ANDRÉ OLIVEIRA EM ENTREVISTA COM GERALDES LINO NA SKETCHBOOK #5
Está disponível online, desde 24 de Dezembro de 2013, a SketchBook #5, com 76 páginas (incluindo capa e contra-capa), que comemora o seu 1º aniversário. A matéria mais significativa do conteúdo é a entrevista de André Oliveira com Geraldes Lino, organizada no Espaço Tintin, na Avenida de Roma.
A excelente entrevista ocupa 19 páginas desta revista digital, que pode ser vista AQUI (em formato ISSU) ou descarregada AQUI (em formato PDF).
A SketchBook é dirigida por Diogo Semedo e tem, neste número, colaborações de Nuno Neves (do blogue Notas Bedéfilas), Claudia Ferreira, André Sanchez (do site Rubber Chicken), Pedro Trabuco (também colaborador do BDjornal), Cesário Arco-Íris, João Figueira, para além de André Oliveira, mais Pedro Prado, Hugo Lima e Nuno Carneiro, nas fotografias.
O SENHOR BD
Em Junho, Geraldes Lino anunciou que se iria afastar do meio artístico que tanto preza. Decidimos por isso, com o auxílio de André Oliveira e em jeito de homenagem, agradecer ao Amigo Lino por tudo o que ele fez (e faz) pela BD Nacional.
André Oliveira: A tua experiência na Banda Desenhada é muito rica e sei que começaste a ler a partir de jornais e revistas como "O Mosquito" e o "Diabrete". Olhando para trás, quais são as principais diferenças que encontras entre a sociedade da altura e a actual, na maneira de entender a cultura e a BD de um modo geral?
Geraldes Lino: No meu modo de ver, as diferenças têm muito a ver com os avanços tecnológicos. As pessoas continuam a ter as suas idiossincrasias, continuam a gostar das diversas formas de cultura, mas há algo que mudou radicalmente com o 25 de Abril: a liberdade de expressão.
Nesse caso, e às vezes com muita intensidade, as pessoas exprimem as suas opiniões sem grandes limitações e isso para o bem e para o mal. Por exemplo, na Internet, que é uma força tecnológica que abrange tudo e todos, nós vemos que vem ao de cima a maior perversidade, pois as pessoas comentam, na maior parte dos casos, anonimamente e nunca se chega a perceber se pretendem enriquecer os seus conhecimentos ou simplesmente dizer mal e deitar abaixo.
Eu vivi uma parte da minha vida numa sociedade fechada, medrosa com receio de falar, pois nessa altura podíamos, sem saber, estar ao lado de um pide e portanto não se podia dar a nossa opinião fosse do que fosse. Muitas vezes, falava-se socialmente apenas de futebol, fado e Fátima. Mas, actualmente, há grandes alterações, grandes mudanças e continua a haver pessoas que se interessam por cultura, que a aproveitam e a sabem desenvolver.
A banda desenhada, felizmente, também soube evoluir até na nomenclatura, pois nos meus primórdios era simplesmente designada como "histórias aos quadradinhos", uma expressão com conotações infantis.
AO: Parte desse universo era considerado quase marginal, na altura da Ditadura.
GL: Eu não diria marginal, porque associo essa palavra, em certos casos, a algo diferente, inovador. Mas sim, na altura a BD era considerada como algo destinado apenas a crianças e a pessoas iletradas.
AO: Uma questão com a qual nos continuamos a debater nos dias de hoje... A minha próxima pergunta tem ainda a ver com a forma como a sociedade entende a BD. Tenho uma familiar que ao olhar para uma prancha de BD não a consegue ler, não se sabe orientar. Isto é: consideras ser fundamental que o leitor seja educado e aliciado à linguagem bedéfila ou não?
GL: Nós estamos numa época em que realmente se fazem cursos para tudo. Não digo que não seja útil. Tu próprio dás workshops de como fazer argumentos, mas considero que a pessoa sozinha pode aprender a linguagem de construção de uma história em banda desenhada, pois a leitura é algo de intuitivo. Comigo foi assim que aconteceu, e nem sequer foi necessário existir uma influência parental.
AO: Na Banda Desenhada, para além de ter de existir um bom texto e uma boa ilustração, tem de existir um bom "storytelling". Para nós é fácil, porque aprendemos a ler à medida que aprendíamos a ler BD. Mas, por exemplo, para alguém que nunca tenha tido qualquer contacto com este tipo de literatura, que lê as onomatopeias da mesma forma que lê o conteúdo dos balões, prova que há toda uma aprendizagem que é importante aprender.
GL: Sim, claro. Na Banda Desenhada há até as histórias sem palavras.
AO: Que muita gente diz que não têm argumento.
A banda desenhada [ tal como a sociedade ], felizmente, também soube evoluir (...)
GL: Lá está, mas o argumento está sempre lá implícito. E eram, de certa maneira, essas as noções, a respeito da linguagem da BD que se tentava incutir no Clube Português de Banda Desenhada, do qual fui sócio fundador em 1976.
AO: Começaste por ser leitor da revista "O Mosquito", até que a certa altura resolveste enviar uns desenhos teus para lá...
GL: Sim, para o "Cantinho dos Leitores". Esses mesmos desenhos já os cheguei a reproduzir num fanzine que editei: o "Preciosidades da BD", dedicado a uma obra inédita de Eduardo Teixeira Coelho acompanhada de um artigo meu acerca deste autor.
AO: Como é que passas de leitor dessa revista a colaborador da mesma?
GL: Bem, para além de ter enviado uma carta, enviei esses desenhos que eu fazia "à vista", sem sequer fazer esboços, que com algum jeito meu ficavam cópias quase perfeitas. Eu era um "ás" nessa altura. (risos)
O director do "Mosquito" recebeu os meus desenhos e convidou-me a visitar a redacção para me propor que colaborasse com eles, sem saber que o que eu conseguia fazer não era algo de original. Tive de explicar-lhe de que maneira eu fazia aqueles desenhos, porque não me sentia capaz de elaborar uma BD de raiz, que era o que ele pretendia.
AO: Podiam ser à vista mas há muita gente que nem assim se safa. (risos).
GL: Pois.
AO: A tua área era mais a das letras e depois dessa aventura curiosa na revista "O Mosquito", como é que vens a entrar à séria no meio profissional da BD nacional?
GL: A primeira revista em que colaborei efectivamente foi na "Camarada", que era editada pela Mocidade Portuguesa. Aliás, havia até uma versão para os rapazes e outra para as raparigas: a "Fagulha".
Colaborei na altura, porque era obrigatório ser membro da Mocidade e acabei por, muito a contragosto, ter de colaborar com textos.
AO: Daí tu não gostares que te chamem de "camarada". Porque te lembras logo dessa obrigação que tiveste.
GL: Pois claro. Éramos conhecidos como "Piolhos Verdes", por trajarmos com camisa verde e calções caqui castanhos. Ainda hoje se vejo alguém com esse código de cores no seu vestuário comento: "Lá vai um saudoso do antigamente". (risos).
AO: Até pode não ter nada a ver...
GL: Olha que tem. (risos). Penso que em pessoas da minha geração não será por acaso.
Mas ainda em relação à revista "Camarada", é curioso que muitos artistas e escritores que lá colaboravam eram pessoas que não tinham conseguido lugar quer no "Mosquito", como no "Diabrete", ou no "Papagaio".
A "Papagaio" publicava o "Tintin", a revista "O Mosquito" tinha as séries inglesas e espanholas e havia ainda o herói chamado "Cuto", que todos pensavam ser um herói português, mas que tinha origens espanholas.
Essas séries eram compradas a Agências estrangeiras o que possibilitava que essas revistas fossem publicadas semanalmente.
No caso das revistas "Papagaio" e "Camarada" estas eram quase exclusivamente constituídas por produção nacional, o que tinha tanto de bom como de mau. É interessante que a maioria dos artistas da "Camarada" eram arquitectos.
AO: Ainda hoje há muitos arquitectos autores de banda desenhada.
GL: Sim, é verdade. Tenho até uma listagem que um dia destes hei-de divulgar.
Na altura os mais conhecidos eram: o Marcelo Morais, o Júlio Gil e o José Leal (que chegou a ser director do Aeroporto de Lisboa). Tudo pessoas que foram para arquitectura porque tinham gosto pelo desenho e que faziam banda desenhada para essas revistas, até mesmo depois de se formarem.
AO: Alturas em que ainda tinham saída enquanto arquitectos. Agora, alguns dos artistas nacionais não conseguem exercer.
GL: Nessa altura, na Mocidade Portuguesa, tínhamos uma espécie de acções de formação e foi aí que ficaram a saber de mim, porque eu escrevia para os jornais de parede da escola e desenhava em certas aulas.
Cheguei a ter de ilustrar um dicionário infantil completo, com desenhos na maior parte deles feitos à vista. Criei ainda algumas histórias infantis como a "O Menino, o sonho e a Onda" e a personagem Geraldino Caracol, pseudónimo com o qual assinei a minha primeira história e que depois, já em nome próprio, vim a desenvolver numa história infantil.
AO: Tu tens no teu currículo colaborações com quase todas (se não mesmo todas) as revistas e jornais do nosso país. Quais aquelas que te deixaram melhores recordações: as mais antigas ou as recentes?
GL: Sinceramente, qualquer uma das duas. Lembro-me com gosto do que fiz no semanário "O País", onde tive a meu cargo duas páginas desse periódico; do jornal "Diário Popular", onde tinha à minha responsabilidade uma folha que designei como "Tablóide" e na qual tive a ajuda do Jorge Colombo na idealização do grafismo da página, em troca de ele ser o primeiro a fazer uma BD para o suplemento, antecedida por uma entrevista.
O objectivo do "Tablóide" era que os artistas criassem uma BD em 3 páginas, que seria publicada em dois sábados seguidos e, após a participação do Jorge, muitos outros autores da nossa praça lhe seguiram como o Luís Louro, que na altura trabalhava com o Tó Zé Simões. A dupla chegou até a criar-me um imprevisto, pois a história deles era de seis páginas, e como o objectivo era apresentar cada autor com uma bd de três, servi-me do facto de eles serem uma dupla para contornar essa regra que se tinha imposto no início, visto que entrevistei os dois, um na página inicial e o outro na última.
Foi uma altura muito interessante, o final dos anos 70 e princípios de 80. Lembro-me de ainda escrever os meus textos à máquina e de os levar ao Bairro Alto, onde ficava a redacção do jornal, e onde às vezes me cruzava com o cartunista Zé de Lemos a fazer o seu cartoon "O Riso Amarelo", e com o conceituado jornalista Baptista Bastos, que era o redactor que aceitava os meus textos.
Nas revistas, tive muita honra de colaborar na revista "Mundo de Aventuras", onde infelizmente só fiz um artigo; no "Jornal da BD", em que fiz sistematicamente uma página inteira durante alguns anos e ainda na "Selecções BD" e numa outra publicação, que infelizmente passou praticamente despercebida, intitulada "Heróis Inesquecíveis".
Há cada vez mais fanzines com boa qualidade (...)
AO: Hoje em dia há poucas ou nenhumas publicações como aquelas em que tu colaboraste. Achas que fazem falta, ou dado o contexto actual e social nas suas mais variadas vertentes já não fazem sentido?
GL: Eu acho que já não fazem falta. Temos que nos integrar na época em que vivemos e eu, apesar da minha idade, tenho a noção de que há que avançar.
Às vezes vêm pessoas que me dizem com ar saudosista "Que falta faz uma revista das antigas." E eu respondo: "A sério? Houve a Selecções BD? Comprou?" Respondem que não e fica o assunto encerrado.
As revistas que tentaram seguir essa tradição, as pessoas mais velhas não as compraram, porque pararam no tempo do "Mosquito" e do "Diabrete". Os mais novos não tiveram a paciência para andar à procura das revistas nas bancas como se fazia nos velhos tempos.
Para além disso, as últimas revistas que apareceram caíram no erro de ser uma espécie de mostruário dos títulos que as editoras publicavam.
Muitas vezes, enquanto colaborador da revista "Selecções BD" onde respondia às cartas dos leitores, cheguei à conclusão que era desagradável para estes gastar dinheiro numa revista, que basicamente apresentava por episódios, álbuns que meses depois se ia publicar.
Nessa mesma revista cheguei a falar nisso ao dono da Meribérica, Telmo Protásio, que enquanto fã de antigas publicações queria reproduzir esse modelo na sua revista, que eu contradizia com a ideia de que com histórias curtas ou autoconclusivas se atrairia mais público. Ele chegou a dar-me ouvidos, mas infelizmente já era tarde demais para a salvar.
As revistas tiveram o seu tempo, agora dificilmente têm lugar porque os leitores não as procuram, e muito menos têm pachorra, porque os mais novos então, se querem ler BD lêem-na gratuitamente na Internet.
AO: No seguimento do que estás a dizer, achas que o próprio álbum de BD tem os dias contados? Que as pessoas vão cada vez mais contentar-se em ler o livro num ecrã ao invés de o ter nas mãos?
GL: Eu que sou velho já estou virado para as novas tecnologias. Sou um autodidacta básico e até gosto de ler webcomics e os e-zines, mas continuo a preferir manusear o álbum físico. Porque, sejamos realistas, por melhor que seja o formato digital, num ecrã de computador tu nunca poderás ter a experiência sensorial que se tem ao manusear o livro.
É verdade que o álbum continua a tener um fascínio muito grande, mas temos de ter em conta que também esse formato veio substituir o formato da revista e se agora está a ser suplantado pela edição digital é algo de natural, mas não quer dizer que venha a fazer desaparecer o formato físico.
No caso das revistas então não houve um fim, surgiram foi os fanzines, que de certa maneira deram continuidade à filosofia de revistas que existiram, e, hoje em dia, há cada vez mais fanzines com boa qualidade como a "Zona", o "BDLP", a "Banzai", etc.
AO: Como já referiste, foste fundador e membro da direcção do CPBD. Na altura, o que levou à criação desse clube? Quais consideras terem sido os seus grandes contributos para a BD nacional?
GL: Devo esclarecer que eu não fui o fundador. Os fundadores foram um grupo de cinco pessoas que depois me contactaram. Sou sócio-fundador porque eles tinham uma condição inicial que era, quem entrasse para sócio do Clube durante esse primeiro mês de actividade, passava a ser considerado sócio-fundador. Fui o décimo primeiro e passei a ter essa designação.
No segundo ano do clube, como eu era um sócio interessado e activo convidaram-me para a direcção. Aliás, o meu primeiro artigo sobre BD foi escrito no "Boletim do CPBD", que se pode considerar o fanzine mais antigo em Portugal, pois foi iniciado em Março de 1977. Esse artigo era sobre o festival de Lucca, que tinha visitado com Vasco Granja, e daí o título "Que viva Lucca!".
AO: Por esse título, vinhas muito satisfeito com o que lá tinhas visto.
GL: Completamente deslumbrado. Era um evento onde tu vias banda desenhada em tudo o que era sítio daquela localidade. Desde o núcleo principal até às farmácias e lojas de roupa.
AO: Para quem estava habituado à realidade portuguesa, não devia ter nada a ver.
GL: Sim, cá infelizmente, não havia nada. Por isso, ao chegar a Portugal, como vinha entusiasmado, por proposta minha o CPBD começou à procura de soluções para fazer algo do género no nosso país.
Inicialmente, não estava a ser possível por falta de verbas e apoios, até que surgiu a oportunidade de o fazer graças ao Vasco Granja e à editora Bertrand que queriam fazer uma exposição de Banda Desenhada que contaria também com o apoio de uma editora francesa, e da FIL - Feira das Indústrias de Lisboa.
Como o Vasco Granja era o responsável por essa exposição, que até teve o apoio da Embaixada de França o que permitiu a vinda de autores estrangeiros (Jean Giraud, Jean-Claude Forest, da argumentista Danie Dubos, entre outros), sugeri numa das reuniões da FIL que se abrisse espaço à Banda Desenhada Portuguesa e aos seus autores nessa exposição.
Com todo o respeito pelo Vasco Granja, ele inicialmente não estava muito interessado nessa proposta; talvez porque como se estava a incluir o Clube (do qual ele também era sócio, ainda que não muito activo) ele considerasse que lhe estava a fugir um pouco o controlo sobre o que tinha sido deixado à sua responsabilidade. O que eu compreendo, porque já na altura o nome Vasco Granja era como que uma instituição e ele de certa forma estaria a responsabilizar-se por nós.
O Clube nessa altura teve também influência no agregar de uma grande parte das pessoas que gostavam de BD, mas não estava isento de críticas.
Houve uma fase em que entraram membros mais novos que consideravam que o Clube não passava de um grupo de coleccionadores que pouco fazia para dinamizar e divulgar a BD Nacional.
Não deixa de ser verdade que existia esse lado do coleccionismo, mas o clube tinha um propósito e em seu nome chegaram-se a organizar várias exposições de divulgação de artistas nacionais, uma delas em Belém, outra no Museu de Arqueologia sobre "A história da BD" e uma outra no Museu da Cidade sobre "Lisboa na Banda Desenhada".
Com outros membros do Clube, como o José Sobral e o Carlos Gonçalves divulgou-se a BD Portuguesa no festival de Lucca em Itália através do "Boletim do CPBD" sobre a BD Portuguesa que lá se distribuiu.
Foi por intermédio da passagem do CPBD por Lucca que, por exemplo, conheci pessoalmente o Hugo Pratt, com quem, por mero acaso, partilhei um táxi; o Milo Manara e o Jean Giraud, com quem mantive interessantes conversas sobre as influências artísticas de ambos; e o Juan Jimenez, que a certa altura me disse para ir pedir um desenho para ele ao Frank Miller por o meu Inglês ser melhor do que o dele.
Os meios até podiam ser poucos, mas não se pode dizer que o CPBD nunca tenha feito nada.
AO: Para além da divulgação e da promoção da BD, o CPBD teve esse efeito aglutinador, num meio pequeno como o nosso onde há diferentes núcleos. Como é que tu vês esta divisão de esforços, que em todo o caso são exercidos em prol de um mesmo objectivo?
GL: Como tudo na vida há sempre dois aspectos. Por um lado é verdade que se podia unir os esforços e fazer algo com mais potencialidades, por outro lado há algo de positivo, porque todas as pessoas têm gostos diferentes e há áreas de interesse muito díspares.
Como tal acho que é importante que existam caminhos distintos, o que permite dar a conhecer muitos autores independentes ignorados pelo mainstream e que é importante dar a conhecer.
É verdade que há rivalidades, mas tem de haver lugar para tudo. E até pode acontecer que as rivalidades espevitem a criatividade.
AO: Dentro destes núcleos há sempre autores emergentes e tu prestas um apoio incansável aos jovens. Achas que Portugal está bem recheado de artistas ou tem antes muitos curiosos que se contentam com a mediocridade e não estão verdadeiramente interessados em superar-se?
GL: Bem, há realmente todos os géneros. O talento não nasce ao mesmo tempo e com a mesma intensidade em toda a gente. Agora há muitos a fazer BD, mas isso sempre houve.
Enquanto jurado de diversos concursos ao longo da minha vida, fiquei espantado com a quantidade de bons artistas que vão aparecendo, mas para os encontrar é necessário que o júri esteja completamente concentrado na análise dos trabalhos a concurso e, muitas vezes, para seleccionar três primeiros classificados, infelizmente, ficam outros tantos de fora.
Aparecem muitas pessoas a querer fazer banda desenhada, mas nem toda a gente tem o talento necessário. Querer desenhar uma BD é algo que acontece com uma frequência impressionante, muito mais do que escrever ou pintar. Ao invés, argumentistas emergentes são aves raras, o que é pena porque em cada vinte aspirantes a autores de BD que surgem, aparece um argumentista e faziam falta muitos mais.
AO: Há quem diga que se compra o primeiro álbum pelo desenhador, mas o segundo é sempre pelo argumentista.
GL: Exactamente, é verdade que nos podemos entusiasmar por um traço de um artista, mas ao começarmos a ler, se o argumento não nos souber cativar, ficamos por ali.
AO: Tu ofereceste (e ofereces) um apoio enorme aos autores, mas tu próprio sabes que há quem tenha mais capacidades e interesse em evoluir do que outros. Como é que tu geres isto, o teu apoio? É fácil, é difícil, já tiveste muitos dissabores?
GL: É muito difícil. Repara que toda a gente tem interesse em evoluir, o que sucede é que há sempre um limite de capacidades. Não é todos os dias que surge um grande autor.
Agora há dezenas que têm aparecido. Alguns convido para os diferentes projectos que dinamizo, mas também fui apenas desafiando os que me impressionaram mais.
Se me perguntares: "Então e os outros com menos capacidades?" Infelizmente, tenho de os deixar ficar, porque não os posso convidar a todos.
Admito que certos autores que dou a conhecer ainda não atingiram o seu potencial. Há os muito bons, os quase bons e um ou outro mais fraco, mas como quero ser abrangente e nem sempre todos estão disponíveis, porque todos têm de manter uma vida dividida entre os empregos, estudos e a BD, dou espaço àqueles que se calhar ainda não se dedicam a 100% para mostrarem o que conseguem fazer.
Só tenho pena de haver tantos bons talentos no nosso país que foram ficando abandonados. Eu fui apontando nomes ao longo destes anos nos diversos concursos pelo país, mas infelizmente não tenho capacidade para os editar a todos nos meus fanzines. Há falta de editoras que peguem nestes autores e lhes dêem o devido destaque.
AO: No AMADORA BD deste ano aquela que pretendia ser uma abordagem abrangente sobre o universo fanzinesco em geral, acabou por ser uma homenagem a ti, pois herdou o teu nome. Como avalias a experiência que foi dar vida a esta mostra? E, no teu coração, o que é que achas que vai pesar mais: a iniciativa de fazer a exposição sobre os teus fanzines ou a homenagem da organização?
GL: Não era meu objectivo que a exposição tivesse o meu nome. Ao idealizá-la o título que pensei foi "Fanzines, esses desconhecidos". A Cristina Gouveia é que insistiu que assim fosse pois, segundo ela, desde que me conheceu, sempre me associou à expressão "Militante da BD e dos Fanzines", que figura no meu cartão de apresentação e como tal achou que a expressão seria indissociável da exposição.
(...) argumentistas emergentes são aves raras, (...) faziam falta muitos mais.
Ainda este ano eu fiz uma outra mostra sobre fanzines no Salão de BD de Viseu mas que não teve esta dimensão. Agora na Amadora devo dar os parabéns à Cristina e à sua equipa, pois a exposição estava muito bem feita e foi realmente o que me deu mais gosto, por ser tão bem apresentada e por me terem dado a oportunidade de mostrar todos aqueles fanzines que o público, na sua maioria, desconhecia.
Tive pena desta não ter estado patente no núcleo central, o que faria com que mais pessoas a tivessem visitado, mas devo dizer que fiquei satisfeito com o resultado final, muito mais do que com o facto de ter o meu nome, uma vez que já tinha tido uma homenagem, essa mais formal, no Coliseu dos Recreios da Amadora onde me foi atribuído o troféu de honra da Cidade da Amadora.
AO: Os fanzines são a tua paixão. Imagina que te pediam para seres editor de uma grande editora. O que preferias? Continuar a ter a tua liberdade enquanto faneditor ou, como se diz, vender a alma ao diabo e enveredar por essa via mais profissional?
GL: Bem, tu estavas a fazer a pergunta e eu já estava a pensar que não iria recusar o convite para editar uma revista, onde poderia dar oportunidades a todos os talentos esquecidos que conheço. Essa seria uma oportunidade única que eu não poderia recusar.
Por outro lado eu teria que continuar a minha actividade predilecta nos meus tempos livres, passaria era a dinamizar Prozines, pois passava a ser um Profissional da Banda Desenhada a editar uma publicação com trabalhos recusados pelos patrões da revista profissional. (risos)
AO: Quer dizer que Fanzines Sempre, independentemente do resto?
GL: Sempre, sem dúvida.
AO: Sobre a Tertúlia que criaste em 1985, da qual tu te arredaste em Junho de 2013. No que te inspiraste para criar aquele encontro mensal?
GL: Por um lado, enquanto membro da direcção do CPBD considerava que as reuniões do clube não eram nada motivadoras. Nem para mim, nem para os muitos jovens que faziam parte do clube, que eu conseguia arregimentar graças ao meu contacto fácil com a juventude.
Alguns desses jovens, ao associarem-se eram convidados a fazer parte dos diversos corpos gerentes: Direcção, Assembleia Geral e Conselho Fiscal. O problema é que muitos não apareciam nessas reuniões, tirando um ou outro mais participativos, e os encontros eram pouco produtivos porque facilmente se caía na crítica fácil quando era suposto que se apresentassem ideias e soluções.
Assim, um pouco à parte de toda essa burocracia, primeiramente, o Luiz Beira e o Estrompa começaram a reunir-se, informalmente, às quintas-feiras com outros membros no restaurante "Júlio" (actual "Gina") no Parque Mayer. Eu próprio frequentava esse encontro, que ganhou mais tarde, depois do surgimento da minha tertúlia, o nome de Tertúlia Shock, derivado do fanzine que os dois autores tinham criado.
Foi a partir desses encontros informais que me surgiu a ideia de organizar algo parecido, mas com outras características. O encontro que idealizei teria como base um jantar mensal e em todas as edições haveria um homenageado ou um convidado especial. O objectivo era que se pudesse juntar num mesmo local, quer os autores consagrados como os jovens artistas e seria sempre atribuído um diploma ao homenageado ou ao convidado.
E foi assim que nasceu a Tertúlia BD de Lisboa.
AO: E é interessante que todos os diplomas tinham a tua caligrafia, pelo menos os primeiros.
GL: Sim, é verdade. Isso foi possível porque eu sei escrever em cursivo, pois aprendi caligrafia na Escola Comercial. Como a minha família não tinha os meios para que eu pudesse frequentar o Liceu, enveredei inicialmente pelo ramo comercial.
Mais tarde completei o curso liceal já adulto e depois fiz até o Ad Hoc, tendo para tal realizado um trabalho sobre a obra "D. Quixote de La Mancha" de Cervantes e acabei por entrar para o curso de Filologia Germânica.
AO: Até aí, nessa fase da tua vida com o teu Ad Hoc, a BD esteve presente (n.e.: Capitão Haddock, fiel companheiro de Tintin).
GL: (Risos) É verdade.
AO: Quando olhas para o panorama actual como vês o futuro da BD em Portugal? Achas que valeu a pena todo o teu esforço quando olhas para trás? Estamos no bom caminho, ou vamos continuar com a história do copo meio cheio, meio vazio?
GL: Bem, eu em relação a essa história do copo vejo-o sempre para meio vazio. (risos)
Repara, se aceitarmos que a BD está a saber aproveitar as novas tecnologias, quer para se reinventar, como para se divulgar, considero que estamos no bom caminho. Não podemos é continuar a pensar que poderá ficar para sempre como a conhecemos.
Enquanto existirem editoras a lançar álbuns e grupos independentes a darem a conhecer os autores emergentes, a BD não morrerá, porque o público continuará a interessar-se pelo que se faz.
Agora, em relação ao que eu e outros fizemos no CPBD, nas exposições, nos festivais, há que entender que muito do que se fez não terá efeitos futuros. Foi-se perdendo ao longo dos tempos, pois em Portugal é muito difícil manter uma memória do que foi feito no passado. Vão continuar é a existir pessoas que se interessam por BD e isso vê-se até pela qualidade dos fanzines que vão aparecendo e pela quantidade de autores que aí iniciaram as suas carreiras e que se tornam profissionais como: o Relvas, o Jorge Coelho, o António Jorge Gonçalves, o Filipe Abranches, o Pedro Brito, Rui Lacas, o Filipe Andrade, o Nuno Plati, o Osvaldo Medina, a Joana Afonso, o André Lima Araújo, o Daniel Henriques, etc.
AO: Depois de tantos anos a divulgar e a informar o público sobre aquilo que é a Banda Desenhada, a ser um Semeador Cultural, custa-te ainda ouvir a célebre pergunta "Então a BD não é só para crianças?"? Não te faz questionar se o teu esforço não terá sido em vão?
GL: As gerações vão-se renovando e todas as dúvidas que foram esclarecidas em gerações anteriores voltam a surgir na actual e nas futuras. Por isso há que continuar esse esforço.
Em relação ao preconceito da BD ser só, ou não, para crianças, deve-se um pouco ao tipo de histórias que mais vende e sempre vendeu em Portugal e em todo o mundo (neste momento até há uma editora, a Goody, que imprime e vende milhares de exemplares direccionados às crianças), o que não quer dizer que só exista esse tipo de Banda Desenhada.
Há diversos tipos, começamos é todos por ler as mais infantis e vamos evoluindo para géneros com outro nível de exigência artística e literária; tal e qual como na literatura e outras formas de arte como o cinema, música, etc. Infelizmente, o que muitas vezes acontece é que poucas são as pessoas que passam desse nível mais básico e a ideia preconcebida acaba por cristalizar.
Ainda há pouco tempo no Amadora BD, mencionei o facto do Maurício de Sousa vir cá inaugurar um parque temático, naquele município. A meu ver, até pode ser interessante para as crianças, mas tem o aspecto negativo de transmitir aos adultos que a BD continua a ser exclusivamente para os mais novos. O que é incorrecto, porque tal como em outras artes, há diferentes géneros de Banda Desenhada para todos os diferentes tipos de público.
AO: Por ser uma expressão artística tem essas possibilidades.
GL: Exactamente. E é até curioso que quanto mais elevado é o nível cultural constatável dos indivíduos, maior é o respeito por esta forma de arte.
Uma vez vi numa esplanada um senhor a ler Corto Maltese. Meti conversa com ele e elogiei a sua coragem de ler BD em público. Vim a saber que ele era afinal um respeitável juiz.
Há que mostrar às pessoas que gostamos de ler banda desenhada. Não devemos ocultá-lo. Felizmente hoje em dia já há mais pessoas a fazê-lo, mas deviam ser mais e deviam fazê-lo em público, nos cafés, nas salas de espera, nos transportes, etc. Quando viajas de comboio quantas pessoas vês a ler Banda Desenhada?
AO: Sinceramente não te sei dizer, porque normalmente vou ocupado a ler BD. (risos)
GL: Pois claro, porque és um tipo sério e corajoso. Mas muitos têm vergonha dos olhares de reprovação.
AO: Mas também tens outras paixões como a música Jazz, prova disso é o teu fanzine Jazzbanda, e o cinema, em especial o português. Ainda que o teu amor pela BD tenha mais protagonismo.
GL: Faço questão em seguir os filmes portugueses, mas não quer dizer que não tenha gosto pelo cinema mundial.
AO: Sim, mas porquê a BD a sobressair e não uma das outras paixões?
GL: Obrigado por me fazeres essa pergunta, nunca ma fizeram e considero-a pertinente.
O cinema chegou a ser uma paixão muito forte para mim e cheguei até a ser sócio de três cineclubes ao mesmo tempo: o ABC, Imagem, do qual cheguei a fazer parte da direcção, e do CineClube Universitário.
Quando apareceu o CPBD, o meu antigo fascínio por BD foi como que resgatado da infância, em especial a minha grande admiração pelo herói espanhol, que todos pensávamos ser Português, o Cuto (apresentado em Portugal como o Ardina). Um amigo desta personagem, na aventura "O Mundo Perdido", chamava-se Pedro de Lencastre. Marcou-me tanto que dei o nome de Pedro ao meu filho.
Esta paixão pela BD começa assim através de revistas como "O Mosquito" e depois passo a ler o "Diabrete" por intermédio de um primo mais velho e a revista "Camarada" comecei a ler porque me era oferecida na Escola Comercial. O "Papagaio" nunca o cheguei a ler por ser muito caro, e soube mais tarde que estava ligado à Igreja.
Não admira até que o Tintin tenha sido lá publicado, porque o Hergé fez parte dos Escuteiros no seu país de origem; atenção, escuteiros com "cu" e não com "co". Os com "cu" são da igreja, só podiam ser.
AO: Escuteiros com "cu" são os da igreja. (risos) Por essa citação não esperava eu.
GL: E portanto continuei a ler e passei para a revista "Mundo de Aventuras", que na altura tinha uns heróis bem interessantes: Roldan (que era o Flash Gordon), Mandrake, Steve Canyon, Cisco Kid, etc.
Por tudo isto apaixonei-me pela BD, porque esta tem uma dupla faceta: a parte literária e a gráfica que se traduzem num duplo entusiasmo que não existe nas minhas outras paixões.
AO: Agora vou bater na madeira. Se houvesse um incêndio e se só pudesses salvar três livros quais seriam?
GL: (Longo Suspiro) Começo por um álbum compilado pelo Roussado Pinto, que continha uma história do Cuto, "O Mundo Perdido" que, como já disse antes, me ficou sempre na memória desde que o li/vi.
Depois, a minha segunda escolha será o "TinTin no Tibete". Eu comecei a ler esta personagem pelas edições francesas, pois sou da geração em que todos sabíamos francês, a velha lengalenga do "... e tocava Piano e falava Francês". Também aprendi a jogar piano, mas nunca fui grande coisa. (risos)
Personagens como os irmãos Dupondt, o batoteiro Carreidas do "Voo 714 para Sidney" e especialmente o Capitão Haddock fizeram-me apaixonar pela série do belga Hergé.
A terceira terá de ser sem dúvida alguma "A Balada do Mar Salgado" do Corto Maltese de Hugo Pratt, pois possuo a edição italiana original e todas as primeiras edições nacionais deste livro.
Haveria outros que eu também incluiria nesta lista como: Blake & Mortimer, Capitão Marvel, o super-herói da minha infância; o Ferdinando (Lil' Abner no original americano), a arte de Al Capp era algo de espectacular, em especial as suas voluptuosas e sedutoras personagens femininas; depois o Little Nemo in Slumberland da qual sou um completista e Mortadelo e Salamão de Francisco Ibáñez, autor que eu conheci pessoalmente no Salon del Comic em Barcelona.
AO: Não te esqueças que só podias salvar três.
GL: Eu sei, eu sei... Mas não poderia deixar de nomear estas outras obras pela qualidade que lhes reconheço.
AO: Depois de teres anunciado o teu abandono da Tertúlia BD de Lisboa surgiram vários testemunhos e comentários emocionados de pessoas que te têm como referência. O que eu te queria pedir agora, para terminar a entrevista, é que deixes uma mensagem a todas essas pessoas. Gostaria também de saber que projectos ainda tens? Pois como já tive a oportunidade de te dizer: não te podes afastar completamente. Nós não te queremos afastado, tu tens de estar por perto.
GL: Para todos os que manifestaram esse carinho para comigo tenho a dizer que fiquei muito sensibilizado e emocionado.
Mas é assim, todos sabemos que somos finitos e temos de reconhecer as nossas limitações temporais e que as nossas capacidades são limitadas.
Eu cumpri a minha missão. Há agora quem o esteja a fazer muito melhor do que eu alguma vez consegui fazer e alegra-me que existam tantos a fazer coisas tão interessantes pela banda desenhada e espero que todos os que se consideram capazes que continuem a trabalhar, que tenham persistência, espírito de sacrifício e que não estejam apenas à espera de reconhecimento imediato.
Eu nunca fiz nada a pensar em reconhecimento e agora recebo muito mais do que esperava. Devem compreender que tudo o que fizerem agora, daqui a vinte anos terá o seu verdadeiro impacto e será devidamente valorizado.
Desejo o melhor para os criadores nacionais, para todas as editoras independentes e fanzines e espero que nunca falte quem apoie, divulgue e saiba dar o devido valor a todos os que mostram ter qualidade, persistência, capacidade laboral e espírito de sacrifício.
AO: Obrigado, Lino.
GL: Obrigado, eu.
Entrevista a Geraldes Lino, realizada por André Oliveira e publicada no Sketchbook #5 de Dezembro de 2013.
O grande destaque desta edição de aniversário foi a entrevista da autoria de André Oliveira ao convidado surpresa, o ilustre Geraldes Lino. Na capa tem uma caricatura de Zé Oliveira.
Um especial agradecimento ao André Oliveira e ao Geraldes Lino, por nos deixarem captar esta conversa tão singular e pela preciosa ajuda na revisão da entrevista; Ao Espaço Tintin e à sua "relações públicas" Rita Ribeiro, que muito nos ajudou a criar as condições para que esta entrevista tivesse lugar; e à organização do AMADORA BD, pela cedência das fotos da exposição: Geraldes Lino - Militante da BD e dos Fanzines. (Sketchbook)





































