Os 80 anos de Tintin
QUIS SER JORNALISTA porque Tintin me convenceu de que os jornalistas eram aventureiros, viajavam muito e tinham sede de justiça. Eu acreditei que ser correspondente algures no mundo, viver emoções, percorrer muitos países, ter um amigo rico e grande bebedor, que dizia muitas asneiras, era o melhor para andar com cantoras de ópera gordas e namoradeiras, cientistas despistados, um cão esperto, polícias burros, sherpas simpáticos, sempre em movimento por enigmáticas cidades, diferentes continentes envolvidos em conflitos, atravessados por guerras e revoluções.
Este meu amigo, que me convenceu do que não existe, fez agora 80 anos, não envelheceu, não se inscreveu nos Repórteres Sem Fronteiras nem se sindicalizou. Ninguém lhe conhece namoradas nem tendências gay. Nunca o abandonei por ilhas, ceptros, lótus azuis, bolas de cristal, templos secretos, voos longínquos, viagens à Lua e o Tibete em paz. Mas já ninguém quer ser jornalista por causa dele.
Joaquim Letria, «24 Horas» de 6 de Fevereiro de 2009
Tido como um jornal de oposição, o Diário de Lisboa é naturalmente procurado por uma nova geração anti-regime, por vezes com uma aprendizagem política e cultural feita nas associações de estudantes. Joaquim Letria – que, desde os 13 anos, sonhava ser jornalista, imaginando-os, sob a influência de Tintin e dos romances americanos, a dar a voz a quem a não tem, defender os mais fracos, denunciar as arbitrariedades – anda, em 1961/62, “mês e meio a rondar o Diário de Lisboa”. Presidente da PróAssociação dos Liceus, envolvera-se no “luto académico”, perdera o ano e só um emprego lhe permitiria enfrentar a família. Recebido por Mário Neves [subdirector do jornal e comissário da Feira Internacional de Lisboa], este pergunta-lhe: “Você quer um emprego ou quer ser jornalista?”. E explica: “Se quer um emprego, eu arranjo-lhe um emprego na FIL ; se quer ser jornalista, é melhor pensar em que é que se vai meter!”
No DL, Letria vai, como vários outros, esforçar-se por driblar a Censura, escrevendo nas entrelinhas. “Mas isso era na geração que estava a começar”, recorda, “porque os velhos já estavam cansados disso. O Norberto [Lopes] não queria que o jornal se atrasasse por causa “dessas porcarias” e da censura. (…). O jornal não queria problemas, mas mantinha as suas distâncias relativamente à política do governo, sobretudo na questão colonial.”
Em 67 mandam-no acompanhar uma viagem de Américo Tomás à Guiné e a Cabo Verde. Vítor Direito, o chefe de redacção, dá-lhe as instruções: «Não precisamos de si para escrever a notícia do “venerando chefe do Estado”, para isso basta a ANI e a Lusitânia. Você vai para o caso de acontecer alguma coisa (se matarem o Tomás ou assim…) mas só escreve se achar que vale a pena”.
É que, nesse tempo, como afirma Carlos Pinto Coelho, chegado ao jornalismo em 68, as coisas “tinham a virtude de serem transparentes: os jornais exibiam cores, identidades, ideologia, quem os comprava sabia ao que ia.” Comprar o Diário de Lisboa ou o Diário Popular, o Século ou o Diário de Notícias, era um acto de escolha – e cada um dos títulos tinha os seus fiéis leitores (...)
Diana Andringa, SC Doutoranda - VI Congresso Português, 2008 - historico.aps.pt