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terça-feira, 20 de agosto de 2024

Morreu há 60 anos Abel Varzim, o padre que lutou pela justiça social e apresentou Tintim aos portugueses


(...) Ao seu empenho se deve a publicação das aventuras de Tintim (Tim-Tim, era o nome usado na altura) em Portugal, que foi, aliás, o primeiro país não francófono a acolhê-las. As histórias da amizade com Hergé e da publicação de Tim-Tim no nosso país encontram-se relatadas por Albert Algoud no livro Le Senhor Oliveira da Figueira & les aventures de Hergé et Tim-Tim au Portugal, publicado pelas Éditions Chandeigne em 2021. O “Abbé Abel Varzim” é a primeira entrada do “Glossário de uma longa colaboração”. A acompanhar, encontra-se um retrato do sacerdote desenhado por Philippe Dumas.

À tout seigneur tout honneur” – “O seu a seu dono” – escreve o autor, lembrando que foi o Padre Abel Varzim, que em Lovaina tinha conhecido Georges Remi, mais tarde famoso como Hergé, quem se encarregou de pedir autorização para reproduzir em O Papagaio as histórias publicadas em Le Petit Vingtième, o suplemento semanal de Le Vingtième Siècle, como é comprovado por uma carta endereçada ao director do jornal belga em 25 de Maio de 1935.

Foram várias as questiúnculas relacionadas com a edição em Portugal de Tim-Tim, apresentado em O Papagaio como “um repórter português residente em Lisboa”, e não como o repórter belga que efectivamente era. A colorização (“foi em Portugal, e não na Bélgica, que as aventuras de Tintim foram pela primeira vez publicadas a cores”) e a remontagem de imagens (“recortadas e montadas unicamente em função do espaço disponível nas páginas do Papagaio“) originaram embaraços entre Hergé e os seus editores portugueses.

Um imbróglio diz respeito ao facto de, a partir de um determinado momento, Adolfo Simões Müller querer levar o Tintim para uma nova revista, Diabrete, que competiria com O Papagaio, que pretendia manter o “repórter português” ao seu serviço. Albert Algoud nota que Abel Varzim manteve as aventuras de Tintim e o concorrente ficou com as histórias de outros heróis de Hergé: Jo, Zette e Jocko, além das de Quick e Flupke.

Assaz curioso é o modo de remuneração do trabalho de Hergé. Albert Algoud conta que, a partir de 1940, estando a Bélgica sob o jugo da Alemanha nazi e, por isso, submetida a severos racionamentos alimentares, o criador de Tintim se disponibilizou a ser pago em sardinhas, chocolate e café. Hergé pede igualmente o envio de bens idênticos ao irmão prisioneiro na Alemanha.

No dia 23 de Fevereiro de 1943, Hergé escreve a Adolfo Simões Müller e ao Padre Abel Varzim sobre a questão dos pagamentos. A este último pede que lhe continue a fazer chegar latas de sardinhas e de frutos secos. A Adolfo Simões Müller pede também alguns cigarros de tabaco inglês, que fariam do criador de Tintim o homem “mais feliz do mundo”.

Albert Algoud dá conta da existência de um recibo datado de 24 de Maio de 1943 comprovativo de que Hergé tinha recebido 40 embalagens contendo 219 latas de sardinhas, com um peso total de 18 kg. A quantidade de latas de sardinhas foi tão elevada que Hergé se tornou suspeito de as negociar no mercado negro, tendo de prestar contas à administração alfandegária, após uma denúncia anónima.

Eram tempos difíceis na Bélgica e em Portugal. Eram tempos difíceis no mundo.

Eduardo Jorge Madureira in 7 Margens

quinta-feira, 18 de julho de 2024

Tim-Tim repórter d’O Papagaio


Se a publicação de Tintin, a criação máxima de Hergé, ficou como o grande feito de O Papagaio, os seus leitores tiveram que esperar quase um ano, até ao nº 49, de 19 de Março de 1936, para o herói ser anunciado na revista, como seu repórter na “América do Norte, país civilizadíssimo, donde nos chegam as maiores invenções e belas afirmações de espírito artístico” mas que é também “infelizmente, um território onde o banditismo impera, no qual indivíduos da pior espécie e de todas as nacionalidades estabeleceram de há muito arraiais”. A Milu, seu companheiro de sempre, a revista trocava o nome e o sexo, anunciando-o(a) como “a cadelinha Pom-Pom” porque, explica José Azevedo e Menezes em “O Papagaio – Um estudo do que foi uma grande revista infantil portuguesa” (2ª edição, do autor, 2007), citando Dias de Deus: “n'O Papagaio já havia uma Milu, Maria de Lurdes Norberto, que recitava e cantava aos microfones das emissões infantis; Simões Müller entendeu que não ficaria bem dar o nome de uma menina conhecida a uma cadela”… Dois números depois, em novo anúncio, já na capa, o seu nome passava a Rom-Rom mas o sexo trocado manter-se-ia até ao fim da revista. (...)

Finalmente, no nº 53, logo na capa, com cores vivas (e hoje exageradas) começavam as “Aventuras de Tim-Tim na América do Norte”, pela primeira vez em policromia em todo o mundo. Sinal de outros tempos, o respeito pelos originais de Hergé era pouco ou mesmo nenhum, sendo normal as pranchas serem retalhadas e remontadas, em função do espaço disponível ou a ocupar. 

Artur Correia, autor português de BD, ainda em actividade, numa entrevista publicada no Mundo de Aventuras 248 (5ª série, de 1978) lembra que n'O Papagaio “alargava juntamente com um talentoso moço chamado Soares, os desenhos das histórias do Tim-Tim para virem publicados na página central. Nós é que fazíamos os acrescentos para transformar uma página única numa dupla”...

Modificações que também se faziam sentir ao nível dos textos, a começar logo com “Tim-Tim na América”: na fase final da história, os operários ausentes da fábrica onde o herói sofre um atentado, em greve (proibida no nosso país) no original, tinham saído para almoço… 

Seguir-se-ia “Tim-Tim no Oriente” (Os Charutos do Faraó, publicado do #115 ao #161), no qual o vendedor de banha da cobra Oliveira de Figueira, o único figurante luso de relevo criado por Hergé, era apresentado como… espanhol! 

Depois, viriam as “Novas Aventuras de Tim-Tim” (“O Lótus Azul”, #166-#205) e a aventura africana do “repórter que nunca escreveu uma linha”, que o levou a pisar solo (colonial) português em “Tim-Tim em Angola” (“Tintin no Congo”, #209-#244). 

Já em “O Mistério da Orelha Quebrada” (#247-#298), o general Alcazar é rebaptizado de Manduca, para não ser associado ao episódio, então recente, do cerco do Alcazar de Toledo durante a Guerra Civil espanhola.

No episódio seguinte, “A Ilha Negra” (#301-#359), o adversário do herói deixou de ser o Dr. Müller (para não ser entendido como piada ao então já ex-director da revista), transformando-se num banal Dr. Silva, e em “Tim-Tim no deserto” (“O caranguejo das tenazes de ouro”, #366-#426), Haddock, que no original se sentia mal depois de beber um copo de água (por não ser de uísque) nas páginas de O Papagaio, sente-se mal mas melhora depois de beber a água!

A aventura seguinte (“A Estrela Misteriosa”, #435-#540) é publicada sem título e a presença de Tintin na revista portuguesa terminaria com “O Segredo da Licorne” (#617-#679).

Para além disso, Tintin surgiu em muitas capas de O Papagaio (cujas revistas correspondentes são hoje avidamente disputadas pelos coleccionadores), em desenhos originais ou feitos por autores portugueses, como boneco articulado de montar e mesmo noutras histórias, como é o caso da primeira aventura do “Boneco Rebelde”, de Sérgio Luiz [e Guy Manuel], em que contracena com o protagonista nas páginas iniciais, e como despoletador da acção em “Na pista de Tim-Tim”, de Diniz de Oliveira e Rodrigues Neves.

Pelo meio, ficaram também as tentativas goradas de Simões Müller de o levar consigo para o “Diabrete” (o que só conseguiu após o fim de O Papagaio), onde teve de se contentar com “Trovão e Relâmpago” (aliás “Quick et Flupke”), inicialmente publicados sem conhecimento de Hergé, e o facto de parte dos direitos de Tintin terem sido pagos em géneros, mais exactamente em latas de sardinhas, enviados para a Alemanha onde estava preso o irmão do desenhador belga.

Pedro Cleto (Texto publicado no dia 17 de Abril de 2010 na revista NS, distribuída ao sábado com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias)

Foi a 18 de Abril de 1935 que O Papagaio abriu pela primeira vez, se não as suas asas, pelo menos as suas páginas às mãos e olhos ávidos dos miúdos a quem a revista se destinava, como se lia por baixo do seu cabeçalho, ao lado do qual também estava o preço – elevado para a época - de 1$00. No interior desse número inaugural – como durante o resto da sua vida, onde nunca ocupou mais de um terço das páginas - a banda desenhada – então chamada histórias aos quadradinhos pois o francesismo só entraria em uso décadas depois – era pouca, limitada a uma prancha de Tom (Thomaz de Melo, um dos responsáveis pela capa e pelo grafismo atraente da novel publicação), intitulada “Sabichão em calças pardas”, e meia prancha de Stuart Carvalhais, com os seus Quim e Manecas. Nas suas páginas, a preto e branco, uma ou várias cores, a prioridade era dada a contos, curiosidades, passatempos e concursos, tudo com um forte pendor didáctico e formativo, algo perfeitamente normal na época.

Publicação católica, semanal, com saída às quintas-feiras, propriedade da Renascença, tinha como director um dos maiores nomes que o jornalismo infanto-juvenil português conheceu, Adolfo Simões Müller.

A revista viria a durar 722 números, com altos e baixos, como é incontornável, e dela ficou como principal imagem de marca ter servido de modelo a muitos dos títulos infanto-juvenis lançados nos anos seguintes e o ter publicado – como estreia fora da francofonia e pela primeira vez a cores em todo o mundo – as aventuras de um certo Tintin. Hergé, o seu autor, no entanto, seria um dos poucos autores estrangeiros publicados em O Papagaio, juntamente com Jacobsson, Urátegui, Gordillo, Walter Booth e poucos mais, uma vez que a aposta principal de Müller foi sempre para os autores nacionais, alguns dos quais começaram ainda adolescentes nas suas páginas. Foi o caso de José Ruy, hoje um veterano, especialista em temas históricos, e o autor português com mais álbuns editados, que lá publicou as suas primeiras histórias aos quadradinhos quando contava apenas 14 anos, curiosamente todas no domínio da ficção.

Outros nomes nacionais que desempenharam um papel significativo no sucesso de O Papagaio, para além do já citado Tom, foram José de Lemos (responsável por toda a parte gráfica, após a saída daquele), Arcindo Moreira, Meco ou Rodrigues Neves. Mas, afirmam João Paiva Boléo e Carlos Bandeiras Pinheiro em “A Banda Desenhada Portuguesa 1914-1945” (Fundação Calouste Gulbenkian, 1997), deve-se aos irmãos Sérgio Luiz e Guy Manuel, precocemente desaparecidos, “a mais imorredoira criação de O Papagaio”, o Boneco Rebelde, protagonista de quatro aventuras.

Como casos peculiares há que citar ainda José Viana, o actor e humorista, autor de diversas bandas desenhadas de crítica de costumes, e Júlio Resende, hoje pintor de renome, então animador das festas e das emissões radiofónicas e criador do “emblemático Fagundes Arrepiado” que, escrevem Boléo e Pinheiro, revelava “um humor subtil e desconcertante, inteligente e invulgar, com uma originalidade que lhe vem de uma ironia natural”, e que também engrossaram, com engenho e mérito, o número de colaboradores da publicação. Por ela passariam ainda, embora de forma breve, nomes depois consagrados da 9ª arte nacional como Artur Correia, Vítor Péon ou José Garcês.

Com o modelo consolidado, apoiado também em separatas com banda desenhada ou construções de armar, concursos variados, no incentivo à correspondência por parte dos leitores e num programa radiofónico que alcançou grande sucesso, Simões Müller sairia no número 302, para dirigir o novo “concorrente” Diabrete, sendo o cargo de director assumido sucessivamente por Artur Bivar, José Rosa Ferreira e Laurinda Borges Magalhães.

Se, consensualmente, os primeiros cinco anos foram os melhores, os últimos foram de natural declínio, provocado também pelo aparecimento de novas propostas de uma concorrência forte (Mosquito e Diabrete), tendo O Papagaio, enquanto publicação autónoma, calado a sua voz a 10 de Fevereiro de 1949, 14 anos mais tarde, no nº 722. Teria ainda uma segunda vida, como secção da revista Flama, durante 96 números, até 9 de Fevereiro de 1951, mas já sem grande relevância.

Pedro Cleto (Texto publicado no dia 17 de Abril de 2010 na revista NS, distribuída ao sábado com o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias)

https://outrasleiturasdopedro.blogspot.com/2010/04/ha-75-anos-voava-o-papagaio.html


(#251; 1 Fevereiro 1940; Capa; Tim-Tim, Rom-Rom e Zigue e Zague, autor Sérgio Luiz)


(#237; 26 Outubro 1939; Banda Título; Tim-Tim e Rom-Rom; Guy Manuel)


(#199; 2 Fevereiro 1939; Banda Título; Tintim; Sérgio)

Comentários:

(...) julgo que convinha sobretudo não repetir ou transmitir a falsa ideia (que se encontra noutros sítios) de que o Abel Varzim alguma vez teria frequentado ou conhecido o próprio Georges Remi, ou sequer se correspondia com ele. Claro que não foi esse o caso e isso está patente logo na primeira carta que lhe endereçou para se apresentar, um escasso mês apenas depois do começo da publicação d’O Papagaio, para explicar o que era a novel revista católica infantil e solicitar os direitos de reprodução da série, de preferência a preço reduzido, epístolas e detalhes que conhecemos graças à reprodução pelo holandês Jan Aarnout Boer em “De Avonturen van Kuifje in Portugal”.

Na realidade, Abel Varzim conheceu quando estudante em Louvain apenas a “obra”, ou seja as próprias histórias do Tintin, através da versão original no Petit Vingtième, de que era assinante (nem menciona os primeiros álbuns da Casterman, porque claramente não os conhecia). E jamais se encontrou com o desenhador nem se correspondia de todo com ele, mas graças àquele contacto por carta — chamemos-lhe profissional — tivemos o Tintin em primazia em Portugal e ainda por cima em quadricromia! 

Já agora, antes da estreia nacional da própria história [Tim-Tim na América do Norte, em 16/04/1936,] no nº 53, a primeira menção ocorreu n’O Papagaio num anúncio na separata do nº 49 e depois na capa do nº 51 da revista infantil O Papagaio, ligada à revista católica Renascença e não [...] à emissora Rádio Renascença que ainda nem sequer existia quando do aparecimento da publicação em 1935 - note que as emissões de rádio d’O Papagaio começaram por isso mesmo na Emissora Nacional. 


ARTUR CORREIA :

Iniciou a carreira “aos 14 anos, no “Papagaio”, após o curso na Machado de Castro”, mas desde “os sete que copiava tudo o que era bonecada, influenciado pelo “Mosquito” que era mentor e substituía o cinema, enquanto influenciador da nossa fantasia”. No site que o filho lhe dedicou evoca que “na altura recebia 7$50 por ilustração e 20 escudos por página ou capa” e confessa que era um dos que “alargava os desenhos das histórias do Tim-Tim” (era assim que então se escrevia), “transformando uma prancha única numa dupla, para ocupar a página central”!

(em artigo de Pedro Cleto)

Artur Correia, autor português de BD, ainda em actividade, numa entrevista publicada em Mundo de Aventuras 248 [5.ª série, de 1978], lembra que em O Papagaio «alargava, juntamente com um talentoso moço chamado Soares, os desenhos das histórias do Tim-Tim para virem publicados na página central. Nós é que fazíamos os acrescentos para transformar uma página única numa dupla»...


AVENTURAS PUBLICADAS NA REVISTA

Tim-Tim na América do Norte (Tintin na América, #53-#110)
Tim-Tim no Oriente (Os Charutos do Faraó, #115-#161)
Novas Aventuras de Tim-Tim (O Lótus Azul, #166-#205)
Tim-Tim em Angola (Tintin no Congo, #209-#244)
O Mistério da Orelha Quebrada (#247-#298)
Tim-Tim Na Ilha Negra (A Ilha Negra, #301-#359)
Tim-Tim no deserto (O Caranguejo das Tenazes de Ouro, #366-#426)
A Estrêla Misteriosa (A Estrela Misteriosa, #435-#540)
O Segredo da Licorne (O Segredo do Licorne, #617-#679)

Datas de Publicação:

4º Congo - O Papagaio (1939) #209 de 13 de Abril de 1939 ao #244 de 14 de Dezembro de 1939 (Tim-Tim em Angola)

1º América - O Papagaio (1936) #53 de 16 de Abril de 1936 ao #110 de 20 de Maio de 1937 (Tim-Tim na América do Norte)

2º Charutos - O Papagaio (1937) #115 de 24 de Junho de 1937 ao #161 de 12 de Maio de 1938

3º Lotus - O Papagaio (1938) #166 de 16 de Junho de 1938 ao #205 de 16 de Março de 1939

5º Orelha - O Papagaio (1940) «Tim-Tim e o mistério da orelha quebrada») #247 de 4 de Janeiro de 1940 ao #298 de 26 de Dezembro de 1940

6º Ilha - O Papagaio (1941) (Tim-Tim na ilha negra) #301 de 16 de Janeiro de 1941 ao #359 de 26 de Fevereiro de 1942

7º Caranguejo - O Papagaio (1942) «Tim-Tim no deserto») #366 de 16 de Abril de 1942 ao #426 de 10 de Junho de 1943

8º Estrela - O Papagaio (1943) #435 de 12 de Agosto de 1943 ao #540 de 16 de Agosto de 1945

9º Licorne - O Papagaio (1947) #617 de 6 de Fevereiro de 1947 ao #679 de 15 de Abril de 1948

Leitura recomendada:

+ O Papagaio - O Jornal da Rapaziada Endiabrada (5ª edição, 2022) de José Azevedo e Menezes

Índice: Introdução; Ficha técnica; Edições diferentes; Erros; Separatas; Clube; Festas; Emissões Radiofónicas; Diabruras; O Tim-Tim de O Papagaio; A introdução de Tim-Tim em Portugal; A Correspondência entre Hergé e O Papagaio; As nove histórias de Tim-Tim publicadas n'O Papagaio; “Pastiches”; As adaptações de O Papagaio; Quadradinhos alterados e desaparecidos; Milou e Rom-Rom; Secções; O que eu queria ser; Concursos; Colaboradores nacionais; Colaboradores estrangeiros; Colaboração dos leitores; Raridades; O Papagaio da Flama; Colaboradores de O Papagaio da Flama; Índice das histórias aos quadradinhos.

+ Edições comparativas MC (Tim-Tim na América do Norte, Tim-Tim em Angola)

+ Artigo de Rita P. Ramos sobre Tim-Tim em Angola (Ópio - 1995; revista Quadrado - 2000)


Tim-Tim repórter de O Papagaio

Dos nomes das personagens ao sexo do cão: a vida atribulada da primeira versão portuguesa das aventuras do herói.

Se a publicação de Tintin, a criação máxima de Hergé, ficou como o grande feito de O Papagaio, os seus leitores tiveram de esperar quase um ano, até ao n.º 49, de 19 de Março de 1936, para o herói ser anunciado na revista, como seu repórter na «América do Norte, país civilizadíssimo, donde nos chegam as maiores invenções e belas afirmações de espírito artístico» mas que é também, «infelizmente, um território onde o banditismo impera, no qual indivíduos da pior espécie e de todas as nacionalidades estabeleceram de há muito arraiais».

Milu, seu companheiro de sempre, na revista trocava o nome e o sexo, anunciando-o(a) como «a cadelinha Pom-Pom» porque, explica José Azevedo e Menezes em O Papagaio – Um Estudo do Que Foi Uma Grande Revista Infantil Portuguesa, citando Dias de Deus: « Em O Papagaio já havia uma Milu, Maria de Lurdes Norberto, (1) que recitava e cantava aos microfones das emissões infantis; Simões Müller entendeu que não ficaria bem dar o nome de uma menina conhecida a uma cadela»…

Dois números depois, em novo anúncio, já na capa, o seu nome passava a Rom-Rom mas o sexo trocado manter-se-ia até ao fim da revista. [Também o capitão Haddock e o professor Tournesol foram rebaptizados, passando, respectivamente, a capitão Rosa e a professor Pintadinho…] (2) (3)

Finalmente, no n.º 53, logo na capa, com cores vivas (e hoje exageradas) começavam as Aventuras de Tim-Tim na América do Norte, pela primeira vez em policromia em todo o mundo. Sinal de outros tempos, o respeito pelos originais de Hergé era pouco ou mesmo nenhum, sendo normal as pranchas serem retalhadas e remontadas em função do espaço disponível ou a ocupar.

(artigo DN, 2010)

(1) Leonardo de Sá e Geraldes Lino chamaram-nos a atenção para o facto de não poder ter sido Maria de Lurdes Norberto, nascida em 1935, a causa do nome Rom-Rom: Simões Müller, em entrevista dada ao “Jornal de Letras”, de 16 de Março de 1987, diz que o nome Rom-Rom foi posto ao cãozinho de Tim-Tim, por nessa altura haver uma menina que cantava na Rádio, “a menina da Rádio”. Em 1935, com nove anos de idade, Milú já cantava nos programas infantis da Rádio Graça e era conhecida como “a menina da Rádio”. Milú Almeida ou simplesmente Milú, como ficou conhecida pelas suas participações nos filmes “O Costa do Castelo”, “O Leão da Estrela” e “O Grande Elias” (mas não em “A Menina da Rádio”, que foi protagonizado por Maria Eugénia, a Geninha). (Azevedo e Menezes, Monografia de O Papagaio)

(2) Haddock apenas foi chamado de Capitão Rosa em O Diabrete e nas revistas seguintes.

(3) Tournesol não aparece em nenhuma das aventuras publicadas na revista estreando-se apenas em O Diabrete.

sexta-feira, 15 de março de 2024

Diabrete 1941-1951


DIABRETE

#1 (4 de Janeiro de 1941) a #887 (29 de Dezembro de 1951)

Prop. da Empresa Nacional de Publicidade. Director: A. Urbano de Castro (até ao nº 19 de 17 de Maio de 1941) & Adolfo Simões Muller (deste esta data até ao final). Editor: M. Nunes de Carvalho. 22,5x33,5 cm e 18,5x24,5 cm. 887 números. Enc. em XVII vols.

A revista Diabrete começou a sua publicação a 4 de Janeiro de 1941 tendo deixado de existir em 1951. 

É sem dúvida uma das que mais marcaram o universo visual juvenil do Estado Novo e a única publicação rival do Mosquito. 

In-libris

https://bedetecaportugal.weebly.com/diabrete.html

«(...) Tintin fez uma transferência de arromba para o Diabrete (que há muito o cobiçava), onde viveu uma nova era de popularidade e glória.

Sob a direcção de Adolfo Simões Müller, escritor, pedagogo e poeta, que também fora o principal responsável pelo aparecimento de Tintin n’O Papagaio (e pela primeira vez a cores!), o Diabrete publicou três das melhores aventuras do jovem e dinâmico repórter que até tinha, em versão francófona, um jornal com o seu nome: “O Ceptro de Ottokar” (estreada no nº 594, de 09/03/1949), “O Tesoiro do Cavaleiro da Rosa” (idem, no nº 703, de 25/03/1950) e “As 7 Bolas de Cristal” (iniciada no nº 809, de 31/03/1951, e terminada no nº 887, de 29/12/1951, em que o Diabrete se despediu dos seus leitores).

Todas elas fizeram as delícias dos jovens desse tempo, que as desfrutavam em dose dupla, semanalmente, nas páginas do “grande camaradão”, e de um ou outro adulto que, por curiosidade, folheava também as revistas dos filhos. O famoso herói de Hergé teve ainda o condão de inspirar a Fernando Bento, cuja fantasia gráfica o consagrou como um dos mais talentosos desenhadores do Diabrete, duas capas que merecem figurar na galeria das curiosidades avidamente procuradas por muitos tintinófilos.

Em ambas, respeitantes aos nºs 784, de 3/1/1951, e 807, de 24/3/1951 — a falta de numeração, nas capas, é um dos lapsos mais frequentes do Diabrete —, estão presentes Tintin, Milou (baptizado de Rom-Rom, como n’O Papagaio) e alguns dos seus companheiros, a par de outros heróis da revista, reconhecendo-se, por exemplo, as figuras de Bob e Lambique, protagonistas do clássico de Willy Vandersteen “Le Fantôme Espagnol” (que, no Diabrete, tomou o título de “O Mistério do Quadro Flamengo”).

Os nossos agradecimentos a José Menezes (autor de magníficos estudos sobre O Papagaio e o Diabrete), por nos ter enviado a imagem da capa do nº 593, que serviu de introdução às aventuras de Tim-Tim e Rom-Rom no Diabrete. Reparem que está assinada por Hergé e que difere substancialmente da capa do álbum da Casterman (1939).»

O Gato Alfarrabista, 20/01/2014

Em 1941 Adolfo Simões Müller abandonou “O Papagaio”, por divergências com Abel Varzim, e fundou uma nova revista juvenil, “O Diabrete” (4 de Janeiro de 1941- 29 de Dezembro de 1958). Müller chegou a escrever a Hergé para conseguir ficar com os direitos de publicação de Tim-Tim na nova revista, mas não o conseguiu, pelo que essa série continuou a ser publicada n’”O Papagaio”.

Contudo, conseguiu adquirir os direitos de uma outra série, até aí nunca publicada em Portugal, que nasceu depois do Tim-Tim também na revista “Le Petit Vingtiéme”, a série humorística Quick e Flupck, que será publicada no “Diabrete” entre 5 de Janeiro de 1941 e 10 de Outubro de 1943, com a designação de “Tropelias do Trovão e do Relâmpago”. 


Entretanto, com o fim d’”O Papagaio” em 1949, Simões Müller conseguiu adquirir os direitos de Tim-Tim, publicando três aventuras no “Diabrete”, a primeira “O Ceptro de Ottokar”, com a designação de “Aventuras de Tim-tim e Rom-Rom”, entre 9 de Março de 1949 e 18 de Março de 1950, seguindo-se mais duas aventuras, “O Tesouro de Rackham, o Vermelho”, aportuguesado para “O Tesoiro do Cavaleiro da Rosa”, entre 25 de Março de 1950 e 21 de Março de 1951, e “As 7 Bolas de Cristal”, entre 4 de Abril [de ] e 29 de Dezembro de 1951, ficando a publicação desta aventura incompleta, devido ao facto de o “Diabrete” ter interrompido a sua publicação nesta data, ao fim de  553 edições.

Até ao início da década de 1960, Adolfo Simões Müller manteve os direitos da edição do Tintin em revistas portuguesas por si editadas, como aconteceu com o “Cavaleiro Andante” (1952-1962), o “Foguetão” (1961) e o “Zorro” (1962-1966).


Na revista Diabrete podemos encontrar os seguintes desenhos de autores portugueses alusivos ao universo de Tintin:

+ FERNANDO BENTO

um dos vários originais de Fernando Bento presentes na exposição do CPBD de 2016 -- capa para a revista Diabrete

Desenhos com a personagem Tintin:

#594 e alguns seguintes; 9 Março 1949; Banda Título; Tintim e Milou.


#784; 3 Janeiro 1951; Capa; Tintim, Milou, Dupond(t), Tournesol e Haddock.


#807;
24 Maio 1951; Capa; Tintim, Milou e Tournesol.


+ MARCELLO DE MORAIS

Marcello de Morais (ou Marcello de Moraes) foi um dos colaboradores da revista Camarada, e também do Diabrete. Arquitecto de formação, concebeu várias histórias para estas revistas, mas foi o detective Vic Este que mais marcou os seus leitores.

https://quadradinhos.blogspot.com

https://www.lambiek.net/artists/d/de-moraes_marcello.htm

Desenhos com a personagem Tintin:

#867; 20 Outubro 1951; Margens da história «7 bolas de cristal»; Tintim, Milou, Dupond(t), Tournesol e Haddock.

#885; 22 Dezembro 1951 - Jogo para crianças; Tintim e Haddock.

+ CAPAS

593 O Ceptro (Hergé?)

Há dúvidas sobre a capa da Diabrete nº 593 onde aparece Tim-Tim com uma pistola: Está assinada por Hergé e difere substancialmente da capa do álbum da Casterman (1939).» (fonte: O gato Alfarrabista)

702 O Tesoiro (Hergé)

784 Parada (FB)

807 Páscoa (FB)

808 7 Bolas (Hergé)

+ AVENTURAS

- "Aventuras de Tim-Tim e Rom-Rom" ("O Ceptro de Ottokar") - #594 de 09/03/1949 ao #701 de 18/03/1950

- "O Tesoiro do Cavaleiro da Rosa" ("O tesouro de Rackham, o Terrível") - #703 de 25/03/1950 ao #806 de 21/03/1951

- "As 7 Bolas de Cristal" - #809 de 31/03/1951 ao #887 de 29/12/1951 (incompleta)


https://tintinofilo.weebly.com/diabrete.html


https://colecionadordebd.blogspot.com/search/label/revistas%3A%20Diabrete

"O nosso jornal - como pode constatar - é para a elite das famílias portuguesas. O Diabrete não passa de um jornal para as classes menos bem, pois para poder viver vende-se a metade do preço do nosso, não tendo mesmo tentado colocar-se ao nível do Papagaio."

Carta de 25/01/1943 enviada para Hergé por Padre Abel Varzim (O Papagaio)

Tim-Tim apenas apareceu na revista depois de terminar "O Papagaio". Entre 1949 e 1951 apareceu no Diabrete e passou depois para outras revistas da ENP.

O Papagaio (04/1935 - 02/1949)

Diabrete (01/1941 - 12/1951)

Cavaleiro Andante (01/1952 - 08/1962)

Foguetão (05/1961 - 07/1961) Tintin au Tibet

Zorro (10/1962 - 06/1966)

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Como Tintim chegou a Portugal

UMA INFORMAÇÃO PARA INTERESSADOS...

Perguntam-me como chegaram a Portugal as aventuras de Tintin. A história É muito simples. Quando os Padres Abel Varzim e Manuel Rocha estavam a preparar o doutoramento na Universidade de Louvaina relacionaram-se com vários sacerdotes da diocese de Bruxelas. Foi, assim, que o Padre Varzim conheceu o director do jornal católico "Vingtième Siécle" e do suplemento juvenil "Petit Vingtième" Padre Norbert Wallez e através deste chegou ao contacto com Georges Remi - o célebre Hergé. De acordo com a investigação do jornalista Carlos Pessoa, especialista em BD do jornal Público, data de meados dos anos 30 o primeiro contacto dos leitores portugueses com a figura de Tintin, cerca de cinco anos após ter surgido no "Le Petit Vingtième". Portugal foi o primeiro país não-francófono a publicar as aventuras de Tintin.

O responsável por esta iniciativa editorial no nosso país foi Adolfo Simões Müller, ao tempo, director de "O Papagaio". E o certo É que Muller conhece Tintin através de Abel Varzim, que lhe fala do sucesso das histórias em Bruxelas e na Bélgica. Interessante é verificar que Tintin n'"O Papagaio" era identificado como português e como repórter não do "Le Petit Vingtième" ou do "Le Vingtième Siécle" mas sim do próprio "O Papagaio". Esta adaptação faz com que a personagem Oliveira de Figueira apareça nas páginas de "O Papagaio" como espanhol.

Como é que o director de "O Papagaio" toma conhecimento com Tintin e Hergé? Segundo Carlos Pessoa a chave está numa entrevista concedida ao "Jornal de Letras" em 1987 pelo próprio Muller: "O conhecimento da obra de Hergé [É devida] ao padre Abel Varzim, que estudara em Lovaina (BÉlgica) e conheceu pessoalmente o autor. A segunda Guerra Mundial obrigou Hergé a refugiar-se, em 1940, em França, residindo durante algum tempo em casa de Marijac, um criador francês de BD. É daí que escreve a Adolfo Simões Muller, pedindo-lhe para ser pago não em dólares, mas em géneros alimentares (latas de sardinha, biscoitos, café, etc.), que se destinavam a um irmão, Paul Remi, prisioneiro de guerra dos alemães durante cinco anos. Em Setembro de 1941, numa altura, portanto, em que Tintin já era lido em Portugal no "O Papagaio"(1935-1941) e viria pouco depois a ser lido no "Diabrete" (1941-1950), Hergé escreve de novo ao director de "O Papagaio" para lhe agradecer o envio de alimentos ao irmão e também um cabaz de biscoitos, café, cacau, chocolate, açucar e enchidos que ele próprio recebera entretanto de Portugal". Eis a histÓria. Bem simples... Jamais poderemos agradecer ao Padre Varzim (grande cidadão e homem livre) a premonição extraordinária que teve quanto a Tintin...

GOM - publicado em quinta-feira, 30 de Junho de 2005 21:14