segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Tintin, Meu Herói

DA MEMÓRIA …JOSÉ LANÇA-COELHO

TINTIN, MEU HERÓI

Hergé, o ‘pai’ de Tintin, punha o seu filho, e o seu inseparável cão Milú, em aventuras extraordinárias, que eram complementadas com os impagáveis gémeos Dupont, as estrambólicas invenções do Professor Tournesol, que mais tarde o compararia com o meu mestre Jules Verne – ambos foram à Lua - , e, o carismático capitão Hadock, e que eram vistas, não lidas, por mim, pelo meu irmão e por todos os amigos que faziam parte do saudoso clube de futebol, lá da rua.

Andava eu pelos nove anos e os outros pelos sete. Nenhum de nós aprendera ainda a língua de Voltaire. Então, como não percebíamos uma palavra de francês, abríamos o livro mais recente do nosso herói – cada um de nós comprava o seu que depois compartilhávamos – e punhamo-nos a adivinhar o que cada um dos personagens dizia no primeiro quadradinho (só muitos anos mais tarde vim a saber que os quadradinhos na Banda Desenhada tinham o nome científico de vinheta)

A partir dos bonecos, inventávamos uma história que, na nossa imaginação, podia não coincidir com as palavras dos personagens de Hergé, mas, quando chegávamos às partes cómicas, a hilaridade que Hergé pretendia transmitir aos seus leitores, eram compartilhadas por um grupo de crianças, totalmente reduzidas à força das imagens e das expressivas onomatopeias que, não deixavam qualquer dúvida, sobre o que estava a acontecer.

O segundo irmão Dupont a repetir o que o primeiro dissera, mas precedido das palavras, “Eu diria mais”.

A impulsividade do capitão Haddock, quando estava furioso, - e não eram poucas as vezes -, ‘com os mil raios’, representados por montes de estrelas, que lhe saíam da boca, onde estava um cachimbo, cujo combustível consumido ainda não era proscrito como actualmente, pois a ciência ainda não descobrira os verdadeiros malefícios do tabaco.

Tintin e Milú, na sua simplicidade encarnada por um rapaz um pouco mais velho que nós, com quem nos identificávamos em todas as aventuras, e um cão que era igualzinho ao da Aninhas, a rapariga do prédio da frente, que já andava no Liceu – e sabia francês - e por quem todos nós estávamos apaixonados.

Mais tarde, quando descobri a poesia e, dentro desta, “os meus maiores”, mal sabia que, um deles, Miguel Torga,  nascera no mesmo ano do criador do meu herói preferido na Banda Desenhada.

Na verdade, o poeta português, cujo nome é Adolfo Correia da Rocha, pseudónimo Miguel Torga, nasceu a 12 de Agosto de 1907, em S. Martinho de Anta, enquanto Hergé, pseudónimo de Georges Prosper Remi, viu a luz do dia a 22 de Maio de 1907, em Bruxelas, cidade belga onde veio a falecer, a 3 de Março de 1983.

Os livros de Hergé/Tintin estão traduzidos em mais de 40 línguas.

https://arquivo.pt/wayback/20070717121244/http://cempalavras.blogs.sapo.pt/2007/06/25/

publicado por cempalavras às 23:57