terça-feira, 14 de setembro de 1993

A voz dos críticos

Benoît Peeters: influências e influências 

“A ideia que presidiu à criação da colecção ‘Bibliothèque de Moulinsart’ foi dar a conhecer aspectos muito diversificados da obra de Hergé e tornar públicas abordagens diferentes de um mesmo objecto. A colecção, que começou em 1987, tem uma dezena de títulos já publicados, que incidem, como pode ser comprovado sem dificuldades, sobre múltiplas dimensões das bandas desenhadas criadas pelo artista belga. O facto de terem aparecido, após a morte do artista, tantas obras — e as da colecção que eu dirijo são apenas uma pequena parte do que foi editado até ao momento — demonstra que há um interesse sólido em conhecer a riqueza da obra em questão. E isso é um aspecto a que eu sou particularmente sensível. É claro que há um perigo de saturação com a enorme quantidade de obras editadas, mas, no que nos diz respeito, tivemos sempre uma preocupação muito clara de restringir o número de títulos a uma quantidade razoável, ou seja, a uma média de um por ano. Como a maioria das pessoas, o meu interesse pelas aventuras de Tintin começou na infância, quando lia as peripécias vividas pelo personagem e pelos seu companheiros, e que se prolongou pela adolescência. Hoje, o que mais me impressiona neste processo de aproximação à obra de Hergé é o facto de que, sempre que me debruço sobre ela [Benoît Peeters é o autor de uma obra, publicada na colecção que dirige, intitulada “Le Monde de Hergé”], chego a respostas e constatações diferentes. Mas mais importante do que o meu percurso pessoal, é o de muitos autores que foram influenciados por Hergé. E aí, há que fazer claramente uma distinção entre duas coisas: de um lado estão uma série de desenhadores, do outro aquilo que é conhecido pela designação de ‘linha clara’. Esta última é apenas um dos aspectos em que se traduz a influência de Hergé, nomeadamente no aspecto gráfico. A prova disso está no facto de ter diminuído de importância e de peso com o decorrer dos anos, pois muitos dos autores que encabeçaram esse movimento emigraram para a ilustração, a publicidade, ou a pintura. É o caso de Ted Benoit ou de F’loch, por exemplo, e para apenas citar dois casos muito marcantes. Mas há outra realidade. Por exemplo, eu próprio trabalho com um desenhador chamado Goffin, alguém que está muito directamente marcado pelo estilo de Hergé, mas que conseguiu encontrar uma postura criativa muito pessoal. Mas penso que Hergé conseguiu criar algo de muito profundo que, em todo o caso, está presente na obra daquele artista e que se projecta de uma forma muito menos visível em outros autores contemporâneos que não se reivindicam directamente da influência gráfica de Hergé. Schuiten, com quem também tenho colaborado, ou Tardi, por exemplo.”
Benoît Peeters, ensaísta, crítico e argumentista de banda desenhada, é o director da colecção “Bibliothèque de Moulinsart”, consagrada à publicação de estudos sobre a obra de Hergé. 

Henri Filippini: um grande negócio “A comercialização cada vez mais intensa em torno da obra de Hergé é uma das características mais marcantes do período que se seguiu à morte do artista belga. A sua viúva soube explorar admiravelmente a obra do autor — talvez mesmo melhor do que ele próprio — e vimos surgir um número impressionante de estudos, pesquisas, documentos e reedições de todas as formas e feitios das obras de Hergé. Se me perguntarem qual é o significado mais profundo desse fenómeno, diria que ele é, antes de mais, um fenómeno comercial e interrogo-me mesmo se, caso Hergé fosse ainda vivo, aceitaria de bom grado tudo isso. Sobretudo se pensarmos que ele era tão discreto relativamente à sua obra! Atrevo-me mesmo a afirmar que teria posto um ponto final em todo este espectáculo. Isto quer dizer, evidentemente, que a minha atitude face aos herdeiros de Hergé é muito crítica. Curiosamente, à medida que sobe de tom esse movimento comercial, os desenhadores que se inspiram na ‘linha clara’ tornaram-se cada vez menos numerosos. Vejamos: de um lado estão os clássicos, como Bob de Moor, recentemente falecido, Jacques Martin, Vandersten e outros, que são mais discípulos ou colaboradores do que herdeiros de Hergé. Ao fim e ao cabo, eles integram o núcleo dos que trabalharam com ele na revista ‘Tintin’. Por outro lado, há uma nova geração que se inspirou em Hergé para se exprimir na banda desenhada. Essa corrente manifestou-se pela primeira vez nos anos 70 — é o caso de Floc’h, Ted Benoit e outros —, mas hoje esses autores abandonaram na sua maioria a banda desenhada ou então trabalham muito pouco neste registo. Em suma, a ‘linha clara’ é um fenómeno que durou no máximo uma dezena de anos, e tem vindo a apagar-se pouco a pouco. Não sei se se pode dizer que deixou de existir, mas é incontestável que tem menor expressão do que há uma dezena de anos. Quem resta? Daniel Torres, em Espanha, parece-me o autor mais produtivo dentro desse estilo, mas não há novos autores que se tenham manifestado nos tempos mais recentes. Isso prova que se tratou, de facto, de um movimento historicamente datado entre meados da década de 70 e o início dos anos 80. Na minha opinião, a abundância de produtos relacionados com Hergé também contribuiu para matar um pouco as obras integradas na ‘linha clara’, ou que tinham nela a sua referência inspiradora. Aliás, os adeptos desta corrente são hoje em dia muito menos do que se pode pensar. Por outro lado, o volume de negócios gerado pelos produtos derivados de Hergé e do seu universo é muito maior do que aquele que resulta da venda dos próprios álbuns. Esta é, pelo menos, a realidade em França. Os objectos — camisolas, distintivos, bonecos, etc. — tornaram-se mais importantes do que a própria obra. O facto de, em certos períodos do ano, se verem montras repletas de produtos inspirados na obra de Hergé mas entre essa profusão de objectos não se encontrar um único álbum de Tintin fala por si. O que resta hoje é um enorme negócio que dá muito dinheiro a ganhar aos herdeiros de Hergé, e nomeadamente à sua viúva.”
Henri Filippini é crítico e divulgador francês de banda desenhada, chefe de redacção da revista “Vécu” (Éditions Glénat) e autor de várias obras dedicadas à BD, nomeadamente o “Dictionnaire de la Bande Dessinée”. 

Thierry Groensteen: o clássico absoluto
“O lugar de Hergé e da sua obra no mundo da banda desenhada é simples de situar: ele faz parte do património cultural do século XX e do imaginário de várias gerações. Esse lugar continua a reforçar-se sem cessar. Hergé tornou-se definitivamente uma espécie de norma de referência do clássico absoluto da banda desenhada europeia. Um arquétipo? Eu não iria tão longe, porque há mil e uma maneiras de fazer banda desenhada, todas elas legítimas. O que ressalta mais em Hergé é, por um lado, uma espécie de universalidade do mundo que ele criou. Algo de espantoso, quando pensamos que é um belga oriundo de um meio muito reaccionário, burguês, católico, trabalhando num jornal quase de extrema-direita, sem uma cultura particular quando começou a desenhar e que só saiu do seu país muito mais tarde, quando já era muito conhecido. É difícil de imaginar que uma pessoa como ele tenha criado uma obra que é lida e apreciada em todo o mundo e por gerações sucessivas. Há em tudo isso uma aura de mistério, que não é mais do que a marca do seu génio. Por outro, o que mais me impressiona na obra de Hergé é a sua dimensão enciclopédica, ou seja, o facto de Tintin ter visitado todos os continentes e de se ver confrontado com todas as situações e objectos característicos da sua época. Mais: eu próprio me vejo frequentemente em situações do quotidiano que me fazem lembrar episódios — devo confessar que conheço todos os álbuns de Tintin como as palmas das minhas mãos —, que se assemelham a esta ou aquela sequência das aventuras do jovem repórter. E o segredo disto está no facto de as obras de Hergé serem, entre todos os álbuns de banda desenhada, aqueles que melhor, mais fácil e frequentemente se deixam ler, com a sua actualidade sempre incólume. “Depois da morte de Hergé, verificou-se um fenómeno — muito sobre-avaliado, aliás — conhecido pela designação de ‘linha clara’, a que se deu uma importância muito exagerada relativamente à realidade e ao interesse que de facto representou. Em termos de qualidade pode, quanto muito, falar-se de dois ou três autores que tinham uma efectiva identidade — é o caso de Swarte, que de resto estava mais próximo do americano McManus que de Hergé. A maioria dos autores que se inseriam naquela corrente eram pessoas que lá chegaram depois de terem experimentado diversos estilos, mas que supriam uma falta de identidade com Hergé no plano estilístico com o recurso a um vocabulário que lhes parecia eficaz para obter uma obra minimamente conseguida. “O problema é que estes seguidores de Hergé reduziram a sua obra apenas à componente gráfica e ainda por cima recorrendo ao Hergé ‘tardio’, ou seja, da fase em que a sua obra é produzida nos estúdios com o seu nome, de forma estandardizada. E o génio gráfico das obras a preto e branco, onde é possível encontrar porventura os mais belos desenhos de Hergé, ou pelo menos os mais livres e suaves? “Ao tratarem o estilo de Hergé como um puro sistema gráfico, os autores da ‘linha clara’ produziram uma obra redutora e, em todo o caso, muito pobre. A prova é que esse movimento não criou nada de muito significativo e está mesmo em vias de se extinguir. Para mim, a verdadeira herança que Hergé deixou não é de natureza gráfica, mas romanesca, narrativa. Ninguém como ele conseguiu introduzir tão harmoniosamente nas suas histórias o real e o imaginário, o ‘suspense’, a acção e o humor, o que é muito raro! Por outro lado, soube construir ao longo dos episódios um universo coerente e mitológico muito peculiar, e que não deixou de se consolidar e ampliar, recuperando constantemente as premissas dos episódios anteriores. Ora, isto são coisas que é muito raro encontrar nos autores contemporâneos de banda desenhada.”
Thierry Groensteen é crítico de banda desenhada e professor da Escola de Belas Artes de Angoulême, colaborando com diversos editores em várias áreas culturais.
© 1993 Público/Carlos Pessoa

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