terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Geograficamente Tintim

Geograficamente Tintim

A conhecida revista «Géo» decidiu - a fim de publicar uma edição especial - aliar-se ao conhecido Tintim, herói de banda desenhada que viajou um pouco por todo o mundo, e mesmo quando o não fazia, via este desfilar à sua volta (é assim que, se nunca veio a Portugal, conhece um português emigrante presente em algumas das suas aventuras, o Senhor Oliveira da Figueira).

De facto, é sobre os contactos de Tintim com o mundo e a viagem que esta «Géo» versa; reportagens minuciosas de especialistas de cada um dos países que o jornalista da poupa viu, escrevem sobre as aproximações que Hergé incluiu nos seus álbuns, algumas vezes evidentes, fotografias e seus desenhos, mesmo se não contemporâneas, são de uma semelhança espantosa, algumas como que intuitivas (estranho que, por exemplo, Hergé, que não viajava muito, consegue referir em O Templo do Sol, aventura decorrida no Peru, que a população, geralmente miserável, recorre ao trabalho infantil, o que acontece com o personagem Zorrino...) ou mesmo revolucionárias, como é o caso de Tintim que, para fotografar as girafas de perto, se decide a colocar uma indumentária o mais girafesca possível... Efeito cómico à parte, é sabido que muitos actuais fotógrafos de animais recorrem a processos semelhantes...

Além das viagens, a revista explora os meios de transporte utilizados por Tintim: quem não se lembra de pelo menos um episódio decorrido num comboio, navio ou avião? Finalmente, mais sortudo que Tintim, o Capitão - Pela sua profissão um viajante por excelência - merece um cuidadoso retrato, para o que é necessário todo um capítulo...

Para terminar em glória, a revista está recheada de imagens dos álbuns das Aventuras de Tintim, que a Fundação Moulinsart, detentora da sua propriedade, apresenta em feliz e meticulosa versão digitalizada, com cores irrepreensivelmente cuidadas, mas sempre de acordo com as versões mais antigas...

Sendo que os herdeiros de Hergé - a viúva e o seu actual marido - não têm sido especialmente hábeis nas suas relações públicas e comerciais, parecem com esta edição inaugurar uma nova imagem. Se é, efectivamente, o caso, começam da melhor maneira: esta edição torna-se imprescindível na biblioteca de qualquer apreciador de Tintim.

JOSÉ ABRANTES, Expresso, 23/12/2000