quinta-feira, 2 de dezembro de 1999

Edição nacional da primeira história do herói de Hergé é lançada hoje: “Tintim no País dos Sovietes” em português

Desta vez é mesmo certo: “Tintim no País dos Sovietes” tem a sua primeira edição completa em língua portuguesa e em álbum, depois de uma edição parcial na revista “Tintim” no princípio da década de 80.
A aventura que há quase 71 anos lançou o jovem repórter pelos caminhos da aventura e da fama é lançada hoje pela Verbo em Lisboa.
No ano em que apagou as velas do seu 70º aniversário, a primeira aventura do jovem repórter criado por Hergé, “Tintim no País dos Sovietes”, é lançada em Portugal. A iniciativa é do editor português da série, a Verbo, que apresenta o álbum esta tarde na Livraria Bertrand das Amoreiras, em Lisboa.
A partir de hoje, constitui o 23º título da colecção a chegar às mãos dos leitores portugueses, encabeçando a lista integral das aventuras da série. Ao contrário de outros episódios publicados muito cedo pela imprensa portuguesa, quase em simultâneo com o respectivo aparecimento europeu, este “Tintim no País dos Sovietes” tem uma história menos feliz para contar. Só no início da década de 70 — muito provavelmente em 1972 — é que o segundo número do fanzine “Saga”, editado pelo ABC Cineclube, divulga 11 pranchas da banda desenhada, numa edição amadora de pouca qualidade. Uma década depois, foi a vez da edição portuguesa da revista “Tintim” tentar publicar a mesma história. As primeiras pranchas surgem no número 12 (15º ano), de 31 de Julho de 1982, sem merecerem qualquer chamada de capa. A aventura interrompe a sua publicação com a da própria revista alguns meses mais tarde, naquele que foi o seu último número, com data de 2 de Outubro.
O álbum que agora sai para os escaparates apresenta a história original, a preto e branco e com o grafismo “tosco” em que os admiradores menos informados terão alguma dificuldade em reconhecer os tradicionais personagens de Hergé. Isto acontece porque esta foi a única aventura do personagem que o seu autor nunca quis submeter a qualquer intervenção narrativa ou estética. Mais ainda, durante décadas recusou-se a aceitar a sua comercialização normal por razões que se prendem, em grande parte, com a circunstância de a história transportar dentro de si uma poderosa carga político-ideológica que a transformou, para todos os efeitos, num panfleto anti-comunista. Esta “clandestinidade” só foi contrariada por umas quantas edições piratas que foram surgindo, por essa Europa fora, à revelia do autor e do seu editor de sempre, a Casterman. Hergé acabaria por autorizar, em 1973, a republicação do álbum (reeditado de novo, em “fac-símile”, no ano de 1981 com uma tiragem de 100 mil exemplares), posto de novo à venda em Janeiro passado para assinalar os 70 anos do aparecimento de Tintim. É a este “currículo” atribulado que a história aos quadradinhos deve a aura lendária e mítica que se lhe colou para sempre.

Viragem em 1928
Na “tentativa biográfica” publicada no número especial da revista “(À Suivre)” evocativa da morte de Hergé, em Abril de 1983, Pierre Sterckx conta que a viragem decisiva na obra do artista ocorre em 1928. Hergé descobre através de jornais mexicanos enviados para Bruxelas pelo correspondente do “XXème Siècle” (editado na Bélgica) a melhor banda desenhada da época — Krazy Kat, Bringing up Father, The Katzenjammer Kids. Ficou aqui selado o próximo passo do autor: uma verdadeira BD e não mais um mero texto suportado por imagens.
Nos primeiros dias de Janeiro de 1929 o “Petit Vingtième”, suplemento juvenil daquele jornal, termina a publicação de “L’Extraordinaire Aventure de Flup, Nénesse, Poussette et Cochonnet”. E é na mesma edição que surge um discreto desenho com uma extensa legenda anunciando a chegada dos novos personagens — Tintim e Milou.
Em fundo, as cúpulas russas. Em primeiro plano, um jovem de perfil, com uma cabeça redonda, nariz saliente, grandes sobrancelhas e cabelo rebelde caído para a testa. Calça sapatos enormes e usa um fato de golfe aos quadrados. Na legenda: “Acompanhem, a partir da próxima quinta-feira, as extraordinárias aventuras de Tintim, repórter, e do seu cão, Milou, ao País dos Sovietes. A foto acima, uma das últimas que nos foram enviadas, mostra-os a passear pelas ruas de Moscovo sob o olhar desconfiado de um camarada-cidadão-polícia-bolchevista”.
Hergé entrega duas pranchas por semana, articulando “gags” e situações durante 69 episódios semanais, sem saber verdadeiramente até onde a narrativa o levará e ao seu herói. Até 9 de Maio de 1930 o repórter belga vai mostrar toda a “verdade” sobre o “milagre soviético”. Tintim deixa atrás de si um rasto de atentados, prisões e perseguições antes de entrar em Moscovo. Observa depois a situação nos campos. Percorre as estepes e regressa de avião a Berlim. Com a recompensa de um criminoso que entrega à justiça, o herói compra um carro desportivo para regressar a Moscovo. Acaba metido num comboio que se dirige a Bruxelas, onde é recebido em apoteose. Malfeitorias do bolchevismo
A escolha da Rússia soviética como local da aventura é do padre Wallez, director do “Vingtième Siècle”, um jornal católico e visceralmente anti-comunista. O propósito é “pôr os jovens leitores ao corrente das malfeitorias do bolchevismo”, como sublinha Benoît Peeters em “Le Monde d’ Hergé”. Hergé aceita.
Sem a operação de cosmética a que outras aventuras foram submetidas, “Tintim no País dos Sovietes” é uma banda desenhada datada. Mas se o leitor conseguir esquecer por um momento o desenho ingénuo e “primitivo” e o enredo vacilante, talvez consiga vislumbrar o primeiro acto de invenção da BD segundo Hergé, para usar uma expressão feliz de Peeters. Os balões e outros signos da moderna BD europeia nascem um pouco aqui. E a própria história é um belíssimo exemplo da metamorfose e crescimento que o herói e o seu criador vão sofrendo ao longo da narrativa. O estilo e a personalidade gráfica de Hergé afirmam-se quadradinho a quadradinho, prancha a prancha, ao ponto de já não haver muito do Tintim que partira de Bruxelas no atrevido personagem que termina a sua epopeia, na mesma cidade, 138 pranchas depois.
© 1999 Público