quinta-feira, 25 de maio de 2023

Rita Falé

 


Sketch Lab, 2021



https://www.behance.net/rfale2696



Sketch Lab


No final de 2021, por ocasião da exposição Hergé, patente na Fundação Calouste Gulbenkian, teve lugar o «Sketch Lab – BD em acção!», uma oficina de banda desenhada em três sessões, orientada por Marc Parchow e João Mascarenhas.

Ao longo dos três momentos desta oficina, que se desenvolveu entre Novembro e Dezembro de 2021, viajámos pelo universo de Tintin e por outras grandes influências da banda desenhada, desafiando os participantes a experimentar as técnicas, linguagens e processos da arte de contar histórias e criar personagens em banda desenhada.

Podem descarregar e ler aqui o trabalho da Rita Falé:

Tintin na Gulbenkian da Rita Falé, Parte 1 (140 descarregamentos)

Tintin na Gulbenkian da Rita Falé, Parte 2 (135 descarregamentos)

https://qualalbatroz.pt/sketch-lab/


João Mascarenhas é autor de Banda Desenhada e criador d’O Menino Triste, Marc Parchow é o seu editor. 

segunda-feira, 22 de maio de 2023

O que Aprendi com Tintim - Rui Ramos

Segundo parece, a memória, quando lhe dá para se desligar, começa pelas aquisições mais recentes. Não me inquieta demasiadamente esse encadeamento das trevas. Um dia, voltarei a saber apenas o que aprendi com Tintim: estará assim ressalvado o mais fundamental, e muito do acessório. Não digo isto para fazer de Tintim o que não é. É apenas uma banda desenhada. No mesmo sentido em que Great Expectations é apenas um romance, Die Walkure apenas uma ópera, ou La Régle du Jeu apenas um filme. Dir-me-ão que Tintim é leitura para jovens. Direi que o mesmo se passa com alguns grandes livros escritos para os adultos do século XIX e que entretanto se tornaram obras para os mais novos. O centenário do seu autor, Hergé, obrigou muita gente a falar de Tintim no passado mês de Maio. Aqui, vou perguntar apenas isto: que educação deu Tintim aos leitores que no século XX lhe esgotaram 240 milhões de álbuns em dezenas de línguas? Respondo apenas por mim: a mais adequada para quem acabou a ver o mundo de uma perspectiva conservadora liberal.

Arte e informação

Tintim ao lado de Burke, Tocqueville e Hayek? Estarei a brincar? Foi Roger Nimier, em 1959, o primeiro a tentar intelectualizar Tintim. Anos depois, a tarefa passou a ser levada muito a sério por aquela parte da humanidade que precisa de fazer mestrados e doutoramentos. É bom não esquecer o que temos: páginas com bonecos dentro de quadradinhos e texto em balões. Os livros contam aventuras em sítios exóticos, por entre uma profusão de efeitos cómicos e piadas clássicas - a minha favorita é dita por Dupond em Explorando a Lua: «estamos na lua, onde nunca a mão do homem pôs o pé» (há uma variante em Tintim e os Pícaros, quando o professor Girassol se abstém de cumprimentar um coronel latino-americano: «recuso-me a apertar uma mão que espezinha os direitos humanos»).


O mundo de Tintim é, em primeiro lugar, o mundo da imprensa. Tintim é um repórter. As suas histórias, entre 1929 e 1944, foram estreadas em jornais diários de Bruxelas. Surgiram assim rodeadas e impregnadas de actualidade noticiosa. Frequentemente, notícias de jornais servem de rastilho para a acção, como no começo de As Sete Bolas de Cristal. Os livros de Tintim passam em revista o noticiário do século XX, desde a luta entre árabes e judeus na Palestina (o No País do Ouro Negro), até à espionagem durante a Guerra Fria (O Caso Girassol), ou à especulação sobre os OVNIS (Voo 714 para Sidney). A documentação foi sempre uma obsessão do seu autor. Tal como os escritores realistas à Zola, Hergé viajou num cargueiro para preparar o Carvão no Porão (também conhecido, em português, por Perdidos no Mar). O gosto da informação, e não apenas o do romanesco, é o ponto de partida de Tintim.

Hergé era um grande artificie. Mais: era uma equipa de artificies. Edgar Pierre Jacobs, Bob de Moor, Roger Leloup, Jacques Martin ajudaram-no a desenhar e, sobretudo, a redesenhar, porque os livros foram constantemente retocados (há três versões da Ilha Negra). O desenho de Tintim tornou-se uma imagem de marca: tudo está delineado nitidamente, sem jogos de luz e sombras (à Milton Caniff), numa mistura perfeita de realismo e de caricatura. Um álbum de Tintim é uma iniciação à arte de contar histórias através de sequências de imagens. Nunca ninguém o fez melhor do que Hergé. Cada página termina em suspenso, puxando para a seguinte. A acção dramática principal, protagonizada por Tintim, está sempre habilidosamente entrelaçada com uma diversão humorística, da responsabilidade dos seus comparsas (Milú, Dupond e Dupont, Haddock, Girassol). Cada personagem tem tiques e linguagem próprias. A capacidade de criar um ambiente é inultrapassável: basta lembrar a cena da trovoada em As Sete Bolas de Cristal. As invenções narrativas são prodigiosas: em O Segredo do Licorne, seguimos simultaneamente a luta do cavaleiro Haddock com piratas no alto mar e Haddock a contar a história no seu apartamento. As Jóias da Castafiore são a suprema demonstração de uma arte: um livro de aventuras onde nada se passa.

Sabedoria

Tintim começou como um produto do interesse do movimento católico pelas revistas ilustradas para a juventude nas décadas de 1920 e 1930: foi um padre (Norbert Wallez) quem encomendou Tintim e Milú para o suplemento juvenil de um diário católico de Bruxelas, e foi graças a outro padre (Abel Varzim, estudante na Bélgica) que Portugal se tornou o primeiro país do mundo a traduzir Tintim, em 1936. Todos esses padres viram em Tintim um bom escuteiro católico. Nas suas primeiras aventuras, fez o que esperavam dele: denunciou o bolchevismo na Rússia (1930), censurou o capitalismo na América (1932) e recomendou a colonização em África (1931). Mas ele chegou a ser o perfeito cavaleiro cristão? Tintim nunca teve família, o que chocou o público católico belga - e obrigou Hergé a inventar Jo, Zette e Jocko como compensação. «Não sabemos quem ele é, donde veio», notou Pol Vandromme em 1959, no primeiro e melhor livro dedicado a Tintim (Le Monde de Tintin). Também nunca o vemos amoroso. Nem a lutar pelo seu país, ou a rezar a um deus. Que mundo é o de Tintim? Um mundo onde o desejo e a obrigação não encontram os termos através dos quais a sociedade consente que mais facilmente se explicitem: o sexo, a família, a religião ou a nação. É um mundo de total liberdade individual, mas também de total envolvimento e responsabilidade. Os compromissos de Tintim são voluntários, o que não quer dizer que não sejam intensos: pode ir aos Andes ou aos Himalaias resgatar um amigo. É o mundo do escuteiro católico? É também o mundo do ponto de vista de uma imaginação que poderia ser classificada como liberal.

Em histórias que cobrem quase todo o noticiário do século XX, só um tema não aparece. E não por acaso, o maior de todos: a II Guerra Mundial. Entre 1939 e 1945, Hergé escreveu cinco álbuns - nenhum deles refere a guerra. A atmosfera de tensão do Verão de 1939 surge, vagamente, em No País do Ouro Negro, começado em 1939, interrompido em 1940, e só concluído em 1951. Mas a única menção directa da guerra está na capa de um livro inglês em O Caso Girassol, de 1956. Este silêncio tem uma razão biográfica. Oficialmente, Hergé foi durante anos um belga francófono, de uma família de classe média, autodidacta em quase tudo, criado entre as salas do cinema mudo e o escutismo católico (foi nas revistas dos escuteiros que se estreou como desenhador), e dado a excessos de trabalho e depressão. Nos últimos anos, porém, os seus biógrafos desenterraram outro Hergé. Alguém que deveu o conhecimento da banda desenhada americana a um amigo chamado Léon Degrelle, que se tornaria o chefe do partido fascista belga e tenente-coronel das SS. Degrelle viria a reclamar, anos depois, ter sido a inspiração para Tintim. Entre 1940 e 1944, Hergé publicou as novas aventuras de Tintim no Le Soir, o órgão da “nova ordem”, na Bélgica ocupada pelos alemães. Sem vocação histriónica e demasiado artista, nunca arriscou a militância pública dos amigos fascistas. Mas estava suficientemente alinhado com eles para ser preso em Setembro de 1944, depois do fim da ocupação. A vingança dos antifascistas varreu os seus amigos mais próximos: vários foram condenados à morte e a pesadas penas de prisão. Hergé teve o nome na “lista negra”. Sobreviveu graças ao enorme sucesso das suas bandas desenhadas durante a guerra. Alguns antifascistas, empenhados em arranjar um negócio editorial lucrativo, interessaram-se pela fundação de uma revista Tintin (1946). Naturalmente, mexeram os necessários cordelinhos para eximir o principal autor da nova publicação a um processo por colaboracionismo.

É verdade que em O Ceptro de Ottokar, de 1939, Tintim enfrentou a conspiração de um partido fascista, chefiado por um Musstler (Mussolini+Hitler), para tomar o poder numa monarquia dos Balcãs. Mas também é verdade que Tintim veio do lado dos que perderam a guerra em 1945. Que educação esperar então destes livros? Não será esta literatura uma perigosa fonte de corrupção para juventudes democráticas? Além do escrúpulo artístico, uma coisa resgatou Hergé: a perseguição que sofreu em 1944-1945. Essa experiência obrigou-o a enfrentar os limites de tudo e de si próprio. Não renegou amizades. Talvez nem tenha mudado de ideias. Mas aprendeu a não esperar muito do mundo. A desconfiança é talvez o traço característico de Tintim. Nas suas histórias passa uma aragem impiedosa de iconoclastia - o quadro final de Tintim e os Pícaros tira as consequência; mais radicais do eterno retorno na política. Como explicou Hergé, Tintim não luta pela ordem estabelecida nem por uma ordem a estabelecer, mas apenas pelos amigos e por aqueles que precisam de ajuda. É costume fazer derivar a sabedoria de uma intrínseca grandeza de alma ou do acerto das companhias escolhidas. É uma ideia ingénua. Às vezes, a sabedoria depende disto: do azar de ter ficado do lado errado e do preço pago por isso.

Nos livros de Tintim, encontro a mistura mais acertada das três principais qualidades de um conservador liberal: a vontade de saber muito, a determinação de acreditar em muito pouco e a convicção de que nenhum ideal humanitário nos deve fazer esquecer as pessoas reais que estão à nossa volta. A mistura de curiosidade e cepticismo assegura-nos que a disponibilidade para nos deixarmos maravilhar não acabará na prostração dogmática, nem que a resistência às ortodoxias resultará em secura e cinismo. O princípio da proximidade garante-nos que a vontade de fazer bem não conduzirá a abstracções separadas dos que realmente existem - isto é, à vontade de fazer mal. Agrada-me pensar que, graças a Tintim, foram estas as primeiras coisas que aprendi e as últimas que esquecerei.

Rui Ramos, Revista Atlântico, Julho de 2007

Tintim não é só Banda Desenhada Rui Ramos vê na personagem de Hergé os primeiros sinais de uma predisposição conservadora liberal. Uma viagem pessoal mas transmissível à personagem mais simbólica da BD do século XX.

ilustração Lucy Pepper / Revista Atlântico nº 27

terça-feira, 16 de maio de 2023

O misterioso anfitrião

 


«O misterioso anfitrião» - Paródia às personagens Cuto e Anita pequenita, em homenagem ao autor espanhol Jesús Blasco - Almanaque 1984 de O Mosquito

Desenhos de Augusto Trigo

http://colecionadordebd.blogspot.com/2014/03/augusto-trigo.html

quinta-feira, 4 de maio de 2023

J. Mascarenhas

vinheta de uma inédita bd a antecipar o próximo livro de BD de Fernando Cabrita e João Mascarenhas. O nome do livro será "A Norte de Sul Nenhum".

Aproveitamos também para relembrar um comentário interessante de JM feito em 2007 no blog de Geraldes Lino. Aqui no blog há outras entradas dele como autor de bd e não só:

«Hergé, enquanto homem e autor, revelou imensas facetas, umas mais claras, outras nem por isso, mas sobretudo o que se deve enaltecer é a Obra que nos deixou.

Só tenho pena que a malta mais nova não conheça o suficiente de Hergé: é que muitas das vezes limitam-se a dizer "Eh, pá não gosto!" Hergé é também ele uma personagem digna de um estudo aprofundado, e neste capítulo a literatura existente é bem vasta. Penso que se a maior parte das pessoas soubesse o que esteve por detrás do criador, do homem, da obra, a viriam com outros olhos.

Contudo não é necessário esse estudo aprofundado para se gostar de Hergé (que não é apenas TinTin).

Já agora, estou-me a lembrar de um artigo escrito por Vasco Granja, e que publicámos no CyberExtractus #0, cujo título era "Hergé não sabia desenhar", que recomendo vivamente, exactamente como início de uma mais profunda pesquisa. É que à medida que se vai lendo sobre Hergé, vão-se abrindo outras portas laterais, com outros autores e referências, que o Lino tão bem aqui indica, e que são também elas dignas de uma leitura mais atenta.»

João Mascarenhas, Setembro de 2007

domingo, 30 de abril de 2023

Tim-Tim Em Portugal


A primeira aventura de “Tintin” a ser publicada em Portugal chama-se “Tintin na América”, iniciada no nº. 53 (16/4/36) da revista “O Papagaio” e terminando no seu nº. 110 (20/5/37). Nesse mesmo ano e nessa revista inicia-se outra história, “Os Cigarros do Faraó” desde o nº. 115 (24/6/73 ao nº. 161 (12/5/38). A partir daqui, e com escassas semanas de intervalo, as aventuras sucedem-se num ritmo uniforme. “O Lótus Azul” aparece no nº. 166 (16/6/38) e acaba no nº. 205 (16/3/39). “Tintin em Angola” (Congo) é a 4ª aventura a ser publicada dos nºs. 209 (13/4/39) ao 244 (13/12/39). A sequência continua com “A Orelha Quebrada” dos nºs. 247 (4/1/40) ao 298 (26/12/40).

Todas estas histórias têm uma grande vantagem em relação a muitas outras publicadas posteriormente, já que são as originais, conforme foram concebidas por Hergé, ainda que a cores.

Não tinham ainda sofrido as reduções nos desenhos, mutilações e alterações nos cartuchos que, durante a guerra e por falta de papel, se viram obrigados a efetuar na Bélgica, quando da respectiva publicação em álbuns. O próprio Hergé, alterou muitos textos, desenhos e até personagens das suas histórias, conforme os álbuns iam sendo editados. As histórias “Tintin na América”, “Os Cigarros do Faraó” e “Tintin no Congo” foram redesenhadas totalmente. “O Lótus Azul” sofreu alterações nas suas primeiras quatro pranchas.

No entanto, deveremos salientar que a revista “O Papagaio” também cometeria muitas atrocidades às aventuras publicadas., começando logo pela primeira página da aventura de “Tintin na América”, onde uma vinheta é suprimida… A sequência da paginação também foi significativamente alterada.     

“A Ilha Negra” aparece nos nºs. 300 (16/1/41) ao 359 (26/2/42), e também é redesenhada mais tarde e “Tintin no Deserto” (O Caranguejo das Tenazes de Ouro), surge nos nºs. 366 (16/4/42) ao 426 (10/6/43). Nesta última, um preto da história que açoita o Capitão, é substituído por um branco, mais tarde. Do nº. 435 (12/8/43) ao 540 (16/8/45) é apresentada aos leitores portugueses “A Estrela Misteriosa”, que sofrerá posteriormente poucas alterações… Redução dos cartuchos na primeira prancha, novos desenhos de interiores (vinhetas mais cheia de pormenores) e muitas onomatopeias. A última aventura de “Tintin” que “O Papagaio” apresenta será “O Segredo de Licorne”, surgida no nº. 617 (6/2/47) e terminando no nº. 679 (15/4/48).

A partir de finais de 1948 e até princípios de 1949, será um pequeno interregno em que as aventuras de “Tintin” deixarão de aparecer em Portugal, até ao seu ressurgimento na revista “Diabrete”.

Naquela revista e embora as aventuras da nossa personagem, não tenham sido publicadas nas suas páginas, logo de início, (por haver contrato com a revista “O Papagaio”, que as continuará a apresentar), aparecerão ali as aventuras de “Quick et Flupke”, partir do seu nº. 14 (5/4/41).

“Tintin” viverá as suas aventuras nas páginas desta revista a partir do seu nº. 594 (9/3/49), com “O Ceptro de Ottokar” que terminará no nº. 701 (18/3/50). A segunda aventura a aparecer será “O Tesouro do Cavaleiro Rosa” (Le Trèsor de Rackham Le Rouge)). Nesta história, o mapa do tesouro é a única diferença que encontrámos. Será alterado em reedições futuras. O nº. 809 (31/3/51) traz – nos “As Sete Bolas de Cristal” que terminará no nº. 887 (29/12/51), data em que a revista se extingue.

Segue-se o “Cavaleiro Andante”, que logo no seu primeiro número (5/1/52) aparece com “O Templo do Sol”, que continuará a partir do nº. 27, no suplemento da mesma revista, “O Pajem”. Terminará aqui também no nº. 86 (22/8/53). “Tintin na Lua” é apresentado no “Cavaleiro Andante” do nº. 94 (17/10/53) até ao 153 (4/12/54). A continuação “Caminhando na Lua”, surge do 154 (11/12/54) ao 209 (31/12/55). 

Pela segunda vez, mas já rectificada, temos “Tintin na América” desde o nº. 210 (7/1/56) ao 269 (23/2/57). “Tintin e o Caso da Arma Secreta” (L’Affaire Tournesol), surge do nº. 270 (2/3/57) ao 331 (3/5/58). Neste mesmo ano e também pela segunda vez, temos “O Lótus Azul” do nº. 340 (5/7/58) ao 401 (5/9/59). Finalmente temos o nº. 405 (3/10/59) com os “Mercadores de Ébano” (Coke en Stoke) que terminará no nº. 466 (3/12/60).                                                                                                               

Carlos Gonçalves

A BD vista por Carlos Gonçalves – cinquenta e dois

(...)

Em 1961 e enquanto o “Cavaleiro Andante” dava os seus últimos passos com[o] revista, era lançado “O Foguetão”, um jornal de grande formato (infelizmente de pouca aceitação junto dos seus leitores, devido às suas dimensões, idênticas às do tablóide), mas onde não faltariam, desde o seu primeiro número, as aventuras do nosso jovem repórter “Tintin”, desta vez na língua original, mas com a respectiva tradução para português em rodapé. Era “Tintin no Tibet”. [Tim-Tim no Tibet (Tintin no Tibete) (do #1 de 4/5/1961 ao #13 de 27/7/1961) (que continua na revista «Cavaleiro Andante») ] Seria uma tentativa de criar novos leitores. No seu interior teria um suplemento intitulado “Bip-Bip” criado graficamente por Fernando Bento e que mais tarde transitaria para o “Cavaleiro Andante”, quando “O Foguetão” acabou prematuramente no seu número 13.

Com o fim da revista “Cavaleiro Andante”, Simões Muller resolveria apostar numa revista de formato mais pequeno, com um maior número de páginas (o formato de “O Foguetão” tinha-o marcado), que surgirá em 1962 com o nome de “Zorro” e onde mais uma vez, um ano depois do seu início, voltam de novo as aventuras de “Tintin” em “As Jóias de Castafiore”, para gáudio dos seus leitores. Ainda que não surgissem mais aventuras da nossa personagem, na sua falta seriam publicadas as aventuras de “Jo, Zette et Jocko” em “O Manitoba Não Responde” a partir do seu nº. 89 (20/6/64) e mais “A Erupção de Karamako”.

Ainda antes de o “Zorro” acabar em 1966, Muller ocupava-se em paralelo dos destinos de um suplemento do jornal “Diário Notícias”, intitulado “Nau Catrineta” e aparecido em 14 de Dezembro de 1963. Embora não surgissem ali as aventuras de “Tintin”, o que só aconteceria mais tarde no nosso país, na revista com o seu próprio nome em 1968, o leque das histórias apresentadas era de origem franco-belga. “Nau Catrineta” acabará em finais de Setembro de 1975 e a partir daqui cessam as funções de Muller como director de revistas infantis.

Carlos Gonçalves

A BD vista por Carlos Gonçalves – cinquenta e um


quarta-feira, 26 de abril de 2023

Luís Diferr


As Aventuras do Capitão Granja no Mundo da Banda Desenhada

Em Maio de 2003 as Edições ASA publicaram um álbum de homenagem a Vasco Granja, coordenado por Jorge Magalhães e Maria José Pereira. Nele participei com uma BD de 8 pranchas, precedido do texto que se segue (quase na íntegra), reeditado em renovada homenagem a esse homem amável e prestável como raros.

Para mim, Vasco Granja ficará sempre e sobretudo relacionado com a revista Tintin – a edição portuguesa dessa revista que, a partir de Junho de 1968, abriu ao adolescente que eu era as portas de um novo mundo, com a promessa semanal de renovadas e palpitantes aventuras. A revista, com a diversidade que progressivamente apresentou, foi fundamental para fortalecer a decisão daquele adolescente de se tornar autor de BD. Ofereceu-lhe também amplo material que serviu de base para a aprendizagem autodidacta, a única possível, desse meio de expressão. Naquela época, era irrisório o número de álbuns publicados em Portugal ou importados.

Nesta descoberta, o trabalho de Vasco Granja foi para mim de notável relevância. Seja através de textos próprios ou traduzidos de fontes diversas, Granja mostrou o que se passava, para além do palco, No Mundo da Banda Desenhada: nos bastidores, com entrevistas aos autores e, do lado da plateia, com reportagens e opiniões críticas sobre produções que não se restringiam, muito pelo contrário, à revista Tintin. Assim, quando no verso de uma capa se publicou uma entrevista com William Vance, seguida nos números seguintes de outras com Albert Weinberg, Joël Azara, Hermann, etc., foi uma revelação! Finalmente os autores ganhavam um rosto! Vasco Granja teve, ele mesmo, oportunidade de fazer algumas entrevistas.

Especialmente importante para mim foi a que realizou com Edgar P. Jacobs, por motivos óbvios: foi Jacobs, mais do que qualquer outro, que fez (e ainda continua a fazer) aquele adolescente desejar ser autor de BD. Essa entrevista, refiro-a expressamente na banda desenhada que se segue.

Foi assim que, agora, me ocorreu e ganhou corpo a ideia de inserir a homenagem a Vasco Granja no quadro mais vasto de uma revista e de uma época retratada nas suas crónicas, e de relacionar tudo isso com a minha própria obra - nomeadamente “As Aventuras de Herb Krox”, que constituem uma referência directa ao modelo franco-belga. Assinale-se, aliás, que Granja promoveu, no Festival de Banda Desenhada da Amadora de 1992, um colóquio sobre “O Homem de Neandertal”.

Destes pressupostos nasceu a BD “Corina Alpina Bonina (...)”, a preto e branco, como eram as crónicas de Granja numa revista quase integralmente a cores. Propositadas e creio que evidentes são as reminiscências de episódios das Aventuras de Tintin ou de Blake e Mortimer. Justa é também a homenagem, vejamo-la assim, ao amigo José Ruy que, à sua maneira gentil, retratou o grupo de gente que, em Portugal, nos tornou possível a revista Tintin: ele próprio, Vasco Granja e Diniz Machado, entre outros.

Fica aqui a minha homenagem e o meu agradecimento a esse homem singular. Obrigado, Vasco!"

Luís Filipe Diferr (blog Peróla de Cultura)

As Aventuras do Capitão Hackrox e Jinjin
Corina Alpina Bonina No MuNdO da bAnDa DeSeNhAdA  (2003) - Por Luis Diferr


Nov./1991 - Álbum "O Homem de Neandertal", 1º volume de "As Aventuras de Herb Krox" 

Dezembro/1998 - Álbum "Os Deuses de Altair", 2º volume de "As Aventuras de Herb Krox".  

Maio/2003 - "Corina Alpina Bonina" no livro "Vasco Granja, uma vida... 1000 imagens"

Em Novembro de 1995 foi publicado o 1º número do fanzine LADY BLITZ FAN-CLUB e um ano mais tarde saiu o 2º e último número.