quinta-feira, 17 de maio de 2007

Arqueologias

Na última quadra natalícia dos anos 90 (enquanto esperávamos as primeiras novidades da década dos zeros) muito dinheiro foi gasto, como é hábito, em prendas que, mais do que reflectirem o real gosto dos consumidores, tinham uma qualidade simbólica. Só assim se justifica que um dos livros mais vendidos tenha sido “Tintim no país dos Sovietes”, o álbum com o qual Hergé iniciou a fabulosa carreira do seu repórter de poupa que nunca escreveu uma linha. Entendamo-nos. “Tintim no país dos Sovietes” é uma obra importante, a edição pela Verbo é um acontecimento a realçar, e o óbvio sucesso comercial do álbum só pode ser aplaudido. Mas é preciso não confundir esta obra inicial de Hergé com o seu trabalho posterior, pelo qual se tornou conhecido. Na verdade, “Tintim no país dos Sovietes” é uma mera curiosidade arqueológica que, tomada isoladamente, não ultrapassa uma confrangedora mediocridade. E ninguém estava mais consciente disto mesmo do que o próprio Hergé. O autor, não só nunca coloriu e refez esta obra (como aconteceu com as outras aventuras iniciais de “Tintim”), como durante muito tempo nem sequer permitiu a sua republicação. Aliás, o facto de a obra só ter estado disponível a partir de 1973, e depois, em 1981, numa excelente edição fac-similada, terá sem dúvida contribuído para a dimensão quase mítica que “Tintim no país dos Sovietes” alcançou.
Mas, apesar de tudo, é bom não esquecer que foi esta obra que abriu as portas a todas as restantes. E que na sua génese esteve, curiosamente, uma tentativa de usar a banda desenhada como um veículo de propaganda política, um modo eficaz de levar uma mensagem ao público mais jovem. No final dos anos 20 Hergé trabalhava no jornal conservador belga “XXème Siécle”. E “Tintim no país dos Sovietes” foi criado em 1929 para “Le Petit Vingtième, o suplemento infantil do jornal, por sugestão/encomenda do seu director, o abade Wallez. O objectivo era sobremaneira óbvio: denunciar a Revolução Bolchevista de um modo claro e directo, mas ao, mesmo tempo, apelativo.
Escrito sem um argumento prévio propriamente dito, “Tintim no país dos Sovietes” surge assim como um conjunto algo desgarrado de “gags” e aventuras onde vibra um anticomunismo primário. E que não conta sequer com o rigor documental que o autor revelaria posteriormente. Ou seja: falta quase tudo daquilo que caracterizaria (até à obsessão, em muitos casos) a elaborada construção de cada álbum de “Tintim”. É verdade que Hergé vai começar a tactear aqui a linguagem da BD, de que se tornaria um dos maiores expoentes. É também certo que a personagem evolui ao longo da obra. Mas, no seu todo, este é um álbum, não só fossilizado, como narrativa e artisticamente medíocre. O seu valor, certo e inquestionável, é arqueológico. Ler “Tintim no país dos Sovietes” como qualquer outro álbum de “Tintim” é pois, não só um erro, como injusto.
Após o primarismo (político e narrativo) desta primeira obra, Hergé ainda necessitaria de algum tempo para tornar mais equilibradas as suas visões do mundo. Porque a “Tintim no país dos Sovietes” se seguiriam o colonialismo paternalista de “Tintim no Congo”, ou o anti-americanismo de “Tintim na América”. E também não é verdade que “Tintim” se tenha deixado de comentários político-sociais depois disso, como a leitura atenta de qualquer das suas aventuras poderá confirmar. Mas, mais importante ainda, ao longo da sua brilhante carreira “Tintim” conseguiria o feito raro de cruzar uma mensagem humanista com o gosto pela descoberta e pela aventura, sem esquecer o humor. Criando uma das referências fundamentais do século. Por isso mesmo o seu início titubeante é apenas isso mesmo. Sendo uma das edições de banda desenhada mais importantes de 1999, será bom não nos esquecermos de contextualizar “Tintim no país dos Sovietes”. Até para não lhe pedirmos mais do que aquilo que pode dar.

“Tintim no país dos Sovietes”. Texto e desenhos de Hergé. Verbo. 140 pp. 2100$00.
 © 2000 Jornal de Letras/João Ramalho Santos