terça-feira, 27 de outubro de 2026

Tintim no País do Ouro Negro


A imagem publicada é uma adaptação para português (feita facilmente por IA) da capa da revista Tintin nº 47 de 27 de Outubro de 1949. Os vários personagens interagem com Hergé que estava desaparecido há alguns meses.

Oliveira da Figueira (com o cesto de frutas): «Lá está ele de novo! Que sorte! Eu estava a perguntar-me o que ia inventar para contar aos criados do Professor Smith...».

Dr. Muller (atrás, de casaco verde e barba): «Raios! Ele vai voltar a pôr o Tintin no meu rasto!...».

Emir Ben Kalish Ezab (de trajes árabes): «Irá ele finalmente permitir ao Tintin encontrar o meu querido pequeno Abdallah?».

Capitão Haddock (de camisola azul e cachimbo): «E trata-se de preencher estas páginas, não é, filhote? E depressa, mil raios!...» .

Dupond (à esquerda de Hergé): «Acabou-se a brincadeira, meu rapaz! Ao trabalho!».

Hergé (ao centro, de camisa vermelha e amarrado).Dupond (à direita de Hergé): «Eu diria ainda mais: ao trabalho!».

Professor Girassol (com o péndulo e bengala): «Era para o Oeste que se devia procurar; eu nunca disse outra coisa...».

Tintin (de camisola azul e calças castanhas): «É isso, amigos! O Hergé foi encontrado! Vamos finalmente conhecer a continuação de "O Ouro Negro"!».

Milou: «Desgraça! Eu que estava tão tranquilo!... "Ele" vai lançar-me novamente em carradas de aventuras!» 

Ao centro, vê-se o próprio autor, Hergé, de camisa vermelha e de mãos algemadas, a ser escoltado por várias personagens. Tintin surge no canto inferior direito a acenar alegremente e a anunciar aos leitores que Hergé foi finalmente encontrado e que irá dar continuidade à aventura "O Ouro Negro". Ao seu lado, o cão Milou resmunga sobre o regresso às aventuras. Capitão Haddock (no lado esquerdo) aponta para Hergé com papéis na mão, a exigir mais pressa para preencher as páginas ("mil raios!...").   Dupond e Dupont seguram Hergé pelos ombros, dizendo-lhe que "acabou-se a brincadeira" e que é altura de voltar ao trabalho. O professor Girassol diz que "Era para o Oeste que se devia procurar...". Aparecem ainda outras personagens como o Emir Ben Kalish, Dr. Muller (Prof. Simth) e Oliveira da Figueira.

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Uma história das arábias

Quando o mês de Setembro de 1939 está a chegar ao fim, a última aventura da série Aventuras de Joana, João e do Macaco Simão é bruscamente interrompida a meio. A decisão é do próprio Hergé, que pode consagrar todo o seu tempo e energia a Tintim. No dia 25 de Setembro daquele ano começa uma nova aventura do seu herói nas páginas do "Le Petit Vingtième". Esta história, anos mais tarde intitulada "Tintim no País do Ouro Negro", é hoje distribuída com o PÚBLICO.

Nessa fase final do ano, a iminência da guerra total pesa no quotidiano de todos os europeus. Como os demais concidadãos, o criador de Tintim é mobilizado e parte para um quartel na cidade de Turnhout, no Norte da Bélgica. Para assegurar a continuação da banda desenhada nas páginas do jornal, Hergé organiza-se para fazer chegar todas as semanas à redacção as duas pranchas da história.

Misteriosas explosões estão no centro das atenções dos irmãos Dupond(t), chamados a esclarecer o enigma. Para Tintim, porém, são os inquietantes ecos da actualidade - "A situação é grave", "Teremos guerra?", "Chamada de reservistas", lê no jornal - que o preocupam e lhe chamam a atenção. Poucas vezes a consonância entre realidade e ficção foi tão precisa.

Nos primeiros dias de Abril de 1940, as tropas alemãs invadem a Dinamarca e a Noruega. Hergé consegue a sua desmobilização por razões de saúde. No meio de tanta instabilidade (à cautela, o jornal enviou a todos os colaboradores um pré-aviso de despedimento e o próprio Hergé está tecnicamente desempregado desde Fevereiro), a aventura de Tintim continua a ser publicada há quase oito meses. Em pleno deserto, o herói volta a enfrentar o doutor Müller, mas encontra-se em maus lençóis: o malfeitor derrubou-o e prepara-se para o atingir à queima-roupa quando...

Os leitores não chegarão a saber como é que Tintim sai daquele aperto, pois o jornal "Vingtième Siècle" cessa abruptamente a publicação em 10 de Maio de 1940. Desta vez, não há qualquer golpe de teatro imposto pelo ficcionista, mas a imposição brutal de uma realidade: as tropas de Hitler invadem a Holanda, a Bélgica e a França, lançando estes países no caos. Dois dias mais tarde Hergé apresenta-se às autoridades militares, mas é dado como inapto e volta para casa. Não ficará desempregado muito tempo, pois começa a trabalhar poucos meses depois no jornal colaboracionista "Le Soir", de Bruxelas.

Para voltar a ter notícias de "Tintim no País do Ouro Negro" e saber como o herói sai da situação, é necessário dar um salto no tempo de alguns anos, para nos determos no final do Verão de 1948. Ao regressar de férias, marcadas por mais uma das suas recorrentes crises pessoais, Hergé traz uma insuspeita energia para o trabalho. No Outono, retoma aquela aventura na revista "Tintin" (edição belga), saindo exactamente com o mesmo formato com que será depois publicada em álbum.

Ao longo dos anos, a galeria de personagens tinha sido enriquecida e Hergé não o podia ignorar. É o caso, nomeadamente, de Haddock, cuja ausência terá de ser explicada aos leitores. A solução é eficaz, pois o capitão é mobilizado nas primeiras pranchas e só volta a surgir quase no fim da aventura com os salvadores de Tintim, que estava em mais uma situação de aperto. O artista reordena algumas das sequências da história, faz entrar em cena Girassol e o castelo de Moulinsart, e reintroduz o inefável comerciante português Oliveira da Figueira. Mas as estrelas convidadas são o emir Ben Kalish e o seu irrequieto filho Abdallah, graças aos quais Hergé injecta na narrativa uma deliciosa série de "gags" que põem os nervos em franja a toda a gente.

Carlos Pessoa, Público, 23/01/2004

Tintm no país do Ouro Negro

O começo e o fim da história estão separados por mais de uma década, durante a qual o mundo viveu a Segunda Guerra Mundial. A versão definitiva é dos anos 60.

Muitas são as histórias de Tintim que sofreram transformações mais ou menos significativas. Mas “Tintim no País do Ouro Negro”, o álbum que amanhã será posto à venda com o PÚBLICO, bate todos os recordes.

O regresso do herói ao Médio Oriente tem início no dia 25 de Setembro de 1939, no “Le Petit Vingtième”. As nuvens sombrias que pairavam sobre os destinos da Europa à data da publicação da aventura anterior, “O Ceptro de Ottokar”, transformaram-se em acesa borrasca. Ou seja, a guerra tornara-se uma realidade e o estatuto de neutralidade que a Bélgica reivindicou para si não pôs o país a coberto das consequências do conflito. Em 8 de Maio de 1940, o “Vingtième Siècle” interrompe abruptamente a publicação, arrastando consigo o suplemento onde as histórias de Tintim eram inseridas. 

A acção de “Tintim no País do Ouro Negro” pára na página 56, correspondente à página 26 da actual versão.

Durante os anos seguintes, Hergé concentra as suas atenções em outros projectos, a começar por “O Caranguejo das Tenazes de Ouro”, que surge alguns meses mais tarde no jornal “Le Soir”. Decorrem assim mais de oito anos antes que o criador belga decida retomar a história, desta vez nas páginas da revista “Tintin”, criada por si e alguns amigos, em 1946, após o fim das hostilidades.

Ao pegar na história, Hergé apercebe-se de imediato que se impõem alterações, pois os anos entretanto passados viram chegar à série personagens novos, como o capitão Haddock, Girassol e o próprio castelo de Moulinsart. Para os integrar sem conflito no espírito da aventura, o autor decide “mobilizar” Haddock, que desaparece logo nas primeiras páginas e só volta a ser visto quase no fim. O fino sentido de humor do artista é posto uma vez mais em evidência, pois Hergé decide esclarecer através do próprio capitão o bizarro eclipse de um dos personagens fulcrais da série: é em vão que, ao longo das últimas pranchas, Haddock tenta relatar “o que é uma coisa ao mesmo tempo muito simples e muito complicada”. Os leitores não chegarão a saber pela boca do marinheiro as razões que o afastaram da narrativa…

As atribulações desta banda desenhada não acabam aqui. Nos anos 60, a pedido do seu editor inglês, Hergé reformula “Tintim no País do Ouro Negro”, eliminando elementos considerados muito datados — em particular, os uniformes — e simplificando a própria narrativa. Bob de Moor, o seu incansável colaborador, deslocar-se-á ao porto de Antuérpia para recolher elementos de um petroleiro dos anos 40 que servirá de modelo ao “Speedol Star” da aventura.

Desse esforço resultará a versão definitiva que é distribuída amanhã. O doutor Müller, ausente desde “A Ilha Negra”, está de regresso com o pseudónimo de professor Smith. Para variar, os Dupond(t) fazem das suas e assiste-se à aparição de uma dupla deliciosa — o emir Ben Kalish e o seu endiabrado filho Abdallah. Este é uma fonte inesgotável de “gags” que põem Haddock à beira de um ataque de nervos e fazem mesmo perder a paciência a Tintim. Um e outro voltarão a ser confrontados mais tarde, para desespero próprio, com as diabruras do “querido passarinho das ilhas”…

Carlos Pessoa, Público. 22/01/2004

- Foi inicialmente publicado de setembro de 1939 até a invasão alemã da Bélgica em maio de 1940, na qual o jornal foi fechado e a história foi interrompida. Após oito anos, Hergé retornou à Tintin au pays de l'or noir, completando a sua publicação na revista Tintin, de setembro de 1948 a fevereiro de 1950, e republicado no formato álbum pela Casterman em 1950. (w)

- O nome da história era inicialmente apenas "L'Or Noir".

- O capitão Haddock, Girassol e o próprio castelo de Moulinsart não existiam quando a aventura começou a ser feita por isso foram integradas na história.

- A pedido da editora britânica de Hergé, Methuen, em 1971, ele fez uma série de alterações em Tintin au pays de l'or noir, transferindo o cenário do Mandato Britânico da Palestina para o estado fictício de Khemed. (w)

- Foi lançada em álbum pela Record em 1970 mas em revistas portuguesas apenas foi lançado em 1980 através da revista Tintin.


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