quinta-feira, 28 de julho de 1994

“Os meus sonhos eram todos brancos”

No final dos anos 50, a popularidade de Hergé e do seu personagem Tintin iam de vento em popa. As tiragens multiplicavam-se e a fasquia do milhão de exemplares foi pela primeira vez ultrapassada. Mas nem tudo corria no melhor dos mundos: em 1958, Hergé foi afectado por uma grave crise pessoal que atingiu seriamente o seu trabalho criativo. “Tintin no Tibete” é, no seu todo, a expressão sublimada, e sublime, desse conflito interior.
“Naquela época, eu atravessava uma séria crise e os meus sonhos eram quase todos em tons de branco. E eram muito angustiantes. Tomava nota deles e recordo-me de um em que me encontrava numa espécie de torre constituída por rampas sucessivas. Folhas mortas caíam e cobriam tudo. A uma dada altura, numa espécie de alcova de uma brancura imaculada, aparecia um esqueleto todo branco que tentava apanhar-me. E nesse instante, à minha volta, o mundo tornou-se branco, branco. E eu punha-me em fuga, uma fuga desvairada...” Na série de entrevistas concedidas por Hergé a Numa Sadoul (“Entretiens avec Hergé”, de Numa Sadoul, Editions Casterman), é assim que o criador de Tintin recorda esse crítico ano de 1958. Nessa época, o autor dava forma, com grande esforço, a “Tintin no Tibete”, uma aventura que começou a ser publicada na revista “Tintin” (Bélgica) em 17 de Setembro de 1958, prolongando-se até 25 de Novembro do ano seguinte.
Há quase 35 anos.
O que os leitores actuais do álbum editado em Portugal pela Difusão Verbo não podem saber — a menos que procurem “por detrás” da obra as circunstâncias em que ela foi gerada e produzida — é que o psicanalista junguiano com quem Hergé fazia terapia o aconselhou vivamente a abandonar o trabalho quando ouviu a descrição daquele sonho.
Felizmente para nós, Hergé não lhe deu ouvidos, e assim surgiu “Tintin no Tibete”.
A atenção e a curiosidade que a obra do mestre belga têm despertado entre os estudiosos — é curioso constatar que o seu “rival” Astérix, apesar de constituir hoje um êxito de tiragens e vendas muito superior ao de Tintin, nunca suscitou tanto interesse por parte dos analistas e críticos — encontra nesta banda desenhada um terreno de trabalho de uma fertilidade quase sem limites. Na edição especial da revista francesa “(À Suivre)” de Abril de 1983, publicada um mês após a morte de Hergé, Benoît Peeters — o “tintinófilo” que é, simultaneamente, o argumentista do ciclo das Cidades Obscuras, em conjunto com o desenhador Schuiten — refere-se a esta obra como uma “forma de exorcismo”, o que na sua opinião lhe conferiria “esse tom tão particular, muito mais sério do que o das outras aventuras de Tintin”. De facto, há uma intensidade dramática em toda a narrativa que não cessa de aumentar até ao clímax — o momento em que o herói encontra o seu amigo Tchang, que todos julgam morto ou vítima do Yéti. E Numa Sadoul, nas já citadas “Entretiens avec Hergé”, sugere que esta história é como uma “espécie de ‘hino ao amor’”. “Digamos uma espécie de canto dedicado à amizade”, responde Hergé. O ponto de partida deste episódio — um sonho premonitório que leva Tintin, contra ventos e marés, a voar em socorro do seu amigo, quando há todas as probabilidades de Tchang estar morto — tem ocupado mais de um crítico. Os fenómenos paranormais atravessam com uma certa constância a obra de Hergé e são inventariados pelo mesmo Numa Sadoul num artigo publicado na desaparecida revista “Cahiers de la BD”, inteiramente consagrado ao autor belga. Premonições, telepatia, intervenções extraterrestres, simbolismos mais ou menos “obscuros” e outros fenómenos subjectivos têm o seu lugar, discreto por vezes, mais aberto em outras, nas histórias de Tintin. Acima de todos, porém, está o sonho. Para mais, premonitório...
“Mas eu acredito nos sonhos premonitórios”, respondeu Hergé a Sadoul. “No mesmo álbum, há também o fenómeno de levitação, que foi referenciado por um significativo número de autores dignos de crédito, como Alexandra David-Neel e Fosco Maraini [exploradores do Tibete no começo deste século], que passaram longas estadias no Tibete.”
O modo como Hergé trabalha este material ressalta claramente em “Tintin no Tibete”: entregando-se ao sonho, o autor selecciona entre os elementos os que são mais utilizáveis de um ponto de vista gráfico. Mas, ao contrário do que se poderia concluir, não é apenas esta dimensão do onirismo que interessa ao artista: “Eu utilizo a sua lógica [do sonho] ou, melhor ainda, a sua aparente falta de lógica. Os sonhos que habitualmente temos são tão vagos e de tal modo fluidos que é difícil desenhá-los: sente-se que é mais ou menos aquilo, mas quando lhes queremos dar uma forma, eles escapam-se-nos. É por isso que se torna necessário acrescentar ou suprimir coisas, ou seja, reconstruir o sonho.”
Como veículo e criador de símbolos, o sonho tem de qualquer modo um significado que pode ser associado à aventura individual. Por esse motivo, e por estar tão profundamente alojado no âmago da consciência, ele escapa ao seu próprio criador, surgindo como a expressão mais secreta e mais exposta de cada um. É isso que Hergé faz de forma mais ou menos explícita através dos comportamentos e acções do seu herói. E, mais do que em qualquer outra aventura, o simbolismo de “Tintin no Tibete” tem de ser avaliado à luz do percurso do próprio autor. A presença tutelar e avassaladora do branco — neste caso, a neve dos Himalaias por onde Tintin, Haddock, Milú e o “sherpa” se aventuram — tem tudo a ver com as “visões” e os sonhos-pesadelos de Hergé.
Significando tanto a ausência de cor, como a soma de todas as cores, o branco surge associado ao começo e ao fim da vida diurna e do mundo tal como ele se manifesta. Em numerosas tradições, o branco é a cor do “candidato”, ou seja, daquele que vai mudar de condição. Por isso, tem um valor limite, constituindo uma cor de passagem, no sentido em que essa ideia se associa aos ritos de passagem, que assinalam a morte de uma condição e o renascimento em e para outra. A esta luz, compreende-se perfeitamente que Hergé, numa fase de transição e mudança profunda na sua vida — de que o seu divórcio e posterior casamento com Fanny Vlamynck é apenas um aspecto —, tenha sido levado a “glosar” em todas as direcções o tema do branco.
Daí que a neve seja simultaneamente algo de sufocante e perigoso, mas que contém também em si mesmo uma dimensão redentora. Ora, se Tintin e os seus pares aceitam correr os riscos, enfrentar os perigos e lidar com as ameaças de uma dura prova, é porque sabem que no final há um prémio para a sua coragem, abnegação e amor: o encontro com Tchang. “Tintin no Tibete” é, de facto, o comovente hino à amizade de que Hergé falou um dia.

© 1994 Público/Carlos Pessoa