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quinta-feira, 9 de julho de 2026

Tim-Tim No 25 de Abril


Na edição de 20 de Maio de 1974 do jornal "A Capital" foi publicada uma ilustração de Tintin na secção "Opinião Pública".

(Agradecimento a Fernando Marques pela informação e pela cedência da imagem)

«A secção "Opinião Pública", que agora reaparece passa a ser efectivamente, uma tribuna dos leitores. A censura é agora um pesadelo longínquo e é na franqueza das opiniões, na justiça das reinvidicações, no acerto das criticas e dos elogios que todos vamos construir um Portugal que não nos envergonhe aos olhos do mundo.»


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Presidenciais 1976

O jornal "A Rua", fundado em 1976, era dirigido por Manuel Maria Múrias (1928-2000).

Numa das edições do jornal "A Rua", a propósito das eleições presidenciais de 1976, foi publicado um cartoon onde aparece o candidato Pinheiro de Azevedo e onde também aparece Tintin e Milou.


Os cartoons não eram todos de grande qualidade embora alguns tivessem interesse. O livro "Um ano n' A Rua – 1º volume" reuniu os cartoons políticos das edições do jornal "A Rua" entre os números 1 a 26, de 9 de Abril de 1976 a 30 de Setembro de 1976.

(imagem cedida por Letras Velhas Alfarrabista)

Análise IA

Esta imagem é um cartoon político da autoria do caricaturista português Augusto Cid (1941-2019). A obra, com a legenda "política nacional" e a fala "homem de palavra, não é?", satiriza a figura do General António Ramalho Eanes e as suas declarações políticas, provavelmente relacionadas com a sua candidatura ou recandidatura à Presidência da República Portuguesa. 

Análise do Cartoon

Personagem Principal: A figura central fardada representa o General Ramalho Eanes, que foi Presidente da República de Portugal entre 1976 e 1986.

Contexto Político: O diálogo no balão de fala refere-se especificamente a uma declaração em que Eanes teria dito: "...EU SÓ DISSE QUE NÃO ME CANDIDATAVA A PR SE UM MILITAR SE CANDIDATASSE!... SE SE CANDIDATAREM DOIS MILITARES É DIFERENTE, NÃO É?". Esta citação humorística realça uma perceção de inconsistência ou manobra política na sua posição face a outros candidatos militares na corrida presidencial.

Termo "BARDAMERDA": A palavra "BARDAMERDA" aparece repetidamente em aviões de papel e em caixas espalhadas, uma referência satírica e jocosa recorrente nos trabalhos de Augusto Cid para com a figura de Eanes e o seu círculo político ou apoiantes. O termo era uma alcunha depreciativa usada na época.

Outras Figuras: As figuras de Tintin e Milou (personagens de banda desenhada) no canto inferior esquerdo são, provavelmente, uma assinatura visual ou um elemento humorístico adicional do autor, sem um significado político direto aparente. 

Este cartoon é um exemplo do humor político português da época pós-25 de Abril, frequentemente publicado em jornais como o Expresso e a revista Os Ridículos, onde Augusto Cid tinha uma presença marcante. 

As respostas de IA podem incluir erros.

Notas:

Naturalmente que a pessoa retratada é Pinheiro de Azevedo e não Eanes.

As primeiras eleições presidenciais após o 25 de Abril de 1974 tiveram lugar em 27 de Junho de 1976. Concorreram o general António Ramalho Eanes, Otelo Saraiva de Carvalho (antigo comandante do COPCON,), o almirante José Pinheiro de Azevedo (antigo primeiro-ministro) e Octávio Pato.

«O cartoon em questão retrata o Almirante Pinheiro de Azevedo, uma figura proeminente na política portuguesa pós-25 de Abril, conhecido pelo seu estilo direto e pelo episódio do "bardamerda".  José Baptista Pinheiro de Azevedo (1917-1983) foi Primeiro-Ministro do VI Governo Provisório (1975-1976) e candidato presidencial. A expressão "bardamerda para o fascista!" ficou célebre quando foi sequestrado durante uma manifestação de trabalhadores da construção civil, um dos momentos turbulentos do PREC (Processo Revolucionário em Curso). »

O autor da ilustração não deve ser Augusto CID.

«O principal autor e a alma por trás dos polêmicos cartoons políticos do jornal A Rua (que circulou em Portugal entre 1976 e 1982) foi Manuel de Sousa Pereira.»



terça-feira, 22 de abril de 2025

25 de Abril aos quadradinhos



Como seria lógico, também o 25 de Abril constituiu tema que alimentou e alimenta o universo da banda desenhada. Para além de globalmente ter sido um factor decisivo para a eliminação de todos os traços de censura sobre os conteúdos abordados, a sua própria crónica, directa ou indirectamente, serviu de inspiração para muitas histórias criadas desde então. A questão da eliminação da censura seria em si mesma interessante desafio para uma abordagem que prometo aqui fazer qualquer dia destes, assim contribuindo para um melhor conhecimento de épocas de “resistência” dos quadradinhos contra regras asfixiantes da liberdade de expressão entre nós.

(...) 

A. Martinó

Diversos têm sido os caminhos dos artistas que deixaram marcas mais relevantes na BD de Abril. Quem se lembra hoje que António, cujos brilhantes e surpreendentes quadros satíricos são uma das imagens de marca fundamentais do Expresso, um dos maiores cartoonistas/caricaturistas do nosso tempo, foi também um dos mais significativos e originais autores de BD dessa época? Presente em várias publicações, autor de uma das páginas que, precisamente na fronteira entre cartoon e banda desenhada, mais genialmente resumem o 25 de Abril e a questão militar que esteve na sua origem, seria sobretudo com Kafarnaum, no Expresso e em livro que António, num hábil jogo gráfico-linguístico, desmistificaria as taras e tiques do PREC, reflectindo inclusivamente sobre a própria BD o seu papel, parodiando largamente personagens populares da BD.

A utilização das personagens da BD foi aliás uma prática abundante e que constitui só por si um capítulo à parte na caracterização da BD desta época, reflectindo a popularidade da própria BD e a sua eficácia imagético-simbólica. Estudantes, sindicatos, comissões de moradores usaram-nas largamente. Ficaram famosas as fotomontagens do Jornal Novo. Eanes pela mão de vários e sobretudo de Cid, foi Superman e foi Tarzan A Flama numa série de Manuel Vieira sobre algumas figuras da época, em que, por exemplo, Mário Soares é o Príncipe Valente e Álvaro Cunhal é Mandrake, foi advertida pelo autor e editor por ter caracterizado Rosa Coutinho como Tintin.

(...)

JPP Boléo, A BD e o 25 de Abril

Há vários livros sobre a bd e o 25 de Abril.

https://largodoscorreios.wordpress.com/2014/04/25/25-de-abril-aos-quadradinhos/

https://largodoscorreios.wordpress.com/2015/04/28/25-de-abril-aos-quadradinhos-um/

https://tintinemportugal.blogspot.com/2014/10/tintin-no-pos-25-de-abril.html

"Imagens de uma revolução, 25 de Abril e a Banda Desenhada". de João Miguel Lameiras, João Paulo Paiva Boléo e João Ramalho Santos 

Um percurso em imagens e ilustrações por uma data marcante da história de Portugal. A Banda Desenhada, pela forma única como conjuga texto e imagem, foi um meio privilegiado para fixar a nossa História de forma dinâmica e atractiva, e também para apresentar este momento a quem nem era nascido. Uma revolução, quando desenhada, pode ser discutida e reflectida, e a sua memória pode evoluir mas nunca pode ser esquecida.

Assinado por três especialistas da história da banda desenhada no nosso país - João Paiva Boléo, João Miguel Lameiras e João-Ramalho Santos - "Imagens de uma Revolução" recupera alguns textos e obras anteriores, complementa-os com inúmeros exemplos e referências adicionais, e apresenta-nos o livro que nos mostra como as imagens perduram, e como uma revolução que foi desenhada dificilmente será esquecida.

Uma Revolução Desenhada - O 25 de Abril e a BD de João Miguel Lameiras, João Paulo Paiva Boléo e João Ramalho Santos 

Crocodilo / Flama

Outros posts anteriores neste blog:

Figuras que Abril Deu (1977)

https://tintinemportugal.blogspot.com/2017/07/figuras-que-abril-deu.html

Largo dos Correios (Jornal Novo, Flama)

https://tintinemportugal.blogspot.com/2014/10/tintin-no-pos-25-de-abril.html

Cartoon de Manuel Vieira publicado em 1975 na revista Flama

https://tintinemportugal.blogspot.com/2011/07/tertulia-bdzine-26.html

Fotomontagens do Jornal Novo

https://tintinemportugal.blogspot.com/2013/03/fotomontagem-no-jornal-novo-de-6121875.html

José Antunes / A Chucha (1976)

https://tintinemportugal.blogspot.com/2023/01/jose-antunes.html

"Kafarnaum" de António (1975/1976)

https://tintinemportugal.blogspot.com/2016/09/cartoons-de-antonio-in-kafarnaum.html

https://tintinemportugal.blogspot.com/2014/10/cartoon-de-antonio-karfanaum-em-1976.html

https://tintinemportugal.blogspot.com/2025/04/humor-unido.html

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Humor Unido Jamais Será Vencido

"O Humor unido jamais será vencido - Os cartoons da Revolução (1974-1976)" foi o nome da exposição temporária do Museu Bordalo Pinheiro, patente entre 18 de Dezembro de 2024 e 9 de Março de 2025, que mostrava desenhos publicados na imprensa da época por autores tão representativos como António, Augusto Cid, João Abel Manta, José Vilhena, Sam e Vasco.

Esta exposição, integrada nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril de 1974, lançou um olhar bem disposto sobre um período agitado da História de Portugal através da obra gráfica dos artistas que aproveitaram o fim da censura para mostrar outros ângulos de observação, simultaneamente críticos e divertidos, sobre os acontecimentos da época.

O Kafarnaum de António

"(...)

A lógica deste álbum é a do caldeirão, o caldeirão é o PREC. Nascido a 4 de Novembro de 1975, o 'KAFARNAUM' sobreviveu, apesar de não ter recolhido as cinco mil assinaturas para se transformar em partido legal, apesar de não ter fundado nenhuma associação de amizade Portugal-KAFARNAUM, apesar de não ter conspirado nenhum golpe de estado, nem tampouco ter sido consultado com vista à elaboração de pactos, relatórios, auto-críticas revolucionárias, etc.

Os comentadores que vão surgindo ao longo do enredo (?) cumprem a estrita missão de meter na ordem - embora kafarnaúnica, mas ordem, contudo - os ingredientes que, do interior do caldeirão, são servidos a um Zé Povinho cada vez menos semelhante ao que Bordalo Pinheiro criou, baseado no PREC do século passado." 

Abertura

Em relação ao Kafarnaum [inspirado no PREC], o desafio era tão grande que eu me servia de tudo o que estivesse à mão. não era bem uma opção estética, era mais uma necessidade de me socorrer de tudo, marcas, símbolos, banda desenhada, pintura. É preciso lembrar que eu era um tipo muito novo, a viver um processo politico único, que era o nosso, muito complexo. Por isso, servia-me de tudo para tentar comunicar, para manter-me à tona.

Quando o Kafarnaum fez dois anos, o Balsemão lançou um desafio enorme: "Chegou a o número 100, ´um número bom para acabar,  agora inventa outra coisa."

Entrevista a António (Expresso)

Paulo Jorge Fernandes: «Na exposição  aparecem alguns cartoons da série "Kafarnaum" do cartoonista António. António usou nessa série várias referências da BD, desde a série Asterix O Gaulês, Tintin, Lucky Luke etc. O Capitão Haddock aparece explicitamente num dos cartoons expostos.»

Algumas das imagens da exposição não aparecem no livro homónimo publicado em 1976.









quinta-feira, 25 de abril de 2024

Uma revolução desenhada


UMA REVOLUÇÃO DESENHADA: O 25 DE ABRIL E A BD

 A década de 70, que possibilitou em Portugal, com um certo desfasamento, o desencadear de transformações profundas que vinham, a nível internacional, da década anterior (para não falar numa recuperação do tempo perdido que vinha de muito mais longe, claro), foi também, curiosamente, um período charneira na história da BD europeia - e da BD em Portugal, que o 25 de Abril vai naturalmente potenciar e influenciar.

E a década de 70 é também uma época de transição na progressiva mudança dos hábitos de distribuição e consumo da BD. É neste período que as revistas de BD, que haviam marcado gerações desde pelo menos os anos 20 (e antes delas as publicações de caricatura e desenho satírico, mas num contexto diverso), vão começar a desaparecer, sendo substituídas pelos leitura directa em álbum, salvo cada vez mais raras excepções. Embora tenha havido, como ainda hoje, outras experiências, é precisamente da época que abrange o 25 de Abril a última revista de BD -- a versão portuguesa de "Tintin" (1968-1982), que, entre muitas outras coisas importantes, apresentou Corto Maltese em 1975 e abriu as suas páginas a Fernando Relvas, cujo Espião Acácio ficaria como marco de uma nova BD portuguesa cujos reflexos e pujança são hoje, até, mais evidentes.

Mas alguém imaginaria que, nos anos 70, em Portugal, reflectindo ou não as mudanças na sociedade, com os mais diversos graus de qualidade, e para além de toda uma produção vastíssima em revistas, jornais, boletins, folhetos, etc., se publicaram mais de 300 álbuns de autores estrangeiros e cerca de 100 portugueses?!

É neste contexto que o 25 de Abril vai encarar e utilizar a BD com um olhar novo. Se na memória das pessoas é natural que predominem alguns cartoons, particularmente de João Abel Manta, logo desde a altura (e retomando também experiências que vinham de trás, nalguns casos produzidas na clandestinidade), a BD vai surgir como um meio vivo e adequado para a intervenção política e cívica.

Intervenção tão actuante que na sua urgência e identificação com o próprio pulsar da Revolução, se integraria nas mais diversas formas de engagement da época, e hoje está esquecida. E a sua presença foi muito mais vasta e com assinalável frequência de muito maior qualidade do que se possa imaginar e recordar.

Muito sinteticamente, a BD que Abril trouxe, e no que diz respeito à produção portuguesa, pode ser agrupada em dois grandes núcleos: por um lado, a BD mais directamente politizada, que se ramificou essencialmente em duas tendências complementares: a BD de empenhada intervenção política com uma forte componente satírica, e a BD de formação cívica, de doutrinação política. Por outro lado, a BD já não tanto como instrumento mas como linguagem ficcional autónoma, mas abordando temas impensáveis, ou impossíveis antes do 25 de Abril devido à censura, a par de mais arrojadas pesquisas gráficas, de que o exemplo mais desenvolvido e paradigmático foi a revista "Visão".

Nos jornais, a produção foi vastíssima. É importante não esquecer, desde logo, que faz parte do universo da BD a tira desenhada, a história breve mas sequencial de que o exemplo mais emblemático no acompanhamento dos acontecimentos vertiginosos a seguir ao 25 de Abril foi o Guarda Ricardo de Sam, com o seu humor subtil, muito pessoal, que acabou por fazer um dos mais atentos diários da Revolução, e dos que mais convidam à reflexão - e não está ele, apesar do prestígio de que gozou, esquecido?

De tantos outros, recordem-se apenas, pela sua qualidade, intervenções como as de António e o seu Kafarnaum, nestas mesmas páginas do EXPRESSO, António que, de tão genial cartoonista em que se tornou, a maioria já se terá esquecido que foi também, depois do 25 de Abril, em diversas publicações, um importante autor de BD, e um daqueles que recorreram igualmente à BD de uma das formas mais engraçadas e eficazes desta época - utilizando satiricamente algumas das personagens mais famosas e populares da BD internacional. Ou as intervenções de José Paulo Simões que, na óptica do PCP, com a sua Direita de cara à banda, assinaria notáveis páginas satírico-políticas, que também dariam origem a um dos melhores álbuns de BD desta época. Ou as deliciosas desmistificações de F. Relvas na "Gazeta da Semana"...

Num duplo registo, outro dos nomes de maior qualidade seria Carlos Barradas, que além de presença assídua em publicações satíricas relativamente efémeras mas excelentes como "Pé de Cabra" ou "O Coiso", desenharia uma notável adaptação em BD do "Capital"de Karl Marx que é um dos exemplos mais conseguidos de BD didáctico-política.

Sem esquecer intervenções de qualidade como as de Cid, ou as de Marcelo Moraes na "Rua", numa perspectiva marcadamente de direita, seria obviamente no fervilhante universo da esquerda e sobretudo da extrema esquerda, nos meios operários, sindicais, partidários, estudantis, que a produção de BD seria imensa, servindo como símbolo entre todos uma história sobre a mais-valia, concluindo que os patrões não são precisos para nada, que teve as mais varias utilizações e reproduções, incluindo em murais de rua. Assim como seria o álbum "A Comuna de Paris de 1871", ligado à "Spartacus" (OCMLP) que daria um dos exemplos mais expressivos do espírito da época, pelo trabalho colectivo, a 4 mãos, empenhado, educativo e anónimo (hoje sabe-se que por trás estavam Elisabete José, Jorge Pé Curto, Nuno Pacheco e Rui Pimentel). Seriam, aliás, as correntes maoistas que tornariam familiares as bandas desenhadas chinesas como exemplo da verdadeira e boa BD.

A BD teria também uma importante utililização cívica, cujo exemplo mais feliz e vistoso foi "Vão à escola? Não, vão votar!", do MFA, e invadiria igualmente o ensino em várias vertentes, com aplicações excelentes e alguns abusos.

Mas há muito por onde escolher perder tempo, desde «A Palavra e a Mão», de Joaquim Brito, João Rodrigues e João Botelho, que ironiza sobre a crise académica de Coimbra de 1969, a "Contra a Escravidão pela liberdade", «História Ilustrada» do MPLA; da campanha eleitoral de Pinheiro de Azevedo desenhada por Victor Péon à campanha do Imposto Complementar desenhada por António Alfredo para o Ministério das Finanças. Só uma conclusão é possível: a BD teve, nesta época, uma importância sem par.

A experiência mais significativa de renovação da BD viria a ser, no entanto e de facto, a revista "Visão", em 1975/76. Nos seus efémeros 12 números, mostrando que a BD tradicional ainda era dominante nos gostos e hábitos, trouxe uma lufada de ar fresco através de uma renovação temática e estética que envolveu nomes como Victor Mesquita, Pedro Massano, Carlos Barradas, Isabel Lobinho, Zé Paulo Simões, Carlos Zíngaro, Zepe, Nuno Amorim, Duarte, etc., e que trouxe, além do humor, o erotismo de raiz literária, a guerra colonial, etc.

Todo este universo, brevissimamente evocado através das principais linhas de força, ainda precisa de ser muito mais amplamente estudado e recordado. Mas neste momento já não está esquecido.

Promovida pelo Centro de Documentação 25 de Abril, com a colaboração do Centro de Estudos Sociais e da Bedeteca de Lisboa, e contando com o alto patrocínio da Comissão Nacional para as Comemorações Oficiais dos 25 anos do 25 de Abril, a exposição Uma Revolução Desenhada: O 25 de Abril e a BD, inaugurada a 15 de Abril, em Coimbra, evoca a vitalidade da BD neste período nas mais diversas facetas.

Comissariada por João Miguel Lameiras, João Paulo Paiva Boléo e João Ramalho Santos e com cenografia da Antevisão, a exposição pretende mostrar a intensa produção de BD surgida na época (ou mesmo algo posterior, desde que relacionada com o tema) e que, dos álbuns às revistas, dos panfletos aos jornais, dos cartazes aos murais, ajudou a traçar a própria imagem da revolução dos cravos. Uma componente documental, caracteriza os oito núcleos que constituem a viagem pelas imagens de Abril. Viagem essa que se inicia com os acontecimentos do dia 25 de Abril revisitados pelos autores de BD nacionais e estrangeiros (cuja visão mais completa, e cepticamente lúcida, é sem dúvida "O País dos Cágados", de Artur Correia e António Gomes de Almeida, numa pérola a (re)descobrir), para prosseguir com a abordagem das lutas operárias e estudantis e a resistência às brutalidades da Pide. A um terceiro núcleo, dedicado à Guerra Colonial, onde encontramos também trabalhos produzidos em Angola e Moçambique, segue-se "A BD como ferramenta de comentário político-social", que é o núcleo mais extenso, onde é também dada uma certa atenção às campanhas eleitorais. Parte-se em seguida para a utilização didáctica da banda desenhada, quer no ensino, quer enquanto instrumento de educação cívica ou de doutrinação política. Depois de se ver a forma como a popularidade dos personagens de BD era utilizada como arma de propaganda política e traçar o panorama da banda desenhada em Portugal durante os anos 70, a primeira parte da exposição termina com o núcleo dedicado à revista "Visão".

Uma mostra apoiada sobretudo em reproduções e que, por uma questão de filosofia, mais do que mostrar pranchas originais, privilegia o suporte impresso em que essas histórias chegaram ao público da altura.

A fúria comemorativa encheu-nos já os dias com um sem número de imagens e memórias e evocações dos acontecimentos de Abril de 1974, com qualidade e interesse variáveis, incluindo novas BDs, evocativas da História ou com visões pessoais. E promete continuar, pelo que convém aos interessados em perceber o seu tempo muita perseverança e discernimento para separar aqueles contributos que trazem alguma coisa de novo e os que apenas nos fazem perder tempo. Se alguma coisa as revoluções nos ensinam é que o tempo é um bem precioso.

Daí que a exposição seja acompanhada por um livro/catálogo com o mesmo título que se revela inovador a vários títulos. Embora se trate aqui mais de um ponto de partida do que chegada, a pesquisa é enorme, seja pela simples recolha, seja pelas inúmeras revelações. Ao que se deve somar aquilo que talvez seja o mais importante: o retrato que esta arte faz do país e do tempo, «documentando os mais variados aspectos, permitindo evocar de forma sugestiva e sintética a multiplicidade de perspectivas e tendências, tanto políticas e sociais como estéticas, de que este período histórico foi feito», não se resumindo os materiais apresentados, como se viu, apenas ao desenho da revolução propriamente dita. O panorama da bd da época é completado por uma excelente (e impressionante pelo número) bibliografia de álbuns dos anos 70, assinada por Carlos Bandeiras Pinheiro.

Com arranjo gráfico de José Miguel S. Reis, cujo importante contributo nunca é demais realçar, a obra pretende estabelecer um diálogo com a exposição, de que funciona como um complemento com vida autónoma.

A segunda parte, intitulada "Visões de Abril", é composta pelos originais de 18 histórias inéditas, integralmente constantes no livro, feitas expressamente para esta exposição por alguns dos mais representativos autores de BD portugueses de várias gerações, que aceitaram associar-se a esta iniciativa, apesar do pouco tempo que lhes foi dado. Assim, os veteranos como Pedro Massano, Luís Diferr, Fernando Relvas, Rui Pimentel e José Pires, as certezas como Filipe Abranches, José Carlos Fernandes, Pedro Cavalheiro, Diniz Conefrey e José Abrantes, e as promessas como Rui Lacas, Rui Ricardo, Victor Borges, Miguel Rocha, Paulo Patrício, António José Lopes, Pedro Brito e Mário Moura, mostram num máximo de quatro páginas, a sua visão particular do 25 de Abril. Visões individuais e distintas, das quais fazem parte metáforas brilhantes de valores confirmados e de belas promessas. Alguns relatos autobiográficos transformam-se pela sua frescura em verdadeiros documentos. Experiências gráficas revelam inesperada consistência. O conjunto revela que continuamos capazes de produzir belas imagens com um perfume algo amargo. O mal, e quem o dia é a personagem de José Carlos Fernandes, «é fazerem-se revoluções com grandes ideais, liberdade, igualdade, fraternidade e coisas assim…».

Esta apresentação tem por base os textos de João Paulo Paiva Boléo (Expresso, 24/04/99), João Paulo Cotrim (Independente, 30/04/99) e João Miguel Lameiras (Selecções BD, nº8, Junho 1999)

Bedeteca

https://arquivo.pt/wayback/20000919175435mp_/http://www.cm-lisboa.pt:80/bedeteca/exposi/abril/rbd.htm

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Abril

28/04/2015

A Revolução dos Cravos, acontecida em 25 de Abril de 1974, é pretexto e lugar para todas as interpretações, descritivas ou comentadas, realistas ou ficcionadas, nos mais diversos suportes, do cartoon ao filme, do ensaio histórico à anedota, do conto à poesia. Naturalmente, não escapou à banda desenhada, bem pelo contrário.

https://largodoscorreios.wordpress.com/2015/04/28/25-de-abril-aos-quadradinhos-um/

Como seria lógico, também o 25 de Abril constituiu tema que alimentou e alimenta o universo da banda desenhada. Para além de globalmente ter sido um factor decisivo para a eliminação de todos os traços de censura sobre os conteúdos abordados, a sua própria crónica, directa ou indirectamente, serviu de inspiração para muitas histórias criadas desde então. A questão da eliminação da censura seria em si mesma interessante desafio para uma abordagem que prometo aqui fazer qualquer dia destes, assim contribuindo para um melhor conhecimento de épocas de “resistência” dos quadradinhos contra regras asfixiantes da liberdade de expressão entre nós.

https://largodoscorreios.wordpress.com/2014/04/25/25-de-abril-aos-quadradinhos/

Este país é uma história aos quadradinhos... Assim fomos definidos, de forma irónica, pelo saudoso semanário O Jornal. Aliás, numa espécie de metalinguagem digna de mais profundas análises, o “fabulário” da BD fornece(u) abundante material de impossível enumeração completa. Aqui se evocam, por exemplo, diversas personagens da série Tintin, assim como Superman. Mas também Al Capone e o nosso “clássico” Zé Povinho serviram de inspiração ou modelo...

A publicidade, a propaganda e o serviço cívico - em qualquer destas modalidades, a banda desenhada surge integrada nos meios gráficos que comunicaram, comunicam e comunicarão os conteúdos essenciais de Abril em Portugal.

António Martinó de Azevedo Coutinho

https://avozportalegrense.blogspot.com/2011/02/


Como ligeira compensação, aqui fica uma curiosa alusão ao emprego jornalístico (mas não da lavra profissional de Tintin!) da única vinheta dessa história em que, naquela América distante, surgem aviões. É uma capa de 1975, do Jornal Novo, um diário já desaparecido, que se notabilizou pelo constante emprego de cartoons onde era utilizada a banda desenhada.

https://largodoscorreios.wordpress.com/2015/04/12/o-estranho-caso-do-submarino-voador-05/

quarta-feira, 28 de abril de 1999

O 25 de Abril na BD


"O 25 de Abril na BD", na Bedeteca de Lisboa

Quando Otelo foi um Lucky Luke

Patente até meados de Setembro na Bedeteca de Lisboa, "O 25 de abril na BD", exposição que depois de ter sido inaugurada nas antigas instalações da Manutenção Militar, em Coimbra, veio para Lisboa, onde foi um dos núcleos para a 2ª edição do Salão Lisboa de ilustração e BD.

Traçando o percurso, sobretudo gráfico, do que foi a BD nos tempos da revolução dos cravos, esta mostra foi co-organizada pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra - a partir do convite de Boaventura Sousa Santos - e pela Bedeteca de Lisboa, para coincidir com as comemorações dos 25 anos do 25 de Abril.

Reunindo, em oito núcleos distintos, os traços essenciais das BD's daquele período, é no entanto mais abrangente, incluindo os tempos de ditadura e mostrando trabalhos visados pela censura política. Essa componente documental contou com a consulta a parte do espólio do Centro de Documentação 25 de Abril, assim como o recurso a colecções privadas. E quer se trate de álbuns, revistas, jornais, ou panfletos sindicais, houve uma aposta na divulgação, Em paralelo - vertente inédita - dá a conhecer a visão de 18 autores nacionais, decorrido um quarto de século sobre a revolução - numa sala contígua à exposição principal, estão trabalhos de Filipe Abranches, Rui Lacas, Relvas, Pedro Massano, Luís Differ, entre outros

"Foi uma união de vontades que permitiu cimentar um projecto destes em tão pouco tempo", salienta João Miguel Lameiras, que juntamente com João Ramalho Santos e João Paiva Boléo, foi um dos comissários da exposição. A partir da recolha a que procederam, surgiram visões únicas, obras inclassificáveis.

Exemplo de como a BD pode ser sinal dos tempos é a adaptação que Carlos Barradas fez de "O Capital", a obra de Karl Marx. Era a BD ao serviço do povo, para o povo. Também Mao Zedong foi personagem de BD, exaltando as massas ao trabalho. Às necessidades reais de propaganda política juntavam-se famosas e, na altura, não menos polémicas apropriações, como as trucagens que o cartoonista Manuel Vieira fez para a "Flama" por volta de 1975, de heróis, entre outros, da revista "Tintin", e onde se vê Otelo disfarçado de Lucky Luke ou Rosa Coutinho de melena e com os traços de Tintin. Hergé e a editora Casterman, ao tomarem conhecimento, terão obrigado a revista a um pedido de desculpas.

Para João Paiva Boléo, a obra que porventura melhor retrata os tempos de mudança de regime é "O País dos Cagados" de Artur Correia. "É a mais completa, até pela forma como goza com Américo Tomás; como a censura é lembrada, a alegria da libertação. É ainda uma visão crítica, quando dá atenção aos jogos de força", afirma. Concluindo que "era o resultado de uma luta que começa em 64, e que dura mais de dez anos; de uma luta clandestina"

Nuno Franco / Público, 27/04/1999

O 25 de Abril na BD

LISBOA Bedeteca, de terça a sábado, das 9h às 19h