terça-feira, 21 de maio de 2019

Tintin – A Aventura na Lua – O Conhecimento Científico e a Banda Desenhada


Por João Mascarenhas

Resumo – “Ce qui est admirable, ce n’est pas que le champ des étoiles soit si vaste, c’est que l’homme l’ait mesuré.” Anatole France

A Aventura na Lua de Tintin, publicada inicialmente no jornal belga “Tintin” sob o título “On a Marché sur la Lune” e, mais tarde, em dois álbuns “Objective Lune” e “On a Marché sur la Lune”, é talvez a obra de Banda Desenhada que mais conhecimento científico encerra na sua génese. Baseando-se em obras de referência à altura, Hergé fez-se assessorar de alguns dos maiores especialistas na área. De tal modo exacta em termos científicos, que uma observação atenta dos elementos presentes nas várias vinhetas permite determinar com exactidão diversos detalhes, como por exemplo o tempo de viagem, velocidades do foguetão, o percurso das várias personagens sobre o solo lunar ou altura do ano em que terá decorrido.

Pretende-se com este trabalho, mostrar a cientificidade e o rigor científico colocado na génese e realização desta aventura, questões que poderão passar despercebidas ao leitor menos atento, baseando-me em referências bibliográficas que inspiraram Hergé (de Méliès a von Braun), assim como em trabalhos posteriores de vários investigadores.

Introdução

A aventura na Lua de Tintin, mais concretamente o segundo álbum Explorando a Lua, faz parte das minhas primeiras memórias da Banda Desenhada, já que foi um dos primeiros livros que o meu pai me ofereceu quando aprendi a ler. Sempre me fascinaram todas aquelas vinhetas em que Hergé desenhou o foguetão lunar e as paisagens do nosso satélite natural. De tal forma que ao longo dos anos recolhi literatura que outros autores foram escrevendo a propósito do tema, no sentido de saber mais sobre esta aventura que tanto me tocou. Este bíptico de álbuns (ou a aventura original) até nem consta das preferências da maior parte dos leitores de Tintin, argumentando alguns com o espaço claustrofóbico do foguetão onde se desenrola grande parte da aventura, ou com a falta de uma trama mais complexa como se verifica em vários outros álbuns. Contudo, fui-me apercebendo que na génese da aventura na Lua de Tintin, estavam conhecimentos científicos muito profundos, tendo-se feito Hergé rodear de bons conselheiros em áreas específicas do Conhecimento, de forma a tornar credível esta narrativa. Não se tratava de fazer ficção científica, mas sim uma narrativa científica plausível, à qual Hergé misturou o seu humor literário e visual.

A Génese

Hergé, visionário, tinha já decidido nos finais dos anos 1940 que a Terra era demasiado pequena para o seu herói, e achou que ele seria o primeiro terráqueo a pisar a Lua. A primeira versão da aventura, de que foram desenhadas apenas 15 vinhetas em 1948, tinha argumento concebido pelo jornalista e pintor Jacques Van Melkebeke e a consultoria científica do cronista científico do Le Soir, Bernard Heuvelmans (L’Homme parmis les étoiles). Nesta versão, desenrolada nos E.U.A., o vilão, o Professor Hyppolyte Calys (A Estrela Misteriosa) vendia os planos secretos do foguetão lunar de forma a financiar a compra de um diamante gigante para a actriz Rita Hayworth. Não sendo propriamente uma trama à la Hergé, este rapidamente a abandonou, conservando apenas as cenas do whisky a flutuar pela cabine da nave e a de Haddock, embriagado, a flutuar fora do foguetão.

As Referências Gráficas e Bibliográficas

Hergé assume então a autoria do argumento da viagem de Tintin à Lua, cruzando o Atlântico deixando os E.U.A. e centrando-se nas montanhas da Sildávia, país imaginário dos Balcãs. A história final tem por base científica vários livros que fizeram parte da biblioteca de Selenologia que Hergé foi formando, tendo este afirmado que “ Creio ter lido ou visto tudo o que toca este tema”. Livros como L’Homme parmis les étoiles de Bernard Heuvelmans, Entre Terre et Ciel do professor Auguste Picard, L´humanité devant la navigation interplanétaire de Albert Ducrocq, Notre amie la Lune de Pierre Rousseau fizeram parte dessa biblioteca. Neste último, Hergé pôde consultar mapas das crateras lunares, em especial o do circo Hiparco. Mas o livro do então presidente da Sociedade de Aeronáutica Francesa, Alexandre Ananoff, de título L’Astronautique, Figura 1, tem o papel principal.

Figura 1 – Capa do livro “L’Astronautique” de Alexandre Ananoff 

Este livro figura inclusivamente, de forma discreta, na capa da revista Tintin de 11 de Maio de 1950. São deste livro as descrições da fissão nuclear, da produção de plutónio, o carburante do motor auxiliar, do modelo do escafandro espacial, o foguetão, as torres de montagem, do posto de comando do foguetão, Figura 2, do periscópio estroboscópico, das couchettes individuais dos cosmonautas, Figura 3, por exemplo.

Figura 2 – Posto de Comando da astronave, como idealizado por A. Ananoff em “L’Astronautique”

Figura 3 – Posição do astronauta aquando do lançamento do foguetão, segundo A. Ananoff em “L’Astronautique”

Existe um outro livro de 1947 que, embora não seja muito referido na génese da aventura lunar de Tintin, tem nela um papel muito importante: German Research in World War II, de Leslie E. Simon, Figura 4.

Figura 4 – “German Research in World War II”, Leslie Simon

Na sua capa é representado um foguetão tipo bomba voadora V-2, em tudo semelhante ao foguetão que Tryphon Tournesol concebeu. Este livro acaba por ter maior protagonismo na aventura seguinte – O Caso Girassol – onde Hergé o desenha no interior da casa do Dr. Müller (suprimindo contudo a cruz suástica que o avião da capa ostenta), assim como a Figura 69 da página 182, onde aparece uma foto de uma arma ultra sónica em desenvolvimento pelos nazis, Figura 5.

Figura 5 – Figura do livro de Leslie Simon
Em termos gráficos, uma das inspirações de Hergé (e de Bob de Moor, seu colaborador, logicamente), terá sido o trabalho do artista Chesley Bonestell, Figura 6, no que concerne sobretudo às paisagens lunares.

Figura 6 – Ilustração de Chesley Bonestell

O trabalho de Bonestell era vastamente publicado em livros e revistas da altura (e.g. Collier’s Magazine). Ainda em termos gráficos, no início da publicação da aventura na Lua, a capa da revista Tintin belga, a 30 de Março de 1950, homenageia o filme de 1902 de Georges Meliès, Le Voyage dans la Lune.

O Foguetão

O design do foguetão parece ter sido repartido entre as sugestões mais técnicas de Ananoff e a aerodinâmica das V-2 concebidas por W. F. von Braun. Eventualmente, também o trabalho gráfico de Bonestell poderá ter tido alguma influência, já que as suas representações de astro naves também se assemelham muito às das bombas voadoras alemãs.

Na disposição do interior do foguetão é evidente a influência de Ananoff, ao qual Hergé escreveu uma carta solicitando-lhe algumas informações sobre esses (e outros) aspectos. O motor nuclear auto propulsor a que Ananoff se refere no seu livro, e que inclusivamente o director científico do Comissariat à l’Energie atomique, L. Kowarski, se refere na sua intervenção de 17 de Abril de 1946 no Congresso Nacional da Aviação Francesa, como “pilha atómica” (uma vez que a energia das reacções atómicas pode ser controlada) destinada à propulsão por reacção, é também a solução adoptada por Tournesol, embora este não revele praticamente nada sobre ele. Os problemas de materiais apontados por Ananoff e Kowarski, devido às elevadas temperaturas desenvolvidas pela pilha atómica, parecem ter sido resolvidos por Tournesol, ao inventar um novo material à base de silicone – tournesolite – capaz de lhes resistir. Contudo este motor/pilha tem alguns problemas de contaminação ambiental e dos próprios cosmonautas devido aos isótopos radioactivos do combustível, urânio-235 ou plutónio, que Ananoff contorna através de sugestões que também elas são adoptadas no projecto de Tournesol, conforme este explica em Rumo à Lua. A saber, aquando da descolagem e aterragem (ou alunagem) o foguetão é propulsionado por um motor auxiliar à base de combustíveis não-nucleares, anilina e ácido nítrico, segundo Tournesol. Por outro lado, a protecção da cabine habitável da astronave é isolada do motor atómico através de um escudo protector, por exemplo de chumbo. Em Rumo à Lua, a explicação que Wolff dá ao grupo sobre o fabrico do plutónio que servirá de combustível ao foguetão, é, também, obra de Ananoff. Neste mesmo álbum, a validação de todas estas soluções técnicas adoptadas, em particular o bom funcionamento do motor atómico, é realizado pelo teste do foguetão de ensaio, X-FLR 6 (flaire), dando um excelente “aroma” do que estaria por vir.

Os círculos laranja que existem no piso dos vários andares do foguetão são também eles uma “dica” de Ananoff: o “gás carbónico” (dióxido de carbono), como lhe chamava Ananoff, é um produto da respiração, e o seu excesso no ar, pode tornar-se perigoso para o ser humano. Como o dióxido de carbono é mais pesado que o ar, Ananoff sugere no seu livro que sejam colocados dispositivos (os círculos laranja) no piso das astronaves, Figura 2, de forma a este gás ser recolhido, o que Hergé (ou Tournesol) também adopta(m).

Rumo à Lua

Apesar de não serem visíveis quaisquer treinos específicos para o voo espacial, Tintin, Haddock, Tournesol, Wolff e Milu tomam lugar a bordo do foguetão lunar. Todos sabem que o foguetão partiu da base/centro atómico de Sbrodj, na Sildávia. Hergé confidenciou em Abril de 1972, em Nova York, que “Sbrodj não é mais que a cidade de Brod”, na Croácia, Figura 7.

Figura 7 – Localização da cidade de Brod na Croácia

Aliás, isto poderia, em parte, justificar o padrão de xadrez vermelho e branco (idêntico ao escudo nacional deste país) com que Hergé decorou o exterior do foguetão, não fosse a ilustração da capa do livro de Leslie Simon. Ficamos na dúvida. Contudo, a Croácia, ao sul do lago Balaton que se vê claramente na página 61 de Rumo à Lua, parece ser incompatível com a trajectória ascensional do foguetão. Na página 58 de Explorando a Lua, no regresso à Terra, o foguetão parece contudo apontar ao sul do lago Balaton. Esta aparente discrepância é justificada por C.V. Goldwater pelo facto de na obra de Hergé, e por diversas vezes, locais reais trocarem de nome ou de localização. Assim aconteceu e.g. com o castelo de Cheverny que se tornou no castelo de Moulinsart.

A estratégia de voo adaptada por Tournesol é completamente diferente da que a NASA utilizou para as missões Apollo. Nas missões Apollo, a viagem até à Lua durava cerca de três dias. Após o lançamento, a nave era colocada em órbita terrestre e aí era accionado o motor durante alguns minutos de forma a atingir-se a velocidade de escape (11 km/s ou 40.000 km/h) de forma à mesma sair da atracção terrestre. O resto da viagem era realizado de forma balística, ou seja de motor desligado. O motor só voltava a ser ligado perto do destino, de forma a desacelerar o movimento da nave até esta se colocar em órbita lunar. A partir daqui o módulo lunar descia até à superfície da Lua. No regresso, a desaceleração da cápsula era realizada através do atrito da atmosfera terrestre. Este atrito desenvolve altas temperaturas na superfície da cápsula, cerca de 2.700oC, embora no seu interior a temperatura não ultrapassasse os 40oC.

No caso do foguetão concebido por Tournesol, determinados detalhes são suprimidos. Após a descolagem efectuada com o motor auxiliar, que se revela muito violenta, já que leva à perda de consciência dos cosmonautas (o que pode significar acelerações superiores a 6 g), o motor atómico é ligado até cerca de metade do percurso, incutindo ao foguetão uma aceleração constante. Esta aceleração destinava-se a criar um efeito de gravidade semelhante à terrestre, de forma a permitir aos cosmonautas a sua livre deslocação no interior do foguetão de forma semelhante à que fariam na Terra. Quando a velocidade de escape da atracção terrestre é atingida, ouve-se no altifalante do foguetão alguém da base a dizer que o foguetão se encontra a 8.000 km da Terra e que a velocidade é de 11 km/s (Explorando a Lua, página 3) e duas páginas depois a base anuncia a velocidade de 13 km/s. Portanto, não há dúvida de Hergé sobre este detalhe importante, sublinhando-o por duas vezes. A posição adoptada para os lançamentos (e pouso) pelos cosmonautas na aventura de Tintin é a indicada por Ananoff no seu livro e seria, segundo ele, a melhor forma de evitar a “visão negra” resultante das grandes acelerações a que são sujeitos os cosmonautas nestas alturas. A “visão negra” resulta da falta de sangue na cabeça, pelo facto do coração não ser capaz de bombear sangue suficiente de forma a compensar o fluxo para a parte inferior do carpo, quando este se mantém na posição de “sentado”. Este efeito pode levar à perda de consciência, sabendo-se que uma pessoa não treinada poderá suportar acelerações de 5 g, daí o valor de 6 g que acima apontei.

A meio do percurso o motor foi desligado de forma ao foguetão proceder à manobra de inversão, e ligado novamente de forma a travar o movimento até à aproximação da Lua. A viagem de retorno foi em tudo simétrica à de ida. Neste caso foi o motor auxiliar do foguetão e não a atmosfera terrestre, como no caso Apollo, que assegurou a sua desaceleração antes da aterragem.

Nas missões Apollo, a velocidade das naves era elevada nas vizinhanças da Terra e da Lua e mais baixa no percurso intermédio. Contrariamente, o foguetão de Tournesol impulsionado pelo seu motor atómico acelerava constantemente (aceleração igual à gravidade terrestre para o conforto dos cosmonautas) até cerca de meio percurso, onde atingia a velocidade máxima de cerca de 60 km/s ou seja mais de 200.000 km/h! Esta missão realizou o trajecto Terra-Lua em apenas três horas e meia, a uma velocidade média superior a 100.000 km/h. Roland Lehoucq e Robert Mochkovitch, com base nos dados fornecidos na narrativa, chegam inclusivamente a elaborar o plano de voo da viagem com destino à Lua, que de seguida se mostra:

Plano de voo da viagem de ida
EtapaHora TerrestreTempode VooVelocidade do foguetão [km/s]Distância à Terra [km]Distância à Lua [km]Evento
11h 34m0h 00m 00s00376.200Partida
22h 04m 00s0h 30m 00s11,008.000368.200Descoberta dos Dupondt a bordo
32h 06m 49s0h 32m 49s12,6610.000366.200Tournesol, Tintin e Wolf contemplam a Terra
42h 07m 24s0h 33m 24s13,0010.447365.753Base anuncia ”13 km/s”;Dupont corta o motor
52h 09m 24s0h 35m 24s13,0012.007364.193Reinício do motor; Volta da gravidade
62h 14m 24s0h 40m 24s15,9416.348359.852Corte do motor por Haddock
72h 24m 24s0h 50m 24s15,9425.914350.286Regresso do capitão a bordo
83h 13m 46s1h 39m 46s45,00116.171260.029Base anuncia “45 km/s”
93h 39m 17s2h 05m 17s60,02196.579179.621Velocidade máxima; Inversão do foguetão
103h 52m 09s2h 18m 09s52,45240.000136.200Base comunica distâncias (pag.18)
114h 25m 57s2h 51m 57s32,55326.20050.000Base comunica distâncias (pag.18)
124h 47m 28s3h 23m 28s14,01370.2006.000Base comunica distâncias (pag.19)
135h 04m 26s3h 30m 26s9,90375.0001.000Arranque do motor auxiliar
145h 07m 48s3h 33m 48s0376.2000O Foguetão faz a alunagem

Deslumbrado pela visão da Lua, Dupont chama Dupond para a ver. Inadvertidamente, desliga o motor atómico, eliminando assim o efeito da gravidade provocada pela aceleração constante de 1g. Segue-se uma sequência de vinhetas espectaculares, onde podemos ver os elementos da tripulação a flutuar pelo habitáculo do foguetão. Estas cenas são tanto mais incríveis se nos lembrarmos que na altura ainda não tinha havido nenhum voo espacial tripulado que permitisse testemunhar este efeito. Inclusivamente os primeiros voos espaciais (cerca de dez anos depois) dispunham de espaço tão exíguo no interior das naves que era quase impossível ver os astronautas em tais situações. Hergé retoma então a cena da primeira versão da aventura em que o whisky de Haddock (guardado preciosamente no seu Tratado de Astronomia), livre do efeito da gravidade, abandona o copo onde estava e forma uma esfera líquida flutuante, Figura 8.


Figura 8 – Ilustração de “L’Astronautique”, onde se vê o efeito da falta de gravidade sobre os cosmonautas e líquido.
É então que Adonis faz a sua aparição. A visão do asteróide com cerca de 700 m de comprimento parece não ser novidade para Tournesol, já que este o identifica à primeira vista. Adonis existe de facto, tendo sido descoberto em 12 de Fevereiro de 1936 por Eugène Delporte, do Observatoire Royal de Belgique em Uccle, no local onde Hergé tinha a sua residência. Este asteróide pertence à classe dos que potencialmente poderão chocar com a Terra, contudo a sua órbita é bem diferente da narrada em Explorando a Lua. A aparição deste corpo sideral dá azo a uma série de acontecimentos, alguns deles um pouco à revelia das leis científicas. O cruzamento do foguetão com Adonis, parece ter sido (secretamente) preparado por Tournesol, já que o alarme contra asteróides não soa, contrariamente ao que acontece mais tarde com a aparição de um segundo corpo celeste. Digamos que terá sido um bónus que Tournesol ofereceu aos seus companheiros de aventura. Quando aparece, Adonis está a cerca de 60 km do foguetão, já que aparece em face da Lua (da qual se conhece o diâmetro), e se sabe que o foguetão está a cerca de 35.000 km da Lua. Um cálculo trigonométrico permite então determinar esta distância.

Figura 8 – Ilustração de “L’Astronautique”, onde se vê o efeito da falta de gravidade sobre os cosmonautas e líquido. 

É então que Haddock, inebriado pela “leitura do seu Tratado de Astronomia” decide fazer um passeio espacial de retorno a Moulinsart. Uma nota para os fatos espaciais, que são de igual modo “recomendação” de Ananoff. Contudo, Hergé adaptou o capacete, tornando-o completamente transparente, de forma a permitir ver quem se encontra no interior, mesmo quando as personagens são desenhadas de costas. De notar ainda que Hergé segue um pouco na linha de Georges Meliès no tocante ao vestuário dos cosmonautas: além do escafandro e do macacão azul, os vários elementos da tripulação vestem as suas roupas do dia-a-dia. Tournesol anuncia então à base que Adonis tem um novo satélite de nome Haddock. Dada a grande diferença de massa entre o foguetão e o asteróide, Haddock foi atraído para a órbita deste último. Olhando para a órbita de Haddock em torno de Adonis, ela parece ser circular com um raio cerca de duas vezes o tamanho maior do asteróide, logo cerca de 1,4 km. Aqui existe uma gaffe do autor, já que dada a geometria irregular de Adonis, o seu campo gravitacional será forçosamente heterogéneo. Assim, a órbita do capitão deveria ser mais complexa, fruto das variações do campo de gravidade do asteróide. Outra gaffe prende-se com a velocidade a que Haddock se desloca na órbita em torno de Adonis. Esta velocidade pode ser estimada através das leis de Newton, a partir do raio da sua órbita e da massa de Adonis. Esta velocidade é de cerca 10 ou 20 cm/s, ou seja, inferior a 1 km/h. Como comparação poder-se-á referir que alguns satélites artificiais terrestres se deslocam a 8 km/s e a Lua percorre a sua órbita a 1 km/s. A baixa velocidade a que Haddock se deveria deslocar deve-se à baixa gravidade de Adonis (cerca de 20.000 a 50.000 vezes inferior à da Terra – este grau de imprecisão deve-se ao facto de se desconhecer a densidade exacta do asteróide). Assim sendo, o tempo que Haddock levaria a percorrer a meia órbita desenhada na vinheta, era cerca de 8 horas. A própria órbita de Haddock, considerando a massa do asteróide, a proximidade da Terra e outras incertezas, talvez fosse possível, embora muito perto do limite de instabilidade. Compreende-se então que Hergé tenha ignorado as leis da Física, de forma a garantir um mais vibrante relato da cena, que na versão original publicada na revista Tintin n.º 50 de 10 de Dezembro de 1952, envolvia além do capitão e Tintin, também Wolff, todos no exterior do foguetão.

Uma outra gaffe relativa ao resgate do capitão é quando Tintin, preso por uma corda ao foguetão, que voa com o motor ligado perto de Haddock, grita para Tournesol o desligar. Se se tratasse de um automóvel na Terra, o corte do motor, o atrito dos pneus com o solo e a acção dos travões, com certeza que o parariam. No espaço, onde não existe atrito, o foguetão acelera ou desacelera, em função da acção do motor. Quando o motor é desligado, o foguetão mantém-se à mesma velocidade que tinha aquando do corte, o que provocaria um distanciamento deste em relação ao capitão, logo o resgate seria impossível. De facto, o resgate de Haddock poderia ter sido feito com muito mais calma, mas isso com certeza não teria no leitor o mesmo impacto das cenas do álbum.

Uma cena que também foi suprimida para a versão em álbum, foi uma cena que se passa já com o foguetão em fase de desaceleração para a Lua. Cerca das 4h 20m (hora de Sbrodj), e depois de ter cortado um volume imenso de cabelo aos Dupondt, que tinham tido uma recaída do efeito sofrido em No País do Ouro Negro, Haddock pega em todo aquele cabelo e atira-o por uma vigia. O que aconteceu foi que juntamente com o cabelo estava Milou, que assim é atirado “borda fora”. Tintin, apercebendo-se desta situação, debruçou-se perigosamente pela vigia, de forma a conseguir apanhar ainda Milou pela cauda, já que este corria o risco de ir parar não se sabe bem onde. A discussão tem sido “se aquela vigia comunicava directamente com o espaço sideral” ou “se comunicava para um compartimento interior no foguetão”. Apercebendo-se com toda a certeza da ambiguidade das imagens desta cena, Hergé decidiu retirar toda a sequência da versão em álbum.

Alunagem

A representação que Hergé faz da superfície lunar onde o foguetão pousa, é de facto brilhante. Inclusivamente, o autor teve a oportunidade de a observar por telescópio, no Observatório perto de sua casa.

O foguetão pousa então na superfície lunar, bem no centro do circo Hiparco. O local de pouso ficou entre duas crateras, o que sugere que Tournesol poderá ter desenvolvido um potente sistema de navegação, que permitiu ao foguetão não tombar no relevo acidentado, principalmente se nos lembrarmos que a tripulação estava inconsciente.

Tintin tem então a honra de ser o primeiro a pisar o solo lunar, quase vinte anos antes de Neil Armstrong. A chegada fez-se no quarto crescente da Lua, e estando o circo Hiparco situado ao centro da face visível da Lua, à medida que o tempo foi passando, essa região foi ficando cada vez mais iluminada, correspondendo à passagem para Lua Cheia. Este efeito iria beneficiar a tripulação, caso a estadia na Lua tivesse sido a inicialmente programada de quinze dias terrestres. São exactamente as sombras projectadas pelos elementos da tripulação, que permitiu a Yves Horeau elaborar um plano de deslocação dos vários cosmonautas sobre a superfície lunar. Uma descrição detalhada destas movimentações é dada na revista Les Amis de Hergé n.º39 (2004).

Nessa descrição, o percurso de regresso dos Dupondt ao foguetão faz-se por Oeste e não sobre o percurso de ida, que tinha sido por Este. Isto deve-se ao facto de Hergé ter retirado um episódio publicado na revista, em que os Dupondt se perdiam, e ficavam com falta de oxigénio. O capitão e Tintin iam em seu socorro com oxigénio extra. Após a colocação das novas garrafas de oxigénio nos equipamentos dos Dupondt, Dupont, devido ao débito mal regulado do oxigénio, ficou como louco e apoderou-se de um revólver que Tintin (assim como o capitão) trazia num coldre, e aponta-lhe a arma dizendo que vai disparar sobre ele. Felizmente a arma encravou e não provocou danos maiores além do susto. Hergé, além de retirar esta cena aquando da publicação do álbum, “apagou” de igual modo os coldres que Tintin e o capitão traziam à cintura.

O capitão, assim como Milou ou os Dupondt experimentam todos, quando pisam a superfície lunar, o efeito de uma gravidade seis vezes inferior à terrestre, situação sublinhada por Tintin. Aliás, Tintin toma a acção de um pedagogo ao enunciar igualmente a dimensão do disco terrestre, quatro vezes maior que o lunar, quando este último é visto da Terra, e também ao explicar a razão porque não se ouviu o impacto e a explosão de um meteorito contra o solo lunar bem perto deles, dada a ausência de um meio onde o som se pudesse propagar. Mais adianta a diferença desta situação ocorrer na Terra, onde a fricção da atmosfera leva ao rubro e na maior parte das vezes destrói os meteoritos que penetram na atmosfera terrestre, originando as chamadas “estrelas cadentes”.

Tournesol também não deixou de montar alguns aparelhos na superfície lunar, de forma a realizar algumas experiências e medições. Esta actividade ocupa os cosmonautas durante os dias 3 e 4 de Junho, tal como Tournesol escreve no seu diário: “Wolf e eu consagrámos o nosso dia ao estudo dos raios cósmicos e à observação dos planetas mais próximos.” Tirando partido da ausência de atmosfera, Tournesol mede, na manhã de 6 de Junho, a constante das radiações solares (corresponde à potência recebida do Sol por um metro quadrado de superfície) e faz a determinação dos limites do espectro solar no ultravioleta.

A 6 de Junho, três dias após a partida da Terra, Tintin, Haddock, Wolff e Milou partem à descoberta do circo Ptolomeu, situado a cerca de 100 km do local onde estava o foguetão. Apercebendo-se da existência de uma gruta, logo decidem explorá-la. O capitão e Tintin aventuram-se no seu interior. Vislumbram-se estalactites e estalagmites, o que supõe a existência de três elementos para a sua formação: água líquida, calcário e dióxido de carbono. Não existe calcário na Lua, no entanto, quanto à água a história é diferente. Tintin acaba por cair por um precipício no interior da gruta e encontra gelo – água no estado sólido. A sonda espacial Luna Prospector que pousou na Lua em Janeiro de 1998, tem enviado alguns dados que tem alterado o conhecimento dos cientistas acerca da Lua. Um deles é de que a Lua poderá ter até seis biliões de toneladas de gelo nos pólos. Isto é cerca de dez vezes superior ao que anteriormente se estimava. Não se encontrou água directamente, mas encontraram-se traços consideráveis de hidrogénio nos pólos lunares. No nosso sistema solar a presença deste elemento no solo indica a presença de água. Assim sendo, Hergé poderá ter razão. Na figura seguinte pode-se ver uma análise do hidrogénio na superfície lunar, efectuada pela sonda Lunar Prospector.

Finalmente, e após cerca de sete dias na superfície lunar, e Tintin ter lá deixado uma mensagem “destinada a outros homens que, talvez um dia, consigam aqui chegar”, o foguetão abandona a Lua. “E no astro sombrio, no qual voltou a deixar de haver vida, algumas pegadas testemunham que, pela primeira vez, O HOMEM EXPLOROU A LUA”.

Referências Bibliográficas:

On a Marché sur la Lune, Journal Tintin, Bruxelles, 1950-1953
Objectif Lune, Casterman,1953
On a Marché sur la Lune, Casterman, 1954
L’Austronautique, Alexandre Ananof, F.Brouly, J. Fayard et Cie, Paris, 1950
Entre Terre et Ciel, Réalités- Visions d’avenir, Auguste Piccard, Editions D’ouchy, Lousanne, 1946
Notre Amie la Lune, Pierre Rousseau, Librarie Hachette, Paris, 1943
L’Homme parmi les Étoiles, Bernard Heuvelmans, Gérard Delforge, 1944
Hergé, Pierre Assouline, Gallimard, 1998
German Research in World War II, Leslie E. Simon, John Wiley & Sons, Inc, New York, 1947
Mais où est donc le temple du Soleil?, Enquête Scientifique au Pays d’Hergé, Roland Lehoucq et Robert Mochkovitch, Flammarion, Paris, 2002
Les Amies de Hergé, n.29, Juin, 1999
Les Amis de Hergé, n.39, Novembre 2004

Comunicação realizada no dia 23 de setembro de 2011 nas 1.as Conferências de Banda Desenhada em Portugal, realizadas no Institut Français du Portugal, sob organização de Pedro Moura

in Bandas Desenhadas

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Seminário Aberto: Tintin e a Capa-Arte

A conferência reúne as duas mais recentes investigações realizadas pelo designer brasileiro Bruno Porto sobre as capas dos álbuns de Tintin, parte de um contínuo estudo de aspectos do design gráfico na banda desenhada: “The Case of the Rückenfiguren Tintin” (em co-autoria com Ricardo Cunha Lima) é uma análise da escolha incomum de se esconder o rosto do personagem principal nas capas de quatro de seus álbuns, enquanto “Unclear lines” (em co-autoria com André Valente) aponta as discrepâncias entre as capas meticulosamente trabalhadas do personagem por seu autor, o cartunista belga Hergé, e as utilizadas em seu primeiro e último álbuns — o renegado Tintin no País dos Sovietes e o inacabado Tintin e a Alfa-Arte.

terça-feira, 2 de abril de 2019

7 LIVROS QUE MARCARAM A NOSSA INFÂNCIA - Blogue da Bertrand Editora - Somos Livros


“AS AVENTURAS DE TINTIN” (1929-1976), DE HERGÉ

Tintin e Milou são a dupla belga protagonista de grandes viagens e aventuras, que deram origem a dezenas de livros, como “Tintin e os Pícaros”, “As Aventuras de Tintin no País dos Sovietes” ou “Explorando a Lua”.
Portugal foi o primeiro país a publicar as aventuras de Tintin noutra língua que não o francês, através do jornal infantil católico “O Papagaio”, em 1936; e foi também o primeiro país do mundo a publicar a banda desenhada a cores, também por intermédio do mesmo jornal – algo que nem França ou a Bélgica tinham ainda feito.

In https://bertrandptsomoslivros.blog/2019/04/02/7-livros-que-marcaram-a-nossa-infancia/

Cartoon de Pedro Vieira

segunda-feira, 25 de março de 2019

Sabe o que é aquele foguetão gigante do Tintim que está em Carnaxide?


Com a tradução portuguesa de “Objectivo Lua”, o 16.º livro das “Aventuras de Tintim“, editado em 1953, foi um dos mais populares volumes de sempre da série de quadradinhos do cartonista belga Hergé. A obra que explorava a possibilidade de viagens espaciais tinha todos os ingredientes para o sucesso: as personagens já admiradas por milhares de fãs, o mistério do espaço e um incrível foguetão vermelho e branco, que se viria a tornar numa imagem icónica da obra.


Há vários anos que milhares de moradores ou trabalhadores na Grande Lisboa se debatem com uma enorme dúvida existencial: como é que este foguetão do Tintim foi parar à Serra de Carnaxide, em Oeiras?

Claro que não é “o” foguetão, todos sabemos (não custa sonhar). Mas as semelhanças são incríveis, suficientes para fazer estas comparações e encher o Instagram com piadas.

A NiT lançou-se por isso numa missão onde o objetivo não era a Lua, mas igualmente difícil: saber exatamente o que é aquele equipamento; de onde veio, para o que serve, porque ali está, desde quando e, em nome de Milu, por que é tão parecido com o foguetão vermelho e branco dos livros do Tintim.

Não foi fácil, dizíamos. Primeira paragem: junta de freguesia de Carnaxide, o poder mais localizado. Que nos remeteu para a Câmara de Oeiras. Que nos deu algumas respostas, mas nos remeteu para a Direção de Faróis, porque o Marco Geodésico de Carnaxide (o nome aproximado que tínhamos), é afinal um farol, situado num marco geodésico.


E entre estas duas entidades, conseguimos então desvendar o mistério.

Explica-nos a Câmara que o Farol da Mama, Marca da Mama ou Mama Sul é um farol português que se localiza na Serra de Carnaxide, concelho de Oeiras, distrito de Lisboa, a cerca de quatro quilómetros a noroeste do Farol do Esteiro.

O farol, adianta a mesma fonte, consiste num monumento branco com três pés, estando a lanterna instalada numa plataforma elevada.

Juntamente com o Farol da Gibalta e o Farol do Esteiro, estes três equipamentos constituem o enfiamento sul da Barra de Lisboa, que fazem uma triangulação.

A Marca da Mama, onde ele se situa, já existe desde 1857, segundo os registos disponíveis, constituindo a marca posterior da Barra Sul do Porto de Lisboa.

Ou seja: é um farol, instalado num Marco Geodésico. E o que é um Marco Geodésico? São construções cilíndricas, também chamadas de talafes, em formato cónico, que marcam uma posição cartográfica exata. Integram sempre uma rede de triangulação com outros marcos e existem sempre em locais elevados.

Em 1995, o farol no marco foi então iluminado com uma lanterna direcional Tideland e, como estrutura de apoio à navegação, passou para jurisdição da Autoridade Marítima Nacional, operacionalizada pela Direção de Faróis.

Esta entidade oficial ajudou a NiT a unir os pontos que faltavam: o Farol do Marco da Mama está unido ao marco e está em pleno funcionamento, sendo um assinalamento de referência no enfiamento da entrada da Barra de Lisboa.

Sobre o seu aspeto de foguetão de Tintim (que até é recente, mas já lá chegaremos), a Direção de Faróis explica que a grande maioria dos assinalamentos marítimos (faróis, farolins, bóias, balizas) apresentam cores, listas, formas ou padrões que conferem a “conspicuidade da estrutura” para que ela seja vista de forma mais fácil ao longe. 

Mas a entidade assume as semelhanças, ainda que sejam puras coincidências. “A forma atual do farol de facto remete para a imagem que refere, contudo nem sempre teve esta forma. Por vezes existe a necessidade de alterar, substituir ou reconfigurar as marcas de assinalamento devido a vários fatores. Neste caso teve a ver com a construção imobiliária a desenvolver naquele local. Daí a necessidade de elevar a estrutura e alterar a configuração do farol”.

Ou seja, o misterioso aspeto surgiu após umas obras, de mudança de luz e de elevação do Farol, para lhe dar mais visibilidade à medida que a sua área envolvente ganhava cada vez mais urbanizações.

Em outubro de 2010, o Farol da Marca da Mama foi apagado e retirado todo o equipamento luminoso, adianta a Direção. A torre foi então intervencionada e aumentada em 14 metros a partir da plataforma onde estavam montados os equipamentos antigos, totalizando assim uma altura de 13,20 metros. E foi pintada de listras vermelhas. Atualmente encontra-se equipado com uma ótica de LED.

Nos livros de Tintim, a origem do famoso xadrez vermelho e branco do foguetão estava ligada diretamente a uma prática estabelecida pelos engenheiros da NASA para medir os movimentos de rotação durante o lançamento dos seus foguetões, que o livro quis replicar.

Na Serra de Carnaxide, as riscas brancas são meramente decorativas. Infelizmente, o espaço não pode ser visitado.

In NiT

quinta-feira, 21 de março de 2019

Cláudia Ribeiro - A Xangai de O Lótus Azul

Cláudia N. M. Q. Ribeiro
Doutorada em História e Filosofia das Ciências pela Faculdade de Ciências de Lisboa. Mestranda em Estudos Asiáticos na Universidade Católica de Lisboa. Autora do livro “No Dorso Do Dragão” e tradutora do livro “Dao De Jing”. 

Resumo:
O Lótus Azul é a obra de Hergé onde as dimensões históricas, políticas e etnográficas de um país foram mais bem transmitidas. Desde há mais de oitenta anos tem sido a porta de entrada de milhares de crianças (e adultos) para o conhecimento da China e da sua civilização, despertando-lhes amiúde um interesse perene. Nesse sentido, pretendo aqui averiguar a veracidade do retrato de Xangai que Hergé nos oferece. Começo pelos acontecimentos que estiveram na base da elaboração do álbum, nomeadamente a amizade entre Hergé e Tchang Tchong-jen. De seguida, convocando estudos relacionados com a Xangai dos anos trinta, tento apurar o grau de realismo com que a cidade é apresentada, mapeando tanto as suas características urbanas como o contexto socio-político da época. Por fim, analiso o modo – que nada tem de inocente – como Hergé representa os vários grupos étnicos que então habitavam Xangai.

terça-feira, 19 de março de 2019

Figuras de Tintin #70: Dupont marinheiro

Dupont e Dupond estão a bordo do Sirius com uma missão muito particular: proteger Tintin e o capitão Haddock, ao que parece ameaçados pela presença de Máximo Pardal, o antiquário que viram a rondar os arredores do navio. E, como sempre, os polícias não estão com meias medidas. Com o objectivo de se misturarem "discretamente" com a tripulação, escolhem uns fatos de marinheiro... muito diferentes daqueles que vestem os membros da guarnição do Sirius.

A referência da estatueta encontra-se na vinheta D3 da página 14 de "O tesouro de Rackham o Terrível".

Figuras de Tintin #70: Dupont marinheiro, Éditions Moulinsart [distribuído em Portugal pela Altaya], livro de 16 pp. + estatueta + passaporte, 12,99€


sábado, 16 de março de 2019

Figuras de Tintin #68: Haddock alpinista

No Tibete, como em qualquer outro lugar, o capitão Haddock nunca viaja sem o seu whisky. Desgraçadamente, o conteúdo da sua mochila, neste caso dezenas de garrafada sua bebida preferida, parte-se aos bocadinhos ao cair-lhe uma pedra sagrada que saltou de um tsorteng que Haddock decidiu ultrapassar pela direita. E o xerpa Tharkey bem o avisou: estes monumentos devem passar-se pela esquerda, caso contrário os demónios enfurecem-se! Milagrosamente, uma garrafa escapa ao desastre, mas quando ele se prepara para beber um trago, os carregadores impedem-no: o ieti adora álcool e o cheiro pode atrair o monstro até ao acampamento, um risco que não estão dispostos a correr. E tinham razão: o Abominável Homem das Neves acaba por roubar e ver a preciosa beberagem do capitão. O suficiente para desencadear um ataque de fúria.

A referência da figura encontra-se nas vinhetas B1 e B2 da prancha 26 de "Tintin no Tibete".

Figuras de Tintin #68: Haddock alpinista, Éditions Moulinsart [distribuição portuguesa da Altaya], livro de 16 pp. + estatueta + passaporte, 12,99€ 



terça-feira, 5 de março de 2019

O sobrenatural nas aventuras de Tintin

Para além do meu conhecido interesse pela literatura fantástica, particularmente pela literatura de terror – e, dentro desta, mais especificamente ainda pelas narrativas de terror sobrenatural – outras áreas me despertam a atenção desde a juventude, entre elas a das histórias em quadradinhos ou, como passou a ser costume dizer, da Banda Desenhada.

Claro que são múltiplos os pontos de contacto entre uma coisa e outra. Nomes como os de Richard Corben, Berni Wrightson e muitos, muitos outros são exemplos de autores de Banda Desenhada que se dedicaram à área do terror. No panorama editorial norte-americano, por exemplo, diversas revistas que desenvolviam esse campo específico ficaram célebres, podendo referir-se entre outros, títulos como Tales from the Crypt, Vault of Horror (ambas 1950-1955), Creepy (1964-1983), Eerie (1966-1983), etc. Modernamente, não se pode também deixar de referir múltiplas adaptações de clássicos como as obras de H. P. Lovecraft, E. A. Poe, M. A. James, etc., ao formato da história em quadradinhos.

Mas para além dessa produção especializada, sucede muitas vezes que temas sobrenaturais ou ligados ao sobrenatural ocorrem igualmente nas obras de autores não especializados.

Entre as mais importantes personagens da Banda Desenhada internacional e particularmente europeia encontra-se sem dúvida Tintin, herói criado pelo autor belga Georges Remi (1907-1983), celebrizado com o pseudónimo Hergé, sucedendo que a publicação da sua primeira aventura, sob o título completo Les Aventures de Tintin, reporter du “Petit Vingtième”, au pays de Soviets, teve início no dia 10 de Janeiro de 1929, ou seja, há noventa anos; o Petit Vingtième era, como se sabe, o suplemento infanto-juvenil do jornal diário belga Le Vingtième Siècle, que se publicou entre 1895 e 1940.

Ao longo de perto de duas dúzias de histórias, Hergé serve-se da sua famosa personagem para traçar uma verdadeira crónica de boa parte do século XX. Pelas páginas que narram as aventuras de Tintin perpassam temas de grande actualidade para a história política e social da época: guerras, revoluções, tráfico de estupefacientes ou de armamento, a questão da escravatura, os problemas ligados à exploração do petróleo, etc.

Ora, juntando-se o interesse pelas histórias sobrenaturais ao gosto pela Banda Desenhada e em especial pelas aventuras de Tintin, surge com toda a naturalidade, uma pergunta: haverá, nas histórias idealizadas por Hergé, a intervenção de fenómenos ou de episódios sobrenaturais?

Foi isso que me propus verificar, examinando a colecção dos álbuns de aventuras do nosso herói. Não sendo muitos os casos detectados, nem se podendo, de modo algum, dizer que o sobrenatural desempenhe nas aventuras de Tintin um papel de relevo, a verdade é que tão-pouco se encontra completamente ausente.

Passemos pois à análise dos casos em que os fantasmas – verdadeiros ou imaginados –, em obediência a uma deixa apropriada, entram em cena, nem que seja por breves instantes!

As páginas indicadas referem-se às mais recentes edições da firma belga Casterman.

TINTIN EN AMÉRIQUE

O detective Mike MacAdam, que já anteriormente tinha procurado colocar os seus prodigiosos poderes de dedução ao serviço de Tintin, quando este procurava o desaparecido Milou – e que começa por se apresentar [pág. 45] como o detective (privado) do hotel onde Tintin está hospedado, para mais adiante [pág. 58] aparecer como enviado pela própria polícia – usa desta vez o faro canino para chegar ao dono raptado.

Não havendo nada de concretamente sobrenatural em toda a cena, a verdade é que o tratamento da imagem, contra o fundo nocturno, especialmente da mão que se estende pelas costas do detective, bem como o evidente medo que este sente (“Tout de même, ce nést pas três rassurant, tout ce noir”, logo seguido de “secouons-nous, que diable!” [pág. 58]) e até o cheiro inexplicado sentido por Milou [pág. 58], está eivado de elementos comuns às histórias de terror: a mão descarnada poderia facilmente pertencer a um vampiro ou aventesma quejanda, cuja condição cadavérica explicaria o mau cheiro.

Deve assinalar-se que Mike MacAdam desaparece para não mais voltar, sendo lícito especular-se sobre o seu destino final…

LES CIGARES DU PHARAON

Durante a recepção em casa do major, os convidados são alertados por um grito de Mrs. Snowball [pág. 39] que, recuperando os sentidos, afirma ter visto um fantasma; essa afirmação é corroborada pelo criado indiano [pág. 39].

Claro que o “fantasma” em questão não é mais que o enlouquecido Prof. Philémon Siclone, que se passeia pelo parque, envolvido num lençol [pág. 39].

Embora o “sobrenatural” tenha aqui uma explicação inteiramente natural e mesmo prosaica, não restam dúvidas de que a imagem tradicional do fantasma, que aparece sob a forma de um lençol (ou coberto com ele) aponta para um mito concreto.

A propósito do papel do lençol na composição da figura espectral, vejam-se também, por exemplo, as aventuras de Arthur, le fantôme justicier, criação de Cézard nas páginas das revistas Vaillant e Pif (Arthur apareceu em Portugal na revista Falcão) e de Casper, inventado na década de 1940 por Seymour Reit e Joe Oriolo.



Ainda em Les Cigares du Pharaon, há que notar que não considero na secção “sobrenatural” os estados alterados de consciência, quer quando Tintin sucumbe a uns fumos narcóticos, que lhe provocam estranhas alucinações, no interior do túmulo de Kih-Oskh [pág. 9], quer quando o pobre Prof. Siclone e mais tarde o escritor Zlotzky enlouquecem, ao serem injectados com o temível radjaïjah [pág. 43], que, como é bem sabido, viria também a ter um papel importante em Le Lotus Bleu. Saliente-se apenas que, enquanto nos casos de Siclone e Zlotzky a loucura se traduz por um comportamento meramente caricatural (Siclone julga-se Ramsés II e Zlotzky afirma ser Napoleão), o que, de resto, acaba por ser imitado por Tintin em Le Lotus Bleu, quando se faz passar por louco para escapar a Mitsuhirato (que lhe injectou um líquido inofensivo julgando tratar-se do terrível veneno), já Didi, o filho de Wang Jen-Ghié – novamente em Le Lotus Bleu – atinge um estado contemplativo, citando Lao Tzu (*).

(*) – Lao Tzu (老子), também transliterado como Laozi, Lao Tse, etc., filósofo chinês, autor do texto taoista fulcral Tao Te Ching, que terá vivido – se realmente existiu, diga-se – algures entre os séculos VI e IV antes de Cristo.

LE LOTUS BLEU

Os prodígios exibidos pelo faquir Cipaçalouvishni, como caminhar sobre cacos de vidro, atravessar-se com facas ou sentar-se sobre um leito de pregos [pág. 2], não mereceriam talvez a inclusão no plano sobrenatural, mas sim numa espécie de “super-natural”, que abrangeria fenómenos que a Ciência contemporânea não explica mas que tão-pouco obrigam à intervenção de forças ou entidades estranhas ao nosso plano de existência.

Já os dotes premonitórios que o faquir manifesta [pág. 3] pertencem claramente a uma esfera distinta. É importante recordar que a capacidade de adivinhar o futuro volta a ter um papel significativo em Les 7 Boules de Cristal.

L’OREILLE CASSÉE

Mais uma vez um equívoco leva uma das personagens femininas a imaginar que há fantasmas envolvidos nas peripécias em curso. Desta vez, não há qualquer ilusão visual, mas uma voz misteriosa identifica-se claramente como o falecido senhor Balthazar [pág. 8].

Três imagens mais adiante [pág. 9], o pretenso “fantasma” é identificado como sendo o papagaio do falecido, fazendo gala das capacidades vocais por que estas aves são bem e justamente conhecidas.

L’ÎLE NOIRE

Estabelecemos já, de certo modo, que as aventuras de Tintin não têm, de modo geral, genuínos elementos sobrenaturais. Não obstante, há um tipo específico de narrativa – com raízes no romance gótico do século XIX – que é característico do conto sobrenatural e são as idiossincrasias desse género literário e alguns dos mitos que o povoam que conseguimos encontrar aqui e além.

Nas aventuras escocesas de Tintin, não poderia faltar, ainda que de forma suave, esse elemento de pavor, sob a forma do monstro desconhecido que habita a Ilha Negra [págs. 41,42].

Com efeito, sendo a Escócia, com os seus castelos em ruínas, lagos profundos e misteriosos e densos nevoeiros sobre pântanos inóspitos, a terra dos fantasmas por excelência, mal pareceria que

Hergé não utilizasse minimamente esse imaginário no seu argumento.

Deve notar-se que a cena no pub “The Kiltoch Arms”, em que o velho escocês adverte Tintin dos perigos que o monstro representa para quem se aventure nas águas do Loch ou na ilha propriamente dita [pág. 42], é digna da melhor tradição dos filmes de terror, particularmente dos filmes de vampiros!

Note-se que L’Île Noire data de 1938, enquanto o Nosferatu de F. W. Murnau é de 1922 e o Dracula de Tod Browning, de 1931.

Esses filmes claramente marcaram o tom de dúzias e dúzias de outros que foram sendo feitos depois e uma das cenas capitais é precisamente aquela em que o herói, seja ele Jonathan Harker ou outro, parando numa estalagem perdida algures na Transilvânia, a caminho do desfiladeiro de Borgo e do castelo do Conde Dracula, é confrontado com o pavor dos aldeões que frequentam o estabelecimento e que procuram dissuadi-lo de seguir viagem, alertando-o para vagos perigos.

Um caso exemplar de utilização da mesma cena pode encontrar-se também no filme An American Werewolf in London (1981), de John Landis.

A cena do pub em An American Werewolf in Londo 

Claro está que na aventura de Tintin tudo acaba por ter uma explicação natural, sob a forma de um gorila gigantesco (mas dócil). Contudo, antes de essa verdade ser revelada, o mistério perdura, na sua forma mais inquietante…

Finalmente e ainda a propósito do cenário da porção final desta aventura, não podemos deixar de recordar as lendas rodeando o famoso Loch Ness, junto a Inverness, nas High Lands escocesas.

Na verdade, embora relatos da presença de uma criatura aquática desconhecida nas águas do lago fossem já conhecidos no final do século XIX, foi na década de 1930 – precisamente a década em que Hergé escreveu L’île Noire – que apareceram as primeiras fotografias e filmes minimamente nítidos do misterioso ser.


Nessie
O “Nessie”, como é carinhosamente chamado na Escócia, guardou até aos nossos dias o segredo da sua identidade, mas converteu-se num mito popular, celebrado num pequeno e interessante museu na localidade de Drumnadrochit. Certamente Hergé não terá ficado indiferente à poderosa imagética associada, não sendo pois estranha a escolha da localização do refúgio dos falsários. O próprio Tintin menciona a famosa criatura criptozoológica.

LE SECRET DE LA LICORNE

Quando os irmãos Loiseau comunicam com Tintin, encarcerado na cave do Château de Moulinsart, como se identificam inicialmente? Os de melhor memória responderão prontamente: como o fantasma do Chevalier de Hadoque [pág. 37]!

O caso é que Tintin apanha um verdadeiro susto, tanto assim que corre a esconder-se atrás de uma coluna! Vemos pois que o nosso herói, por muito destemido e racional que seja, não e imune à ideia do sobrenatural…

LES 7 BOULES DE CRISTAL

A aventura Les 7 Boules de Cristal data de 1948. Vinte e seis anos antes, Howard Carter, apoiado pelo seu mecenas, o aristocrata Lord Carnarvon, tinha descoberto, no Vale dos Reis, o túmulo do faraó egípcio Tutankhamon.

Associada à abertura do túmulo, foi muito falada uma lenda sobre uma suposta maldição lançada pelo antigo faraó contra aqueles que viessem a perturbar o seu descanso.

O que é verdade é que Lord Carnarvon faleceu no início de 1923 (sem ter chegado a ver a múmia e o sarcófago de Tutankhamon) e conta-se que no momento da sua morte ocorreu na capital egípcia uma falha eléctrica inexplicável, enquanto em Inglaterra a cadela do falecido teria uivado e caído morta no mesmo momento; nos meses seguintes morreriam também um meio-irmão do lorde, a sua enfermeira, o médico que fizera as radiografias e outros visitantes do túmulo. Para além disso, no dia em que o túmulo foi aberto de forma oficial, o canário de Carter foi engolido por uma serpente, animal que se acreditava proteger os faraós dos seus inimigos. Os jornais da época fizeram eco destes factos e contribuíram de forma sensacionalista para lançar no público a ideia de uma maldição. Curiosamente, Howard Carter, descobridor do túmulo, viveu ainda durante mais treze anos.

Estas lendas chegaram rapidamente a Hollywood, onde, em 1932, Karl Freund realizou The Mummy – com Boris Karloff no papel do príncipe egípcio Im-ho-tep, sacrílego condenado a ser enterrado vivo e que acaba por voltar à vida depois de aberta a sepultura –, o primeiro de diversos filmes sobre as maldições associadas a múmias egípcias (se bem que já em 1911, 1912 e 1923 se tivessem realizado filmes com o mesmo título, mas todos eles na área da comédia!).

Que a história da maldição de Tutankhamon é uma fonte de inspiração para Les 7 Boules de Cristal, é patente desde a quinta imagem da história [pág. 1], em que o companheiro de viagem de Tintin, que já tinha prenunciado consequências nefastas para os exploradores que, andando pelo Peru e pela Bolívia, tinham descoberto e trazido consigo para a Europa a múmia do rei inca Rascar Capac, diz expressamente: “Eh bien, cette histoire de momies… Souvenez- vous de Tout-Ankh- Amon, jeune homme!…”; e, logo a seguir, “Songez à tous ces égyptologues qui sont morts mystérieusement après avoir ouvert le tombeau de ce Pharaon… Vous verrez, la même chose arrivera à ceux qui ont violé la sépulture de cet inca…”.

Eis-nos, pois, em pleno sobrenatural, com uma maldição do além-túmulo sobre os profanadores da sepultura.

No entanto, a primeira verdadeira manifestação sobrenatural nesta história dá-se em pleno teatro, quando Ragdalam, o faquir, e a vidente Yamilah, passam de um número circense devidamente encenado para um conjunto de revelações autênticas, claramente inexplicáveis, que deixam assombrado o próprio Ragdalam [págs. 8,9].

As revelações de Yamilah fazem a ponte com a descoberta da múmia de Rascar Capac, visto que Madame Clairmont é precisamente a esposa de um dos exploradores que a encontraram nas montanhas andinas.

Mas as manifestações sobrenaturais propriamente ditas começam durante a noite, em casa do Prof. Hippolyte Bergamotte.

Não nos referimos à bola de fogo que invade a sala do professor, entrando pela chaminé, e provoca efeitos físicos diversos de destruição, culminando na volatilização da múmia inca, confirmando a maldição gravada no antigo túmulo (“Et le jour où, dans un éclair éblouissant, Rascar Capac aura déchaîné sur luimême le feu purificateur […]”, [pág. 32]). Na verdade, o fenómeno raro do “raio globular” (em francês, “la foudre en boule”), ainda não totalmente explicado pela Ciência, consiste numa descarga eléctrica de forma circular, pensando-se que possa ser constituído por um círculo de plasma ou de gás ionizado, com origem na atmosfera, que, atingindo o solo, se desvanece rapidamente; normalmente associado a tempestades, o raio globular produz, segundo os testemunhos disponíveis, um som formado por zumbidos e estalidos, libertando um cheiro de enxofre ou ozono (o que, de resto, é corroborado pelo Prof. Tournesol, que afirma: “Moi aussi!… Et ça sent même très fort: le soufre, n’est-ce pas?”, [pág. 32]).

Acresce que este cheiro a enxofre ajuda a estabelecer o clima sobrenatural, visto o enxofre estar associado às emanações infernais! O fenómeno pode ainda interferir em emissões de rádio, deixando rasto à passagem; segundo consta, pode causar nos seres humanos queimaduras, paralisia ou mesmo a morte.

Queremos, isso sim, destacar o pesadelo que, durante a noite, aflige simultaneamente Tintin, Haddock e Tournesol.

Nesse sonho, a múmia de Rascar Capac, tendo ganho vida, vem assombrar os nossos heróis, revelando-se responsável pelas bolas de cristal cujos gases misteriosos deixam inanimadas as suas vítimas [págs. 32,33].

O pesadelo é de tal modo real que até o Prof. Tournesol, cientista experimentado, logo pouco dado a superstições, fica convencido da autenticidade do espectro.

OBJECTIF LUNE

Aqui, o sobrenatural volta a ser puramente imaginário. Desta vez, são os Dupondt os afectados, com a aparição de um misterioso esqueleto [págs. 23-25].

O esqueleto, símbolo da morte, é, evidentemente, uma imagem corrente nas histórias de fantasmas, sem dúvida assustador, quando animado por vida inesperada… Excepto, evidentemente, se se trata da nossa própria estrutura óssea…

TINTIN AU TIBET

Há, evidentemente, um certo número de fenómenos cuja realidade está longe de estar comprovada e cuja natureza, caso sejam autênticos, é totalmente desconhecida da Ciência actual.

Entre esses fenómenos contam-se, por exemplo, a telepatia – ainda assim, dos mais estudados –, a telequinésia e a levitação. No mosteiro do Tibet, o monge budista Foudre Bénie eleva-se nos ares e tem visões [pág. 44]. Não se trata de qualquer número circense, nem de qualquer habilidade de palco. A seriedade de todo o cenário envolvente, a solenidade do local, a própria ingenuidade de Foudre Bénie e a habituação dos seus companheiros impedem-no claramente. Estamos perante fenómenos autênticos. Se é já a terceira vez que a capacidade de clarividência ocorre nas aventuras de Tintin (as anteriores haviam sido protagonizadas por Cipaçalouvishni, o faquir de Le Lotus Bleu, e por Yamilah, em Les 7 boules de cristal), a levitação faz aqui a sua primeira e única aparição.

Poderemos enquadrar estes fenómenos na área do “sobrenatural”? Parece seguro responder afirmativamente, pelo menos enquanto não forem encontradas explicações científicas em que se possam fundamentar. Mais ainda, as capacidades pouco usuais de Foudre Bénie derivam, ao que tudo indica, do acesso a um plano superior de existência, cuja porta de entrada envolve uma vida ascética de contemplação e meditação. Como parte de uma experiência religiosa, em muito semelhante, na religião cristã, aos casos de estigmatização, de descrição de aparições – que são relativamente vulgares, mesmo nos nossos dias – de levitação, etc., estes fenómenos não podem deixar de se considerar como ultrapassando a esfera da Natureza física e de penetrar, portanto, no sobrenatural.

LES BIJOUX DE LA CASTAFIORE

Uma vez mais nos deparamos com um falso fantasma. Bianca Castafiore vê uma coruja junto à janela e assusta-se terrivelmente [págs. 14,15]; e em vez de procurar uma explicação simples e razoável, a sua interpretação do que acaba de ver leva-a imediatamente ao reino do sobrenatural

Adenda:

Ainda dentro das representações do sobrenatural, haverá que apontar o episódio de Objectif Lune [pág. 49] em que o Capitão Haddock se disfarça de fantasma para tentar asustar Tournesol e assim levá-lo a recuperar a memória. Coberto por um lençol e com as tradicionais correntes, o Capitão exclama (subentendendo-se que em voz cavernosa e ameaçadora): “Houwou!… Houwou!… Prends garde, Tryphon, je suis un fantôôôme!…” e “Ha-ha-ha!… Tremble, ô mortel, car je vais t’emporter chez le dia-a-a-ble!…”.

CONCLUSÃO:

Fica bem claro que nenhuma das aventuras de Tintin de pode – de perto ou de longe – incluir no campo da literatura de terror ou do sobrenatural, nem outra coisa sendo de esperar de uma obra que se presume agradar a um público na faixa etária “dos 7 aos 77 anos”, segundo a expressão bem conhecida, mas que foi primariamente concebida para uma audiência juvenil.

Não quer isto dizer que Hergé não tenha recorrido, mais que uma vez, a elementos decididamente fantásticos, nomeadamente em Les 7 Boules de Cristal, com a descrição – para além dos aspectos acima referidos –, dos estranhos poderes dos incas, em Les Cigares du Pharaon, atendendo às misteriosas capacidades do faquir, e ainda em Tintin au Tibet, como acima se observou. Também a ficção científica não anda ausente, com a viagem à Lua, no duplo álbum Objectif Lune/On a Marché sur la Lune, o uso do mini-submarino em Le Trésor de Rackam le Rouge, a participação do Abominável Homem das Neves em Tintin au Tibet e dos extraterrestres nos seus discos voadores em Vol 714 pour Sydney.

Mas o que fica patente no estudo efectuado é a utilização de ícones, ambientes e conceitos comuns à literatura de terror. Essa utilização não poderá ter deixado de ser feita com toda a consciência e encerra evidentes ecos da literatura gótica – e até dos chamados “romances de cordel” – de finais do século XIX e inícios do século XX, com as suas hostes de monstros, fantasmas e outras aventesmas. Trata-se, portanto, de mais uma perspectiva de análise da obra de Hergé.

No dia 10 de Janeiro, comemoraram-se os 90 anos da mítica personagem Tintin,  a publicação das suas aventuras se iniciou no dia 10 de Janeiro de 1929, para encanto de sucessivas gerações de leitores.

António Monteiro in revista BANG