domingo, 12 de setembro de 2021

Momentos na Vida de Um Leitor de BD

Momentos Marcantes na Vida de Um Leitor de Banda Desenhada

Aqueles que têm a minha idade, ou cuja idade se aproxime da minha, lembram-se de como "banda desenhada" (um francesismo, já a demonstrar, só por si, alguma coisa) ou, melhor ainda, "BD" (acrónimo que, na esteira de Edmond Baudoin, me recuso a utilizar) era quase sinónimo, em Portugal, de banda desenhada comercial franco-belga. Repito o que já escrevi num destes posts: toda a banda desenhada é comercial, mas, tal como um aforismo célebre sublinha, se todos são iguais, uns são mais iguais do que outros e, portanto, se todas as banda desenhadas são comerciais, há bandas desenhadas bem mais comerciais do que outras. (...)

Voltando ao princípio: se recuarmos umas décadas encontramos João Paiva Boléo, no jornal Expresso, e Carlos Pessoa, no jornal Público, para quem Lucky Luke, Astérix e o inevitável Tintin eram quase tudo o que, com origem nos nortes europeus, merecia ser divulgado. Como se não bastasse, no "quase" acima só cabia o que as fábricas de bestsellers em França e na Bélgica iam debitando no mercado. 

Nestas "Memórias de Um Desmemoriado" estou, mais uma vez, à mercê da dedução porque, claro, não me lembro de todo de como consegui ultrapassar a propaganda monopolista da comunicação social, leia-se, jornais, porque, para o resto, leia-se, televisão, a banda desenhada não existe. (...)

DOMINGOS ISABELINHO, 10/12/2020

Comentários ao post por Daniel e pelo autor (DI):

O João Paiva Boléo não escrevia apenas sobre o que estava nas prateleiras. Na verdade, o pouco que ia sendo editado em Portugal era até sistematicamente ignorado em favor de edições estrangeiras (franco-belgas) que dificilmente poderiam chegar às mãos dos leitores, dados os preços proibitivos que a Destarte praticava, a falta de poder económico da maioria dos leitores e a falta de de informação de qualidade na imprensa. Como tal, nunca percebi o que andava o dito «crítico» a fazer no Expresso. Contudo, não há dúvida de que o decréscimo de qualidade em relação a Paulo Pereira foi evidente. Ainda assim, e se a memória não me atraiçoa (já me livrei desses recortes de jornal há bem mais de uma década) foi pela pena de João Paiva Boléo que tive conhecimento da existência de Baudoin. Mas também me recordo de que as suas sugestões para as leituras de Verão eram uma parada de horrores capazes de chocar até um ignorante como eu.

A minha primeira verdadeira abertura de horizontes deu-se com a requisição do catálogo da exposição «A Arquitectura na Banda Desenhada», da Gulbenkian, na biblioteca municipal de Coimbra.

A segunda deu-se com a descoberta do programa de João Miguel Lameiras e João Ramalho Santos na Rádio Universidade de Coimbra. Achei estranho o quão curto era o tempo de antena dedicado à BD europeia que ia aparecendo nas livrarias. Só então percebi que a BD americana não era apenas super-heróis e que os quiosques eram um circuito de distribuição que eu nunca deveria ter ignorado. Por outro lado, o técnico do programa, Amândio Duarte, que na altura trabalhava na Livraria Finisterra, teve a sensibilidade (além da paciência, disponibilidade, simpatia e uma excelente rede de contactos) para perceber que aquele chato que ia lá regularmente, mas raramente comprava livros, procurava na verdade algo de diferente. Foi ele que me pôs na mão o primeiro exemplar do Quadrado, e convenceu-mo a comprá-lo com a absoluta convicção de que aquele seria o meu ponto de partida.

Daniel, 13/12/2020

Obrigado pelo testemunho, Daniel! As nossas experiências são pessoais e intransmissíveis e essas são as suas.

Na verdade, como escrevi num dos primeiros posts desta série, fiquei a dever a João Paiva Boléo ter conhecido Manuel Caldas. Acho que ele é bem capaz de ter sido o responsável indirecto pela minha carreira de crítico. Fica aqui uma lista dos textos de J.P. Boléo sobre banda desenhada franco-belga entre 1989 e meados de 1993 (devia avançar pelo menos até 1997 para corresponder à time frame do post, e talvez o faça, mas, de momento é o que tenho): Hergé, 60 Anos (7/1/89), Hergé (16/6/89), Astérix (20/10/89), E. P. Jacobs (22/9/90), Brüsel (7/8/93). Como se vê, não foge ao infanto-juvenil franco-belga e tudo isto se podia encontrar facilmente em edições portuguesas.

Domingos Isabelinho, 13/12/2020

Creio que os exemplos que deu são artigos na Revista e tenho memória deles (e de mais alguns, incluindo um sobre banda desenhada japonesa, que foi a primeira coisa que li sobre o assunto).

Mas acho que me fiz entender mal. Concordo que a divulgação de João Paiva Boléo era quase sempre de banda desenhada comercial (e às vezes era mesmo da mais rasteira). O que afirmei em relação ao que ele escrevia sobre a banda desenhada estrangeira era uma ironia. As edições estrangeiras que divulgava eram, regra geral, tão fraquinhas como as portuguesas. Como tal, não havia qualquer motivo lógico para o fazer. E tenho em conta que raramente escrevia, a opção por edições que só meia dúzia de pessoas conhecia era, no mínimo, insólita. Pouco li o Público, mas pareceu-me que o Carlos Pessoa, cujos gostos seguiam a mesma veia, pelo menos tinha um plano de trabalho.

Daniel, 13/12/2020


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"Aristophane was a better artist than Jack Kirby, obviously. Joost Swarte is better than Hergé. (Domingos Isabelinho)

Nothing is obvious, ever, but, in this case, even less so. That is why I want to explain myself.

First of all I mean "artists" not "craftsmen." This is an important distinction and I bet that my scarce readers, enlightened as they are, misunderstood me. Anyway, what, in my humble opinion, did Aristophane and Joost Swarte do so well and what did Jack Kirby and Hergé do so poorly?

(...)

Georges Remi (Hergé), "Tintin au Congo" [Tintin in the Congo], le petit "Vingtième," November 20, 1930. A racist blackface minstrel character.

Georges Remi (Hergé), "Tintin en Amérique" [Tintin in America], le petit "Vingtième," September 29, 1932. Racist "yellow peril" characters.

Georges Remi (Hergé), "Le Lotus Bleu" [The Blue Lotus], le petit "Vingtième," December 6, 1934. A racist buck teeth, pig-nosed, Japanese character.

Georges Remi (Hergé), "L'étoile mystérieuse" [The Shooting Star], Le Soir [a Nazi newspaper in occupied Belgium!], November 19, 1941. Racist Anti-semitic characters while Jews were chased all over Europe.

Apart from these racist representations Hergé's world is Manichean and misogynous. In time he got fedup with these simplistic representations of the world and tried to be a gallery painter. Unfortunately for him, he also failed in the intent. He did not fail, however, in creating an industry and becoming a very wealthy man. That is the ultimate success story in our value free, anything goes to make a buck, Western World...

In spite of all this I have some fondness for his bourgeois play (theatre de boulevard), Les bijoux de la Castafiore (The Castafiore Emerald) and for some of his clever formal devices, but that's about it...

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