sexta-feira, 19 de setembro de 2025

O Papagaio


 “O PAPAGAIO” (1935 – 1949)

Um ano antes do aparecimento da famosa revista portuguesa de banda desenhada “O Mosquito”, surgia, a 18 de Abril de 1935, o jornal infantil católico “O Papagaio”, dirigido pelo prestigiado escritor/poeta/pedagogo Adolfo Simões Muller e pelo excelente artista gráfico Tom. A aventura de “O Papagaio” duraria 14 anos, sempre numa edição semanal (às quintas feiras), tendo chegado ao fim no nº722, a 10 de Fevereiro de 1949. A partir deste número, “O Papagaio” desaparece como revista autónoma, passando a constituir uma secção da revista católica “Flama”.

Deve-se afirmar, desde já, que nunca antes se haviam reunido tantos e tão bons escritores/autores e artistas/desenhadores numa só revista, tendo “O Papagaio” passado a constituir-se numa espécie de revista-modelo da imprensa infantil católica.

No que diz respeito ao trabalho gráfico, este estava a cargo de Tom, o qual era responsável por várias tarefas, entre as quais se destacavam as seguintes: maquetização inicial, capas, cabeçalhos, ilustrações soltas e histórias aos quadradinhos.

Pode-se afirmar, com toda a propriedade, que Adolfo Simões Muller e Tom formavam uma dupla que se complementava na perfeição, pois ambos partilhavam de um ideal estético comum e eram portadores de opiniões coincidentes relativamente à forma e conteúdo que “O Papagaio”. devia adoptar.

Os vários directores que passaram pela revista “O Papagaio” sempre apostaram em apoiar e incentivar os jovens valores nacionais que iam despontando, quer para a técnica da escrita, quer para a arte do desenho, nomeadamente das histórias aos quadradinhos. Neste âmbito, surgiram grandes desenhadores na revista, dos quais se destacam, por exemplo, os seguintes: em 1936, surgem Vasco Costa, Vasco Lopes de Mendonça e Arcindo Madeira; em 1937, aparecem Ilberino dos Santos, Rudy, Ruy Manso e José Viana.

Também Júlio Resende Dias, que, mais tarde, virá a tornar-se num nome grande da moderna pintura portuguesa, aparece pela primeira vez no nº32 de “O Papagaio”, em 21 de Novembro de 1935, criando dois heróis, “Freitas” e “Arrepiado”, primeiro através de diversas histórias cómicas e curtas aos quadradinhos, e depois em histórias em continuação.

Outro dos grandes desenhadores que trabalhou na revista “O Papagaio” foi José de Lemos, autor de histórias aos quadradinhos inventadas por si ou por Adolfo Simões Muller, tendo aquele criado o herói “Bambino, o Cão Ladino”.

António Serra Alves Mendes, mais conhecido pelo nome de Méco, foi autor das mais belas ilustrações infantis portuguesas. Sendo mais um artista do que propriamente um narrador, a sua melhor obra gráfica encontra-se dispersa pelas gravuras de contos de várias revistas da época, entre as quais “O Papagaio”, mas também em livros infantis, capas de romances e de almanaques.

Na revista “O Papagaio” foram ainda publicadas as inesquecíveis “Aventuras do Boneco Rebelde” de Sérgio Luís, artista genial com uma enorme capacidade inventiva e criativa, que viria a falecer com apenas 21 anos de idade, em 1943, vítima de uma tuberculose renal. O herói criado por Sérgio Luís é um garoto vestido com um bibe e calções, de cara redonda e cabelo com risco ao lado, visivelmente inspirado na imagem e figura do herói belga “Tintin”, criado por Hergé. Nestas histórias, o “Boneco Rebelde” revolta-se contra o seu desenhador, procurando descobrir, por todos os processos possíveis, uma forma de fugir do seu dono.

Também o seu irmão mais novo, Guy Manuel, colaborou na revista “O Papagaio”, vindo igualmente a falecer muito novo (6 meses depois do irmão), também com a mesma doença e com a mesma idade de Sérgio Luís, numa coincidência trágica. Enquanto que Sérgio Luís destacava-se, como atrás foi referido, pela sua inspiração inventiva e criativa, Guy Manuel salientava-se pela sua brilhante faceta artística.

Foram também inúmeros os escritores e colaboradores que a revista teve ao seu serviço, entre os quais se podem destacar os seguintes: Acácio de Paiva, Padre Moreira das Neves, Armando Ferreira, Luís Forjaz Trigueiros, António Botto, Aníbal Nazaré, Guedes de Amorim, o próprio Adolfo Simões Muller, entre muitos outros.

O conhecido autor e desenhador José Ruy, que se destacou ao serviço de grandes publicações, como “O Mosquito” e o “Cavaleiro Andante”, iniciou precisamente a sua carreira na banda desenhada na revista “O Papagaio”, em 1944.

A 16 de Abril de 1936 (nº53 da revista), um ano após o seu aparecimento, “O Papagaio” começa a publicar histórias de “Tintin” (a primeira aventura é “Tintin na América”), graças à decisão tomada por Adolfo Simões Muller de importar aquela série, após uma visita sua à Bélgica, onde teve oportunidade de apreciar as enormes qualidades narrativa e gráfica da obra de Hergé.

É pois de destacar e de sublinhar o facto de Portugal ter sido um dos primeiros países, fora das regiões francófonas, onde foi conhecido e divulgado aquele que se viria a tornar no mais famoso herói da banda desenhada europeia. Apenas na década de 50 é que o herói belga “Tintin” chegaria a Espanha, depois a Inglaterra, Brasil e EUA.

Entretanto, diga-se de passagem que, ao contrário do que se passou noutras revistas, as histórias aos quadradinhos de origem estrangeira apareceram, na revista “O Papagaio”, sempre em reduzida quantidade, ocupando uma parcela diminuta e quase insignificante no espaço da revista, à excepção, como já foi dito, das histórias de “Tintin” e de mais uma ou outra banda desenhada importada.

No nº 303 de “O Papagaio” (30 de Janeiro de 1941), o Director Adolfo Simões Muller abandona a revista indo dirigir, nesse mesmo ano, uma nova revista, chamada “Diabrete”. A direcção de “O Papagaio” passa então para Artur Bívar que se manterá no cargo até ao nº588, passando então o testemunho a José Rosa Ferreira, que, por sua vez, o transmitirá, no nº593, a Laurinda Borges Magalhães. Já nesta altura a revista entrara em declínio, vindo a terminar no nº722, a 10 de Fevereiro de 1949.

Em jeito de síntese e de balanço final, pode-se afirmar que “O Papagaio” manteve um excelente nível nos primeiros 5 anos da sua existência, até 1940. Contudo, o ano de 1941 marca, de certa forma, uma viragem em termos de qualidade da revista, a que não é alheia a saída de Adolfo Simões Muller para o “Diabrete” e, coincidência ou não, é a partir daí que a revista vai perdendo paulatinamente qualidade, até porque não se pode esquecer que, já nesta altura, “O Papagaio” tinha passado a contar com dois concorrentes de peso: “O Mosquito” há já algum tempo atrás e o recém chegado “Diabrete”.

De qualquer forma, é indiscutível e consensual considerar que o jornal infantil “O Papagaio” constituiu um marco incontornável e uma referência de qualidade na história da banda desenhada em Portugal, no que diz respeito especificamente ao universo das publicações infantis, ao mesmo tempo que marcou fortemente uma geração de crianças do nosso país.

Alexandre Morgado, 19 de Setembro de 2005

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