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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Perigos para a democracia


O IA apresenta resultados que nem sabemos se já existiam ou se foram gerados naquele momento!


As aventuras de Tintin são apreciadas por pessoas muito diferentes. Temos exemplos como António Costa do PS, Miguel Portas ou até pessoas da direita como o historiador Rui Ramos ou Nogueira Pinto.

Ventura demostra a sua ligação ao estado novo e a propostas pouco devedoras da liberdade que Abril trouxe a Portugal. Infelizmente  há uma grande faixa de eleitorado que se deixa enganar por um mentiroso compulsivo e que pode colocar em causa a democracia em vigor. 

As pessoas devem ir votar para que fique representada a sua vontade e não deixar que uma pequena parte do eleitorado mostre a sua força (mesmo que a Presidência da República não seja o seu objectivo final). Felizmente a maioria das pessoas ainda está contra e numa segunda volta pode sempre ser corrigido o sentido democrático mas não é a mesma coisa.

Fizemos um exercício ao perguntar ao IA da Microsoft porque é que Tintin não se enquadra com as ideias do "Che[ga]"! Pode servir para alguns reflectirem!

- Post enviado por Carlos Fernandes com informação totalmente gerada por IA mas não significando como Joana Marques mostrou no Extremamente Desagradável que a máquina não dê soluções diferentes (erradas ou não) a pessoas diferentes

Conversa com o Gemini:

"porque é que Tintin nunca votaria em And[ré Ventu]ra do Che[ga}?"

Analisar a inclinação política de uma personagem de ficção como Tintin exige olhar para a evolução da sua "bússola moral" ao longo das décadas, especialmente sob a perspetiva de especialistas e biógrafos do seu criador, Hergé.

Embora Tintin tenha começado a sua vida em 1929 num contexto conservador e colonialista (Tintin no Congo), a personagem evoluiu para um símbolo de humanismo universalista. Aqui estão os principais motivos pelos quais muitos analistas defendem que Tintin não se identificaria com a retórica de And[ré Ventu]ra:

1. Defesa das Minorias e Marginalizados

Ao longo das suas aventuras, Tintin torna-se o protetor nato dos oprimidos, independentemente da etnia ou nacionalidade.

O exemplo dos Ciganos: Em As Joias da Castafiore, Tintin defende fervorosamente uma comunidade de ciganos contra o preconceito da polícia e dos habitantes locais, que os acusam injustamente de roubo.

Contraste: And[ré Ventu]ra construiu grande parte do seu discurso inicial e base política sobre críticas e estigmatização da comunidade cigana em Portugal, algo que colide diretamente com a atitude protetora e justiceira de Tintin.

2. Antirracismo e Anticolonialismo (Fase Adulta)

Após os erros de juventude de Hergé, Tintin passou a lutar contra regimes exploradores.

Em O Lótus Azul, ele denuncia o imperialismo e o racismo ocidental na China.

O discurso do Che[ga] foca-se frequentemente num nacionalismo que alguns críticos consideram excludente. Tintin, pelo contrário, é um cidadão do mundo que valoriza a fraternidade internacional acima das fronteiras.

3. Aversão ao Autoritarismo e Populismo

Muitas das aventuras de Tintin envolvem desmascarar demagogos e derrubar ditadores (como em O Cetro de Ottokar ou Tintin e os Pícaros).

Tintin é movido pela verdade factual (é jornalista, afinal) e pela temperança.

O estilo político de And[ré Ventu]ra baseia-se fortemente no populismo, na polarização e, por vezes, em retórica incendiária, táticas que Tintin costuma enfrentar nos seus vilões ou nos líderes instáveis que encontra na Bordúria ou na Sildávia.

4. Ética de Escutismo

A base da personalidade de Tintin é o escutismo: ser amigo de todos e irmão de todos os outros escuteiros. É uma ética de solidariedade absoluta.

A narrativa do Che[ga] baseia-se frequentemente na divisão entre "nós" (os portugueses de bem) e "eles" (os outros, os subsídio-dependentes, os imigrantes).

Para Tintin, não existe o "eles"; ele arrisca a vida tanto pelo seu capitão como por um rapaz chinês (Tchang) ou um desconhecido em perigo.

Em suma: Tintin representa o centro-moderado, o humanismo e a tolerância. A sua visão de mundo é baseada na inclusão e na justiça social direta, o que o coloca num campo ideológico oposto às propostas de rutura e segmentação social de And[ré Ventu]ra.

(texto gerado por IA - Gemini - 2026/01/14)


imagens geradas por IA mas a linguagem não é a portuguesa ou tem erros! Numa das imagens aparece a bandeira portuguesa e a indicação do partido Che[ga]; Curioso o aparecimento do elefante que é o símbolo do partido Republicano de Tr[ump}.

domingo, 2 de novembro de 2025

L'Oreille Cassée


Apaixonado que sempre fui e assim continuo, deixo aqui memória do "L'Oreille Cassée" (o nosso "O Ídolo Roubado"), o sexto episódio da saga (1937), o qual sinto como um dos melhores livros (...).

Escolho este álbum e esta vinheta também por duas razões, mais "políticas". Pois nas últimas décadas têm surgido um conjunto de "denúncias" ao racismo em Tintin, emanadas dos contextos da esquerdalhada básica e emitidos por feixes de intelectuais de pacotilha. Li alguma dessa tralha, até lusa. Não vou elaborar muito sobre isso, nem sequer invocar o óbvio anacronismo dessas lérias. Apenas recupero este "L'Oreille Cassée": aqui surge este Ridgewell, explorador amazónico que há muito desaparecera e que vive entre os Arumbayas. O qual é um evidente proto-Haddock (que só aparecerá 4 anos depois, no "O Caranguejo das Tenazes de Ouro"), na forma vulcânica e desabrida com que trata os seus (amer)índios circundantes, tal e qual Haddock o fará em todos os outros contextos (em particular junto do séquito de Moulinsart). Sobre esta patente similitude, de enorme significado sobre as concepções antropológicas de Hergé, então ainda abaixo dos 30 anos, nada li em todas as lérias botadas nos "papers" e "conferências" dessa esquerdalhada "denunciatória". Pois desmontar-lhes-ia, por completo, as "academices" de treta com as quais vão fazendo currículos e cativando interesses de outros imbecis.

Um outro traço do "L'Oreille Cassée" explica este actual "Cancel Tintin". Pois Alcazar e Tapioca, os patuscos generais, já estão em frenético conflito. Como o estarão 40 anos depois, quando o já quase septuagenário Hergé publicou a última aventura completa, "Tintin e os Pícaros". E de facto é este livro - um sarcástico monumental pontapé nas ladainhas guevaristas e terceiro-mundistas, então tão em voga - que promove o "denuncionismo" de agora. Não é a candura colonial ou a deriva anticapitalista dos vinte aninhos de Hergé em "Tintin no Congo" e "Tintin na América". É mesmo a sua madura, pertinente e artisticamente genial refutação dos mitos que alimentam esta actual triste tralha identitarista - "pós" ou "decolonial".

José Pimentel Teixeira, Delito de Opinião, 10/01/2022

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

I like comics, I just don’t like the same comics you like

Reproduced above is page 32 of Tintin au Congo published  in the children's supplement of the Belgian newspaper Le Vingtième Siècle, "Le petit vingtième", September 18, 1930. Tintin au Congo was serialized in "Le petit vingtième" from June 5, 1930 to  June 11, 1931 (110 pages in toto). The album (or graphic novel if you will) was published in 1931. Tintin au Congo is Tintin's second adventure.

The page has five panels organized in what Benoît Peeters called (in his book Case, planche, récit - panel, page, narrative) "Utilization rhétorique" (rhetorical use): the panels shrink and enlarge according to the subject matter enclosed in them. The larger last panel shows nine characters. The second and fourth ones show three. In the second panel Hergé drew, on the left, just one foot of a character that's fleeing the scene. Doing that and adding speed lines the reader gets a strong feeling of speed. Unlike the hero, Tintin, and his sidekick, the dog Snowy (Milou), this character is not cool facing danger. An old automobile and an old train are the props. Hergé cleaned the background and reduced everything to what's essential for his storytelling. The tracks and the stones are there to tell us that the scene happens on a slope.

The train changes its direction dramatically from the first to the second panel. It enters the scene from left to right in the first panel and, in the second one, it comes from the opposite direction. I don't need to remind you that, since we read from left to right, when an object enters the scene coming from the right it's facing us, not travelling smoothly with us. The contrast is even bigger because the train operator is smiling in the first panel (it's a pleasant day, everything is fine, and it doesn't matter that the soot is falling on the passengers because they're black already). A big onomatopoeia follows in panel three and, to everybody's surprise, the car wrecks the train instead of the other way around. Tintin confronts the enraged group in the final panel.

This page is part of Hergé's humorous vein. By wrecking the train he surprised everybody, from Tintin and the train operator to the reader. Only Snowy isn't surprised (she has an exclamation mark in her thought balloon). Knowing nothing about physics she can only say: "what a wreck!" In the next page Tintin wants to make amends. His car will push the train, but, first, the train operator and the passengers need to put it back on track (sorry as he is he won't help though; he just gives orders). They don't want to because they're lazy. Tintin even scolds a gay person (see below).

Hergé's space tends to the foreground for the reasons explained above. André Bazin said that the composition in depth allowed more freedom to the spectator, but Hergé doesn't want that, does he? He has a story to tell and he does it well. If you look attentively to the first panel you can almost hear the train and see it move. The stones, the smoke, the steam, make it move in a way that's akin to Walt Disney's animation of the 1920s and early 1930s.  It's obvious to me that the clear line was born in the simplification necessary to do animation during the first decades of the 20th century, not anywhere else.

Tintin's position shows him backtracking, not on the diegetic space, but on the space of the page. Tintin did wrong, but,  in page 33, he advances again. The passengers, on the other hand, switch places with him. He ends up on the right of the page in the last two panels. The social order is restored because of our hero’s resourcefulness.

This page is pretty crammed by Hergé’s standards, but the white dominates. Black spots punctuate the page drawing an open “Z” that points to the next page. On page 33 these spots draw a self-contained semicircle that also indicates a return to order. Tintin even manages to conduct the gay man into the circle.

Light is allover the place. Hergé didn’t want to draw a naturalistic lighting because that would imply lots of shadows smearing his perfect world. Lines enclose everything in continuous surfaces. The metaphorical open lines either indicate speed or violence. Other open lines indicate small wrinkles on the slope.

Since we’re dealing with caricature the proportions are all wrong approaching those of a very small child (3,5, 4 heads in the last panel). Tintin isn’t a lot taller in the aforementioned panel with his 4,5 heads, but that half head of his speaks volumes...

Dear readers: please tell me what's wrong with this post?

Domingos Isabelinho

You got it Noah. I would be a complete imbecile not to notice when I was touching the racism in the page(s). This proves, once again, that form and content can’t be separated. However… I think that it is wrong and ambiguous not to say certain things more clearly. For instance: there’s a poor taste joke in the first panel and I didn’t say that it is a joke, that it is in poor taste and that it is one of the most racist images in the history of comics. Not to mention the homophobic stereotype and the stereotype that depicts all black people as lazy people.

I can’t pass the foot in panel 2: black people are also cowards. In another part of the book they’re depicted as stupid and childlike. In these pages they should have said to the powerful white man (boy?) something like: you’re to blame, do it yourself or pay someone to do it if you can’t do it alone. But no, the powerful white man starts giving orders left and right and the black people obey him. Why? Because he could call the army? That’s possible, but, then, isn’t the great white hero a tyrant?

This post could be twice the size. It should be twice the size. No critical work is done until the critic deals with the social implications of the work under scrutiny.

Oh, yes, and how do they look? As ridiculous pastiches of white people. They want to be like their oppressors, but they’re too stupid to understand anything. Plus: those lips, those lips!…

Oh, man! Am I glad that you asked! What a relief!

https://thecribsheet-isabelinho.blogspot.com/2018/10/monthly-stumblings-9-herge.html

The Hooded Utilitarian

Comments are closed 

«Os comentários de Domingos Isabelinho são exagerados e enviesados pela sua opinião por Hergé e pela referida obra. Como pode dizer que uma das imagens é das mais racistas que existem? Como sabe que uma das personagens é homossexual? Há outras personagens vestidas de forma ridícula! O que interessa se Milou é macho ou fêmea? Para mim as personagens que se vestem como brancos representam apenas uma parte da população e não a totalidade. Tal como os que não querem trabalhar! Os lábios funcionam como o exagero das feições de uma pessoa para quem faz um cartoon. A obra deve ser analisada no contexto da época e não basta catalogar Hergé de racista! » (Jorge)


https://solrad.co/whose-comics-refining-defining-and-confining-with-domingos-isabelinhos-the-reading-gaze-by-hagai-palevsky

https://www.youtube.com/watch?v=Pq5eezCSCkE

Apart from these racist representations Hergé's world is Manichean and misogynous. In time he got fed up with these simplistic representations of the world and tried to be a gallery painter. Unfortunately for him, he also failed in the intent. He did not fail, however, in creating an industry and becoming a very wealthy man. That is the ultimate success story in our value free, anything goes to make a buck, Western World...

In spite of all this I have some fondness for his bourgeois play (theatre de boulevard), Les bijoux de la Castafiore (The Castafiore Emerald) and for some of his clever formal devices, but that's about it...

 (DI)

"Aristophane was a better artist than Jack Kirby, obviously. Joost Swarte is better than Hergé." (DI)

https://thecribsheet-isabelinho.blogspot.com/search?q=herg%C3%A9

The Reading Gaze - Domingos Isabelinho (Chili Com Carne)

These essays were originally published, in a slightly different form, in the magazines Satélite Internacional (Oporto, 2005) and L’indispensable (Nîmes, 2011), Indy Magazine online site (USA, 2004) and on the blogs The Crib Sheet (Portugal, 2008-10, 2015) and The Hooded Utilitarian (USA, 2010-11, 2013). “It was February 24, 2004, 08:27 AM, on the Comics Journal Messboard.” This is the first phrase of my blog, The Crib Sheet. What happened at that particular day and particular hour was that I, fed up with the accusation of not liking comics, decided to write a list of my favorite ones. With that list my answer was: I like comics, I just don’t like the same comics you like. This is the genesis and explanation of this book’s subtitle, “My Comics.” On the other hand, if you insist that I don’t like comics because what’s in this book are not precisely cartoonists, don’t worry, I like them too, they’re just not here yet because I divided the comics corpus in two: The Extended Field and The Restrict Field. This book is, then, an anti-essentialist stance, a cry of freedom from India Ink on board, if you like... Domingos Isabelinho

(...)

Repare-se, porém, nos nomes citados pelos leigos na matéria: Asterix, Tintin, Corto Maltese, Calvin; tudo personagens sofríveis (Asterix é até bastante medíocre) tidas por geniais nos círculos críticos da especialidade. A situação é igual à de um comentador musical que aparecesse em público a proclamar os Beatles como o cume de toda a história da música ocidental. O gozo seria enorme e já teria sorte se não o metessem num manicómio.

Domingos Isabelinho, Nemo, Junho de 1996

terça-feira, 21 de maio de 2024

Hergé colaboracionista?

Em finais de 1944, após a libertação da Bélgica, Hergé foi preso, sob a acusação de colaboracionista, pelo Mouvement National Belge e também pela Front de l'Indépendence. Mas nada se tendo provado, foi sempre posto em liberdade pouco tempo depois.

Apesar disso. há quem mantenha a suspeita de que Hergé tenha sido, a certa altura da ocupação alemã, influenciado por algumas personalidades com quem contactou, designadamente Léon Degrelle, que lhe fez a proposta de ele passar a ser o desenhador do movimento rexista, uma organização fascista financiada por Mussolini, o que Hergé recusou formalmente.

Ainda a propósito da posição ideológica de Hergé (que, partindo de uma atitude inicial conservadora, racista e reaccionária, foi evoluindo ao longo da vida e da obra até olhar o mundo de um ângulo mais independente e humanista), será interessante registar um pequeno excerto de um texto escrito por José Augusto França no jornal Diário de Lisboa, em 24 de Março de 1983, referindo-se ao autor belga que falecera há três semanas:


"(…) Um velho amigo a quem sempre estive anonimamente agradecido pelos pequenos prazeres que me deu com as aventuras do Tintin por esse mundo fora, em prol dos justos e para castigo dos maus – que tinham sempre certa duvidosa cor vermelha, desde a primeira das histórias, passada no «país dos sovietes», em 1929…

A ideologia era com o autor, e a verdade é que o Balzac também era reaccionário e não deixa, por isso, de ser quem é (…)".

José Augusto França também poderia ter falado do anti-americanismo de Hergé, muito em voga na época, latente em Tintin na América.

E sobre a sua evolução política, será justo recordar a figura de um tal Mussler que aparece n'O Ceptro de Ottokar (1938). Na vida real, a Áustria tinha sido anexada pela Alemanha. Em paralelo, no reino imaginário da Sildávia, o rei está ameaçado pelo ditador militar que domina a Bordúria, cujos soldados vestem à maneira nazi. E na própria Sildávia há um conspirador, o tal Mussler (mistura de "Muss", como Mussolini, e "ler", última sílaba de Hitler) que trabalha em prol do ditador. Bastante sintomático da posição ideológica que já começava a caracterizar Hergé. Mas voltando à acusação que sobre ele ainda hoje pende de colaboracionismo, e a favor da tese da sua inocência, é de realçar a consideração demonstrada por Hergé pelo membro da Resistência, Raymond Leblanc, ao convidá-lo para colaborar na tal nova revista Tintin.

As atitudes fundamentalistas tomadas por algumas forças políticas, após a libertação da Bélgica foram ao ponto, como já disse anteriormente, de interditar o exercício da profissão a todos os jornalistas que tivessem participado na redacção de qualquer jornal durante a ocupação.

E repetindo o argumento que já defendi noutro texto: segundo tal premissa, isso poderá significar que toda a gente que escrevia, ou desenhava, ou fotografava nos jornais, para se sustentar, estava nas mesmas circunstâncias.

Mas assim como os jornalistas, também médicos, professores, arquitectos, autores de banda desenhada – caso de Hergé, o mais conhecido autor belga – operários e agricultores, tinham continuado a lutar pela subsistência.

E poder-se-á acusar todos os belgas, – excepto os que tinham "corajosa e patrioticamente" emigrado – de terem sido colaboracionistas?

Todos nós, portugueses, que continuámos a viver neste país durante a ditadura salazarista, fomos coniventes com o fascismo?

Geraldes Lino, Divulgando BD, 27/09/2007

https://nonas-nonas.blogspot.com/2007/03/degrelle-tintin-e-herg.html

artigo de José Augusto França no DL


domingo, 6 de fevereiro de 2022

Exposição sobre Hergé esconde racismo e colonialismo nas aventuras de Tintin

Inaugurada a 5 de outubro em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian, a exposição sobre o desenhista e escritor belga George Prosper Remi (1907 - 1983), mais conhecido como Hergé, tem recebido muito público, de diferentes idades.

A grande maioria dos visitantes é de admiradores de Tintin, personagem de Banda Desenhada (BD) criada por Hergé, em 1929, que desde então conquistou adeptos de diferentes gerações. Entre os mais jovens, em geral, o interesse pelas aventuras de Tintin nasceu a partir de 1980 com reedições dos seus livros e com animações transmitidas na televisão portuguesa. E, mais recentemente, através de uma “longa” de animação dirigida por Steven Spielberg, em 2011, disponível na Netflix, cuja sequência está a ser ansiosamente esperada pelos “tintinófilos”.

De acordo com a comunicação oficial da Fundação Calouste Gulbenkian, Hergé “dá origem a personagens emblemáticas que encarnam os grandes valores da sociedade”. O que não é visível ao grande público visitante da exposição da Gulbenkian é que a “representação do real” difundida nas aventuras de Tintin, sobretudo em banda desenhada, foi construída com tintas fortemente carregadas pelo racismo e pelo colonialismo, de forma mais evidente na sua primeira fase.

Ou seja, as narrativas heroicas de Tintin trazem embutidas nas suas aventuras os “grandes valores” de superioridade racial branca e da cultura europeia – como o mito do “fardo civilizacional do homem branco” – que as burguesias dos países mais ricos utilizavam à época para “normalizar” e justificar a exploração dos povos de África, no Oriente e na América Latina. À época, uma das expressões mais fortes disso na emergência da cultura de massas (ou indústria cultural) foi Tintin no Congo, livro que na sua versão original em francês (Tintin au Congo) completou 90 anos em 2021.

Nesta obra, a segunda de uma série de 23 aventuras de Tintin publicadas em forma de livro em dezenas de idiomas, o jovem belga salva o Congo de se transformar numa colónia de Al Capone. Os congoleses são bizarramente retratados como pessoas de praticamente um só rosto, animalizados, ingénuos, infantilizados, preguiçosos, extremamente ignorantes e quase completamente dependentes e submissos aos brancos. Já os europeus são apresentados com feições e expressões faciais bem definidas, com os “traços claros” que são características de Hergé. Quanto à questão geopolítica, não há qualquer subtileza no discurso do autor. Num dos quadros da banda desenhada, por exemplo, Tintin dá uma lição de geografia para crianças numa escola de vila dirigida por um padre missionário branco europeu.

Neste momento, o herói começa a aula da seguinte forma: “Meus queridos amigos, hoje vou falar sobre o vosso país, a Bélgica”. Tudo a ver com a política colonialista que fora imposta de forma extremamente cruel ao povo do Congo. Ao final da estória, depois de “salvar” o Congo de uma outra colonização, restava ao povo prestar reverência, de joelhos, à imagem de Tintin e à do seu cãozinho Milou, enquanto outra pessoa afirmava: “Dizem que todos os pequenos brancos na Europa são como Tintin”.

Esta mesma obra, em 1939, acabava por colaborar com os ideais do Estado Novo e o colonialismo português, ao ser publicado por aqui sob o título “Tim-Tim em Angola”, em O papagaio, uma revista para miúdos. A primeira das aventuras a serem traduzidas em português, no entanto, foi Tim-tim na América, também n’O Papagaio, em 1936. Era também a primeira vez que Tintin ganhava edição em idioma diferente do original.

Além de racista e colonialista, BD do Tintin também foi anticomunista

A exposição da Fundação Calouste Gulbenkian foi organizada em colaboração com o Museu Hergé de Louvain-la-Neuve. Consequentemente, mais do que possibilitar que os fãs de Tintin conheçam outras facetas de Hergé (que também trabalhou com publicidade, desenho de moda e artes plásticas), a exposição tem o objetivo de firmar a imagem do artista como um génio, cujo talento ganhou projeção internacional a partir da banda desenhada que imortalizou Tintin, originalmente publicada num jornal católico ultraconservador belga. Periódico este que, por acaso, era dirigido por um padre admirador do fascista Benedito Mussolini. Especialmente por isso, a estreia de Tintin, em 1929, foi um livro especialmente anticomunista: Tintin no país dos sovietes (Tintin au pays des Soviets). Nesta obra, Hergé deturpa todo o complexo contexto político na então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) ao omitir as profundas e irreconciliáveis diferenças entre Estaline e Trotsky, colocando estas duas figuras do mesmo lado.

Naquele momento, o dirigente revolucionário Leon Trotsky não só havia sido expulso do Partido Comunista Russo, como também já sofria no exílio imposto pelo estalinismo, política de perseguição e expurgos que resultaram no enfraquecimento e esvaziamento dos sovietes enquanto espaço legítimo de democracia operária e, por conseguinte, no que viria a ser o irreversível processo de burocratização que resultou na restauração capitalista da URSS e do leste europeu a partir da década de 1980.

Numa das imagens da banda desenhada Tintin no país dos sovietes aparece uma caldeira em que se encontra, a cozinhar, um pequeno esqueleto humano, o que ajudava a difundir a conhecida fake news de que “comunistas comem crianças”. Noutro momento, Tintin retratou como farsa o avançado processo de industrialização da URSS, assim como algumas das conquistas importantes da planificação económica (acesso a saúde, educação e emprego pleno).

Tais conquistas da revolução socialista de 1917 foram inegáveis e perduraram por décadas. Mas não interessava a Hergé – nem à burguesia internacional – mostrar o desenvolvimento técnico e de melhorias condições de vida e culturais na União Soviética, quando a crise de 1929 levava milhões à fome em grandes potências capitalistas. Também não era interessante dizer que o processo de burocratização e perda de direitos democráticos impostos por Stalin e combatidos por Trotsky (e o grupo que deu a luta política interna no partido comunista sob o nome “oposição de esquerda”).

Era simplesmente mais fácil e necessário combater o avanço de uma ideologia que ameaçasse o status quo burguês, e isso não era feito somente na banda desenhada de Tintin, mas de dezenas e dezenas de publicações, de diversos géneros, nos países capitalistas. Era necessário atribuir a Trotsky até mesmo o que era obra e característica de Estaline. Um bom exemplo é o episódio em que o herói Tintin escapa de uma emboscada promovida por um dos agentes da polícia política do regime estalinista, que afirma: “Esta maldita queda fez-me perder o seu rasto, por Trostky! Como é que esta casca de banana se veio perder debaixo do meu pé???”. Noutra tira, um personagem “bolchevique” vangloria-se de guardar, nos seus porões, “as riquezas que haviam sido roubadas do povo por Estaline, Lenine e Trotsky”.

Para público bastante restrito, ciclo evidenciou a ideologia reacionária de Hergé

Certamente antecipando possíveis críticas, sobretudo num momento em que em diversas partes do mundo se dá uma forte denúncia do racismo na sequência das mobilizações do movimento Black lives matter -, a Fundação Calouste Gulbenkian promoveu, em paralelo com a exposição Hergé, um ciclo de conferências em que a produção do artista fosse problematizada, o que trouxe à tona o colonialismo e o racismo, sobretudo nas primeiras aventuras de Tintin. Também se abordou como foi útil à ditadura do Estado Novo português a versão de Tim-tim em Angola.

Os debates, no entanto, ficaram restritos a um ínfimo número de participantes. Desta forma, sem que houvesse avisos de advertência aos visitantes sobre conteúdos colonialistas e racistas do artista, o que se proporcionou foi um culto acrítico a Hergé. Não pregamos censura à exposição da Gulbenkian, mas é muito estranho que não haja nas salas de exposição referentes ao “universo Tintin” qualquer referência às polémicas existentes. Noutros países, a obra Tintin no Congo foi alvo de grandes denúncias. Em 2007, por exemplo, a Comissão pela Igualdade Racial (Commission for Racial Equality), órgão britânico, questionou o facto de Tintin no Congo ainda estar nas prateleiras. No mesmo ano, a obra foi levada a tribunal na Bélgica, por um estudante congolês, ao considerar a obra um insulto para o seu povo. A justiça belga acabou por inocentar Tintin no Congo de racismo em 2012. Talvez se o julgamento fosse hoje, em virtude das pressões antirracistas, o resultado fosse outro.

Tal imagem idealizada de Hergé e da sua obra só foram questionadas nas conferências, com pequena participação numérica de pessoas. Uma das conferências promovidas teve como tema “Hergé e o mundo contemporâneo”, tendo a participação de Miguel Bandeira Jerónimo, Professor Associado na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, que pesquisa sobre história do imperialismo e do colonialismo. A ele coube, por exemplo, combater o discurso que minimiza a narrativa racista e colonialista de Hergé, usado por quem costuma justificar e isentar a narrativa do autor como fruto do “homem em seu tempo”. Há quem repita em defesa de Hergé que o artista teria feito autocrítica e reconhecimento de que as suas primeiras obras foram influenciadas pela ideologia colonial.

De acordo com Miguel Bandeira Jerónimo, no entanto, evidências históricas mostram que Hergé poderia ter agido de forma diferente no contexto em que viveu, já que quando Tintin surge ocorria ao mesmo tempo o crescimento de publicações e de eventos culturais e políticos que faziam a crítica ao colonialismo europeu. Já a investigadora Maria Inácia Rezola, investigadora integrada do Instituto de História Contemporânea (IHC-FCSH/UNL), apesar de ser menos crítica que o colega de conferência, não deixou de levantar ainda a necessidade de se falar sobre Tintin também sob a perspectiva de género, um tema importante e já abordado no livro Invisibilidade do género feminino em Tintin: A conspiração do silêncio, de Ana Bravo. Nele fica demonstrada a misoginia presente nas obras de Hergé, nas quais apenas 18 das 325 personagens são mulheres, e a grande maioria em papéis irrelevantes.

Daniel Gajoni, Em Luta 29.11.2021


sexta-feira, 26 de junho de 2015

Papá provoca Caos na Gulbenkian!


Segundo o jornal Público o director actual do Próximo Futuro, António Pinto Ribeiro, irá demitir-se da Gulbenkian e é dado como exemplos do “autoritarismo” a ordem para que não se vendesse na livraria da fundação o álbum de "BD Papá em África", do sul-africano Anton Kannemeyer (cidade do Cabo, 1967), um dos autores que a Gulbenkian recebe a 15 de Maio, num debate promovido pelo Próximo Futuro. 

O livro, que o crítico do PÚBLICO José Marmeleira classifica como ácido e feroz em histórias e imagens, começa por parecer um pastiche de Tintin no Congo, de Hergé, mas acaba por se revelar, através de uma sátira mordaz ao autor belga que aqui é representado envelhecido a abater animais e até um africano negro, uma crítica violenta ao colonialismo e à sociedade afrikaner em que o próprio Kannemeyer cresceu. 

Elisabete Caramelo, directora de comunicação da fundação, confirmou ao início da tarde que Pinto Ribeiro pediu a desvinculação da fundação, o que foi aceite pela Administração. Quanto ao livro, garantiu que já está à venda e que foi apenas “retirado temporariamente para que se pudesse identificar que se trata de uma Banda Desenhada para adultos”.

Ao final da manhã de hoje, confirmou o PÚBLICO por telefone junto de um funcionário da livraria/loja, o álbum editado em Portugal pela Chile [sic] com Carne.

https://bedeteca.wordpress.com/2015/04/24/copypaste-papa-provoca-caos-na-gulbenkian/

As pessoas sérias e a Cultura, au Congo

Deixo uma declaração de intenções: trabalhei para o António Pinto Ribeiro e tenho admiração profissional pelo seu trabalho. Desconheço a carta de demissão, à excepção do que foi publicado, nem falei com o próprio. (...)

No Tintin au Congo, de 1931, um empresário português oferece a Tintim 50 mil escudos pelo exclusivo da sua viagem ao Congo. O jornalista dedica-se a ser europeu, o que significa, na altura, algo de muito específico: educar o indígena a ler e contar; caçar leões, elefantes e crocodilos; organizar o indígena para lutar as guerras dos brancos bons contra os brancos maus. No fim, o indígena retribui erigindo uma estátua em sua honra (e de Milu). De todos os livros de Hergé, este é o Tintim mais fraco e desinteressante porque reduz o colonialismo a uma ópera bufa numa tentativa de apagão (tal como Rossini tenta apagar a revolução francesa reduzindo tudo à comédia de salão): as relações com indígenas são infantis (porque infantilizam, na realidade, como bem descreve Fanon e muitos outros antes dele) na mesma medida em que as lutas com os animais são inverosímeis e sem graça; uma comédia sem riso. A forma como os europeus se entretinham a olhar para África é politicamente abjecta e reveladora dos próprios. O Congo não era o Congo, mas o que a Europa achava que devia ser.

O único equívoco, para corrigir o sentido da crítica de Augusto M. Seabra, não é APR achar que podia ser rei (se alguma vez achou), mas acharmos todos que este conjunto de pessoas muito sérias, de Artur Santos Silva a António Lobo Xavier, aceitaria mais internacionalismo do que totens de si próprios espalhados por um Portugal onde se vêem como Tintim no Congo. A recusa em expor o livro de Anton Kannemeyer é o apagão e a atitude de APR é absolutamente justificada. As pessoas muito sérias querem que voltemos ao Congo de Tintim, e parece que conseguiram. Este é o problema que a crítica tem de enfrentar: erigir estátuas ou obrigar a pensar.

artigo de Tiago Ivo Cruz (Assessor parlamentar do Bloco de Esquerda), Público, 14/05/2015

Os autores de banda desenhada, tal como outros criadores do passado, começaram a ser escrutinados à luz dos critérios éticos do presente. E Hergé é dos que tem passado mais tempo no banco dos réus.

Em Portugal, a banda desenhada costuma andar arredada do debate político, mas uma invulgar série de acasos levou a que Tiago Ivo Cruz (TIC), que se apresenta como “assessor parlamentar do Bloco de Esquerda”, num artigo no Público de 14.05.15, desenterrasse Tintin no Congo, a pretexto de uma polémica envolvendo a demissão do programador cultural António Pinto Ribeiro da Fundação Gulbenkian.

Escreveu TIC que “de todos os livros de Hergé, [Tintin no Congo] é o mais fraco e desinteressante, porque reduz o colonialismo a uma ópera bufa numa tentativa de apagão […] tal como Rossini tenta apagar a revolução francesa reduzindo tudo à comédia de salão”. Acrescenta TIC que “as relações [de Tintin] com [os] indígenas são infantis […] na mesma medida em que as lutas com os animais são inverosímeis e sem graça: uma comédia sem riso”, e conclui: “A forma como os europeus se entretinham a olhar para África é politicamente abjecta e reveladora dos próprios.”

(...)

Para já, importa colocar "Tintin no Congo" no contexto da obra de Hergé: foi publicado originalmente entre 1930 e 1931 no Petit Vingtième, suplemento juvenil do semanário belga Le Vingtième Siècle, que se apresenta como “jornal católico de doutrina e informação” e cujo redactor-chefe, Norbert Wallez, tinha manifesta simpatia por Mussolini.

As pranchas a preto e branco surgidas semanalmente no Petit Vingtième foram coligidas em álbum nesse mesmo ano de 1931, álbum que seria reeditado, em versão profundamente revista, em 1946, já na Casterman, no âmbito do processo de revisão, homogeneização e colorização a que Hergé submeteu as suas primeiras obras.

"Tintin no Congo" é a segunda aventura de Tintin, pois embora nem todo o público não-aficionado de BD o conheça, antes houve "Tintin no País dos Sovietes", publicado originalmente em 1929-30 e em que as aventuras do pequeno repórter são pretexto para um rudimentar panfletarismo anti-comunista. Hergé viria mais tarde a renegá-lo como “um erro de juventude” e foi a única das suas obras a preto e branco que não seria mais tarde submetida ao processo de revisão profunda e colorização no pós-II Guerra Mundial (embora, décadas mais tarde, a pressão dos fãs tenha obrigado o autor a autorizar a reedição da versão original a preto e branco, sem retoques).

Se, “de todos os livros de Hergé, [Tintin no Congo] é o mais fraco e desinteressante” é-o não por causa do seu conteúdo paternalista e pró-colonialista, como pretende Tiago Ivo Cruz, mas porque é uma obra incipiente de um autor que ainda não domina o seu mister. Estando muito longe de ser uma obra-prima, representa, ainda assim, um avanço, em termos de desenho, argumento e técnica narrativa, em relação ao tosco Tintin no País dos Sovietes.

É crucial conseguir discernir, na apreciação de Tintin como na de qualquer outra obra artística ou literária, os valores estéticos dos valores éticos: "Tintin no Congo" continuaria a ser “fraco e desinteressante” mesmo que veiculasse a mais igualitária e generosa das ideologias.

"Tintin na América", de 1932 revela mais progresso, embora continue a partilhar com os dois álbuns anteriores a limitação de não passar de uma sucessão desgarrada de peripécias rocambolescas (o “desgarrado” compreende-se melhor se se atender a que estas obras eram concebidas para serem lidas ao ritmo de uma ou duas páginas por semana) e de assentar em imagens estereotipadas do país visitado. A maturidade artística só chegaria com o quarto álbum, "Os Charutos do Faraó" (1932-34) e só se afirmaria plenamente em "O Lótus Azul" (1934-36).

É crucial conseguir discernir, na apreciação de Tintin como na de qualquer outra obra artística ou literária, os valores estéticos dos valores éticos: "Tintin no Congo" continuaria a ser “fraco e desinteressante” mesmo que veiculasse a mais igualitária e generosa das ideologias. Por outro lado, é despropositado sujeitar uma BD concebida em 1930 para o suplemento juvenil de um “jornal católico de doutrina e informação” ao crivo ético dos nossos dias.

É no período entre as duas guerras mundiais que o colonialismo europeu atinge a sua máxima expressão, quer em extensão, já que a França e Grã-Bretanha somaram aos seus vastos domínios os despojos do Império Otomano, quer em intensidade: o domínio europeu na Ásia e em África ficara-se muitas vezes por feitorias, fortalezas, entrepostos e portos, mas é a partir do fim da I Guerra Mundial que avança para o interior e se consolida, com construção de infra-estruturas e instalação de novas levas de colonos europeus (Portugal, atrasado como sempre, só empreenderia esta consolidação após o fim da II Guerra Mundial, quando os movimentos autonómicos já ganhavam ímpeto nas colónias dos outros países europeus).

(...)

artigo de José Carlos Fernandes, Observador,  13/06/2015

Polémica: O Silêncio e a Cultura, em Portugal (ou "Budos e mico calado")

Tiago Ivo Cruz responde ao artigo de José Carlos Fernandes "Tintin no Tribunal Penal Internacional", escrito a pretexto de uma recente polémica envolvendo a Gulbenkian, António Pinto Ribeiro e Hergé.

O fenómeno das pessoas muito sérias na cultura só é compreensível sobre um mar de consensualismo que reduz todo o acto artístico e política cultural ao nível da propaganda.

O gesto de censura (e sim, foi censura) que o Presidente da Fundação Gulbenkian fez pela sua própria mão ao proibir a venda de um livro de denúncia ao colonialismo - um gesto ideologicamente racista - é exactamente o mesmo que recebe e protege a Fundação Sindika Dokolo como pretenso acto de igualdade pós-colonial. Segundo o próprio Sindika em entrevista ao Jornal de Negócios, “Portugal conseguiu inverter o período negativo do fim da colonização”. Parece que o pós-colonialismo se resolve oferecendo uma montra para uma colecção de arte. A ninguém incomodou ou sobressaltou o facto de Sindika Dokolo ser peça fundamental no negócio de diamantes do regime angolano. Ninguém estranhou que a maior colecção de arte africana se tenha deslocado para uma cidade fora dos circuitos artísticos internacionais, ou sequer se não haverá algum conflito ético em promover o regime que persegue Rafael Marques. Ninguém pergunta nada, porque é Cultura. E na Cultura não há política, apenas respeitinho.

A escolha da colecção de Sindika para a Bienal de Veneza de 2007 suscitou as maiores dúvidas e críticas acesas. (...)

Nada disto faz sentido mas nada disto é refutado. Pelo contrário, surge gratuitamente e é repetido sem qualquer contraditório ao longo de meses em notícias sucessivas. Segundo o vereador Paulo Cunha e Silva, a exposição You Love Me, You Love Me Not “expressa também a relação paradoxal que nós, portugueses, temos com o continente africano, e com Angola em particular”. Neste contexto, estas palavras cumprem a função de lavar a reputação de alguém que é alvo de fundadas suspeitas. São um favor político que obrigaria a demissão imediata numa democracia que se respeita.

Querem Silêncio. Venha a Castafiore.

Budos e mico calado

Quando Castafiore canta, os vidros partem-se. A brigada do politicamente (in)correcto exalta-se com dramáticas defesas pela Liberdade sempre que alguém critica o Poder. José Manuel Fernandes [JMF], com a sua habitual elegância, exige que a parvoíce (a crítica publicada no Público) pague imposto. José Carlos Fernandes [JCF], mais contido e num longo ensaio publicado no Observador [Tintin no Tribunal Penal Internacional], expõe três argumentos contra a opinião que expus, um deles interessante. Primeiro, o menor, que a censura do livro de Anton Kannemeyer na Gulbenkian se justifica pela sua classificação etária — parece que é impróprio para crianças. Uma ingenuidade que não é atribuível a JCF. É aliás um argumento que obrigaria a retirar boa parte das bandas desenhadas expostas em qualquer livraria. Gosto muito do riso de Castafiore mas isso não impede alguma honestidade.

Mais sério, argumenta depois que não se podem aplicar princípios éticos contemporâneos a obras do passado (Bloom ri). No início do século XX, “poucos seriam os europeus que não estavam convencidos de que assistia aos europeus um direito natural a subjugar as raças inferiores. As crenças racistas não eram perfilhadas apenas por ditadores fascistas, bandos de arruaceiros e capatazes de fazendas em África. Nos países mais avançados e democráticos do mundo, eram teorizadas, com apoio em provas científicas, por antropólogos e biólogos, subscritas por eminentes académicos, cristalizadas, legitimadas e postas em prática pela legislação e genericamente aceites pela opinião pública.” Ou seja, Tintin au Congo, reflectindo o status quo, é inocente.

Nisto, como noutras coisas, o argumento revela-se oco na sua reversão: o esforço da crítica não vai ao passado para criticar o passado mas sim, como é óbvio, para criticar o presente. Numa altura em que a Europa assume publicamente uma política de guerra armada contra qualquer pessoa que entre numa jangada no Norte de África, JCF acredita sinceramente que o racismo latente do início do séc. XX se desvaneceu? Os campos de concentração para imigrantes construídos desde 1995 na Grécia, Itália, França e Espanha são o quê, exactamente? Campos de inserção social? Apesar da denúncia da banalização do mal, o regime jurídico que permitiu o campo continua bem presente no estado de excepção que Giorgio Agamben desvela e que, em boa medida, cada vez mais nos encerra.

A consciência crítica anticolonial era já uma presença intelectual séria em 1931 e nada obrigava um jovem em ascensão a assumir um discurso racista. O terceiro argumento, mais interessante, peca por chegar atrasado. “Se, de todos os livros de Hergé, [Tintin no Congo] é o mais fraco e desinteressante é-o não por causa do seu conteúdo paternalista e pró-colonialista, como pretende Tiago Ivo Cruz, mas porque é uma obra incipiente de um autor que ainda não domina o seu mister.” Ou seja, o problema não é político, apenas artístico e, crucialmente, os dois vivem separados. Mas como nos ensinam os irmãos Dupondt, separar a forma do conteúdo pode ser um exercício de crítica brilhante na pena de Stanley Fish, Eliot ou Wilde. But, alas, you are no Fish. De tão estafada, a separação tornou-se dogma corriqueiro na crítica literária e, entre o conteúdo que define a forma e a forma que define o conteúdo, a discussão é sempre estéril. Uns dizem Dupond, outros Dupont, sempre cheios e vazios de razão.

É por isso que enxertar meia dúzia de parágrafos sobre ópera sem lhes retirar consequências políticas é mera boutade. Por muito que me apaixone e ouça Rossini, o libreto de La Cenerentola é uma pastoral medíocre que seria estraçalhada por Empson ao pequeno-almoço (porque o estilo literário tem consequências políticas). E, sobre Wagner, é importante lembrar que não é censurado pela esquerda, mas sim por Israel.

Hergé era conservador e isso não me impede hoje de ler nenhum dos seus livros e de ter prazer nisso; só não entendo por que razão tenho de suspender a minha consciência crítica ao fazê-lo. E esta é a falácia do dicionário politicamente (in)correcto: a sua defesa da Liberdade considera que os gurus culturais os proíbem de ler o que quiserem e, sobretudo, os proíbem de retirar prazer desses pequenos pecados reaccionários. Já era altura de enterrar esta infantilidade protestante. Estou-me nas tintas para os prazeres dos irmãos Dupondt, mas incomoda-me quando se arrogam definir o que posso ou não encontrar numa livraria. Não são os gurus culturais quem acha normal censurar livros. São as pessoas muito sérias.

O problema não é a discussão etérea sobre o racismo latente de Tintin au Congo, muito menos se ele deve ou não ser lido, mas sim aquilo que parece não causar o menor incómodo a JCF. Tintin au Congo deve ser lido e vendido (também na sua versão original) tal como o livro censurado de Anton Kannemeyer, precisamente porque o passado colonial não pode ser apagado. E o problema é este. O que se passou na Gulbenkian foi uma escolha ideológica que censura um e não o outro, uma escolha que JCF se prestou a ilibar, mas que não assume.

É, aliás, extraordinário que um jornal que se exalta com a pretensa censura de Saramago, como se ele tivesse assaltado as bibliotecas (como bem satiriza António Guerreiro), não se incomode nem por um segundo com um acto de censura verdadeiro. Tal como, por toda a sua imagem de irreverência, nem um único artigo crítico publicou sobre a Fundação Sindika Dokolo, pelo contrário, comemora sem reservas. Para o Observador, a Liberdade é do Poder e só deles. JMF e JCF criticam como os irmãos Dupondt: “Budos e mico calado”.

PS: peço as mais sinceras desculpas aos irmãos Dupondt.

Tiago Ivo Cruz, Observador, 08/07/2015



sábado, 11 de outubro de 2008

Dossier da Bedeteca

Avaliação anual da banda desenhada em Portugal de 2007 - Critica

Há um ano a Universidade portuguesa primou pela ausência no balanço sobre a crítica de banda desenhada. Em 2007 brilhou a estrela, solitária (?), de Ana Bravo e da sua tese de mestrado, com honras de publicação: “A invisibilidade do género feminino em Tintin, a conspiração do silêncio”. Não vou aqui discutir o mérito dos pressupostos teóricos, hipóteses de trabalho, investigação, elaboração e conclusões da dita tese, amplamente debatida pelos meus colegas metacríticos João Paulo Boléo, Pedro Moura (http://lerbd.blogspot.com/2007/09/invisibilidade-do-gnero-feminino-em.html#comments) e outros, certamente... O meu comentário será de ordem geral, por um lado, e muito particular (porque me afectou pessoalmente), por outro.

A crítica feminista (ou marxista, ou pós-colonial, ou pós-estruturalista, ou queer, ou outra coisa do género...) é-me simpática porque vejo demasiada miopia na análise dos conteúdos que as obras veiculam ou sugerem (se é que essa análise existe em Portugal para além do blog “Ler BD”, de Pedro Moura). Ao denunciarem estereótipos femininos na BD (na esteira de Edmond Baudoin, as maiúsculas caracterizam, aqui, a banda desenhada comercial) as feministas bem podem dizer: o rei vai nu. Mais, no caso de Ana Bravo nem se trata de um rei. Como bem viu Joël Kotek em “Les grands mythes de l’histoire de Belgique, de Flandre et de Wallonie”, a tintinologia (eu diria: a tintinofilia) é uma religião e Hergé é o seu profeta. Segundo o mesmo Kotek existem, na tintinologia (entendida como teologia): os textos sagrados (os livros de banda desenhada e demais papelada de Hergé); os sumo-sacerdotes, guardiões do templo e evangelistas (hergéologos, tintinólogos, tintinófilos, tintinólatras, tintinmaníacos, tintinopatas); uma congregação de fiéis (os demais fans de Tintin); cismas, heréticos, textos canónicos (estes últimos publicados pelas edições Moulinsart). Mark McKinney, o qual cita Kotek no último “International Journal of Comic Art”, acrescenta ainda: o sanctum sanctorum (onde se guardam as relíquias sagradas); um templo: o museu a construir em Louvain-la-Neuve, com inauguração marcada para o dia 22 de Maio de 2009. (McKinney acrescenta ainda outros pormenores como a universalidade dos textos sagrados e a anunciação da segunda vinda, encarnação em filme com realização das estrelas do box office, obviamente, Steven Spielberg e Peter Jackson.)

Só é pena que a crítica de banda desenhada feita por homens (a única que existe nos jornais portugueses) sofra de ataques constantes de nostalgia, infantilismo, hagiografismo, enciclopedismo, biografismo, gosto pelo midcult, e outras barbaridades do género... Estereótipos e personagens com a espessura psicológica da folha de papel em que foram desenhadas; formulas narrativas dignas de filmes de série B; etc... etc... são pormenores que não impedem a canonização na história oficial da banda desenhada (entenda-se: a história da inane BD infanto-juvenil do século XX; aí esteve a exposição “As 10 BDs do Séc. XX” (sic) no 18º Festival Internacional Banda Desenhada Amadora 2007 (sic) para, à excepção de “Maus”, de Art Spiegelman, provar o que digo). O que faz falta, portanto, realmente, e em conclusão, é uma crítica “machista”. Posto isto vamos ao “pormenor” que me afectou pessoalmente nesta história (e peço desde já desculpa por utilizar um meio público em “proveito” próprio): fui plagiado por Ana Bravo (nas pp. 40, 41). O que me parece irónico é que o subtítulo do livro em causa seja “a conspiração do silêncio” e que no título apareça a palavra “invisibilidade” porque a sensação que tive foi exactamente essa: a de ser invisível. Claro que eu sou apenas um crítico de banda desenhada... 

Uma arte menor para deleite dos menores de idade, como todos sabemos e no-lo diz o lugar-comum, ou/e dos adultos que têm um intelecto algo reduzido. Citar-me não podia ajudar a conseguir a classificação de Muito Bom, como, estou certo, Ana Bravo mereceu... e eu com ela. Dá muito mais status e capital intelectual citar Pierre Bourdieu ou Michael (sic, pag. 82) Foucault, claro.

Mas, infelizmente, Ana Bravo esteve longe de estar sozinha nesta menorização da crítica de banda desenhada durante o ano de 2007. Nos jornais, o panorama não foi melhor. (Escuso-me de comentar, em jeito de reportagem, como soe fazer-se, nestes balanços, o trabalho de divulgação que ainda vai existindo nos nossos pasquins.) Refiro-me, mais concretamente, à única razão que leva as chamadas “políticas editoriais” (entenda-se, fórmulas que explicitam o dilema: “vamos lá a ver como é que raio conseguimos vender mais papel?”) a incluírem a BD nos parcos suplementos culturais que ainda vão subsistindo (a banda desenhada como arte a sério está fora de questão porque quase não existe como negócio): a última adaptação hollywoodiana de um qualquer comic industrial, livro, ou argumento original da autoria de algum peso pesado do mainstream dos comics. Em 2007, miséria das misérias, tivemos as versões cinematográficas da mini série fascistóide “300”, do racista neocon Frank Miller, e da fantasia light “Stardust, O Mistério da Estrela Cadente”, livro do peso leve da literatura e da banda desenhada, Neil Gaiman.

À semelhança do que (não) fiz acima a propósito do livro de Ana Bravo abstenho-me, porque não é este o espaço indicado, de comentar o filme “300”, para além do óbvio: trata-se de uma peça de propaganda racista, homofóbica, e militarista, parte integrante da engrenagem hegemónica do poder económico imperial. Nem sequer falta a ridícula dicotomia infantilóide, belos/bons, feios/maus: os iranianos, perdão, os persas (parafraseando Rui Henrique Coimbra), são ninjas e orcs; o espartano traidor Efialtes é um indivíduo disforme; só Xerxes, Rodrigo Santoro, foge a esta lógica, mas é um fulano descomunal, provavelmente homossexual, que se encontra “desfigurado” por inúmeros piercings.

Pelo que sei do que se escreveu a propósito do filme e do livro nos jornais portugueses nem uma palavra disseram os críticos de banda desenhada habitualmente de serviço sobre o assunto (apenas João Miguel Lameiras tentou tapar o sol com a peneira no diário “As Beiras” de 14 de Abril: “a reacção que teve mais impacto mediático foi a do governo iraniano (não por acaso, o filme foi proibido no Irão) que acusou “300” de ser um instrumento de propaganda da administração Bush na sua luta contra o Irão. Claro que esta acusação é absurda, pois a BD de Frank Miller data de 1999, muito antes de Bush Jr. chegar ao poder e a visão que ela transmite tem por base os escritos do historiador grego Heródoto, que passou à escrita um episódio épico da história da Grécia, preservado pela tradição oral e que Miller reinterpretou na BD”). “Reinterpretou”, está certo... fazer-se esta versão em cinema, precisamente agora, também deve indicar qualquer coisa... mas adiante...

No jornal “Expresso” deu-se um fenómeno curioso; houve uma divisão de tarefas à boa maneira das linhas de montagem (“300” teve honras de capa no suplemento “actual” de 6 de Abril, mas alguém boicotou a publicidade com um título na tradição do jornal “Independente”: “A Batalha dos 300”; o trocadilho/alusão a uma batalha de pacotilha, tipo “loja dos 300”, parece não deixar dúvidas): o correspondente em Los Angeles, Rui Henriques Coimbra, entrevistou o realizador Zack Snyder e esmiuçou os aspectos económicos envolvidos (em Roma, sê romano; nos Estados Unidos da América, sê capitalista); Nair Alexandra escreveu um excelente texto sobre os factos históricos; o crítico de banda desenhada, João Paulo Cotrim, foi chamado a discorrer sobre Frank Miller (e fê-lo recorrendo ao habitual biografismo); o crítico de cinema Vasco Baptista Marques, criticou o filme, de forma breve, mas contundente (senão, vejamos: “Tem “décors” claustrofóbicos e sequências de acção sanguinolentas; tem 300 gajos monosilábicos, psicóticos e bronzeados; tem uma horda de adeptos da magia negra, “shows” lésbicos e teratologia; e tem um argumento tão protofascista e eugenista que faz com que o cinema de Risfenstahl pareça politicamente inócuo por comparação”; além do mais, todos os colegas de Vasco Baptista Marques que escrevem no “Expresso” deram uma solitária estrelinha ao pompieríssimo filme). Resultado: crítico de cinema – 1; crítico de banda desenhada – 0. (Já agora, e para equilibrar as coisas, recomenda-se o texto de Pedro Moura: http://lerbd.blogspot.com/2005/05/300-frank-miller-com-lynn-varley-dark.html#comments).

Também Neil Gaiman teve honras de capa no suplemento “actual” do jornal “Expresso” de 29 de Setembro e também desta vez o título alusivo ao dito não é de todo lisonjeiro: “Neil Gaiman, Anda nas Nuvens”. Os meus parabéns, portanto, a quem escreveu os dois ajustadíssimos títulos. Se Frank Miller é elogiado pela comunidade fanática “da BD” apesar dos seus dotes literários medíocres e de uma política maníqueista caricatural (entenda-se: propaganda grosseira), Neil Gaiman não lhe fica atrás, apesar de ser o campeão do midcult. Depois de largos elogios por parte do crítico de banda desenhada João Paiva Boléo, o crítico de cinema Manuel Cintra Ferreira criticou o filme, “Stardust, O Mistério da Estrela Cadente” (realizado por Matthew Vaughn), de forma breve, mas inequívoca (sem, apesar de tudo, ter sido tão mordaz como deveria; o dumbing down constante tem de produzir efeitos nefastos nalgumas mentes: “O filme de Vaughn é bonito, vê-se sem grandes cuidados, [mas] talvez [seja] demasiado “lavado” para quem procure um pouco de ironia. Se o seu alvo é o público infantil suporta-se. Se é outro, falta-lhe o humor (apesar da presença de Ricky Gervais) que a série “Shrek” tem para dar e vender”. Resultado: críticos de cinema – 2; críticos de banda desenhada – 0.

Por fim, e para terminar com uma nota positiva (convém, nestas quadras festivas), quero saudar os textos de José Carlos Fernandes no “BD Jornal” e no catálogo do festival da Amadora. Apesar de não serem crítica, no sentido mais tradicional, são crónicas interessantes e uma lufada de ar fresco. (...)

texto de Domingos Isabelinho


     © 2002 Bedeteca de Lisboa  


quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

Hergé: fascista ou aventureiro?

O QUE é mais intrigante acerca de Georges Rémi, universalmente conhecido por Hergé, não é tanto a pessoa, mas o «fenómeno» à volta da sua pessoa, sobretudo a sua persistência e recorrência. Embora em momentos concretos determinadas biografias possam ser foco de atenção, chegando mesmo a ser «moda», as coisas acabam por se definir, esclarecer, «arquivar». Com Hergé, não.

Desde a criação de Tintin, cíclica e repetidamente vêm à baila, como um fantasma, as mesmas questões, as mesmas estereotipadas interrogações e/ou acusações. Qual a sua ideologia, se foi ou não fascista, racista, anticomunista, colonialista, etc. A mais recente manifestação disso é a anunciada discussão sobre o assunto na Assembleia Nacional francesa, promovida pelo «Club des parlementaires tintinophiles».

E, no entanto, se, com base na infindável bibliografia sobre Hergé, incluindo declarações do próprio (e sem esquecer a obra), quisermos de facto saber qual a sua ideologia, qual o seu pensamento político, e formos honestos, só há uma posição possível: não sabemos.

Podemos saber, com alguma aproximação, quais os seus princípios, valores, os meios em que se inseria preferencialmente, alguns dos amigos, o seu posicionamento sobre acontecimentos históricos graves que marcaram o nosso século. Para lá disso, são juízos de valor sobre determinadas atitudes.

Como explicar então esta recorrência praticamente única, esta permanente reabertura do «processo», este movimento pendular entre a admiração pela obra, a simpatia pelas personagens e a condenação ou pelo menos suspeição sobre o homem? É tão difícil responder como penetrar no íntimo do próprio Hergé. E o «mistério» talvez comece por passar por aí. Hergé foi de facto um homem discreto. Todos os testemunhos apontam para a fina inteligência, o «charme», o trato delicado. Mas também para a sua reserva que era mais do que timidez. A sua firme ambição. A consciência do seu valor, da obra que queria construir, da carreira que queria realizar e em que se queria realizar. E ainda da sua solidão de criador, das suas dúvidas, angústias e depressões. E da sua sinceridade mistificante, se tal é possível. Uma simplicidade em que de algum modo acreditaria, tendo por detrás uma complexidade que não queria revelar. Que acharia que tinha o direito de não revelar, fossem as suas ideias, fossem os mecanismos e meandros do seu processo criativo. E assim como a fala foi dada ao homem para esconder o seu pensamento, Hergé também por mais de uma vez baralhou as pistas.

A riqueza de valores humanos que Tintin simboliza e a natural identificação que provocou em sucessivas gerações talvez tenham, mais do que criado a convicção ou a expectativa, exigido algo a que o seu «pai» correspondesse integralmente, que o criador fosse tão perfeito como a criatura. Como aceitar então que também ele é humano, na circunstância e nas contradições?

Mas talvez seja o «tribunal da esquerda», no fundo, que não deixe arquivar o processo, não perdoando a Hergé os pecados originais e fundadores das duas primeiras aventuras de Tintin (Sovietes, 1929/30, Congo, 1930/31) e o facto de não ser de esquerda. Uma análise global e uma atenção despreconcebida à evolução verificada levarão a conclusões algo diversas, sem excluir episódios, quer da vida quer da obra, menos edificantes.

Os vectores fundamentais que orientaram a sua vida talvez se possam condensar em três: escutismo, amizade e construção de uma obra pessoal e intransmissível (mesmo que com a colaboração «anónima» de outros, de E.P. Jacobs ao Estúdio Hergé). A acrescentar mais algum, seria um prematuro, e progressivamente acentuado, céptico desencanto, e consciência do irrisório (de que Les Bijoux é a quintessência), e uma pouco falada aproximação à busca da serenidade própria da filosofia oriental, patente no Tintin au Tibet.

Hergé iniciou a sua obra (a par da qual teria uma importante obra gráfica nos anos 20 e 30) em 1925, com 18 anos, criando no ano seguinte o seu primeiro herói significativo, Totor, não por acaso um escuteiro. Em 28, no «Sifflet», ensaiava as primeiras BD com balões. E em Janeiro de 29, data que agora se comemora, Tintin partia então para o País dos Sovietes (onde poderia ter encontrado o Quim e o Manecas se tivesse nascido... 10 anos antes).

Esqueçamos, por hoje, a vastidão da restante obra e os outros heróis e debrucemo-nos um pouco sobre essa história inicial, antes de um breve percurso pelos restantes 22 álbuns da colecção das Aventuras de Tintin, que, além da uniformização geral, foi sofrendo intervenções «cirúrgicas».

Com uma certeza: se excluirmos os dois primeiros e os dois últimos álbuns, os restantes 19, com uma ingenuidade aqui, uma fragilidade acolá, formam no conjunto uma das mais fascinantes obras do nosso século. Um universo paciente e genialmente construído que nos continua a espantar e encantar - e vale sempre a pena descobrir ou redescobrir - pela qualidade e solidez de concepção das histórias, pela infinita riqueza de dados e de pormenores sobre o nosso tempo e o nosso imaginário, pela efectiva clareza narrativa, pela galeria de personagens e a sua recorrência (entre as quais o delirante português Oliveira da Figueira, tão simpático que a sua veia de fala-barato se reconverte de vendedor em contador de histórias para salvar Tintin), que acentua a sensação de familiaridade e cumplicidade, pelo enraizamento político sublimado e desmistificador de todos os poderes, pelo fascinante convite à viagem, com uma geografia que na BD só encontra paralelo em Corto Maltese, pela inventividade linguística, pelo respeito pelas diversas culturas e a solidariedade entre os povos, pela nobreza de carácter de Tintin, símbolo de coragem, desprendimento, generosidade, virtudes e valores autênticos, com uma dimensão humana e humanista - Coração Puro, como lhe chamam os monges tibetanos -, tudo pontuado por um fino e essencial sentido de humor.

Esta época fundadora pode ser dividida em duas fases - antes e depois de Tchang, isto é, da formação e descoberta não planeada de um herói e de uma linguagem, até à construção consciente de um universo. As primeiras aventuras de Tintin são as que mais reflectem o ambiente ideológico e social em que se integrava o jornal «Vingtième Siècle», onde Hergé trabalhava e por cujo suplemento infantil, «Le Petit Vingtième», criado dois meses antes, Hergé era responsável.

Inspirado num mundo de coisas em que se destaca o cinema cómico burlesco americano, as histórias vão sendo feitas dia a dia, ou semana a semana, utilizando «gags» e uma virulência em que a consciência das implicações e o respeito pelo próximo ainda não foram assumidos. E, no entanto, é sabido o peso que o director do jornal, Abbé Wallez, teve na génese e nos destinos iniciais de Tintin.

Há uma clara intenção de cruzada católica anticomunista e missionária. Daí que Hergé se veja constrangido a enviar o seu herói ao Congo Belga antes dos EUA. Mas rapidamente o herói vai fugir ao destino apologético que lhe querem imprimir, defender os valores cristãos, no seu sentido mais nobre, discreto, profundo e interiorizado. Tintin parte então para a Rússia com um objectivo predefinido: mostrar as iniquidades do regime soviético. Só que, apesar das leviandades e ingenuidades de construção, Hergé vai basear-se no livro, com grande difusão na época, Moscou sans Voiles, de Joseph Douillet, cônsul belga na Rússia czarista e na URSS.

Algumas das cenas mais contundentes, como as fábricas a fingir que trabalham, os votos sob a ameaça das armas, a miséria, os alimentos dados apenas aos que se confessam comunistas, saem directamente das páginas de Douillet - e na crueza dos factos eram basicamente verdadeiras ou verosímeis. Hoje sabe-se que as atrocidades do regime soviético estiveram muito para lá do imaginável, ou mesmo do inimaginável. Mas as abundantes denúncias, entre as quais este primeiro Tintin se integra, estavam do lado errado da História, e quem as fazia era inapelavelmente reaccionário.

Hoje, a visão é outra, mas os «reaccionários» continuam a sê-lo. Para quando a clarificação da História é acompanhada de uma palavra de justiça sobre os que viram na altura o que tantos e tão responsáveis não viram, não quiseram ver, ou fingiram não ver? E, no entanto, uma década depois, seria a vez de Hergé não ver, não querer ver, ou fingir não ver, embora Tintin visse.

Assim, além da pacificação sobre a memória e o passado de Hergé neste aspecto, Tintin au Pays des Soviets, agora objecto de uma nova reedição pela Casterman, fica sobretudo como a obra fundadora da construção da personagem e o domínio progressivo da linguagem. E as razões da sua não adaptação às 62 páginas a cores, como aconteceu a todos os outros até à Guerra, balançará sempre entre um certo complexo pelas críticas de que foi alvo e a consciência de que era uma obra ainda muito incipiente apesar da sua importância. No final, uma luminosa ideia de «marketing» iria começar a consolidar o que tinha muito de brincadeira: o encenado «regresso» de Tintin da Rússia, em carne e osso, com a chegada à estação de Bruxelas (e que é como acaba o livro!), surpreenderia pela popularidade já adquirida.

Tintin au Congo é o outro pilar da «lenda negra» que pairou sobre Hergé - embora mais tarde, pois na altura as histórias foram recebidas com entusiasmo e sem grande contestação -, agora devido à questão do racismo. É óbvio que Hergé ainda está na fase burlesca, e aceita passivamente a visão paternalista do bom pretinho, mas que não exclui a simpatia, numa posição que não divergia muito da maioria dos portugueses da altura - não é por acaso que no «Papagaio» (cuja estreia mundial não francófona ocorrera com Tintin na América do Norte) a aventura chamar-se-á Tintin em Angola. A obra posterior mostraria claramente que se há «gags» infelizes e povos vistos com simpatia e outros com antipatia, o humanismo, a concórdia, o interesse e respeito pelos diversos povos é o que emana e fica das leituras, não havendo sentimentos racistas subjacentes.

Em Tintin en Amérique a solidez começa a afirmar-se, embora a construção ainda misture várias histórias e preocupações numa só - e Hergé começa a baralhar os dados ao denunciar o capitalismo, aos defender os índios. Tutankhamon paira sobre Les Cigares du Pharaon, mas é a Índia, as seitas, os «complots» que nos fascinam, um percurso paralelo à Rota da Seda, incluindo o Mar Vermelho do autêntico Henry de Monfreid, e a «família» começa a constituir-se: os Dupondt, Rastapapoulos, Oliveira da Figueira.

Um dia, ao saber-se que Tintin ia à China, um jovem artista chinês a estudar na Bélgica com uma bolsa, Tchang Tchong Jen de seu nome, aparece a Hergé para o ajudar a documentar-se e a não ofender com estereótipos os sentimentos do seu povo. É a primeira e grande revolução, quer estética quer ética. Será um dos álbuns mais politizados, tomando claro partido pela China contra o invasor imperialista japonês. E um dos mais belos. E em que a amizade com Tchang arrasará quaisquer leituras sectárias e unívocas. É no Lotus Bleu que Tintin verdadeiramente nasce.

L'Oreille Cassée vai confirmar a justeza no caminho já definitivamente encontrado por Hergé. Aventura/perseguição alucinante, é das que melhor sintetizam toda a série, pela transposição de factos reais (a guerra do Grande Chaco = Grand Chapo = Grand Chapeau, o traficante de armas Bazaroff, que existiu...), pela importância etnográfica, pela denúncia das ditaduras e o desprezo pela vida humana, pelo jogo de aparências, falsidades e mistificações, pelo irrisório da busca se é a cobiça que a move.

L'Ile Noire, entre mitos ancestrais, falsários e novas tecnologias, ficará marcada por uma terceira versão dos anos 60, que retira toda a poesia à aventura. Devia ser reintroduzida na colecção a primeira versão a cores. A Guerra está à porta, e num espantoso jogo de aproximação entre ficção e História, Le Sceptre d'Ottokar simbolizará o «Anschluss», denunciando na primeira versão a preto e branco mais claramente os fascismos da Europa Central, e na da colecção normal todos os totalitarismos sintetizados pelo ditador Musstler (MUSSolini+HiTLER), com uma maior balcanização daquela que é, para lá do contexto político, uma das grandes criações de Hergé - o País da Sildávia, com a sua história, língua, tradições... e a entrada tonitruante da Castafiore.

O fim do «Petit Vingtième» implicará a interrupção de Au Pays de l'Or Noir, que só reaparecerá uma década depois e será objecto de várias versões. Le Crabe aux Pinces d'Or denuncia ainda nos anos 30 os traficantes de droga, mas poucas obras terão transmitido com tanta força o fascínio do deserto e da estética árabe, nesse percurso sob o signo da sede, ou não nos trouxesse ele a fabulosa figura do Capitão Haddock. É a primeira história publicada no «Le Soir (volé)» (controlado pelos alemães) e a última com álbum a preto e branco antes da adaptação uniformizadora à cor.

L'Étoile Mystérieuse é a aventura neutral por excelência (a começar pelo grupo de cientistas, em que se inclui um português), aparentemente fora da terrível realidade do momento. Mas mesmo dando-se o benefício da dúvida a Hergé, que o lamentaria, aquilo que noutro contexto (lido hoje) seria uma denúncia da alta finança simbolicamente representada por um judeu, sem que tal represente todos os judeus, em 1942 foi profundamente lamentável. O «pecado» de Hergé passa muito mais por aí do que pelas discussões entre direita e esquerda. Mas o que fica é a angústia, o profundo mal-estar, o ambiente de pesadelo que torna este álbum um dos mais inesquecíveis, por imagens como a da aranha, as maçãs gigantes, etc. A sua importância histórica viria, porém, do facto de ser o primeiro que, depois das tiras no jornal, foi directamente publicado em álbum com as consagradas 62 páginas.

E embora só alguns tenham autoridade moral para denunciar, e embora «Le Soir (volé)» não fosse dos mais agressivamente germanófilos, e embora seja legítimo procurar o ganha-pão, e embora se tivesse verificado o apelo ao regresso feito pelo rei que ele tanto venerava, Hergé privilegiou, de facto, a consolidação da sua carreira, a segurança, mesmo que isso implicasse um determinado grau de colaboracionismo. Não activo nem convicto, mas pragmático. Hergé, que não é um extremista, procurou sempre conciliar o que para muitos é inconciliável: uma distância crítica sobre as ideologias e os fanatismos a par de amizades (que nunca abandonará) predominantemente de direita e mesmo de extrema direita, algumas das quais se revelarão claramente pró-alemãs. Mas se ele, não renegando a família ideológica e sociológica da direita, não deu esse passo, será honesto afirmar que só não o fez por timidez ou que o fez «em espírito»?

A relação com o rexismo (fascismo belga) é disso exemplar. Hergé conheceu o futuro líder do movimento, Léon Degrelle, ainda nos anos 20, no «XXe Siècle», de quem ficou amigo, chegando a fazer ilustrações para a editora Rex. Mas quando o movimento se radicaliza, Hergé afasta-se. Quando é convidado a passar para o jornal do movimento, recusa. Segundo testemunho da própria Germaine, a primeira mulher, que fora secretária de Abbé Wallez, das raras vezes que Hergé a proibiu de algo foi de ir a um comício rexista.

É ainda em plena Guerra que Hergé vai não só adaptar às 62 páginas a cores a maior parte dos álbuns iniciais (com a decisiva colaboração de Jacobs), mas, em dois dípticos seguidos, solidificar a série no seu conjunto. Daí que eu as interligue já com as aventuras que se seguirão no pós-Guerra, apesar das peripécias que rodearão a passagem de Les 7 Boules de Cristal para Le Temple du Soleil. É que esta vai ser uma das histórias inaugurais de uma revista que marcará profundamente a BD belga e europeia - «Tintin» -, cujo responsável artístico inicial será precisamente Hergé. Ora para isso ser possível, para Hergé ter o atestado de civismo apesar da colaboração no «Le Soir (volé)», é porque foi defendido por resistentes como Raymond Leblanc, o impulsionador da nova revista, e por figuras morais como Jacobs. E por muito que admirassem Tintin, tê-lo-iam feito se Hergé fosse nazi/fascista?

Le Secret de La Licorne e Le Trésor de Rackham le Rouge. É não só a aventura em estado puro - e a história de maior sucesso do conjunto - mas a busca das raízes, seja nos antepassados seja no encontro de um espaço que acolherá toda a «família» - que, no essencial, agora se completa com a entrada fulgurante de Tournesol, sem esquecer a reabilitação de Nestor. E são incomparáveis as cenas em que o Capitão se identifica com o Cavaleiro de Hadoque. Les 7 Boules de Cristal e Le Temple du Soleil renviam para o fascínio das civilizações pré-colombianas como símbolo já não das nossas raízes pessoais, mas civilizacionais, a nostalgia de um mundo perdido, esotérico e honrado. E, mais uma vez, a amizade.

Au Pays de l'Or Noir é o mundo do petróleo e do conflito israelo-árabe, mas também o deserto, a cultura e os desentendimentos árabes, é o «sheik» de quem ficará amigo, mas é uma história sobre a qual pesam as vicissitudes por que passou, reforçadas pelas sucessivas alterações descontextualizadoras; é também a intervenção inenarrável de Oliveira da Figueira, e é o «gag» genial da inclusão do Capitão Haddock, que, na primeira versão incompleta, ainda não existia... Objectif Lune e On a Marché sur la Lune é o culminar verniano e brilhante de uma das muitas preocupações e atenções de Hergé que perpassam por toda a obra - a ciência, documentada antevisão de uma das sagas mais simbólicas da fé do Homem nele próprio, desmistificada pelo humor e pela poesia da imponderabilidade.

L'Affaire Tournesol mergulha-nos de novo nas angustiantes tensões do nosso tempo, em ambiente de Guerra Fria, e homenageia a Suíça que muitas vezes foi a tranquilidade acolhedora para as crises existenciais de Hergé. Coke en Stock são ainda os conflitos político-económicos do nosso tempo, os problemas do Médio-Oriente, os interesses inconfessáveis, a denúncia (que continua actual 30 anos depois!) da permanência da escravatura, é a síntese de toda a série, e é a descoberta fascinante de Petra mesmo antes de a saber nomear.

Tintin au Tibet, realizado na altura de um período difícil em que Hergé se separaria de Germaine para ir viver com Fanny, é o cume da série. Não no sentido de ser a única obra-prima, pois há mais, mas porque o simbolismo da montanha corporiza de facto algumas das linhas de força de toda a obra, na amizade e na busca de uma espiritualidade que só a pureza oriental e em particular budista/tibetana pode transmitir. Realizado premonitoriamente no mesmo ano da ocupação chinesa, o espantoso rigor etnográfico e documental transmite um acrescido fascínio e convida à solidariedade.

Vol 714 pour Sydney, publicado quatro anos depois da Castafiore, em 66, ainda tenta abrir outras pistas de reflexão sobre alienações do nosso tempo, ainda traz novas personagens, mas a desaceleração criativa é evidente, e sobretudo o desenho e o humor sofrem contaminações empobrecedoras. Ainda é um álbum com o seu encanto, mas já é de algum modo exógeno à obra.

Tintin et les Picaros, penosamente concluído quase uma década depois, tem interesse pela confirmação do cepticismo sobre os poderes políticos, reclamem-se eles de que ideologia for, mas apesar do potencial fascínio da revisitação de espaços outrora míticos, é já a falta de fôlego que impera. Nada adianta à série - não valeu a pena tanto esforço para substituir as calças à golfe por uns banais jeans. Mais prometedora, porém, era a história que ficou inacabada, Tintin et l'Alph-Art, passada nos meios da arte e dos falsários, tanto mais que Hergé era um grande apreciador e coleccionador de pintura contemporânea.

É tempo, pois, de deixar Hergé em paz, com os seus segredos e os seus valores, as suas fidelidades e infidelidades, as suas cumplicidades e as suas contradições, a sua solidão e a sua genialidade consciente. E retomarmos, entusiasmadamente e de coração puro, a leitura da obra, profundamente enraizada no seu e nosso tempo, progressivamente «descronologizada», perenemente intemporal.

Texto de JOÃO P. BOLÉO / Expresso, 16/01/1999

Há uma clara intenção de cruzada católica anticomunista e missionária. Daí que Hergé se veja constrangido a enviar o seu herói ao Congo Belga antes de o levar aos Estados Unidos