quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Tintin: Herói na Terra e na Lua

BANDA DESENHADA - VOLTA AO MUNDO COM SETE GRANDES VIAJANTES

Os heróis da banda desenhada estão entre os grandes viajantes do nosso tempo. Encontram-se em toda a parte, enfrentando desafi os e derrotando inimigos. Alguns, mais contemplativos, mostram que a aventura é uma experiência subjectiva que remete o leitor para o território do sonho ou da magia.

Siga Carlos Pessoa nesta longa viagem com sete heróis da BD

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TINTIN - HERÓI NA TERRA E NA LUA

As aventuras de Tintin começam num dia de Janeiro de 1929, quando apanha em Bruxelas o comboio para Moscovo. É, na altura, um jovem e desconhecido repórter ao serviço de um jornal católico belga. A viagem ao País dos Sovietes é uma frontal denúncia da “Rússia soviética” que termina com uma recepção apoteótica no regresso à Bélgica. Assim começava a carreira exemplar do herói fundador da moderna banda desenhada europeia.

Tintin é um jornalista que quase nunca é visto a escrever qualquer notícia ou artigo. De facto, ele nasceu para correr mundo e viver as aventuras às quais deve, passados mais de 80 anos, a sua própria imortalidade. Desde o primeiro instante está a seu lado Milu, um cão inteligente com qualidades que estão muito para além da sua mera condição animal – realista, corajoso e preocupado com o seu conforto, mas também combativo e bastante guloso. E encontra-se rodeado ao longo das aventuras por uma vastíssima lista de personagens, de onde se destaca o truculento Haddock, o distraído Tournesol, a inefável Castafiore e os indescritíveis Dupond e Dupont, entre tantos outros.

Depois de viajar para a União Soviética, o herói de Hergé deslocase ao Congo, à época uma colónia belga, e depois à América. E nunca mais pára ao longo de outras duas dezenas de aventuras através do Médio e Extremo Oriente, Balcãs, América do Sul, Ásia e mesmo... a Lua.

Sabemos, pelas palavras de Hergé a um admirador, como surgiu Tintin: “A ‘ideia’ da personagem e do tipo de aventuras que ele ia viver ocorreu-me, creio, em cinco minutos, no momento de esboçar pela primeira vez a silhueta desse herói: isso quer dizer que ele não tinha habitado os meus verdes anos, nem mesmo em sonhos.” A seguir vem a interpretação pessoal do acto criador: “É possível que eu me tenha imaginado, em criança, na pele de uma espécie de Tintin: nisso, mas apenas nisso, haveria uma cristalização de um sonho, sonho que é um pouco o de todas as crianças e não pertença em exclusivo do futuro Hergé.”

O contexto sócio-histórico em que nasce Tintin é mais fácil de enunciar. O padre Norbert Wallez, director do jornal belga Le Vingtième Siècle, encomenda ao seu jovem colaborador – Hergé tem então 22 anos e manifesta uma admiração pelo eclesiástico que se manteria pela vida fora – uma história que tivesse um adolescente e um cão. A ideia era transmitir valores católicos aos leitores, que se pretendiam educar no culto da virtude e do espírito missionário. O envio do jovem repórter à Rússia soviética, um reino “demoníaco” onde imperava a pobreza, a fome, o terror e a repressão, era uma solução que se adequava às mil maravilhas ao desejo do director padre.

Tintin revela-se inicialmente uma criatura dura, mesmo cruel e implacável. Mas com o passar dos anos e das histórias, conhece uma subtil metamorfose, dando lugar a um herói mais generoso e compassivo, disponível para defender os fracos e oprimidos.

Antes de Tintin, Hergé dera vida às aventuras de Totor, um escuteiro chefe de patrulha de quem o jovem repórter foi imaginado como um “irmão” mais pequeno. O autor veste-o com um fato de golfe apenas porque era uma indumentária que ele próprio gostava de utilizar com frequência. O resto é a expressão natural de um desejo de diferenciação das demais personagens conhecidas. Assim surge o topete, que se tornou numa imagem de marca do herói para sempre.

Carlos Pessoa, Fugas, Público, 19/03/2011

https://tintinemportugal.blogspot.com/2011/03/fugas-tintin-viajante.html

19-3-11

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