sexta-feira, 22 de outubro de 1993

Um homem para a eternidade

Nove em cada dez europeus saberão quem é Tintin? E Hergé, que lugar ocupa nos conhecimentos dos cidadãos? Como parece óbvio, tudo dependerá do lugar da Europa onde a pergunta for colocada e de saber se o inquirido é um especialista, um simples amador ou alguém a quem as histórias aos quadradinhos dizem, respectivamente, muito, pouco ou nada... Os índices de popularidade reduzem-se à medida que se avança na galeria dos personagens: Capitão Haddock, Milou, professor Tournesol, irmãos Dupond(t), Castafiore, Lampion, Rastapopoulos, Xyssa, Abdallah ou Zorrino, num total de mais de três centenas de personagens humanos ou animais. Para contrariar esta tendência, só mesmo a presença do secundaríssimo senhor Figueira de Oliveira, o comerciante português que tem na massa do sangue o vício de vender tudo e mais alguma coisa, sem excluir a sogra ou a mãe... e que só por falta de consciência cívica não seria o mais votado pelos inquiridos portugueses. Foi graças a esta extensíssima galeria de personagens que a banda desenhada Tintin conquistou o lugar que hoje ocupa na história da BD mundial. Para muitos, terá sido com esta série que a banda desenhada europeia moderna — isto é, tal como a conhecemos hoje — realmente começou. E uma prova irrefutável desse papel consistiria na eclosão de todas as modas, tendências e correntes que, em seu nome ou contra ele, terão surgido ao longo dos últimos 50 anos. No dia 10 de Janeiro do ano que vem, ter-se-ão passado 65 anos desde que Tintin fez a sua primeira aparição no “Petit Vingtième”, onde se inicia a aventura “Tintin au Pays des Soviets”. Hergé não começou aí a sua carreira — “Totor, C. P. des Hannetons”, uma história de e para escuteiros, saiu no ano anterior em “Le Boy-Scout Belge” —, mas seria aquele evento que marcaria definitivamente toda a sua carreira. Tintin absorveu todas as energias criativas do seu progenitor e nenhum dos grandes temas de actualidade ficaram por abordar nas 22 aventuras que ele nos deixou. Nem sempre a abordagem terá sido a mais equilibrada ou sensata, mas, num mundo desde sempre profundamente dividido entre “bons” e “maus”, “reaccionários” e “revolucionários”, o ponto de equilíbrio consensual é algo de quase inatingível. Talvez por isso, Hergé tenha sido, consoante os momentos históricos, criticado ou elogiado, denegrido ou incensado. Em qualquer das circunstâncias, nunca as suas obras deixaram ninguém indiferente. Haverá melhor recompensa para um criador que essa afirmação para além da morte e do esquecimento? No dia 3 de Março último, passaram-se dez anos sobre a morte de Hergé, em Bruxelas. Na altura, o acontecimento foi registado à escala mundial, com todos os meios de comunicação e informação a registarem a notícia em primeira página, e jornais houve — caso do “Libération”, em França — que conceberam um número histórico totalmente ilustrado com imagens das histórias de Tintin. Antes de correr mundo como notícia necrológica, o herói de Hergé já o fizera como repórter — apesar de, como foi repetidamente sublinhado, nunca ninguém o ter visto escrever ou publicar uma notícia —, marcando presença no país dos sovietes, na América, em África, na América Latina, na China, no Tibete, no Médio Oriente, na Austrália e... na Lua, onde aterrou em 1953, 16 anos antes do astronauta norte-americano Armstrong. Poucos autores terão, por outro lado, levado tão longe o aprofundamento e concretização da ideia de aventura, que constitui uma das traves-mestras da obra hergeniana. De facto, se o leitor conseguir olhar sem preconceitos de qualquer natureza para as diversas aventuras de Tintin, compreenderá que a acção, o mistério, o enigma, o “suspense”, as voltas e contra-voltas das histórias, ora aproximando, ora distanciando o desenlace final — a palavra “Fim”, que foi, durante décadas, a derradeira vinheta das histórias aos quadradinhos clássicas —, eram o vínculo invisível mais sólido e duradouro entre o artista, o seu herói e o leitor. Primeiro, na tradicional publicação semanal em revista, em sequências de uma ou duas pranchas em continuação. Depois, na leitura sem interrupções permitida pela edição do álbum. Paradoxalmente, foi num dos momentos mais difíceis da sua vida, durante a ocupação da Bélgica pelas forças nazis, que as histórias de Tintin foram mais “puras” do ponto de vista da aventura, já que só era possível trabalhar num contexto de completa ausência de alusão à realidade social, política e militar envolvente. É o período de “O Caranguejo das Tenazes de Ouro”, “A Estrela Misteriosa”, “O Segredo do Licorne”, “O Tesouro de Rackham, o Terrível” e “As Sete Bolas de Cristal”. A sua extraordinária “performance” estética tem como contraponto a primeira grande polémica em que Hergé se vê envolvido. Como trabalhara durante a ocupação num jornal colaboracionista (“Le Soir”), é acusado e preso, mas libertam-no pouco tempo depois, sem nunca ter sido julgado. Nos início dos anos 50, verifica-se um salto qualitativo nos seus métodos de trabalho, com a criação dos Studios Hergé, onde trabalham alguns dos autores que mais tarde se tornarão nomes grandes da BD europeia: Bob de Moor, que o acompanhou até à morte, Jacques Martin, Roger Leloup, Baudoin van den Branden e outros. A par de novas aventuras, inicia-se um ambicioso projecto de reformulação sistemática das aventuras publicadas até então, que se traduz na inclusão da cor e, em muitos casos, numa radical alteração da sua concepção e planificação. Assim nasce o “novo Tintin”, tal como hoje é conhecido em todo o mundo. É um período de grande actividade, que sofrerá um forte abalo na década de 60, anos de toda a constestação revolucionária. Os meios intelectuais são fortemente abalados — e, em muitas sociedades, serão mesmo os catalizadores desses processos políticos — e Hergé volta a cair em “desgraça”. Sucedem-se as leituras ideológicas das suas obras, que não resistem a uma apreciação política de teor marxizante. Hergé é sentado, à força, no banco dos réus da opinião pública e obrigado a defender-se dos crimes mais abomináveis: racista, xenófobo, anticomunista, reaccionário e anti-semita. Após a sua morte, manifesta-se um fenómeno de sentido praticamente inverso. A banda desenhada torna-se objecto de estudo universitário e multiplicam-se as teses académicas sobre os quadradinhos e os seus autores. Hergé é um dos autores mais analisados, estudados, dissecados e radiografados. Procuram-se motivações psicanalíticas para os seus impulsos criativos. Especula-se sobre a natureza das relações entre os seus personagens. Equacionam-se as orientações e opções temáticas assumidas ao longo de décadas. Os brilhantes anos 80 são, por outro lado, a sua “idade de ouro”, embora já póstuma, com o aparecimento do fenómeno estético conhecido por “linha clara”, isto é, de autores que se reivindicam da influência gráfica do artista, entre os quais Swarte, Tardi, Floc’h, Clerc, Pere Joan ou Torres. É um pouco de tudo isto que estará em foco na exposição “O Mundo de Tintin”, organizada pela Fundação Hergé, uma instituição criada após a morte do artista para gerir o património e os direitos do autor. São quatro pequenas salas dedicadas a outros tantos temas que o visitante abordará como quiser. Será mais agradável se Tintin estiver entre os seus heróis dilectos.

 © 1993 Público/Carlos Pessoa

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