim repórter d’O Papagaio


Se a publicação de Tintin, a criação máxima de Hergé, ficou como o grande feito de O Papagaio, os seus leitores tiveram que esperar quase um ano, até ao nº 49, de 19 de Março de 1936, para o herói ser anunciado na revista, como seu repórter na “América do Norte, país civilizadíssimo, donde nos chegam as maiores invenções e belas afirmações de espírito artístico” mas que é também “infelizmente, um território onde o banditismo impera, no qual indivíduos da pior espécie e de todas as nacionalidades estabeleceram de há muito arraiais”. A Milu, seu companheiro de sempre, a revista trocava o nome e o sexo, anunciando-o(a) como “a cadelinha Pom-Pom” porque, explica José Azevedo e Menezes em “O Papagaio – Um estudo do que foi uma grande revista infantil portuguesa”, citando Dias de Deus: “n' O Papagaio já havia uma Milu (...); Simões Müller entendeu que não ficaria bem dar o nome de uma menina conhecida a uma cadela”… Dois números depois, em novo anúncio, já na capa, o seu nome passava a Rom-Rom mas o sexo trocado manter-se-ia até ao fim da revista. (...)

Finalmente, no nº 53, logo na capa, com cores vivas (e hoje exageradas) começavam as “Aventuras de Tim-Tim na América do Norte”, pela primeira vez em policromia em todo o mundo. Sinal de outros tempos, o respeito pelos originais de Hergé era pouco ou mesmo nenhum, sendo normal as pranchas serem retalhadas e remontadas, em função do espaço disponível ou a ocupar. 

Artur Correia, autor português de BD, ainda em actividade, numa entrevista publicada no Mundo de Aventuras 248 (5ª série, de 1978) lembra que n'O Papagaio “alargava juntamente com um talentoso moço chamado Soares, os desenhos das histórias do Tim-Tim para virem publicados na página central. Nós é que fazíamos os acrescentos para transformar uma página única numa dupla”...

Modificações que também se faziam sentir ao nível dos textos, a começar logo com “Tim-Tim na América”: na fase final da história, os operários ausentes da fábrica onde o herói sofre um atentado, em greve (proibida no nosso país) no original, tinham saído para almoço… 

Seguir-se-ia “Tim-Tim no Oriente” (Os Charutos do Faraó, publicado do #115 ao #161), no qual o vendedor de banha da cobra Oliveira de Figueira, o único figurante luso de relevo criado por Hergé, era apresentado como… espanhol! 

Depois, viriam as “Novas Aventuras de Tim-Tim” (“O Lótus Azul”, #166-#205) e a aventura africana do “repórter que nunca escreveu uma linha”, que o levou a pisar solo (colonial) português em “Tim-Tim em Angola” (“Tintin no Congo”, #209-#244). 

Já em “O Mistério da Orelha Quebrada” (#247-#298), o general Alcazar é rebaptizado de Manduca, para não ser associado ao episódio, então recente, do cerco do Alcazar de Toledo durante a Guerra Civil espanhola.

No episódio seguinte, “A Ilha Negra” (#301-#359), o adversário do herói deixou de ser o Dr. Müller (para não ser entendido como piada ao então já ex-director da revista), transformando-se num banal Dr. Silva, e em “Tim-Tim no deserto” (“O caranguejo das tenazes de ouro”, #366-#426), Haddock, que no original se sentia mal depois de beber um copo de água (por não ser de uísque) nas páginas de O Papagaio, sente-se mal mas melhora depois de beber a água!

A aventura seguinte (“A Estrela Misteriosa”, #435-#540) é publicada sem título e a presença de Tintin na revista portuguesa terminaria com “O Segredo da Licorne” (#617-#679).

Para além disso, Tintin surgiu em muitas capas de O Papagaio (cujas revistas correspondentes são hoje avidamente disputadas pelos coleccionadores), em desenhos originais ou feitos por autores portugueses, como boneco articulado de montar e mesmo noutras histórias, como é o caso da primeira aventura do “Boneco Rebelde”, de Sérgio Luiz [e Guy Manuel], em que contracena com o protagonista nas páginas iniciais, e como despoletador da acção em “Na pista de Tim-Tim”, de Diniz de Oliveira e Rodrigues Neves.

Pelo meio, ficaram também as tentativas goradas de Simões Müller de o levar consigo para o “Diabrete” (o que só conseguiu após o fim de O Papagaio), onde teve de se contentar com “Trovão e Relâmpago” (aliás “Quick et Flupke”), inicialmente publicados sem conhecimento de Hergé, e o facto de parte dos direitos de Tintin terem sido pagos em géneros, mais exactamente em latas de sardinhas, enviados para a Alemanha onde estava preso o irmão do desenhador belga.

Pedro Cleto (Texto publicado no dia 17 de Abril de 2010 na revista NS, distribuída ao sábado com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias)

Foi a 18 de Abril de 1935 que O Papagaio abriu pela primeira vez, se não as suas asas, pelo menos as suas páginas às mãos e olhos ávidos dos miúdos a quem a revista se destinava, como se lia por baixo do seu cabeçalho, ao lado do qual também estava o preço – elevado para a época - de 1$00. No interior desse número inaugural – como durante o resto da sua vida, onde nunca ocupou mais de um terço das páginas - a banda desenhada – então chamada histórias aos quadradinhos pois o francesismo só entraria em uso décadas depois – era pouca, limitada a uma prancha de Tom (Thomaz de Melo, um dos responsáveis pela capa e pelo grafismo atraente da novel publicação), intitulada “Sabichão em calças pardas”, e meia prancha de Stuart Carvalhais, com os seus Quim e Manecas. Nas suas páginas, a preto e branco, uma ou várias cores, a prioridade era dada a contos, curiosidades, passatempos e concursos, tudo com um forte pendor didáctico e formativo, algo perfeitamente normal na época.

Publicação católica, semanal, com saída às quintas-feiras, propriedade da Renascença, tinha como director um dos maiores nomes que o jornalismo infanto-juvenil português conheceu, Adolfo Simões Müller.

A revista viria a durar 722 números, com altos e baixos, como é incontornável, e dela ficou como principal imagem de marca ter servido de modelo a muitos dos títulos infanto-juvenis lançados nos anos seguintes e o ter publicado – como estreia fora da francofonia e pela primeira vez a cores em todo o mundo – as aventuras de um certo Tintin. Hergé, o seu autor, no entanto, seria um dos poucos autores estrangeiros publicados em O Papagaio, juntamente com Jacobsson, Urátegui, Gordillo, Walter Booth e poucos mais, uma vez que a aposta principal de Müller foi sempre para os autores nacionais, alguns dos quais começaram ainda adolescentes nas suas páginas. Foi o caso de José Ruy, hoje um veterano, especialista em temas históricos, e o autor português com mais álbuns editados, que lá publicou as suas primeiras histórias aos quadradinhos quando contava apenas 14 anos, curiosamente todas no domínio da ficção.

Outros nomes nacionais que desempenharam um papel significativo no sucesso de O Papagaio, para além do já citado Tom, foram José de Lemos (responsável por toda a parte gráfica, após a saída daquele), Arcindo Moreira, Meco ou Rodrigues Neves. Mas, afirmam João Paiva Boléo e Carlos Bandeiras Pinheiro em “A Banda Desenhada Portuguesa 1914-1945” (Fundação Calouste Gulbenkian, 1997), deve-se aos irmãos Sérgio Luiz e Guy Manuel, precocemente desaparecidos, “a mais imorredoira criação de O Papagaio”, o Boneco Rebelde, protagonista de quatro aventuras.

Como casos peculiares há que citar ainda José Viana, o actor e humorista, autor de diversas bandas desenhadas de crítica de costumes, e Júlio Resende, hoje pintor de renome, então animador das festas e das emissões radiofónicas e criador do “emblemático Fagundes Arrepiado” que, escrevem Boléo e Pinheiro, revelava “um humor subtil e desconcertante, inteligente e invulgar, com uma originalidade que lhe vem de uma ironia natural”, e que também engrossaram, com engenho e mérito, o número de colaboradores da publicação. Por ela passariam ainda, embora de forma breve, nomes depois consagrados da 9ª arte nacional como Artur Correia, Vítor Péon ou José Garcês.

Com o modelo consolidado, apoiado também em separatas com banda desenhada ou construções de armar, concursos variados, no incentivo à correspondência por parte dos leitores e num programa radiofónico que alcançou grande sucesso, Simões Müller sairia no número 302, para dirigir o novo “concorrente” Diabrete, sendo o cargo de director assumido sucessivamente por Artur Bivar, José Rosa Ferreira e Laurinda Borges Magalhães.

Se, consensualmente, os primeiros cinco anos foram os melhores, os últimos foram de natural declínio, provocado também pelo aparecimento de novas propostas de uma concorrência forte (Mosquito e Diabrete), tendo O Papagaio, enquanto publicação autónoma, calado a sua voz a 10 de Fevereiro de 1949, 14 anos mais tarde, no nº 722. Teria ainda uma segunda vida, como secção da revista Flama, durante 96 números, até 9 de Fevereiro de 1951, mas já sem grande relevância.

Pedro Cleto (Texto publicado no dia 17 de Abril de 2010 na revista NS, distribuída ao sábado com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias)

https://outrasleiturasdopedro.blogspot.com/2010/04/ha-75-anos-voava-o-papagaio.html


(#251; 1 Fevereiro 1940; Capa; Tim-Tim, Rom-Rom e Zigue e Zague, autor Sérgio Luiz)


(#237; 26 Outubro 1939; Banda Título; Tim-Tim e Rom-Rom; Guy Manuel)


(#199; 2 Fevereiro 1939; Banda Título; Tintim; Sérgio)

Comentários:

(...) julgo que convinha sobretudo não repetir ou transmitir a falsa ideia (que se encontra noutros sítios) de que o Abel Varzim alguma vez teria frequentado ou conhecido o próprio Georges Remi, ou sequer se correspondia com ele. Claro que não foi esse o caso e isso está patente logo na primeira carta que lhe endereçou para se apresentar, um escasso mês apenas depois do começo da publicação d’O Papagaio, para explicar o que era a novel revista católica infantil e solicitar os direitos de reprodução da série, de preferência a preço reduzido, epístolas e detalhes que conhecemos graças à reprodução pelo holandês Jan Aarnout Boer em “De Avonturen van Kuifje in Portugal”.

Na realidade, Abel Varzim conheceu quando estudante em Louvain apenas a “obra”, ou seja as próprias histórias do Tintin, através da versão original no Petit Vingtième, de que era assinante (nem menciona os primeiros álbuns da Casterman, porque claramente não os conhecia). E jamais se encontrou com o desenhador nem se correspondia de todo com ele, mas graças àquele contacto por carta — chamemos-lhe profissional — tivemos o Tintin em primazia em Portugal e ainda por cima em quadricromia! 

Já agora, antes da estreia nacional da própria história [Tim-Tim na América do Norte, em 16/04/1936,] no nº 53, a primeira menção ocorreu n’O Papagaio num anúncio na separata do nº 49 e depois na capa do nº 51 da revista infantil O Papagaio, ligada à revista católica Renascença e não [...] à emissora Rádio Renascença que ainda nem sequer existia quando do aparecimento da publicação em 1935 - note que as emissões de rádio d’O Papagaio começaram por isso mesmo na Emissora Nacional. 


ARTUR CORREIA :

Iniciou a carreira “aos 14 anos, no “Papagaio”, após o curso na Machado de Castro”, mas desde “os sete que copiava tudo o que era bonecada, influenciado pelo “Mosquito” que era mentor e substituía o cinema, enquanto influenciador da nossa fantasia”. No site que o filho lhe dedicou evoca que “na altura recebia 7$50 por ilustração e 20 escudos por página ou capa” e confessa que era um dos que “alargava os desenhos das histórias do Tim-Tim” (era assim que então se escrevia), “transformando uma prancha única numa dupla, para ocupar a página central”!

(em artigo de Pedro Cleto)

Artur Correia, autor português de BD, ainda em actividade, numa entrevista publicada em Mundo de Aventuras 248 [5.ª série, de 1978], lembra que em O Papagaio «alargava, juntamente com um talentoso moço chamado Soares, os desenhos das histórias do Tim-Tim para virem publicados na página central. Nós é que fazíamos os acrescentos para transformar uma página única numa dupla»...


AVENTURAS PUBLICADAS NA REVISTA

Tim-Tim na América do Norte (Tintin na América, #53-#110)
Tim-Tim no Oriente (Os Charutos do Faraó, #115-#161)
Novas Aventuras de Tim-Tim (O Lótus Azul, #166-#205)
Tim-Tim em Angola (Tintin no Congo, #209-#244)
O Mistério da Orelha Quebrada (#247-#298)
Tim-Tim Na Ilha Negra (A Ilha Negra, #301-#359)
Tim-Tim no deserto (O Caranguejo das Tenazes de Ouro, #366-#426)
A Estrêla Misteriosa (A Estrela Misteriosa, #435-#540)
O Segredo da Licorne (O Segredo do Licorne, #617-#679)

Datas de Publicação:

4º Congo - O Papagaio (1939) #209 de 13 de Abril de 1939 ao #244 de 14 de Dezembro de 1939 (Tim-Tim em Angola)

1º América - O Papagaio (1936) #53 de 16 de Abril de 1936 ao #110 de 20 de Maio de 1937 (Tim-Tim na América do Norte)

2º Charutos - O Papagaio (1937) #115 de 24 de Junho de 1937 ao #161 de 12 de Maio de 1938

3º Lotus - O Papagaio (1938) #166 de 16 de Junho de 1938 ao #205 de 16 de Março de 1939

5º Orelha - O Papagaio (1940) «Tim-Tim e o mistério da orelha quebrada») #247 de 4 de Janeiro de 1940 ao #298 de 26 de Dezembro de 1940

6º Ilha - O Papagaio (1941) (Tim-Tim na ilha negra) #301 de 16 de Janeiro de 1941 ao #359 de 26 de Fevereiro de 1942

7º Caranguejo - O Papagaio (1942) «Tim-Tim no deserto») #366 de 16 de Abril de 1942 ao #426 de 10 de Junho de 1943

8º Estrela - O Papagaio (1943) #435 de 12 de Agosto de 1943 ao #540 de 16 de Agosto de 1945

9º Licorne - O Papagaio (1947) #617 de 6 de Fevereiro de 1947 ao #679 de 15 de Abril de 1948

Leitura recomendada:

+ O Papagaio - O Jornal da Rapaziada Endiabrada (5ª edição, 2022) de José Azevedo e Menezes

Índice: Introdução; Ficha técnica; Edições diferentes; Erros; Separatas; Clube; Festas; Emissões Radiofónicas; Diabruras; O Tim-Tim de O Papagaio; A introdução de Tim-Tim em Portugal; A Correspondência entre Hergé e O Papagaio; As nove histórias de Tim-Tim publicadas n'O Papagaio; “Pastiches”; As adaptações de O Papagaio; Quadradinhos alterados e desaparecidos; Milou e Rom-Rom; Secções; O que eu queria ser; Concursos; Colaboradores nacionais; Colaboradores estrangeiros; Colaboração dos leitores; Raridades; O Papagaio da Flama; Colaboradores de O Papagaio da Flama; Índice das histórias aos quadradinhos.

+ Edições comparativas MC (Tim-Tim na América do Norte, Tim-Tim em Angola)

+ Artigo de Rita P. Ramos sobre Tim-Tim em Angola (Ópio - 1995; revista Quadrado - 2000)


Tim-Tim repórter de O Papagaio

Dos nomes das personagens ao sexo do cão: a vida atribulada da primeira versão portuguesa das aventuras do herói.

Se a publicação de Tintin, a criação máxima de Hergé, ficou como o grande feito de O Papagaio, os seus leitores tiveram de esperar quase um ano, até ao n.º 49, de 19 de Março de 1936, para o herói ser anunciado na revista, como seu repórter na «América do Norte, país civilizadíssimo, donde nos chegam as maiores invenções e belas afirmações de espírito artístico» mas que é também, «infelizmente, um território onde o banditismo impera, no qual indivíduos da pior espécie e de todas as nacionalidades estabeleceram de há muito arraiais».

Milu, seu companheiro de sempre, na revista trocava o nome e o sexo, anunciando-o(a) como «a cadelinha Pom-Pom» porque, explica José Azevedo e Menezes em O Papagaio – Um Estudo do Que Foi Uma Grande Revista Infantil Portuguesa, citando Dias de Deus: « Em O Papagaio já havia uma Milu, Maria de Lurdes Norberto, (1) que recitava e cantava aos microfones das emissões infantis; Simões Müller entendeu que não ficaria bem dar o nome de uma menina conhecida a uma cadela»…

Dois números depois, em novo anúncio, já na capa, o seu nome passava a Rom-Rom mas o sexo trocado manter-se-ia até ao fim da revista. [Também o capitão Haddock e o professor Tournesol foram rebaptizados, passando, respectivamente, a capitão Rosa e a professor Pintadinho…] (2) (3)

Finalmente, no n.º 53, logo na capa, com cores vivas (e hoje exageradas) começavam as Aventuras de Tim-Tim na América do Norte, pela primeira vez em policromia em todo o mundo. Sinal de outros tempos, o respeito pelos originais de Hergé era pouco ou mesmo nenhum, sendo normal as pranchas serem retalhadas e remontadas em função do espaço disponível ou a ocupar.

(artigo DN, 2010)

(1) Leonardo de Sá e Geraldes Lino chamaram-nos a atenção para o facto de não poder ter sido Maria de Lurdes Norberto, nascida em 1935, a causa do nome Rom-Rom: Simões Müller, em entrevista dada ao “Jornal de Letras”, de 16 de Março de 1987, diz que o nome Rom-Rom foi posto ao cãozinho de Tim-Tim, por nessa altura haver uma menina que cantava na Rádio, “a menina da Rádio”. Em 1935, com nove anos de idade, Milú já cantava nos programas infantis da Rádio Graça e era conhecida como “a menina da Rádio”. Milú Almeida ou simplesmente Milú, como ficou conhecida pelas suas participações nos filmes “O Costa do Castelo”, “O Leão da Estrela” e “O Grande Elias” (mas não em “A Menina da Rádio”, que foi protagonizado por Maria Eugénia, a Geninha). (Azevedo e Menezes, Monografia de O Papagaio)

(2) Haddock apenas foi chamado de Capitão Rosa em O Diabrete e nas revistas seguintes.

(3) Tournesol não aparece em nenhuma das aventuras publicadas na revista estreando-se apenas em O Diabrete.


A publicação editada pela empresa católica Renascença, recebeu o impulso dinamizador de Adolfo Simões Muller mas terá sido “ o grafismo e filosofia desenvolvidos por Tom ( Thomaz de Melo ) e José de Lemos” ambos herdeiros da tradição modernista, que a transformaram numa das publicações graficamente mais elogiadas pelas “ suas ternas , elegantes e divertidas BDs” e as suas” atraentes capas, esteticamente muito conseguidas e cheias de bom gosto” vide João Paulo Paiva Boléo e Carlos Bandeiras Pinheiro, Das conferências do Casino à Filosofia de Ponta[...] p. 99. O “Papagaio” será ainda referência na História da BD em Portugal por publicar em estreia internacional ( de países francófonos) as aventuras de Tintin ( a cores) e sobretudo pela criação portuguesa que foi o “Boneco Rebelde” de Sérgio Luiz, cujo personagem central se revolta permanentemente contra o seu criador num “ registo surrealista e fantástico que depois será passada para o cinema de animação naquela que foi um das primeiras experiências do género realizada em Portugal “

Carlos Pessoa , Roteiro Breve da Banda Desenhada em Portugal

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Boneco Rebelde

O boneco rebelde será uma versão portuguesa de Tim-Tim. O herói belga aparecera três anos antes em "O Papagaio" e entra nas três folhas iniciais da primeira aventura do Boneco Rebelde.

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"Aventuras do Boneco Rebelde" de Sérgio Luís

Um lugar mágico da BD portuguesa

Um boneco rebelde, saído de um frasco de tinta, abre portas no oceano, percorre destinos exóticos. Se se disser que o boneco saltou, em finais dos anos 30, do frasco de tinta do seu criador, Sérgio Luís, para as páginas de "O Papagaio", permite-se descobrir um dos legados mais invulgares da BD portuguesa.

A 20 de Maio de 1943 houve uma notícia necrológica, claramente adocicada, para os leitores da publicação infanto-juvenil "O Papagaio". Escrevia-se que Sérgio Luís, "esse moço cheio de talento (...) partiu para essa grande viagem donde não se volta". Deixava concluída a derradeira aventura de "O Boneco Rebelde", cuja última prancha surgia nessa data.

Sérgio Luís, que alguns consideram um dos autores mais relevantes da BD portuguesa, havia falecido três meses antes, aos 21 anos, de tuberculose. Seis meses mais tarde, seguia-se, em circunstâncias idênticas, Guy Manuel, seu irmão, um ano mais novo, e nome que aparece igualmente ligado à génese de "O Boneco Rebelde" - como se esta fosse uma obra marcada pela fatalidade, que o tempo trataria de apagar os vestígios, os mesmos de um boneco que animou durante cerca de quatro anos e que surgem agora reunidos, na sua totalidade, num volume recentemente editado pela BaleiAzul.

Nas concepções de "O Boneco Rebelde" surgem sínteses que Sérgio Luís levaria ao paroxismo, na forma com jogou com as convenções narrativas da BD. Em impurezas gráficas, que tiverem igualmente paralelo, lá fora, em "Little Nemo", de Winsor McCay, e em "Felix The Cat" de Pat Sullivan. Sérgio Luís seria ainda um dos percursores do cinema de animação em Portugal, num pequeno filme de 10 minutos que curiosamente não deixa de estar ligado à sua doença (as radiografias serviriam-lhe de transparências para traçar as sequências). "Os Bonecos Rebeldes", a mostra que a Bedeteca de Lisboa dedicou, no princípio deste ano, à obra dos irmãos Sérgio Luís e Guy Manuel, permitiu ver essas imagens, que aparecem ainda num "flip book", inserido no catálogo.

O prefácio crítico e a organização do álbum da BaleiAzul, pertence a Carlos Bandeiras Pinheiro e João Paiva Boléo, e apresenta, para além de material inédito, algumas pranchas remontadas a partir das páginas do "O Papagaio", por questões, segundo os prefaciadores, que se prendem com a uniformização do álbum.

Quatro aventuras constituem o núcleo do livro, incluindo assim a totalidade dos trabalhos de "O Papagaio"- 1939 /1943 - sobre um boneco, conotado desde o início pela sua rebeldia aos dispositivos da criação. Inspirado vagamente em Tintin - com quem aliás se encontra na aventura inaugural - o boneco rebelde submete-se, logo aí, à sátira, surgindo gags recorrentes à obra de Hergé. Na forma caricatural como é castigado pelo autor, os meios de deslocação tornam-se variados, sublinhando ainda que é um boneco saído de um frasco de tinta; mas estão lá também as súbitas transgressões matéricas: sai de tinteiros, abre portas em tábuas destinadas ao seu salvamento, desenha-se a si próprio ou voa constantemente de terra em terra.

Como fica inscrito no prefácio, "(...) a naturalidade com que passa de uma sequência de suspense para um universo poético e surreal(...)" justifica um género onde surgem premissas do fantástico: quando o boneco se confronta com duas bruxas, uma má e outra boa, que se fundem numa só, irrompe um fluxo de impurezas que joga na apropriação de matérias tão diversas como os romances de cavalaria e contos de fadas. É no resgatar dessas marcas de singularidade - e onde podem ser vistas as figuras femininas desenhadas pelo seu irmão Guy Manuel, sobretudo nas aventuras "O Livro Mágico" e "A Ilha Misteriosa"- que surgem óbvias conotações lúdicas, conferindo uma particularidade a este lançamento da BaleiAzul.

"As Aventuras do Boneco Rebelde" são imagens que habitam um lugar mágico da BD portuguesa que aparece agora à luz do dia.

Título: "Aventuras do Boneco Rebelde"

Editor: Edições BaleiAzul, colecção Bedeteca

Autor: Sérgio Luís

5.775$00, 151 pgs

Nuno Franco, Público


sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Variantes - Uma homenagem à BD portuguesa

«Desde aquela que é considerada a primeira BD Portuguesa (Apontamentos de Raphael Bordallo Pinheiro Sobre a Picaresca Viagem do Imperador do Rasilb Pela Europa) em 1872, até ao fim do século XX, com Tu És a Mulher da Minha Vida, Ela a Mulher dos Meus Sonhos, dos jovens João Fazenda e Pedro Brito em 2000, este livro traça um percurso pelas bandas desenhadas produzidas em Portugal, e homenageia criadores e personagens, numa tentativa de realçar momentos e autores que se foram destacando pela qualidade e significado, numa arte que teima em persistir, mesmo não existindo no contexto nacional».

É assim - em tom de provocação - que Júlio Eme, editor deste projecto inédito começa por apresentar o livro colectânea que se propõe fazer a devida homenagem à BD portuguesa, concretizada numa obra extensa, atenta, representativa da diversidade da 9º arte nacional até ao ano de 2000. Variantes – Homenagem a BD Portuguesa começa desde logo com a descoberta de Bordallo Pinheiro como precursor de uma aventura com muitos nomes a destacar a partir daí. Mesmo enfrentando a difícil penetração num mercado que teima em não se abrir, apesar do reconhecimento internacional e prémios.

http://biblobd.blogspot.com/2022/09/variantes-uma-homenagem-bd-portuguesa.html

1939 – AVENTURAS DUM BONECO REBELDE

Para além de ser um marco incontornável da história da banda desenhada portuguesa, Aventuras dum Boneco Rebelde, a série criada por Sérgio Luiz (1921 – 1943) para a revista O Papagaio, é uma obra de uma notável modernidade, agora como na altura em que foi desenhada, há mais de 70 anos, mostra maior de um talento fulgurante que pouco tempo teve para brilhar.

A criatividade e inventividade do jovem Sérgio Luiz e a forma como joga com as convenções da própria BD, colocam-no como digno representante de uma linhagem que vai de Winsor McCay a Fred, passando por Bill Watterson. Irrequieto e desobediente como o Calvin, o Boneco Rebelde sai do seu frasco de tinta para conhecer o Tintin (personagem que era presença habitual nas páginas d’O Papagaio, onde foi publicado pela primeira vez a cores); é salvo de morrer afogado pelo seu autor, que lhe estende o lápis que lhe dá vida; viaja por todo o lado, do país dos insectos à ilha misteriosa; faz vários clones de si próprio; é estrela de desenhos animados (pois Sérgio Luiz foi também um pioneiro do cinema de animação português, tendo realizado um filme do Boneco Rebelde que se perdeu) e ainda consegue criar uma nova espécie que não vem nos contos de fadas, ao juntar uma bruxa boa e uma bruxa má! Tudo isto em apenas quatro aventuras, vividas nas páginas d’O Papagaio, entre os números 224 (de 27 de Agosto de 1939) e 423, de 20 de Maio de 1943. Na verdade, apesar da sua curta carreira, integralmente vivida nas páginas da revista criada por Adolfo Simões Muller, o Boneco Rebelde vai ainda assim sobreviver por alguns meses ao seu criador, desaparecido em 23 de Janeiro de 1943, com apenas 21 anos, vitimado por uma tuberculose renal.

Fernando Pessoa, a propósito da morte do seu amigo Mário de Sá Carneiro, disse que os deuses levam cedo aqueles que amam. Uma frase que se poderia aplicar com toda a justiça ao jovem leiriense Sérgio Luiz, criador do Boneco Rebelde. A morte trágica e prematura de Sérgio Luiz deixa-nos apenas imaginar até onde o levaria o seu imenso talento, mas se compararmos o desenho de Sérgio Luiz com o de Hergé na sua idade, vemos que também aí poderia ter chegado mesmo muito longe.

João Miguel Lameiras / Texto publicado no livro Variantes


 "O Boneco Rebelde" de Sérgio Luiz era uma versão portuguesa de Tim-Tim que aparecera três anos antes em "O Papagaio" e entra nas três folhas iniciais da primeira aventura do Boneco Rebelde. No livro "Variantes - Uma Homenagem à BD portuguesa" aparece uma homenagem de Paula Cabral ao Boneco Rebelde com a recriação desse encontro com o herói belga.