segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Capitão da Limpeza


O Capitão Enfrenta o Juízo Final (ou quase)

No amanhecer seguinte, límpido, dourado, e com um ar tão puro que parecia provocar remorso a quem tivesse cometido excessos na véspera, o capitão Haddock apresentou-se no Colégio Fernão Lopes, de bata lavada (ainda húmida) e bigode penteado com uma dedicação quase cerimonial. Viera cumprir a sua promessa. Caminhava com passo tenso, como quem vai a uma audiência régia ou a um duelo inevitável.

Os alunos, mal o viram chegar ao portão, sussurraram entre si com uma mistura de admiração e travessura; alguns tinham mesmo preparado um cartaz que dizia “Bem-vindo, Capitão da Limpeza!”, mas a professora Lurdes, com um olhar só, fê-los esconder a obra de arte.

Mas o destino tinha outras intenções antes que Haddock pegasse num pano ou numa escova.

Mal transpôs o átrio, uma voz grave ecoou pelo corredor:

— Capitão Haddock?

Ele engoliu em seco. Reconheceu de imediato o tom solene, digno e levemente ameaçador de quem está habituado a discursar perante assembleias e a distribuir verbos firmes como quem oferece diplomas.

Era o Dr. Armando, o diretor do colégio — homem de porte austero, sobrancelha sempre meio franzida e voz que parecia destinada a proclamar sentenças desde o nascimento.

— Aqui estou eu… — respondeu Haddock, com aquele tom entre a bravura e o arrependimento que só marujos arrependidos conseguem dominar.

O diretor aproximou-se, devagar, com uma calma que só tornava o momento mais terrível.

Olhou-o de alto a baixo, como quem avalia os estragos invisíveis.

— Capitão — começou ele, pausadamente —, fui informado do… episódio de ontem.

Haddock pigarreou.

— Sim, bem… eu apenas conduzia uma pequena investigação científica…

— Científica? — interrompeu o diretor, arqueando a sobrancelha com tal elegância que metade dos alunos, escondidos ao fundo do corredor, suspiraram. — As nuvens de fumo que invadiram dois pisos, o cheiro persistente a palhete que ainda hoje perfuma o laboratório, e o estado… calamitoso… do material de ensaio não me parecem propriamente frutos da ciência moderna.

Haddock sentiu o bigode tremer.

— São… circunstâncias que escaparam ao controlo… técnico.

O Dr. Armando prosseguiu, erguendo o dedo indicador num gesto messiânico:

— O colégio poderia, em casos como este, aplicar uma medida disciplinar exemplar! A expulsão imediata das instalações! E, tendo em conta a dimensão do estrago… — aqui fez uma pausa dramática — …a eventual proibição de voltar a entrar em qualquer espaço público no país por… tempo indeterminado.

Os alunos, ao fundo, arregalaram os olhos; Astérix apertou o capacete; até um pardal, pousado no parapeito, pareceu conter a respiração.

O capitão Haddock ficou lívido — uma palidez só comparável à que sentira uma vez quando, no mar do Norte, confundiu uma garrafa de água com gasolina de motor.

— Expulso? Proibido de entrar em espaços públicos?! — gaguejou, olhos esbugalhados. — Trovões e ventos glaciais… isso é pior do que enfrentar uma tempestade! Ou um romano com catapulta!

Por momentos pareceu que ia desmaiar, mas endireitou-se, puxou o colarinho e, numa atitude inesperadamente nobre, declarou:

— Se assim tiver de ser… aceitarei o castigo! Um marinheiro honra sempre os seus atos, mesmo quando são… idiotas.

Fez-se silêncio.

Foi então que a professora Lurdes Moreira surgiu ao lado do diretor, como uma brisa suave que atravessa a sala antes da tempestade final.

— Dr. Armando — disse ela, com a serenidade de quem sabe que a palavra certa pode salvar um império — o capitão já reconheceu o erro. E veio cumprir a sua promessa. Além disso… — sorriu de leve — será útil na limpeza. É forte. E, ao contrário de ontem, hoje parece sóbrio.

O diretor hesitou. Depois pigarreou.

— Muito bem. — Declarou. — Aceitarei a sua colaboração… sob supervisão rigorosa.

Haddock deixou escapar o ar dos pulmões como quem regressa de uma batalha viva.

— Capitão — concluiu o diretor — que isto lhe sirva de lição. Da próxima vez que desejar realizar experiências… avise primeiro. Ou, de preferência, não realize.

— Palavra de marinheiro, senhor diretor! — respondeu Haddock, erguendo a mão em juramento. — Nunca mais tocarei em vinho dentro de um laboratório! Nem em vinho… científico.

Astérix arregalou os olhos.

E assim, perdoado mas não ilibado, o capitão Haddock seguiu para o laboratório, pronto a enfrentar a verdadeira batalha: esfregonas, detergentes, vidraria manchada… e talvez, com sorte, a redenção perante a doutora Lurdes. Ver menos

Estórias de Ourém, 03/12/2025 



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