sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Primeiras versões de Tintin e Popeye passam a domínio público em 2025


A partir de 1 de Janeiro de 2025, as icónicas personagens Popeye e Tintin passarão a estar em domínio público nos Estados Unidos. Isto significa que qualquer pessoa poderá criar conteúdos baseados nestas figuras animadas sem necessidade de autorização ou pagamento aos detentores dos direitos de autor.

Até agora, a utilização de qualquer obra que incluísse imagens ou referências às personagens exigia autorização e implicava o pagamento de licenças aos respetivos proprietários dos direitos.

Há cerca de um ano, foi anunciado que as versões originais de Mickey e Minnie também entrariam no domínio público. Esta iniciativa inclui não só criações da Walt Disney, mas também obras de artistas reconhecidos, como Virginia Woolf e John Steinbeck.

Contudo, apenas as versões mais antigas das personagens poderão ser usadas livremente. No caso de Tintin, o domínio público só se aplicará aos Estados Unidos, uma vez que a propriedade intelectual em muitos outros países só se torna pública 70 anos após a morte do criador. Georges Prosper Remi, conhecido como Hergé, morreu em 1983.

O domínio público de 2025 abrangerá também várias composições musicais. Entre elas, destacam-se clássicos como “What Is This Thing Called Love?” de Cole Porter (1929) e “Ain’t Misbehavin” de Fats Waller e Harry Brooks (1929). Estas obras serão apenas dois exemplos de um conjunto mais vasto que passará a estar disponível para utilização livre.

in NIT

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

A Ilha Negra / O Ceptro de Ottokar

quadradinhos correspondentes às edições de 1937 (p/b) e 1943 (cores) 

Com A Ilha Negra começamos uma nova colecção: "As Aventuras de Tintim". Tintim, um dos heróis mais famosos de toda as história dos «livros aos quadradinhos», passeia-se no campo com o seu cão Milou... e vê aterrar um pequeno avião com problemas mecânicos. (...) 

Lançamento em Portugal das Aventuras de Tintim.

Ano de 1988.





Correio Juvenil Verbo nº 58 - Agosto e Setembro de 1988 (15/09/1988)

A Ilha Negra em português

Pela primeira vez em Portugal, vamos ter acesso às aventuras de «Tintin» (em álbum), numa publicação levada a cabo por uma editora portuguesa, neste caso a Editorial Verbo.

Temos tido acesso às aventuras desta personagem, desde os seus primórdios em 1936, em «O Papagaio», passando pelo «Diabrete», «Cavaleiro Andante», «Foguetão», «Zorro» e «Tintin». Em álbum foram só vendidos em Portugal (além das várias edições da Casterman / França). Os volumes publicados pela Record (editora brasileira), que possuía os direitos para a língua portuguesa.

Esta edição histórica, inicia-se pela obra «A Ilha Negra», uma das histórias de «Tintin», da qual Hergé se tinha já ocupado da sua terceira versão. É também a sétima história desta personagem, a primeira é «Tintin au Pays des Soviets» que nunca foi redesenhada (existindo só na sua versão a preto e branco), a segunda tem por título «Tintin no Congo» e a seguinte «Tintin na América». Temos ainda: «Les Cigares du Pharaon», «Le Lotus Blue» e «L'Oreille Casée».

O próximo volume tem por título «O Ceptro de Ottokar».

Carlos Gonçalves, CORREIO da Banda Desenhada, 08/09/1988

O Ceptro de Ottokar

Já que falámos anteriormente na Editorial Verbo, por que não apresentar uma das suas últimas edições, precisamente «O Ceptro de Ottokar», a 8.ª aventura de «Tintin», da autoria de Hergé.

Não poderemos ficar insensíveis a esta manifestação de interesse por uma editora portuguesa, na publicação dos trabalhos de Hergé e da sua mais célebre personagem, já com mais de 80 milhões de álbuns editados em todo o mundo. Não tínhamos tido acesso ainda aos trabalhos de Hergé e da sua figura «Tintin» (em álbum), numa tradução e legendagem portuguesas. Infelizmente esta é mecânica (o que prejudica sobremaneira o trabalho. Afinal temos em Portugal excelentes letristas. Por que razão usar-se um processo, que não dignifica em nada os traços de Hergé?). Temos a Catarina Labey, Bento das Neves, Zulmira Perdigão, José Manuel Nelo Nunes, João Carlos Cruz, Mário Correia, etc.

«O Ceptro de Ottokar» é um trabalho de grande interesse de Hergé, que quando adaptado a álbum, viria a sofrer só pequenas alterações do seu autor. É, pois, uma excelente obra.

Aqui Hergé aproveita o facto da Alemanha tentar anexar a Áustria (antes da Segunda Guerra Mundial), para incluir uma personagem sua, com o nome de «Müsstler» (Mussolini e Hitler).

Carlos Gonçalves, CORREIO da Banda Desenhada nº 424 (8.º Ano), 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Anúncio ao número duplo

Na página 3 da Revista Tintin (Portugal) nº 17/1972 (5º ano) anuncia-se para a semana seguinte a edição do número duplo "Super" correspondente a esse semestre. O mais curioso neste anúncio é a utilização de vários desenhos de Tintin e Milu iguais aos da colecção ver E Saber.


Dados sobre os desenhos (informação fornecida por Chromos Voir et Savoir):

Cromo Ver e Saber, coleção automóvel n°40: 1894. Phaëton elétrico de Jeantaud (França)· 


Cromo Ver e Saber, coleção automóvel, n°15 : 1834. Carro a vapor de Scott Russel (Grã-Bretanha)


Cromo Ver e Saber, coleção aerostation n°2 : 1783. La Montgolfière (France)


Cromo Ver e Saber, coleção aviação guerra 1939-1945, n°44: 1942. Douglas A-26/ B-26 " Invader " (U.S.A.)


Cromo Ver e Saber, coleção aerostation n°10: 1794. Ballon «L'Entreprenant» (França)·


Mais informações na página FB Chromos "Voir et Savoir"

https://www.facebook.com/chromosvoiretsavoir/



sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Tintim No Bairro de Benfica

Um vasto acervo literário da banda desenhada de Tintin está disponível desde Dezembro de 2024 no Palácio Baldaya, em Lisboa, para consulta e leitura. Este acervo inclui todos os álbuns de Tintim, várias edições da edição portuguesa da revista Tintin, lançada em 1 de junho de 1968 e ainda vasta memorabilia das icónicas personagens.

A coleção pertencente ao acervo particular de António Costa foi doada à Junta de Freguesia de Benfica pelo próprio António Costa, nosso vizinho no Bairro de Benfica e atual Presidente do Conselho Europeu.


Instagram da JF Benfica




quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Da BD à História: túmulo de figura ligada ao Capitão Haddock entra na lista de património da Historic England

O túmulo histórico de uma figura ligada ao Capitão Haddock, amigo inseparável de Tintin, foi recentemente incluída na lista de património da Historic England. Situado em Leigh-on-Sea, Essex, é agora oficialmente reconhecido e oferece uma ligação única entre a ficção da banda desenhada e a história real.

Em 2024, a Historic England incluiu na sua lista de património 17 locais e entre eles destaca-se o túmulo de Mary Haddock, situada no cemitério da igreja de St. Clement, em Leigh-on-Sea, no condado de Essex, conta o The Guardian.

Esta descoberta é um verdadeiro tesouro para os fãs de Tintin, pois a personagem do Capitão Haddock foi inspirada pela figura histórica de Richard Haddock, filho de Mary, um destacado marinheiro e figura central da família Haddock, conhecida pelo seu legado naval.

O túmulo de Mary Anna Haddock, datado de 1688, é considerado pelos especialistas em património uma obra notável, não só pela sua qualidade arquitectónica, mas também por ser um dos raros monumentos dedicados a uma mulher durante uma época de profunda desigualdade de género. Além disso, a sua ligação à famosa personagem dos quadradinhos de Hergé torna-a ainda mais intrigante para os entusiastas da obra de Tintin.

O nome Haddock é célebre entre os fãs de Tintin, pois foi a inspiração para o temperamental e alcoólico Capitão Haddock, amigo e protetor do jovem repórter.

A inclusão de um local tão peculiar na lista de património de Historic England não é apenas uma homenagem ao passado, mas também uma provocação ao público, convidando as pessoas a explorarem a diversidade e a riqueza histórica do país. No total, 256 novos locais foram adicionados à lista nacional de património da Inglaterra este ano.

in SAPO24

domingo, 15 de dezembro de 2024

Correspondência

Abel Varzim - 1935/6; 1943-1948 (encontro no verão de 1946)

Adolfo Simões Muller - 1937-1962

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25/05/1935 - Padre Abel Varzim (Papagaio) - vingtieme siecle (f1) - Primeiro contacto

12/05/1936 - Hergé - Abel Varzim (f2) - opinião sobre os primeiros exemplares que recebeu 

]]24/07/1936 - Abel Varzim - Hergé - A paginação de O Papagaio obrigava a fazer algumas alterações. Diz que Tintin  goza de imensa popularidade em Portugal. [[

Mar/1937 - ASM - Hergé - "América" está a terminar e pede o envio de nova aventura.

1 - “Tim-Tim na América do Norte” – nºs 53-110, de 16/04/1936 a 20/05/1937;

2 - “Aventuras de Tim-Tim no Oriente” (“Os Charutos do Faraó” no original) – nºs 115-161, de 24/06/1937 a 12/05/1938;

3 - “Novas Aventuras de Tim-Tim” (“O Lótus Azul” no original) – nºs 166-205, de 16/06/1938 a 16/03/1939;

]]08/03/1937 - Hergé - ASM - Irá enviar dois exemplares de "Os Charutos do Faraó"[[

]]Maio/1938 - ASM - Hergé - Recebem "Lotus Azul" e pedem o envio de "Congo" ou "Sovietes/Urss".[[

]]07/07/1938 - Hergé - ASM - A edição de 1930 de "Sovietes" está esgotada.[[

Fev/1939 - ASM-Hergé - Está a terminar "Lótus Azul" (ANATT) e pede o envio de "Congo".

1939 - Envio de "Congo", "Orelha" e "Ilha Negra"

4 - “Tim-Tim em Angola” (“Tintin no Congo” no original) – nºs 209- 244, de 13/04/1939 a 14/12/1939;

5 - “Tim-Tim e o mistério da Orelha Quebrada” – nºs 247-298, de 04/01/1940 a 26/12/1940;

6 - “Tim-Tim na Ilha Negra” ( (...) A Ilha Negra , no original) - nºs 301-359, de 16/01/1941 a 26/02/1942;

]]Mar/1939 - Hergé - ASM - Possível edição dos álbuns de Tintin em português[[

]]Abril/1939 ASM-Hergé - Proposta para ser feita uma aventura de Tintin em Portuga[[

27/04/1939 - Hergé - AS Muller  - "Angola" aparece publicada

Suspensão das transf. financeiras (10/05/1940) / Diabrete (1941)

]]Refugiaram-se na região de Auvergne, no centro de França, na aldeia de Collanges, onde Marijac lhes disponibilizou o seu alojamento. Regressaram a Bruxelas no final de Junho de 1940.[[

06-1940 - Hergé (casa de Marijac) - ASM - Pede que contacte Alexis Remi para lhe dizer que estão bem de Saúde

1940 - Hergé-ASM - Pede a suspensão dos pagamentos à SPA

20/12/1940 - ASM - Hergé - pede que lhe indique a divisa ou arranje outra possibilidade segura

Jan/1941 - ASM - Hergé - vai para uma nova revista / possibilidade de ficar com o exclusivo de Quick e Flupke [e também de Popol et Virginie ?)

23/01/1941 - Hergé - ASM - acordo para a publicação de Quick e Flupke no diabrete

Envio pelo editor de 4 aventuras de Quick e Flupke

24/04/1941 - Hergé - AS Muller (Secret Prop Nacional) (f3) - Hergé propõe ser pago em víveres, para o irmão Paul mas também para ele

Maio/1941 Hergé - ASM - recebeu encomendas (?)

ENVIO DE VÍVERES [de Junho 1941 a Junho 1945]

28/06/1941 - Hergé-ASM - recebeu encomenda

05/07/1941 - Hergé-ASM - açucar. toucinho, salsichas

]]08/09/1941 - Hergé - ASM (Rua Domingos Sequeira) - o irmão Paul recebeu uma encomenda[[

(fim do ano) 1941- ASM - Hergé - tenta obter os direitos de Tintin

24/03/1942 - Papagaio - Hergé - explicações  e plano sobre o envio de encomendas que seriam remetidas;

25/04/1942 - Hergé - Etelvina Lopes Almeida (Papagaio) (f4) - Hergé envia uma lista com os víveres preferidos;  refere o nome de AS Muller que também iria enviar. refere também o envio para o irmão.

Pede que o envio seja feito três vezes por semana, uma vez por dia

]]Em meados de 1943, Hergé recebeu os direitos de autor sob a forma de um pacote de 18 quilos contendo dez pacotes de amêndoas, seis pacotes de figos e 45 latas de sardinha![[

Jun/1945 - fim do envio

1942 - CARANGUEJO

7 - “Tim-Tim no Deserto” (“O Caranguejo das Tenazes de Ouro” no original) – nºs 366-226, 16/04/1942 a 10/06/1943;

1943 - CONFUSÃO COM DIABRETE E PAPAGAIO 

[o capítulo é denominado "Tensions Lusitaniennes" no livro de Goddin  4-344]

dois anos depois (Diabrete 1941?) início de 1942 (?)

inicio 1943 - ASM- Hergé - oferece pagar mais por Tintim

04/01/1943 - Hergé - Papagaio/Diabrete - está desposto a ceder os direitos a outra publicação portuguesa, oferece Quick e Flupke

ASM - Fica satisfeito

25/01/1943 - Abel Varzim - Hergé (f5) - ficou indignado com a manobra do Diabrete, 

Hergé - ASM - Tintin irá continuar em O papagaio

ASM- Hergé - Insiste mais uma vez mas não irá obter resposta de Hergé

1943-1945

8 - “A Estrela Misteriosa”- nºs 435-540,de12/08/1943 a 16/08/1945;

1946

Mar/1946

09/09/1946 - Monsenhor Lopes da Cruz (Papagaio) - Hergé - após encontro de Abel Varzim no verão

1947

1947 - Hergé - ASM - acerto de pagamentos com Diabrete. [Tinha durado entre 1941 e 1943]

9 - “O Segredo da Licorne” – nºs 617-679, de 06/02/1947 a 15/04/1948.

1949

Mar/1949 - Diabrete adquire finalmente os direitos de Tintin []

Fonte: Hergé Em Portugal, artigo de A. Cabral

1960

Mar/1960 - Tentativa de ficar com os direitos dos álbuns de Tintin

22/03/1960 - Hergé-ASM-

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Uma parte significativa da correspondência que os dois homens (Hergé e Simões Muller) mantiveram ao longo de 30 anos foi recentemente tornada pública pelo holandês Jan Aarnout Boer (De Avonturen van Kuifje in Portugal), membro da associação Hergé Genootschap (Os Amigos de Hergé) que teve acesso aos arquivos da Fundação Hergé, na Bélgica.

1935

O padre Abel Varzim contacta em Maio de 1935 o Le Petit Vingtieme, em nome da publicação, para negociar a divulgação das histórias de Tintin em Portugal.

1936

No final de Abril de 1936 Hergé recebeu em Bruxelas um envelope de Portugal. Ao abri-lo, encontrou alguns exemplares da revista O Papagaio e teve uma grande surpresa: viu pela primeira vez uma história de Tintin impressa a cores (Tim-Tim na América).

"Fiquei encantado por ver os meus desenhos aparecerem a cores", diz Hergé numa carta que enviou a 12 de Maio desse ano ao padre Abel Varzim, [que o contactara em Maio de 1935, em nome da publicação, para negociar a divulgação das histórias de Tintin.]

1940/1941

Outro episódio trazido à luz do dia pela correspondência entre Hergé, Abel Varzim e Müller diz respeito à intenção deste último lançar uma nova revista (Diabrete) para disputar o mercado a O Papagaio.

Em carta não datada (mas provavelmente do final de 1940 ou início do ano seguinte), Müller pede a concessão do exclusivo das aventuras da série Quick et Flupke, ressalvando que O Papagaio continuará a publicar Tintin se assim o entender.

1941

Hergé concorda, mas é notório que as suas preocupações imediatas são de outra ordem. A invasão da Bélgica pelas tropas de Hitler teve como consequência, no plano pessoal, o aprisionamento do seu irmão mais novo Paul Remi num campo de concentração alemão. Na resposta a Simões Müller, de 24 de Abril de 1941, pede-lhe para este enviar de vez em quando produtos alimentares não perecíveis (sardinhas de conserva, chocolate, biscoitos, etc.) ao irmão e, se possível, também para si próprio. O montante dispendido deveria ser descontado nos direitos de autor a pagar.

1943

O braço de ferro entre Varzim e Müller pelos direitos de Tintin conhece novos desenvolvimentos no início de 1943. A 25 de Janeiro, Hergé recebe uma carta muito contundente de Varzim, defendendo com unhas e dentes a sua publicação: "O nosso jornal - como pode constatar - é para a elite das famílias portuguesas. O Diabrete não passa de um jornal para as classes menos bem, pois para poder viver vende-se a metade do preço do nosso, não tendo mesmo tentado colocar-se ao nível do Papagaio."

As posições radicalizam-se, mas Hergé procura não desagradar a nenhum dos contendores.

Simões Müller continua a cultivar a sua relação com o artista belga, que se traduz na publicação quase ininterrupta das histórias de Tintin [entre 1949 e 1962].

1960

De passagem, Müller trava a sua última batalha pelos direitos de Tintin e perde-a. Numa carta enviada a Hergé em Março de 1960, Müller pede a "intervenção" de Hergé para evitar que "outro editor português faça uma edição que eu me proponho fazer há muito tempo e sobre a qual julgo ter um indiscutível direito de prioridade".

1960

A resposta de Hergé chega em 22 de Março: Casterman, o editor belga, reconhece em Müller um "amigo da primeira hora", mas "a lógica dita que seja utilizada a edição brasileira igualmente em Portugal". Assim será até 1988, quando Tintin passa a ser editado pela Verbo.

--adaptado de artigo de Carlos Pessoa (22/05/2007)

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LES AMIS DE HERGÉ 1989

Après nous avoir informé des débuts portugais de Tintin (voir Revue n°7) et communiqué une interview d’Adolfo Simões Müller, responsable de l'introduction de l’œuvre de Hergé au Portugal (voir Revue n°8), notre ami Joäo P. Boléo nous a fait parvenir copie de deux lettres, fort émouvantes, de Hergé à Monsieur Simoes Muller.

La premiére date de juin 1940. Hergé s’est réfugié en France (chez le dessinateur Marijac) et est sans nouvelles de sa famille restée en Belgique.

La seconde, date de septembre 1941. Hergé remercie son correspondant portugais pour l'еnvoi de précieux colis de vivres.

les amis de Hergé, nº 9

Agradecimento a A.S. Muller por permitir a reprodução das duas cartas de Hergé.

Jun 1940 Hergé (Marijac) -ASM - Pede para contactar com o pai

28/06/1941

05/07/1941

08/09/1941 - Hergé - ASM (Rua Domingos Sequeira) - o irmão Paul recebeu uma encomenda



(Les Amis de Hergé, Junho de 1989)

Hergé e Adolfo Simões Müller trocaram várias cartas. João Paulo Paiva Boléo, grande apreciador de toda a obra do autor de Tintin, deu conta, na revista Les Amis de Hergé, de junho de 1989, de duas cartas do belga ao português, escritas no período conturbado da Segunda Guerra Mundial. Na primeira, datada de junho de 1940, Hergé pede “um grande favor” a Adolfo Simões Müller. Explica que “como tantos outros, infelizmente, tive de fugir da Bélgica e refugiar-me em França”.

Dá conta ainda de que os seus pais “infelizmente, não conseguiram sair de Bruxelas”. “Estou naturalmente sem nenhuma notícia deles há cerca de um mês”. O criador de Tintin pede por isso para que Adolfo Simões Müller escreva ao seu pai, Alexis Remi, para que o informe que “a minha cunhada, a sua neta, a minha mulher e eu próprio estamos em segurança e que todos nós nos encontramos de boa saúde”.

Explica ainda que, “como tivemos de fugir precipitadamente, disponho apenas de parcos recursos. Ficar-lhe-ia reconhecido se pudesse fazer-me chegar, direta ou indiretamente, o montante dos direitos relativos a Tintin em Angola e a A Orelha Quebrada, direitos que o Syndicat de la Propriété Artistique, em Paris, disse-me não me terem ainda sido atribuídos”.

Na segunda missiva, enviada de Bruxelas e com data de 8 de setembro de 1941, Hergé informa Adolfo Simões Müller de que acaba de receber uma carta do seu irmão, Paul Remi, em que este último lhe diz que “recebeu bem uma encomenda expedida pelos seus bons cuidados e que me encarrega de lhe transmitir os seus mais vivos agradecimentos, o que faço com prazer, juntando também os meus”. 

Mais adiante, Hergé dá conta de cartas anteriores em que acusava receção de várias pequenas encomendas (duas de bolachas, uma de café, uma de cacau, uma de chocolate, uma de açúcar e uma de charcutaria) que foram “bem-vindas”. O desenhador belga pede ainda, se tal ainda for possível, para dar continuidade a estes envios “que nos são bem preciosos”. 

Fonte: Tese de Carlos Sêco sobre Adolfo Simões Muller

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A segunda Guerra Mundial obrigou Hergé a refugiar-se, em 1940, em França, residindo durante algum tempo em casa de Marijac, um criador francês de BD. É daí que escreve a Adolfo Simões Muller, pedindo-lhe para ser pago não em dólares, mas em géneros alimentares (latas de sardinha, biscoitos, café, etc.), que se destinavam a um irmão, Paul Remi, prisioneiro de guerra dos alemães durante cinco anos.

Em Setembro de 1941, (...), Hergé escreve de novo ao [antigo] director de "O Papagaio" para lhe agradecer o envio de alimentos ao irmão e também um cabaz de biscoitos, café, cacau, chocolate, açucar e enchidos que ele próprio recebera entretanto de Portugal". 

Oliveira Martins, 2005

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19410908 - Monsieur Adolfo Simoes Müller,   Rua Domingos Sequeira, 46-3º   LISBONNE.   Cher Monsieur,   Je viens de recevoir une carte de mon frère, qui m'apprend qu'il a bien reçu un colis expédié par vos bons soins et qui me charge de vous transmettre ses plus vifs remerciements, ce dont je m'acquitte avec plaisir en y joignant également les miens.   J'espère que, de votre côté, vous aurez bien reçu mes précédentes lettres, datées du 28 juin et du 5 juillet dernier et dans lesquelles je vous accusais réception de plusieurs petits colis (deux de biscuits, un de café, un de cacao, un de chocolat, un de sucre et un de charcuterie) qui ont été les bienvenus.   Si la chose est encore possible et si cela ne vous est pas trop difficile, oserais-je encore vous prier de continuer ces envois, qui nous sont si précieux?   De tout coeur, encore un grand merci, et veuillez croire toujours, cher Monsieur, à mes sentiments les meilleurs.   G. Remi

19410908 - Sr. Adolfo Simões Müller,   Rua Domingos Sequeira, 46-3º   LISBOA.   Caro Senhor,   Acabo de receber um postal do meu irmão, que me informa ter recebido uma encomenda enviada através dos vossos bons cuidados e que me encarrega de lhe transmitir os seus mais vivos agradecimentos, o que faço com muito prazer, juntando também os meus.   Espero que, da sua parte, tenha recebido as minhas cartas anteriores, datadas de 28 de junho e 5 de julho passados, nas quais lhe acusava a receção de várias pequenas encomendas (duas de biscoitos, uma de café, uma de cacau, uma de chocolate, uma de açúcar e uma de charcutaria) que foram muito bem-vindas.   Se tal ainda for possível e se não lhe for muito difícil, atrever-me-ia a pedir-lhe que continuasse com estes envios, que nos são tão preciosos?   Do fundo do coração, mais uma vez um grande obrigado, e aceite, caro Senhor, os meus melhores cumprimentos.   G. Remi (Hergé)

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Dos autores estrangeiros, além de Hergé, é de destacar Dwiggins, com uma história adaptada livremente por Müller, o sueco Jacobsson, com as graças e desgraças do Trolaró (Adamson), Walter Booth, com três pequenas histórias e o espanhol Usátegui, em vários números. (Monografia O Papagaio)

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HERGÉ ET LA PRESSE

A 25 de maio de 1935, o editor do jornal Le Vingtième Siècle foi contactado pelo padre Abel Varzim (1902-1964), um sacerdote católico português. Depois de viver alguns anos na Bélgica e de ter obtido o doutoramento em ciências políticas e sociais pela Universidade de Lovaina em 1934 com uma tese intitulada "Le Boerenbond belge. L'œuvre du revement et de la grandeur de la classe agricole d'un pays" (A União dos Agricultores Belgas: A Obra de Reconstrução e Grandeza da Classe Agrícola de um País), regressara a Portugal para se estabelecer. Entre as suas várias atividades, foi cofundador de uma revista infantil, O Papagaio, com o subtítulo "revista para miúdos". Tendo descoberto as aventuras de Tintin enquanto lia o Le Petit Vingtieme durante a sua estadia na Bélgica, desejava obter o direito de as reproduzir no seu jornal semanal, cuja primeira edição tinha sido recentemente publicada, a 18 de Abril: “Como esta é uma publicação católica, peço-lhe que consiga um preço razoável para nós, pois estamos apenas a começar, enfrentando uma série de dificuldades e com pouco dinheiro. Espero que o senhor faça o possível para nos conceder este favor” [121]. Hergé encaminhou-o para a Sociedade de Direitos de Autor em Paris [122]. Em junho, foi enviada uma oferta ao Padre Abel Varzim. No entanto, O Papagaio preferia a série americana Nipper, do cartoonista Clare Victor Dwiggins (1874-1958), que estava a ser publicada na Dinamarca, entre outros locais. Assim que esta foi publicada na íntegra, contactou novamente Hergé, que, ansioso por atrair novos leitores, aceitou reduzir as suas exigências [123].

121. Lettre de l’abbé Abel Varzim au directeur du Vingtième siècle du 25 mai 1935.

122. Philippe Goddin, Hergé. Chronologie d’une œuvre (1931-1935), op. cit., p. 377.

123. Philippe Goddin, Hergé. Chronologie d’une œuvre (1935-1939), op. cit., p. 56.

As Aventuras de Tim-Tim na América do Norte, anunciadas logo a 19 de Março de 1936 [124], foram publicadas de 16 de Abril de 1936 a 20 de Maio de 1937. No entanto, ao ler os primeiros exemplares do semanário português, Hergé ficou, no mínimo, surpreendido! Em primeiro lugar, a sua história tinha sido colorida sem o seu consentimento; em segundo lugar, tinha sido distribuída por cinco tiras (em vez de seis), o que afetava o ritmo que tinha planeado. A 12 de maio de 1936, Hergé esclareceu a situação explicando ao Padre Abel Varzim que "os desenhos são concebidos, como num romance serializado, para terminar cada semana com um desenho emocionante, de modo a manter o leitor em suspense". Insistiu, por isso, para que a pessoa em questão respeitasse o cronograma original o mais rapidamente possível, mas também confidenciou que estava "encantado por ver [os seus] desenhos aparecerem a cores" [125]. O Padre Abel Varzim respondeu a 24 de julho que a paginação de O Papagaio obrigava, por vezes, a equipa editorial a retirar bandas. Acrescentou, com orgulho, que Tintin "já goza de imensa popularidade em Portugal" [126].

124. «Aventuras de Tim-Tim repórter do “Papagaio” na América do Norte», O Papagaio, no 49, 19 mars 1936, p. 7.

125. Lettre d’Hergé à l’abbé Abel Varzim du 12 mai 1936.

126. Philippe Goddin, Hergé. Chronologie d’une œuvre (1935-1939), op. cit., p. 93

Este Tintim na América permanece memorável em todo o caso, uma vez que se trata da primeira aparição do repórter — que por esta ocasião se tornou repórter de O Papagaio! — num país não francófono (e a cores!).

No início de março de 1937, poucas semanas antes da conclusão da publicação de Tintin na América, Adolfo Simões Müller (1909-1989), cofundador e diretor de O Papagaio, contactou o Sindicato dos Direitos de Arte para se informar sobre outras publicações seriadas disponíveis. A 8 de Março, Hergé respondeu pessoalmente, indicando que lhe estava a arranjar dois exemplares de Os Charutos do Faraó [127]. Esta história foi publicada no jornal português no dia 24 de junho, sob o título Aventuras de Tim-Tim no Oriente. Seguiram-se Novas Aventuras de Tim-Tim (Lotus). Em 1938, a redação manifestou interesse por Tintin no País dos Sovietes. Hergé explicou:

"[...] A edição de 1930 está completamente esgotada." Por outro lado, como estes foram os primeiros desenhos que publiquei, são bastante deselegantes e creio que só vos teriam agradado moderadamente” [128].

A partir de 13 de abril de 1939, a revista O Papagaio publicou Tintim no Congo, que renomeou para Aventuras de Tintin em Angola! De facto, para atrair os seus jovens leitores, a revista semanal considerou apropriado enviar o repórter para uma colónia portuguesa. A bordo do navio, Tintim apontou a ilha de São Tomé a Milu como “uma rica possessão portuguesa”, informando-o depois de que desembarcariam no Lobito antes de seguirem para Luanda [129]. No mesmo ano, houve correspondência entre Hergé, aconselhado por Jacques-Louis Duchemin, e Adolfo Simões Müller relativamente a uma possível edição dos álbuns de Tintin em português [130]. ​​Não se chegou, afinal, a acordo sobre esta questão.

127. Lettre d’Hergé à Adolfo Simões Müller du 8 mars 1937.

128. Lettre d’Hergé à Adolfo Simões Müller (?) du 7  juillet 1938 citée dans Philippe Goddin, Hergé, Tintin et les Soviets. La Naissance d’une œuvre, op. cit., p. 145.

129. O Papagaio, no 213, 11 mai 1939, p. 9 (Notre traduction).

130. Philippe Goddin, Hergé. Chronologie d’une œuvre (1935-1939), op.  cit., p.  372; Philippe Goddin, Hergé. Lignes de vie, op. cit., p. 242.

Fonte: Hergé Et La Presse - G. Kursner

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Sorriso aos quadradinhos

Hoje acordei a sorrir, 

Estava uma noite difícil e desesperada
Quando me decidi juntar às tuas aventuras,
Quando decidi saltar para as tuas páginas,

Espero que não te importes, claro que não te importas,

Contigo subi aos Himalaias, Atravessei as florestas do Peru,
Fui ao fundo do mar, subi ao espaço e pisei a lua,
Descobri tesouros, vi o mundo à beira do fim,
Conheci a Índia, a China, o Tibete, África e Américas,

Bebi whisky às escondidas com o capitão,
Enlouqueci com a surdez e com o "sempre a sul" do professor, Ri e como ri com as trapalhadas dos gémeos,

Obrigado Tintim, Haddock, Girassol, Dupond e Dupont,
Nestor, Abdalah, Rastapopoulos, Tchang,
Serafim Lampião, Bianca Castafiore,

Obrigado a todos,
Obrigado por existirem,

Por me fazerem sonhar e por me trazerem sempre um sorriso 


imagem de João Fazenda / Visão, 2007



sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

As Aventuras de Tintin no Bairro de Benfica, a partir de amanhã

 


A partir de amanhã, 7 de Dezembro, o Palácio Baldaya, em Benfica, passa a ter disponível um vasto acervo literário relacionado com o Tintin, para consulta e leitura:

- Todos os álbuns do Tintin;

- Várias edições da revista portuguesa Tintin, lançada em Portugal a 1 de Junho de 1968;

- Memorabilia das icónicas personagens.

Toda esta colecção, pertencente ao acervo particular de António Costa, ex Primeiro-Ministro, foi generosamente doada pelo próprio, à Junta de Freguesia de Benfica.

In blogue Juvebêdê

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Idade das personagens

Recentemente, perguntava-me Geraldes Lino qual era a idade de Tintin, e se Hergé se teria pronunciado sobre isso. A minha ideia era de que não, mas parece que o terá feito numa carta a um leitor, atribuindo-lhe 15 anos. Independentemente da idoneidade do criador de Tintin, e de outras abalizadas concordâncias, permito-me discordar. Mesmo sem ir investigar qual seria a idade mínima para se poder ser jornalista na Bélgica da época (se é que havia),  o que provavelmente não preocupou  o jovem Hergé, a análise de toda a obra, a psicologia e maturidade de Tintin mas mais variadas circunstâncias, apontam para um mínimo de 17/18 anos - e será até mais legítimo pôr-lhe mais uns anitos do que tirá-los. (...)

JP Boléo, Quadrado nº 1  Vol. 3 (2000)

+

PERGUNTAS A HERGÉ - ANTIGA VERSÃO PORTUGUESA DO SITE TINTIN.BE

Bom dia!

Que idade tinha o personagem Tintim nas bandas desenhadas?

Resposta : Para : Client InterLinx, 02:59 pm 23 de Abril 1996

De : info@tintin.be

Caro senhor (...),

Com o intuito de dar resposta à sua questão, pedimos-lhe que leia duas cartas seguintes, escritas pela mão de Hergé a propósito da idade dos seus personagens.

1) Carta de 20 de Abril 1976.

Caro amigo,

As perguntas que me colocou na sua carta do dia 9 do corrente são relativamente embaraçosas pois, ao criar as minhas personagens, não me preocupei em lhes dar uma idade precisa.

Sem garantia alguma, poderíamos dar, aproximadamente:

50 anos ao professor Girassol

45 anos a Rastapopoulos

45 anos à Castafiore

40 anos aos Dupondt

40 anos a Nestor

e 10 anos a Tchang

Quanto à outra questão: Tintim veste um tipo de roupa que não variou durante 47 anos. Foi somente para os PICAROS, álbum que acaba de sair, que ele trocou as velhas calças de golf por jeans azuis.

Atenciosamente,

Hergé

 



2) Carta de 28 de Dezembro 1970

Querida menina,

Estou-lhe a responder à carta que me enviou no dia 17 de Dezembro.

As suas perguntas embaraçam-me um pouco, visto que (salvo Tintim) são perguntas às quais nunca tive de responder até hoje. A sua curiosidade (ou a do seu tio) leva a interrogar-me a mim próprio sobre esses pontos de grande importância!!!...

Tintim tinha cerca de 14 anos no início; 41 anos mais tarde, tem cerca de 17. É curioso mas é assim... relativamente aos outros, dava 12 anos a Joana e João (bem mais gémeos que os Dupondt), 10 anos a Quim e 8 a Filipe.

Estes últimos nasceram em 1929. O nascimento de Joana e João deu-se aquando da publicação primeiros números da revista "Coeur Vaillants" onde eles apareceram pela primeira vez: acho que foi em 1936. Se Quim e Filipe são claramente belgas, Joana e João são de nacionalidade francesa.

Diga à sua mãe que não sei se o signor Cartofoli voltará a aparecer...

Agradecido pelos seus votos, também lhe endereço os meus com amizade.

Hergé.

tintin. be Traduzido e adaptado do francês por CGM

Infelizmente não existe nenhum newsgroup dedicado ao Mundo de Hergé nos dias que correm. Todavia, inúmeras são as perguntas que nos chegam por correio electrónico que, pelo interesse demonstrado, merecem um tratamento especial. Deste modo, encontrará aqui algumas respostas dadas por Hergé às vossas interrogações.

Para a primeira, escolhemos um tema bem clássico:

Que idade tem Tintim?

E se, em vez de nós, fosse o autor a responder à pergunta...

Pergunta: De : Cliente InterLinx, 08:17 am 21 de Abril 1996 / Tintin.be



quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Tintim em Macau


Adquiri, há alguns anos, numa loja da movimentada Rua da Palha, umas camisolas de algodão que tinham estampados quadrinhos tirados dos álbuns de Tintim, ou mesmo, nalguns casos, uma prancha completa. A loja já desapareceu. É agora uma sapataria. E as camisolas do Tintim, diferentes todas elas das versões oficiais vendidas nas lojas que mantém a presença de Hergé um pouco por todo o Mundo, continuam a servir no Verão, sobretudo quando vou a banhos. Sempre que passo na mesma rua, ainda tento descobrir o paradeiro da loja desaparecida, na busca de uma nova peça de vestuário, naturalmente contrafeita, que me lembre o velho e saudoso companheiro dos meus tempos de juventude e que continuo a reviver agora, com o mesmo proveito e a mesma alegria. Ando, por isso, aqui, em Macau, à procura do Tintim. Não, como os Dupond e Dupont, a percorrer, disfarçado, a cidade chinesa. Mas com a plena serenidade de quem está, não obstante a língua e os costumes, numa cidade cristã.

Falar de Tintim nesta cidade pode, à primeira vista, lançar alguma confusão. É que tin-tin era o nome que se dava às lojas de bricabraque chinesas que, no século passado, existiam em vários locais, sobretudo para os lados do Porto Interior, num largo dito “das melancias”, a que os chineses chamavam Lan-Kuoi-Lau, sendo também conhecida como “Feira da Ladra”. Ou aos vendedores ambulantes de ferro-velho que tudo vendiam e, aparentemente, consertavam. O nome, creio, tinha a ver com o barulho que o vendedor fazia batendo incessantemente um prego num pedaço de ferro, para chamar a atenção da interessada clientela. Esses tintins praticamente desapareceram. Hoje falar em Tintim – dingding, em mandarim – é lembrar os seus livros, sobretudo "O Lótus Azul", a mais conhecida aventura do nosso herói na China e o álbum que mais rapidamente se esgota nestas paragens. Nele, como sabemos, é-nos apresentado um jovem chinês, estudante da Academia de Belas Artes de Bruxelas, e cuja história e amizade com Hergé se tornou lendária.

Zhang Chongren (1907-1998), artista e escultor que ganhou merecida fama e tem, em Xangai, sua cidade natal, um museu que lhe é dedicado, deu origem, no álbum, à figura de Tchang (transcrição fonética de Zhang),   grande amigo de Hergé, na vida real, e que reaparece, de forma comovente, em "Tintim no Tibete". Publicado inicialmente na revista Petit “vingtième”, entre Agosto de 1934 e Outubro de 1935, com o título de "Tintim no Extremo Oriente", o álbum "O Lótus Azul" é verdadeiramente inovador, dando-nos uma visão mais correcta e realista da China de então, ainda pouco conhecida no Ocidente. Nele, ao contrário do álbum anterior, "As Aventuras de Tintim, repórter no Oriente", título inicial da versão moderna de "Os Charutos do Faraó", onde surge pela primeira vez o nosso simpático compatriota Oliveira da Figueira, não há qualquer personagem portuguesa. Como sabemos, são apenas três os nossos compatriotas que se cruzam com Tintim. Além de este amigo de toda a hora e dos momentos mais difíceis e inesperados, há o jornalista do Diário de Lisboa, em "Tintim no Congo" – cuja primeira versão entre nós foi "Tim-Tim em Angola", na revista O Papagaio – e o Professor Pedro João dos Santos, o célebre físico da Universidade de Coimbra, em "A Estrela Misteriosa".

E por que não, pergunto eu ao deambular por esta cidade, onde o Ocidente se cruza com o Oriente, um "Tintim em Macau", como continuação de "O Lótus Azul", passado em pleno período da Segunda Grande Guerra? Nesta cidade que já foi comparada, nesse período, à Casablanca que o cinema mitificou ou à velha capital portuguesa que, quando a Europa ardia em chamas, mantinha uma paz digna e difícil, embora não isenta de muitos sacrifícios. Uma paz de uma enorme grandeza, transformada na extraordinária Exposição do Mundo Português, em que Macau naturalmente participou, e tanto impressionou o criador de O Principezinho, Antoine Saint-Exupéry.

Para a feitura de este álbum podia muito bem contribuir o livro de João F. O. Botas, que o Instituto Internacional de Macau soube, em boa hora, editar. Estudo sério e muito bem documentado, que consegue dar uma boa visão de uma das épocas mais difíceis de este conturbado oásis de paz, entre 1937 e 1945. Oásis de paz, quando à sua volta grassava a guerra, a fome, a doença e a morte, e cujas consequências se faziam sentir também aqui diariamente. Traz-nos este livro figuras dignas de um bom álbum de Hergé e de episódios que dariam magníficas e coloridas pranchas. É certo que a violência parecia correr a par e passo, muitas vezes, com a pacatez do quotidiano. Mas outros álbuns do Tintim, como o próprio O Lótus Azul, já referido, se passam também em plena guerra, com ódios, traições e violências desmedidas. A arte de Hergé saberia, por certo, tudo dosear e fazer de Macau o centro inesquecível de mais uma fabulosa aventura de Tintim.

Fico a pensar em tudo isto quando leio o livro "Macau 1937-1945. Os Anos da Guerra". E nele vejo Tintim a falar com Pedro Lobo e com Monsenhor Manuel Teixeira. Imagino Hergé a relatar a chegada a Macau de várias malas de livros do historiador britânico Charles Boxer, quando os japoneses ocuparam Hong Kong. Como Danilo Barreiros, grande amigo do historiador inglês, possuía a chave de sua casa conseguiu assim salvar a preciosa biblioteca. Impressionante é também a vivacidade e o colorido que o criador de Tintim dá ao quartel-general do pirata Wang Kong Kit, situado na Avenida Horta e Costa. O contraste é Henrique Senna Fernandes – um dos meus escritores da estante reservada – a contar, com toda a graça e encanto que só ele tinha, as trapalhadas dos “detectives” Dupond e Dupont, perdidos entre os refugiados chineses, os macaenses de Hong Kong e os japoneses que se passeiam na cidade. Tudo isto sob o olhar atento do jovem Padre Lancelote Rodrigues, enquanto o pintor russo George Smirnoff tenta transformar rapidamente esta cena numa aguarela. Mas um dos melhores momentos do álbum é, sem dúvida – e penso que o leitor amigo é da mesma opinião -, o episódio, superiormente tratado por Hergé, da intrusão sub-reptícia de Tintim na casa do representante japonês em Macau e, ao sentir-se descoberto, a fuga apressada por um túnel, situado na cave do edifício, que, pensava ele, o traria rapidamente para o exterior. Mas o túnel ligava com a casa do vizinho que era, nem mais, nem menos, a do cônsul inglês em Macau!... Mais a frente, é o espanto de Tintim ao cruzar-se, na Avenida Almeida Ribeiro, com o americano William Gardner, fardado de oficial japonês. Espanto ainda maior, quando na última prancha do álbum, o vê fardado agora de oficial americano e ostentando, garboso, vistosa condecoração.

"Tintim em Macau", afinal, existe. Embora seja apenas na minha imaginação.

António Leite da Costa, 30/03/2013

O Prof. Dr. António Leite da Costa é historiador, Durante algum tempo esteve na blogosgera com o blog Tertúlia Invisível.

https://tertuliainvisivel.blogspot.com/2013/03/tintim-em-macau_30.html

Texto descoberto através do blog Macau Antigo:

http://macauantigo.blogspot.com/2013/10/tintim-em-macau.html