sábado, 14 de outubro de 2006



O semanário Trevim da Lousã publicou um cartoon de Carlos Sêco parodiando as aventuras do Tintim. Carlos Sêco é francês, filho de pais portugueses, vivendo actualmente em Portugal. Apaixonado pelo Tintim, Sêco publica regularmente no Trevim cartoons humorísticos, além de ser o autor do personagem de BD Jonas, também ele da «família» do Tintim. De notar, que Carlos Sêco faz parte dos órgãos sociais da cooperativa proprietária do jornal Trevim.

terça-feira, 4 de abril de 2006

Coimbra

Exposição de BD decorre no cenário do álbum “O Segredo de Coimbra”, do belga Étienne Scréder. Não falta sequer a porta secreta da história, que existe mesmo e que, durante a mostra, estará aberta aos visitantes.

“Boa tarde a todos!”. “Eu diria mesmo mais: boa tarde a todos!”. Foi com esta emulação dos diálogos cacofónicos de Dupond e Dupont que o presidente da Coimbra 2003 – Capital Nacional da Cultura (CCNC), Abílio Hernandez, abriu, anteontem, a exposição “Coimbra na Banda Desenhada”. Até 14 de Setembro, a exposição está patente no Museu da Física da Universidade de Coimbra, que é o cenário do album “O Segredo de Coimbra”, do belga Étienne Screder.

Não consta que Dupond e Dupont, as personagens de dois ineptos investigadores policiais criadas por Hergé, para a série Tintim, se tenham alguma vez referido a Coimbra. As únicas pranchas de Hergé representadas nesta exposição, que procurou fazer o levantamento exaustivo das referências à cidade na banda desenhada, nacional e internacional, dizem respeito ao álbum “A Estrela Misteriosa”. Aqui, encontramos o professor “Pedro João [“Joães”, nalgumas edições] dos Santos, da Universidade de Coimbra” (UC), um dos sábios que participaram com Tintim numa expedição marítima, à procura do local da queda de um meteorito. A UC é responsável pela maior parte das referências que a BD internacional fez a esta cidade. No “Rali em Portugal”, da série “Michel Vaillant”, Jean Graton também colocou o piloto francês, e o seu companheiro de equipa, o norte-americano, Steve Warson, a visitarem o Páteo das Escolas da UC.

(...)

Coimbra aos quadradinhos e balões

Por ALVARO VIEIRA, Público, 19/06/2003

Exposição “Coimbra na Banda Desenhada” - COIMBRA Museu da Física da Universidade.

Patente até 14 de Setembro, de 3ª a dom. Entrada livre

As referências na BD à cidade de Coimbra dizem quase todas respeito à universidade

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

Puro Veneno


em memória de Cáceres Monteiro (1948-2006)

Rui Pimentel, Revista Visão, 12/01/2006


Quem é o cartoonista da VISÃO?

Desenha desde que se lembra. E começou, em miúdo, por copiar os cartoons de um jornal francês. Todas as semanas, Rui Pimentel brinda os leitores da VISÃO com o seu humor implacável e corrosivo...

domingo, 17 de julho de 2005

Tintin Entre Nós

Universo de Tintin em exposição

«Tintin Entre Nós» é o título da exposição a inaugurar hoje, dia 7, pelas 15h00, na Galeria do Museu Marquês de Pombal, sobre o universo da banda desenhada de Hergé e do seu grande herói: Tintin.

Esta exposição, dos 7 aos 77, é uma organização da Câmara Municipal de Pombal em parceria com o Fórum da Maia, composta por painéis que representam a evolução da banda desenhada de Hergé e do nascimento do jovem repórter Tintin e do seu inseparável cão Milou. Integram também esta exposição vários objectos da banda desenhada de Tintin e que se encontram ao longo das suas páginas, bem como diversos livros sobre a vida e obra de Hergé, e vários dos seus álbuns. Durante a exposição serão exibidos filmes das aventuras de Tintin.

Hergé, de seu nome verdadeiro Georges Rémi, nasceu em Bruxelas, em 1907 e faleceu em 1983. Autor e ilustrador belga, criou a personagem Tintin em 1929, cujas aventuras em banda desenhada o tornaram famoso em todo o mundo. Conhecido como o pai da moderna banda desenhada europeia, Hergé produziu 24 volumes da série Tintin, hoje traduzidos em cerca de 40 línguas.

A exposição «Tintin Entre Nós» ficará patente ao público até dia 8 de Julho.

Local: Galeria do Museu Marquês de Pombal

Praça Marquês de Pombal (junto ao Museu Marquês de Pombal)

Horário: De segunda a sexta-feira, das 09h00 às 12h30 e das 14h00 às 17h30

Telefone: 236 244 089

CMP

O repórter/detective Tintin está em Pombal. “Tintin Entre Nós” é o título da exposição, patente na Galeria do Museu Marquês de Pombal, em que são apresentados vários aspectos deste herói da banda desenhada criado por “Hergé”, pseudónimo do ilustrador belga Georges Rémi. A exposição está patente ao público até o dia 8 de Julho.

Painéis, livros, álbuns e objectos são alguns dos artigos que podem ser vistos no certame, organizado pela Câmara Municipal de Pombal, em parceria com o Fórum da Maia. Para além da evolução da banda desenhada de Hergé e do nascimento do jovem repórter Tintin, e do seu inseparável cão Milou, estão em exposição diversos livros sobre a vida e obra de Hergé, e vários dos seus álbuns.

No dia da inauguração do certame, foram várias as crianças que puderam assistir a filmes com as aventuras de Tintin, o repórter/detective, criado em 1929, que vive percorre diferentes países do mundo. As histórias de Tintin integram cerca de 24 volumes, traduzidos em mais de 40 línguas, e podem ser vistas em vários desenhos animados. Alguns desses filmes poderão ser visionados durante o certame.

A exposição “Tintin Entre Nós” pode ser visitada na Galeria do Museu Marquês de Pombal, na Praça Marquês de Pombal, de segunda a sexta-feira, das 09 às 12h30 e das 14 às 17h30. O telefone, para maiores informações, é o 236 244 089

O Eco

domingo, 26 de setembro de 2004

Tintim e a Alph-Art

Editorial verbo comemora os 75 anos de Tintim com a publicação de um álbum facsimilado, que reproduz a edição de 1934 publicada no “Petit Vingtième”- “Os Charutos do Faraó” e com a edição de um livro muito especial “Tintim e a Alph-Art”!

Tintim e a Alph-Art é o último trabalho do criador de Tintim. Trata-se de um álbum com uma «quase» aventura, uma série de pranchas onde se vê o desenho e o texto do que, com tempo, haveria de ser mais um álbum para os fãs de Tintim.

Aqui se encontram muitos personagens já conhecidos de outras histórias, implicados desta feita numa intriga que envolve o mundo da arte moderna. Apesar de incompleta, não faltam a esta aventura os ingredientes habituais de humor, os trocadilhos, as críticas inteligentes, as alusões a factos verdadeiros e os mal-entendidos, que geram sempre, por parte do leitor, reacções de surpresa e de gargalhada.

É um livro inédito, indispensável a qualquer fã, coleccionador ou apreciador da obra de Hergé!

Este álbum inédito é publicado por ocasião do 75º aniversário do nascimento do famoso personagem  

Tintim e a Alph-Art

AUTOR Hergé

EDITOR Difusão Verbo

62 págs., € 10,99

Que mais há ainda a conhecer sobre Hergé e a sua mais notável criação, o famoso repórter Tintin? A resposta é este álbum, que vem completar a edição portuguesa das aventuras do herói. Discretamente, o editor refere na capa que é o "argumento" de uma derradeira história que o criador belga já não pode acabar, integrando a totalidade dos diálogos e algumas das pranchas esboçadas a lápis. É uma obra indispensável para fãs e admiradores incondicionais, mas de interesse um pouco mais problemático para leitores comuns que procuram sobretudo o prazer da aventura e do entretenimento nas histórias aos quadradinhos.

Fugas Público, 25/09/2004

A derradeira aventura

Um pouco de história: a 3 de Março de 1983, Hergé falecia na Bélgica, aos 75 anos, vítima de leucemia e deixava incompleta aquela que deveria ser a 24.ª aventura de Tintin, o mais célebre repórter dos quadradinhos - mesmo se foram poucas as linhas por si escritas.

Eram apenas 42 páginas, só esboçadas, aqui e ali com o desenho um pouco mais avançado, ainda com indecisões de nomes, nalguns casos com sequências alternativas.

Em termos de argumento e diálogos, a obra estava mais adiantada, mas terminava igualmente nas primeiras quatro vinhetas da página 42. Nelas, Tintin encontra-se em situação desesperada, avançando devido à pressão de uma pistola nas suas costas, sendo o seu destino... a imortalidade. Não como o célebre herói de BD que é, mas transformado em estátua, quando o seu corpo for coberto com poliéster líquido, para ser trabalhado por um famoso escultor.

Isto porque, em "Tintim e a Alph-Art", o herói evolui no meio da pintura moderna. A arte foi, aliás, um dos temas que apaixonou Hergé no final da sua vida, enfrentando um bando de falsificadores e traficantes de arte, liderados por um místico que, a ter continuado a história, acabaria por se revelar um dos seus grandes inimigos, o pérfido Rastapopoulos.

Para acalmar os rumores de uma eventual conclusão da obra pelos seus colaboradores, três anos depois, em 1986, era editado um álbum com dois cadernos: um, reproduzia as 42 páginas esboçadas por Hergé; o outro, continha a transcrição dos diálogos. A partir dele, rapidamente surgiram no mercado, a preços exorbitantes e com pequenas tiragens, diversas versões pirata "finalizadas" da história, algumas das quais ainda circulam na internet.

No início deste ano, a 29 de Janeiro, aproveitando o pretexto dos 75 anos de nascimento de Tintin, e tentando revitalizar um catálogo onde há muito faz falta uma novidade, foi editado em França, no formato habitual e ao mesmo preço da restante colecção (tal como a Verbo faz agora no nosso país), "Tintin e a Alph-Art", que reproduz as tais 42 pranchas e transcreve os respectivos diálogos. O volume foi enriquecido com alguns documentos entretanto descobertos, quase todos respeitantes a uma fase mais inicial da obra. Aí, Hergé explorava ainda diversas possibilidades temáticas, nomeadamente o tráfico de droga.

E mesmo estando a história numa fase tão embrionária, uma justificação surge de imediato para a edição: descobrir a forma de trabalhar de Hergé. Como ele ia esboçando a narrativa, como aqui e ali uma ou outra imagem ganhava mais importância, levando-o a aperfeiçoá-la ainda no esboço, como as ideias iam surgindo, sendo postas de parte ou integradas no relato, obrigando, quantas vezes, a renumerar as páginas.

E ver, igualmente, a sua forma de desenhar, repetindo o traço diversas vezes, de forma sobreposta, até encontrar a versão ideal que, mais tarde copiaria, por decalque, para o original.

Há também um princípio de história - quase dois terços de um álbum - escrito já de forma consistente, com diálogos que, em muitos casos, se adivinham definitivos, com um fio condutor consistente e capaz de prender o leitor que chega à fatídica página 42, em que tudo fica em suspenso - desta vez para sempre -, sem se saber qual a sorte do herói. Mas confiando que ele se irá libertar, mais uma vez, de uma situação delicada e aparentemente irresolúvel.

Como nas outras 23 apaixonantes aventuras, que Hergé escreveu e desenhou, muitas delas autênticas obras-primas, que fizeram de Tintin um dos ícones mais celebrados da banda desenhada e do século XX.

F. Cleto e Pina, JN, 22/08/2004

http://jn.sapo.pt/2004/08/22/cultura/a_derradeira_aventura.html

terça-feira, 14 de outubro de 2003

Ano Tintin

2003 celebra Hergé

Correu o mundo e foi à Lua 15 anos antes de Neil Armstrong, pela mão de Hergé, Tintim tornou-se um herói e mudou o mundo da banda desenhada. Duas décadas depois da sua morte, o autor belga continua a viver através das aventuras do pequeno repórter e multiplicam-se as homenagens, os estudos e as biografias.

A capital europeia da banda desenhada banda desenhada (BD), Angoulême (França) rebatiza, este mês, uma das suas ruas centrais com o nome de Rua Hergé. Uma prova de que Hergé e Tintim estão empatados em termos de notoriedade.

Herói acidental

Tintim já tem 72 anos, nasceu na Europa, numa época em que as histórias em quadrinhos na Europa ainda estavam em fase pré-histórica. O repórter veio à luz no dia 10 de Janeiro de 1929, em Bruxelas, na Bélgica, mais precisamente num suplemento juvenil do Jornal "Le Petit Vingtième" pela mão de Georges Remi.

Georges usava o pseudônimo de Hergé, que o deixou famoso. Her é o som em Francês da letra R de Remi, e Ge de Georges. Os estudiosos do personagem garantem que Tintim teria sido o repórter que autor não conseguiu ser. "Naquela época, o arquétipo do jornalista era o de um grande viajante, como Albert Londres ou Joseph Kessel, e meu pai queria que eu fosse um pouco o sósia deles", admitiu o criador ao contar o nascimento casual de Tintim, numa entrevista à revista "Lire", em 78.

Em busca da perfeição

Tudo começou com "Tintim no País dos Sovietes" em 1929, seguido de outros 22 títulos e uma obra inacabada "Tintin and Alpha-Art", publicada em 1986 . A obra sofreu uma uniformização: uma redução para 62 páginas e uma intervenção cosmética com algumas das primeiras histórias redesenhadas e coloridas à excepção do primeiro livro.

Pouco atento à veracidade histórica das aventuras de Tintim, Hergé muda de atitude em "Lótus Azul" quando conhece Tchang Tchong-jen, um estudante chinês, que o alerta para a necessidade de uma fundamentação rigorosa das aventuras de Tintim. Quase todos os livros da década de 40 são considerados no mundo da BD obras-primas, principalmente os "visionários" álbuns lunares.

Da Terra à Lua

O reconhecimento do papel revolucionário de Hergé no desenvolvimento da banda-desenhada e no estabelecimento de regras básicas é inegável. Um feito memorável, sobretudo porque foi conseguido através de um jornalista que nunca escreveu uma linha, sempre um bom samaritano e que percorreu várias vezes o mundo árabe e desertos, a Ásia Oriental, a América Latina, a Europa Balcânica, os EUA, a África, e até mesmo... a Lua.

Cristina Alves, Expresso, 07/01/2003

https://arquivo.pt/wayback/20050701145629/http://www.bedeteca.com/index.php?pageID=recortes&recortesID=753

Tchang, o amigo de Hergé e... Tintin! Obra sobre Tchang-Tchong Jen apresentada hoje. Lançamento faz parte das comemorações do “Ano Tintin”.

Hoje, dia 17 de Março, as Éditions Moulinsart vão apresentar o livro “Tchang! Comment l’amitié déplaça des montagnes”, uma completa biografia de Tchang-Tchong Jen, o amigo chinês de Hergé. O seu lançamento é a primeira grande edição daquilo que se convencionou chamar o “Ano Tintin”, iniciado no passado dia 3 de Março, com o assinalar dos 20 anos da morte de Hergé e que se concluirá em Janeiro de 2004, quando se celebrarão os 75 anos da publicação da primeira prancha das aventuras de Tintin.

De Tchang, até hoje, apenas se conheciam os aspectos da sua vida relacionados com Hergé: o encontro dos dois, em 1934, quando o abade Gosset sugeriu a Hergé que se documentasse sobre a China, antes de para lá enviar Tintin; a sua contribuição para a história e a escrita dos caracteres chineses reproduzidos em algumas legendas de “O Lótus Azul”; a sua inclusão, como personagem, neste álbum, ao lado de Tintin; o seu salvamento, após um desastre de avião, em “Tintin no Tibet” (1958), cujo trama tem por base a grande amizade entre as duas personagens de papel e serviu a Hergé para expurgar fantasmas pessoais; o seu reencontro com Hergé, em 1981, após longos anos de contactos diplomáticos para que as autoridades chinesas o autorizasse a sair do país.

O livro lançado hoje, cinco anos após a sua morte, a 10 de Outubro de 1998, para além de aprofundar estes aspectos, revela especialmente o homem e o artista (pintor e escultor), por trás do homónimo do amigo de Tintin, em paralelo com as mudanças que sofreu a China na qual viveu durante quase um século (1907-1998) e que afectaram sobremodo a sua existência, passando de autor conceituado e respeitado a proscrito pela Revolução Cultural de Mao Tsé-tung.

“Tchang!”, tem quase duzentas páginas profusamente ilustradas com fotos, documentos e desenhos de Tchang e Hergé, e é da autoria de Jean-Michel Coblence, historiador e apaixonado pelo extremo oriente, e de Tchang Yefei, uma das filhas de Tchang-Tchong Jen.

Pedro Cleto, Jornal de Notícias, 17/03/2003

(Caixa à parte)

Tchang autografa Tchang

Hergé desenhou-se a ele próprio e a alguns colaboradores (Bob de Moor, E. P. Jacobs) como figurantes de diversos álbuns de Tintin e muitas das suas personagens foram inspiradas em pessoas reais. Mas apenas duas figuraram nos álbuns com o seu próprio nome: Al Capone, que Tintin enfrenta e derrota em “Tintin na América”, e Tchang-Tchong Jen, que Hergé introduziu em “O Lótus Azul”, e que recuperou, mais tarde, em “Tintin no Tibete”. E dos dois, por razões compreensíveis, apenas Tchang autografou os álbuns em que surge ao lado de Tintin.

Copyright: © 2003 Jornal de Notícias; Pedro Cleto © 2002 Bedeteca de Lisboa  

quinta-feira, 20 de março de 2003

Ano Tintin

Começa hoje [03/03/2003] o "Ano Tintin" 20 anos após morte de Hergé. Multiplicam-se os estudos sobre o alcance universal da obra de um dos mais famosos desenhadores de todos os tempos. Steven Spielberg deverá adaptar brevemente ao cinema aventuras do repórter.

Nunca escreveu uma linha que fosse, mas é o jornalista mais famoso do planeta. Tintin, imortal criação do desenhador belga Hergé, vê hoje passarem 20 anos sobre o desaparecimento do seu pai criador. "Tintin sou eu. Creio que sou o único a poder animá-lo, no sentido de lhe dar uma alma. Se outros retomassem Tintin, podiam fazê-lo melhor ou pior. Mas fá-lo-iam de outra forma e já não seria Tintin!", declarou Hergé pouco antes da morte.

O falecimento de Hergé, assinalado hoje, dá justamente início às comemorações do "Ano Tintin", com os festejos a estenderem-se até Janeiro de 2004, quando o herói sem idade festejar as bodas de diamante.

Mas como manter viva essa popularidade, 27 após a publicação da última aventura, 17 após a edição, sob forma de esquisso e argumento (incompleto) de "Tintin et L'Alph'Art", o álbum em que Hergé trabalhava à data da sua morte?

A resposta tem sido dada de diversas formas. Por um lado, têm-se multiplicado os estudos, as biografias e as análises ao autor e à obra. As mais marcantes são, sem dúvida, "Le monde d' Hergé", de Benoit Peeters, e "Chronologie d'une oeuvre", de Philippe Goddin. A próxima, anunciada para 17 de Março, é "Tchang! Comment l'amitié deplace les montagnes", sobre a vida de Tchang Tchong-Jen, estudante chinês que o desenhador conheceu nos anos 30 e que lhe despertaria a necessidade de realismo que a sua obra contém, cujoapogeu é conseguido em "Tintin no Tibete".

Mas com o foco mediático a levantar-se novamente sobre Hergé, voltam a circular rumores de uma "novidade": a versão a cores de "Tintin no país dos sovietes", uma versão animada de "Tintin e o lago dos tubarões", ou mesmo uma versão finalizada de "Tintin etl'Alph Art". Acontecimento maior será, indubitavelmente, a concretização de uma nova versão em cinema (Tintin já foi retratado em carne e osso, nos anos 60, por Jean-Pierre Talbot), dirigida por Steven Spielberg . O autor de "ET" comprou os direitos para realizar três filmes livremente baseados nas aventuras do jovem repórter. A onfirmação surgirá num futuro breve.

Cronologia

Hergé confunde-se com Tintin. A sua mais genial criação é um dos símbolos gráficos do século XX. Os seus álbuns estão traduzidos em 50 línguas.

1907

Nasce Georges Remi. Ficará mundialmente conhecido pelo apelido Hergé.

1929

Publica a primeira prancha de "As aventuras de Tintin no país dos sovietes".

1940

A ocupação da Bélgica pelos nazis obriga-o a aprofundar o seu universo. Conhece Edgar P. Jacobs, autor de "Blake e Mortimer".

1946

Nasce a revista "Tintin"

1950

Criação dos Estúdios Hergé. Desenvolve, em três anos, a aventura lunar de Tintin.

1976

Publica "Tintin e os pícaros", última aventura do herói.

1983

Hergé morre de leucemia.

O que havia no seu lápis para lá de Tintin

O desenhador belga mais celebrado de sempre não criou só Tintin. Na bibliografia de Hergé existem outras séries de vida efémera, mas com carácter valioso. A mais conhecida é "Les exploits de Quick e Flupke" ("Aventuras e desventuras de Quim e Filipe" na edição portuguesa da Verbo, 12 miniálbuns de 32 páginas), que narram as diabruras de dois miúdos belgas, "levados da breca" para inventarem sarilhos e confusões, à conta das partidas que gostam de pregar.

Nascidos em Janeiro de 1930, um ano depois de Tintin, duraram quase 11 anos e revelam um Hergé mais espontâneo, irónico e quase desrespeitoso, que "através destes gags de uma ou duas páginas, viveu, enfim, a infância endiabrada que nunca chegou a conhecer", disse Benoit Peeters.

Em 1936, Hergé cria "Les Aventures de Jo, Zette et Jocko" ("As aventuras de Joana, João e do Macaco Simão", edição Verbo), por encomenda do jornal francês "Coeurs Vaillants" que lhe propôs mais ou menos isto: "Sabe, o seu Tintin não está mal, gostamos muito dele. Mas é assim: ele não trabalha, não vai à escola, não tem pais, não come, não dorme... Não é muito lógico. Não pode criar uma personagem cujo pai trabalhe, que tenha uma mãe, um animal de estimação?" Nesta série, apesar da boa vontade, Hergé nunca se terá sentido muito à vontade, devido à multiplicidade de imposições e à artificialidade do conjunto.

Da bibliografia de Hergé constam ainda duas outras obras: "Totor, C.P. des Hannetons" (1926), um ingénuo precursor de Tintin, e "Popol et Virginie chez les Lapinos" (1934), um western animalista, mais curioso do que interessante.

Pedro Cleto, Jornal de Notícias, 03/03/2003


   

sábado, 8 de março de 2003

O século XX, vinte anos depois.

 Magazine Artes, 1 de Março de 2003

O século XX, vinte anos depois. [no 20.º aniversário da morte de Hergé]

João Paulo Cotrim

Duas décadas passaram sobre as manchetes que anunciaram a morte do autor do herói mais popular da linguagem do século. As complexas personagens Hergé e Tintin estão ainda vivas. Para o melhor e o pior.

Muitas páginas. Não, não somos escravos do nosso tempo, mas ele o nosso chão, aquele onde mergulhamos raízes e crescemos. Andei meses, muitos meses com o Tintin na América, versão brasileira. Desconfio que aprendi a ler com ele, que senti vertigens ao acompanhar o herói entre arranha-céus de Chicago, que descobri o valor da cultura indígena, que naquelas páginas comecei a detestar o capitalismo selvagem. Muitos heróis-do-bem depois, reaprendi a ler a amizade em Tintin no Tibete. Gostava de um dia pressentir amigos em perigo e correr para os salvar enquanto descubro misteriosas e longínquas paragens e culturas, nas quais acabo por me render à simpatia do suposto inimigo... Nestas páginas é possível experimentar o gozo de ver o subjectivo nas imagens (quase) objectivas, os múltiplos conteúdos de um quadradinho apenas, a relação entre as páginas, o rigor da planificação e a síntese do desenho. Em As Jóias de Castafiore conhecemos o exacto valor que um pequeno nada pode valer, bola de neve que chegará a ser acção de uma operática arquitectura mental. As personagens hão-de ganhar corpo para além do tique, a casa fazer-se palco, a tecnologia assumir um belo papel secundário, para no fim contar, antes de tudo, a gargalhada.

Uma biografia. Georges Prosper Remi Remi morreu com 76 anos deixando em herança Tintim, personagem popular entre as populares, a liderar um grupo (Milou, Haddock, Dupont e Dupond, etc) que atravessou o século e respectivas obsessões, que definiu uma gramática da linguagem do folhetim gráfico, que tornou o planeta mais pequeno com as suas viagens e exotismos. Mais do que uma obra, Tintin é um fenómeno: dedicaram-lhe ensaios filosóficos, centenas de livros, alguns romances e outras tantas pinturas e esculturas, milhares de páginas de jornais, baptizaram a partir das suas aventuras planetas e doenças e sítios. Pierre Assouline, director da revista Lire, traçou densamente, em Hergé, o retrato de um homem para além do mito, sem esquecer as suas zonas obscuras. Adoptando a divisa «toda a convicção era uma prisão», o belga Hergé, que guardou o seu nome próprio para uma vocação de pintor que acabou sendo apenas a de coleccionador, carregou fantasmas pesados como o desconhecimento da identidade do seu avô paterno, provavelmente um membro da alta aristocracia belga; ou os últimos dias da mãe num hospício; a sua má relação com crianças e incapacidade física para ter filhos; as longas e profundas depressões ou o período de colaboracionismo com a imprensa alemã durante a segunda guerra mundial. Para este seu biógrafo, apenas um entre tantos, o “pai” de Tintin foi vaidoso e generoso, mais oportunista que colaboracionista, tão dilacerado quanto obstinado e ambicioso, afinal, um individualista sempre sob influência. «Muitos são os pontos que unem Hergé e Tintin», diz Assouline. «São ambos produtos típicos da classe média, mas o que os separa também é notável. O repórter mete-se em tudo o que não chamado. Tem o carácter, o temperamento, o instinto de Hergé, mas sem as suas ideias. E depois tem um cão, ao passo que Hergé só gosta da companhia de gatos.».

Um álbum-biografia. Setenta e tal anos depois do nascimento de Tintin é o seu autor quem se torna personagem de bd, segundo o traço claro de Stanislas e a investigação rigorosa de Bocquet e Fromental. A ideia é boa, o estilo apropriado e o tom, embora de homenagem, está longe da pieguice habitual, pelo que o conjunto resulta interessante. É um retrato íntimo e impressionista, que não esconde os lados obscuros do mestre da “linha clara”. A partir de momentos marcantes, vão-se somando as características que fizeram de Georges Remi o célebre Hergé (da fundadora e duradoira amizade com Tchang ao encontro com Andy Warhol), e de Tintin um fenómeno universal (desde 1930, quando o actor que incarnava o repórter foi recebido em loucura pela cidade de Bruxelas, no simulado regresso de um périplo pelo País dos Sovietes).

Quatro revistas. A actualidade tem revisitado o olhar de Tintin sobre a ciência (Science & Vie especial: «Tintin chez les Savants»), a geografia (número especial da revista Geo, agora reeditado em álbum), a banda desenhada (número especial da revista (A Suivre), agora reeditado pela Casterman) e até do seu reflexo entre nós (revista Quadrado, n.º 1, Vol. 3, Janeiro 2000) – primeiro país de língua não francesa a publicar as aventuras do repórter de popa que não escreveu uma linha, usava calças de golfe e nunca cruzou uma mulher. Excepto a que cantava: “Ah, rio de me ver tão bela neste espelho.”

Tintin na América, 62 pp a cores, Verbo

Tintin no Tibete, 62 pp a cores, Verbo

As Jóias de Castafiore, 62 pp a cores, Verbo

Hergé, Pierre Assouline, 828 pp, Folio, 1998

As Aventuras de Hergé, Bocquet, Fromental, Stanislas, 64 pp a cores, Mais BD, 2003

https://arquivo.pt/wayback/20050701145416/http://www.bedeteca.com/index.php?pageID=recortes&recortesID=729

Copyright: © 2003 Magazine Artes; João Paulo Cotrim

quinta-feira, 16 de dezembro de 1999

Hergé: fascista ou aventureiro?

O QUE é mais intrigante acerca de Georges Rémi, universalmente conhecido por Hergé, não é tanto a pessoa, mas o «fenómeno» à volta da sua pessoa, sobretudo a sua persistência e recorrência. Embora em momentos concretos determinadas biografias possam ser foco de atenção, chegando mesmo a ser «moda», as coisas acabam por se definir, esclarecer, «arquivar». Com Hergé, não.

Desde a criação de Tintin, cíclica e repetidamente vêm à baila, como um fantasma, as mesmas questões, as mesmas estereotipadas interrogações e/ou acusações. Qual a sua ideologia, se foi ou não fascista, racista, anticomunista, colonialista, etc. A mais recente manifestação disso é a anunciada discussão sobre o assunto na Assembleia Nacional francesa, promovida pelo «Club des parlementaires tintinophiles».

E, no entanto, se, com base na infindável bibliografia sobre Hergé, incluindo declarações do próprio (e sem esquecer a obra), quisermos de facto saber qual a sua ideologia, qual o seu pensamento político, e formos honestos, só há uma posição possível: não sabemos.

Podemos saber, com alguma aproximação, quais os seus princípios, valores, os meios em que se inseria preferencialmente, alguns dos amigos, o seu posicionamento sobre acontecimentos históricos graves que marcaram o nosso século. Para lá disso, são juízos de valor sobre determinadas atitudes.

Como explicar então esta recorrência praticamente única, esta permanente reabertura do «processo», este movimento pendular entre a admiração pela obra, a simpatia pelas personagens e a condenação ou pelo menos suspeição sobre o homem? É tão difícil responder como penetrar no íntimo do próprio Hergé. E o «mistério» talvez comece por passar por aí. Hergé foi de facto um homem discreto. Todos os testemunhos apontam para a fina inteligência, o «charme», o trato delicado. Mas também para a sua reserva que era mais do que timidez. A sua firme ambição. A consciência do seu valor, da obra que queria construir, da carreira que queria realizar e em que se queria realizar. E ainda da sua solidão de criador, das suas dúvidas, angústias e depressões. E da sua sinceridade mistificante, se tal é possível. Uma simplicidade em que de algum modo acreditaria, tendo por detrás uma complexidade que não queria revelar. Que acharia que tinha o direito de não revelar, fossem as suas ideias, fossem os mecanismos e meandros do seu processo criativo. E assim como a fala foi dada ao homem para esconder o seu pensamento, Hergé também por mais de uma vez baralhou as pistas.

A riqueza de valores humanos que Tintin simboliza e a natural identificação que provocou em sucessivas gerações talvez tenham, mais do que criado a convicção ou a expectativa, exigido algo a que o seu «pai» correspondesse integralmente, que o criador fosse tão perfeito como a criatura. Como aceitar então que também ele é humano, na circunstância e nas contradições?

Mas talvez seja o «tribunal da esquerda», no fundo, que não deixe arquivar o processo, não perdoando a Hergé os pecados originais e fundadores das duas primeiras aventuras de Tintin (Sovietes, 1929/30, Congo, 1930/31) e o facto de não ser de esquerda. Uma análise global e uma atenção despreconcebida à evolução verificada levarão a conclusões algo diversas, sem excluir episódios, quer da vida quer da obra, menos edificantes.

Os vectores fundamentais que orientaram a sua vida talvez se possam condensar em três: escutismo, amizade e construção de uma obra pessoal e intransmissível (mesmo que com a colaboração «anónima» de outros, de E.P. Jacobs ao Estúdio Hergé). A acrescentar mais algum, seria um prematuro, e progressivamente acentuado, céptico desencanto, e consciência do irrisório (de que Les Bijoux é a quintessência), e uma pouco falada aproximação à busca da serenidade própria da filosofia oriental, patente no Tintin au Tibet.

Hergé iniciou a sua obra (a par da qual teria uma importante obra gráfica nos anos 20 e 30) em 1925, com 18 anos, criando no ano seguinte o seu primeiro herói significativo, Totor, não por acaso um escuteiro. Em 28, no «Sifflet», ensaiava as primeiras BD com balões. E em Janeiro de 29, data que agora se comemora, Tintin partia então para o País dos Sovietes (onde poderia ter encontrado o Quim e o Manecas se tivesse nascido... 10 anos antes).

Esqueçamos, por hoje, a vastidão da restante obra e os outros heróis e debrucemo-nos um pouco sobre essa história inicial, antes de um breve percurso pelos restantes 22 álbuns da colecção das Aventuras de Tintin, que, além da uniformização geral, foi sofrendo intervenções «cirúrgicas».

Com uma certeza: se excluirmos os dois primeiros e os dois últimos álbuns, os restantes 19, com uma ingenuidade aqui, uma fragilidade acolá, formam no conjunto uma das mais fascinantes obras do nosso século. Um universo paciente e genialmente construído que nos continua a espantar e encantar - e vale sempre a pena descobrir ou redescobrir - pela qualidade e solidez de concepção das histórias, pela infinita riqueza de dados e de pormenores sobre o nosso tempo e o nosso imaginário, pela efectiva clareza narrativa, pela galeria de personagens e a sua recorrência (entre as quais o delirante português Oliveira da Figueira, tão simpático que a sua veia de fala-barato se reconverte de vendedor em contador de histórias para salvar Tintin), que acentua a sensação de familiaridade e cumplicidade, pelo enraizamento político sublimado e desmistificador de todos os poderes, pelo fascinante convite à viagem, com uma geografia que na BD só encontra paralelo em Corto Maltese, pela inventividade linguística, pelo respeito pelas diversas culturas e a solidariedade entre os povos, pela nobreza de carácter de Tintin, símbolo de coragem, desprendimento, generosidade, virtudes e valores autênticos, com uma dimensão humana e humanista - Coração Puro, como lhe chamam os monges tibetanos -, tudo pontuado por um fino e essencial sentido de humor.

Esta época fundadora pode ser dividida em duas fases - antes e depois de Tchang, isto é, da formação e descoberta não planeada de um herói e de uma linguagem, até à construção consciente de um universo. As primeiras aventuras de Tintin são as que mais reflectem o ambiente ideológico e social em que se integrava o jornal «Vingtième Siècle», onde Hergé trabalhava e por cujo suplemento infantil, «Le Petit Vingtième», criado dois meses antes, Hergé era responsável.

Inspirado num mundo de coisas em que se destaca o cinema cómico burlesco americano, as histórias vão sendo feitas dia a dia, ou semana a semana, utilizando «gags» e uma virulência em que a consciência das implicações e o respeito pelo próximo ainda não foram assumidos. E, no entanto, é sabido o peso que o director do jornal, Abbé Wallez, teve na génese e nos destinos iniciais de Tintin.

Há uma clara intenção de cruzada católica anticomunista e missionária. Daí que Hergé se veja constrangido a enviar o seu herói ao Congo Belga antes dos EUA. Mas rapidamente o herói vai fugir ao destino apologético que lhe querem imprimir, defender os valores cristãos, no seu sentido mais nobre, discreto, profundo e interiorizado. Tintin parte então para a Rússia com um objectivo predefinido: mostrar as iniquidades do regime soviético. Só que, apesar das leviandades e ingenuidades de construção, Hergé vai basear-se no livro, com grande difusão na época, Moscou sans Voiles, de Joseph Douillet, cônsul belga na Rússia czarista e na URSS.

Algumas das cenas mais contundentes, como as fábricas a fingir que trabalham, os votos sob a ameaça das armas, a miséria, os alimentos dados apenas aos que se confessam comunistas, saem directamente das páginas de Douillet - e na crueza dos factos eram basicamente verdadeiras ou verosímeis. Hoje sabe-se que as atrocidades do regime soviético estiveram muito para lá do imaginável, ou mesmo do inimaginável. Mas as abundantes denúncias, entre as quais este primeiro Tintin se integra, estavam do lado errado da História, e quem as fazia era inapelavelmente reaccionário.

Hoje, a visão é outra, mas os «reaccionários» continuam a sê-lo. Para quando a clarificação da História é acompanhada de uma palavra de justiça sobre os que viram na altura o que tantos e tão responsáveis não viram, não quiseram ver, ou fingiram não ver? E, no entanto, uma década depois, seria a vez de Hergé não ver, não querer ver, ou fingir não ver, embora Tintin visse.

Assim, além da pacificação sobre a memória e o passado de Hergé neste aspecto, Tintin au Pays des Soviets, agora objecto de uma nova reedição pela Casterman, fica sobretudo como a obra fundadora da construção da personagem e o domínio progressivo da linguagem. E as razões da sua não adaptação às 62 páginas a cores, como aconteceu a todos os outros até à Guerra, balançará sempre entre um certo complexo pelas críticas de que foi alvo e a consciência de que era uma obra ainda muito incipiente apesar da sua importância. No final, uma luminosa ideia de «marketing» iria começar a consolidar o que tinha muito de brincadeira: o encenado «regresso» de Tintin da Rússia, em carne e osso, com a chegada à estação de Bruxelas (e que é como acaba o livro!), surpreenderia pela popularidade já adquirida.

Tintin au Congo é o outro pilar da «lenda negra» que pairou sobre Hergé - embora mais tarde, pois na altura as histórias foram recebidas com entusiasmo e sem grande contestação -, agora devido à questão do racismo. É óbvio que Hergé ainda está na fase burlesca, e aceita passivamente a visão paternalista do bom pretinho, mas que não exclui a simpatia, numa posição que não divergia muito da maioria dos portugueses da altura - não é por acaso que no «Papagaio» (cuja estreia mundial não francófona ocorrera com Tintin na América do Norte) a aventura chamar-se-á Tintin em Angola. A obra posterior mostraria claramente que se há «gags» infelizes e povos vistos com simpatia e outros com antipatia, o humanismo, a concórdia, o interesse e respeito pelos diversos povos é o que emana e fica das leituras, não havendo sentimentos racistas subjacentes.

Em Tintin en Amérique a solidez começa a afirmar-se, embora a construção ainda misture várias histórias e preocupações numa só - e Hergé começa a baralhar os dados ao denunciar o capitalismo, aos defender os índios. Tutankhamon paira sobre Les Cigares du Pharaon, mas é a Índia, as seitas, os «complots» que nos fascinam, um percurso paralelo à Rota da Seda, incluindo o Mar Vermelho do autêntico Henry de Monfreid, e a «família» começa a constituir-se: os Dupondt, Rastapapoulos, Oliveira da Figueira.

Um dia, ao saber-se que Tintin ia à China, um jovem artista chinês a estudar na Bélgica com uma bolsa, Tchang Tchong Jen de seu nome, aparece a Hergé para o ajudar a documentar-se e a não ofender com estereótipos os sentimentos do seu povo. É a primeira e grande revolução, quer estética quer ética. Será um dos álbuns mais politizados, tomando claro partido pela China contra o invasor imperialista japonês. E um dos mais belos. E em que a amizade com Tchang arrasará quaisquer leituras sectárias e unívocas. É no Lotus Bleu que Tintin verdadeiramente nasce.

L'Oreille Cassée vai confirmar a justeza no caminho já definitivamente encontrado por Hergé. Aventura/perseguição alucinante, é das que melhor sintetizam toda a série, pela transposição de factos reais (a guerra do Grande Chaco = Grand Chapo = Grand Chapeau, o traficante de armas Bazaroff, que existiu...), pela importância etnográfica, pela denúncia das ditaduras e o desprezo pela vida humana, pelo jogo de aparências, falsidades e mistificações, pelo irrisório da busca se é a cobiça que a move.

L'Ile Noire, entre mitos ancestrais, falsários e novas tecnologias, ficará marcada por uma terceira versão dos anos 60, que retira toda a poesia à aventura. Devia ser reintroduzida na colecção a primeira versão a cores. A Guerra está à porta, e num espantoso jogo de aproximação entre ficção e História, Le Sceptre d'Ottokar simbolizará o «Anschluss», denunciando na primeira versão a preto e branco mais claramente os fascismos da Europa Central, e na da colecção normal todos os totalitarismos sintetizados pelo ditador Musstler (MUSSolini+HiTLER), com uma maior balcanização daquela que é, para lá do contexto político, uma das grandes criações de Hergé - o País da Sildávia, com a sua história, língua, tradições... e a entrada tonitruante da Castafiore.

O fim do «Petit Vingtième» implicará a interrupção de Au Pays de l'Or Noir, que só reaparecerá uma década depois e será objecto de várias versões. Le Crabe aux Pinces d'Or denuncia ainda nos anos 30 os traficantes de droga, mas poucas obras terão transmitido com tanta força o fascínio do deserto e da estética árabe, nesse percurso sob o signo da sede, ou não nos trouxesse ele a fabulosa figura do Capitão Haddock. É a primeira história publicada no «Le Soir (volé)» (controlado pelos alemães) e a última com álbum a preto e branco antes da adaptação uniformizadora à cor.

L'Étoile Mystérieuse é a aventura neutral por excelência (a começar pelo grupo de cientistas, em que se inclui um português), aparentemente fora da terrível realidade do momento. Mas mesmo dando-se o benefício da dúvida a Hergé, que o lamentaria, aquilo que noutro contexto (lido hoje) seria uma denúncia da alta finança simbolicamente representada por um judeu, sem que tal represente todos os judeus, em 1942 foi profundamente lamentável. O «pecado» de Hergé passa muito mais por aí do que pelas discussões entre direita e esquerda. Mas o que fica é a angústia, o profundo mal-estar, o ambiente de pesadelo que torna este álbum um dos mais inesquecíveis, por imagens como a da aranha, as maçãs gigantes, etc. A sua importância histórica viria, porém, do facto de ser o primeiro que, depois das tiras no jornal, foi directamente publicado em álbum com as consagradas 62 páginas.

E embora só alguns tenham autoridade moral para denunciar, e embora «Le Soir (volé)» não fosse dos mais agressivamente germanófilos, e embora seja legítimo procurar o ganha-pão, e embora se tivesse verificado o apelo ao regresso feito pelo rei que ele tanto venerava, Hergé privilegiou, de facto, a consolidação da sua carreira, a segurança, mesmo que isso implicasse um determinado grau de colaboracionismo. Não activo nem convicto, mas pragmático. Hergé, que não é um extremista, procurou sempre conciliar o que para muitos é inconciliável: uma distância crítica sobre as ideologias e os fanatismos a par de amizades (que nunca abandonará) predominantemente de direita e mesmo de extrema direita, algumas das quais se revelarão claramente pró-alemãs. Mas se ele, não renegando a família ideológica e sociológica da direita, não deu esse passo, será honesto afirmar que só não o fez por timidez ou que o fez «em espírito»?

A relação com o rexismo (fascismo belga) é disso exemplar. Hergé conheceu o futuro líder do movimento, Léon Degrelle, ainda nos anos 20, no «XXe Siècle», de quem ficou amigo, chegando a fazer ilustrações para a editora Rex. Mas quando o movimento se radicaliza, Hergé afasta-se. Quando é convidado a passar para o jornal do movimento, recusa. Segundo testemunho da própria Germaine, a primeira mulher, que fora secretária de Abbé Wallez, das raras vezes que Hergé a proibiu de algo foi de ir a um comício rexista.

É ainda em plena Guerra que Hergé vai não só adaptar às 62 páginas a cores a maior parte dos álbuns iniciais (com a decisiva colaboração de Jacobs), mas, em dois dípticos seguidos, solidificar a série no seu conjunto. Daí que eu as interligue já com as aventuras que se seguirão no pós-Guerra, apesar das peripécias que rodearão a passagem de Les 7 Boules de Cristal para Le Temple du Soleil. É que esta vai ser uma das histórias inaugurais de uma revista que marcará profundamente a BD belga e europeia - «Tintin» -, cujo responsável artístico inicial será precisamente Hergé. Ora para isso ser possível, para Hergé ter o atestado de civismo apesar da colaboração no «Le Soir (volé)», é porque foi defendido por resistentes como Raymond Leblanc, o impulsionador da nova revista, e por figuras morais como Jacobs. E por muito que admirassem Tintin, tê-lo-iam feito se Hergé fosse nazi/fascista?

Le Secret de La Licorne e Le Trésor de Rackham le Rouge. É não só a aventura em estado puro - e a história de maior sucesso do conjunto - mas a busca das raízes, seja nos antepassados seja no encontro de um espaço que acolherá toda a «família» - que, no essencial, agora se completa com a entrada fulgurante de Tournesol, sem esquecer a reabilitação de Nestor. E são incomparáveis as cenas em que o Capitão se identifica com o Cavaleiro de Hadoque. Les 7 Boules de Cristal e Le Temple du Soleil renviam para o fascínio das civilizações pré-colombianas como símbolo já não das nossas raízes pessoais, mas civilizacionais, a nostalgia de um mundo perdido, esotérico e honrado. E, mais uma vez, a amizade.

Au Pays de l'Or Noir é o mundo do petróleo e do conflito israelo-árabe, mas também o deserto, a cultura e os desentendimentos árabes, é o «sheik» de quem ficará amigo, mas é uma história sobre a qual pesam as vicissitudes por que passou, reforçadas pelas sucessivas alterações descontextualizadoras; é também a intervenção inenarrável de Oliveira da Figueira, e é o «gag» genial da inclusão do Capitão Haddock, que, na primeira versão incompleta, ainda não existia... Objectif Lune e On a Marché sur la Lune é o culminar verniano e brilhante de uma das muitas preocupações e atenções de Hergé que perpassam por toda a obra - a ciência, documentada antevisão de uma das sagas mais simbólicas da fé do Homem nele próprio, desmistificada pelo humor e pela poesia da imponderabilidade.

L'Affaire Tournesol mergulha-nos de novo nas angustiantes tensões do nosso tempo, em ambiente de Guerra Fria, e homenageia a Suíça que muitas vezes foi a tranquilidade acolhedora para as crises existenciais de Hergé. Coke en Stock são ainda os conflitos político-económicos do nosso tempo, os problemas do Médio-Oriente, os interesses inconfessáveis, a denúncia (que continua actual 30 anos depois!) da permanência da escravatura, é a síntese de toda a série, e é a descoberta fascinante de Petra mesmo antes de a saber nomear.

Tintin au Tibet, realizado na altura de um período difícil em que Hergé se separaria de Germaine para ir viver com Fanny, é o cume da série. Não no sentido de ser a única obra-prima, pois há mais, mas porque o simbolismo da montanha corporiza de facto algumas das linhas de força de toda a obra, na amizade e na busca de uma espiritualidade que só a pureza oriental e em particular budista/tibetana pode transmitir. Realizado premonitoriamente no mesmo ano da ocupação chinesa, o espantoso rigor etnográfico e documental transmite um acrescido fascínio e convida à solidariedade.

Vol 714 pour Sydney, publicado quatro anos depois da Castafiore, em 66, ainda tenta abrir outras pistas de reflexão sobre alienações do nosso tempo, ainda traz novas personagens, mas a desaceleração criativa é evidente, e sobretudo o desenho e o humor sofrem contaminações empobrecedoras. Ainda é um álbum com o seu encanto, mas já é de algum modo exógeno à obra.

Tintin et les Picaros, penosamente concluído quase uma década depois, tem interesse pela confirmação do cepticismo sobre os poderes políticos, reclamem-se eles de que ideologia for, mas apesar do potencial fascínio da revisitação de espaços outrora míticos, é já a falta de fôlego que impera. Nada adianta à série - não valeu a pena tanto esforço para substituir as calças à golfe por uns banais jeans. Mais prometedora, porém, era a história que ficou inacabada, Tintin et l'Alph-Art, passada nos meios da arte e dos falsários, tanto mais que Hergé era um grande apreciador e coleccionador de pintura contemporânea.

É tempo, pois, de deixar Hergé em paz, com os seus segredos e os seus valores, as suas fidelidades e infidelidades, as suas cumplicidades e as suas contradições, a sua solidão e a sua genialidade consciente. E retomarmos, entusiasmadamente e de coração puro, a leitura da obra, profundamente enraizada no seu e nosso tempo, progressivamente «descronologizada», perenemente intemporal.

Texto de JOÃO P. BOLÉO / Expresso, 16/01/1999

Há uma clara intenção de cruzada católica anticomunista e missionária. Daí que Hergé se veja constrangido a enviar o seu herói ao Congo Belga antes de o levar aos Estados Unidos


quinta-feira, 2 de dezembro de 1999

Edição nacional da primeira história do herói de Hergé é lançada hoje: “Tintim no País dos Sovietes” em português

Desta vez é mesmo certo: “Tintim no País dos Sovietes” tem a sua primeira edição completa em língua portuguesa e em álbum, depois de uma edição parcial na revista “Tintim” no princípio da década de 80.
A aventura que há quase 71 anos lançou o jovem repórter pelos caminhos da aventura e da fama é lançada hoje pela Verbo em Lisboa.
No ano em que apagou as velas do seu 70º aniversário, a primeira aventura do jovem repórter criado por Hergé, “Tintim no País dos Sovietes”, é lançada em Portugal. A iniciativa é do editor português da série, a Verbo, que apresenta o álbum esta tarde na Livraria Bertrand das Amoreiras, em Lisboa.
A partir de hoje, constitui o 23º título da colecção a chegar às mãos dos leitores portugueses, encabeçando a lista integral das aventuras da série. Ao contrário de outros episódios publicados muito cedo pela imprensa portuguesa, quase em simultâneo com o respectivo aparecimento europeu, este “Tintim no País dos Sovietes” tem uma história menos feliz para contar. Só no início da década de 70 — muito provavelmente em 1972 — é que o segundo número do fanzine “Saga”, editado pelo ABC Cineclube, divulga 11 pranchas da banda desenhada, numa edição amadora de pouca qualidade. Uma década depois, foi a vez da edição portuguesa da revista “Tintim” tentar publicar a mesma história. As primeiras pranchas surgem no número 12 (15º ano), de 31 de Julho de 1982, sem merecerem qualquer chamada de capa. A aventura interrompe a sua publicação com a da própria revista alguns meses mais tarde, naquele que foi o seu último número, com data de 2 de Outubro.
O álbum que agora sai para os escaparates apresenta a história original, a preto e branco e com o grafismo “tosco” em que os admiradores menos informados terão alguma dificuldade em reconhecer os tradicionais personagens de Hergé. Isto acontece porque esta foi a única aventura do personagem que o seu autor nunca quis submeter a qualquer intervenção narrativa ou estética. Mais ainda, durante décadas recusou-se a aceitar a sua comercialização normal por razões que se prendem, em grande parte, com a circunstância de a história transportar dentro de si uma poderosa carga político-ideológica que a transformou, para todos os efeitos, num panfleto anti-comunista. Esta “clandestinidade” só foi contrariada por umas quantas edições piratas que foram surgindo, por essa Europa fora, à revelia do autor e do seu editor de sempre, a Casterman. Hergé acabaria por autorizar, em 1973, a republicação do álbum (reeditado de novo, em “fac-símile”, no ano de 1981 com uma tiragem de 100 mil exemplares), posto de novo à venda em Janeiro passado para assinalar os 70 anos do aparecimento de Tintim. É a este “currículo” atribulado que a história aos quadradinhos deve a aura lendária e mítica que se lhe colou para sempre.

Viragem em 1928
Na “tentativa biográfica” publicada no número especial da revista “(À Suivre)” evocativa da morte de Hergé, em Abril de 1983, Pierre Sterckx conta que a viragem decisiva na obra do artista ocorre em 1928. Hergé descobre através de jornais mexicanos enviados para Bruxelas pelo correspondente do “XXème Siècle” (editado na Bélgica) a melhor banda desenhada da época — Krazy Kat, Bringing up Father, The Katzenjammer Kids. Ficou aqui selado o próximo passo do autor: uma verdadeira BD e não mais um mero texto suportado por imagens.
Nos primeiros dias de Janeiro de 1929 o “Petit Vingtième”, suplemento juvenil daquele jornal, termina a publicação de “L’Extraordinaire Aventure de Flup, Nénesse, Poussette et Cochonnet”. E é na mesma edição que surge um discreto desenho com uma extensa legenda anunciando a chegada dos novos personagens — Tintim e Milou.
Em fundo, as cúpulas russas. Em primeiro plano, um jovem de perfil, com uma cabeça redonda, nariz saliente, grandes sobrancelhas e cabelo rebelde caído para a testa. Calça sapatos enormes e usa um fato de golfe aos quadrados. Na legenda: “Acompanhem, a partir da próxima quinta-feira, as extraordinárias aventuras de Tintim, repórter, e do seu cão, Milou, ao País dos Sovietes. A foto acima, uma das últimas que nos foram enviadas, mostra-os a passear pelas ruas de Moscovo sob o olhar desconfiado de um camarada-cidadão-polícia-bolchevista”.
Hergé entrega duas pranchas por semana, articulando “gags” e situações durante 69 episódios semanais, sem saber verdadeiramente até onde a narrativa o levará e ao seu herói. Até 9 de Maio de 1930 o repórter belga vai mostrar toda a “verdade” sobre o “milagre soviético”. Tintim deixa atrás de si um rasto de atentados, prisões e perseguições antes de entrar em Moscovo. Observa depois a situação nos campos. Percorre as estepes e regressa de avião a Berlim. Com a recompensa de um criminoso que entrega à justiça, o herói compra um carro desportivo para regressar a Moscovo. Acaba metido num comboio que se dirige a Bruxelas, onde é recebido em apoteose. Malfeitorias do bolchevismo
A escolha da Rússia soviética como local da aventura é do padre Wallez, director do “Vingtième Siècle”, um jornal católico e visceralmente anti-comunista. O propósito é “pôr os jovens leitores ao corrente das malfeitorias do bolchevismo”, como sublinha Benoît Peeters em “Le Monde d’ Hergé”. Hergé aceita.
Sem a operação de cosmética a que outras aventuras foram submetidas, “Tintim no País dos Sovietes” é uma banda desenhada datada. Mas se o leitor conseguir esquecer por um momento o desenho ingénuo e “primitivo” e o enredo vacilante, talvez consiga vislumbrar o primeiro acto de invenção da BD segundo Hergé, para usar uma expressão feliz de Peeters. Os balões e outros signos da moderna BD europeia nascem um pouco aqui. E a própria história é um belíssimo exemplo da metamorfose e crescimento que o herói e o seu criador vão sofrendo ao longo da narrativa. O estilo e a personalidade gráfica de Hergé afirmam-se quadradinho a quadradinho, prancha a prancha, ao ponto de já não haver muito do Tintim que partira de Bruxelas no atrevido personagem que termina a sua epopeia, na mesma cidade, 138 pranchas depois.
© 1999 Público